O CEO que Eu Paguei
250 Gustavo - Parte II
Gustavo permaneceu alguns segundos parado diante do portão.
A mão repousava sobre a trava, mas ele não encontrava forças para abri-lo. Durante a caminhada até o portão imaginou aquele momento de maneiras diferentes. Em algumas, Amanda já não estava ali. Em outras, encontrava a casa vazia, as gavetas abertas e metade das roupas desaparecidas. Havia até um cenário que o perseguia desde a delegacia: Jonas sentado naquele sofá, esperando por ele como se já fosse o novo dono daquela casa.
Apenas imaginar aquilo fez seu maxilar travar.
Se encontrasse Jonas ali dentro...
Não sabia o que faria.
Sabia apenas que provavelmente voltaria para a mesma cela da qual acabara de sair.
Respirou fundo.
Sentia o corpo inteiro dolorido. Não era apenas cansaço. Parecia que cada músculo carregava o peso daquela madrugada. O peito doía a cada respiração, a cabeça latejava e até as mãos pareciam pesadas demais. Nunca imaginou que uma traição pudesse machucar fisicamente. Mas machucava. Cada batida do coração parecia espalhar aquela dor por dentro do próprio corpo.
Empurrou o portão.
Entrou.
A sala estava iluminada. Amanda permanecia sentada no sofá, completamente imóvel. Assim que ouviu o barulho da porta, levantou a cabeça.
Os olhos dos dois se encontraram. Por um breve instante, ninguém disse absolutamente nada.
Então Amanda levantou tão depressa que quase tropeçou no tapete. Correu em direção a ele.
Aquilo atravessou Gustavo como uma flecha.
Ela ainda corria para os braços dele.
Depois de tudo.
Depois de mentir.
Depois de outro homem.
Depois de envolver os próprios filhos.
Ela ainda vinha como sempre fazia quando ele chegava cansado do trabalho.
Instintivamente, Gustavo ergueu a mão entre os dois.
— Não. — a voz saiu firme. Muito mais firme do que ele se sentia. — Não chega perto de mim.
Amanda parou imediatamente.
Os olhos já estavam inchados de tanto chorar. A maquiagem havia desaparecido completamente. Uma das bochechas permanecia avermelhada, marcada pelo que parecia ser um tapa.
Gustavo percebeu.
E odiou perceber.
Mesmo destruído, mesmo querendo arrancá-la da própria vida, uma parte dele ainda se preocupava quando via qualquer sinal de que ela tivesse sofrido.
Aquilo só o deixou mais irritado consigo mesmo.
Amanda levou as duas mãos ao peito, tentava controlar a própria respiração.
— Gustavo... eu estava tentando descobrir como fazia pra visitar você... disseram que durante a madrugada não podia... eu ia assim que amanhecesse...
A voz quebrou completamente.
— Você... você tá bem? — ela deu mais um passo, muito pequeno, quase sem perceber. — Eu sinto tanto...
Gustavo soltou uma risada amarga. Daquelas que nascem quando a dor já ultrapassou qualquer limite razoável.
— Sente?
A encarou diretamente. Os olhos dele estavam vermelhos, mas não havia lágrimas.
Havia algo pior. Uma decepção tão profunda que parecia ter apagado qualquer brilho do seu olhar.
— Então me responde uma coisa.
Respirou fundo, precisava ouvir. Mesmo sabendo que nenhuma resposta seria suficiente.
— Por quê? — a palavra saiu quase num sussurro. — Por que você fez isso comigo? Com a nossa família?
Amanda começou a chorar de maneira desesperada, levou as mãos ao rosto. Balançava a cabeça repetidamente.
— Me perdoa… — ajoelhou-se diante dele, dem qualquer dignidade, dem qualquer orgulho. — Pelo amor de Deus… Me perdoa… Eu amo você.
Aquilo fez alguma coisa quebrar dentro de Gustavo. Ele deu um passo para trás. Como se até aquelas palavras o contaminassem.
— Ama? — a voz saiu mais alta pela primeira vez. — AMA PORRA NENHUMA!
Respirava pesado.
As lembranças das mensagens voltavam uma atrás da outra.
"Meu ex-marido..."
"Ele nunca aceitou o divórcio..."
"Você apareceu na minha vida..."
"Você é a primeira pessoa que me faz acreditar no amor..."
Cada frase queimava outra vez.
— Me mostraram tudo. TUDO! As mensagens. As mentiras. A história que você inventou sobre mim. Você transformou o pai dos seus filhos num monstro pra dormir tranquila com outro homem!
Amanda apenas chorava, não conseguia responder. Porque sabia que ele tinha razão.
Gustavo passou a mão pelo rosto com força, precisava sair dali. Precisava fazer alguma coisa antes que enlouquecesse.
— Quer saber? Que se foda.
Passou por ela. Amanda levantou imediatamente e correu atrás dele.
— Gustavo! Pra onde você vai?
Ele entrou no quarto do casal. O mesmo quarto onde haviam dormido juntos por tantos anos. O mesmo quarto onde os filhos pulavam na cama nas manhãs de domingo. Onde conversaram sobre comprar o apartamento. Onde fizeram planos.
