O CEO que Eu Paguei
244 Escolhas - Parte III
Amanda levou as duas mãos ao rosto, o choro veio de uma vez. Era um choro pesado, sufocado, de alguém que finalmente deixou a realidade alcançá-la.
— Amanda?
Jonas virou na mesma hora. A expressão descontraída desapareceu completamente.
— Ei... o que foi? — ele caminhou depressa até a cama e se sentou ao lado dela. — Tá passando mal? Você tá sentindo alguma coisa?
Sem saber o que fazer, começou a afagar lentamente seu braço.
Amanda balançava a cabeça negativamente enquanto tentava respirar entre um soluço e outro.
— Eu... eu não devia ter ficado com você...
Jonas congelou. A mão dele parou sobre o braço dela.
— Como é que é?
Amanda apenas continuou chorando. Jonas respirou fundo, completamente perdido.
— Pera aí… — passou a mão pelo rosto, tentando organizar os pensamentos. — Amanda... você tava super me dando mole.
A voz dele já não tinha o tom brincalhão de sempre, era séria e confusa.
— Você me queria. Você correspondia aos meus toques... você me procurava... até suspirava quando eu tava perto de você.
Cada palavra parecia afundar Amanda um pouco mais.
Porque era verdade.
Ela lembrava de tudo, dos olhares, das mensagens, da aliança escondida e das mentiras.
Ela não tinha sido levada até ali. Ela caminhou até aquele quarto por vontade própria. Mesmo assim, aquilo não diminuía a dor.
Amanda enxugou os olhos com força.
— Você dorme com qualquer uma… — a frase saiu carregada de mágoa.
Jonas a encarou por alguns segundos. Depois cruzou os braços, respirando fundo.
— Não. — respondeu com firmeza. — E vou te falar uma coisa que pouca gente acredita. Nunca fiquei com colega de trabalho. Nunca. Você foi a primeira. E, sinceramente...
Soltou uma risada curta, sem humor.
— Foi a última.
Amanda levantou lentamente os olhos.
Jonas continuou:
— Misturar trabalho com isso… É pedir pra dar problema.
Ela respirou fundo.
— Então por que você ficou comigo? — a pergunta saiu quase num sussurro.
Jonas abriu a boca para responder.
Porém, parou e pensou.
Olhou para o chão, apoiou as mãos na cintura. Então soltou o ar devagar.
— Porque… — deu um sorriso cansado para si mesmo. — Eu achei que era exatamente isso que a gente tinha vindo fazer.
Jonas começou a andar de um lado para o outro. Parecia irritado consigo mesmo.
— Eu sabia que isso tinha tudo pra dar errado… — murmurou mais para si do que para ela. — Então por que eu fiz essa merda?
Amanda permanecia sentada na cama, tentando controlar o choro.
Jonas parou novamente diante dela.
— Escuta… — a voz saiu mais calma. — Eu realmente não fico com qualquer mulher. Sou muito mais seletivo do que as pessoas imaginam.
Amanda soltou uma risada amarga.
— Claro...
Jonas franziu a testa.
— Ei. — apontou para ela. — Não faz isso. Não cospe no prato que comeu.
Ela respirou fundo. As lágrimas voltaram a encher seus olhos.
— Sabe qual foi o problema?
Jonas balançou a cabeça.
— Não. Me conta aí, fazendo favor.
Amanda demorou alguns segundos para conseguir falar. Quando conseguiu, sua voz quase desapareceu.
— Eu achei… — fechou os olhos. — Eu achei que você gostava de mim.
O quarto inteiro pareceu ficar em silêncio.
Jonas permaneceu completamente imóvel. Os olhos dele se arregalaram. Era evidente que aquela possibilidade jamais tinha passado pela sua cabeça.
Amanda limpou o rosto rapidamente.
Não conseguia mais encará-lo.
Sentia vergonha de si mesma.
Levantou-se da cama devagar. Respirou fundo e perguntou, quase sem voz:
— A gente pode... esquecer que isso aconteceu? Ou só lembrar como se tivesse sido um erro?
Jonas abaixou os olhos por alguns segundos. A expressão dele mudou aos poucos, como se estivesse encaixando as peças de um quebra-cabeça. Então levantou o rosto outra vez.
— Acho que eu entendi.
Amanda permaneceu em silêncio.
— Isso que você tá sentindo... é normal. — ele falava devagar, escolhendo as palavras. — Você ficou casada por muito tempo. Não tá acostumada com sexo casual. É um choque mesmo.
Amanda sentiu o estômago embrulhar. Queria dizer que não era isso. Queria dizer que ainda era casada. Que Gustavo provavelmente estava em casa assistindo televisão, acreditando que a esposa estava fortalecendo contatos importantes para a carreira.
Mas as palavras morreram antes de chegarem à boca. Contar a verdade agora só destruiria mais coisas.
Jonas deu um meio sorriso, interpretando completamente errado o silêncio dela.
— Eu gosto de você. — falou com sinceridade. — Tu é inteligente pra caramba... e eu sempre tive uma queda por mulher inteligente. Acho que esse é meu maior ponto fraco.
Ela acabou soltando uma pequena risada de incredulidade. Uma risada cansada, sem humor.
Jonas sorriu de volta, acreditando que finalmente ela estava relaxando.
— Fica tranquila. — ele deu um passo na direção dela. — Eu sou um cara super de boa. Tenho respeito por você. Isso que aconteceu aqui... morre aqui. Ninguém vai ficar sabendo.
Amanda respirou fundo.
Mas Jonas continuou:
— E, sinceramente… — coçou o queixo, pensativo. — A gente se deu bem demais.
Ela levantou os olhos.
— Você realmente quer fingir que isso nunca aconteceu? — perguntou ele.
Amanda permaneceu alguns segundos em silêncio. Depois respondeu quase num sussurro.
— Eu não quero ser só mais uma.
A frase fez Jonas franzir levemente a testa.
— Mas você não é. — respondeu imediatamente. — Eu tenho carinho por você. Gosto de conversar contigo. A gente fala todo dia. Eu gosto da tua companhia.
Jonas parou um pouco, batendo uma mão fechada na outra mão. Parecia estar pensando, parecia estar procurando alguma solução. Ele então colocou uma mão na cintura e a outra apoiando o queixo enquanto olhava para cima. De repente, seus olhos brilharam.
— Já sei!
Amanda o encarou.
— A gente pode ter uma amizade colorida. — sorriu como quem acabara de encontrar a solução perfeita. — Sem cobrança. Sem namoro. Sem complicação. A gente continua conversando, se vendo quando der vontade... aluga um lugar, passa um tempo junto… — deu de ombros. — Curte.
Amanda fechou os olhos por um instante.
— Não, Jonas...
Ele insistiu, ainda completamente convencido de que estava ajudando.
— Pensa bem. Nunca tive uma amiga colorida. Tu seria a primeira. E, provavelmente, a última. A gente já se dá bem. Pra que complicar?
— Você nunca teve uma amizade colorida?
— Nunca. Não gosto de repetir a transa, tem mulher que confunde. Mas, acho que não vai ser o caso com você. Porque você é super discreta.
Amanda massageou as têmporas. A cabeça latejava. Sentia um peso esmagador dentro do peito.
Jonas aproximou-se outra vez e segurou delicadamente seus braços.
— Já aconteceu, Amandinha. — a voz dele saiu baixa, quase carinhosa. — Não tem como apagar. Então… Continuar se vendo, conversando, ficando… Não muda o que já aconteceu hoje.
Amanda levantou lentamente os olhos.
— Por que você quer tanto continuar ficando comigo? — a voz saiu carregada de tristeza. — Eu sou muito fácil pra você?
Jonas arregalou os olhos.
— Claro que não. — respondeu quase ofendido. — É justamente o contrário. Eu gosto de estar com você. Gosto das nossas conversas. Tu me faz rir. A gente virou amigo antes de qualquer outra coisa. Eu não quero perder isso.
Amanda soltou uma risada amarga.
— Você quer continuar transando comigo.
Jonas respirou fundo. Depois sorriu de lado, sem esconder a sinceridade.
