O CEO que Eu Paguei
196 O Garoto do Rio de Janeiro
Afonso Monteiro, 17 anos
Afonso segurava o volante com violência. Os nós dos dedos estavam brancos, a pele repuxada pela força absurda com que ele mantinha o carro na pista. O motor velho rugia, tremia, ameaçava cuspir a alma a cada solavanco — mas Afonso não tirava o pé do acelerador.
O vento quente cortava o rosto dele, entrando pela janela aberta, mas o calor não era nada comparado ao pulsar constante e latejante em seu olho direito. Doía como o inferno.
Ele ergueu o olhar por um segundo e encarou o retrovisor.
O reflexo devolveu o que já sabia, mas não queria ver:
O hematoma se espalhava pela órbita ocular — roxo profundo, quase negro.
O branco do olho estava tomado de sangue.
A pálpebra inchada e sensível.
Um presente do pai há algumas horas atrás.
Justo antes de Afonso anunciar que iria para Goiás encontrar um investidor sem “a benção dele”.
Afonso desviou o rosto do espelho, irritado.
Odiava lembrar.
Odiava sentir.
Odiava aquele olhar derrotado, mesmo que fosse só um reflexo.
Apertou o volante com mais força — tanto que os músculos do antebraço tremularam.
— Eu vou calar a sua boca, velho filho da puta… — murmurou entre os dentes, a voz carregada de uma fúria que queimava mais do que doía.
Ele ia provar ao pai.
À família.
Ao mundo.
Ele não era só um garoto pobre da Zona Norte.
Não era só o irmão do Geraldo — o orgulho do pai, o militar perfeito, o filho exemplar.
Afonso Monteiro seria o homem mais rico do Brasil.
Ele construiria prédios, cidades, impérios.
Não precisava de faculdade.
Não precisava de autorização.
Precisa apenas de uma chance — e de ninguém atrapalhando.
Pisou ainda mais fundo no acelerador.
O carro sacudiu violentamente na estrada de terra, porque ele já estava a centenas de quilômetros do Rio. A pista subia, descia, engolia o carro em buracos secos. Poeira invadia o interior, colava na pele suada, arranhava a garganta.
Ele não se importava.
Era algum lugar em Minas Gerais.
Era no meio do nada.
E ele precisava chegar em Goiás até o dia seguinte.
Mas chegar lá não era só “chegar”.
Era chegar vivo, dirigindo um carro que já estava no limite fazia horas e horas.
E ele sabia — em algum lugar dentro da cabeça latejante — que aquele motor não aguentaria.
Mesmo assim, ignorou qualquer sinal.
— Aguenta, porra… — sussurrou, inclinando o corpo para frente como se pudesse empurrar o carro com a própria vontade.
O motor tossiu.
Afonso franziu o cenho.
Mais uma falha.
Outra.
Um ronco estranho.
— Não… não. Não agora.
Mas o carro não respeitou a súplica daquele garoto.
De repente, o pedal do acelerador pareceu perder a alma.
A velocidade caiu brutalmente.
O ronco virou chiado.
O chiado virou gemido.
E o gemido virou um silêncio assustador.
Afonso bateu a mão no volante.
— Filho da puta!
O carro começou a diminuir, diminuir… até quase parar completamente. Afonso puxou o freio de mão com brutalidade e a roda derrapou na terra seca, levantando uma nuvem de poeira que o engoliu.
O silêncio que veio depois foi ensurdecedor.
Ele ficou ali, respirando fundo, o peito subindo e descendo com violência.
O olho latejava e quente.
O orgulho latejava mais ainda.
Não podia ser agora.
Não podia ser ali.
Não podia perder tempo.
Ele abriu a porta com violência e saiu, chutando o pneu com força. Quase perdeu o equilíbrio — a vista escureceu por um segundo — mas se manteve em pé.
— Droga… droga… — esfregou o rosto com a palma da mão e sentiu o inchaço. — Merda!
Olhou ao redor.
Estrada de terra.
Mato para todos os lados.
Nenhum carro.
Nenhuma casa.
Nenhum sinal de vida.
E então…
Um som distante.
Um ritmo lento, constante.
A lamparina balançava pendurada na lateral da carroça, projetando um círculo quente de luz no breu da estrada. O clarão revelou primeiro os cascos do cavalo, depois a roda de madeira, e finalmente o homem que conduzia o veículo: chapéu de palha, camisa gasta, postura tranquila de quem conhece cada centímetro daquela terra.
Afonso estreitou os olhos.
Ótimo. Só faltava um mané curioso para completar a humilhação.
A carroça parou ao lado do carro quebrado. O homem inclinou o rosto, avaliando a cena.
— Eita… o que foi que aconteceu aí, rapaz?
Afonso não gostou do tom. Amistoso demais.
Como se estivesse falando com uma criança.
— O carro pifou. — respondeu seco.
Seu sotaque carioca cortou o ar.
O homem assentiu devagar, sem pressa.
— É, motorzinho desses às vezes entrega mesmo.
Afonso ergueu uma sobrancelha com desdém.
— Você entende de carro?
O homem riu. Um riso leve, sincero.
— Moço… eu entendo é de boi. Carro, só sei que tem roda e faz barulho.
Afonso franziu o nariz.
Não sabia se estava irritado ou ofendido.
Talvez os dois.
O homem desceu da carroça com um grunhido leve de esforço e se aproximou do carro quebrado. Afonso observou com impaciência e, quando ele aproximou o rosto do capô.
— Ó… amanhã cê arruma isso. Na cidade tem um mecânico bom.
— Amanhã não serve. — Afonso rebateu, ríspido. — Preciso seguir viagem hoje.
Benício cruzou os braços, como se estivesse ouvindo um adolescente fazer birra.