Agora tudo parecia sujo. Abriu o guarda-roupa com tanta força que uma das portas foi arrancada da dobradiça.
Começou a puxar as roupas de Amanda, vestidos, blusas e calças. Tudo era jogado pelo quarto sem qualquer cuidado. As peças caíam pelo chão como se nunca tivessem tido importância.
— Gustavo! PARA! Por favor!
Ele nem olhava para ela. Continuava esvaziando as prateleiras.
— Vou facilitar tua vida. Pega as tuas coisas. Vai atrás do Jonas.
A maquiagem dela foi parar do outro lado do quarto. Um porta-retratos caiu da cômoda e se espatifou no chão. Era uma fotografia dos quatro na praia. Nenhum dos dois olhou.
— Amanhã cedo eu procuro um advogado. Você queria um divórcio, não era? Então vai ter. Vai atrás do teu príncipe encantado. Vai viver aquela vida maravilhosa que você inventou pra ele.
Amanda não suportou mais, correu até Gustavo. Abraçou-o por trás com toda a força que tinha.
Ele imediatamente tentou se soltar.
— ME LARGA!
Amanda apertava ainda mais e chorava compulsivamente.
— EU ERREI! EU ERREI! NUNCA MAIS VAI ACONTECER! EU JURO! EU JURO!
— ME SOLTA!
Gustavo tentava afastá-la, mas já não havia força naquele corpo. Toda a raiva que o manteve de pé desde a delegacia começou a desaparecer.
No lugar dela surgiu apenas o vazio, os joelhos fraquejaram e as lágrimas finalmente venceram.
Ele começou a chorar, não um choro contido. Mas um choro profundo e doloroso. Daqueles que fazem faltar o ar.
— Por quê...? — a pergunta saiu entre soluços. — Por que você fez isso comigo? Com a nossa família? — a voz tremia completamente. — Eu fiz tudo por você… Tudo. Eu te amei tanto… Tanto… O que foi que eu te fiz?
Tentou afastá-la novamente. Dessa vez com menos força.
— Não encosta em mim… Pelo amor de Deus… Não encosta.
A respiração falhava entre um soluço e outro.
— Eu sinto nojo. Você dormia comigo… E depois ia dormir com outro homem.
A voz endureceu por um instante. Foi a primeira vez que conseguiu dizer aquilo em voz alta.
— Você levou os meus filhos pra conhecer o amante. Os nossos filhos. Como se eu já tivesse morrido.
Amanda soltou um grito de choro, os braços afrouxaram ao redor dele.
Porque ela compreendeu que não havia pedido de perdão capaz de apagar aquela frase.
Ela não tinha traído apenas o marido.
Ela tinha destruído o lugar mais seguro que Gustavo acreditava existir no mundo.
A própria família.
— Gustavo... eu me sinto envergonhada.
Amanda mal conseguia respirar entre um choro e outro. As palavras saíam atropeladas, como se tivesse medo de que ele fosse embora antes que terminasse de falar.
— Você é um homem maravilhoso. Sempre foi. Fez tudo por mim... pelos nossos filhos... Nunca deixou faltar comida dentro de casa, nunca me tratou mal, nunca me desrespeitou. Você abriu mão de tanta coisa por nossa causa... eu sei disso. Eu sei.
Ela enxugou o rosto com as costas da mão, mas as lágrimas continuavam caindo.
— Eu... eu dei um deslize. Um deslize horrível. Eu estraguei tudo. Mas eu não quero o Jonas. Eu quero você. Sempre foi você. Eu vou sair daquele emprego amanhã. Nunca mais piso naquela campanha.
Pegou o celular do bolso com as mãos trêmulas.
— Toma. — estendeu o aparelho.
Gustavo sequer olhou.
Ela insistiu por alguns segundos, até perceber que ele não o pegaria. Então deixou o celular cair sobre a cama.
— Você pode olhar tudo. Pode ler todas as conversas. Pode bloquear quem você quiser. Eu não me importo. Se você quiser, eu troco de número. A gente muda de cidade. Eu volto para o meu emprego antigo. Eu faço qualquer coisa.
A voz tornou a falhar.
— Qualquer coisa, Gustavo... só não acaba com a nossa família.
Ele continuava sentado na beira da cama. Os cotovelos apoiados sobre os joelhos. As duas mãos escondiam parte do rosto. O choro já diminuía, mas a dor parecia crescer a cada minuto.
Quando finalmente falou, sua voz saiu cansada.
— Amanda...
Levantou os olhos para ela. Ela nunca o vira daquele jeito. Não era apenas tristeza. Era um homem completamente quebrado.
— Não tem como confiar em você.
A frase saiu quase num sussurro. Sem raiva. Sem grito. E exatamente por isso machucou muito mais.
— Não tem.
Amanda balançou a cabeça desesperadamente.
— Tem, Gustavo. Eu vou provar...
Ele a interrompeu.
— Como? Me explica. Como? — respirou fundo, tentando organizar os próprios pensamentos. — Eu olho pra você… — a voz falhou outra vez. Precisou engolir em seco antes de continuar. — ...e imagino você com outro homem.
Fechou os olhos por um instante.
— Você entende o que isso significa? Toda vez que tocar em você… Vou pensar que ele também tocou. Toda vez que você disser que me ama… Eu vou lembrar que dizia a mesma coisa enquanto me traia.
