O CEO que Eu Paguei

57 Alinhamento preventivo


Helena não conseguia se mover. O beijo ainda ardia na boca dela — não pelo prazer, mas pelo peso que trouxe. O escritório inteiro tinha visto. E agora… agora ela era o assunto.

Assim que Heitor, Gaspar e Clara saíram da sala, os olhares se viraram como navalhas. Primeiro em silêncio, depois em cochichos. E então, como um bando de abutres, os colegas começaram a se aproximar, a fome de fofoca transbordando nos olhos.

Ana Alice foi a primeira.

— Ah, sabia que essa santinha não me enganava. — disse, jogando o cabelo por cima do ombro. — Agora tudo faz sentido. Os chocolates, a vistoria... As caras. Bonitinha. Esperta. Deve ter feito mágica naquele sofá.

Helena sentiu o estômago virar. O rosto esquentou. A vergonha subiu feito febre. Os olhos encheram. Mas ela se recusava a chorar ali. Não. Ali, não.

— Tá tudo bem, Helena? — perguntou uma outra colega, com uma voz doce demais para ser sincera.

Antes que ela pudesse responder, surgiram duas pessoas na porta da sala.

— Opa, licença! — disse Hugo, esbaforido, entrando com Júlia logo atrás.

Foi automático. Eles sentiram a tensão no ar.

— Que foi, morreu alguém? — perguntou Júlia, arqueando uma sobrancelha.

— Sim — comentou Ana Alice. — A reputação da Helena.

— Cala a boca, Ana Alice. — retrucou Hugo, sem nem pestanejar. — Vai cuidar do cabelo que tu retoca a cada três dias e ainda assim tá falhado.

— Hugo! — rebateu Ana Alice. — Ele ainda beijou ela aqui na sala, na frente de todo mundo.

Júlia se aproximou, pegando o copo de suco e o pacotinho de pão de queijo da mesa da Helena.

— Foi ele quem trouxe isso? — ela perguntou baixo, inclinando a cabeça para a sala do Heitor.

Helena só assentiu, engolindo o choro seco.

— Nossa… então o homem tá apaixonado, hein. — disse Júlia, sorrindo de canto. — Porque CEO nenhum entrega suco e doce antes de destruir a funcionária. E ainda beija? Não parece que ele fez por maldade.

— Pois pra mim foi exposição. — Helena explodiu, com o tom de voz baixo. — Eu pedi. Eu falei pra ele não fazer isso. Eu implorei pra ele não me colocar nessa posição.

Hugo fez sinal para todos se afastarem. Júlia pegou na mão da Helena e puxou:

— Vem. Vamos sair daqui.

Eles entraram numa sala de arquivo mais afastada. Assim que a porta fechou, Helena desabou. Sentou no chão, os ombros tremendo.

— Ele destruiu tudo. — disse, entre soluços. — Agora eu vou ser a piada da empresa. A funcionaria da terceirizada que deu pro CEO. A vadia da Plano.

— Ei, ei… — Hugo se ajoelhou ao lado dela. — Não fala assim.

— Eu lutei tanto pra ser reconhecida. Eu nunca fui privilegiada em nada. Mas aqui, na Monteiro Inc., eu finalmente estava sendo respeitada. E agora… agora vão olhar pra mim como a f0da do escritório.

— E qual o problema? — disse Hugo. — Vai ver foi a melhor foda da vida dele. Uma f0da revolucionária. Deixou o homem burro de amor. Ele nem sabe mais ser CEO.

— Hugo! — chamou Júlia, repreendendo com o olhar.

— Tá, tá. Desculpa. Mas não chora mais não, amiga. Olha… se ele fez isso na frente de todo mundo, talvez tenha sido pra assumir você. Pra mostrar que não é só f0da.

— Mas eu não pedi isso. Eu só queria ficar com ele em paz. Sem fofoca. Sem drama. Só a gente.

— O problema — disse Júlia, pegando uma folha de papel pra entregar a ela — é que você se envolveu com um homem que não sabe fazer as coisas pela metade.

Helena olhou para os dois, os olhos marejados.

— Eu não sei porque me envolvi com ele. Ele me tira do sério. Ele é intenso demais. Ele é… tudo que eu nunca quis — ela falou, mas sabia que não era verdade — Mas quando ele me olha… eu esqueço tudo. Quando ele me toca… — ela pausou. — Eu sinto que vou me dissolver.

Hugo a encarou, sério.

— Você gosta dele?

Helena engoliu em seco.

— Eu não sei. Mas o que eu sinto não é normal. É forte. E assusta.

— Então talvez ele sinta o mesmo. — disse Júlia. — Só que diferente de você, ele não esconde.

Helena fechou os olhos. Respirou fundo. Ainda havia muito o que processar. Mas pelo menos ali, naquele canto da empresa, ela não estava sozinha.

— A gente vai te ajudar. — disse Hugo, pegando na mão dela. — E se alguém mexer contigo, vai ter que passar por mim.

— Por nós. — completou Júlia, firme.

Helena sorriu, entre lágrimas.

— Obrigada. Mas não me deixem sozinha nem um segundo hoje, por favor.

— Não deixamos. Mas… depois você conta os detalhes? — sussurrou Hugo.

Ela bufou. Júlia deu um tapa nele, mas Helena… ela riu. E aquilo já era um começo.

Helena ainda estava sentada no chão após um tempo, entre caixas de arquivo e o cheiro abafado de papel velho, quando o celular do Hugo vibrou com insistência. Ele pegou o aparelho, olhou a tela e soltou um suspiro exagerado.

— É a Clara.

