O CEO que Eu Paguei
133 Família é Para Essas Coisas
O carro avançava pela noite carioca, cortando avenidas iluminadas por postes e letreiros. Helena ainda estava encostada no banco, a cabeça apoiada de lado, observando a vista noturna. O descanso havia lhe devolvido um pouco da cor ao rosto. O sangue que a surpreendeu mais cedo não voltou. Talvez tivesse sido o calor sufocante, talvez o estresse, talvez um aviso silencioso do corpo de que ela precisava se cuidar mais.
Jonas a observava pelo reflexo do vidro. Estava acostumado a mulheres de todo tipo, mas aquela — a namorada de Heitor Monteiro — tinha algo diferente. Não importa o quanto pensasse ou observasse, ele não conseguiu descobrir o que era. Ou melhor, de onde vinha essa sensação familiar.
Ele quebrou o silêncio, num tom leve:
— Parece que você tá bem melhor.
Helena abriu os olhos devagar, ajeitou-se no banco, respirando fundo.
— Sim… eu só precisava descansar um pouco.
Jonas riu, balançando o celular entre os dedos.
— E ainda insistiu que não tá com fome? Nem aceitou ficar pra jantar comigo e com a minha família. Meu pai e o Isaac devem estar chegando por agora.
Ela negou com a cabeça, firme.
— Não, obrigada. Quero ir direto pro apartamento.
— Mas você já conheceu minha mãe, né? — ele provocou.
Helena franziu o cenho, surpresa.
— Não.
Jonas arqueou a sobrancelha, divertido.
— Ah, deve que você tava dormindo quando ela foi te ver.
Ela suspirou, a culpa lhe pesando nos ombros.
— Eu deveria ter agradecido. Foi uma falta de educação da minha parte.
— Relaxa. — ele rebateu, quase rindo. — Minha mãe adora o Heitor. Então, automaticamente, te adora também. O seu nível de chatice não é o bastante pra ela não gostar de você.
Helena virou o rosto para ele, indignada, mas o brilho nos olhos a denunciava.
— Tem certeza de que é o mais cobiçado da cidade? Porque, sinceramente, você não sabe conversar com uma mulher.
Jonas abriu a boca, ofendido de mentira, colocando a mão no peito:
— Eu sou ótimo com mulheres. Já viu meu Instagram?
— Não. E nem quero. — retrucou, cruzando os braços.
Ele deixou escapar um sorriso enviesado, cheio de insolência.
— Você não suporta estar errada, né? Tudo bem. Vou deixar essa passar.
Helena bufou, mas riu pelo nariz, rendida à provocação. Jonas tinha esse efeito: transformava tensão em algo suportável.
Por alguns minutos, o carro seguiu em silêncio. Helena girava o celular nas mãos, a tela ainda em modo avião. O coração latejava só de imaginar ouvir a voz de Heitor sem poder encará-lo. Não queria esconder-se atrás de mensagens. Precisava olhá-lo. Precisava que ele visse nos olhos dela o quanto ainda o amava.
Quando o carro parou em frente ao edifício luxuoso onde Heitor morava, ela respirou fundo, pronta para sair. Mas Jonas a chamou de novo, desta vez sério:
— Helena.
Ela se virou, surpresa com o tom.
Ele a encarava firme, a expressão mais madura do que de costume.
— Eu conheço o Heitor desde que nasci. Consigo contar numa mão quantas mulheres ele assumiu na vida e você tá nessa lista curta. Quando ele decide por alguém, ele faz tudo. Tudo mesmo. Isso é lindo, mas também é perigoso… quando a pessoa não vale a pena.
Helena sentiu o coração encolher.
— Jonas…
Ele ergueu a mão, pedindo silêncio.
— Eu gosto de você. Mas ainda tô magoado. Você não agiu como a lenda que eu imaginei que fosse.
Ela engoliu seco.
— E o que isso significa?
Jonas inspirou fundo, sustentando o olhar dela.
— Significa que eu tenho que pedir. Por favor, Helena… não magoa o Heitor.
As palavras atingiram-na como um soco. Ela sentiu o peito apertar, as mãos tremerem em cima da bolsa.
— Eu amo o Heitor. — disse, a voz firme apesar da emoção que ameaçava transbordar. — Não vou magoá-lo.