— Hoje o mecânico tá dormindo, uai.
— Acorda ele.
— Ele não acorda nem pra mulher. Quem dirá prum carro.
Afonso passou a mão pelos cabelos, irritado.
O olho latejou.
Respirou fundo para não xingar o homem ou o carro ou o mundo inteiro.
— De onde ocê é, rapaz?
— Rio de Janeiro. — respondeu, seco.
— Eita… longe demais da conta.
Benício o examinou com mais atenção, como quem observa um bicho arisco.
Depois inclinou a cabeça.
— Cê tá vindo sozinho?
— Qual o problema?
— Nenhum… só que… — o homem franziu os olhos — cê é só um garoto. Ninguém devia rodar por essas estradas desse jeito, sozinho e nesse estado.
Afonso sentiu o sangue ferver.
— O que foi? Tá olhando o quê? — rosnou.
Benício não se abalou.
— O seu olho, uai. Tá roxo que nem jambo. Deve doê que só. Se num cuidar, cê perde até a visão. Precisa por um pano quente nisso aí.
Afonso virou o rosto, desconfortável.
Não era só o machucado.
Era ser visto.
Era ser lido como fraco.
No fundo, ele sabia: não tinha alternativa.
Não havia hotel.
Não havia mecânico.
Não havia ninguém.
E ele não passaria a noite na estrada como um cachorro.
— Eu não preciso de ajuda. — insistiu, numa última tentativa de salvar o orgulho.
Benício suspirou, paciente.
— Precisa sim.
E apontou a estrada escura atrás dele.
— Vem. Ocê janta lá em casa, dorme num canto, amanhã nós chamamos o mecânico. Melhor que ficar aqui levando poeira na cara e sendo comida de onça.
Afonso colocou as mãos nos bolsos, fechou o semblante e pensou.
O homem era grande. Firme.
Mas velho.
Se desse merda, Afonso tinha certeza de que podia correr mais rápido.
Ou bater primeiro.
Suspirou, derrotado pela realidade.
— Tá. Eu vou.
Benício sorriu, satisfeito como quem doma um potro selvagem.
— Sabia que ocê tinha juízo.
Afonso abriu o porta-malas de forma brusca, pegou a mala de roupas e bateu a tampa com força. Subiu na carroça com cuidado para não demonstrar dor ao mexer o olho. Sentou-se no banco de madeira e, pela primeira vez desde que saíra do Rio, sentiu o peso verdadeiro da longa estrada.
Atrás dele, algumas espigas de milho balançavam com o movimento do veículo.
Benício subiu, ajeitou as rédeas e deu um clique com a língua.
— A casa é logo ali. Coisa pouca.
O cavalo começou a andar, e a carroça rangia ritmicamente.
— Ah… quase esqueci. Me chamo Benício.
Afonso hesitou por um segundo — só um segundo — antes de responder.
— Afonso.
Benício sorriu como quem já imaginava.
— Pois é, Afonso… o mundo é grande demais pra um menino rodar sozinho desse jeito.
Afonso virou o rosto, irritado.
Mas Benício não enxergava arrogância.
Não enxergava ímpeto.
Ele enxergava só um garoto perdido, ferido, tentando parecer maior do que era.
A carroça rangia devagar pela estrada de terra quando, depois de alguns minutos, Afonso avistou uma casa simples à frente. Tinha uma cerca baixa, uma porteira de madeira torta e um lampião aceso pendurado no batente da varanda. Tudo naquela visão era tão estranho ao mundo dele que, por um instante, ele achou que tinha voltado no tempo.
Benício puxou as rédeas e apontou com a cabeça.
— Abre a porteira pra mim, Afonso.
Afonso arregalou os olhos, incrédulo.
— Eu?
— Uai… eu tô aqui em cima. Só levantar o arame. Cê dá conta.
Afonso suspirou alto, desgostoso, como se tivesse sido pedido para cavar um poço. Desceu da carroça com um jeito meio desengonçado, tentando não parecer perdido. Chegou perto da porteira e olhou o arame como se fosse um enigma.
Subir o arame…, repetiu mentalmente, confuso.
Benício ergueu a voz atrás dele:
— Levanta e empurra! Segura firme, senão volta!
Afonso levantou o arame com força demais — quase cortou a mão — e empurrou a porteira, segurando-a aberta enquanto Benício passava com a carroça. O cavalo bufou ao lado dele, e Afonso engoliu seco.
Quando cruzou a entrada, o fazendeiro gritou:
— Agora fecha! Puxa o arame de novo!
Afonso fechou, resmungando baixinho:
— Que merda… devia ter ficado no carro…
Com a poeira grudando na calça e a paciência reduzida a pó, caminhou até onde Benício havia parado o cavalo. Havia ali um pequeno estábulo improvisado — madeira velha, telhas tortas, cheiro de feno. Tudo muito humilde. Tudo muito distante das ruas do Rio.
Afonso meteu as mãos nos bolsos, tentando parecer indiferente, mas o olhar percorria o lugar com estranhamento.
— Ajuda eu a tirar o milho da carroça aqui, Afonso.
Afonso virou o rosto devagar.
— Eu?
— Uai… mais quem seria?
Benício riu.
— Bora, que é rapidim.
Afonso bufou, contrariado. Mas ajudou. Levantou saco por saco, espiga por espiga, sujando-se de terra, poeira e casca de milho. Benício, apesar da idade, era forte como um touro. Levava duas espigas por vez com uma facilidade irritante.
Afonso não ficaria para trás.
Tentava nunca ficar.
Quando terminaram, Benício deu um tapinha no ombro dele.
— Bom trabalho, garoto. Bora entrar. Acho que tem coisa boa no fogão.
Afonso revirou os olhos, mas seguiu.
