O CEO que Eu Paguei

286 Ela Estava Bem


Aquele sábado tinha sido maravilhoso.

Depois da suíte, tomaram banho juntos, demorando mais do que precisavam entre a água quente, beijos e mãos que ainda pareciam incapazes de ficar quietas. Vestiram-se sem nenhuma pressa e acabaram novamente no sofá, trocando beijos longos até Helena lembrar, entre um e outro, que tinham um filho esperando por eles.

Saíram do clube grudados.

Heitor manteve a mão dela na sua durante quase todo o caminho até o carro e, quando começaram a descer as ruas do Rio, estava naquele estado particularmente apaixonado que Helena adorava: beijava seus dedos nos sinais, dizia que a amava no meio de assuntos que não tinham qualquer relação e fazia declarações exageradas como se ainda precisasse convencê-la de alguma coisa.

— Eu sou completamente maluco por você, sabia?

Helena sorriu para a janela.

— Já desconfiei.

— Não, Helê. Num nível preocupante.

— Que pena.

— Para você é ótimo.

Era mesmo.

Ela se sentia leve. Satisfeita. Ainda carregava no corpo lembranças muito recentes da suíte, suficientes para provocar um arrepio quando sua cabeça voltava a determinados momentos. Agradeceu mentalmente pelo anticoncepcional e pela tranquilidade de não precisar pensar em outra gravidez tão cedo. Dois anos protegida e, até então, sem qualquer efeito que a incomodasse. Uma maravilha.

Mas o melhor daquela tarde não era apenas ter transado com Heitor depois de tanto tempo desejando um momento só deles.

Helena se sentia mulher outra vez.

Não apenas mãe do filho dele.

Não apenas a mãe de Humberto, preocupada com mamadas, sono, desenvolvimento, babás e a volta ao trabalho.

Era Helena. Desejava e era desejada. Tinha namorado, provocado, rido, feito amor com o homem que amava e passado horas sem deixar de ser mãe para conseguir ser mulher também.

Precisava daquilo.

Talvez mais do que imaginara.

Buscaram Humberto na casa de Celina e Renato.

O bebê já estava sonolento quando chegaram, mas abriu um sorriso ao reconhecer os pais. Helena o encheu de beijos enquanto Heitor agradecia aos dois pela tarde.

Abraçou Renato antes de irem embora.

— Boa viagem. E volta logo.

— Vou tentar.

— Qualquer coisa que vocês precisarem daqui, fala comigo.

Depois se virou para Celina.

— Você também. Enquanto ele estiver fora, se precisar de alguma coisa, me liga.

Celina gostou imediatamente da oferta.

— Vou cobrar.

— Pode cobrar.

Acabaram entrando e ficando mais alguns minutos, e não demorou para Celina perguntar:

— E as babás?

— Agora são duas. Denise e Patrícia.

— Lívia saiu?

Helena assentiu.

— Gostei muito dela, mas percebi que agora preciso de alguém com mais experiência com bebê pequeno. Quero conseguir voltar ao trabalho e realmente ficar tranquila.

Celina concordou.

— E entre as duas?

Helena fez uma careta.

— Ainda estou pensando.

— Estou curiosíssima para saber qual você vai escolher. Se quiser, posso sentar com você amanhã e ajudar.

Helena sorriu.

— Obrigada. Se eu precisar, eu peço. Mas acho que essa escolha eu quero fazer sozinha.

Celina não insistiu.

— Então depois você me conta.

— Conto.

Já na mansão deles, Humberto continuava lutando contra o sono.

Heitor ficou com ele apoiado sobre as pernas no sofá, conversando com o filho enquanto o bebê agarrava seus dedos, soltava pequenos sons e, vez ou outra, deixava a cabeça pender de cansaço antes de se obrigar a despertar novamente.

Helena estava por perto quando Jonas ligou.

— Oi.

— Oi, maninha.

Conversaram sobre os últimos dias até o assunto chegar à campanha de Paulo.

— Acho que não vou voltar — Jonas disse.

Helena ficou séria.

