O CEO que Eu Paguei
195 Finalmente estou vendo você
Heitor segurava a mão de Helena com firmeza, num gesto silencioso que dizia: eu estou aqui. Mas por mais que tentasse transferir sua calma para ela, o nervosismo de Helena era insuperável. Seus olhos varriam o saguão de desembarque sem parar, como se buscassem refúgio nas portas automáticas. O coração batia tão alto que ela quase podia escutá-lo. Não sabia o que diria, nem como explicaria. Também não sabia o que escutaria — e isso a deixava ainda mais ansiosa.
Até que ela apareceu.
Aos poucos, sendo amparada por uma moça gentil da equipe do aeroporto, Dona Olívia surgiu: uma senhora miúda, mas de presença grande. Usava uma saia rosa desbotada que ia até os pés, uma blusa preta com lantejoulas cintilando no busto e um lenço colorido bem bonito na cabeça. Conversava animadamente com a moça ao lado, sem perceber o turbilhão à sua espera.
Helena soltou a mão de Heitor como se não conseguisse mais conter o que estava represando. Levou as mãos ao rosto, e, num rompante emocional, começou a andar depressa, até correr. Parecia que uma vida inteira estava engasgada no peito.
A moça ao lado de Dona Olívia fez um gesto sutil na direção de Helena. Quando a avó virou o rosto e viu a neta, seu sorriso se abriu largo, rasgando o tempo e a saudade de uma vez só. Os olhos se encheram de lágrimas, e ela abriu os braços, mesmo antes de Helena chegar perto.
O abraço das duas foi tão apertado que parecia tentar apagar a distância dos meses e de tudo o que aconteceu neles.
Helena desabou.
Chorava como uma criança que finalmente volta para casa. Não era só saudade. Era dor, culpa, medo, alívio — era tudo. E com Dona Olívia, ela podia chorar. Ali, era seguro.
A avó, com aquele instinto firme de quem criou Helena nos braços, puxou-a ainda mais para si, passando a mão devagar pelas costas da neta, como se estivesse tentando acalmar o coração acelerado com o toque.
— Que foi isso, minha filha? — sussurrou com a voz rouca e carregada de afeto. — Fala pra vó… o que aconteceu?
Helena não respondeu. Apenas continuou ali, encharcando a blusa da avó de lágrimas.
Dona Olívia se afastou um pouco, o bastante só pra olhar bem o rosto da neta. Estudou cada traço com carinho. Passou a mão nas bochechas dela e franziu o cenho.
— Tá muito magrinha, Lêlê… mesmo buchuda. Que que tão te dando de comer nessa cidade, hein?
Seguiu o olhar de Helena até a direção de onde ela tinha vindo. E então viu.
Heitor.
A poucos passos de distância, parado com as mãos nos bolsos e o semblante feliz. Seus olhos não desviavam de Helena, aquele era um momento das duas. Mas, ele estaria ali, sempre estaria.
Dona Olívia olhou pra ele com o tipo de olhar que só avó sabe lançar. Um olhar bravo.
Um olhar que dizia: eu vou resolver isso agora.
Fez um último carinho nos cabelos de Helena.
— Fica aqui, minha flor. A vó vai cuidar disso.
E então, com uma leveza surpreendente para a idade, ela se abaixou, tirou uma das sapatilhas dos pés e segurou firme. Endireitou a coluna e partiu em direção a Heitor com passos decididos — a sapatilha erguida no ar como um aviso.
— Seu Heitor! — a voz soou alto o suficiente pra ecoar no saguão.
Heitor arregalou os olhos e deu um passo pra trás, instintivamente.
— O que foi que o senhor fez com a minha neta?!
Heitor tentava raciocinar o que poderia ser, até pensou na única resposta possível
— Eu juro que nós nunca tivemos relações, sou muito respeitoso. — disse ele, levantando as mãos num gesto de defesa, com muita convicção. — Mas, o filho que ela carrega é meu, sei que é difícil de acreditar. Mas, é a verdade, dona Olívia.
Helena vinha logo atrás, aflita.
— Vó, calma! Ele não fez nada, de verdade! Estamos muito bem.
Mas a avó não recuou. Chegou perto o suficiente para encarar Heitor nos olhos, com a sapatilha ainda investida.
— Fez sim! — disse com a voz firme. — Porque não é possível olhar pra menina daquele jeito… me prometeu que ia cuidar dela… e agora vejo ela chorando igual criança abandonada! O senhor olhou dentro do meu olho, seu Heitor. E me disse que nada ia acontecer com a minha neta. E olha como ela tá!
