O CEO que Eu Paguei
245 Escolhas - Parte Final
Depois da pequena comemoração, dos parabéns, do bolo e do sorvete, Amanda finalmente conseguiu tomar banho.
A água quente lavou o cheiro do restaurante, da rua e do Jonas. Ela no início tinha medo do Gustavo sentir alguma coisa, mas ele nunca parecia notar ou desconfiar. Vestiu uma camisola confortável, secou os cabelos rapidamente e foi para o quarto.
Gustavo já estava deitado.
Quando ela entrou, ele sorriu daquele jeito tranquilo de sempre.
— Demorou...
Amanda apenas sorriu de volta. Apagou a luz do abajur, deitou-se ao lado dele e puxou o cobertor até a cintura.
— Boa noite.
Virou-se para o lado. Antes que fechasse os olhos, sentiu Gustavo se aproximar. O colchão afundou levemente. Ele beijou delicadamente seu ombro, depois seu pescoço.
— Amor...
Amanda fechou os olhos. Não era culpa dele. Mas seu corpo simplesmente não respondia. Tudo o que sentia era um enorme cansaço.
— Para, Gustavo… Hoje eu não tô afim.
Ele interrompeu o beijo imediatamente. Ficou alguns segundos parado. Depois se sentou na cama.
— Tudo bem… — falou baixo. — Só que… — passou a mão na nuca. — Já faz quase três meses.
Amanda respirou fundo.
— Eu sei.
— Eu sei que essa campanha tá puxada. Sei que você chega cansada. Mas… — deu um sorriso sem graça. — Seu marido também tá precisando de uns beijinhos de vez em quando.
Tentou brincar. Inclinou-se novamente para beijá-la. Amanda soltou o ar com força.
Sentou-se também. Já irritada.
— Gustavo… É justamente por isso que a gente não transa.
Ele franziu a testa.
— Como assim?
— Você nunca cria um clima. É sempre igual. Chega, me beija e espera que eu esteja pronta. Não funciona assim.
A expressão dele mudou.
— Amanda… Do que você tá falando? — a voz ficou um pouco mais firme. — Você mal encosta em mim. Quando eu sento perto no sofá, você levanta. Quando eu tento conversar, você tá no celular. Quando eu te abraço, parece que tá em outro lugar.
Ele respirou fundo.
— Faz semanas que eu tô tentando chegar perto de você.
Amanda desviou os olhos. Porque ele tinha razão.
— Eu tô trabalhando.
— Eu sei.
— Tô fazendo isso pela nossa família. Pelo nosso futuro. — ela cruzou os braços. — Você continua naquela loja desde que o Théo nasceu. Disse que as comissões iam melhorar. Que ia crescer. Mas teu vale-alimentação já não paga nem uma compra direito.
Gustavo permaneceu olhando para ela, em silêncio. Depois respondeu calmamente.
— Você sabe que eu tô construindo meu espaço. O Júnior já falou… Assim que abrir vaga… Eu sou o próximo gerente.
Amanda soltou uma risada curta, cheia de ironia.
— Ele fala isso todo ano.
O silêncio que veio depois foi pesado. Quando Gustavo voltou a falar, sua voz já estava diferente.
— Até pouco tempo atrás… Nosso vale-alimentação era suficiente. A gente fazia compra. Os meninos pegavam biscoito, chocolate… Você nunca reclamou. Agora… Porque você começou a frequentar os restaurante com seus colegas… Quer fazer compra em mercado da Zona Sul.
Sorriu sem humor.
— Acho que você devia ter casado com outro homem.
Amanda respondeu sem pensar.
— Talvez eu devesse mesmo.
Assim que as palavras saíram...
Ela percebeu.
Era tarde.
O rosto de Gustavo perdeu completamente a cor, ele ficou olhando para ela. Como se não tivesse entendido direito.
Levantou da cama devagar, passou as duas mãos pelos cabelos.
Respirou fundo. Quando voltou a falar, sua voz estava quebrada.
— Amanda… O que tá acontecendo?
Ela permaneceu em silêncio.
— De verdade. — olhou diretamente nos olhos dela. — Você tá com outro homem?
Aquilo doeu. Não porque ele acertou. Mas porque ela precisou mentir olhando para o homem que sempre confiou nela.
— É claro que não. Minha vida é trabalhar e voltar pra casa. Agora você resolveu inventar traição?