Amanda levou as mãos à boca, o corpo inteiro tremia.
— Gustavo...
— Não acabou. — ele continuou, sem elevar a voz. — Você mentiu olhando nos meus olhos. Mentiu pros nossos filhos. Fez eles esconderem uma coisa dessas de mim. Você colocou duas crianças no meio dessa história.
Os olhos dele voltaram a marejar.
— O Enzo… Você sabe o que eu senti vendo aquele menino chorar porque achava que tinha me traído?
Amanda começou a soluçar.
— Eu nunca quis machucar eles...
— Mas machucou. — a resposta veio imediatamente. — Você machucou todo mundo. Machucou eles. Machucou minha mãe. E, no fim… — olhou diretamente para ela. — ...você destruiu a única pessoa que sempre esteve do seu lado.
Amanda deu dois passos em sua direção. Dessa vez, porém, não tentou abraçá-lo. Parou a poucos metros. Sabia que perdeu esse direito.
— Eu não tenho desculpa. Não tenho. Eu fui egoísta. Achei que conseguia controlar tudo. Achei que ninguém ia descobrir. Achei que conseguia viver duas vidas.
Ela abaixou a cabeça.
— E, quando percebi o tamanho da monstruosidade que eu tinha feito... já era tarde demais.
Gustavo ouviu tudo em silêncio.
Ela ergueu novamente os olhos, havia desespero neles.
— Eu não peço que você esqueça. Nem que confie em mim amanhã. Eu só estou pedindo uma chance de passar o resto da minha vida tentando consertar o que eu destruí. Se você mandar eu dormir no chão, eu durmo. Se mandar eu sair daquele emprego, eu saio. Se mandar eu fazer terapia, eu faço. Se quiser controlar meu celular pelo resto da vida… Eu deixo. Porque eu mereço. Tudo isso.
Ela respirou fundo, a voz saiu quase sem força.
— Mas, por favor… Não desiste da gente hoje.
Gustavo permaneceu olhando para ela durante vários segundos. Depois desviou os olhos para o porta-retrato quebrado no chão. A fotografia dos quatro continuava ali, coberta por pequenos cacos de vidro.
A imagem estava inteira. O vidro é que havia quebrado. Ele ficou observando aquilo por um longo tempo.
Então voltou a encará-la.
— Você sabe qual é o problema?
Amanda esperou.
— Eu ainda amo você.
Ela sentiu um fio de esperança nascer. Mas ele continuou antes que ela pudesse dizer qualquer coisa.
— E é exatamente por isso que dói tanto. Porque, se eu não te amasse mais… Era só mandar você embora. Mas eu amo. E, mesmo assim… Não sei se consigo olhar para você sem lembrar de tudo que descobri hoje.
A voz dele tornou a falhar.
— Eu queria voltar algumas horas no tempo. Queria voltar para quando a minha maior preocupação era escolher onde a gente ia hoje. Queria voltar para antes de descobrir que a mulher da minha vida tinha deixado de ser só minha fazia muito tempo.
Ele passou lentamente a mão pelos olhos.
— Eu não sei o que vai acontecer com a gente, Amanda. E essa é a primeira vez, desde que te conheci, que eu realmente não sei.
Amanda não conseguia responder.
Nenhuma promessa seria capaz de devolver ao marido a segurança que ele tivera ao longo daqueles anos. O casamento deles sempre foI um lugar de paz. Ela havia transformado aquele lugar em um campo de batalha.
Os dois permaneceram olhando um para o outro por longos segundos.
Gustavo parecia exausto.
As lágrimas haviam parado de cair, mas seu rosto continuava molhado. Era como se ele tivesse chorado tudo o que podia e agora só restasse aquele vazio que sucede uma dor grande demais.
Amanda respirou fundo antes de voltar a falar.
— Eu sei que você não acredita em nada do que eu digo.
Ele não respondeu.
— E eu entendo.
Ela enxugou novamente o rosto.
— Se fosse o contrário... se eu descobrisse que você tinha outra mulher... que apresentou ela para os nossos filhos... que mentiu durante meses... eu também não acreditaria em uma palavra sua.
Gustavo fechou os olhos. Ouvir aquilo da boca dela era cruel. Porque confirmava que Amanda sabia exatamente o tamanho do que fizera.
— Eu não tenho defesa.
Continuou ela.
— Não existe justificativa. Você nunca foi um marido ruim. Nunca me faltou respeito. Nunca me faltou carinho. Eu poderia inventar mil desculpas... dizer que a rotina mudou, que a campanha me deslumbrou, que eu estava confusa… — ela balançou lentamente a cabeça. — Mas nenhuma dessas coisas apaga o fato de que eu escolhi mentir para você.
Gustavo soltou o ar devagar.
— Finalmente uma verdade.
Amanda abaixou os olhos, aquela frase doeu. Mas ela a aceitou. Porque sabia que a merecia.
— Eu estraguei a confiança que você tinha em mim. E talvez eu nunca consiga recuperar isso. Mas eu queria que você soubesse de uma coisa. — ergueu novamente o rosto. — Em nenhum momento eu deixei de amar os nossos filhos. Nem deixei de amar você.
