O CEO que Eu Paguei

285 Agora e Depois


A tarde acabou sendo exatamente aquilo que Helena tinha imaginado quando insistira que não queria suíte, motel ou qualquer outro desvio que Heitor tentasse inventar.

Leve.

Só os dois.

E o primeiro conflito aconteceu antes mesmo de entrarem na água.

A área principal da piscina se abria entre o prédio antigo e os jardins, cercada por pedra clara, vegetação muito bem cuidada e espreguiçadeiras distribuídas com espaço suficiente para que ninguém precisasse ouvir a conversa da mesa ao lado. Funcionários circulavam sem chamar atenção, recolhendo copos, trazendo bebidas e reorganizando toalhas.

Helena gostava especialmente disso no clube.

Tudo parecia disponível antes mesmo que alguém precisasse pedir.

Quando escolheram duas espreguiçadeiras, um funcionário já se aproximou com toalhas limpas. Havia também, em um móvel discreto próximo à área de apoio, diferentes protetores solares disponibilizados aos membros — corporal, facial, fatores diferentes, inclusive opções infantis.

Helena olhou para aquilo, depois olhou para Heitor.

Ele percebeu imediatamente.

— Não.

Ela nem tinha falado.

— Eu não disse nada.

— Mas olhou. — Heitor deixou os chinelos ao lado da espreguiçadeira. — E eu conheço esse olhar.

— Que olhar?

— O que vem antes de você mandar em mim.

Helena cruzou os braços.

— Passa protetor.

— Não.

— Heitor.

— Helê, eu odeio essa merda.

Ela começou a sorrir.

— Que argumento adulto.

— Fica grudando na pele.

Ele passou a palma pelo próprio braço, como se apenas imaginar já fosse desagradável.

— Aí entra na piscina, sai da piscina, continua sentindo aquilo. Gruda areia, gruda toalha...

— Não tem areia aqui.

— Gruda alguma coisa.

— O quê?

Heitor olhou ao redor.

— Não sei. Mas gruda.

Helena riu.

Era impressionante.

O homem tinha saído cedo de casa num sábado porque precisava ir à Monteiro Inc. resolver alinhamentos antes de parte da equipe viajar para Miami. Passara a manhã entrando e saindo de reunião, tinha acabado de lhe contar no almoço sobre assuntos que envolviam decisões enormes de obra, operação e dinheiro.

Agora estava diante dela defendendo seriamente que não passaria protetor solar porque grudava.

— Você tem quarenta anos.

— E experiência suficiente para saber do que eu não gosto.

— Também tem experiência suficiente para lembrar da última vez que resolveu não passar.

Heitor ficou quieto.

Helena levantou as sobrancelhas.

— Lembra?

Ele desviou os olhos.

Aquilo bastou.

— Lembra, né?

— Lembro.

— Ficou todo queimado.

— Não fiquei todo queimado.

— Heitor.

— Foi mais aqui.

Ele apontou para o peito e os ombros.

Helena ficou encarando.

Heitor soltou o ar.

— E as costas.

— E os braços.

— Um pouco…

— Você reclamou para dormir.

— Eu não reclamei.

Helena abriu a boca, incrédula.

— Você não conseguia encostar as costas na cama!

— Aquilo realmente estava ruim.

— Eu sei. Eu estava lá.

A resistência dele diminuiu visivelmente.

Heitor olhou para os frascos oferecidos pelo clube. Depois para Helena.

— Foi uma merda.

Ela quase riu da sinceridade tardia.

— Foi.

Ele passou a mão pela barba.

— Doeu pra caralho.

— Foi o que eu disse.

— Você não precisa ficar feliz.

— Eu não estou feliz. Estou certa.

— Que é muito pior.

Helena sorriu e pegou um dos protetores corporais.

Estendeu para ele.

— Vai.

Heitor olhou para o frasco.

— Você passa.

Helena arqueou uma sobrancelha.

— Ah, agora pode?

— Se é para passar, pelo menos eu ganho alguma coisa.

— Você é inacreditável. — mesmo assim, colocou um pouco do produto na mão. — Vira.

Heitor virou de costas.

Helena começou pelos ombros e imediatamente percebeu que aquilo talvez não tivesse sido a decisão mais inteligente do mundo.

Espalhou o protetor pela pele quente, primeiro sobre o ombro esquerdo, depois sobre o direito. Os dedos passaram pela cicatriz sem a hesitação que teriam tido meses antes. A marca continuava ali, mais clara que a pele ao redor, atravessando parte daquele ombro que agora se movimentava normalmente.

Ainda havia momentos em que Helena olhava para ela e lembrava. Mas não queria que aquela cicatriz transformasse o corpo de Heitor para sempre em alguma coisa que precisasse ser tocada com cuidado.

Passou a palma por cima dela como passava pelo restante da pele.

Heitor virou ligeiramente o rosto.

Não disse nada.

Helena também não.

Continuou.

Espalhou o produto pelas costas largas, descendo até onde começava o cós do calção. Depois braços, nuca, parte de trás das orelhas.

— Pronto.

Heitor se virou.

— Frente.

— Você consegue fazer sozinho.

— Você começou o serviço.

— Serviço?

— Atendimento excelente.

Helena apertou os olhos.

— Vou cobrar.

— Pode colocar na minha pulseira.

Ela riu.

Passou mais protetor nas mãos.

O peito dele estava quente sob seus dedos.

E Heitor percebeu muito rapidamente que tinha encontrado uma vantagem naquela história.

— Acho que faltou aqui.

— Não faltou.

— Tem certeza?

— Absoluta.

— Aqui também.

— Heitor!

— Estou tentando colaborar.

— Você está tentando fazer eu passar a mão em você.

O sorriso apareceu devagar.

— Está funcionando.

Helena deu um tapinha no peito dele.

— Acabou.

— Seu atendimento caiu muito no final.

— Reclama na recepção.

Ele segurou o pulso dela antes que se afastasse e beijou a parte interna.

— Minha vez.

Helena deveria ter dito não.

Não disse.

Virou-se.

Heitor começou pelos ombros dela.

No início, comportou-se surpreendentemente bem. Espalhou o protetor com as duas mãos, cobrindo os ombros, os braços e as costas. As mãos grandes deslizavam pela pele devagar, mas ainda dentro de uma velocidade que Helena poderia considerar razoável.

Até chegarem à cintura.

Ali, a eficiência despencou.

— Heitor?

— Hum?

As mãos continuaram passando pelas laterais de sua cintura.

— Já tem protetor aí.

— Estou espalhando.

— Há uns três minutos?

— Quero fazer direito.

Helena olhou por cima do ombro.

Os olhos azuis estavam concentrados demais na tarefa.

— Sei.

Ele sorriu.

Desceu para as pernas.

Helena apoiou uma mão na espreguiçadeira enquanto Heitor espalhava o produto por uma coxa. Depois pela outra e demorava. Muito.

— Amor.

— Oi.

— É protetor solar.

— Eu sei.

— Não massagem.

— O clube oferece massagem depois.

— Então guarda seu talento para lá.

Heitor riu baixo.

A mão subiu novamente pela lateral de sua coxa.

Helena sentiu um arrepio.

— Heitor…

— Estou terminando.

— Você terminou essa perna duas vezes.

— Essa é a terceira demão.

Ela começou a rir.

— Me dá isso.

Virou-se para pegar o frasco.

Foi quando percebeu a mudança na expressão dele. Heitor ficou imóvel por um segundo.

Os olhos dela desceram e depois se fecharam brevemente ao perceber o motivo dele não mudar de posição.

— Ah.

Helena precisou morder o interior da bochecha.

Ele abriu os olhos.

— Não.

— Eu não falei nada.

— Nem fala.

Heitor entregou o protetor para ela e olhou ao redor.

Havia gente circulando mais adiante.

Uma família ocupava algumas espreguiçadeiras próximas. Um casal conversava perto da piscina. Um funcionário passava com uma bandeja.

Heitor puxou uma toalha e caminhou até uma espreguiçadeira posicionada de maneira mais discreta, virada para o jardim em vez da circulação.

Sentou.

Helena ficou parada. Então olhou para ele. Para a maneira como estava sentado. Para a toalha convenientemente posicionada sobre parte do colo e começou a rir.

— Helena!

— Desculpa.

— Não está desculpada.

Ela foi até ele.