Heitor baixou os olhos. Não tentou se defender. Não tentou fugir. Só suspirou. Dona Olívia tinha razão, ele havia dado a sua palavra que Helena teria tudo, inclusive respeito e segurança. Mas, depois de tudo que aconteceu com sobre o Fortenelle, ele havia quebrado sua promessa.
— A senhora tem razão. Eu não cuidei dela como devia. Mas eu tô mudando isso agora. Eu juro.
Dona Olívia estreitou os olhos, estudando-o como se estivesse analisando o tempo.
Depois de alguns segundos, abaixou lentamente a sapatilha. Mas não a guardou.
— É bom mesmo, viu? Porque se não cuidar… eu vou achar uma vara de marmelo e ensinar direitinho a não brincar com a minha netinha.
Helena cobriu o rosto com a mão, entre um sorriso nervoso e a vontade de sumir. Heitor soltou um riso curto, sem graça — mas havia verdade nele.
E Dona Olívia, com o coração ainda em alerta, voltou a calçar a sapatilha, endireitou o lenço na cabeça e abriu os braços de novo pra Helena.
— Agora vem, minha filha. Me conta tudo. E me leva pra um lugar que tem café, porque o que eu tomei naquele avião era uma ofensa.
Após tomarem um café em uma cafeteria que dona Olívia não se impressionou, seguiram para o carro.
Este seguia tranquilo pelas ruas arborizadas da Zona Sul. Heitor dirigia com uma das mãos firmes no volante, enquanto no banco de trás, Dona Olívia e Helena compartilhavam o tipo de conversa que aquecia o coração — uma conversa feita de lembranças, afeto e simplicidade.
— Cê acredita que eu e a Cidinha viramos melhores amigas, Helena? — disse Dona Olívia, ajeitando o lenço na cabeça com um sorriso orgulhoso. — Aquela mulher é muito boa! Fiquei triste dela não poder vir… mas pelo menos o Tótó faz companhia pra ela né. Ô bichinho bom, viu? Aquela casa é grande demais pra se ficar sozinha.
Helena segurou a mão da avó com carinho, e Dona Olívia aproveitou para pousá-la com delicadeza sobre a barriga da neta. Os olhos dela brilharam na hora.
— Ô, meu Deus… Isso aqui é uma bênção, Helena. Uma bênção linda demais. Cê tá tão formosa, minha filha. E olha o tamanho dessa barriga! — Ela riu com emoção. — Ocês não perderam tempo, hein?
Do banco da frente, Heitor deu um sorriso satisfeito de lado.
— É um menininho — ele disse, orgulhoso. — Vai se chamar Humberto.
— Ahhh… vai ser bonito e inteligente, igual o pai e a mãe — respondeu Dona Olívia, apertando de leve a barriga da neta. — Humberto… nome forte! Nome de homem bom.
Helena sorriu, enternecida.
— Depois do Natal, a gente vai fazer outro ultrassom. Se a senhora quiser ir com a gente…
— Mas é claro que eu quero, minha filha! Na minha época, não tinha esse negócio não. A gente só via quando nascia. Agora é tudo moderno!
Com um gesto lento e cheio de ternura, Dona Olívia alisou a barriga de Helena, fechou os olhos e murmurou:
— Oi, Humbertinho… eu sou sua bisa. Ainda não te conheço, mas já te amo mais demais da conta. Que Papai do Céu abençoe seu caminho, cada pedacinho de ocê, viu? Que ocê venha com saúde, que traga alegria, e que nunca falte amor na sua vida…
Helena segurou a emoção no peito, piscando os olhos rapidamente para não chorar de novo.
— Obrigada, vó. Ele vai nascer muito abençoado.
Dona Olívia então abriu a bolsa com praticidade e puxou uma garrafinha de água.
— Aqui, minha filha. Bebe uma água. Grávida tem que se hidratar.
Helena aceitou com um sorriso e bebeu um gole.
— Obrigada, vó…
— Vamos almoçar com meus pais — avisou Heitor do banco da frente. — Mas se a senhora sentir fome antes, é só avisar que eu paro em algum lugar, tá?
— Eu não tô com fome não, meu filho — respondeu Dona Olívia, abanando a mão. — Mas essa moça aqui, com esse barrigão, deve tá faminta. Passa no mercado, que eu compro os trem pra fazer uma abóbora com carne moída. Tá com cara de quem tá querendo isso, não tá, Helena?