Gustavo levantou a cabeça devagar. Havia incredulidade em seus olhos.
— Não fala isso. — a voz dele saiu baixa. Quase cansada. — Não usa essa palavra agora.
Ela estremeceu.
— Mas é verdade...
— Não. — ele balançou a cabeça. — Amar não é só sentir alguma coisa. Amar é escolher. Todo dia. Mesmo quando aparece alguém mais bonito. Mais rico. Mais interessante.
Ele respirou fundo.
— Eu escolhi você todos os dias. Quando a gente não tinha dinheiro. Quando o carro quebrava. Quando você engravidou do Enzo e eu larguei a faculdade. Quando seu pai te expulsou de casa. Quando nasceu o Théo. Quando eu trabalhava o dia inteiro e chegava cansado. Eu escolhi você.Todo santo dia. — a voz dele voltou a embargar. — Você… Você me amava enquanto escolhia outro homem.
Amanda começou a chorar outra vez, não havia resposta para aquilo. Porque Gustavo não estava exagerando. Estava apenas dizendo a verdade.
— Eu não espero que você me perdoe hoje. Nem amanhã. Nem daqui um mês. Mas, por favor… Não decide tudo agora. Você está machucado. Está com raiva. Eu sei. — ela levou a mão ao peito. — Eu também estou destruída. Mas por culpa minha. A diferença é essa. Você está sofrendo por algo que eu fiz. Eu estou sofrendo pelas consequências das minhas escolhas.
Gustavo permaneceu em silêncio. Ela respirou profundamente.
— Se amanhã você ainda quiser que eu vá embora… Eu vou. Não vou fazer escândalo. Não vou brigar por casa. Não vou brigar por dinheiro. Não vou usar os meninos contra você. Porque eu perdi o direito de exigir qualquer coisa. A única coisa que eu peço… É que, antes de acabar com tudo… Você durma. Pense. Pelos nossos filhos. Pela nossa história. Nem que seja só por eles.
Gustavo ficou olhando para o chão. A fotografia quebrada continuava entre os dois.
Ele se abaixou lentamente, recolheu a moldura com cuidado para não cortar os dedos e ficou observando a imagem dos quatro sorrindo na praia.
Enzo ainda era pequeno. Théo mal conseguia andar. Amanda estava abraçada nele.
Naquele retrato, eles pareciam invencíveis. Ele passou o polegar sobre o vidro rachado.
— Engraçado… — a voz saiu quase num sussurro. — Eu passei anos achando que o nosso casamento era a coisa mais sólida da minha vida. — sorriu sem qualquer alegria. — E descobri que só eu morava dentro dele.
Amanda levou a mão à boca para conter um soluço. Gustavo colocou a fotografia sobre a cômoda e se levantou devagar.
Já não havia força para discutir. Nem para gritar. Nem para chorar outra vez. Olhou para ela pela última vez naquela noite.
— Eu não vou decidir nada agora. Porque eu não consigo. Minha cabeça não funciona mais. Mas eu também não consigo dividir a mesma cama com você.
Amanda assentiu imediatamente. As lágrimas voltaram a escorrer.
— Eu entendo.
— Não. — ele respondeu com uma tristeza que parecia infinita. — Você entende agora. Se tivesse entendido antes… A gente não estaria vivendo isso.
Sem esperar resposta, Gustavo passou por ela e seguiu até a porta e então parou por alguns segundos diante dela.
Ele respirou profundamente, levou a mão ao bolso da calça e fechou os dedos sobre um pequeno objeto de metal.
Quando abriu a mão, a aliança dourada repousava sobre sua palma.
Durante alguns instantes apenas a observou.
Quantas vezes girara aquela aliança distraidamente enquanto dirigia? Quantas vezes a beijou antes de sair para trabalhar? Quantas vezes olhou para ela com orgulho por representar a família que sempre sonhara construir?
Agora parecia apenas um pedaço de metal.
Sem dizer nada, caminhou de volta até Amanda e estendeu a mão.
Ela olhou para a aliança e, imediatamente, começou a balançar a cabeça.
— Não… — a voz saiu desesperada. — Gustavo, não faz isso...
Ele continuou com a mão estendida.
— Pega.
— Não. — as lágrimas voltaram a escorrer. — Por favor... não tira a aliança.
Ele deu um sorriso pequeno. Tão triste que Amanda sentiu o peito apertar.
— Faz sentido eu continuar usando isso?
Perguntou sem alterar a voz. Olhou para a própria mão esquerda. A marca mais clara onde a aliança permaneceu durante tantos anos ainda estava ali.
— Isso aqui simbolizava um compromisso. Uma escolha. Uma confiança. — ele fechou lentamente os dedos ao redor da joia. — Hoje eu descobri que esse significado existia só para mim.
Abriu novamente a mão.
— Então pega. Porque ela já não significa mais nada.
Amanda não conseguiu, permaneceu imóvel. As mãos tremiam tanto que ela sequer conseguia esticá-las.
Gustavo então colocou delicadamente a aliança sobre a cômoda. Ao lado do porta-retrato quebrado. As duas coisas pareciam pertencer uma à outra.
Uma fotografia rachada.
Uma aliança abandonada.