Heitor estava vermelho, não muito. Mas estava. Principalmente nas orelhas.

Helena achou aquilo delicioso.

— Amor...

— Não começa.

Ela parou atrás da espreguiçadeira e colocou as duas mãos sobre os ombros dele.

— Eu só vim ver se você está bem.

— Estou ótimo.

Helena inclinou o corpo. Os seios encostaram nas costas nuas dele.

Heitor parou de respirar por um instante. Ela precisou esconder o sorriso contra o ombro dele.

— Helena!

— Oi?

— Você está fazendo de propósito.

— Fazendo o quê?

Ela se apoiou um pouco mais. Heitor soltou o ar lentamente.

— Porra.

Helena beijou a lateral do ombro dele. Bem perto da cicatriz.

— Está passando mal?

Ele virou o rosto. Os olhos azuis encontraram os dela.

— Você quer muito ir para aquela suíte, não quer?

— Não.

— Está trabalhando duro para isso.

Helena riu.

Encostou o queixo no ombro dele.

— Você ficou vermelho.

— Está quente.

— Suas orelhas também estão com calor?

— Vai buscar alguma coisa para a gente beber.

Ela arregalou os olhos.

— Está me expulsando?

— Estou tentando preservar o resto da minha dignidade.

Helena começou a rir.

— Quer o quê?

— Qualquer coisa gelada.

— Suco?

— Perfeito.

Ela não saiu. Continuou apoiada nele.

Heitor fechou os olhos.

— Helê.

— Hum?

— Suco.

— Tá bom… tá bom…

Ela beijou a bochecha dele.

— Já volto.

Heitor segurou rapidamente sua mão antes que ela se afastasse.

— Sem pressa.

Helena gargalhou.

— Coitado.

— Vai.

Ela saiu ainda rindo.

Nem precisou ir muito longe. Um funcionário se aproximou quando percebeu que ela procurava alguma coisa e explicou as opções disponíveis. Helena pediu um suco grande para dividirem e, enquanto esperava, olhou discretamente para trás.

Heitor continuava sentado de costas para a maior parte da piscina.

A toalha ainda estrategicamente colocada.

Helena teve vontade de tirar uma foto.

Quando voltou, Heitor já tinha recuperado a compostura.

Estava de pé ao lado das espreguiçadeiras, toalha agora jogada displicentemente sobre um ombro, óculos escuros no rosto.

Como se absolutamente nada tivesse acontecido.

Helena se aproximou com o copo grande e dois canudos.

— Melhor?

Heitor pegou um dos canudos.

— Não sei do que você está falando.

— Claro.

— Passei protetor. Foi isso.

— Uma experiência traumática.

— Horrível.

Helena colocou o outro canudo na boca.

Os dois beberam ao mesmo tempo.

Heitor olhou para ela por cima dos óculos.

— Você está muito satisfeita consigo mesma.

— Bastante.

— Percebi.

Helena sorriu.

— Pelo menos não vai ficar queimado.

Heitor fez uma careta.

— Pensando por esse lado...

— Eu sempre tenho razão.

— Não exagera tanto assim.

Ela riu.

Heitor passou o braço pelos ombros dela e começou a conduzi-la em direção à piscina.

— Vem.

— Para onde?

— Água.

— Finalmente.

— Preciso esfriar.

Helena virou o rosto para ele.

Heitor continuou olhando para a frente.

Ela começou a rir de novo.

— Não fala.

— Eu não falei nada.

— Mas eu já conheço essa risada.

Helena passou o braço ao redor da cintura dele.

— Eu amo você.

— Hoje está difícil acreditar.

— Amo sim.

Heitor abaixou o rosto e beijou o alto da cabeça dela.

— Eu também amo você.

Helena deu uma cotovelada leve nele.

Heitor riu e seguiram juntos para a piscina.

A água foi o primeiro lugar naquela tarde em que Helena sentiu que Heitor finalmente tinha saído da empresa.

Não fisicamente. Isso acontecera horas antes, quando ele descera para encontrá-la na porta da Monteiro Inc., ainda de camisa social e com a cabeça cheia dos alinhamentos daquela manhã. Tinham almoçado, dirigido até o clube, trocado provocações no carro, ele já estava de calção havia um bom tempo e, mesmo assim, alguma coisa nele ainda parecia conservar o ritmo das horas anteriores. Como se uma parte do corpo tivesse ido embora do escritório, mas a cabeça ainda estivesse terminando uma reunião.

Na piscina, aquilo desapareceu.

Helena entrou primeiro. A água fresca subiu devagar por suas pernas até alcançar a cintura, agradável contra a pele aquecida pelo sol. Mais adiante, a piscina se alargava acompanhando o desenho dos jardins; a pedra clara da borda quase desaparecia entre vasos, folhagens e pequenas áreas de sombra. Havia gente suficiente para dar vida ao lugar, mas não tanta que o ambiente perdesse a tranquilidade. Vozes chegavam baixas, misturadas ao som constante da água.

Ela prendeu o cabelo com as duas mãos e procurou Heitor por cima do ombro.

Ele não estava atrás dela.

Tinha parado na borda.

As mãos estavam na cintura, os pés afastados e havia no rosto dele uma animação suspeita.

Helena já conhecia aquela expressão.

— Nem pensa.

Heitor ergueu as sobrancelhas.

— Eu não falei nada.

— Não precisa.

O sorriso veio.

Ele recuou um passo.

— Vai um pouco para o lado.

— Heitor...

Mais outro passo. Helena começou a rir.

— Você vai molhar todo mundo.

— A piscina serve para isso.

— As pessoas não.

— Então vai mais para o lado possível.

Ela olhou ao redor, ainda rindo, e se afastou alguns passos.

— Pronto. Pode fazer seu show.

Heitor apontou para ela.

— Olha.

— Eu estou olhando.

— Olha bem.

Aquilo a fez rir ainda mais. Helena cruzou os braços.

— Vai.

Heitor correu.

O impacto levantou tanta água que ela virou o rosto e protegeu os olhos com o antebraço. Ouviu uma reclamação divertida de algum lugar mais longe e, quando tornou a olhar, encontrou Heitor emergindo alguns metros adiante.

Passou as duas mãos pelos cabelos, jogando-os para trás.

A primeira coisa que fez foi procurar por ela.

— E aí?

Helena apertou os lábios.

— E aí o quê?

— Você viu.

Não conseguiu segurar.

— Vi.

— Foi bom.

Não era pergunta.

Helena deixou os olhos passearem por ele por um instante. A água escorria pelos ombros largos e acompanhava o peito antes de desaparecer novamente na piscina. O cabelo, que ainda guardava algum vestígio do arranjo daquela manhã, agora estava completamente bagunçado.

Bonito daquele jeito irritante que fazia qualquer tentativa de implicância perder um pouco da força.

Ela não lhe daria essa satisfação.

— Foi um pulo.

Heitor ficou parado.

— Um pulo?

— Uhum.

— Só isso?

— Você queria o quê? Nota artística?

— Quero.

Helena fingiu considerar.

— Seis.

A expressão dele mudou imediatamente.

— Seis???

Ela começou a recuar dentro da água.

— Talvez seis e meio pela empolgação.

— Não, não.

— O quê?

Heitor avançou.

— Volta aqui.

Helena deu mais um passo para trás.

— Você pediu a nota.

— E você abusou da oportunidade.

— Aceita a crítica.

— Seis é desrespeito.

Ela virou e tentou nadar.

O erro foi acreditar, ainda que por poucos segundos, que existia alguma chance de fugir dele dentro d'água.

Mal tinha avançado quando sentiu o braço de Heitor passar por sua cintura. O corpo foi puxado para trás e Helena soltou um grito entrecortado por uma gargalhada.

— Não! Heitor!

Ele a levantou.

— Corrige.

Helena agarrou os ombros dele.

— Me põe no chão.

— Aqui não tem chão para mim.

— Tem para mim!

— Nota.

— Sete.

Heitor afrouxou os braços como se fosse soltá-la.

— Nove!

— Melhorou.

— Nove e meio.

— Continua.

Helena já mal conseguia falar de tanto rir.

— Dez!

Heitor abriu um sorriso satisfeito.

— Viu como não era difícil?

Ele a colocou novamente na água.

Helena recuperou o equilíbrio e imediatamente jogou as duas mãos contra a superfície, lançando água no rosto dele.