Benício abriu a porta com naturalidade, a voz ecoando na casa:
— Cheguei!
Afonso entrou atrás dele, a cabeça mais baixa do que pretendia. O lugar era pequeno, simples, iluminado por lamparinas. Cheirava a comida, lenha e pano limpo. Não tinha luxo. Mas tinha… lar.
Algo que Afonso nunca tivera.
Ele olhava tudo desconfiado, como se pudesse ser atacado pelo conforto.
Logo uma mulher apareceu. Pele preta, braços fortes, avental amarrado na cintura.
— Benício! Ocê demorou demais!
Ela se aproximou do marido, aliviada, depois lançou um olhar direto a Afonso.
— E esse aí?
— Carro dele quebrou. Tava sozinho na estrada. Trouxe ele pra pernoitar.
Margarida caminhou até Afonso sem medo nenhum. Colocou as mãos firmes nos ombros dele.
Afonso ficou rígido. Ninguém encostava nele assim desde… nem lembrava.
— Mas isso é só um menino! Não devia tá rodando por aí sozinho, ainda mais machucado desse jeito!
Afonso virou o rosto, desconfortável.
— Eu tô bem.
Mas a fala saiu baixa, quase tímida.
Foi aí que uma voz jovem ecoou:
— Papai!
Afonso olhou para o lado.
E viu.
Como se a lamparina tivesse aumentado o brilho só para revelá-la.
Uma garota.
A garota correu até o pai, alegre, abraçando-o pela cintura. Ela falava animada sobre o que tinha feito no dia, sem notar o estranho por alguns segundos — até que virou, e seus olhos encontraram os de Afonso.
Ele sentiu o rosto queimar.
O coração tropeçou no peito.
O mundo ficou… silencioso.
A luz do lampião tocava a pele preta dela como se tivesse sido feita só para iluminá-la, um tom profundo e macio que parecia absorver e devolver o dourado da chama do lampião. O cabelo, preso em um coque, moldava o rosto dela com naturalidade, como se fosse um desenho detalhado que alguém tivesse feito com carinho. Algumas mechinhas rebeldes soltas perto da testa balançavam com o vento e davam a impressão de movimento mesmo quando ela estava quieta.
Os olhos… ele nunca tinha visto olhos assim. Eram escuros, grandes, atentos — um escuro bonito, que não escondia nada. Quando ela encarou ele por um segundo, foi como se o mundo lá fora ficasse mudo. Como se o carro, o pai, o investidor, a futura empresa, nada daquilo importasse. Só aquele olhar, calmo e curioso, que parecia perguntar quem ele era sem precisar de palavras.
A boca dela formava um quase sorriso, um daqueles que não se revelam de imediato; ficava ali, de canto, feito um segredo. E quando ela inclinou a cabeça de leve, como quem tenta reconhecer alguém da história de outra pessoa, a luz do lampião traçou um contorno suave no rosto dela, fazendo tudo nela parecer ainda mais bonito.
Afonso prendeu a respiração.
E desejou, do fundo do peito, que aquele não fosse um encontro único.
— Quem é ele? — ela perguntou ao pai.
— Afonso, lá do Rio de Janeiro.
— Do Rio? — ela arregalou os olhos. — Eu nem sei onde fica isso.
Afonso, muito consciente da própria postura, forçou a voz:
— É uma cidade litorânea. Tem praia. Mar.
Os olhos dela brilharam ainda mais.
— Mar? E por que um…
Ela hesitou, sorrindo de lado.
— …um garoto como ocê veio parar tão longe?
Afonso ergueu o queixo, rápido. Levantando a sobrancelha.
— Eu não sou um garoto. Sou homem.
O sorriso dela se abriu.
E Afonso sentiu as pernas quase falharem.
— Parece é um garoto mesmo.
Benício gargalhou.
— Essa é minha filha, Olívia. E essa é Margarida, a mãe dela e minha mulher.
Afonso engoliu seco.
— Muito prazer.
Margarida se adiantou.
— Olívia, leva mais água pro banho! Pros dois!
— Sim, mãezinha!
Olívia passou por Afonso, e ele tentou fingir que não estava olhando. Não conseguiu.
Benício limpou as mãos.
— Cê tem roupa aí? Ou quer emprestada?
— Tenho. Trouxe na mala.
Margarida perguntou:
— Tá com fome, menino?
— Não.
A barriga dele roncou alto.
Benício riu.
— Vamo tamo um banho. Me segue.
Os dois foram para os fundos da casa. Tinha baldes, canecos, água morna e sabão caseiro.
— Aqui memo. Toma um banho. Vai te fazê bem.
Afonso tirou a camisa sem jeito, morrendo de vergonha. Benício, ao contrário, falava como se fosse a coisa mais natural do mundo — sobre a plantação, sobre o calor, sobre como a região era segura. O garoto se encolheu sob a água que não estava nada morna, grunhindo.
Quando terminaram, voltaram limpos. A mesa estava posta. Todos já sentados.
Margarida sorriu.
— Senta, Afonso.
Benício juntou as mãos.
— Vamo orar.
Afonso fechou um olho — o que não doía — e ficou encarando Olívia durante metade da oração, fascinado. Quando todos disseram “amém”, ele disfarçou, virando o rosto rápido demais.
Durante o jantar, todos conversaram. Riram. Perguntaram a ele sobre o mar. Sobre o Rio. Sobre a viagem. Ele respondeu pouco, mas respondeu.
E não tirou os olhos de Olívia.
Depois, Margarida disse:
— Olívia, leva o Afonso lá pro quartinho dos mantimentos. É onde ele vai dormir.
Olívia sorriu para ele.
— Vem.
Ele tentou manter a postura marrenta enquanto a seguia.