Jonas recostou no banco, soltando o ar pesado que segurava. Um meio sorriso aliviado escapou.
— Ótimo. Mesmo que minha cabeça diga que você tá mentindo… alguma coisa em mim acredita que não tá.
— Eu não tô. — repetiu ela, convicta.
Ele fez sinal para o motorista, que saiu para abrir a porta. Jonas desceu primeiro, depois Helena. A acompanhou até a entrada do edifício, a brisa quente da noite carioca envolvendo os dois.
— Bom… tá entregue. — disse, tentando recuperar a leveza.
Helena abriu um sorriso contido.
— Obrigada por hoje, Jonas.
Ele sorriu maroto.
— Que isso, cunhada. Família é pra essas coisas.
Ela deixou escapar uma risada baixa. Por impulso, se aproximaram para um abraço — estranho, desajeitado no início. Mas Jonas, encabulado, acabou puxando-a forte contra si. O abraço foi inesperadamente reconfortante, um calor seguro que a fez realaxar.
Quando a soltou, os olhos dele estavam sérios de novo.
— Seja uma boa namorada pra ele.
— Eu vou ser. — respondeu, sem vacilar.
Jonas assentiu, satisfeito.
— Então tá.
Ele se afastou, caminhando de volta para o carro. Helena ficou parada diante da porta do prédio, o coração batendo rápido. Sentia-se leve e pesada ao mesmo tempo. Tinha muito a explicar, muito a provar… mas uma certeza pulsava em sua alma.
Ela não abriria mão de Heitor.
O apartamento estava em silêncio. Apenas o leve som das patinhas de Mel quebrava o ar, enquanto a golden circulava inquieta pela sala. Celina sentou-se na poltrona clara, o corpo ereto, impecável em sua postura, mas a mente longe.
As últimas horas tinham sido um suplício. Heitor saíra como um louco pelas ruas, a voz embargada ao pedir:
"Mãe, por favor, fica no apartamento. Se ela aparecer… alguém tem que estar aqui."
O olhar dele antes de sair ainda a assombrava: desesperado, quase implorando. Helena não atendia às ligações, não retornava as mensagens. Um olhar que a fez engolir a própria raiva, engolir o orgulho, e sentar-se ali, à espera da moça que, contra tudo o que acreditava, ele chamava de amor.
Primeiro dia no Rio, e já desapareceu. Celina conhecia bem aquele tipo de mulher. Não era surpresa — a irresponsabilidade parecia fazer parte do pacote.
Mel, que agora se esparramava no tapete como uma criança mimada, levantou a cabeça atenta. Celina esticou a mão e tocou a cadela.
— Ao menos você não o decepciona, não é? — disse em voz baixa, acariciando as orelhas macias. A cadela abanou o rabo com entusiasmo. Celina sorriu de canto. — Ele devia ter ficado só com você.
Mel latiu de repente, correndo para a porta. Celina ajeitou seu macacão e a observou com atenção. O som da campainha ecoou, mas foi quase desnecessário — Mel já abanava o rabo com frenesi. Celina seguiu até lá e abriu a porta.
E lá estava ela.
A moça das fotos do Instagram de Heitor.
Preta. Cabelos castanhos escuros que caíam até o busto, numa textura indefinida, entre o cacheado rebelde e a onda contida. Os olhos castanhos eram expressivos demais para o gosto de Celina, sobrancelhas cheias que emolduravam o rosto salpicado por sardas no nariz e nas maçãs do rosto. A boca, cheia e bem desenhada, parecia sempre prestes a sorrir. Não era gorda, tampouco magra em excesso — havia um equilíbrio incômodo ali, algo que realçava um corpo saudável, talvez até bonito. Estava vestida de maneira razoável.
Celina sentiu o calor subir-lhe ao rosto. Um misto de raiva e repulsa latejava sob a pele. “Era isso? Era essa mulher que tinha deixado o meu filho de joelhos? É por essa que ele bateu de frente com todos nós?”
— Oi. — disse Helena, a voz suave, quase tímida.
Celina manteve a expressão firme, o maxilar cerrado, a raiva contida atrás de seu semblante.
— Oi. — devolveu Celina, seca, polida.
Fez questão de dar um passo para fora da porta, erguendo o queixo, o olhar firme e altivo. Era mais alta que Helena.