— Não vão deixar?

— Pelo jeito, não. Achei que depois de um tempo talvez desse para voltar pelo menos para os bastidores, mas já entendi que não vai acontecer.

A frustração na voz dele era evidente.

— Estou bem chateado com isso.

— Imagino.

— Então resolvi ficar um pouco off.

— Como?

— Vou viajar uns dias.

— Para onde?

— Trancoso. Mais especificamente Itapororoca.

Helena franziu a testa.

— Itapo... o quê?

Jonas riu.

— Itapororoca.

— Nunca ouvi falar.

— Perto do Quadrado. Só que bem mais reservado. Peguei uma casa na praia.

— Vai com quem?

— Sozinho.

Isso chamou sua atenção.

— Sozinho?

— Meu retiro espiritual.

Helena soltou uma risada.

— Seu retiro espiritual?

— Pesquisei lugares tranquilos e escolhi lá.

— Jonas, você nunca procurou tranquilidade voluntariamente na vida.

— Talvez esteja na hora.

A resposta ainda tinha humor, mas Helena percebeu o cansaço por baixo.

Jonas estava acostumado a festas, gente, viagens cheias de amigos, mulheres e compromissos. A escolha de passar alguns dias sozinho numa casa em uma praia reservada dizia bastante sobre como estava se sentindo.

— Quanto tempo?

— Uns dez dias. Talvez quinze.

Helena não gostou muito da ideia, mas também não tentou impedi-lo.

— Então faz uma coisa por mim.

— Ih.

— Me liga todo dia.

— Helena...

— Todo dia, Jonas. Nem que seja cinco minutos. Só para eu saber que você está bem.

Ele ficou em silêncio por um instante.

— Tá bom.

— Promete?

— Prometo.

Helena relaxou um pouco.

— E me avisa quando chegar.

— Aviso.

— Se cuida.

— Se cuida tambem, maninha.

Quando desligou, ficou alguns segundos olhando para o celular.

— O que aconteceu? — Heitor perguntou.

Helena ergueu os olhos.

Humberto finalmente parecia ter desistido de lutar contra o sono, aconchegado contra o pai.

— Jonas vai passar uns dias sozinho em Itapororoca.

Heitor arqueou uma sobrancelha.

— Sozinho?

— Segundo ele, vai fazer um retiro espiritual.

Heitor olhou para ela por um segundo.

— Jonas?

Helena quase riu.

— Foi exatamente o que eu pensei.

Mas o sorriso desapareceu rápido.

— Ele não vai voltar para a campanha. Está bem chateado.

Heitor assentiu, entendendo melhor.

Helena guardou o celular e foi se sentar ao lado dos dois.

Continuava preocupada com o irmão.

Mas Jonas tinha prometido ligar.

Por enquanto, teria que bastar.

Foi quando o telefone começou a tocar.

Helena olhou para a tela.

Lorena.

Revirou os olhos e largou o aparelho ao lado do corpo, no sofá.

Heitor percebeu.

— Quem é?

— A Lorena.

— Não vai atender?

— Não.

Ele estava com Humberto apoiado nas pernas, segurando uma das mãos do filho antes que os dedinhos alcançassem seu relógio.

— Pode ser importante.

— Aposto que não.

— Eleição chegando. Pode ser alguma coisa do Paulo.

Helena olhou outra vez para o telefone.

Continuava tocando.

Não gostava quando Heitor fazia sentido nessas horas.

Bufou, levantou-se e pegou o aparelho.

— Se ela me prender meia hora no telefone, a culpa é sua.

— Eu assumo a culpa.

Helena saiu da sala antes de atender. Foi até a cozinha, apoiou uma das mãos na bancada e massageou a têmpora.

Só então deslizou o dedo pela tela.

— Alô.

— Helena! Oi!

Lorena estava animada.

Animada demais para alguém que Helena não tinha nenhuma vontade de atender.

— Oi.

— Está podendo falar?

Helena respirou fundo.

Lorena sempre perguntava.