— Dona Olívia… — Heitor riu, olhando pelo retrovisor. — A senhora é nossa convidada, não precisa se preocupar em cozinhar.
— Eu não quero atrapalhar a senhora sua mãe não, meu filho… — ela disse com sinceridade, ajeitando o lenço.
— Eles têm uma equipe que cozinha, vó. — explicou Helena, com doçura.
Os olhos de Dona Olívia se arregalaram um pouco, admirada.
— Misericórdia… ocês são chiques mesmo.
E então, do nada, ela vasculhou a bolsa e tirou uma nota de vinte reais, estendendo discretamente para Helena.
— Toma, se quiser comprar um salgadinho.
— Vó… — Helena olhou confusa, segurando o riso. — Pra quê isso?
— Ué, vai que ocê quer comer um treco no caminho.
E sem dar tempo para resposta, puxou também um lenço simples de algodão azul claro, bordado à mão pela vizinha da rua de baixo.
— Me ajuda a embrulhar isso aqui, minha filha. É pra eu dar pra senhora mãe do seu Heitor. Não vou chegar de mão abanando, né?
Heitor observava a cena pelo espelho retrovisor, curioso e, no fundo, tocado.
— Vó, a senhora não precisava disso… — disse Helena, com carinho, mas sem contrariá-la. — E nem do dinheiro. Mas eu te ajudo a embrulhar, sim.
— O que ela vai pensar de mim? Que eu sou uma velha metida que vem almoçar sem trazer um agradinho? Deus me livre! Eu quero é que ela goste de mim.
As duas riram juntas, cúmplices. Helena encostou a cabeça no ombro da avó, sentindo-se pequena de novo. Não importava o quanto o mundo ao redor tivesse mudado — Dona Olívia continuava sendo seu abrigo. Um pedaço vivo do lugar de onde veio, da menina que foi… e do amor que sempre a acompanhou.
O carro reduziu a velocidade diante dos portões imensos. Dona Olívia arregalou os olhos ao ver o tamanho do local, murmurando, quase sem voz:
— Nossa Senhora... isso aqui é um palácio.
Helena sorriu, aconchegada no banco de trás, os dedos entrelaçados aos da avó.
— A senhora já tinha visto um?
— Nunca, mas se fosse ver... imaginava que era assim. – respondeu ela, encantada com os enfeites dourados, as guirlandas iluminadas, e a imensa escadaria da entrada principal decorada com ramos de pinheiro e laços vermelhos.
Era dia 23 de dezembro, e tudo exalava aquele calor de Natal que não tem a ver com temperatura e sim com a família.
Heitor desceu do carro num movimento ágil. Deu a volta rapidamente, abriu a porta para Helena com todo o cuidado e a ajudou a sair. Antes que ela dissesse qualquer coisa, ele a puxou com delicadeza e lhe deu um selinho.
Depois, estendeu a mão para Dona Olívia com todo o respeito.
— Vamos, Dona Olívia? A senhora é minha convidada de honra.
— Olha... desse jeito eu fico mimada — disse ela, sorrindo, enquanto aceitava o braço firme dele.
Heitor entregou a chave ao manobrista e comentou com leve orgulho:
— Essa é a casa dos meus pais. Mas a nossa casa mesmo, a que eu comprei pra mim e pra Helena, é bem maior. A ideia era a gente se mudar antes do aniversário dela, mas ainda estão arrumando uns detalhes...
Helena revirou os olhos e se inclinou para sussurrar no ouvido da avó:
— Ele está super empolgado com essa casa, vó. É linda mesmo... mas chamou uma equipe pra "organizar umas coisas". Por mim a gente já podia ter se mudado faz tempo.
Dona Olívia riu baixinho, divertida.
— Igualzinho o Zé. Gostava de fazer tudo ele mesmo. Isso é coisa de homem. Acham que tão no controle, coitados.
As duas riram cúmplices.
Heitor virou-se, desconfiado.
— O que vocês estão cochichando aí?
— Nada não — disse Dona Olívia com um brilho traquina nos olhos, que fez Helena sorrir ainda mais.
Ele se aproximou e tomou o braço da senhora com gentileza.
— A entrada tem uns degraus. Vou ajudá-la, tá?
— Ocê é bom demais, meu filho. É por isso que eu gostei de ocê.
Heitor lançou um olhar satisfeito a Helena, e ela retribuiu com um olhar cheio de ternura.
No topo da escadaria, a figura impecável de Celina os esperava. Ela estava deslumbrante — como sempre. Um vestido claro, cabelos presos com elegância e um colar que cintilava sob a luz do fim da tarde.