Os restos de um casamento.
Ele respirou fundo, o corpo inteiro parecia pesado. Caminhou até a janela, olhou rapidamente para a garagem e depois voltou para o guarda-roupa.
Abriu uma das portas.
Começou a retirar algumas camisetas.
Depois calças.
Algumas peças íntimas.
Jogava tudo sobre a cama sem qualquer organização.
Amanda demorou alguns segundos para entender o que ele estava fazendo.
Quando entendeu, o desespero voltou.
— Gustavo… — ela se aproximou. — O que você está fazendo?
Ele continuou dobrando uma camisa.
— Arrumando minhas coisas.
— Pra quê?
— Vou embora.
Amanda sentiu as pernas enfraquecerem.
— Não.
Ele nem levantou os olhos. Continuava colocando roupas sobre a cama.
— Eu vi o carro na garagem. Você fica com ele. Fica com a casa também.
A voz permanecia completamente sem emoção. Como se estivesse apenas resolvendo um problema prático.
— Não quero discutir quem fica com o quê.
Amanda segurou o braço dele.
— Gustavo, olha pra mim.
Ele parou por um instante. Mas não a olhou. Ela apertou o braço dele com força.
— Você vai pra onde?
— Pra casa da minha mãe. Os meninos estão lá. Vou ficar com eles.
Amanda balançou a cabeça desesperadamente.
— Não. Você fica aqui. A gente conversa. A gente resolve isso.
Ele soltou lentamente o braço das mãos dela. Apenas afastando aquele contato que agora lhe parecia insuportável.
— Resolver o quê? — perguntou, finalmente encarando-a. Os olhos continuavam vermelhos, cansados. — Tem alguma coisa pra resolver? Você escolheu outro homem.
As palavras saíram baixas. Mas cada uma parecia carregar toneladas.
— Eu descobri pela boca dos meus filhos que minha esposa tinha outra vida. Descobri por mensagens que virei um ex-marido violento na história que você contou. Passei a noite numa delegacia. Fui humilhado na frente da cidade inteira. — respirou fundo. — O que exatamente você quer conversar?
Amanda começou a chorar outra vez.
— Eu quero salvar o nosso casamento.
A resposta veio imediata.
— Eu também queria.
O silêncio caiu entre os dois. Gustavo voltou a guardar as roupas.
— A diferença é que eu queria isso ontem. Antes de descobrir quem você era.
Amanda levou as mãos ao rosto.
— Eu ainda sou a mesma pessoa.
Ele parou. Virou-se lentamente. Havia uma tristeza tão profunda em seu olhar que Amanda preferiria vê-lo gritando.
— Não. — respondeu quase num sussurro. — A mulher com quem eu me casei jamais teria feito o que você fez.
Então abaixou a cabeça e voltou a arrumar a mala.
Naquele momento, Gustavo não estava abandonando apenas aquele quarto.
Estava tentando encontrar uma maneira de sobreviver ao fato de que a pessoa que mais amara na vida inteira já não existia para ele da forma como existira até o dia anterior.
Gustavo terminou de arrumar as poucas roupas sem dizer mais nada.
O quarto permanecia em completo silêncio, interrompido apenas pelos soluços de Amanda. Ele pegou o celular, abriu novamente o aplicativo de transporte e, antes de confirmar a corrida, ficou alguns segundos olhando para o endereço de destino.
Dessa vez conferiu duas vezes.
Não cometeria o mesmo erro da delegacia.
Digitou o endereço da casa da mãe.
Leu rua, número e bairro lentamente.
Só depois confirmou.
Guardou o celular no bolso.
Amanda acompanhava cada movimento dele como quem assistia alguém partir para sempre.
— Gustavo... por favor...
Ele não respondeu.
Continuou recolhendo as últimas coisas espalhadas pelo quarto. Uma necessaire, algumas camisetas, um carregador de celular. Pegou duas mochilas que estavam no alto do guarda-roupa e começou a acomodar tudo ali dentro.
Ela limpou o rosto rapidamente e se aproximou outra vez.
— Não vai embora assim… — a voz saía entrecortada. — A gente pode dormir em quartos separados. Eu vou embora amanhã cedo, se você quiser. Mas fica essa noite. Por favor.
Ele fechou um dos zíperes sem sequer levantar a cabeça.
O aplicativo vibrou no bolso.
O motorista chegaria em dois minutos.
Amanda percebeu.
O desespero tomou conta dela.
— Gustavo… Olha pra mim. Você não pode sair dessa casa. Essa é a sua casa também.
Ele permaneceu ajoelhado ao lado da cama, terminando de organizar as mochilas.
— Não é mais.
A resposta saiu baixa. Mas definitiva.
Levantou-se devagar.
Pegou um boné que estava pendurado atrás da porta do quarto. Colocou-o na cabeça. Puxou a aba para frente.
Não queria ser reconhecido. Não queria que ninguém visse seu rosto. Muito menos naquela noite.
Amanda voltou a se aproximar.
Quando ele colocou uma mochila em cada ombro, ela segurou as alças.
As duas mãos apertavam o tecido com força.
Como se, impedindo aquelas mochilas de saírem do lugar, também impedisse Gustavo de ir embora.