Era uma das coisas estranhas naquela relação. A própria mãe perguntava se podia falar com ela como alguém que não sabia exatamente quanto espaço tinha para entrar.

Talvez porque não soubesse mesmo.

— Estou.

— Eu queria te contar uma coisa. Saiu uma pesquisa nova hoje. O Paulo subiu um ponto.

A irritação diminuiu um pouco.

— Sério?

— Um ponto inteiro.

— Que bom.

Aquilo a deixou genuinamente feliz. Depois de tudo que tinha acontecido nas últimas semanas, qualquer notícia boa para Paulo parecia bem-vinda.

Lorena falou um pouco sobre a pesquisa, sobre a reação dele, sobre como a equipe estava encarando aquela reta final. Helena ouviu, perguntou algumas coisas e, por alguns minutos, foi fácil.

Até Lorena perguntar:

— E vocês? Estão bem?

Aquela porta Helena não abriu com a mesma facilidade.

— Estamos.

— O Heitor?

— Bem.

— E o Humberto?

— Também.

Lorena esperou.

Helena sabia que poderia dizer mais.

Poderia contar que Humberto estava cada dia mais falante, que agora tinha opiniões fortíssimas sobre objetos que não podia pegar, que passara a tarde com Celina e Renato e que, naquele exato momento, provavelmente estava tentando arrancar alguma coisa do pai.

Não contou.

Com Lorena, sempre havia uma trava.

Helena conseguia conversar com ela. Conseguia estar no mesmo ambiente. Conseguia até ter momentos bons.

Mas intimidade era outra coisa.

Intimidade exigia uma confiança que ainda não existia.

— Que bom — Lorena respondeu.

Não pressionou. Depois de alguns segundos, mudou de assunto.

— Eu conversei com a Celina esses dias.

Helena ergueu uma sobrancelha.

— Conversou?

— Uhum. Ela comentou que vocês estão procurando uma babá para o Humberto.

Ah. Então era aquilo.

Helena passou a unha pelo mármore da bancada.

— Estamos.

— Ela falou que vocês entrevistaram algumas.

— Já terminamos as entrevistas.

Lorena pareceu imediatamente interessada.

— E encontrou alguém boa?

— Encontramos.

Helena não disse que eram duas.

Muito menos que, se tivesse que decidir naquele instante, havia uma mulher para quem seu pensamento continuava voltando.

Denise.

Depois da conversa com Otávio, aquilo tinha ficado mais claro.

Patrícia ainda lhe passava uma segurança enorme. Helena conseguia imaginar uma febre alta, um engasgo, um acidente, qualquer situação em que o medo pudesse fazê-la perder o chão, e Patrícia era exatamente o tipo de pessoa que ela gostaria de ter por perto.

Mas Denise...

Denise tinha outra coisa.

Humberto gostava dela e Helena também.

— Posso te dar uma dica? — Lorena perguntou.

Helena quase soltou uma risada. Agora entendia por que a mãe tinha ligado tão animada.

Lorena tinha descoberto alguma coisa acontecendo na vida dela e enxergado uma oportunidade de participar.

Aquilo deveria irritá-la.

Irritava um pouco.

Mas havia também algo desconfortavelmente triste naquela tentativa constante de Lorena de encontrar uma porta que Helena nunca abria por completo.

— Pode.

— Não escolhe só pela mais qualificada.

Helena franziu a testa.

— Não estou fazendo isso.

— Não, eu sei. A Celina falou que vocês fizeram entrevista, referência, teste...

Helena fechou os olhos.

— A Celina te contou tudo?

Lorena riu.

— Não tudo. Mas ela está muito envolvida.

Isso era verdade.

— Continua.

— Quando o Jonas era pequeno, eu era muito neurótica com essas coisas. Queria a mulher com mais experiência, melhor referência, tudo certinho.

Helena permaneceu calada.

Lorena raramente falava da infância dos filhos com ela. Talvez porque soubesse que era um terreno perigoso. Jonas e Isaac eram a prova viva de uma versão de Lorena que Helena nunca tivera.

A mãe que ficara.