— Quero também. — fez um pequeno gesto com a mão. — Não vou mentir. Gostei demais de ficar com você. Mas não é só isso.
Ele voltou a segurar delicadamente o rosto dela entre as mãos.
— Relaxa… Ninguém morreu. O mundo não acabou. Vamos viver um dia de cada vez.
Amanda abaixou os olhos. Queria discordar. Queria dizer que o mundo dela tinha acabado.
Mas uma parte de si ainda estava completamente dominada pela lembrança daqueles minutos.
Ela odiava admitir.
Mesmo tomada pela culpa...
Também tinha sentido desejo.
Muito.
Respirou fundo.
Talvez ele tivesse razão. O que aconteceu já não podia ser desfeito.
Depois de um longo silêncio, respondeu quase sem convicção:
— Certo… Podemos tentar.
O sorriso de Jonas apareceu imediatamente.
— Sabia. — ele passou um braço pelos ombros dela. — Vem cá.
Os dois voltaram para a cama.
Amanda deitou a cabeça sobre o peito dele, tentando convencer a si mesma de que a culpa diminuiria com o tempo.
Jonas fazia carinho lentamente em seus cabelos, distraído, falando sobre qualquer assunto banal, como se tentasse devolver leveza ao ambiente.
Ela fechou os olhos.
Ainda se sentia vazia.
Ainda se sentia suja.
Mas, naquele momento, escolheu acreditar que talvez conseguisse conviver com aquilo. Era mais uma mentira que contava para si mesma.
De alguma forma, aquela conversa descontraída se transformou em algo mais quente. Transaram mais uma vez e mesmo ela se sentindo mal, seu corpo continuava a responder.
Amanda entrou no banheiro e fechou a porta devagar, apoiou as duas mãos sobre a pia e encarou o próprio reflexo.
Parecia a mesma mulher, o mesmo cabelo e a mesma maquiagem borrada. Mas não conseguia reconhecer quem estava olhando de volta.
Abriu o chuveiro sem pensar duas vezes. Precisava tirar aquela sensação do corpo.
A água quente escorreu pelos ombros enquanto ela esfregava a pele com força demais, como se pudesse apagar as últimas horas. O cheiro adocicado do preservativo de morango ainda parecia preso nela. Estava na pele. Na memória.
Esfregou outra vez.
E outra.
Mesmo assim continuava sentindo, ou talvez fosse apenas impressão.
A porta do box abriu alguns centímetros. Jonas colocou a cabeça para dentro, já sorrindo.
— Vai gastar a água do Marlon toda?
Amanda virou o rosto e acabou sorrindo de leve.
— Não pode?
— Melhor eu entrar junto para economizar.
Ele entrou no box com a maior naturalidade do mundo, dessa vez não havia urgência. Nem aquela fome que existia poucos minutos antes.
Jonas apenas ficou ali ao lado dela, deixando a água cair sobre os dois. Em alguns momentos afastava delicadamente o cabelo molhado do rosto dela, em outros fazia alguma piada boba que arrancava pequenas risadas.
Aquilo a tranquilizou um pouco.
Talvez ela tivesse entendido tudo errado. Talvez ele realmente gostasse dela.
Quando ergueu os olhos para a pequena janela do banheiro, percebeu que o céu já estava completamente escuro.
Assustou-se.
— Meu Deus...
— O quê?
— Tá tarde.
Saiu rapidamente do box. Vestiu-se quase às pressas. Jonas colocou novamente o calção florido enquanto a observava terminar de se arrumar.
— Já vai fugir?
— Tenho que ir.
— Covardia.
Ela sorriu.
— Minha vida não é igual a sua.
Ele apenas deu de ombros.
Os dois desceram juntos.
Jonas voltou a fazer piadas no caminho, implicando com a cara séria dela, dizendo que ela parecia estar indo fazer uma prova de matemática.
Na portaria, Amanda recebeu o celular de volta. Assim que ligou o aparelho, notificações apareceram na tela.
Jonas caminhou ao lado dela até o estacionamento.
Quando chegaram ao carro, encostou uma das mãos no teto.
— Não quer mesmo dormir aqui?
Amanda balançou a cabeça.
— Não posso.
— Mais tarde vai ter temaki.
Ela riu.
— Continua não dando.
Jonas fez uma expressão dramática.
— Tá bom… Então faz uma coisa. Me manda mensagem quando chegar.
— Pra quê?
— Porque eu vou ficar aqui fora esperando.
Ela riu outra vez.
— Tá falando sério?
— Muito.
Apontou para a própria posição.
— Vou virar uma estátua aqui na frente até teu "cheguei" aparecer.
Amanda balançou a cabeça, divertida.
Ela entrou no carro. Antes de fechar a porta, Jonas ainda bateu duas vezes no teto.
— Dirige com cuidado, Amandinha.
Ela assentiu.
Saiu do condomínio.
Durante todo o caminho de volta, mantinha uma das mãos no volante e a outra, de vez em quando, aproximava discretamente do próprio rosto.
Ainda sentia o cheiro artificial de morango. Talvez nunca mais conseguisse comer nada daquele sabor.
Quando olhou o relógio do painel, arregalou os olhos.
19h30.
Na cabeça dela, parecia que tinha passado uma vida inteira.
Ao estacionar em frente de casa, quase entrou sem perceber um detalhe.
A aliança.
Abriu rapidamente a bolsa, encontrou o anel e colocou-o no dedo.
Respirou fundo.
Agora sim.
Abriu a porta.
E o mundo continuava exatamente igual.
— MÃÃÃÃE!
Théo surgiu correndo pelo corredor.
Amanda mal teve tempo de fechar a porta antes de vê-lo se jogar em seus braços. Ela o segurou no colo automaticamente.
— Calma, meu amor!
— Eu senti saudade! — ele apertava seu pescoço com toda a força que um menino de cinco anos conseguia. — Como foi o trabalho?
Amanda fechou os olhos por um segundo.
— Foi cansativo. Mas já passou.
Ela beijou demoradamente a testa do filho. Foi então que viu Gustavo aparecer na cozinha. Ele vinha sorrindo. Aquele sorriso tranquilo de todos os dias.
Amanda sentiu um aperto no peito tão forte que quase perdeu o ar.
Ele se aproximou.
Deu um selinho demorado nela.
— Ué… Voltou cedo. Não tava legal o happy hour?
Amanda respondeu no automático.
— Ah… Foi tranquilo.
Só isso.
Na mesma hora Gustavo franziu levemente a testa. Olhou atentamente para o rosto dela. Depois pegou Théo do colo da mãe.
— Vai brincar com teu irmão um pouquinho. O papai já vai.
Assim que o menino desapareceu pelo corredor, Amanda sentiu o estômago gelar.
"Ele descobriu."
Tinha certeza.
Gustavo voltou a encará-la. Os olhos dele estavam cheios de preocupação.
— Amor… — ele passou o polegar delicadamente abaixo dos olhos dela. — Você chorou?
Amanda ficou imóvel.
— O que aconteceu? —a voz dele era tão carinhosa que aquilo doeu mais do que qualquer acusação teria doído.
— Não foi nada...
— Amanda. — ele segurou as duas mãos dela. — Se alguém tá fazendo maldade com você naquele lugar… Você não precisa aceitar. Larga essa campanha. Fica em casa com os meninos. A gente dá um jeito.
Ela soltou uma risada nervosa.
— Como assim "a gente dá um jeito"?
— Dou meu jeito. Um amigo começou a rodar de Uber à noite. Disse que tá ganhando bem. Se precisar, eu faço também.
Amanda o encarou. Ele estava falando sério. Muito sério. Tudo aquilo por causa de algumas lágrimas. Os olhos dela voltaram a encher d'água.
— Gustavo… Foi só...
Ela respirou fundo.
— Eu fiquei com culpa de estar me divertindo enquanto vocês estavam aqui.
Gustavo arregalou os olhos. Depois abriu um sorriso enorme. Sem dizer absolutamente nada, puxou Amanda para um abraço tão apertado que ela quase perdeu o equilíbrio.
— Eu também senti saudade. — ele enchia os cabelos dela de beijos. — A casa fica estranha sem você.