O quartinho era simples: uma cama improvisada, uma lamparina, sacos de arroz encostados na parede. Nada mais.
— Obrigado… — murmurou Afonso, meio sem saber onde pôr as mãos.
Olívia colocou uma bacia quente ao lado da cama.
— Eu vou cuidar do seu olho.
Afonso ficou vermelho até a raiz do cabelo.
— Não precisa.
— Precisa sim. Se não cuidar, vai inchar mais. Vai que cê fica cego.
— Não é assim que funciona.
Ela sorriu.
— Então deixa eu cuidar de ocê. Só isso.
Ele deitou no colchão improvisado, tentando não parecer nervoso. Quando a toalha quente tocou sua pele, ele prendeu o maxilar para não demonstrar dor.
— O que aconteceu com ocê? — perguntou ela, delicada.
Afonso pensou rápido. Não podia dizer a verdade.
Nunca.
— Dei um jeito num cara que tava mexendo com umas garotas.
E tentou parecer casual.
Os olhos de Olívia brilharam.
— Ocê é muito forte, então.
Afonso gaguejou.
O rosto queimou.
— Por que ocê ficou vermelho?
Ele virou o rosto bruscamente para a parede.
— Vou dormir. Tô cansado.
Olívia riu baixinho.
Depois colocou um pano úmido sobre o olho dele, com cuidado.
— Dorme assim. Vai ajudar a desinchar. Amanhã eu faço de novo.
Ele sussurrou, sem coragem de olhar pra ela:
— Tá… obrigado.
A lamparina apagou devagar, e Afonso ficou ali, parado, sentindo o calor da toalha…
e o calor maior ainda do pensamento que não queria admitir:
Ele queria que o amanhã chegasse depressa só para ver Olívia de novo.
Afonso não tinha percebido o quanto estava esgotado.
O corpo dele tinha passado o dia anterior sustentado só por raiva, orgulho e a força teimosa de quem se recusa a parar — até que deitou naquele colchão simples, numa casa que não era a dele, com uma toalha quente no olho… e dormiu como se o mundo tivesse apagado.
Quando abriu os olhos, já era manhã.
Levantou meio zonzo, ajeitou o cabelo com as mãos e saiu do quartinho. No corredor estreito e iluminado pelo sol entrando na janela, encontrou Margarida.
— Bom dia, meu filho. Vem cá tomar um café. Fiz coisa fresca.
Afonso nunca tinha sido chamado de “meu filho” por alguém que não fosse sua mãe — e mesmo ela não falava com tanta doçura. Ele pigarreou, tentando esconder o desconforto.
A mesa estava posta: queijo fresco cortado em fatias grossas, pão morno feito em casa, frutas coloridas e um copo de leite quente, que ainda soltava fumaça.
Afonso franziu o nariz.
— Leite… quente?
Margarida sorriu.
— Da vaca, uai. Tirado hoje cedo. É fortificante. Come que cê precisa.
Afonso deu a primeira mordida no queijo…
E o sabor era tão bom, tão real, tão diferente do que estava acostumado, que a marra escorreu pelos dedos.
Ele comeu.
E comeu.
E comeu mais.
Margarida riu, satisfeita.
— Parece que num vê comida, menino!
Ele limpou a boca com o dorso da mão, meio sem graça.
— Tava… bom. Só isso.
Margarida ajeitou o avental.
— Benício tá là fora, te esperando. Vão na cidade atrás do mecânico.
Afonso agradeceu com um aceno quase imperceptível — e saiu.
Olívia estava no quintal, lavando umas panelas num tanque de pedra. A luz do sol pegava nela como se tivesse sido feita pra isso.
Quando viu Afonso, ela abriu um sorriso tão espontâneo que o estômago dele virou do avesso.
— Uai, mas ocê acordou bonito hoje, hein?
Ela disse isso rindo, mas com sinceridade.
Afonso engoliu seco, tentando manter o semblante firme.
— Eu… sempre acordo assim.
Passou a mão no cabelo.
Endireitou o ombro.
Arfou o peito, só um pouco.
Olívia chegou mais perto, inclinando a cabeça para olhar o olho dele.
— Melhorou demais, viu? Nem parece o mesmo.
Afonso inflou como um pavão.
— Eu sou forte. Recupero rápido.
Olívia riu suavemente, um som leve, carinhoso, que atravessou o peito dele sem pedir licença.
— Eu nunca vi olho igual ao seu. Agora que o sangue saiu…
Ela se inclinou mais.
— É azul! Nunca vi essa cor em olho não. Parece o azul de céu antes da chuva.
Afonso quase caiu.
Tentou se encostar na viga do alpendre para parecer casual, mas o braço escorregou e ele teve que apoiar a mão rápido, recuperando a pose no último segundo.
— É… azul mesmo. Raro. Coisa fina.
— Bonito demais. — ela completou, sincera.
E o peito dele encheu de um orgulho besta, quente, pulando como se ele fosse o homem mais importante do mundo.
Era ridículo.
Ele sabia.
Mas só conseguia pensar:
Ela me achou bonito.
Ela.
Benício interrompeu o momento.
— Afonso! Bora, sô! Cidade num vai vim até nóis, não!
Afonso deu três passos para trás, tentando ser charmoso.
— Eu vou ali… mas eu volto.
E piscou.
Olívia só acenou com a mão, como se fosse a coisa mais normal do mundo.
Afonso quase tropeçou na própria sombra ao virar as costas.
A carroça os levou até a pequena cidade. Era simples, poeirenta, cheia de casas baixas e gente cumprimentando Benício com um aceno.
Afonso sentiu os olhares.
Ele era claramente “o garoto da cidade grande”.
Quando chegaram ao mecânico, um senhor gordo, de bigode grosso, saudou Benício com familiaridade.