— Teve uma que eu adorei — Lorena continuou. — Muito experiente. Educada. Referências ótimas. Só que o Jonas não gostou dela.

— Como assim?

— Chorava quando ela pegava. Eu achei que fosse adaptação e tentei mais um pouco, mas não adiantou. Ele não queria.

Helena olhou para a porta da cozinha.

— E você desistiu dela?

— Claro.

A resposta veio tão natural que alguma coisa dentro de Helena se contraiu.

Claro.

— Por quê?

Lorena pareceu estranhar a pergunta.

— Porque quem ia passar o dia com ela era ele, Helena.

Sim…Lógico…

— Depois apareceu outra — Lorena continuou. — E foi completamente diferente. Ele gostou dela desde o começo.

Helena pensou em Denise antes mesmo de querer.

Humberto abrindo aquele sorriso enorme, as pernas se agitando e o gritinho quando Denise brincava com ele.

— E isso fez diferença?

— Nossa, demais.

Lorena estava confortável agora.

Helena percebia pela voz.

Não era mais a mulher procurando palavras com cuidado para falar com a filha que abandonara. Era simplesmente uma mãe falando de algo que conhecia.

De filhos.

Dos filhos que criara.

— Principalmente para mim — Lorena disse. — Porque você fica muito mais tranquila quando percebe que o bebê gosta da pessoa.

Helena ficou quieta.

— Com o Isaac eu já sabia disso. Ele teve uma babá de quem ficou muito apegado.

— Apegado quanto?

— Muito.

Lorena riu.

— Ele ficava feliz quando ela chegava. Esticava os braços, queria ir para o colo dela... Essas coisas.

Denise.

Outra vez. Era impressionante. Cada coisa que Lorena dizia parecia apontar diretamente para Denise.

— E você gostava disso? — Helena perguntou.

— No começo dava um ciuminho.

Helena quase sorriu.

Pelo menos não era só ela.

— Depois eu comecei a agradecer.

— Agradecer?

— Helena, é muito mais fácil sair quando seu filho fica com alguém que ele ama.

A palavra ficou.

Ama.

— Você sabe que ele está bem. Sabe que está com alguém carinhoso, que conhece ele, que ele gosta de verdade. Não fica aquela sensação de estar deixando seu bebê com uma estranha.

Helena não respondeu.

Lorena continuou, sem perceber.

— Às vezes o Isaac nem ligava quando eu saía.

Alguma coisa gelou dentro dela.

— Não ligava?

— Não. Estava brincando, distraído... Eu dava beijo, falava que ia sair e pronto.

Lorena riu.

— Melhor coisa.

Helena apertou os dedos contra a bancada.

— Melhor?

— Claro. Muito melhor do que deixar seu filho chorando por você.

Lorena dizia aquilo com tanta simplicidade.

Sem maldade. Sem segunda intenção. E talvez fosse justamente por isso que começou a doer.

— Você saía tranquila?

— Muito mais.

Helena engoliu.

— Porque ele gostava da babá?

— Porque eu sabia que ele estava feliz.

Lorena continuou falando.

Helena começou a ouvir outra coisa.

Você estava tão bem.

A voz vinha de anos antes.

Da conversa que ainda conseguia machucá-la quando lembrava.

Você estava tão feliz com seus avós.

Helena ficou imóvel.

Era isso que Lorena tinha dito.

Tinha voltado. Tinha visto a filha. E Helena estava bem.

Era apegada aos avós. Era amada.

Estava segura.

Então Lorena achou melhor deixá-la ali.

De novo.

Helena sentiu o estômago apertar.

— Se todas as suas candidatas forem boas — Lorena dizia — eu olharia muito para isso. Para quem o Humberto gosta. Quem ele procura. Com quem fica feliz.

Denise.

Humberto procurando Denise com os olhos.

Denise fazendo-o rir.

Denise recebendo aqueles braços pequenos sem hesitar.

Denise sendo exatamente tudo que Lorena estava descrevendo.