Heitor fechou os olhos.

Ficou parado por um segundo.

— Ah.

Helena jogou de novo.

— Isso é pela extorsão.

Ele limpou o rosto com uma das mãos.

— Você quer mesmo começar isso?

— Já comecei.

Foi o bastante.

Heitor devolveu.

Helena gritou, tentou proteger o rosto, atacou outra vez. Em segundos, os dois estavam numa disputa completamente sem sentido que só terminou quando ela tentou empurrá-lo para baixo e descobriu que era praticamente impossível afundar um homem daquele tamanho contra a vontade dele.

Apoiou as duas mãos nos ombros dele e fez força.

Nada.

— Vai, se mexe!

Heitor sequer parecia se esforçar para permanecer onde estava.

— Estou esperando.

— Para de resistir.

— Você quer que eu colabore para você me afogar?

— Quero.

— Não parece uma relação saudável.

Helena fez mais força. Ele não desceu um centímetro.

— Que ódio.

— Quer ajuda?

Ela parou.

— Para quê?

— Para me afundar.

Helena olhou para ele, ofendida.

Heitor começou a rir.

Ela se jogou sobre ele outra vez e, dessa vez, Heitor a segurou pela cintura, puxando-a contra o próprio corpo antes que conseguisse qualquer coisa.

— Você é muito grande. Isso não é justo.

— Reclama com a genética.

— Vou reclamar com a Celina.

— Minha mãe vai ficar feliz. Sempre gostou quando elogiam o filho.

— Não foi elogio.

— Eu recebi como um.

Helena ainda sorria quando passou os braços pelo pescoço dele.

Ficaram próximos por um instante, os corpos muito mais leves dentro da água. Heitor tirou uma mecha molhada do rosto dela.

— Está se divertindo?

A pergunta veio sem brincadeira.

Helena olhou para ele e percebeu que estava.

— Estou.

Heitor sorriu. Não o sorriso largo de segundos antes. Aquele menor, satisfeito.

— Eu também.

Helena o beijou. Foi rápido, porque ainda estava sorrindo. Quando se afastou, Heitor encostou a testa na dela.

— Quer ver outra coisa?

Ela desconfiou imediatamente.

— Depende.

— Vou até o outro lado.

Heitor se afastou.

Helena ficou perto da borda, observando.

Já o tinha visto nadar antes, mas havia alguma coisa quase engraçada na naturalidade com que ele se movia na água. Os braços longos cortavam a superfície em movimentos seguros, o corpo grande parecia perder peso, e em poucos instantes ele estava muito mais longe.

Quando voltou, Helena o esperava com uma expressão que ele identificou imediatamente.

— O quê?

— Nada.

— Fala.

— Você fica se exibindo.

— Eu estava nadando.

— Você olhou para mim duas vezes para ver se eu estava vendo.

Heitor passou a mão pelo cabelo.

— Mentira.

— Duas vezes.

— Uma.

Helena apontou para ele.

— Então admite!

Ele riu.

— Pô, você é minha noiva. Se eu não puder me exibir para você, vou me exibir para quem?

A resposta saiu com tanta naturalidade que Helena perdeu a réplica.

Heitor percebeu.

Aproximou-se.

— Gostou?

Ela sustentou o olhar dele por alguns segundos.

— Gostei.

O sorriso voltou imediatamente. Helena balançou a cabeça.

— Você é muito fácil.

— Para você? Pra caralho.

Aquilo ela não conseguiu transformar em piada. Apenas sorriu. Depois de mais algum tempo, foi Helena quem apontou para a borda.

— Quero pular.

Heitor olhou para ela.

— Agora quer.

— Quero.

— Interessante.

— Sem comentário.

Subiram.

Helena ficou na borda ao lado dele e segurou sua mão.

A diferença entre as duas parecia ainda maior assim. Os dedos de Heitor fecharam-se ao redor dos seus.

— No três — ela disse.

— Espera.

— O quê?

Heitor olhou para baixo.

— Não solta minha mão.

Helena sorriu.

— Não vou soltar.

— Um.

Ela apertou os dedos dele.

— Dois.

Os dois se olharam.

— Três.

Pularam juntos.

Helena entrou na água ainda segurando sua mão.

Quando emergiu, estava rindo antes mesmo de abrir os olhos. Heitor apareceu ao lado, puxou-a pela mão e ela veio contra ele.

— Melhor que o seu — disse.

— Você está obcecada em me diminuir hoje.

— É meu papel manter você humilde.

— Trabalho impossível.

Ela concordou com a cabeça.

— Realmente.

A tarde foi perdendo a forma depois disso. Helena não soube dizer quanto tempo passaram na água. Era justamente o que queria.

Não precisavam estar em lugar nenhum.

Não havia horário para buscar Humberto — Celina e Renato ficariam com ele até quando precisassem —, não havia reunião esperando Heitor do outro lado de uma porta, nem alguém chamando Helena para resolver alguma coisa.

Saíram quando o corpo pediu descanso.

As toalhas que o clube disponibilizava estavam dobradas sob a sombra, ainda macias e quentes do ar. Helena se secou e se estendeu numa das espreguiçadeiras. Heitor ocupou a outra, ao lado.

Por alguns minutos, o mundo pareceu se reduzir ao calor do sol sobre a pele e ao ruído distante da piscina.

Helena virou o rosto.

Heitor estava de olhos fechados.

Molhado, parecia ainda maior contra a toalha branca. Uma gota permanecia presa na linha da barba. O peito subia devagar, finalmente sem a tensão que ela percebera nele desde cedo.

Seu olhar passou por ele e parou perto da cintura, as letras que apareciam acima do calção.

A caligrafia dele e a dela.

Helena.

Era curioso.

Conhecia aquele corpo intimamente. Sabia onde Heitor tinha uma pequena pinta, onde era mais sensível, de que lado preferia dormir, quais músculos ficavam doloridos depois de determinado treino. Tinha acompanhado mudanças muito menos bonitas do que aquela tatuagem. Curativos, hematomas, pontos e dor.

E ainda conseguia ficar olhando para ele como se houvesse alguma coisa nova para descobrir.

— Pode tirar uma foto.

Helena piscou. Heitor continuava de olhos fechados.

— Eu não estava olhando.

— Estava.

— Como sabe?

Um canto da boca dele levantou.

— Você fica quieta demais.

Helena virou o corpo de lado.

— Convencido.

Ele abriu os olhos. O azul pareceu quase claro demais sob o sol.

— Estava olhando o quê?

Helena não teve motivo para mentir.

— Você.

Heitor esperou.

— E?

Ela deixou o olhar descer novamente, dessa vez sabendo que ele acompanhava.

— Você está muito bonito.

Por uma vez, Heitor não respondeu imediatamente com uma provocação.

O sorriso mudou. Quase exibido, mas também genuinamente satisfeito por ter vindo dela.

— Obrigado.

Helena estendeu a mão no espaço entre as espreguiçadeiras.

Ele a pegou.

— Só isso?

— Quer que eu faça o quê?

— Normalmente você fala que eu sou gostosa.

Heitor soltou uma risada.

— Você é muito gostosa.

— Agora perdeu a validade.

— Por quê?

— Eu pedi.

— Quer uma análise espontânea?

— Quero.

Heitor virou o rosto para observá-la e observou de verdade.

Sem pressa.

O olhar começou no rosto e desceu.

Helena sentiu o calor aparecer antes mesmo de ele falar.

— Melhor eu ficar quieto.

— Por quê?

— Porque já tive um problema hoje por sua causa e tem gente em volta.

Ela mordeu o sorriso.

— Prudente.

— Estou aprendendo.

Heitor levou a mão dela à boca e beijou seus dedos. Depois fechou os olhos novamente.

Não soltou.

Ficaram assim, de mãos dadas entre as duas espreguiçadeiras, até Helena perder a noção de quanto tempo havia passado.

Mais tarde, foram para uma piscina menor, escondida por uma parte mais fechada do jardim.

Ali o barulho da área principal quase desaparecia.

A água estava mais morna. Havia um casal distante quando chegaram, mas os dois saíram pouco depois, deixando para trás uma quietude que pareceu mudar imediatamente a intenção de Heitor.

Helena percebeu antes mesmo de ele chegar perto. Estava apoiada na borda quando ele parou diante dela.

Não disse nada.

Apenas colocou as mãos em sua cintura.