— Que bom que chegaram. — disse ela ao abraçar Helena com um sorriso. — Você está linda.
— Você também, Celina. — respondeu Helena com delicadeza. — Eu queria te apresentar a uma pessoa.
Celina seguiu o olhar de Helena até a senhora idosa ao lado de Heitor. Os cabelos de Dona Olívia estavam presos com simplicidade no lenço, a pele escura ressecada pelos anos e pelo sol da vida inteira, mas com um brilho bonito de quem nunca deixou de amar.
Celina se aproximou com um sorriso largo, sincero.
— É uma grande honra conhecer a senhora. A mulher que criou minha nora maravilhosamente bem.
Dona Olívia soltou o braço de Heitor e não hesitou: envolveu Celina num abraço forte, sem cerimônia. Celina, mesmo surpresa, correspondeu — e sorriu com gosto.
— Já estou acostumada com essa mania mineira de abraçar.— brincou ela, ajeitando os ombros ao se afastar.
— É, eu fui bem ensinada — disse Helena, com uma pontinha de orgulho.
— A ceia de amanhã vai ser ótima com todo mundo reunido. — disse Heitor, aproximando-se de Helena e enlaçando sua cintura.
Dona Olívia remexeu na bolsa e tirou de lá um pacotinho cuidadosamente dobrado. Entregou-o a Celina com as duas mãos.
— É só um agradinho, coisa simples. Mas é de coração.
Celina abriu com delicadeza. Dentro, um lenço de tecido bordado à mão com pequenas florzinhas azuis. Ela sorriu com verdadeiro apreço.
— Vai ficar lindo na minha coleção. Muito obrigada.
— Fico feliz que tenha gostado — respondeu Dona Olívia, animada como uma menina.
— Eu também trouxe algo pra senhora — disse Celina, gentilmente. — A viagem é longa, e eu imaginei que poderia estar cansada. Chamei uma equipe para cuidar da senhora: vão fazer massagem, hidratar a pele, o que a senhora quiser. Aqui todo mundo é muito bem tratado.
Dona Olívia arregalou os olhos.
— Vixe... isso é coisa de gente chique. — comentou, encantada.
E enquanto todos entravam na casa grande, com seus enfeites brilhando por todos os cantos e o cheiro doce de canela e pinheiro no ar, Helena apertou de leve o braço da avó e disse, baixinho:
— Obrigada por vir comigo, vó.
Dona Olívia sorriu e respondeu, sem hesitar:
— Onde você for, minha filha... é pra lá que meu coração vai também.
Dona Olívia nunca tinha sido tratada daquela forma antes. Tomou banho com sabonetes perfumados, secaram seus cabelos com um secador importado, passaram creme nas mãos, braços e pernas dela. Colocaram-na numa poltrona enquanto uma moça muito paciente fazia suas unhas com esmalte clarinho.
Sentiu-se uma princesa. Igual nos filmes que via na televisão.
— A senhora está linda, dona Olívia — disse a empregada, entregando um vestido azul-claro de tecido macio, com um caimento bonito e discreto.
Ela até tentou recusar, mas acabaram convencendo. Quando se olhou no espelho, ajeitando os brincos, quase não se reconheceu.
Na antessala do salão de jantar, todos já estavam reunidos. Quando a porta se abriu mais uma vez, ouviu-se a voz firme e conhecida:
— Cheguei bem a tempo. Desculpem o atraso.
Renato, sempre pontual até no atraso, entrou com o blazer impecável, a barba por fazer e aquele jeito exato que só ele tinha.
— Você demorou demais — disse Celina, caminhando até ele com um olhar entre bravo e aliviado. — Eu achei que não ia vir.
Renato pegou a mão da esposa com naturalidade e beijou sua bochecha, demorando um segundo a mais que o necessário.
— Se eu soubesse que você estaria tão deslumbrante, teria voltado mais cedo só pra te admirar o resto do dia.
Celina tentou não sorrir… tentou. Mas falhou miseravelmente, mesmo enquanto resmungava:
— A avó da Helena chegou. Dona Olívia.
Renato se aproximou com respeito e charme dos Monteiro:
— É um prazer recebê-la, senhora. Obrigado por aceitar passar o final do ano conosco. A casa também é sua. Já separamos um quarto, espero que fique confortável.
— Confortável? Eu nem acredito que vou dormir nesse palácio — disse Olívia, rindo com as mãos no colo. — Todo mundo aqui tem olho azul… será que o Humbertinho também vai nascer com esse olho claro?