— Porque depois, quando você precisar trabalhar ou quiser sair com o Heitor, vai saber que deixou ele com alguém de quem ele gosta.

Deixou.

Helena respirou fundo.

— E isso basta?

Lorena parou.

— O quê?

— Saber que ele gosta da pessoa.

— Não basta, claro. Tem que confiar, tem que saber que é responsável...

— Não. Não estou falando disso.

Silêncio.

Helena olhou para as próprias mãos.

Nem ela sabia direito por que continuava.

Ou sabia.

— Para você ficar tranquila — explicou. — Bastava saber que eles estavam felizes com outra pessoa?

Lorena demorou um pouco.

— Ajudava muito.

Helena assentiu sozinha.

Lorena não podia vê-la.

— Entendi.

— Helena?

— Oi.

— Está tudo bem?

— Está.

Não estava.

Mas não porque Lorena tivesse feito alguma coisa naquele telefonema.

Esse era o problema.

Lorena estava tentando ajudar. Provavelmente tinha ficado feliz quando Celina comentou sobre a babá. Devia ter pensado que finalmente existia alguma coisa em que sua experiência poderia servir para a filha e servia.

Só que cada conselho vinha acompanhado de uma lembrança que Lorena não conseguia enxergar.

— Eu acho que o mais importante é você não ter medo se ele se apegar — ela continuou. — Isso é bom.

Helena fechou os olhos.

— É?

— Muito. Ele pode gostar muito da babá e isso não muda quem é a mãe dele.

A garganta apertou.

— Você acredita mesmo nisso?

— Claro.

Lorena respondeu sem hesitar.

Helena quase riu.

Não havia graça nenhuma.

Talvez Lorena realmente acreditasse. Talvez tivesse acreditado por trinta anos. Helena podia amar Dona Olívia. Podia ter amado o avô mais do que conseguia colocar em palavras. Podia correr para eles, dormir tranquila naquela casa, ser uma criança feliz em muitos momentos. E Lorena continuava sendo sua mãe.

Talvez a própria Lorena tivesse se agarrado à mesma lógica.

Ela gosta deles.

Ela está feliz.

Ela está segura.

Ela não precisa de mim.

De repente, Helena conseguiu imaginar aquilo de uma maneira que nunca tinha imaginado antes.

Lorena jovem, olhando para uma Helena pequena nos braços do avô.

Talvez ela tivesse sorrido. Talvez tivesse brincado. Talvez nem tivesse querido ir para o colo da mulher que praticamente não conhecia. E Lorena podia ter olhado para aquilo e sentido alívio.

A filha estava bem.

Podia ir embora.

A ideia fez Helena sentir enjoo.

— Com o Isaac — Lorena continuou — teve uma época em que ele preferia ficar com a babá quando estava brincando. Eu chegava e ele nem vinha correndo.

Helena abriu os olhos.

— E você ia embora mesmo assim?

A pergunta saiu mais dura do que pretendia.

Lorena finalmente percebeu alguma coisa.

— Como assim?

Helena respirou fundo.

Não. Lorena ainda não tinha entendido. E Helena não queria explicar.

Não queria dizer: você está me contando exatamente como conseguiu me deixar.

Porque talvez nem fosse verdade.

Talvez fosse apenas sua cabeça pegando pedaços diferentes da própria história e juntando tudo de uma maneira cruel.

Mas fazia sentido demais.

— Nada.

— Helena...

— Continua.

Lorena hesitou.

— Eu só estava dizendo que... se ele gostar muito de alguém, não precisa ter medo disso. Na verdade, para mim sempre foi mais fácil. Eu saía sabendo que meus filhos estavam com alguém que eles queriam por perto.

Meus filhos.

Helena sentiu a velha fisgada.

Jonas.

Isaac.

Os filhos.

Ela também era filha de Lorena.

Biologicamente.

Em todo o resto, ainda parecia existir um asterisco.

— A Celina falou que você está preocupada em voltar a trabalhar — Lorena acrescentou.

Helena quase se irritou novamente com a quantidade de informações que Celina tinha fornecido.

— Estou.