— Sou Celina Monteiro. — apresentou-se, cada sílaba carregada de classe e hierarquia.
Helena a fitou com curiosidade, surpresa e, de imediato, um brilho de admiração surgiu nos olhos dela. Como se estivesse diante de alguém que sempre quis conhecer. Apressou-se em ajeitar a roupa, passando a mão pelos cabelos, e um sorriso largo nasceu em seus lábios — genuíno, quente.
Aquele sorriso.
Celina sentiu algo dentro dela vacilar. A raiva parecia se dissolver em uma fração mínima. Havia algo desconcertante na expressão daquela jovem, esse sorriso… não se encaixava no rótulo que já havia dado a ela. Quanto mais olhava, mais difícil era sustentar o desgosto inicial.
— Sou a Helena. — disse a moça, com um misto de entusiasmo e timidez. — Namorada do Heitor. Estava ansiosa para conhecer a senhora. Ele fala tanto da senhora… sempre tão bem.
E, antes que Celina pudesse reagir, Helena se aproximou e a abraçou. Um gesto repentino e afetuoso.
Celina congelou. O corpo enrijeceu sob o contato inesperado. Estava acostumada a cumprimentos formais, beijos contidos no rosto, apertos de mão elegantes. Não a um abraço quente e espontâneo. Contra a lógica que sempre a guiou, não conseguiu repelir a menina.
Helena, porém, parecia genuinamente feliz, como uma moça do interior que queria agradar, que buscava aprovação, que ansiava por ser aceita.
— Que prazer, dona Celina. — completou, com aquela voz terna. — Espero que possamos nos dar bem.
Celina respirou fundo, ainda estática, sentindo os braços da jovem ao redor dela.O coração de Celina bateu irregularmente, e a mente buscava explicações.
“Por que eu sinto que ela é tolerável? Por que esse abraço é tão familiar?”
— Entre. — disse, num fio de voz que saiu mais brando do que gostaria.
Helena entrou. Foi imediatamente recebida por Mel, que pulou, alegre, pedindo carinho. A moça se agachou, riu baixinho e afagou a cadela com ternura. Helena parecia pertencer ali, pelo menos para o animal.
Levantando-se, Helena deixou os olhos vaguearem pelo apartamento, inquietos e apreensivos. Procurava alguém. Procurava Heitor.
Celina suspirou, pegou o iPhone sobre o sofá e realizou uma chamada. Helena ainda olhava timidamente pelo apartamento, procurando algum sinal de Heitor.
— Heitor? — disse Celina, a voz controlada.
Helena a olhou imediatamente.
— Pode voltar. Ela chegou. — O semblante de Helena pesou, culpado — Sim… ela está bem. Não, não parece machucada.
O rosto da moça corou, os olhos marejaram de vergonha.
— Dirija devagar, ouviu? — acrescentou Celina, o tom suavizado. — Respira. Ela está comigo. — seu sotaque era elegante, algo que só podia ser encontrado no topo da elite conservadora carioca.
Desligou. Suspendeu o ar, como quem segura o peso do mundo no peito, e voltou o olhar para Helena.
— Ele está na rua, te procurando como um desesperado. — disse com firmeza. — Você não atendeu nenhuma ligação. Perdeu o celular?
Helena baixou os olhos. A culpa estampada em cada traço.
— Eu… estava no outro trabalho. Depois passei mal e precisei de ajuda. — a voz trêmula, mas orgulhosa.
Celina a fitou em silêncio. Exatamente como imaginou: “Irresponsável, imprudente e indigna”. Alguém assim, só podia estar se aproveitando do seu filho.
— Sente-se. — pediu, desta vez com um tom quase maternal.
Helena se sentou, desconfortável, mas ainda ereta, como quem luta para não parecer fraca.
— O que você sentiu? Tomou algum remédio? — perguntou Celina, com preocupação sincera que escorregava para fora.
— Não precisa se preocupar. Foi só cólica… minha menstruação adiantou um pouco. — respondeu com naturalidade.
Celina pegou o celular de novo, já buscando o contato do médico da família.
— Vou chamar o doutor.
— Não! — Helena se apressou, levantando a mão. — Eu já estou melhor. Foi só um susto.
Celina parou. Os olhos de Helena a encaravam de frente — castanhos, orgulhosos, mas vulneráveis. Era como olhar para um ente querido.