Helena sorriu.

— Você fica muito previsível.

— Você não reclamou ainda.

— Não reclamei.

As mãos deslizaram pelas costas dela dentro da água.

Helena passou os braços pelo pescoço dele.

O beijo veio sem nenhuma da pressa das brincadeiras anteriores. Ela sentiu a barba roçar seu rosto quando mudou o ângulo, os dedos de Heitor abrirem-se em sua lombar e a pressão tranquila com que ele a aproximou.

Quando se afastaram, Helena não foi longe.

Beijou o maxilar dele. Depois passou os dedos pela barba.

— Gosto assim.

— Eu sei.

— Você sabe tudo.

— Sobre você gostar de mim, sei bastante.

Helena passou os dedos pela nuca curta do degradê e subiu até os cabelos.

Heitor fechou os olhos por um instante.

Aquilo a fez sorrir.

— E eu também sei algumas coisas.

— Percebi.

Ela repetiu o movimento. Dessa vez ele segurou seu pulso e beijou a palma.

— Está querendo começar de novo.

— Eu não estou fazendo nada.

Heitor abriu os olhos.

— Você é péssima mentindo.

Helena aproximou a boca da dele.

— Então não pergunta.

Beijou-o outra vez.

Ali, a provocação encontrou espaço.

Não precisava ir além.

Bastava o jeito como Heitor a segurava, como o corpo dele respondia à proximidade e como fazia questão de deixá-la perceber que respondia.

Helena percebeu e, quando o sorriso apareceu, Heitor já sabia exatamente o motivo.

— Nem começa.

— Eu não falei nada.

— Sua cara falou.

— De novo?

Heitor soltou uma risada curta.

— Você está muito orgulhosa de si mesma hoje.

— Talvez.

— Isso nunca passou direito desde o protetor.

Helena riu contra a boca dele.

— Mentiroso.

— Quer conferir?

Ela arregalou os olhos, divertida.

— Heitor!

Ele começou a rir. Helena bateu em seu peito.

— Sem-vergonha.

— Você perguntou.

— Não perguntei isso.

— Foi praticamente uma pergunta técnica.

— Você é impossível.

— E você está aqui.

Helena o beijou para fazê-lo parar de falar. Funcionou por alguns segundos. Depois Heitor encostou a boca perto de seu ouvido.

— Hoje você vai me pagar.

Ela sentiu o arrepio antes de responder.

— Você está me ameaçando?

— Prometendo.

Helena afastou o rosto só o suficiente para encontrá-lo. Os olhos azuis estavam mais escuros à sombra.

Ela sorriu.

— Depois.

Uma única palavra foi suficiente. A expressão dele mudou.

Helena adorou.

— Depois? — ele repetiu.

— Depois.

— Posso ter isso por escrito?

Ela começou a rir.

— Não abusa.

Heitor a puxou contra o peito.

— Agora meu dia melhorou muito.

— Achei que já estava bom.

— Ficou excelente.

Helena ficou abraçada a ele, ainda sorrindo e foi só isso.

Beijos.

Mãos preguiçosas sobre a pele.

Provocações.

O prazer simples de saber que podiam parar ali porque não precisavam correr para lugar nenhum.

Foi Helena quem lembrou das fotos.

— A gente não tirou nenhuma direito.

— Tiramos.

— A sua fazendo aquela cara horrível não conta.

— Aquela você vai apagar.

— Nunca.

Heitor aproximou o rosto enquanto ela abria a câmera.

A primeira saiu com os dois sorrindo. Na segunda, ele virou no último segundo e beijou sua bochecha. Na terceira, Helena estava olhando para ele em vez da câmera.

Foi a que ela mais gostou.

— Essa — Heitor disse.

— Também gostei.

— Me manda.

Helena enviou.

Depois olhou para o horário e imediatamente pensou em Humberto.

Não precisou dizer.

— Liga — Heitor falou.

Ela olhou para ele.

— Eu nem falei nada.

— Sua cara falou.

Helena abriu a chamada para Celina. A sogra atendeu rapidamente.

— Finalmente lembraram que têm filho?

— Eu estava justamente ligando para ele.

Heitor começou a rir ao lado dela.

A imagem virou.

Renato estava sentado no tapete, com Humberto apoiado entre suas pernas. Havia brinquedos espalhados ao redor, mas o bebê parecia muito mais interessado no relógio do avô.

— Olha quem está aqui — Celina chamou.

Humberto levantou o rosto.

Helena sentiu o sorriso nascer antes mesmo que ele reconhecesse a tela.

— Oi, meu amor!

Os olhos do bebê se arregalaram.

A boca abriu.

— Aguuu… guuu!

— Oi!

Humberto movimentou as pernas e bateu uma das mãos na coxa de Renato.

Heitor se aproximou tanto que metade do rosto entrou na tela.

— Fala com o papai.

Humberto abriu um sorriso.

Heitor apontou imediatamente.

— Viu?

Helena riu.

— Vi.

— Foi pra mim.

— Foi para nós.

— Não. Ele olhou para mim.

— Você está ocupando a tela inteira.

Renato olhou para o celular.

— Ele estava sorrindo antes de vocês ligarem.

Heitor ficou indignado.

— Pô, pai.

— O quê?

— Deixa eu ter meu momento.

Helena gargalhou. Humberto respondeu ao som com outro balbucio e Heitor ficou ainda mais satisfeito. Ficaram ali por alguns minutos, perguntando o que Humberto tinha feito, se tinha mamado bem, se dormira.

Celina respondeu até perder a paciência.

— Ele está ótimo. Agora vão aproveitar.

— Se acontecer qualquer coisa...

— Eu sei ligar para você, Helena.

— Qualquer coisa mesmo.

— Eu criei o homem que está do seu lado.

Helena olhou para Heitor. Ele levantou uma sobrancelha.

— Argumento questionável — ela disse.

Celina soltou uma risada. Helena mandou mais um beijo para Humberto antes de encerrar.

Ficou olhando para a tela apagada por um instante.

— Estou com saudade.

Heitor beijou sua têmpora.

— Eu também.

Ao longo da tarde, Heitor foi sendo parado algumas vezes.

Nada excessivo.

Um cumprimento aqui, outro ali. Mas Helena começou a perceber que o clube guardava uma versão dele que existia muito antes de ela aparecer.

Pessoas que conheciam seus pais. Homens com quem estudara. Famílias que pareciam ter atravessado as mesmas festas, os mesmos verões, os mesmos eventos durante décadas.

Com alguns, Heitor ficava alguns minutos conversando. Com outros, bastava um aperto de mão e duas frases. E, sempre que Helena ainda não conhecia alguém, a apresentação vinha acompanhada da mão dele em sua cintura.

— Minha noiva, Helena.

Sem título.

Sem explicar quem ela era profissionalmente.

Sem acrescentar que era mãe do filho dele como se precisasse justificar sua presença.

Minha noiva, Helena.

Uma senhora que devia ter idade próxima à de Celina segurou as duas mãos dela.

— Finalmente.

Helena sorriu.

— Finalmente?

— Celina fala tanto de você que parece que já nos conhecemos.

Helena sentiu o rosto aquecer.

— Espero que fale bem.

— Ela é completamente apaixonada por você.

Heitor, ao lado, sorriu.

— Minha mãe roubou minha noiva.

— Para — Helena murmurou.

A senhora riu.

— Ela ganhou uma filha.

Aquilo atingiu Helena num lugar inesperado.

Não doeu. Foi justamente o contrário.

Antes que precisasse responder, sentiu a mão de Heitor deslizar um pouco por suas costas.

Não apertou. Não chamou atenção.

Só ficou ali.

Helena encostou discretamente o braço no dele.

Quando saíram, o dia já tinha começado a perder o calor mais duro.

O clube parecia diferente no fim da tarde.

As sombras dos jardins tinham se alongado sobre a pedra e a luz dourada alcançava as fachadas antigas, acentuando relevos, colunas e detalhes que Helena mal percebera quando chegaram.

Encontraram um lugar mais reservado de onde podiam acompanhar o pôr do sol.

Heitor vestira uma camisa leve por cima do calção, mas não fechara os botões. Helena colocou a saída de praia e sentou ao lado dele num sofá largo.

Ao lado durou pouco.Alguns minutos depois, já estava encaixada contra seu corpo, com as pernas sobre as dele. Heitor tinha um braço ao redor de sua cintura. Com a outra mão, mexia distraidamente nos dedos dela.