— Então isso vai fazer diferença. Você vai precisar conseguir sair de casa sem ficar se torturando. E, se o Humberto estiver feliz, você vai conseguir.

Helena olhou para a sala novamente.

Conseguia ver Heitor de perfil.

Humberto estava agora encostado nele, ainda acordado.

Seu filho. Tão pequeno que ainda dependia deles para absolutamente tudo.

— Eu não quero que ele se sinta abandonado.

A frase saiu baixa.

Lorena não ouviu o que havia por baixo.

— Ele não vai.

Helena fechou os olhos.

— Como você sabe?

— Porque ele vai estar com alguém que ele conhece. Alguém de quem gosta. Você vai sair, ele vai ficar bem e—

Helena sentiu alguma coisa se partir.

Não de maneira explosiva.

Pior.

Devagar.

Porque era exatamente isso.

Exatamente.

Ela tinha ficado com pessoas que conhecia. Pessoas de quem gostava. Pessoas que a amavam profundamente.

Tinha ficado bem e Lorena tinha ido.

Duas vezes.

Na segunda, conscientemente.

Porque encontrou uma filha apegada aos avós e transformou aquele amor numa razão para não levá-la.

Helena sentiu os olhos arderem.

— Lorena...

A mãe parou.

— Oi?

Helena abriu a boca.

Nada saiu.

Do outro lado, Lorena esperou.

Helena poderia perguntar.

Foi assim comigo?

Poderia finalmente fazer aquela pergunta de outra maneira.

Você conseguiu ir embora porque eu gostava deles?

Porque eu não chorei o suficiente?

Porque eu estava feliz?

Porque meu avô me pegava no colo e eu ficava bem?

A ideia seguinte foi ainda pior.

Se a pequena Helena tivesse chorado quando Lorena tentou sair...

Ela teria ficado?

Helena apertou os olhos.

Não queria pensar nisso.

— Helena? — Lorena chamou novamente.

— Estou aqui.

— Eu falei alguma coisa?

Sim.

Um monte.

Sem saber.

— Não.

— Tem certeza?

Helena demorou.

— Tenho.

Lorena ficou quieta.

Helena conhecia aquele silêncio.

Era o momento em que a mãe começava a procurar a porta de saída. Sempre que percebia resistência, recuava. Como se ainda tivesse medo de qualquer movimento errado fazer Helena fechá-la para sempre.

— Eu só queria ajudar — disse finalmente.

E aquilo foi quase pior que todo o resto.

Porque Helena acreditava nela.

— Eu sei. — sua voz saiu mais baixa. — De verdade.

Lorena respirou do outro lado.

— Quando a Celina comentou, eu lembrei dos meninos. Pensei que talvez tivesse alguma coisa que eu pudesse te contar que ajudasse.

Dos meninos.

Claro.

Ela tinha experiência.

Tinha criado Jonas. Tinha criado Isaac. Tinha entrevistado babás, sentido ciúme, aprendido a sair, voltado para casa, acompanhado os filhos crescerem.

Lorena tinha sido mãe. Só não tinha sido aquela mãe para Helena.

— Ajudou — Helena disse.

E dessa vez não era completamente mentira.

Porque, por mais que tivesse despertado tudo aquilo, Lorena tinha mostrado uma coisa que Helena não conseguia ignorar.

Denise.

Tudo voltava para Denise.

O carinho.

O vínculo.

O sorriso de Humberto.

A facilidade com que ele aceitava seu colo.

E aquilo que, algumas horas antes, começava a parecer exatamente o motivo para escolhê-la agora parecia também o que mais assustava Helena.

— Então pensa nisso — Lorena disse, recuperando um pouco da animação. — Se ele já gostou de alguém, eu daria muito valor.

Helena pensou em Humberto.

— Vou pensar.

— Depois você me conta?

A pergunta veio esperançosa demais. Helena sentiu a resistência subir imediatamente.

— Quando a gente decidir.

Lorena percebeu.

— Claro.

Quando a ligação terminou, Helena continuou parada na cozinha.