Amanda fechou os olhos.
— Os meninos não deram trabalho?
— Deram. — ele riu. — Mas faltou você. Somos um time.
Ela o abraçou de volta.
E foi justamente isso que mais a assustou.
Nenhum raio caiu do céu.
Ninguém descobriu.
Nada tinha acontecido.
A casa continuava a mesma.
O marido continuava o mesmo.
Os filhos continuavam os mesmos.
A única coisa que havia mudado...
Era ela.
Os dias passaram, depois vieram as semanas. E, quando Amanda percebeu, já fazia dois meses.
Dois meses vivendo duas vidas completamente diferentes.
Durante o dia, era a analista dedicada da campanha. Em casa, continuava sendo esposa de Gustavo e mãe de Enzo e Théo. Mas, entre uma vida e outra, existia um terceiro mundo que só ela conhecia.
O mundo de Jonas.
As conversas pelo WhatsApp começavam logo cedo, antes mesmo de ela chegar ao escritório. Durante o expediente, trocavam mensagens escondidas. Quando conseguiam escapar mais cedo, encontravam-se em algum motel da cidade ou em um apartamento alugado por algumas horas.
Nunca falavam em namoro. Nunca prometiam futuro. Mas Amanda já não precisava dessas palavras.
Bastava a sensação.
Ela nunca tinha se sentido tão desejada.
Nem tão viva.
Em casa, curiosamente, tudo continuava exatamente igual.
Gustavo continuava preparando os jantares improvisados quando ela chegava tarde. Escondia as embalagens do delivery dos meninos, perguntava como tinha sido o trabalho e ainda a beijava toda manhã antes de ela sair.
Era justamente essa normalidade que começava a irritá-la.
Sem perceber quando aquilo aconteceu, Amanda passou a comparar tudo.
Comparava a cerveja barata da geladeira com os vinhos que Jonas pedia sem sequer olhar o preço.
Comparava o mercado do bairro com as mesas fartas dos motéis mais caros, onde Jonas fazia questão de pedir praticamente o cardápio inteiro.
Às vezes ele dava apenas um gole em uma garrafa de vinho caríssima e a deixava pela metade.
Amanda observava aquilo fascinada.
Era um mundo onde ninguém parecia precisar fazer contas.
Na volta para casa, passando pelo supermercado, irritava-se por precisar escolher o detergente em promoção ou a marca mais barata do arroz.
Aquilo começou a parecer pequeno demais.
Pouco demais.
Também passou a reparar em detalhes que antes nunca a incomodaram.
O jeito como Gustavo cortava o cabelo. As camisetas antigas que insistia em usar dentro de casa. A forma como falava alto enquanto assistia futebol. Até a risada dele, que durante anos lhe pareceu acolhedora, agora às vezes a irritava sem motivo.
Amanda não percebia. Mas deixou de enxergar o marido. Agora comparava um homem real com uma fantasia cuidadosamente construída.
Enquanto isso, Jonas continuava mostrando seu mundo.
Mandava fotos e vídeos da casa da irmã, dos churrascos na mansão Monteiro, do pequeno Humberto dormindo no colo do Heitor, da cachorra correndo pelo jardim.
Amanda já conhecia cada canto daquela casa.
Sabia onde ficava a piscina, a varanda, a cozinha e o quarto do bebê. Conhecia aquela mansão melhor do que conhecia a casa de muitos parentes.
Quando chegava em casa, comentava casualmente alguma foto.
— Você viu a área gourmet daquela casa?
Ou então:
— O Humberto tá enorme…
Ou até mesmo:
— O Heitor Monteiro tem um bom gosto para flores.
Sempre dizia que tinha visto tudo pelo Instagram. No começo Gustavo apenas respondia. Depois começou a estranhar. Até que, numa noite, perdeu a paciência.
— Você percebeu que fala desse Heitor Monteiro quase todo dia?
Amanda franziu a testa.
— Eu?
— Parece até que você conhece o cara.
Ela riu.
— Claro que não.
— Então por que vive comentando a vida dele?
Ela deu de ombros.
— Acho interessante.
Gustavo balançou a cabeça.
— Não acho normal. Você tá ficando obcecada por esse homem.
Amanda sentiu a irritação subir imediatamente.
Discutiram.
Foi uma discussão feia.
Ela dizia que Gustavo estava inventando problema onde não existia. Ele insistia que ela passava tempo demais acompanhando a vida de pessoas que nem sabiam quem ela era.
No fim, Amanda simplesmente deixou o assunto morrer.
No fundo… aquilo até a favorecia.
Era muito mais conveniente que Gustavo acreditasse que sua curiosidade girava em torno de Heitor Monteiro.
Porque Heitor jamais faria parte da realidade dela.
Jonas...
Esse, sim.
Fazia.
E justamente quando Amanda começou a acreditar que conseguiria manter aquelas duas vidas para sempre...
Jonas mudou.
Foi de repente.
Numa noite comum.
No mesmo motel onde já tinham estado tantas outras vezes.
Amanda demoraria muito tempo para entender que aquela seria a primeira rachadura em um castelo que ela imaginava ser indestrutível.
— Posso te perguntar uma coisa?
Amanda abriu os olhos devagar. Estava deitada na cadeira de massagem enquanto a água da hidromassagem fazia um barulho constante ao lado. Jonas permanecia relaxado dentro da banheira, os braços apoiados na borda, olhando para ela.
— Pode.
Ele ficou alguns segundos em silêncio antes de perguntar:
— Você nunca me contou... por que terminou o casamento.
Amanda nem pensou. A mentira já saía com a mesma facilidade de uma verdade.
— Ele me traiu.
Jonas permaneceu completamente imóvel. Depois soltou um palavrão baixo.
— Puta que pariu… — passou a mão no rosto. — Que filho da puta.
Amanda deu um meio sorriso.
— Já passou.
— Não passou, não.
Ele respondeu imediatamente. A irritação na voz chamou a atenção dela.
— Eu tenho um ódio de gente que trai. É uma covardia do cacete. Se não quer mais ficar com a pessoa, separa. Pra que enganar?
Amanda nunca o tinha visto falar daquele jeito. Havia uma revolta sincera.
— Você leva isso bem a sério, né?
Jonas deu uma risada curta. Sem humor.
— Muito. — depois apontou para ela. — Traidor é uma das poucas categorias de gente que eu realmente não tenho o mínimo de respeito.
Amanda resolveu provocá-lo.
— Ah, para… Vai dizer que você nunca ficou com mulher casada?
Jonas fez uma careta imediatamente.
— Que nojo, Amanda.
Ela riu.
— Tô falando sério.
— E eu também.
Ele balançou a cabeça.
— Mulher comprometida é território proibido. Tenho até alergia.
Amanda precisou conter a vontade de rir.
"Engraçado… Porque comigo essa alergia passou bem rápido."
Mas guardou o pensamento para si.
Jonas continuava indignado.
— Se eu encontrasse teu ex-marido por aí… Acho que falava umas boas pra ele.
Amanda balançou a cabeça.
— Esquece isso. Acabou.
— Vocês tiveram filhos?
A pergunta a pegou desprevenida. Por um instante, Amanda pensou em mentir. Mas sabia que aquilo seria impossível de sustentar.
— Tive. Dois. O Enzo... de nove anos e o Théo... de cinco.
Jonas abaixou os olhos por alguns segundos. Depois respirou fundo.
— Então eles cresceram vendo esse cara de exemplo. Que merda.
Amanda imediatamente saiu em defesa de Gustavo.
Era curioso.
Mesmo depois de tudo… Ainda sentia necessidade de protegê-lo.
— Não. Como pai ele é ótimo. Os meninos gostam muito dele.
Jonas saiu da hidromassagem, pegou uma toalha e caminhou até ela enquanto enxugava os cabelos.
— Então é por isso que tu nunca pode dormir fora.
Amanda levantou os olhos.
— Como assim?
— Os meninos. Tu que fica com eles, né?
Amanda assentiu.
— Sim. Hoje eles estão na casa da minha sogra. Daqui a pouco passo lá pra buscar.
Jonas sorriu discretamente. Parecia satisfeito por finalmente entender alguma coisa sobre a rotina dela.