Nenhum dos dois falou por algum tempo. Helena gostou do silêncio. Depois de tantas horas ouvindo a risada dele, provocando, nadando e conversando com gente, o silêncio não parecia vazio.

Parecia descanso.

— Era disso que eu estava falando — disse.

Heitor olhou para ela.

— Quando?

— Quando não quis ir para a suíte.

Um sorriso apareceu.

— Ainda dá tempo.

Helena deu um tapa leve em sua barriga.

— Não estraga.

— Desculpa.

Ela tornou a olhar para o horizonte.

— Eu queria hoje.

Heitor esperou.

Helena procurou a maneira certa de explicar.

— Não porque a gente não fica junto em casa. A gente fica. Muito.

— Bastante.

— Heitor.

— Parei.

Ela sorriu.

— Mas em casa sempre tem alguma coisa acontecendo. Humberto. Trabalho. Telefone. Alguém chegando. Alguma coisa que precisa ser resolvida.

Heitor ficou quieto.

— Fazia tempo que a gente não passava horas assim — ela continuou. — Sem estar tentando consertar alguma coisa.

A mão dele apertou a dela.

— Eu senti falta também.

Helena virou o rosto. Não havia brincadeira nele agora.

— Então a gente precisa fazer mais.

— Precisamos mesmo.

— Mesmo depois que eu voltar a trabalhar.

— Principalmente.

— Mesmo depois do casamento.

Heitor franziu a testa.

— Por que depois do casamento seria diferente?

Helena deu de ombros.

— As pessoas acomodam.

— A gente já mora junto, tem um filho e discute por protetor solar. O casamento não vai inaugurar rotina nenhuma.

Ela riu.

— Verdade.

— Mas eu entendi. — ele levou os dedos dela à boca e beijou-os. — Não quero parar de sair com você.

Helena sorriu.

— Nem eu.

— E não quero que todo assunto nosso seja sobre o Humberto.

— A gente passou metade da chamada de vídeo discutindo para quem ele sorriu.

— Aquilo era importante.

— Claro.

— E foi para mim.

Helena riu e Heitor também.

Depois o silêncio voltou. Dessa vez foi Helena quem quebrou.

— A conversa com o Otávio me ajudou.

Heitor soltou um suspiro.

— Lá vem esse homem de novo no meu encontro.

— Para! — ela apertou os dedos dele. — Não foi pelo que ele acha que eu devo fazer. Ele nem tentou dizer.

— Melhor para ele.

Helena lançou um olhar. Heitor fez um gesto para que continuasse.

— Foi perceber por que ele escolheu do jeito que escolheu.

Ela contou o que ainda não tinha contado.

Que, quando a filha nasceu, Otávio praticamente não participara da triagem. A mãe, os sogros, a irmã, outras pessoas da família tinham feito boa parte daquele trabalho. Quando os currículos chegaram até ele, já estavam filtrados e ele escolheu ali, sem entrevista.

— Ele foi pela experiência — Helena concluiu. — Pelo currículo mais completo.

Heitor assentiu devagar.

— Faz sentido.

— Faz. Principalmente para ele, naquela época.

Helena ficou alguns segundos mexendo distraidamente nos dedos entrelaçados aos seus. A conversa com Otávio continuava voltando à sua cabeça não pelas respostas que ele tinha dado, mas pelo quanto a situação dele explicava aquelas respostas.

Ele não procurara desenvolvimento infantil, afinidade de personalidade ou alguém que combinasse com a maneira como imaginava criar a filha. Não tinha estado em condições de pensar daquela forma. Tinha uma recém-nascida, uma família devastada e nenhuma ideia de como cuidar de um bebê sozinho.

Precisara de experiência.

De gente que chegasse sabendo fazer o que ele não sabia.

Helena respirou fundo.

— Acho que finalmente entendi uma coisa sobre a Lívia.

Heitor virou o rosto para ela. Não perguntou. Esperou.

— Eu não vou escolher ela.

Dizer em voz alta teve um efeito estranho.

Não parecia exatamente alívio. Parecia a primeira porta que Helena conseguira fechar desde que começara aquela seleção.

Heitor continuou olhando para ela.

— Tem certeza?

Helena demorou antes de assentir.

— Tenho. — olhou para o horizonte outra vez. — Eu gostei muito dela. Muito mesmo.

— Eu sei.

— E continuo achando que ela seria maravilhosa com o Humberto. — fez uma pequena pausa. — Mas talvez não agora.

Heitor passou o polegar lentamente sobre os dedos dela. Helena procurou organizar o que vinha sentindo desde o dia do teste.

— Quando penso na Lívia, penso em tudo que ela poderia acrescentar para ele. As atividades, a forma como observa, o inglês mais para frente, o jeito que pensa desenvolvimento... Eu gostei de ver ela com ele porque parecia que estava sempre tentando descobrir alguma coisa sobre o Humberto.

— Também gostei disso nela.

— Só que eu vou voltar a trabalhar. A frase saiu diferente, mais concreta.

Até então, “voltar ao trabalho” ainda era algo que aconteceria em breve. Naquele momento, Helena conseguiu enxergar a manhã.

Acordar, amamentar Humberto, se arrumar, pegar a bolsa, beijá-lo e sair. Seu estômago apertou só de imaginar.

— Eu preciso conseguir ir, Heitor.

Ele ficou quieto.

— Não só sair de casa. Preciso chegar na Monteiro Inc. e conseguir trabalhar sem passar a manhã inteira pensando se está tudo bem aqui.

Heitor apertou sua mão.

Helena continuou:

— Com a Lívia, pelo menos no começo, eu sei como eu seria. Ia querer acompanhar tudo. Ia ficar pensando se ela já passou por determinada situação, se vai saber o que fazer se ele chorar daquele jeito que assusta, se vai reconhecer quando alguma coisa estiver errada...

— Você ia demorar mais para soltar.

Helena assentiu. Era exatamente isso.

— Muito mais.

Não havia qualquer prazer em admitir. Gostara genuinamente de Lívia. Talvez justamente por isso precisasse ser justa com o que sentia.

— E não é porque eu ache que ela seja incapaz. Não acho. Ela é muito capaz.

— É.

— Mas capacidade e experiência não são a mesma coisa.

Heitor virou ligeiramente o corpo para ela.

— Foi o que eu tentei te falar.

Helena levantou os olhos.

Ele imediatamente acrescentou:

— Sem “eu avisei”.

— Ainda bem.

— Pensei. Não falei.

Ela deu um pequeno empurrão nele.

Heitor sorriu.

— Mas você tinha razão numa parte.

— Posso gravar?

— Não força a barra.

Ele fez o gesto de fechar a boca.

Helena continuou:

— Se Humberto tivesse dois anos...

— Minha escolha podia ser completamente diferente.

— A minha também. — ela olhou para ele. — Porque com dois anos eu não estaria pensando em alguém segurando um bebê de cinco meses quando ele tiver uma crise de choro e eu estiver do outro lado da cidade.

A mão de Heitor subiu pelo braço dela numa carícia lenta.

— É isso.

Helena soltou o ar.

— Eu queria que não fosse.

— Por quê?

— Porque gostei dela.

— Você pode gostar dela e não contratar ela.

Helena fez uma careta.

— Eu sei.

— Não parece.

— É porque parece injusto.

— Para quem?

Ela pensou.

— Para ela.

— Por quê?

— Porque ela foi ótima.

— Denise também foi.

— Eu sei.

— Patrícia também.

— Eu sei.

Heitor esperou. Helena percebeu onde ele queria chegar.

— Que saco.

Ele riu baixo.

— Eu não fiz nada.

— Fez essa cara.

— Que cara?

— De quem está esperando eu chegar sozinha na conclusão.

— Está funcionando.

Helena apertou os dedos dele.

— Eu odeio quando você faz isso.

— Não odeia.

Heitor beijou sua têmpora.

Ficaram alguns segundos em silêncio.

Então ele falou:

— Tem outra possibilidade.

— Qual?

— Daqui a algum tempo, a gente procura a Lívia.

Helena levantou o rosto.

— Para quê?

— Para o Humberto.

Ela franziu a testa.

Heitor continuou:

— Você gostou muito da parte de desenvolvimento dela. Isso não deixa de existir porque ela não vai ser a babá.