O celular permaneceu em sua mão, a tela já apagada, enquanto a voz de Humberto ocupava o lugar da voz da mãe. Ela deveria simplesmente voltar para a sala. Heitor estava ali. Humberto estava ali. Tinham acabado de viver um sábado maravilhoso, talvez um dos melhores em muito tempo.

Mas Helena não conseguiu se mexer imediatamente.

O coração doía.

Não era figura de linguagem. Havia uma pressão incômoda no meio do peito, uma dor funda e conhecida que ela detestava porque sempre parecia capaz de devolvê-la a lugares para os quais não queria mais voltar.

E, naquele instante, só conseguia pensar em Lorena abandonando-a.

Helena apertou os olhos, mas isso apenas tornou as imagens mais fáceis.

Lorena tinha voltado.

Esse era o pedaço que ainda machucava de um jeito diferente. Ela não simplesmente desaparecera e nunca tivera oportunidade de escolher outra coisa. Em algum momento, voltara. Encontrara a filha pequena sendo criada pelos avós. Vira que Helena os amava, que era apegada a eles, que tinha colo, proteção, uma casa, pessoas capazes de fazê-la rir e acalmá-la quando chorava.

E fora embora outra vez.

O coração de Helena apertou ainda mais.

Porque agora, depois daquela ligação, ela não conseguia parar de imaginar uma possibilidade que nunca havia enxergado daquela maneira.

Talvez Lorena tivesse sentido alívio.

A ideia doeu tanto que Helena precisou apoiar as duas mãos na bancada.

Talvez tivesse olhado para a própria filha e pensado exatamente o que acabara de ensinar Helena a pensar sobre Humberto.

Helena respirou pela boca, devagar, tentando aliviar a pressão no peito.

Tinha sido amada. Muito.

Nunca poderia pensar na própria infância sem reconhecer isso. Dona Olívia e o avô tinham lhe dado tudo que podiam. O avô tinha sido colo, proteção, referência e casa. Tinha sido a pessoa para quem Helena corria. Provavelmente existiram centenas de momentos dos quais ela nem se lembrava em que bastara ele pegá-la nos braços para que parasse de chorar. Mas ela ainda quis a mãe.

Esse era o pedaço que Lorena parecia não ter entendido naquela época.

Helena podia estar feliz e ainda sentir falta.

Podia amar os avós e ainda esperar que a mãe voltasse.

Podia dormir tranquila naquela casa e ainda crescer se perguntando por que não tinha sido suficiente para fazê-la ficar.

A segurança nunca tinha apagado a ausência.

Helena passou a mão pelo rosto. Os olhos ardiam agora.

E o pior era que Lorena não tinha feito nada para machucá-la naquela noite.

Tinha ligado porque queria participar. Porque Celina lhe contara alguma coisa sobre a vida da filha e, pela primeira vez em sabe-se lá quanto tempo, Lorena devia ter pensado que possuía uma experiência que poderia ser útil para Helena. Falara de Jonas e Isaac porque os criara. Porque conhecia aquele medo de deixar um bebê com outra pessoa, conhecia o ciúme, conhecia babás, conhecia a tranquilidade que vinha quando um filho se apegava a quem cuidava dele.

Ela estava tentando ser mãe de Helena agora.

E, sem perceber, tinha usado a experiência de ter sido mãe dos outros dois filhos para abrir exatamente a ferida de não ter sido mãe dela.

Helena engoliu com dificuldade.

Helena ainda estava parada diante da bancada quando ouviu os passos de Heitor.

Não teve tempo de limpar os olhos.

Ele apareceu na entrada da cozinha com Humberto no colo, uma das mãos sustentando o menino sob o corpo enquanto a outra tentava, sem muito sucesso, impedir que ele agarrasse o cordão de sua camiseta.

Humberto viu a mãe primeiro. O sorriso surgiu inteiro. Abriu a boca, soltou um gritinho contente e começou a se agitar nos braços do pai, as pernas batendo contra ele enquanto estendia uma das mãos na direção de Helena.