— E o pai deles? Ele pega as crianças quando?
Amanda sentiu um pequeno aperto no peito. Precisava responder com cuidado. Não podia correr o risco de Jonas começar a sugerir viagens ou finais de semana juntos.
Pensou por apenas um segundo.
— Às vezes ele leva os meninos pra passear. Mas eles sempre foram muito grudados comigo. Então ele respeita isso. Normalmente eles passam os fins de semana comigo.
A mentira saiu limpa, sem hesitação. Amanda percebeu que estava ficando perigosamente boa naquilo.
Jonas apenas fez um gesto afirmativo.
— Entendi...
Ficou alguns segundos em silêncio. Então pareceu lembrar de outra coisa.
— Espera aí. — ele pegou o celular que estava sobre a mesa. — Até hoje eu não tenho teu Instagram. Já procurei teu nome umas três vezes e nunca achei. Qual é o teu arroba?
Amanda sentiu um frio percorrer a espinha. Respondeu imediatamente.
— Eu não tenho Instagram.
Jonas levantou os olhos do celular.
— Para de caô.
Ela sustentou o olhar dele.
— Não tenho mesmo.
— Impossível. — ele riu. — Eu já vi o aplicativo no teu celular.
Amanda deu de ombros.
— Deve ter confundido.
Jonas franziu o nariz. Olhou para ela por alguns segundos, como se tentasse decidir se acreditava ou não. No fim, apenas soltou uma risada.
— Tá legal… — guardou o celular no bolso.
Amanda tinha certeza de que Jonas jamais encontraria seu Instagram.
O usuário era @mamaedoenzogabriel5, criado quando ainda estava grávida do Enzo. O perfil praticamente não existia como rede social. Não havia selfies, fotos em restaurantes ou viagens. Apenas registros dos meninos crescendo, aniversários, apresentações da escola, desenhos, brincadeiras no quintal. E às vezes, stories dela.
Era um álbum de mãe.
Jonas nunca imaginaria procurar por um nome daqueles.
Mesmo assim, na semana seguinte, enquanto almoçavam juntos no restaurante da esquina do prédio da campanha, ele voltou ao assunto.
— Já que tu não tem Instagram... — falou fazendo aspas com os dedos. — Quero ver uma foto dos teus filhos.
Amanda levantou os olhos do prato.
— Não.
— Por quê?
— Vida pessoal.
Jonas soltou uma risada.
— Ah, qual é. — apontou para si mesmo. — Tu conhece a minha vida inteira. Sabe onde meus pais moram, conhece meu sobrinho, sabe o nome do cachorro da minha irmã...
Ela desviou os olhos. Era verdade.
— Me mostra só uma.
Amanda ficou alguns segundos pensando. Depois abriu discretamente a galeria. Escolheu uma foto em que Enzo e Théo apareciam sorrindo no parque.
Jonas pegou o celular com cuidado. O sorriso dele surgiu imediatamente.
— Caraca… — ampliou a foto. — O mais velho é tua cara.
Amanda sorriu sem perceber.
— É o Enzo.
— Bonitão. E o menor parece um furacão.
— Parece mesmo.
Jonas devolveu o celular.
— Gostei deles.
Amanda guardou o aparelho rapidamente. Não queria prolongar aquele assunto. Não queria que ele pedisse outra foto ou que visse alguma foto do Gustavo na galeria dela.
Na semana seguinte voltaram ao mesmo motel.
Depois do jantar, os dois ficaram deitados assistindo a um filme projetado na parede.
Amanda estava distraída, encostada nele, quando Jonas falou de repente:
— Sabe de uma coisa?
— Hum?
— Tô começando a enjoar de motel.
Ela deu uma risadinha.
— Como assim?
— Ah… — fez um gesto para o quarto. — A gente sempre faz a mesma coisa. Vem. Transa, pede comida, assiste um filme e vai embora.
Amanda deu de ombros.
— E qual o problema?
— Nenhum. Mas… — sorriu. — Podia ser diferente de vez em quando.
Ela permaneceu em silêncio. Jonas continuou olhando para o filme. Como quem apenas jogava uma ideia no ar.
— A gente podia ir ao cinema. Tomar um sorvete. Andar um pouco.
Amanda respondeu sem tirar os olhos da tela.
— Aqui também é bom.
— Ou então lá em casa. Meus pais nunca ficam lá nessa época. Ou na casa da Helena, aposto que ela não vai se importar de tu ir lá.
Amanda interrompeu rapidamente.
— Shhh… O filme.
Jonas pegou o controle e pausou. Virou completamente o corpo para ela.
— Amanda...
Ela suspirou. Sabia que aquela conversa chegaria.
— Qual é o problema?
Ela tentou sorrir.
— Problema nenhum.
— Tem, sim. — a voz dele continuava calma. — Tu nunca aceita sair comigo. Nunca.
Amanda permaneceu quieta.
— Cinema, não. Shopping, não. Praia, não. Restaurante, não. Casa da minha irmã, não. Casa dos meus pais, não. Passear na orla, não. — ele deu uma pequena risada. — Até parece que tu tem vergonha de ser vista comigo.
Amanda soltou lentamente o ar. Aquela era a desculpa mais fácil.
— Jonas… Você sabe muito bem da fama que tem. Quando entrei na campanha, a primeira coisa que ouvi foi que você vivia nas páginas de fofoca. Toda semana aparecia com uma mulher diferente. Eu não quero virar assunto na internet.
Jonas abaixou os olhos por um instante. Quando voltou a olhá-la, o sorriso tinha desaparecido.
— Amanda… Desde que eu entrei na campanha… Tu foi a única mulher com quem eu saí.
Ela permaneceu em silêncio.
— Faz mais de dois meses. Dois meses. Além da gente conversar praticamente o dia inteiro. — ele deu de ombros. — Eu achei que isso significasse alguma coisa. Não somos amigos?
Amanda sentiu um aperto no peito. Mas manteve a mentira.
— Eu só não quero gente investigando minha vida. Meu ex-marido… Meus filhos… Não quero virar piada em página de fofoca. Prefiro que continue como tá.
Jonas ficou olhando para ela por alguns segundos. Como se tentasse decidir se acreditava. No fim, apenas assentiu devagar.
— Entendi.
Mas ela percebeu que não tinha entendido, ele levantou da cama e pegou a toalha.
— Vou tomar uma ducha. — a voz tinha perdido completamente a leveza.
— Ei… Jonas. — ela estendeu a mão na direção dele. — Pera...
Mas ele já tinha entrado no banheiro.
Amanda caminhou até lá e encostou na parede ao lado. A água caía sobre os ombros de Jonas enquanto ele enxaguava o cabelo.
Ela cruzou os braços.
— Achei que você não quisesse relacionamento sério.
Jonas esfregou o rosto antes de responder.
— E não quero. — pegou o sabonete novamente. — Mas também não quero passar minha vida escondido dentro de um motel.
Amanda permaneceu em silêncio. Ele continuou, agora olhando para ela.
— Eu gosto da tua companhia. Gosto de conversar contigo. De sair contigo. A gente nem faz essas coisas. A gente só vem pra cá.
Ela respirou fundo.
— Você esqueceu que ninguém pode saber da gente. Se descobrirem lá na campanha… Quem perde sou eu.
Jonas apoiou as duas mãos na parede do box.
— Na real? Acho até que te ajuda mais do que atrapalha.
Amanda soltou uma risada.
— Ah, claro.
— É sério. Olha a Helena. Quanta oportunidade apareceu pra ela depois que conheceu o Heitor.
Amanda balançou a cabeça.
— Não mistura as coisas. Eles são apaixonados, namoraram, noivaram e têm um filho agora. É completamente diferente.
Jonas ficou alguns segundos pensando. Depois abriu um sorriso.
— Tá bom. Então vamos resolver teu problema.
— Como?
— Vou arrumar um cargo pra você no gabinete.
Amanda começou a rir.
— Prometer é fácil. Todo mundo promete.
Ele apontou para ela.
— Então tá. Vou dar um jeito de abrir umas portas para você. Conheço gente bem influente.