Helena ficou olhando para ele.

— A gente pode conversar com ela mais para frente. Fazer uma proposta de acompanhamento, consultoria ou alguma coisa pontual. Ela avaliar o desenvolvimento dele, pensar atividades adequadas para cada fase, orientar a gente...

A ideia começou a tomar forma enquanto ele falava.

Não como uma maneira de dar um prêmio de consolação a Lívia. Helena detestaria isso. Mas porque aquela era, de fato, a parte da profissional que mais a tinha impressionado.

— Quando ele estiver maior — ela disse.

— Pode ser.

— E não necessariamente toda semana.

— Não precisa decidir isso agora.

Helena olhou para o horizonte, imaginando.

Lívia tinha formação para aquilo. E, sem a responsabilidade de ser a principal cuidadora de um bebê tão pequeno, justamente a parte que causava insegurança em Helena deixaria de ser central.

— Eu gostei.

Heitor sorriu.

— Imaginei.

— Mas só se fizer sentido para ela também. Não quero ligar oferecendo qualquer coisa como se fosse pena porque ela não ficou com a vaga.

— Claro.

— Uma proposta profissional de verdade.

— Helê.

Ela olhou para ele.

— Eu sei.

Helena sorriu.

Às vezes esquecia que não precisava explicar certas coisas para Heitor. Ele passou os dedos por seu cabelo.

— Eu também gostei dela. E tenho as mesmas ressalvas que você. Não é uma rejeição à Lívia. É o Humberto ter cinco meses agora.

Helena assentiu.

Aquilo finalmente parecia simples.

Lívia era excelente e não era a escolha deles naquele momento.

As duas coisas podiam existir juntas.

Helena ficou alguns segundos observando o céu antes de dizer:

— Então sobraram duas.

— Denise e Patrícia.

Ela soltou um suspiro comprido.

— O que não resolveu muito minha vida.

Heitor riu.

— Resolveu trinta e três por cento.

Helena virou o rosto devagar.

— Não transforma minhas babás em porcentagem.

— Desculpa.

— Executivo insuportável.

— Você vai casar comigo mesmo assim.

— Não tenho dúvidas disso.

Heitor sorriu e beijou seus dedos. Helena voltou a ficar séria.

— Eu quero que ele se sinta amado.

Heitor parou de brincar.

Ela olhava para as próprias mãos quando continuou:

— Não só bem cuidado.

A mão dele permaneceu envolvendo a sua.

— Eu sei que segurança é o mais importante. Óbvio que é. Quero alguém que saiba o que fazer se acontecer alguma coisa, que respeite rotina, alimentação, sono, tudo. Mas eu quero que, quando eu não estiver lá, ele esteja com alguém que goste dele de verdade. — Helena respirou. — Que ele se sinta protegido. Acolhido.

Heitor ouviu sem interromper.

— Eu sei que ele é um bebê — ela continuou. — Não vai pensar “minha mãe foi trabalhar e essa pessoa está aqui”. Mas ele sente. Sabe quando está confortável. Sabe quem conhece ele. Quem responde quando ele chama.

A voz dela diminuiu um pouco.

— Eu quero que ele goste da pessoa que vai ficar com ele.

Heitor acariciou o dorso de sua mão.

— Então isso pesa.

— Muito. — Helena olhou para ele. — E foi outra coisa que conversar com o Otávio me fez perceber.

Heitor esperou.

— Quando perguntei o que ele procuraria hoje para a filha, ele falou primeiro que ela gostasse da pessoa.

Heitor assentiu.

— Ela tem cinco anos. Consegue dizer.

— Sim. Humberto não consegue.

Helena olhou para longe.

— Mas eu vi.

A resposta dele veio antes mesmo de ela precisar procurar.

— Denise.

Helena assentiu.

A lembrança apareceu inteira.

Humberto olhando para Denise, o sorriso dele, a facilidade com que aceitara sua aproximação, a curiosidade sem aquela pequena resistência que às vezes aparecia com gente nova e a maneira como Denise o recebera sem tentar conquistá-lo à força, sem transformar cada interação numa demonstração de habilidade.

— Ele gostou dela — Helena disse.

Heitor não respondeu imediatamente. Helena passou os lábios um sobre o outro.

— E eu fiquei com ciúme.

Um sorriso discreto apareceu em Heitor.

— Eu lembro.

— Não ri.

— Não estou rindo.

Estava quase.

Helena apertou a mão dele.

— Foi horrível.

— Você ficou com ciúme porque nosso filho de cinco meses sorriu para uma mulher de quarenta e cinco anos.

— Quando você fala assim, parece ridículo.

— Eu não falei que era ridículo.

— Seu rosto falou.

Heitor tentou controlar o sorriso.

— Continua.

Helena bufou, mas havia um sorriso surgindo nela também.

— Depois passou.

— Eu sei.

— Porque a Denise nunca fez eu sentir que estava disputando espaço com ela.

A brincadeira desapareceu do rosto dele.

Helena pensou um pouco.

— Quando ele me procurava, ela me entregava. Quando eu chegava perto, ela não tentava continuar segurando ele só para mostrar que ele estava bem com ela. Não sei...

— Ela sabia onde estava o lugar dela.

Helena olhou para Heitor.

— É. — era isso. — E mesmo assim foi carinhosa com ele.

— Muito.

Helena ficou quieta.

A balança começava a se mover dentro dela. Não o suficiente para uma decisão. Mas se movia.

— A Patrícia me dá uma segurança absurda.

— Para mim também.

— Quando penso em alguma emergência, penso nela.

— Eu sei.

— E aquele dia...

Helena nem precisou explicar qual.

O choro forte de Humberto ainda era fácil de lembrar. A maneira como Patrícia não se desorganizara, não tentara afastar Helena, não transformara a situação numa prova de competência. Simplesmente cuidara do bebê até Helena pedir por ele e, então, o entregara imediatamente.

— Ela é excelente — Helena disse.

— É.

— Denise também.

— É.

Helena deixou a cabeça cair contra o ombro dele.

— Você não vai facilitar para mim?

Heitor beijou seus cabelos.

— Posso, se você quiser.

Ela levantou o rosto.

— Como?

— Escolho uma.

Helena imediatamente franziu a testa.

— Não.

Ele sorriu.

— Imaginei.

— Eu quero decidir junto.

— Então não posso facilitar desse jeito.

Helena soltou o ar pelo nariz.

Heitor passou a mão por seus cabelos.

— Helê, não existe uma escolha errada aqui. Se a gente estivesse entre uma pessoa ótima e uma pessoa que deu sinais ruins, era fácil. Não é o caso. — ele olhou para ela. — Denise é ótima.

Helena assentiu.

— Patrícia é ótima.

Outro assentimento.

— As referências das duas são boas. As duas foram bem com o Humberto. As duas respeitaram você. Eu me sentiria tranquilo deixando nosso filho com qualquer uma das duas.

Helena observou o rosto dele. Heitor não estava tentando convencê-la de nada. Talvez fosse justamente aquilo que ela precisasse ouvir.

— Então não fica procurando uma resposta que não existe — ele disse. — Você não vai descobrir amanhã que uma era a certa e a outra era a errada.

Helena passou o polegar pela mão dele.

— E se eu me arrepender?

— A gente muda.

Ela piscou.

Heitor deu de ombros.

— Não é sentença de prisão perpétua.

Helena soltou uma risada.

— Heitor!

— Estou falando sério.

Ele se ajeitou um pouco para vê-la melhor.

— A gente escolhe com o que sabe agora. Observa. Acompanha. Se funcionar, ótimo. Se não funcionar, conversa. Se não resolver, muda.

A simplicidade daquela possibilidade pareceu tirar alguma coisa pesada dos ombros dela.

Helena tinha tratado a decisão como se precisasse prever os próximos cinco anos da vida de Humberto.

Talvez não precisasse.

Precisava escolher quem entraria na casa deles agora e continuar sendo mãe depois da escolha.

— Você não está entregando o Humberto para alguém e desaparecendo — Heitor disse, mais baixo. — Você vai estar aqui. Eu vou estar aqui. A gente vai ver como ele está.

Helena assentiu.

— Eu sei.

— Então escolhe aquela com quem você sente que vai conseguir sair pela porta.

Ela olhou para ele.

Heitor sustentou seu olhar.

— Porque eu consigo sair — continuou. — Eu saio todo dia. Para mim, essa parte não é nova.