— Ô, Benício! Que que ocê arranjou aí?
— Esse aqui é o Afonso. O carro dele estragou na estrada.
O mecânico avaliou Afonso com um olhar rápido.
— Dá pra arrumar. Mas vai custar um tantim.
Afonso tirou o dinheiro do bolso sem hesitar.
O homem abriu um sorriso.
— Se ocê me ajudar, faço mais barato.
Afonso ergueu o queixo.
— Claro que ajudo. Eu dou conta de qualquer coisa.
E deu o primeiro empurrão no carro — com mangas arregaçadas — para que os cavalos pudessem puxá-lo até a oficina.
Foi duro.
Exigiu força.
Exigiu perseverança.
Afonso adorou.
Era um ambiente de homem.
Ferramenta, graxa, barulho e cheiro de motor quente.
Era o tipo de lugar onde ele sentia que podia existir sem pedir permissão.
Mas mesmo ali, suando, trabalhando, fingindo que estava focado…
…ele só pensava nela.
Olívia.
A espontaneidade.
O jeito mineiro que não tinha medo dele.
A gentileza que ele nunca recebeu.
O sorriso que não pedia nada.
O olhar que não julgava.
O toque que cuidava sem interesse.
Ela era tudo que ele nunca viu.
Tudo que ele nunca teve.
E tudo que ele achou que nunca mereceria.
Mas o coração jovem, bruto e carente dele…
não sabia distinguir gentileza de amor.
Ele não estava apaixonado por ela.
Estava apaixonado pela ideia dela.
Pela promessa de um tipo de carinho que jamais conheceria no Rio.
Pela sensação de que, pela primeira vez na vida, alguém enxergou o lado dele que não era só raiva e ambição.
E isso… isso era perigoso.
Ele sabia.
Mas não conseguia evitar.
Quando Benício disse “vamo voltá”, Afonso sentiu o corpo reagir antes do cérebro:
Ele queria voltar.
Queria ver ela.
Queria ouvir ela.
Queria que ela olhasse de novo pra ele daquele jeito que deixava o mundo inteiro quieto.
E esse foi o primeiro sinal de que aquele encontro mudaria o destino de muita gente, gente que nem tinha nascido ainda.
O sol já começava a se pôr quando Afonso voltou da cidade, sentado na carroça ao lado de Benício. A estrada poeirenta iluminada pelo dourado da tarde não ganhou a menor atenção dele — o garoto só conseguia pensar em uma coisa.
Em uma garota.
Benício parou a carroça no quintal, e Afonso pulou para o chão com a pretensão de parecer firme, maduro, decidido — mas o coração dele estava batendo rápido demais quando viu a porta da casa se abrir.
Olívia saiu, segurando um pano de prato na mão, secando as mãos com pressa.
— Uai, cês chegaram! — ela disse, animada.
Afonso engoliu seco. Automaticamente endireitou a postura, estufou o peito, ajeitou o cabelo com a mão ainda suja de poeira.
— Chegamo, sim.
A voz saiu meio arranhada, e ele pigarreou para ver se ficava mais grave.
— Tava… resolvendo uns negócios da cidade. Coisa de homem.
Olívia riu baixinho. Um riso que pareceu cutucar algo dentro dele, um lugar que ele nem sabia que tinha.
Ela chegou mais perto — perto o bastante para o coração dele dar um salto estranho — e olhou para o olho machucado.
— Melhorou demais, viu? Quase nem dá pra notar.
Afonso levantou o queixo, satisfeito.
— Eu me recupero rápido. Sou forte.
— É, eu vi ontem.
Ela sorriu de canto.
— Ficou vermelho igual pimenta quando eu pus a toalha.
Afonso prendeu a respiração. A vergonha queimou o peito.
— Aquilo foi só o calor. — tentou explicar.
Mas Olívia só riu mais, e aquilo mexia com ele. Mexia de um jeito que não era raiva, nem orgulho — era outra coisa, mais profunda, mais sincera, mais perigosa.
Ela deu um passo para trás e o chamou com a voz leve:
— Vamo jantar. Mamãe tá esperando.
Ele a seguiu por um segundo antes de perceber.
Benício riu baixinho atrás dele, vendo o garoto da cidade ser puxado pela menina do interior como um peixe pela linha.
O dia seguinte amanheceu cedo e quente. Muito quente.
Afonso voltou para a oficina antes mesmo de Margarida terminar de lavar a louça do café. Ele ajudou o mecânico a levantar o carro num macaco velho. Se sujou de graxa, ralou as mãos, reclamou, bufou, xingou baixo — tudo com aquela personalidade terrível e emburrada que ele carregava.
— Ô menino esquentado da gota. — o mecânico comentou.
— É meu jeito. — Afonso retrucou, convencido.
— Pois trate de esfriar. Senão derrete.
Afonso lançou um olhar mortal, mas o mecânico só riu e voltou ao trabalho.
Ninguém ali tinha medo dele.
Ninguém era impressionado por seu mau humor.
Ninguém se curvava.
E isso, curiosamente, deixava Afonso no lugar dele — coisa rara.
Mas, enquanto apertava uma porca, o pensamento voltava ao mesmo lugar:
Ela.
Olívia.
A risada.
O jeito de olhar.
O toque leve.
Aquela voz que parecia macia.
Aquela pele linda, aquele sorriso fácil.
Ele se distraía tanto que várias vezes o mecânico dava um tapa leve na nuca dele:
— Ei, presta atenção, rapaz! Vai quebrar a peça!
Afonso resmungava, mas obedecia.
E no meio das braçadas de graxa e calor, um pensamento veio:
Se ela quiser… eu levo ela comigo pra Goiânia.
Faço dela minha esposa.