Amanda cruzou os braços, divertida.
— Certo. Me consegue uma indicação realmente forte… Que eu saio com você em qualquer lugar.
Jonas estendeu a mão imediatamente.
— Fechado.
Ela apertou a mão dele rindo e ele a puxou para dentro do chuveiro.
Três dias mais tarde, Amanda trabalhava concentrada em um relatório quando uma assessora apareceu ao lado de sua mesa.
— Amanda?
— Oi.
— Pediram para você ir à sala de reuniões.
Ela franziu a testa.
— Agora?
— Agora.
Amanda pegou o notebook e caminhou até lá. Assim que abriu a porta, percebeu Jonas sentado em um dos lugares, discutindo alguma coisa com dois coordenadores. Ele sequer levantou os olhos. Continuou olhando para os papéis à sua frente como se ela nem tivesse entrado.
Aquilo sempre a impressionava. No trabalho… Ele era outra pessoa.
Amanda respirou fundo.
— Com licença… Acho que me chamaram.
Foi então que percebeu quem também estava na sala.
Paulo Medeiros. Ele levantou os olhos e sorriu.
— Você é a Amanda Oliveira?
— Sou, senhor.
— Entre. É justamente com você que eu queria conversar.
Amanda entrou um pouco sem jeito. Sentou-se na cadeira indicada. Paulo fechou a pasta que estava lendo.
— Primeiro… Quero te dar os parabéns. Tenho acompanhado alguns relatórios da Inteligência. Recebi excelentes comentários sobre você.
Amanda sorriu discretamente.
— Muito obrigada.
— Além de competente… Disseram que você é educada, organizada e muito respeitosa com a equipe. Essas coisas contam bastante pra mim.
Ela apenas assentiu. Ainda sem entender onde aquela conversa iria chegar.
Paulo cruzou as mãos sobre a mesa.
— Depois da campanha… Caso tudo continue caminhando como esperamos… Quero indicar você para uma vaga na Assessoria de Planejamento.
Amanda arregalou os olhos.
— Eu...
Nem conseguiu terminar a frase.
Paulo sorriu.
— Calma. Ainda falta campanha. Ainda tem muito trabalho pela frente. Não posso formalizar nada agora. Mas queria que você soubesse que seu nome já está sendo observado. Se continuar entregando esse nível de trabalho… Faço questão de assinar uma carta de recomendação para você.
Amanda sentiu um nó na garganta.
— Muito... muito obrigada.
Paulo levantou-se.
Estendeu a mão.
— Continue exatamente como está. Pessoas competentes sempre encontram espaço. Ela apertou a mão dele ainda sem acreditar.
Quando saiu da sala, caminhou pelo corredor completamente atordoada, ainda sem acreditar no que tinha acabado de acontecer.
Segurava a pasta contra o peito enquanto caminhava pelo corredor, mas mal enxergava por onde andava. Sua cabeça parecia repetir a conversa inteira em looping.
"Uma vaga na Assessoria de Planejamento..."
"Uma carta de recomendação..."
"Continue exatamente como está..."
Um sorriso insistia em aparecer no canto da boca. A primeira pessoa em quem pensou foi Jonas.
"Ele conseguiu..."
"Ele realmente conseguiu."
Mal deu mais alguns passos quando ouviu uma voz conhecida.
— Oi, Amanda!
Ela levantou a cabeça. Sua coordenadora vinha caminhando ao lado da gerente de integração, Cláudia.
As duas sorriam.
— Como você tá? — perguntou Cláudia.
Amanda tentou esconder a empolgação, mas era impossível.
— Muito bem.
As duas trocaram um olhar divertido. A coordenadora cruzou os braços.
— Dá pra perceber.
Amanda riu sem graça.
— Eu... ainda tô tentando entender o que aconteceu.
Cláudia sorriu.
— Não precisa entender. Só aproveitar o momento.
A coordenadora deu um leve tapinha no braço dela.
— Amanda, muita gente aqui observa o seu trabalho. Você talvez nem perceba, mas as pessoas comentam muito sobre você.
Amanda arregalou discretamente os olhos. A coordenadora continuou:
— Seu empenho chama atenção. Você chega preparada para as reuniões, conhece os números, participa, estuda, entrega tudo antes do prazo... isso acaba aparecendo.
Cláudia assentiu.
— Ela não tá exagerando. Eu mesma comecei a prestar atenção em você faz um mês. Pedi alguns relatórios seus para ler. Conversei com outras lideranças. Todo mundo falava a mesma coisa.
Amanda sentia o coração bater cada vez mais forte.
— Foi por isso… — a coordenadora sorriu. — Eu indiquei seu nome para a Cláudia. Depois ela levou a indicação adiante.
Amanda ficou completamente imóvel. Por alguns segundos, não conseguiu dizer absolutamente nada.
Então...
Não tinha sido Jonas.
Não tinha sido uma promessa feita num quarto de motel.
Nem um favor.
Nem influência.
Ela tinha chegado até ali pelo próprio trabalho. Sentiu um orgulho silencioso crescer dentro do peito.
A coordenadora sorriu novamente.
— Continua desse jeito. Você tá se destacando muito.
Amanda respirou fundo, ainda emocionada.
— Eu... nem sei o que dizer.
Olhou para as duas.
— Obrigada. Obrigada mesmo. Por confiarem no meu trabalho.
Cláudia sorriu com satisfação.
— Agora faz por merecer ainda mais. Porque isso foi só o começo.
Amanda passou o restante da tarde sorrindo sozinha.
Sempre que lembrava da conversa com Paulo Medeiros, o coração acelerava outra vez. Aquela oportunidade podia mudar completamente sua carreira. Pela primeira vez em muito tempo, ela sentia que todo o esforço tinha valido a pena.
Quando pensou em contar a novidade para alguém, pegou o celular quase automaticamente.
Abriu a conversa arquivada de "Tayna Logística".
"Acabei de sair de uma reunião com o Paulo."
Os três pontinhos apareceram quase na mesma hora.
"E aí?"
Amanda digitou rapidamente tudo o que tinha acontecido, desde os elogios até a promessa da carta de recomendação.
Jonas respondeu quase imediatamente.
"Eu sabia. Tu é boa pra caramba."
Amanda sorriu para a tela.
Não sabia por quê, mas receber aquele reconhecimento dele a deixava absurdamente feliz.
Depois de alguns segundos, criou coragem.
"Então… Hoje você podia me levar pra jantar."
A resposta demorou poucos segundos.
"Olha só… Tá ficando folgada, hein? Agora tá se convidando?"
Amanda riu sozinha na própria mesa.
"Estou mesmo. Problema seu."
Logo veio outra mensagem.
"Vai ser daora. Me manda teu endereço que passo pra te buscar."
Amanda mordeu discretamente o lábio.
"Melhor não. A gente sai direto daqui. Se encontra lá”
Jonas respondeu apenas:
"Fechado. Vou te mandar a localização."
Amanda bloqueou o celular sentindo o peito leve.
Alguns minutos depois respirou fundo, era hora de contar para Gustavo. Foi para o saguão e ligou. Ele atendeu no segundo toque.
— Oi, amor.
— Tá ocupado?
— Pra você, nunca.
Ela sorriu automaticamente.
— Posso te contar uma coisa?
— Ih... esse "posso" aí tá com cara de notícia boa.
Amanda riu.
— Acho que é.
E então contou tudo. Desde a conversa com Paulo até a promessa da carta de recomendação.
Do outro lado da linha houve silêncio, Um longo silêncio.
Amanda chegou a afastar o celular do rosto para conferir se a ligação tinha caído.
— Guto?
Ouviu uma risadinha abafada.
— Desculpa...
Ela franziu a testa.
— O que foi?
— Eu tô muito orgulhoso de você! Não consigo nem colocar em palavras!
Amanda sentiu o coração apertar.
— É sério?
— Muito sério.
Ela ouviu alguém chamando Gustavo ao fundo.
Ele respondeu rapidamente que já ia.
Depois voltou para a ligação.
— Amor… Desde quando a gente se conheceu, eu sempre amei a sua determinação. Tudo que você sempre quis, você sempre se esforçou ao máximo para conseguir.