Helena ficou imóvel.

— Para você vai ser.

Aquilo acertou exatamente onde precisava.

Heitor apertou a mão dela.

— Então entre Denise e Patrícia, as duas me deixam tranquilo. Agora eu quero saber qual delas deixa você tranquila.

Helena desviou os olhos para o horizonte.

Denise.

Patrícia.

Uma trazia uma sensação de acolhimento que Helena não conseguia fabricar numa lista de requisitos.

A outra trazia uma segurança técnica que parecia quase impossível de questionar.

Ela ainda precisava pensar.

— Preciso pensar mais um pouco — disse.

— Então pensa.

— Você não está com pressa?

Heitor olhou para ela como se a pergunta fosse estranha.

— Para quê?

— Para decidir.

— Segunda-feira vai continuar existindo depois de amanhã.

Helena sorriu.

— Isso foi muito sábio.

— Sou um homem profundo.

— Não exagera.

Ele riu.

Helena voltou a apoiar a cabeça em seu ombro.Heitor beijou seus cabelos e tornou a entrelaçar os dedos aos dela.

Agora eram duas.

E, curiosamente, reduzir as opções não tinha feito Helena sentir que perdera alguma coisa.

Lívia continuava sendo a profissional inteligente, curiosa e promissora que a impressionara. Só não era quem Helena precisava ao lado de Humberto agora.

Talvez a decisão inteira estivesse escondida naquela palavra.

Agora.

Humberto tinha cinco meses agora. Helena precisava voltar ao trabalho agora. Precisava aprender a sair de casa sem ele agora e precisava confiar em alguém agora.

Denise e Patrícia podiam oferecer isso.

De maneiras diferentes.

Helena fechou os olhos por alguns segundos, sentindo o polegar de Heitor passar distraidamente sobre sua mão.

Ainda não sabia qual das duas escolheria.

Mas já não precisava encontrar a babá perfeita.

Precisava encontrar aquela que fizesse sentido para a família que eram naquele momento.

Ainda ficaram no sofá depois que o último pedaço de sol desapareceu. Nenhum dos dois parecia com vontade de levantar.

O céu continuava bonito mesmo sem o sol, tingido de tons mais profundos sobre o horizonte, e o clube começava a assumir outra atmosfera. As luzes dos jardins se acendiam aos poucos. Algumas pessoas já tinham ido embora; outras se deslocavam para os restaurantes e salões internos. O movimento ao redor deles diminuía.

Helena continuava encaixada junto a Heitor.

A conversa também tinha diminuído.

Depois de tudo que falaram sobre Humberto, sobre Lívia, Denise e Patrícia, não havia mais urgência em preencher cada silêncio. Helena mantinha a cabeça próxima ao ombro dele, uma das mãos descansando sobre seu peito enquanto Heitor brincava distraidamente com seus dedos.

Até ele beijá-la.

No começo, foi só mais um beijo. Um daqueles que tinham trocado o dia inteiro.

Helena fechou os olhos, sentiu a mão dele em sua nuca e correspondeu sem pensar.

Só que Heitor não se afastou, a boca voltou à sua. Mais devagar.

Helena passou os dedos pela barba curta e sentiu o braço dele apertar sua cintura, trazendo-a um pouco mais para perto.

Quando se separaram, ficaram com os rostos próximos.

— O quê? — ela perguntou ao perceber que ele a observava.

— Nada.

— Você está com uma cara.

— Que cara?

Helena estreitou os olhos.

Heitor sorriu.

— Estou quieto.

— Isso é suspeito.

— Passei a tarde inteira ouvindo que preciso me comportar. Agora estou me comportando.

Ela riu.

— Está mesmo.

— Sou obediente.

— Essa foi a maior mentira que você contou hoje.

Heitor beijou-a outra vez.

Helena ainda sorria quando recebeu o beijo, mas o sorriso desapareceu aos poucos.

Porque a mão que estava em sua cintura desceu.

Encontrou sua coxa e ficou ali. Nada que Heitor já não fizesse normalmente. Talvez por isso fosse tão fácil não perceber de imediato quando um toque cotidiano mudava de intenção. O polegar começou um movimento lento sobre sua pele.

Helena continuou beijando-o.

A mão subiu alguns centímetros.

Parou.

Desceu novamente.

Heitor não parecia ter pressa alguma. Talvez porque tivesse passado a tarde inteira sendo impedido de ter.

Helena deslizou a mão pela nuca dele. Sentiu os fios curtos sob os dedos, depois os cabelos um pouco mais longos no alto. Puxou de leve.

A respiração de Heitor mudou contra sua boca.

Aquilo fez alguma coisa dentro dela.

Ele interrompeu o beijo apenas para encostar a boca em seu maxilar.

Depois no pescoço.

A barba roçou sua pele.

Helena fechou os olhos.

— Heitor...

— Hum?

A mão continuava na coxa, lenta e quente. Perigosamente tranquila.

— Você está fazendo de propósito.

Ele levantou o rosto.

— Fazendo o quê?

Helena encontrou os olhos azuis e quase riu.

— Você sabe.

— Estou te beijando.

— Eu percebi.

— Beijando a minha noiva.

Outro beijo.

— Num sofá.

Mais um.

— Depois de um encontro.

Helena segurou seu rosto.

— Para de falar.

Heitor obedeceu.

Por alguns minutos, nenhum dos dois precisou de conversa.

A tarde inteira pareceu se acumular naquele sofá. As provocações no carro. A tentativa dele de levá-la para uma suíte quando chegaram. O protetor solar. Heitor precisando se afastar dela para recuperar a compostura. A piscina reservada. O “depois” que Helena tinha prometido.

Tudo voltou quando a boca dele encontrou a sua novamente e a mão deslizou pela coxa nua.

Dessa vez Helena não quis interromper.

Ao contrário.

Aproximou-se mais.

Heitor percebeu.

A mão parou por um instante. Ele se afastou apenas o suficiente para olhá-la.

Helena conhecia aquele homem bem demais. Viu a pergunta antes que viesse e a fez primeiro.

— Vamos para a suíte.

Heitor ficou imóvel. Foi tão rápido que Helena quase riu.

— O quê?

Ela mordeu o sorriso.

— Você ouviu.

Os olhos dele se estreitaram.

— Helê…

— O quê?

— Não brinca comigo agora.

Helena passou os dedos pela nuca dele.

— Não estou brincando.

A felicidade que apareceu no rosto de Heitor foi tão imediata que ela começou a rir.

— Meu Deus!

Ele já estava se levantando.

— Vamos.

— Calma!

— Não, não, não.

Helena gargalhou enquanto Heitor segurava sua mão e a puxava para ficar em pé.

— Você passou a tarde inteira tentando me convencer e agora não consegue esperar trinta segundos?

— Exatamente.

— Desesperado.

Heitor pegou as coisas deles.

— Você não faz ideia.

— Acho que faço.

Ele lançou um olhar para ela.

Helena sorriu.

— Não provoca, Helê...

— Agora posso.

Heitor parou. Olhou para ela por um segundo inteiro.

— Você vai se arrepender dessa frase.

O arrepio que percorreu Helena não tinha nada a ver com o vento do começo da noite.

A porta mal fechou.

Helena ainda tinha a mão na maçaneta quando sentiu Heitor atrás dela.

Ele largou a bolsa em algum lugar, segurou sua cintura e a virou. O beijo veio antes que ela pudesse dizer qualquer coisa.

Forte.

Faminto.

Helena soltou o ar contra sua boca e imediatamente passou os braços por seu pescoço.

Era diferente dos beijos no sofá.

Lá, Heitor ainda tinha se controlado. Tinha deixado a mão passear por sua coxa, provocado, esperado, dado a Helena espaço suficiente para decidir até onde queria ir.

Na suíte, a decisão já estava tomada.

As mãos grandes percorreram seu corpo com uma pressa que fez Helena arrepiar inteira. Apertaram sua cintura, desceram pelas costas, encontraram suas coxas. A boca de Heitor abandonou a sua apenas para alcançar seu pescoço.

Helena inclinou a cabeça. A barba arranhou sua pele.

— Heitor...

Ele respondeu com outro beijo. Ela sentiu as costas encontrarem a parede. Nem sabia em que parte da suíte estavam.