Atendeu com o viva-voz já ligado.

— Fala, Clara. Estamos no… setor de documentos históricos confidenciais da ONU.

— Hugo. — A voz dela veio seca, direta. — Tá com a Helena?

— Tô com ela e com a Júlia. Tudo sob controle.

— Ótimo. — ela respirou fundo. — Estamos chamando todos da equipe para uma reunião. Agora. Na sala grande. Sem exceções.

— Tá bom. A gente vai.

Ela desligou antes mesmo que ele dissesse mais alguma coisa.

Hugo olhou para as duas.

— Alguém morreu? Porque a voz dela tava de quem viu o apocalipse pela câmera de segurança.

Júlia já estava de pé, ajudando Helena a se levantar.

Helena limpou o rosto com um lenço de papel, passou a mão nos cabelos e tentou respirar fundo.

— Vamos. — disse, firme. Mas a voz ainda tremia nas bordas.

Eles atravessaram o corredor como um trio blindado. A sensação era de andar dentro de um aquário: todos olhavam, mas ninguém falava. Helena sentia os olhos queimarem nas costas, como se cada passo fosse registrado em ata.

A segunda sala de reunião estava montada, as persianas parcialmente fechadas, a luz filtrada com um tom branco pálido. Clara já estava lá. Sentada na cabeceira, os braços cruzados, o rosto tenso. O batom já um pouco borrado no canto da boca, o cabelo preso com força num coque que denunciava o nível de estresse.

Ela estava quase branca. Não de medo — mas de quem sabia que seria a ponte entre duas bombas-relógio.

— Sentem, por favor. Todos.

Todos obedeceram. A equipe da Plano & Forma foi se ajeitando ao redor da mesa retangular. Júlia sentou ao lado de Helena e segurou sua mão por baixo da mesa. Hugo se posicionou do outro lado, como um escudo.

Clara pigarreou. Passou a mão na blusa social e começou.

— Eu estive agora há pouco numa reunião com o senhor Heitor Monteiro, com Gaspar — representante da Monteiro Inc. — e com Eduardo Moreira, nosso coordenador de contrato e projetos.

A tensão subiu como um cheiro denso na sala.

— Durante essa reunião, o senhor Heitor foi direto ao ponto. Informou, de maneira clara e objetiva, que está em um relacionamento com uma colaboradora da Plano & Forma.

Helena sentiu a pressão sair do corpo com tanta força que o chão pareceu mais distante. A visão escureceu por um segundo. Ela piscou várias vezes.

A tonteira veio como um baque seco.

Júlia apertou sua mão. Hugo ajeitou o copo de água à frente dela.

— Respira. — sussurrou ele, sem tirar os olhos da frente.

Clara continuou, firme, no seu tom profissional de sempre — como se estivesse lendo uma ata de comitê.

— A colaboradora em questão é Helena Ribeiro Campos.

Silêncio total.

— A comunicação foi feita pelo próprio diretor, em caráter de alinhamento preventivo, e deixou claro que o relacionamento é de foro íntimo, sem interferência direta nas operações da Monteiro Inc. ou nas entregas da nossa equipe.

Ela fez uma pequena pausa. Respirou. E então o tom dela mudou. Ainda profissional, mas com um fio de aço por trás.

— O senhor Heitor Monteiro deixou claro que não tolerará qualquer tipo de comentário, piada, boato, insinuação ou atitude velada que possa desrespeitar a integridade, a privacidade ou a dignidade da colaboradora.

Alguns olhares começaram a cair sobre a mesa. Outros desviaram para o chão. Ninguém ousava respirar alto.

Clara cruzou os braços.

— E, caso algo assim aconteça, ele se comprometeu a tomar providências imediatas com base contratual. Mas… — ela fez uma pausa, os olhos agora frios como lâmina — ...vocês não vão precisar se preocupar com ele.

A sala prendeu a respiração.

— Porque se qualquer pessoa desta equipe ousar fazer qualquer tipo de gracinha ou julgamento, quem vai cuidar disso sou eu. E acreditem: eu não sou tão paciente quanto ele.

Helena engoliu em seco.

O sangue dela misturava raiva e gratidão, vergonha e orgulho, tudo ao mesmo tempo. Ela queria gritar, queria desaparecer, queria levantar e mandar todos à merda… mas também queria chorar de alívio.

Porque agora, finalmente, alguém falou por ela.

Clara olhou para Helena. E por um segundo, saiu o tom da supervisora, e entrou o da mulher que também já teve que provar mil vezes seu valor num ambiente de homens com sobrenomes importantes.

— Helena é parte fundamental da equipe. Se ela sair, o projeto colapsa. E eu não vou deixar que vocês derrubem tudo por causa de uma língua solta.

Depois, voltou a olhar para os demais:

— Alguém tem algo a dizer?

Silêncio.

— Ótimo. Reunião encerrada.

Ela levantou, ajeitou a saia reta no corpo e saiu da sala com os passos firmes de quem sabia exatamente o peso do que acabara de fazer.

Helena ficou sentada por mais alguns segundos. Ainda sentia o coração fora de ritmo. Mas quando virou para o lado, viu Júlia limpando discretamente os olhos com a manga da camisa.

— Você não tá sozinha, amiga. — ela sussurrou.

Hugo passou o braço ao redor dos ombros dela e falou com aquele jeitinho debochado de sempre:

— Agora você é literalmente a patroa da patroa. E se alguém reclamar... eu faço um boletim de ocorrência emocional.

Helena riu. Fraca, mas verdadeira.

O chão ainda parecia incerto.

Mas pela primeira vez… ela não se sentia caída sobre ele.