A voz dele saiu mais emocionada.
— Isso não aconteceu por sorte. Você conquistou.
Amanda ficou em silêncio. Sentia os olhos arderem. Gustavo continuou.
— Sabe qual é a melhor parte?
— Qual?
— Os meninos tem a melhor influência que poderiam ter na vida. Você é uma vencedora!
Amanda mordeu o lábio, uma lágrima escorreu.
— Para...
— Tô falando sério. Enzo e Théo vão morrer de orgulho quando entenderem isso.
Ela enxugou rapidamente o rosto.
— Hoje o pessoal da campanha quer fazer um jantar pra comemorar. Vou chegar um pouco mais tarde.
— Vai. Nem pensa duas vezes. Hoje é teu dia. Comemora bastante. Você merece amor.
Ela sorriu.
— Obrigada.
— Ei...
— Hum?
— Só não esquece de uma coisa.
— O quê?
— Quando chegar em casa… Me conta tudo de novo. Eu quero ouvir cada detalhe vendo a sua carinha feliz.
Amanda riu.
— Tá bom.
— Te amo.
Ela fechou os olhos por um segundo.
— Eu também te amo.
Desligou a ligação. Ficou olhando alguns segundos para a tela apagada do celular. Ela tinha esquecido de como Gustavo torcia por ela.
Cerca de uma hora depois, enquanto terminava um relatório, o celular vibrou novamente.
Ela olhou distraída.
PIX recebido.
R$ 300,00.
Amanda arregalou os olhos.
Abriu a notificação.
Na descrição estava escrito:
"Compra alguma coisa que você goste. Hoje é um dia especial. Tenho muito orgulho da mulher que você é. Depois vamos comemorar nós quatro. Minha mulher de negócios. Te amo vida!"
Amanda permaneceu olhando para a tela.
Não eram apenas trezentos reais.
Ela conhecia a realidade da casa. Sabia exatamente quantas horas Gustavo precisaria trabalhar para juntar aquele dinheiro.
Mesmo assim...
A primeira coisa que ele pensou foi em presenteá-la.
Não em si.
Não na conta de luz.
Não no apartamento.
Nela.
Amanda apertou os lábios.
Por um instante, o brilho daquela conquista perdeu completamente a graça.
Após o expediente, Amanda dirigiu até o restaurante no Horto.
Nunca tinha ido àquela região da cidade.
Só o caminho já parecia diferente. Ruas arborizadas, prédios elegantes, carros importados estacionados nas calçadas. Quando avistou a fachada do restaurante, diminuiu a velocidade quase sem perceber. A iluminação era discreta, o jardim perfeitamente cuidado e enormes paredes de vidro permitiam enxergar um salão sofisticado, iluminado por lustres modernos.
Sentiu um frio bom na barriga.
"Eu realmente vou jantar aqui."
Parou o carro em frente à entrada. Mal desligou o motor e um homem de terno aproximou-se. Abriu a porta para ela com naturalidade.
— Boa noite, senhora.
Amanda sorriu, ainda surpresa.
— Boa noite.
— Primeira vez conosco?
— É... estou esperando uma pessoa.
— Sem problemas. Se desejar, pode aguardar na recepção. Temos um lounge bem confortável. Enquanto isso, manobramos seu veículo.
Amanda olhou para a chave em sua mão. Aquilo parecia cena de filme. Depois de um pequeno instante de hesitação, entregou-a.
— Obrigada.
Mas, em vez de entrar, permaneceu na calçada. Queria esperar Jonas chegar. Poucos minutos depois, viu o carro dele entrar pelo mesmo acesso.
O manobrista repetiu exatamente o mesmo ritual. Jonas entregou a chave como quem fazia aquilo todas as semanas. Os dois sorriram um para o outro e entraram juntos.
Assim que atravessaram a porta de vidro, o maître ergueu os olhos do balcão.
Um sorriso discreto apareceu em seu rosto.
— Boa noite, senhor. É um prazer revê-lo.
Jonas respondeu apenas com um leve aceno.
— Boa noite.
— Sua mesa está pronta, como de costume.
Depois voltou-se para Amanda.
— Seja muito bem-vinda.
Ela agradeceu, ainda observando tudo ao redor.
O salão era elegante sem parecer exagerado. As conversas eram baixas, os garçons caminhavam em silêncio e até a música parecia escolhida para não chamar mais atenção do que os próprios clientes.
Algumas pessoas reconheceram Jonas, olharam por um segundo e voltaram imediatamente às próprias mesas.
Ninguém cochichou. Ninguém pegou o celular.
Aquilo surpreendeu Amanda. Chegando à mesa, um garçom puxou delicadamente sua cadeira.
— Com licença.
Depois de acomodá-los, perguntou:
— Água com ou sem gás?
— Com gás. — Jonas respondeu naturalmente.
Amanda pediu água sem gás.
Logo em seguida surgiu o sommelier.
— Senhor, deseja consultar nossa carta ou prefere que eu sugira algo dentro do seu perfil?
Jonas sorriu.
— Hoje quero fugir um pouco do padrão. Ela vai pedir frutos do mar.
O sommelier assentiu.
— Tenho um branco mineral que combina perfeitamente.
— Excelente.
Assim que ele se afastou, Amanda apoiou os cotovelos sobre a mesa.
— Você vem muito aqui, né?
Jonas deu de ombros.
— Às vezes. É um lugar tranquilo.
Ela sorriu, gostava daquele mundo. Tudo parecia funcionar sem esforço.
Enquanto experimentavam as ostras, Amanda contou toda a conversa que teve com Paulo Medeiros.
Narrava cada detalhe com entusiasmo.
Quando terminou, riu.
— Eu realmente achei que tinha sido você.
Jonas ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
— A recomendação. Você falou que ia conseguir uma para mim.
Ele soltou uma risada curta.
— Amanda… Pedir uma carta pro meu pai? Ainda mais em ano eleitoral? Nem pensar.
Ela franziu a testa.
— Mas você disse que ia fazer isso.
— Eu falei que ia te ajudar. Não que seria agora. — ele tomou um gole do vinho antes de continuar. — Depois da campanha eu pediria um favor para algumas pessoas. Tenho amigos em alguns lugares. Conheço gente. Arrumar uma entrevista ou abrir uma porta é tranquilo. Agora… Carta do meu pai?
Ele balançou a cabeça.
— Isso nunca aconteceu.
Amanda permaneceu olhando para ele. Alguma coisa dentro dela se incomodou. Ela havia criado a fantasia de que Jonas moveria montanhas por ela.
Perceber que ele nunca cogitou aquilo feriu seu orgulho.
Sorriu de lado, um sorriso pequeno e quase cínico.
— Engraçado. No motel você parecia disposto a fazer qualquer coisa por mim.
Jonas levantou lentamente os olhos. Sabia exatamente do que ela estava falando.
Ela continuou.
— Você tava quase chorando dizendo que queria me apresentar pra sua irmã. Queria sair comigo. Saber dos meus filhos… Agora isso?
Jonas passou alguns segundos completamente calado.
Girava a taça entre os dedos. Parecia escolher cuidadosamente as palavras. Quando finalmente falou, sua voz estava muito mais baixa.
— Tu sabe qual é o problema?
Amanda permaneceu em silêncio.
— Eu gostei demais da nossa rotina.
Ela não esperava ouvir aquilo. Jonas deu um sorriso sem graça.
— Ela é boa demais. A gente conversa o dia inteiro. Trabalha junto. Se encontra. Ri. Transa. Depois conversa mais um pouco. — ele soltou o ar. — É cômodo. Bom pra caramba.
Amanda apenas observava.
— Só que… — ele passou a mão no rosto. Pela primeira vez naquela noite parecia realmente desconfortável. — Eu tô morando na casa da Helena. Vejo ela e o Heitor todo santo dia. Vejo o Humberto. Janto com eles. Vejo aquele moleque crescendo.
Amanda não entendeu onde ele queria chegar. Jonas também parecia ter dificuldade para explicar.
— Aí eu saio de lá… Converso contigo até dormir. Acordo… Já tem tua mensagem. Vou trabalhar… Tu tá lá.