O coração dela doeu outra vez. Tão forte que precisou prender a respiração.

Heitor acompanhou o movimento do filho e então olhou para ela.

O sorriso que tinha no rosto desapareceu.

— Helê?

Helena desviou os olhos, mas tarde demais.

— O que aconteceu?

— Nada.

Heitor franziu a testa.

Ela sabia como estava. Os olhos cheios d'água, o rosto denunciando tudo que tentava esconder.

Humberto soltou outro som e continuou esticando o corpo para ela.

Helena não conseguiu olhar.

— Você pode levar ele para outro lugar um pouquinho?

A preocupação no rosto de Heitor aumentou, mas ele não perguntou por quê.

Olhou para o filho, depois para ela.

— Posso.

Humberto protestou quando Heitor se virou.

— Eu já volto — ele disse a Helena.

Ela assentiu.

Heitor saiu com o menino e Helena finalmente passou as mãos pelo rosto, limpando depressa as lágrimas que tinham começado a escapar.

Não era para estar daquele jeito.

Lorena não tinha feito nada.

Não naquela noite.

Tinha ligado para ajudar. Só isso.

Helena respirou fundo uma vez, depois outra, tentando empurrar de volta tudo que tinha subido tão rápido.

Não adiantou.

Ainda conseguia ouvir Humberto ao longe. A vozinha alta atravessava a mansão em sons incompreensíveis, acompanhada por outra voz, provavelmente de alguém da equipe, tentando entretê-lo.

Heitor voltou em menos de dois minutos.

Sozinho.

Entrou na cozinha e foi direto até ela.

— O que houve?

— Nada.

Dessa vez ele nem respondeu.

Apenas a abraçou.

Foi o bastante.

Helena desmoronou contra ele.

O choro veio forte, muito mais forte do que ela queria, e ela escondeu o rosto contra o peito de Heitor. Sentiu os braços dele se fecharem ao seu redor imediatamente, firmes, uma mão subindo para seus cabelos enquanto a outra percorria devagar suas costas.

— Ei... — A voz veio baixa, perto de sua cabeça. — Tá tudo bem.

Helena tentou respirar.

Não conseguiu direito.

Quanto mais tentava parar, mais chorava.

Heitor não perguntou novamente. Não tentou afastá-la para olhar seu rosto, não pediu que explicasse. Apenas continuou segurando-a enquanto ela molhava sua camiseta, os dedos dela fechados no tecido.

— Tá tudo bem, Helê — repetiu.

Helena balançou a cabeça contra ele.

Não estava.

A imagem não saía.

Ela pequena. Os avós. Lorena olhando para ela e indo embora. E Denise.

Denise recebendo o sorriso de Humberto.

Denise abrindo os braços.

Humberto feliz.

Humberto bem.

Helena apertou a camiseta de Heitor.

— Eu não quero a Denise.

A mão dele parou por um instante em seus cabelos.

Helena sentiu.

Não precisou vê-lo para saber que ele não tinha entendido. Horas antes, ela praticamente queria Denise.

— Eu não quero ela — repetiu entre o choro.

Heitor não perguntou o que Denise tinha feito.

Não lembrou que Humberto gostava dela. Não disse que Helena havia passado dias falando bem da mulher.

A mão voltou a deslizar por seus cabelos.

— Então a gente não fica com ela.

Helena chorou ainda mais.

Heitor a apertou contra si.

— Pronto.

— Eu não quero.

— Eu sei.

— Não quero ela com o Humberto.

— Tudo bem.

Não havia impaciência na voz dele. Nem sequer curiosidade naquele momento.

Só certeza.

— A gente não contrata a Denise.

Helena fechou os olhos e se agarrou mais a ele.

Ao longe, Humberto soltou outro daqueles gritinhos altos.

Ela ouviu.

E chorou contra o peito de Heitor enquanto ele continuava acariciando seus cabelos e suas costas, sem exigir que ela explicasse uma decisão que, naquele momento, nem Helena conseguiria explicar sem voltar a ser a menina que vira a mãe ir embora duas vezes.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.