Helena olhou para Heitor com um sorriso enviesado.
— Eu queria que ele fosse parecido com o pai… mas acho meu sangue mais forte. Aposto que vem com minha cara.
Heitor pigarreou, fingindo um ar sério.
— O sangue Monteiro é forte, sim. Mas se depender de mim… quero que todos os nossos filhos venham parecidos com você.
Helena arregalou os olhos e abaixou a cabeça, completamente sem jeito, mesmo com o sorriso escapando.
Dona Olívia virou-se para Renato, observando-o com atenção. A estrutura corporal lembrava a de Heitor, mas havia algo nos olhos... alguma memória antiga tentando emergir.
— Ocê me é muito familiar — murmurou ela.
Renato sorriu, educado.
— Não escuto isso com frequência. Normalmente acham o Heitor mais parecido com Celina… apesar de eu ver bastante de mim nele. Da minha mãe na verdade.
Mas dona Olívia manteve o olhar firme. Aquela expressão séria, o modo como ele se movia…
Celina tentou quebrar o silêncio:
— Seu pai não respondeu se vem ou não.
Ela suspirou e acrescentou, quase que para si mesma:
— Francamente, ele é muito teimoso.
— Ele deve aparecer amanhã, pra ceia — respondeu Renato, contido.
Mas antes que outro comentário fosse feito, uma voz grave, irritada e inconfundível preencheu o ambiente:
— Uma família imprestável… como puderam achar que eu não viria almoçar com a mãe do meu bisneto?
Afonso Monteiro surgiu com sua presença monumental e humor rabugento, como um trovão entrando pela porta.
Heitor se ajeitou na postura, levemente envergonhado. Estava acostumado com o temperamento do avô, mas ali, diante de Helena e da avó dela, sentiu um peso diferente, ele não queria que o avô deixasse uma má impressão.
Foi até ele com respeito:
— Bença, vô.
— Ainda bem que você está aqui. Espero que esteja sendo mais presente pra sua família do que é pra mim — rosnou Afonso, cruzando os braços.
Heitor sorriu de lado.
— Eu ligo, o senhor é que não atende.
— Odeio telefone. Você que tem que ir lá me visitar. — Afonso resmungou. — Resolva isso.
— Vou resolver.
Afonso então virou o olhar e viu Helena com a barriga marcada sob o vestido elegante. Ele arqueou uma sobrancelha e, pela primeira vez em muito tempo, sorriu com sinceridade.
— Pelo menos isso — murmurou. — A linhagem tá segura. É um bom dia.
Seus olhos então pousaram na senhora ao lado da neta. Franziu a testa. Estreitou os olhos. Afastou-se um passo e ergueu levemente o queixo.
— Pai — disse Renato, percebendo a tensão e já temendo que Afonso dissesse algo desagradável — essa é a avó da Helena. Dona Olívia.
Afonso se aproximou. Estendeu a mão com rigidez:
— Afonso.
Dona Olívia o olhou, estreitando os olhos de volta. Algo se mexia dentro dela. Um sussurro de lembrança. Mas por educação, ela sorriu e pegou na mão dele.
— Olívia.
Afonso a observou mais um segundo… e falou, seco:
— Eu sei.
Celina franziu o cenho, olhando para Renato. Renato deu de ombros com um olhar igualmente confuso. Helena olhou para Heitor, que mantinha a expressão tensa.
— Vocês se conhecem? — perguntou Heitor.
— Claro — disse Afonso, como se fosse óbvio. — Tenho uma filial na cidade dela.
Renato assentiu.
— Faz sentido. É uma cidade pequena.
Helena riu, tentando aliviar o clima:
— Que coincidência legal. Vó, você lembra dele?
Dona Olívia manteve os olhos fixos em Afonso. A expressão dele... aquele jeito altivo… Foi então que ele ergueu a sobrancelha. Um único gesto. E a memória veio como um raio.
— O garoto do Rio de Janeiro! — exclamou Olívia, arregalando os olhos.
Afonso sorriu de lado.
— Nunca fui garoto. Sempre fui homem.
Um silêncio caiu sobre a sala.
Dona Olívia virou-se para a neta, perplexa:
— Você tá namorando o neto dele?
— Tô… — respondeu Helena, confusa.
Renato pigarreou, visivelmente desconfortável.
— Vamos à mesa? Se for uma história que possa ser contada… — lançou um olhar firme ao pai — ouviremos durante o almoço.
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