Ela guardou o celular.
— Então descanse. — disse, e a voz saiu mais baixa, mais suave. — Aqui você está segura.
Helena suspirou e sorriu de leve. Celina até admirava como aquelas pessoas se sentiam à vontade tão rapidamente.Se levantou com a calma e olhou de relance para Helena.
— Vou preparar um chá para você. — disse no tom que misturava ordem e cuidado.
Helena apenas assentiu, ainda um pouco encolhida no sofá, com as mãos entrelaçadas no colo.
Celina caminhou até a cozinha. O espaço era amplo, todo em mármore claro e inox brilhante, de revista. Abriu o armário e pegou a chaleira elétrica. Encheu de água, plugou na tomada e apertou o botão. O clique seco ecoou no silêncio.
Ela sentiu os olhos de Helena sobre si, atentos, curiosos. E isso a incomodou.
Respirou fundo, girando os ombros para relaxar. Voltou-se para Helena:
— Está com fome?
— Não. — respondeu rápido, quase automática.
Mas logo em seguida, o estômago de Helena roncou alto, traindo-a. Ela levou as mãos à barriga e corou, constrangida, abaixando o olhar.
Celina ergueu uma sobrancelha. Por dentro, uma parte dela queria sorrir; outra queria suspirar em reprovação.
— Você está sim. — disse firme, sem dar margem. — Vou fazer pão de forno. Para mim e para você.
— Ah, não precisa… — Helena tentou protestar, ainda sem jeito.
— Precisa, sim. — cortou Celina, já pegando os pães do armário.
Helena respirou fundo.
— Obrigada.
Celina não respondeu, pegou uma tábua, os pães, ralou a mussarela e o peito de peru de uma forma meticulosa. Passou a ricota com a faca, cortou a cebola e a bateu no liquidificador, picou em pequenos cubos o tomate e o pimentão, com movimentos firmes, uniformes, como quem já fizera aquilo milhares de vezes.
Colocou os sanduíches em uma travessa de cerâmica, cobriu com orégano e deslizou-os para dentro do forno elétrico. A cozinha se encheu rapidamente de um cheiro quente, reconfortante, que parecia contradizer o peso das horas anteriores.
Helena quebrou o silêncio.
— Sabe… eu não esperava te conhecer assim, de repente.
Celina manteve o olhar no forno.
— E como esperava me conhecer? — perguntou, o tom elegante, mas havia curiosidade sincera ali.
Helena deu um sorriso tímido, mordendo o lábio.
— Não sei… imaginei que fosse em algum jantar formal. Heitor sempre fala de você como se fosse… perfeita. Uma mulher que comanda qualquer ambiente. — suspirou, e os olhos castanhos brilharam com uma admiração quase infantil. — E é verdade.
Celina virou o rosto devagar. O elogio, vindo dela, trouxe calor onde deveria haver apenas resistência.
— Heitor fala demais. — respondeu, seca, mas os lábios tremiam num quase sorriso. — Ele exagera.
— Ele realmente fala demais — ela sorriu para si mesma — Mas ele não exagera. — Helena rebateu de pronto, sincera. — Ele se orgulha de você. E eu também queria que a senhora tivesse orgulho de mim.
"Ela me olha como se eu fosse alguém que pudesse dar ou negar valor à sua vida." Celina estava acostumada com isso. Era o seu papel na alta sociedade. O que a irritava, era Helena pensar que ela estava no nível para sequer ser julgada.
O forno apitou. Celina abriu e retirou a travessa. Serviu os sanduíches em pratos de porcelana, cada corte diagonal preciso, cada detalhe cuidado como se fosse para um jantar importante.
Colocou um prato diante de Helena. E, por um instante, antes que a moça tocasse a comida, Celina a observou em silêncio.
Havia um conflito dentro dela que não cessava: o preconceito herdado, o elitismo que gritava… e essa estranha ternura que a moça despertava.
— Aqui está. — colocou o prato diante de Helena. — Espero que esteja acostumada com esse tipo de lanche.
Helena sorriu, sincera:
— Claro! Parece um misto quente. Lá em casa a gente faz bastante.
Celina ergueu uma sobrancelha, pousando o próprio prato à mesa.
— Imagino. — disse, num tom polido, mas que trazia a ponta de julgamento. — Em casas mais simples, a praticidade sempre fala mais alto.