Arrumo um bico, trabalho em obra, varro chão se for preciso.
Ela não ia precisar de nada. Eu dava tudo.
Era absurdo.
Ridículo.
Mas Afonso tinha 17 anos, o coração cheio de fome, e a primeira gentileza verdadeira da vida dele veio de Olívia.
O garoto estava perdido.
E então — naquele exato momento — o mecânico falou alto:
— Ô Afonso! Cê tem visita!
A chave inglesa escorregou das mãos dele e quase caiu no chão. Ele conseguiu segurar de última hora. Sentiu o estômago gelar.
Virou.
E lá estava ela.
Olívia.
Com mais três meninas da vila ao lado.
Afonso rapidamente limpou a mão na calça — piorou a sujeira — e passou a mão no cabelo, tentando ajeitar. O coração parecia querer sair do peito e correr pra longe.
— Oi, Olívia… — ele disse, fingindo charme.
Olhou para as outras.
— Oi, meninas.
As amigas dela suspiraram.
Uma cutucou a outra pelo braço.
Afonso ergueu a sobrancelha, satisfeito.
O ambiente masculino da oficina parecia perfeito para ele naquele momento. Queria impressionar.
Olívia sorriu, sempre gentil:
— A gente num tá atrapalhando, não, né?
— Você? Atrapalhar? — ele abriu um sorriso torto e pretensamente sedutor. — Você nunca atrapalha.
Olhou para as amigas, erguendo a mão como quem segura o tráfego:
— Mas cuidado, viu? Aqui é perigoso demais pra moça fina.
As meninas riram baixinho, tímidas.
Olívia revirou os olhos com um sorriso carinhoso.
— Elas só vieram pra ver se era verdade mesmo.
— O quê? — Afonso perguntou, inflando o peito.
— Que seu olho é azul.
Afonso se aproximou devagar — com aquele andar meio marrento, querendo ser interessante. As meninas deram dois passos para a frente, fascinadas.
— É azul, sim.
Passou os dedos pelo cabelo, sujando ainda mais de graxa.
— Lá no Rio, quase todo mundo tem. Normal. Mas, o meu é o mais raro de todos.
Mentira. Mas alguém precisava saber?
As meninas suspiraram, impressionadas.
Olívia observava a cena, meio rindo, meio curiosa — sem ficar deslumbrada como as outras, sem dar a ele mais do que aquele olhar tranquilo que fazia o coração dele bater no ritmo errado.
Ele abriu um sorriso inteiro, daqueles que revelam vaidade e juventude.
— Bonito, né? — ele disse.
Uma das meninas respondeu:
— Demais da conta.
Afonso se esticou um pouco mais, como se tivesse ganhado altura instantaneamente.
Mas Olívia… Olívia só inclinou a cabeça e disse:
— Ocê tá todo sujo de graxa.
E sorriu.
O sorriso que derrubou completamente a firmeza dele.
Olívia ajeitou a saia e se virou para o grupo.
— A gente já vai indo. Foi bom demais ver ocê aqui… todo esforçado.
Afonso encheu o peito na hora — como se tivesse acabado de vencer uma luta que ninguém assistiu.
Ele passou a mão no cabelo, tentando parecer casual e charmoso, mesmo pingando graxa.
— Se… se quiser vir me ver de novo… eu vou tá sempre por aqui.
A voz saiu mais macia do que ele pretendia.
Olívia riu de canto, amável:
— Melhor não, né? Ocê disse que oficina é perigoso demais.
Afonso piscou, perdido.
— Eu… é… perigoso é.
Gaguejou, tentado recompor a pose.
— Mas… se eu tô aqui, eu protejo você.
Ela ergueu uma sobrancelha, divertida.
— Bom saber disso.
E virou-se com as amigas, indo embora.
Afonso não pensou, só foi atrás.
— Eu… eu acompanho vocês até a entrada. — disse, acelerando o passo.
Olívia não reclamou, nem pareceu surpresa. Ela apenas sorriu, como quem aceita a companhia de alguém que não representa ameaça alguma.
Chegaram até o fim da rua, onde o mato começava a tomar conta da estrada. As meninas cochichavam e riam entre si, e Olívia conversava com Afonso num tom leve, perguntando sobre o Rio, o mar, as praias… Ele respondia com um orgulho pomposo, se achando o homem mais interessante do Brasil.
E por um momento… por um momento pequeno… ele se sentiu importante.
Ele se sentiu visto.
Mas então…
Uma das amigas deu uma cutucada no braço de Olívia e sussurrou no ouvido dela.
Olívia virou a cabeça.
O sorriso dela mudou — não desapareceu, só… se transformou numa coisa mais doce, mais boba, mais suave.
Afonso, sem entender, acompanhou o olhar dela.
E viu.
Um homem grande, mulato, ombros largos, braço grosso de quem trabalha na roça. Carregava um saco de farinha com uma mão só, como se fosse nada. Tinha um sorriso aberto no rosto — um sorriso parecido demais com o de Olívia.
Ele se aproximou, devagar, seguro de si.
— Ô, Olívia. — disse ele, a voz grave e simpática.
E Olívia…
Ela ficou rosa.
A menina que tratou Afonso sempre igual, sempre firme, sempre tranquila…
agora estava toda derretida, ajeitando o cabelo atrás da orelha, dando risadinha baixa.
— Oi, Zé. — respondeu ela, tímida.
Depois pigarreou, tentando se corrigir.
— Quer dizer… José.
As amigas seguraram o riso.
Afonso sentiu o estômago afundar.
Mas não reconheceu como tristeza.
Nunca reconheceria.
Viveu aquilo como raiva.
Uma raiva quente, amarga, que subiu pelo peito e queimou o rosto dele.