Gustavo fechou os olhos por um instante. Quando abriu novamente, parecia decidido.
— Então me mostra.
Amanda gelou.
— O quê?
— Tuas conversas. O celular.
Amanda sentiu o coração disparar. Ela apagava as mensagens todas as noites. Mas… E se Jonas tivesse mandado alguma coisa?
— Não.
— Por quê?
— Porque é a minha privacidade.
— Amanda… — a voz dele saiu quase implorando. — Eu só quero voltar a confiar no que eu tô vendo.
Ela balançou a cabeça.
— Gustavo… Você tá ficando maluco.
— Então me entrega o celular.
Amanda deu um passo para trás.
— Não.
Naquele instante, Gustavo perdeu a calma.
Avançou.
Conseguiu pegar o aparelho sobre a cômoda antes dela. Amanda imediatamente tentou arrancá-lo de sua mão.
— Gustavo! Para! Me devolve! Você tem que confiar em mim!
Ele segurava o celular com força. O rosto completamente desesperado.
— Então por que você não me deixa olhar?
— Porque você não confia em mim!
— Porque eu tô morrendo de medo de te perder!
Gustavo entrou no banheiro e trancou a porta. Amanda começou a bater desesperadamente.
— Gustavo! Abre essa porta! Pelo amor de Deus!
Foi nesse instante que ouviram a maçaneta do quarto girar. Enzo apareceu na porta.
Atrás dele, Théo segurava seu ursinho.
Os dois tinham cara de quem acabara de acordar assustados.
— Mãe… O que aconteceu? Por que vocês estão gritando?
Amanda sentiu os olhos encherem de lágrimas. Aquilo nunca tinha acontecido.
Nunca.
Antes que conseguisse responder, a porta do banheiro se abriu.
Gustavo saiu devagar. O celular ainda estava em sua mão.
Olhou primeiro para os filhos.
Respirou fundo, ajoelhou diante deles.
— Tá tudo bem. Papai e mamãe só conversaram um pouco mais alto. Voltem pro quarto. Eu já vou lá.
Os dois obedeceram em silêncio. Gustavo esperou a porta fechar. Então caminhou até Amanda.
Estendeu o celular.
— Desculpa.
Ela pegou o aparelho imediatamente. Procurou alguma mudança no rosto dele.
Alguma reação.
Nada.
Ele abaixou a cabeça.
— Eu só… — respirou fundo. — Eu tô sentindo você cada dia mais longe de mim. Esses sorrisos pro celular… Você vivendo trabalhando… Chegando tarde… Eu fiquei com ciúme. Fiquei desesperado.
Amanda apertou o celular contra o peito. Sentia uma mistura de alívio e culpa. Mas transformou tudo em indignação.
— Você pegou o meu celular. — a voz tremia. — Eu sou sua esposa. Não uma adolescente. Você inventou uma traição que não existe.
Assustou nossos filhos.
Os olhos de Gustavo se encheram de arrependimento.
— Amor...
— Não. — ela o interrompeu. — Hoje eu não consigo nem olhar pra você.
Respirou fundo.
— Acho melhor você dormir no sofá esta noite.
Gustavo permaneceu parado, não discutiu, não respondeu.
Apenas assentiu lentamente e saiu do quarto com os ombros curvados.
Amanda não conseguiu dormir.
Ficou deitada olhando para o teto escuro do quarto, enquanto o ventilador girava lentamente do outro lado do quarto. O silêncio da casa era pesado. De vez em quando ouvia apenas algum carro passando na rua.
Fechou os olhos.
Pensou em Gustavo.
Apesar de tudo o que estava acontecendo, ela ainda o amava. Amava a família que haviam construído juntos, as dificuldades que enfrentaram, os sonhos que dividiram e tudo o que conquistaram. Talvez esse fosse justamente o maior problema. Se não o amasse, seria muito mais fácil pedir a separação.
Mas ela não conseguia.
No fundo, desejava apenas que tivesse conhecido Jonas antes de engravidar. Antes de casar. Antes de construir uma vida inteira ao lado de Gustavo.
Agora era tarde demais.
Depois de tudo o que viveram juntos, Gustavo não merecia estar sendo tratado daquela maneira.
Ela precisava mudar. Precisava voltar a ser a esposa que sempre tinha sido.