Ele deu uma risada curta.
— Quando eu percebi… Tu já fazia parte da minha rotina inteira.
Amanda permaneceu imóvel. Jonas respirou fundo.
— E isso começou a me incomodar.
Ela franziu a testa.
— Por quê?
— Porque eu não sou assim. — ele respondeu imediatamente. — Eu sempre gostei da minha vida. Sempre gostei de conhecer gente nova. De sair. De festa. De mulher.
Falou aquilo sem orgulho. Como quem apenas descrevia um fato.
— Só que faz mais de dois meses que eu não olho pra ninguém.
Amanda piscou algumas vezes.
— Nem vontade eu tô tendo. — aquilo saiu quase irritado. Como se estivesse bravo consigo mesmo. — A campanha já tá me consumindo. Quando sobra tempo… Ou eu tô com o Heitor e a Helena… Ou eu tô contigo.
Ele sorriu sem humor.
— E tu ainda me chama de mulherengo.
Amanda abaixou os olhos. Ele continuou.
— Aquilo ficou martelando na minha cabeça. Porque eu pensei..."Caralho… Será que eu ainda sou?"
O silêncio caiu entre os dois.
Jonas olhava para a mesa, depois voltou a encará-la.
— Acho que eu preciso dar uma respirada. Conhecer outras pessoas. Voltar a sair. Porque...
Ele fez uma pequena pausa.
— Essa nossa amizade colorida… Tá deixando de ser só amizade colorida pra mim e isso não era o combinado.
Amanda sentiu o rosto esquentar. Por alguns segundos, nem conseguiu responder.
As palavras de Jonas continuavam ecoando na sua cabeça.
"Essa nossa amizade colorida tá deixando de ser só amizade colorida..."
Então era isso?
Ele estava se apaixonando?
Ela abaixou os olhos por um instante.
Era engraçado.
Nos últimos dias, a primeira pessoa em quem ela pensava ao acordar também era Jonas. Antes de dormir, era com ele que conversava. Quando acontecia alguma coisa boa, era para ele que queria contar primeiro.
Ela também gostava dele.
Respirou fundo.
Esticou lentamente a mão sobre a mesa e pousou-a sobre a dele.
Jonas imediatamente virou a palma para cima, entrelaçando distraidamente seus dedos nos dela.
Amanda sorriu.
— Jonas… Eu gosto muito de estar com você.
Ele levantou os olhos.
— E ouvir isso tudo... me deixa feliz. Porque eu também queria passar mais tempo com você. — ela parou um pouco para tomar ar. — A gente combina demais. Conversar contigo é leve. Ficar contigo é leve. Eu só… — baixou os olhos para as mãos dos dois. — Eu tenho uma vida muito diferente da sua.
Jonas permaneceu em silêncio. Amanda respirou fundo antes de continuar.
— Depois do divórcio… Meus filhos passaram a ser minha prioridade absoluta. Tudo o que eu faço, eu penso primeiro neles. — sorriu com tristeza. — Eu não consigo colocar nenhum homem na frente deles. Nem quero. — levantou novamente os olhos. — Eu sei que eles sofreriam se começassem a ver um homem diferente entrando na vida deles. E eu não quero fazer isso com eles.
Amanda terminou a frase sabendo exatamente o efeito que ela teria. Era um obstáculo impossível. Jonas jamais insistiria depois de ouvir aquilo.
Eles continuariam exatamente como estavam, motel, mensagens e sem cobranças.
Ela poderia manter aquela vida dupla por muito mais tempo.
E, pela primeira vez em muito tempo, Amanda sentiu um orgulho silencioso de si mesma.
Ela, uma mulher comum, sem beleza extraordinária, sem carisma, sem grandes aventuras na vida. Mas, tinha conseguido fazer Jonas Medeiros olhar para ela de um jeito que nunca olhou para nenhuma outra.
Além disso, conquistou uma oportunidade profissional por mérito próprio.
Parecia que tudo finalmente estava dando certo.
Jonas brincava distraidamente com os dedos dela. Não dizia absolutamente nada. Apenas pensava.
Amanda aguardava o momento em que ele concordaria e encerraria o assunto.
Então ele levantou os olhos e sorriu.
— E se eu conhecer teus filhos?
Amanda congelou. O sorriso desapareceu imediatamente.
— Como é?
Jonas deu de ombros, completamente à vontade.
— Ué. A gente faz um programa com eles. Bem de boa. Ela continuava olhando para ele sem conseguir processar.
Jonas foi se animando conforme falava. Gesticulava como sempre fazia quando uma ideia parecia boa.
— Vamos num parque. Num aquário. Num kart. Tem uma marina que um amigo meu sempre empresta o barco. As crianças adoram. Ou então um parque aquático. Tem tanta coisa...
Amanda sentia o coração acelerar.
— Jonas...
Ele nem percebeu o tom de voz dela. Continuava completamente empolgado.
— Eu gosto de crianças, de verdade! O Humberto, então… Aquele moleque já é meu parceiro. Às vezes a Helena até fala que ele me procura quando não tô lá. — deu uma risada. — E eu acho muito divertido brincar com eles.
Voltou a olhar para Amanda.
— Não tô falando de ocupar lugar de pai, não. Pelo amor de Deus. Pai eles já têm. Tô falando só da gente poder passar uma tarde junto de vez em quando. Sem precisar ficar escondido num quarto de motel. A gente toma um sorvete. Come um lanche. Vai criando lembranças diferentes. — ele voltou a sorrir. — Acho que seria legal.
Amanda já não escutava mais.
Via os lábios dele se moverem. Via as mãos desenhando planos no ar. Mas sua cabeça gritava muito mais alto.
"Ele quer conhecer meus filhos."
"Meu Deus..."
"Como eu vou explicar isso?"
"E o Gustavo?"
"Como eu faria isso?"
Ela olhou novamente para Jonas.
Ele continuava descrevendo lugares, passeios e brincadeiras com o entusiasmo de quem realmente acreditava ter encontrado a solução perfeita.
Naquele instante, Amanda percebeu que sua mentira acabava de ganhar um problema que ela nunca tinha previsto.
Ela não fazia ideia de como sair daquela situação.
O jantar terminou de um jeito muito diferente de como havia começado.
Amanda já não prestava atenção no sabor da sobremesa, nem na música ambiente ou no restaurante elegante que tanto a encantou ao chegar. Sua cabeça estava completamente ocupada pelos planos que Jonas fazia com uma naturalidade assustadora.
Ele realmente queria conhecê-la além do motel.
Queria fazer parte da rotina dela.
Quando saíram do restaurante, o ar fresco da noite pareceu aliviar um pouco o calor que ela sentia no rosto. Caminharam lado a lado até o estacionamento, conversando sobre assuntos aleatórios. Jonas fez algumas piadas, implicou com o manobrista que dizia lembrar do carro dele e arrancou uma risada dela. Parecia que a conversa pesada de minutos antes tinha ficado para trás.
O manobrista trouxe o Palio vermelho.
Amanda agradeceu, entrou no carro e abriu o vidro antes de ligar o motor.
Jonas apoiou os dois braços no teto do carro, inclinando-se levemente para conversar com ela. O sorriso tinha voltado ao rosto dele.
— Então ficou combinado.
Amanda ergueu uma sobrancelha.
— O quê?
— Tu vai marcar um dia pra gente sair com os seus meninos.
Ela sorriu, mas foi apenas educação. Por dentro, o coração parecia querer escapar pela garganta.
— Jonas... isso é bem complicado.
Ele aguardou que ela continuasse.
— Final de semana praticamente não dá. Meu ex-marido pode implicar. Se ele descobrir que eu apresentei alguém no dia dele de estar com eles... pode até arrumar confusão na Justiça.
Jonas fez uma expressão pensativa. Ficou alguns segundos olhando para o chão, balançando a cabeça devagar.
Amanda torceu para que ele desistisse da ideia. Em vez disso, viu aquele olhar conhecido aparecer. O mesmo olhar que ele fazia sempre que tinha uma solução.
— Já sei.
Ela quase fechou os olhos.
