— Não preciso. Você ouviu bem — disse Heitor, sem mudar o tom de voz. — É exatamente isso. Estamos juntos. E achei que seria mais ético colocar isso na mesa agora, com clareza.

Eduardo tossiu de leve, coçou o colarinho.

— É… olha, doutor Heitor, eu entendo, mas… você sabe que isso fere algumas cláusulas do compliance entre empresas contratantes e prestadoras. Pode ser visto como conflito de interesses.

Heitor inclinou levemente a cabeça. Um sorriso discreto no canto da boca.

— Eu leio os contratos antes de assinar, Eduardo. E não existe cláusula que impeça funcionários da empresa cliente de se relacionarem com terceirizados — ainda mais fora do ambiente de trabalho. Nós nos conhecemos fora. Nenhum dos dois sabia quem era quem. E mesmo depois, mantivemos o profissionalismo. Estou aqui por transparência, não por obrigação.

O coordenador hesitou, claramente desconcertado.

— Claro, claro… entendo. É só… bom, nesse tipo de situação… pode haver questionamentos.

— Pode — Heitor assentiu. — E se houver, estou preparado para responder. Mas estou avisando: qualquer tentativa de assédio, pressão ou transferência indevida para cima dela… e eu rompo o contrato. Simples assim.

Gaspar arregalou um pouco os olhos.

Eduardo ficou calado por um instante.

— Desculpe, mas... posso perguntar quem é a funcionária?

Heitor ergueu levemente o queixo, os olhos afiados.

— Helena Ribeiro Campos.

A reação de Eduardo foi imediata. Uma pausa longa. Como se o nome o tivesse deixado confuso.

— A Helena...? — murmurou. — Aquela… do controle de riscos?

— Isso. — Heitor respondeu seco. — A analista de gestão de riscos. A que revisa o projeto três vezes, entrega tudo antes do prazo e gosta do que faz. Aquela Helena.

Eduardo pigarreou. Ficou visivelmente desconfortável. A tensão dominava o ar.

— Bom… é uma surpresa. Mas claro. Se isso está sendo comunicado formalmente, vamos tratar com o respeito devido.

— Vai além de respeito. — Heitor se inclinou levemente para frente, sem agressividade, mas com firmeza. — É uma advertência. Eu confio em vocês. Mas se eu descobrir que ligaram para ela, se alguém do RH insinuar algo, ou se tentarem afastá-la de forma “técnica”, a Plano perde o contrato. E eu entrego o projeto inteiro para a Projeto Mania de SP. Entraram em contato, recebi uma proposta inclusive muito interessante deles.

Eduardo empalideceu.

— Entendido. — disse, mais baixo. — Ninguém vai mexer com a senhorita Helena.

— Senhorita Helena, não. — Heitor sorriu, ainda frio. — Helena. Só Helena. Por enquanto.

Clara ainda estava sem palavras. Gaspar parecia prestes a suar pelos olhos.

Eduardo ainda estava com o colarinho meio desalinhado, os olhos tentando disfarçar a surpresa. A tela do Teams marcava um leve delay no áudio, mas não havia mais ninguém disposto a dizer nada.

Heitor, recostado na cadeira com a perna cruzada e os dedos entrelaçados, respirou fundo e soltou devagar. O ar que saiu era calmo — mas as palavras que vieram depois não deixaram dúvidas de que aquilo não era um aviso. Era um decreto.

Ele então se virou, agora olhando diretamente para Clara e Gaspar, que ainda pareciam absorver o que tinham acabado de presenciar.

— Já que estamos sendo transparentes… — a voz dele veio mais grave, mais arrastada, carregada do sotaque carioca polido que sempre usava quando queria cravar uma linha definitiva. — Quero deixar claro que aqui dentro, no nosso escritório, também não vai ter espaço pra gracinha.

Gaspar descruzou os braços, sem saber se respirava ou se congelava. Clara piscou rápido, tentando manter a compostura.

— Eu e a Helena estamos juntos — disse com firmeza, como se cada palavra fosse uma âncora cravando território. — E se eu souber de qualquer comentário desrespeitoso, qualquer insinuação, risadinha, piadinha ou intimidação…

Fez uma pausa.

Inclinou-se à frente, os cotovelos apoiados sobre a mesa de reunião, os olhos azuis fixos como navalhas.

— ...a pessoa responsável sai daqui no mesmo dia. Sem direito a recurso. Sem aviso prévio. E sem carta de recomendação. Nem minha, nem da Monteiro Inc.

O silêncio agora era diferente. Era pesado. Clara engoliu seco.

Gaspar baixou os olhos.

Heitor descruzou as mãos com calma, como se tivesse acabado de ditar a nova política da empresa — porque era exatamente isso que ele havia feito.

— Fui claro?

Clara assentiu com a cabeça, tensa.

Gaspar também. Só murmurou um "Sim, senhor" quase inaudível.

Heitor se recostou de novo, relaxando os ombros.

— Ótimo. — disse com um sorriso leve, quase irônico. — Agora sim podemos continuar com a parte técnica da reunião.

Eduardo forçou uma risada educada pela câmera. Clara tentou mexer no notebook, os dedos tremendo levemente. Gaspar ajeitou os papéis como se tivesse algum documento importante para se apegar.

Mas ninguém ali ousava abrir a boca sem permissão.

Porque agora, todos sabiam:

Helena Ribeiro Campos não era mais apenas uma funcionária competente da Plano & Forma.

Ela era a mulher do diretor.

E o diretor — aquele homem com olhar de comando e voz de aço envolta em veludo — faria o mundo cair antes de deixar que alguém a desrespeitasse.

Heitor sorriu de novo. Mas dessa vez, com gosto.

Porque naquele momento, todo mundo entendeu: quem mexesse com Helena… estava mexendo com ele.

E isso, ninguém era estúpido o bastante para fazer.