Tinha visto uma sala quando entrou. Luz baixa. Madeira. Uma janela grande. Talvez houvesse um sofá. O quarto devia estar mais adiante.

Não importava.

Heitor beijava seu pescoço como se estivesse compensando todas as vezes em que Helena o mandara se comportar naquela tarde. Ela agarrou seus cabelos e o trouxe de volta à boca.

A camisa aberta dele atrapalhava. Helena empurrou o tecido pelos ombros. Heitor terminou de tirá-la sem se afastar mais do que o necessário e a peça caiu no chão.

Agora havia pele sob suas mãos.

Helena deslizou as palmas pelo peito dele, sentindo o calor, a firmeza dos músculos, a respiração pesada.

Heitor fechou os olhos por um instante quando ela desceu as mãos.

— Porra, Helê...

Helena levantou o rosto e o beijou outra vez. A saída de praia foi puxada para cima e abandonada junto da camisa.

Heitor afastou-se apenas alguns centímetros. O suficiente para vê-la.

Helena ficou diante dele somente de biquíni.

O olhar desceu. Sem disfarce. Sem elegância.

Ela sentiu os mamilos endurecerem sob o tecido antes mesmo que ele voltasse a tocá-la.

— Vem cá.

E Helena foi. Heitor segurou seu rosto com uma das mãos e a beijou enquanto a outra percorria seu corpo. Desceu pela cintura, pelo quadril, encontrou a parte de trás de sua coxa e a puxou contra ele.

Dessa vez Helena sentiu claramente o quanto ele a queria. Seu corpo respondeu na mesma hora.

Ela apertou os dedos nos ombros dele.

— Desde a piscina — Heitor murmurou junto à sua boca.

Helena sorriu, sem fôlego.

— Antes.

Ele parou. Só o suficiente para olhar para ela.

— Antes?

Helena passou a boca pelo maxilar dele.

— No carro.

O braço ao redor dela apertou.

— Você é uma safada.

— Você gosta.

Heitor soltou uma respiração pesada.

— Pra caralho.

Foi a última conversa coerente que tiveram por algum tempo.

O beijo seguinte tirou qualquer espaço para isso.

Helena sentiu a mão dele entrar por seus cabelos e segurar sua nuca. Sentiu a boca descer pelo pescoço, alcançar o colo, voltar. Sentiu o próprio corpo pressionado entre a parede e aquele homem enorme que passara a tarde inteira tentando convencê-la a terminar exatamente ali.

E, agora que estavam ali, ela também não queria perder tempo.

Puxou-o mais para perto. Heitor entendeu. A mão desceu pela lateral de sua perna e a trouxe contra ele.

Helena sentiu o tecido úmido do biquíni ser afastado para o lado.

Não tirado. Nem sequer houve tentativa. Aquela pequena falta de paciência fez o desejo subir de uma vez. Porque dizia tudo.

Ela agarrou sua nuca.

A primeira vez aconteceu ali.

Contra a parede. Com o biquíni ainda no corpo e o tecido apenas afastado porque nenhum dos dois teve interesse em esperar mais alguns segundos.

Helena perdeu o ar quando ele finalmente a penetrou.

Os dedos apertaram os ombros dele.

Heitor enterrou o rosto em seu pescoço, soltando uma respiração rouca contra sua pele.

— Caralho...

Helena fechou os olhos.

O corpo inteiro parecia quente demais.

A boca dele voltou à sua, e ela o beijou sem delicadeza, puxando seus cabelos, sentindo as mãos firmes segurando-a perto, sustentando-a.

Não havia espaço para pensamentos organizados.

Só sensação. O calor da pele dele. A barba raspando seu rosto. O cheiro de Heitor misturado ao cloro e ao protetor solar. A pressão das mãos. A respiração dos dois ficando cada vez mais descompassada. A boca dele procurando a sua toda vez que se afastavam.

Helena tinha provocado aquele homem durante horas.

Agora sentia o resultado em cada centímetro da maneira como ele a segurava.

— Assim... — escapou dela.

Heitor levantou o rosto imediatamente.

Os olhos azuis estavam escuros, presos nela.

— Assim?

Helena assentiu entre os gemidos.

— Não para.

Foi tudo que precisou dizer.

Ele a beijou novamente. Helena perdeu qualquer noção do tempo. Não soube quanto durou.

Só soube que, quando o prazer finalmente a atravessou, enterrou o rosto no pescoço dele para abafar o próprio som e apertou os braços ao redor de seus ombros.

Heitor a segurou ainda mais forte.

Pouco depois, sentiu o corpo dele perder junto com o seu aquela última tentativa de controle que ainda restava.

Por alguns segundos, nenhum dos dois se moveu.

Helena respirava contra seu pescoço. Heitor ainda a mantinha presa ao corpo.

O peito dele subia e descia rapidamente contra o dela.

Então Helena sentiu um beijo em seu ombro. Outro perto do pescoço.

Ela abriu os olhos. Heitor levantou o rosto. O cabelo estava completamente bagunçado. A boca avermelhada.

Helena sorriu devagar.

— Nossa.

Um sorriso apareceu nele. Não havia a menor humildade naquele sorriso.

— É.

Helena começou a rir, ainda sem fôlego.

— Não fica convencido.

Heitor beijou sua boca.

— Impossível agora.

Ela mordeu o lábio dele de leve.

— Eu devia ter deixado você sofrendo mais.

— Nem brinca com isso.

A resposta saiu tão rápida que Helena riu de novo.

Heitor a beijou. Dessa vez devagar. Mas quando se afastou, o olhar desceu pelo corpo dela.

Parou no biquíni ainda fora do lugar. A mão acompanhou.

Helena percebeu.

— O quê?

Heitor ergueu os olhos.

— Agora eu quero tirar isso direito.

O estômago dela se apertou outra vez.

— Agora?

— Agora.

Helena olhou para o quarto que ainda nem tinham alcançado. Depois voltou para ele.

— Então me leva para a cama.

Heitor sorriu.

Dessa vez não respondeu.

Só a pegou no colo e a levou até a cama.

A urgência tinha passado.

O desejo, não.

Talvez aquilo fosse ainda mais perigoso. Porque agora Heitor tinha tempo.

Helena percebeu no instante em que ele parou diante dela junto à cama.

Não havia mais pressa nas mãos.

Heitor desfez o primeiro nó do biquíni devagar. O tecido afrouxou.

Os olhos dele não saíram dos seus. Depois veio o outro.

Helena sentiu a peça deixar seu corpo.

A maneira como Heitor a olhou fez sua pele se arrepiar antes mesmo que ele voltasse a tocá-la.

— Linda pra caralho.

A voz baixa percorreu Helena inteira. Ela segurou a nuca dele.

— Vem.

Heitor veio e a segunda vez não teve nada da desorganização da primeira.

Foi longa. Preguiçosa em alguns momentos, intensa em outros. Cheia das pequenas coisas que os dois sabiam fazer um com o outro porque já não precisavam descobrir nada.

Helena conhecia o efeito de passar os dedos pela nuca dele e puxar levemente os cabelos. Conhecia o som que Heitor fazia quando ela beijava seu pescoço. Sabia exatamente como provocá-lo quando ele começava a recuperar controle demais.

Heitor conhecia ainda mais dela e fazia questão de demonstrar.

Um beijo demorava onde sabia que Helena gostava. Uma mão percorria sua pele até encontrar o ponto que fazia seu corpo se arquear em direção ao dele. Uma palavra baixa junto ao ouvido bastava para fazê-la apertar os dedos em suas costas.

— Olha pra mim.

Helena abriu os olhos.

Heitor estava sobre ela. Os olhos azuis presos aos seus.

— Gostosa.

Helena sentiu o rosto aquecer. Mesmo depois de tudo.

— Fala de novo.

Ele sorriu. Aproximou a boca de seu ouvido e falou.

Heitor beijou sua boca.

Dessa vez Helena não conseguiu responder nada.

Nem queria.

Naquela suíte, conversa tinha se tornado desnecessária.

Quando falavam, eram poucas palavras. O resto era dito com as mãos. Com a boca. Com o jeito como Helena o puxava de volta toda vez que Heitor se afastava. Com o corpo dele procurando o seu outra vez mesmo quando ambos já deveriam estar satisfeitos.

Não estavam.

Tinham esperado demais.

E naquela noite nenhum dos dois parecia interessado em recuperar o tempo perdido com moderação.