Helena não percebeu a farpa, ou fingiu não perceber. Levou uma mordida, os olhos se iluminaram.
— Tá delicioso. Melhor do que qualquer misto que já comi. — disse com gratidão genuína. — A senhora deve cozinhar muito bem.
Celina pigarreou, ajeitando o guardanapo de linho no colo.
— Não costumo ter tanto tempo para isso. Mas, quando o Heitor era criança, costumávamos fazer juntos. — a lembrança fez seu coração se aquecer.
— Então foi com a senhora mesmo que ele aprendeu a cozinhar tão bem. — após engolir, ela sorriu com o olhar — Obrigada mesmo por estar cuidando de mim.
O sorriso dela mexeu mais uma vez com Celina. A raiva que insistia em nutrir parecia perder força.
— Então… você é de Minas, não é? — perguntou, tomando um gole de chá, o tom aparentemente casual. — Uma vida… bastante diferente daqui.
— Sim. — Helena confirmou, orgulhosa. — Sou do interior. Lá é bem mais tranquilo. Todo mundo conhece todo mundo.
Celina arqueou levemente os lábios, como se analisasse um quadro.
— Entendo. No interior, tudo parece… mais ingênuo.
Helena riu baixinho, limpando a boca com o guardanapo.
— Pode até ser, mas foi lá que aprendi a ser forte. Se eu não corresse atrás, não teria conquistado nada do que conquistei.
Celina sustentou o olhar dela por alguns segundos. Havia sinceridade demais naquela fala. Demais para ser ignorada.
— Isso é admirável. — disse por fim, a voz baixa, mais suave do que pretendia. — Heitor me disse mesmo que você era esforçada.
— Ele diz muito isso mesmo. — Helena respondeu, com um brilho divertido nos olhos. — Mas eu acho que é isso que ele gosta em mim.
Ela respirou fundo, pousando a xícara com cuidado.
— Heitor sempre teve um gosto… exótico. — comentou, a frase carregada de significado.
Helena, sorriu como quem recebeu um elogio.
Celina observava a garota, ela primeiro partia o pão macio no canto, depois circulava o garfo em volta bem rente ao pedaço. Virava-o uma vez, antes de levar à boca. “Uma mania”, pensou Celina.
Quando terminaram, Helena, sem esperar instrução, recolheu os pratos e os levou até a pia.
— Não precisa. — Celina comentou, mas não se moveu para impedir.
A moça já estava com as mangas ligeiramente arregaçadas, a água correndo, e os pratos sendo ensaboados com movimentos rápidos e eficientes. Celina a observava da cadeira, as pernas cruzadas com elegância, uma xícara de chá ainda quente entre os dedos. “Ela tem jeito para isso. Como eu imaginava que tivesse. Não é um defeito, mas também não é um mérito nobre.”
O silêncio foi quebrado pela voz da jovem.
— A senhora é bem parecida com o Heitor. — disse Helena, quase como se estivesse pensando alto, mas com aquele tom de quem queria puxar conversa.
Celina piscou uma vez, voltando dos próprios pensamentos.
— Ele é mais parecido com a minha falecida sogra. — respondeu, num tom frio mas sem hostilidade. — E mesmo assim, tem muitos traços meus.
Helena enxugou as mãos num pano de prato, antes de pegar outro copo para secar.
— O pai dele deve ficar enciumado, né? — arriscou, sorrindo leve. — Por não se parecer tanto.
Celina deixou escapar um riso breve, quase irônico.
— Meu marido, não. Mas o meu sogro, sim. — pousou a xícara na mesa. — Ele queria ter tido mais netos, para que algum viesse parecido com ele.
— Não quiseram ter mais filhos? — Helena perguntou, agora secando um prato, com naturalidade, mas também curiosidade genuína.
Celina inclinou a cabeça.
— Queríamos, sim. — respondeu, e a lembrança suavizou levemente seu semblante. — Porém, achamos melhor focar nossa energia em criar um muito bem-criado.
Helena assentiu, com um sorriso sincero.
— Tomaram a decisão certa. — disse, sem hesitar. — O Heitor é ótimo.
Celina a encarou. “Ela acredita mesmo nisso. Talvez ela seja um pouco mais esperta do que imaginei”.
Mudou de assunto, a voz levemente mais cortante:
— E você? Tem irmãos?