— Não faz isso comigo… — ela chorava compulsivamente. — Por favor… Não vai. Eu imploro. A gente consegue consertar. Eu faço qualquer coisa. Qualquer coisa.
Gustavo fechou os olhos por um instante.
O peito doía.
Ouvir Amanda implorando era quase tão doloroso quanto descobrir a traição.
Porque uma parte dele queria acreditar.
Queria largar as mochilas.
Abraçá-la.
Fingir que tudo aquilo tinha sido um pesadelo.
Mas outra parte...
A parte que passou a madrugada inteira lendo mensagens, ouvindo os filhos e tentando entender onde perdera a própria família...
Essa já não conseguia permanecer naquela casa.
Respirou fundo.
Segurou firme uma das alças.
Deu um único puxão para libertar a mochila das mãos dela.
Amanda perdeu o equilíbrio por um instante.
O susto estampou seu rosto.
Gustavo imediatamente sentiu o coração apertar.
Nunca, em todos aqueles anos, precisara usar força para afastá-la.
Nunca.
Aquilo o machucou profundamente.
Mas não voltou atrás.
Apenas colocou novamente as duas mochilas nas costas.
Sem dizer mais nada, caminhou até a porta do quarto.
Amanda o seguiu.
— Gustavo! Por favor! Não faz isso!
Ele continuou andando. Atravessou o corredor. Passou pela sala onde tantas vezes os quatro haviam assistido filmes juntos. Pela cozinha onde tomavam café nas manhãs de domingo. Cada cômodo parecia lhe lembrar de uma vida que deixara de existir.
Abriu a porta de entrada.
O carro de aplicativo acabava de estacionar em frente ao portão. Quando ergueu os olhos, percebeu que não era apenas o motorista que o aguardava. Algumas casas da rua estavam com as luzes acesas. Vizinhos permaneciam nos portões. Outros observavam pelas janelas. Alguns seguravam o celular discretamente nas mãos.
Não era difícil imaginar o motivo. A notícia já estava em toda parte. O homem que tentara invadir a casa do empresário. O marido traído. O nome dele deixara de pertencer apenas ao bairro. Sentiu uma vergonha tão grande que abaixou ainda mais a aba do boné.
Naquele momento, não queria ser Gustavo. Não queria ser reconhecido. Não queria que ninguém enxergasse o rosto de um homem que, poucas horas antes, acreditava ter a família perfeita.
Amanda parou na porta.
Ainda chorava.
— Gustavo...
Ele não respondeu. Nem olhou para trás.
Abriu o portão, caminhou até o carro e colocou as mochilas no porta-malas.
Entrou no banco traseiro. A porta se fechou com um som seco. Pela janela, viu Amanda parada na entrada da casa. Descalça. Abraçada ao próprio corpo. Chorando sozinha sob a luz da varanda.
Durante muitos anos, aquela era a imagem que o esperava quando voltava do trabalho.
Naquela madrugada, porém, Gustavo apenas desviou os olhos.
Porque, se continuasse olhando, talvez encontrasse forças para voltar.
E ele sabia que voltar, naquele momento, seria apenas mais uma maneira de adiar uma dor que já não podia ser evitada.
Quando Gustavo chegou à casa da mãe, ainda era madrugada.
Mal conseguiu tocar a campainha. Dona Terezinha já estava acordada, esperando por ele havia horas. Assim que abriu a porta, os dois apenas se olharam. Bastou aquilo para que ela começasse a chorar novamente.
— Meu filho...
Ela o abraçou com força.
Gustavo permaneceu imóvel por alguns segundos. O abraço da mãe tinha o mesmo cheiro de infância, de domingos em família, de tempos em que os problemas pareciam pequenos demais para machucar de verdade. Naquela noite, porém, nem aquele colo conseguia aliviar o peso que carregava.
— O advogado ligou depois que você saiu da delegacia. — disse ela entre lágrimas. — Falou que você seria liberado. Eu queria ir te buscar... queria tanto... mas não tinha com quem deixar os meninos.
Gustavo apenas assentiu.
Já não tinha energia para dizer que entendia.
Entrou devagar.
A casa estava silenciosa, pequena e aconchegante. Tão diferente da sua, que agora parecia um lugar onde ele talvez nunca mais conseguisse voltar a morar.
A mãe fechou a porta e caminhou ao lado dele.
Parecia insegura. Como se não soubesse o que podia ou não dizer. No fim, resolveu contar.
— Filho… Enquanto você estava na delegacia… Aquele rapaz apareceu lá.
Gustavo parou. Sentiu o estômago afundar.
— Quem? — perguntou, mesmo sabendo a resposta.
— O Jonas.
Ela respirou fundo.
— Pelo que a mulher me contou, ele foi atrás da Amanda. Houve uma discussão... e essa mulher acabou batendo nela, não me lembro o nome dela.
Gustavo fechou os olhos. Cada informação parecia abrir uma ferida diferente. Então era verdade. Jonas esteve dentro da sua casa. Dentro da casa onde ele criara os filhos.
No mesmo lugar onde, poucas semanas antes, haviam comemorado a promoção de Amanda com um bolo simples e sorvete de morango.
Passou lentamente a mão pelo rosto. Já não sabia mais qual lembrança doía mais.