José olhou para Afonso como quem olha um estranhozinho simpático da cidade grande.
— E esse aí?
— É o Afonso. — Olívia explicou, gentil. — Ele veio do Rio de Janeiro.
José estreitou os olhos, curioso.
— Nunca ouvi falar. É longe?
Antes que Olívia respondesse, Afonso deu um passo à frente, impondo presença.
— É muito longe. Mais longe do que você imagina.
Apertou o maxilar e levantou o queixo, tentando parecer mais alto do que era.
— E é uma cidade importante.
José sorriu ao ouvir uma criança se gabar.
— Pois é. Bom ter gente de longe por aqui.
Estendeu a mão, amigável.
Afonso não gostou daquela calma.
Não gostou daquele sorriso.
Não gostou do jeito como Olívia olhava José.
Então apertou a mão dele com força demais — quase esmagando.
José só riu.
— Eita, seu amigo é forte, hein?
Afonso puxou a mão rápido, o cenho franzido.
— Sou forte mesmo. — disse ríspido, a voz baixa.
Olívia suspirou, meio rindo, meio impaciente:
— Vocês dois num precisa se medir, não.
Mas ela não olhou para Afonso quando falou.
Olhou para José.
E José devolveu o olhar.
Um olhar cheio de intimidade — de história — de “eu te conheço desde sempre”.
Afonso sentiu o peito apertar de novo.
Mas, como sempre, a emoção saiu distorcida:
Não como dor.
Não como medo.
Mas como ódio.
Porque tudo nele funcionava assim.
Se ele queria algo e perdia, virava raiva.
Se ele sentia algo e não entendia, virava raiva.
Se algo machucava… virava raiva.
E naquele instante, olhando os dois sorrindo um para o outro como se o resto do mundo não existisse…
Afonso jurou, lá no fundo, que tiraria José do caminho.
Nem sabia como, nem por quê, nem o que faria depois.
Mas sabia que não suportava ver alguém ocupar um espaço que, por puro desejo e orgulho, ele achava que deveria ser dele.
Mesmo sem ser.
Mesmo nunca tendo sido.
Mesmo sem ter o direito.
Os dias se arrastaram.
O sol nascia, o cheiro de café tomava a cozinha, Olívia passava rindo com o balde na mão…
e Afonso — sempre com o cabelo ajeitado e o peito estufado — tentava uma aproximação atrás da outra.
Nada funcionava.
Olívia era gentil.
Educada.
Risonha.
Mas não era para ele.
Enquanto isso, José e ela…
bom, aquilo era evidente demais pra qualquer um que não fosse Afonso.
Quando finalmente o carro ficou pronto, o mecânico limpou as mãos na calça surrada.
— Ô rapaz… foi bom demais cê ter vindo. Divertido, até.
Deu uma risada gostosa, sem maldade nenhuma.
Afonso não entendeu.
Mas abriu um sorriso exibido.
— Eu sei fazer o ambiente ficar melhor, né?
O mecânico gargalhou.
Afonso subiu no carro, acelerou só o suficiente para levantar poeira, e foi embora acreditando que agora — agora — Olívia ia enxergar quem ele era de verdade.
O homem.
O conquistador.
O futuro dono de uma construtora.
Ele estava descendo a estradinha que levava à casa de Benício quando viu Olívia caminhando sozinha, com uma cesta no braço. A saia balançava com o vento, e o sol batia no rosto dela de um jeito que fez Afonso quase parar o carro antes da hora.
Ele reduziu a velocidade e buzinou.
— Ei, Olívia! Você aí?
Ela virou o rosto e arregalou os olhos, surpresa.
— Uai, cê tá de carro?
— Agora tá pronto. Ficou incrível.
Afonso ajeitou o cabelo com a mão e deu o sorriso mais charmoso que conseguia.
Ele parou o carro, desceu com as mãos nos bolsos e se aproximou inclinado, apoiando o braço no teto do carro feito galã de novela.
Olívia… recuou meio desconfortável.
— Que que é isso, Afonso? Tá me estranhando?
Ele tentou rir.
— Estranhando nada, pô… só tô sendo… eu.
— Então… não tô gostando disso, não.
Ela virou e continuou a andar.
Afonso ficou sem chão por um segundo.
Ele nunca tinha sido ignorado assim. Nunca.
— Ei, Olívia! Calma aí…
Ele correu e alcançou ela.
— Deixa eu falar contigo.
Ela parou, virou só o suficiente para encará-lo.
— Pois fala.
O coração de Afonso batia como se quisesse arrombar o peito. Ele não sabia por onde começar, então começou errado.
— Tu mexe comigo, sabia?
Passou a mão nos cabelos, nervoso.
— Eu… eu gosto de você. Gosto mutio.
Olívia franziu o cenho.
— Afonso… cê nem me conhece.
— Mas eu conheço o suficiente.
Ele afirmou, com a convicção cega de quem nunca entendeu amor de verdade.
Olívia abriu a boca para responder, mas ele avançou antes — o medo de perder queimando mais rápido que a razão.
— Vamo pra Goiânia comigo. Eu te dou o mundo, Olívia. Te faço rainha. Tu nunca vai precisar de nada. Eu me viro, arrumo emprego, construo casa, faço tudo.
Ela deu dois passos para trás.
— NÃO.
A voz dela foi firme.
— Num posso fazer isso. E nem quero. Num gosto de ocê desse jeito.
As palavras entraram doloridas no peito de Afonso.
Mas ele não reconhecia dor.
Reconhecia só raiva.
— Como assim? — ele rosnou, baixo. — Cê é perfeita pra mim.
— Afonso… ocê tá estranho. Muito estranho.
O desespero tomou conta.
E então, num impulso, ele avançou e roubou um beijo.