— A campanha tá puxada pra caramba. A gente vive fazendo hora extra. — ele começou a contar nos dedos. — Tu tira um dia de folga. Eu tiro também. A gente emenda três dias. Pronto. Leva os meninos num dia útil mesmo. Vai estar tudo vazio, sem fila. Muito melhor.
Ele abriu um sorriso satisfeito consigo mesmo.
— Pô... excelente ideia que eu tive!
Amanda sentiu um frio percorrer a espinha.
Sorriu.
— Sim… Excelente ideia.
— Então fechou. — ele deu duas batidinhas leves no teto do carro. — Semana que vem a gente combina direitinho.
Amanda apenas assentiu.
— Combinado.
Jonas se afastou do carro ainda sorrindo.
— Me avisa quando chegar.
— Aviso.
Ela ligou o motor, acenou rapidamente e saiu.
Assim que dobrou a primeira esquina, o sorriso desapareceu completamente. As mãos apertaram o volante com força. Ela estava em pânico.
"O que eu faço agora?"
A mentira tinha crescido tanto que já parecia impossível controlá-la.
Pensou em Gustavo.
Pensou em Jonas.
Pensou em Enzo.
Pensou em Théo.
Por um instante, uma ideia absurda surgiu.
"E se eu conversar com os meninos?"
"Eles gostam de guardar segredos..."
"Talvez... talvez eles não contem nada para o Gustavo."
A própria possibilidade a assustou. Mas, também pareceu uma saída plausível.
Quando estacionou em frente de casa, Amanda permaneceu alguns segundos parada dentro do carro. As duas mãos continuavam apoiadas sobre o volante, embora o motor já estivesse desligado. Respirou fundo, fechou os olhos por um instante e apoiou a cabeça no banco. Precisava de um banho. O jantar inteiro tinha sido uma sucessão de sustos. Cada solução que Jonas encontrava para os problemas parecia criar outros dois ainda maiores. Ela tinha suado tanto que a roupa grudava discretamente nas costas. Levou a mão ao pescoço, tentando aliviar aquela sensação ruim, e só então percebeu outro detalhe que lhe chamou atenção. A casa estava completamente escura.
Franziu a testa.
Era estranho.
As casas vizinhas estavam todas iluminadas, algumas com televisão ligada, outras com crianças brincando na varanda, mas a dela permanecia silenciosa, como se não houvesse ninguém. Será que Gustavo tinha levado os meninos para passear? Talvez um lanche, talvez uma volta na praça. Pegou a bolsa no banco do passageiro, conferiu automaticamente a aliança no dedo — um gesto que já começava a fazer sem pensar — e caminhou até a porta.
Assim que girou a maçaneta...
— SURPRESAAA!
Amanda deu um pulo para trás.
No mesmo instante, as luzes da sala se acenderam e uma chuva de confetes coloridos atravessou o ar. Ela levou a mão ao peito por puro reflexo, completamente assustada, enquanto tentava entender o que estava acontecendo. A sala estava enfeitada com balões coloridos espalhados pelo teto e, sobre a mesa, havia um bolo pequeno, refrigerantes, salgadinhos e um cartaz enorme feito de cartolina.
"PARABÉNS MAMÃE!"
As letras eram tortas, cheias de glitter e claramente feitas por mãos pequenas.
Ela ainda tentava recuperar o fôlego quando Enzo apareceu correndo na sua direção.
Parou bem à sua frente, esticou a mão com uma postura exageradamente séria e pigarreou como se fosse um executivo.
— Mãe, parabéns!
Amanda segurou a mão do filho, sem conseguir esconder o sorriso.
No mesmo instante, Enzo começou a sacudi-la para cima e para baixo com tanta força que quase balançava o corpo inteiro junto.
— O papai falou que é assim que cumprimenta pessoas importantes!
Amanda começou a rir.
Antes que pudesse responder qualquer coisa, Théo apareceu empurrando delicadamente o irmão para o lado.
— Tá tudo errado! — olhou para a mãe com a maior convicção do mundo. — Mamãe, pega minha mão. Eu sei fazer direito.
Ela estendeu a outra mão e agora segurava um filho de cada lado. Os dois começaram imediatamente a discutir sobre quem estava cumprimentando melhor, cada um tentando provar que tinha aprendido o jeito certo, enquanto Amanda gargalhava daquela disputa completamente sem sentido.
Foi então que Gustavo apareceu.
Caminhava devagar, com os braços cruzados e uma expressão tão séria que os meninos imediatamente pararam de discutir.
— Meninos… — os dois olharam para ele. — Vocês estão completamente errados.
Enzo franziu a testa.
— Ué...
— Só eu sei qual é o jeito certo de cumprimentar a mãe de vocês.
Antes mesmo que Amanda entendesse o que ele faria, Gustavo passou um braço firme ao redor de sua cintura, puxando-a delicadamente para perto. Ela ainda ria quando ele inclinou o rosto e a beijou. Foi um beijo longo, tranquilo, cheio de carinho, como quem queria dizer muito mais do que qualquer parabéns conseguiria expressar. Mas, Amanda se sentia estranha ao beijar o marido.
Quando ele se afastou, Enzo fez uma careta imediatamente.
— Eca!
Théo caiu na gargalhada.
— O papai tá apaixonado!
Gustavo nem deu atenção aos dois. Continuava olhando apenas para Amanda. Os olhos dele brilhavam de um jeito que ela conhecia muito bem.
— Parabéns, amor. — a voz saiu baixa, quase emocionada. — A gente vai comemorar direito outro dia, mas eu não podia deixar esse momento passar em branco. Você trabalhou tanto... estudou tanto... Eu vi o quanto você se esforçou nesses últimos meses.
Ele segurou as duas mãos dela entre as suas.
— Eu tenho muito orgulho da mulher que você é.
Amanda sentiu um nó enorme subir pela garganta.
Antes que conseguisse responder, Gustavo simplesmente a levantou do chão e deu uma pequena rodopiada com ela nos braços. Amanda riu alto, segurando os ombros dele para não perder o equilíbrio. Assim que voltou ao chão, Théo já puxava ansiosamente a barra de sua blusa.
— Mãe!
Ela olhou para baixo.
— O que foi, meu amor?
— O papai comprou sorvete de morango. O seu preferido!
Amanda congelou por um instante.
Morango.
Aquela simples palavra atravessou seu peito como uma agulha. Desde aquela primeira noite com Jonas, aquele sabor nunca mais significava apenas uma fruta. Mesmo assim, abriu um sorriso para o filho, escondendo completamente o desconforto.
— Comprou?
— Comprou! Vem!
Théo segurou sua mão e praticamente a arrastou até a mesa. A sogra já a esperava sorrindo, abriu os braços e lhe deu um abraço apertado, daqueles que só uma segunda mãe consegue dar.
— Parabéns, menina. Você merece tudo isso.
Amanda agradeceu baixinho.
Sobre a mesa havia um bolo simples, coberto de brigadeiros, e apenas uma vela no centro. Gustavo a acendeu com cuidado e pediu que apagassem as luzes. A sala mergulhou numa penumbra aconchegante enquanto Enzo e Théo começavam a cantar parabéns completamente desafinados, batendo palmas no ritmo errado e rindo um do outro. Amanda observava aquela cena em silêncio. O bolo era pequeno. Os balões provavelmente tinham sido comprados em alguma loja de um real. Os salgadinhos eram simples. Mas havia tanto amor naquela sala que seu peito chegou a doer.
Quando a música terminou, Gustavo sorriu para ela e apontou discretamente para a vela.
— Faz um pedido.
Amanda fechou os olhos.
Por um instante, viu duas vidas completamente diferentes diante de si. De um lado estavam Gustavo, os meninos, aquela casa simples, o bolo feito com carinho, o sorvete de morango e uma família que a amava sem reservas. Do outro estavam os restaurantes sofisticados, os motéis luxuosos, os vinhos caros, as mensagens escondidas e Jonas.
Ela abriu os olhos lentamente.
Inclinou-se sobre a vela.
E soprou.
No fundo, sabia que seu desejo era impossível.
Queria continuar vivendo nos dois mundos.
Sem perder nenhum deles.
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