— Filho… — a mãe segurou delicadamente seu braço. — Você precisa comer alguma coisa. Esquento uma comida.
Ele balançou a cabeça.
— Não consigo. Nem sinto fome. — a voz saiu completamente sem vida. — Eu só queria tomar um banho.
Dona Terezinha assentiu.
Não insistiu.
Conhecia o filho.
Sabia que, quando Gustavo sofria, primeiro se fechava.
Depois encontrava forças para falar.
Ele entrou no banheiro e deixou a água cair durante muito tempo.
Quente.
Quase queimando.
Esfregou o rosto inúmeras vezes.
Os braços.
O peito.
Como se pudesse lavar tudo o que acontecera naquela noite.
Mas não importava quantas vezes passasse o sabonete sobre a pele.
A sensação permanecia.
Sentia-se humilhado.
Traído.
Insuficiente.
Saiu do banho muito tempo depois.
Vestiu uma roupa e caminhou até o quarto onde os filhos dormiam. A porta estava entreaberta. Os dois finalmente haviam pegado no sono. Enzo permanecia abraçado ao skate e Théo dormia com uma pelúcia apertada contra o peito. Aquela cena fez Gustavo sentir um aperto quase insuportável.
A mãe aproximou-se devagar.
Falava baixo para não acordá-los.
— Eles demoraram muito pra dormir. Perguntavam por você o tempo todo. Perguntavam pela Amanda. Eu inventei qualquer desculpa. Disse que vocês estavam resolvendo coisas de adulto.
Gustavo permaneceu olhando para os filhos por longos minutos. Depois saiu sem fazer barulho.Foi até a sala.
Deitou-se no sofá. Não conseguia dormir.
O silêncio da casa era quebrado apenas pelo zumbido do celular sobre a mesa de centro.
A tela acendia a todo instante.
Amanda.
Outra mensagem.
Depois outra.
Depois outra.
Chamadas perdidas.
Áudios.
Mais mensagens.
Ele não teve coragem de ler nenhuma.
Pegou o aparelho.
Olhou o nome dela iluminando a tela mais uma vez.
Desligou o celular.
A sala voltou ao silêncio.
Gustavo permaneceu encarando o teto.
Não conseguia organizar os pensamentos.
O advogado.
O divórcio.
Os filhos.
A casa.
O trabalho.
A promoção.
Amanda.
Tudo parecia misturado dentro da própria cabeça.
Quando a claridade da manhã começou a atravessar as cortinas, ele percebeu que não havia dormido um minuto sequer.
Ligou novamente o celular apenas para mandar uma mensagem ao trabalho.
"Júnior, estou com um problema pessoal muito sério. Não vou conseguir ir hoje. Me desculpa."
A resposta veio quase imediatamente.
"Não se preocupe. Cuida de você e da sua família. Quando estiver pronto para voltar, conversamos."
Gustavo soltou o ar devagar. Talvez, por enquanto, a notícia ainda não tivesse chegado à empresa. Era um pequeno alívio em meio ao caos.
Ouviu então passos rápidos pelo corredor, pequenos e apressados. Logo depois, a voz que conhecia melhor do que qualquer outra.
— Papai!
Théo apareceu correndo e praticamente se jogou sobre ele. Gustavo o segurou no colo por instinto. Abraçou o filho com tanta força que precisou tomar cuidado para não machucá-lo.
Sentiu o menino tremer. Segundos depois, Théo começou a chorar. Um choro sentido. Daqueles que uma criança tenta segurar, mas não consegue.
— Papai… Você tava na cadeia? Foi culpa minha?
Aquelas palavras atravessaram Gustavo. Ele apertou ainda mais o filho contra o peito. Beijou repetidas vezes os cabelos dele.
— Não, meu garoto. Não foi culpa sua. O papai só precisou resolver umas coisas. Tá tudo bem.
Théo levantou o rosto. Os olhos estavam completamente vermelhos.
— Papai… O que tá acontecendo? O Jonas foi lá em casa… Aquela mulher bateu na mamãe… Por quê?
Gustavo fechou os olhos por um instante. Não existia resposta simples para aquilo. Nenhuma criança de cinco anos deveria fazer uma pergunta dessas.
Respirou profundamente. Depois colocou Théo no chão. Segurou delicadamente sua mão.
A voz saiu calma. Muito diferente da tempestade que existia dentro dele.
— Vamos acordar o seu irmão.Os dois precisam saber de algumas coisas. E eu prometo que vou contar a verdade pra vocês. Porque o papai nunca mais quer que vocês precisem guardar segredo de ninguém.
Os dois caminharam em silêncio até o quarto. Théo continuava segurando a mão do pai com força, como se tivesse medo de que ele desaparecesse outra vez.
Gustavo aproximou-se da cama de Enzo e passou delicadamente a mão pelos cabelos do menino.
— Filho...
Enzo se mexeu devagar. Abriu os olhos ainda sonolento. Quando reconheceu o pai, levantou tão rápido que quase bateu a cabeça na parede.
— Pai!
Pulou da cama e o abraçou com toda a força que conseguiu. Gustavo o envolveu nos braços imediatamente. Por alguns segundos, apenas permaneceu abraçado ao filho. Sentindo o coração pequeno bater acelerado contra o seu peito.