Um beijo bruto, desesperado, desajeitado.
Olívia recuou na hora — empurrou ele com as duas mãos, com força — e deu-lhe um tapa tão estalado que ecoou na estrada.
— QUE QUE OCÊ TÁ FAZENDO, GAROTO?!
Afonso ficou parado, o rosto ardendo, confuso, magoado, sem entender por que o mundo inteiro tinha virado contra ele.
E então…
Uma força enorme atingiu a lateral dele.
Ele voou para trás. Caiu na terra dura, arrastando poeira.
Quando levantou o rosto atordoado…
José estava ali.
Ele respirava forte, o olhar cravado em Afonso.
— Olívia… ocê tá bem?
Ele perguntou sem olhar para ela.
Ela fez que sim com a cabeça, tremendo um pouco.
Afonso sentiu o coração derreter em algo quente e sujo: humilhação.
Ódio.
Ele não vai mandar no meu destino.
Ninguém vai me dizer o que eu posso ou não posso ter.
Ninguém vai tirar ela de mim.
A raiva queimou tão forte que ele se levantou num pulo e avançou.
José levantou uma mão, calma e pacífica.
— Afonso, para com isso. Vai embora.
E essa calma…
essa tranquilidade…
aquela masculinidade que não precisava berrar…
fez Afonso perder o controle.
— Não fala comigo assim, seu caipira do caralho!
Ele acertou José em cheio no maxilar — um golpe rápido e certeiro, fruto de brigas de rua que José nunca precisou enfrentar.
José caiu no chão, mais por surpresa do que por dor.
Afonso correu até Olívia e segurou o braço dela com força.
— Vamo comigo! Vamo agora!
Ela tentou puxar o braço.
— Solta! Eu não vou com ocê, não!
A voz dela saiu assustada — coisa que Afonso nunca quis provocar, mas estava cego demais pra perceber.
José se levantou devagar, os olhos diferentes agora — não mais calmos, não mais mansos.
Cheios de raiva.
— TIRA A MÃO DELA.
A voz dele tremia.
Afonso virou, ainda segurando Olívia.
— Quero ver tu me impedir.
E José impediu.
Os dois se agarraram, trocaram golpes, rolaram na poeira da estrada. Afonso era mais rápido, mais agressivo, cheio de malícia de rua. Acertou dois golpes fortes, mas José era mais pesado, mais firme, mais inteiro — e, principalmente, estava lutando pela mulher que amava.
No terceiro tranco, José acertou Afonso no nariz.
Afonso caiu de costas, a mão no rosto, o sangue escorrendo quente pelos dedos. A vista ardia, o coração batia no ouvido, e o mundo parecia girar.
Quando ele abriu os olhos…
Olívia estava abraçada em José.
José estava olhando pra ela, verificando se ela estava bem.
E os dois…
os dois pareciam viver num mundo onde Afonso não existia.
E isso…
essa invisibilidade…
doeu, mais do que já doeu antes.
Mais que o beijo recusado.
Mais que o tapa.
Mais que o sangue quente.
Doía porque era real.
E porque, pela primeira vez, Afonso percebeu que não importava o quanto gritasse…
…o lugar ali jamais seria dele.
Afonso cuspiu o sangue que escorria para dentro da boca. O gosto de ferro, poeira e humilhação deixava tudo amargo.
O mundo girava um pouco, mas o orgulho era mais teimoso que o corpo.
Ele se levantou cambaleando, uma mão no nariz sangrando. A outra apontou para Olívia com a arrogância de um rei derrotado.
A voz dele saiu rasgada, irregular, mas alta o bastante para ecoar pela estrada:
— VOCÊ VAI SE ARREPENDER DE NÃO TER FICADO COMIGO!
Ele tremia de raiva — porque doía demais.
O rosto ardia, o peito queimava, e a vergonha subia como febre.
— EU TE AMALDIÇOO! — berrou, cuspindo a palavra com sangue. — DO MESMO JEITO QUE TU ME ARRUINOU… UMA MULHER TAMBÉM VAI ARRUINAR A SUA FAMÍLIA!
José aproximou Olívia do peito, como se pudesse protegê-la das palavras também.
Afonso riu, um riso torto, rachado, que mais parecia soluço.
— VOCÊ VAI SER ABANDONADA!
A voz dele falhou, mas ele continuou, empurrado pelo ressentimento:
— VOCÊ VAI SABER O QUE QUE É PERDER UM HOMEM DIREITO. E VAI SABER QUE FOI TUDO CULPA SUA. PORQUE VOCÊ NÃO QUIS SER MINHA!
Os olhos dele eram puro veneno.
Puro orgulho ferido.
Ele virou as costas mancando, a respiração PESADA.
Cada passo deixava gotas de sangue na estrada, um caminho rubro que parecia carregar mais ódio do que dor.
Abriu a porta do carro com brutalidade, quase arrancando a maçaneta.
Cuspiu mais sangue no chão, limpou a boca com a manga suja e entrou.
Não olhou para trás.
Não pediu desculpa.
Não pensou no que tinha feito.
Pensar doía.
Sentir doía ainda mais.
Então ligou o carro com a mão trêmula.
O motor roncou.
E Afonso Monteiro arrancou pela estrada de terra como se estivesse fugindo dele mesmo.
O coração doía, a vista ardia, o sangue escorria…
mas a fúria segurava ele no volante.
Ele ia chegar em Goiânia.
Ia conseguir o que queria.
Ia ser alguém.
Ia ser grande — tão grande que ninguém nunca mais ia poder fazer ele sentir aquilo de novo.
Porque, naquele momento, ele só sabia uma coisa:
Nada doía mais que ser rejeitado.
E nada queimava mais fundo que a vergonha de ter sido derrotado.
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