Helena pousou o prato seco sobre a toalha e respondeu:
— Sou filha única. Fui criada pelos meus avós.
Celina estreitou os olhos.
— E seus pais?
A moça hesitou por um instante, um silêncio breve se instalou antes que ela respirasse fundo.
— Meu pai faleceu. Minha mãe… eu não conheci.
Celina, por hábito, deixou a frase automática escapar:
— Eu lamento.
Helena ergueu o queixo, devolvendo o olhar, com aquele orgulho mineiro que não se dobrava fácil.
— Eu não os conheci. Então não precisa se lamentar. — disse firme. — Meus avós me criaram bem.
Celina segurou o olhar dela por um instante, tentando encontrar alguma fenda, alguma insegurança escondida atrás daquela fala. Mas não havia. Apenas convicção. Apenas a firmeza de alguém que sabia o próprio valor, mesmo sem raízes tradicionais.
— Vejo que sim. — respondeu, por fim, mais baixo do que pretendia.
E, enquanto Helena guardava os pratos com naturalidade, Celina se surpreendeu com o que sentia. “Não era para eu admirar essa segurança… mas aqui estou, admirando.”
A cadela voltou a correr em direção à porta, as patas ressoando apressadas no piso de madeira. Choramingava baixo, indo de um lado para o outro rente à entrada, como se adivinhasse o que vinha do outro lado.
O som da maçaneta ecoou suave. E, quando a porta se abriu, lá estava ele.
Heitor.
O calção preto, a camisa de botões de manga curta mal fechada no peito e o chinelo. Tudo nele era urgência, vulnerabilidade. Seus olhos, aflitos, percorreram o ambiente até se fixarem nela.
E, por um instante, o tempo parou.
Helena sentiu o coração acelerar, o sangue correr quente pelas veias. O olhar dele — triste, ferido, quase quebrado — pesava sobre ela como uma confissão silenciosa. Ele não disse nada. Ela também não. Apenas se olharam.
A cachorra se esfregava contra a perna dele, abanando o rabo com euforia, sem perceber o peso da cena.
Celina se levantou devagar. A postura ereta, os passos firmes, mas o olhar suavizado.
— Vou deixá-los conversar. — anunciou com serenidade.
Helena virou-se para ela, sem esconder o constrangimento.
— Foi um prazer conhecê-la, dona Celina.
A senhora apenas retribuiu com um sorriso contido, afetuoso — mais gesto de educação do que palavra. Com poucos passos, aproximou-se do filho.
Heitor não desviou dos olhos de Helena até sentir as mãos da mãe pousarem sobre seus ombros. Ela o obrigou a baixar um pouco a cabeça, encarando-o de frente.
— Bom é isso. — disse firme, com aquela voz que sempre misturava carinho e autoridade.
— Obrigado por ficar aqui por mim.
Ele piscou os olhos, engolindo o peso do momento.
— Sou sua mãe. — continuou ela, sem permitir espaço para réplica. — Não importa o que aconteça, sempre estarei aqui para você. Não se esqueça disso.
Um sorriso melancólico desenhou-se nos lábios de Heitor.
— Não vou.
Celina o puxou levemente para baixo e depositou um beijo na bochecha.
— Boa noite, filho. Espero que esteja com a cabeça no lugar.
— Não se preocupe. — ele respondeu, tentando soar firme, mas a voz saiu baixa. — Faça uma boa volta. Me avise quando chegar.
Ela arqueou as sobrancelhas e frisou a frase:
— Vou avisar. — e, nesse “vou avisar”, havia uma pontada de recado silencioso para Helena, um cutucão elegante.
Passou a mão sobre a cabeça da cadela, que ainda festejava, e se despediu dela também. Em seguida, caminhou para o corredor e saiu.
A porta se fechou atrás dela.
O silêncio caiu pesado no apartamento. Heitor permaneceu parado diante da porta por alguns segundos, como se não tivesse coragem de virar. Mas quando o fez, seu olhar encontrou o de Helena outra vez.
E ali, de frente para ele, Helena sentiu o coração doer. Era uma mistura amarga de culpa, por tê-lo deixado naquele desespero; e constrangimento, por não saber como se justificar. Tudo nela queria falar, mas as palavras pareciam pequenas demais para caber naquela distância que agora os separava.
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