— Você tá bem? — perguntou Enzo, afastando um pouco o rosto para olhá-lo. — A vovó falou que você ia voltar.
O menino respirou fundo antes de criar coragem para fazer a pergunta que o atormentava.
— É verdade que você foi preso?
Gustavo sorriu de maneira triste. Passou a mão pelo rosto do filho.
— Tá tudo bem, campeão. O papai precisou resolver umas coisas. Mas já passou.
Enzo pareceu aliviado. Ainda assim, não soltou o pai. Só depois de alguns segundos voltou para a cama.
Gustavo puxou uma cadeira e sentou-se de frente para os dois. Théo subiu na cama do irmão.
Os dois o olhavam em silêncio.
Esperando.
Ele respirou profundamente. Nunca imaginou que precisaria ter aquela conversa. Muito menos com crianças tão pequenas. Passou alguns segundos procurando as palavras certas.
— O papai precisa explicar uma coisa importante pra vocês.
Os dois assentiram.
— Vocês sabem que o papai e a mamãe são casados.
Os dois responderam ao mesmo tempo.
— Sabemos.
— Sim.
Gustavo fez um pequeno gesto afirmativo.
— Quando duas pessoas são casadas... elas fazem uma promessa. Prometem cuidar uma da outra. Respeitar uma à outra. E prometem que não vão ter namorado ou namorada enquanto estiverem casadas.
Enzo prestava atenção sem piscar. Théo balançava as pernas sentado na cama.
— Às vezes… Os adultos erram. E a mamãe… Errou.
A voz dele quase falhou. Precisou respirar outra vez.
— A mamãe acabou tendo um namorado mesmo sendo casada comigo.
Enzo abaixou lentamente a cabeça. Como se finalmente entendesse por que a mãe pedira segredo. Depois de alguns segundos, falou bem baixinho.
— Eu falei pra ela que não podia.
Gustavo sentiu os olhos marejarem. Levantou-se da cadeira, aproximou-se do filho e bagunçou carinhosamente seus cabelos.
— Eu sei que falou. E você estava certo.
Enzo olhou para o pai.
— Eu queria contar. Mas a mamãe falou que você ia ficar bravo.
Gustavo se ajoelhou diante dos dois.
— Escuta uma coisa.
Os dois prestaram atenção.
— O papai nunca vai ficar bravo com vocês por contarem a verdade. Nunca. Mesmo que vocês achem que eu vou ficar triste. Mesmo que alguém peça segredo. Vocês podem contar pra mim. Sempre. Porque vocês são meus filhos. E eu vou proteger vocês.
Os dois meninos apenas o observavam. Tentando entender aquele mundo de adultos que, de repente, deixara de fazer sentido. Théo levantou a mão timidamente.
— Papai… Cadê a mamãe?
A pergunta fez Gustavo abaixar os olhos. Demorou alguns segundos para responder.
— Ela está em casa.
Théo franziu a testa.
— E a gente?
Gustavo respirou fundo.
— Por enquanto, vocês vão ficar aqui comigo e com a vovó. Talvez… Talvez o papai e a mamãe precisem ficar um tempo separados.
Os dois meninos ficaram em silêncio.
Enzo foi o primeiro a falar.
— Vocês vão separar?
A pergunta parecia pesada demais para uma criança de nove anos.
Gustavo passou a mão pelo rosto.
Queria responder que não.
Queria prometer que tudo voltaria ao normal.
Mas, pela primeira vez na vida, não tinha uma resposta que pudesse dar aos filhos.
Olhou para os dois.
— Eu ainda não sei.
E essa foi a verdade mais difícil que já precisou dizer.
Théo imediatamente começou a chorar.
— Eu quero a mamãe...
Gustavo puxou os dois para perto ao mesmo tempo.
Abraçou Enzo com um braço.
Théo com o outro.
Os três permaneceram assim por longos segundos.
— Escutem bem o que o papai vai falar.
Os dois levantaram o rosto.
— Tem uma coisa que nunca vai mudar. Nunca. Não importa o que aconteça entre eu e a mamãe. Vocês continuam sendo as pessoas mais importantes da nossa vida. Eu amo vocês. E tenho certeza de que a mamãe também ama. Isso nunca vai mudar. Nunca.
Enzo respirou fundo.
Os olhos voltaram a encher de lágrimas.
— A culpa foi nossa?
Gustavo sentiu o coração apertar. Aquela pergunta era exatamente o que ele mais temia ouvir. Segurou o rosto dos dois filhos entre as mãos. Olhando primeiro para Enzo. Depois para Théo.
— Escutem muito bem o papai. A culpa não foi de vocês. Nem um pouquinho. Vocês não fizeram nada de errado. Nada. Isso é um problema de adultos. Foi uma decisão de adultos. Vocês continuam sendo os melhores filhos que um pai poderia ter. E nunca, nunca pensem diferente disso. Os dois apenas assentiram. Ainda chorando.
Gustavo voltou a abraçá-los.
Enquanto os apertava contra o peito, fez uma promessa silenciosa a si mesmo.
Amanda havia quebrado a confiança dele.
Mas não permitiria que aquela dor quebrasse também a infância dos seus filhos.
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