Respirou fundo, afastou o cobertor e saiu da cama.
Encontrou Gustavo na sala, sentado no sofá. A televisão permanecia ligada em um volume baixo, mas ele claramente não prestava atenção. Segurava uma lata de cerveja entre as mãos e mantinha o olhar perdido na tela.
Amanda caminhou devagar até ele e sentou-se ao seu lado.
Os dois permaneceram alguns segundos em silêncio.
Então ela falou baixinho:
— Desculpa, Guto.
Gustavo soltou um pequeno sorriso cansado.
— A culpa foi minha.
Ela virou o rosto para olhá-lo.
— Eu sei que você tá trabalhando sob uma pressão enorme. Eu fui egoísta... só que eu sinto falta da gente. — ele abaixou os olhos. — A gente sempre foi tão unido...
Amanda aproximou a mão devagar e segurou a dele.
— Eu amo você.
Esperou que ele a olhasse antes de continuar.
— Amo a nossa família. Tudo isso que eu tô fazendo... esse trabalho, as horas extras... é pensando na gente. No nosso futuro. — a voz saiu embargada. — Eu só preciso que você confie em mim.
Gustavo apertou delicadamente a mão dela.
— Eu confio. — ele respirou fundo. — É só que... parece que você tá cada dia mais distante. — sorriu sem graça. — Você sorri olhando pro celular. Chega cansada. Às vezes eu converso e parece que você nem tá me ouvindo.
Amanda abaixou os olhos, sentia uma culpa esmagadora.
Gustavo respirou fundo.
— E sobre o meu trabalho… Eu também fico pensando nisso. Talvez eu esteja acomodado.
Amanda balançou a cabeça.
— Não fala isso.
— Eu vou tentar procurar alguma coisa melhor. — sorriu de lado. — Apesar de tudo, o salário lá não é ruim pra alguém que só tem ensino médio. A gente nunca passou necessidade. — olhou para ela. — E vou começar aqueles bicos de Uber.
À noite. Amanda imediatamente apertou a mão dele.
— Não precisa. — ela respondeu quase assustada. — Eu exagerei. Não quero você chegando em casa de madrugada todos os dias. Quero você comigo. Com os meninos.
Gustavo sorriu com carinho.
— Você falou que tava faltando clima entre a gente… — ficou alguns segundos pensando. — Tem alguma coisa que eu possa fazer diferente?
Amanda permaneceu em silêncio.
Ele riu sem jeito.
— Faz dois dias que cortei o cabelo. Você nem percebeu.
Amanda arregalou os olhos, olhou atentamente para ele.
Era verdade.
Ela realmente não tinha percebido. Sentiu um aperto enorme no peito.
— Meu Deus… Guto… Me desculpa. — ela acariciou o rosto dele. — Eu prometo que vou prestar mais atenção.
Ele sorriu.
Depois ficou alguns segundos olhando para o chão. Como se estivesse criando coragem.
— Sabe… Talvez eu faça o ENEM esse ano.
Amanda levantou as sobrancelhas.
— Os meninos cresceram. Acho que agora dá. Federal é impossível porque é integral… Mas talvez eu consiga uma bolsa pelo PROUNI. Posso voltar para a Odontologia. Demora… Vou ficar mais ausente por um tempo. Mas quando me formar… A gente vai ter uma vida muito melhor.
Amanda ficou olhando para ele.
Naquele instante, um pensamento egoísta atravessou sua mente.
Se Gustavo estudasse todas as noites...
Ela teria muito mais liberdade.
A culpa apareceu imediatamente. Mesmo assim, sorriu.
— Eu achei uma excelente ideia. Sério. Vou te apoiar em tudo.
O rosto de Gustavo se iluminou.
Ele abriu um sorriso largo, daquele que Amanda não via fazia semanas. Sem dizer mais nada, puxou-a para um abraço demorado. Ela fechou os olhos. Retribuiu o abraço.
Naquela noite, os dois voltaram para o quarto juntos.
Depois daquela conversa, Gustavo pareceu realmente mais tranquilo. Voltou a estudar como há muito tempo não fazia. Comprou uma apostila preparatória para o vestibular, separou um canto da sala para deixar os cadernos e todas as noites, depois da janta, sentava-se à mesa para resolver exercícios. Amanda gostava de vê-lo tão motivado. Aquela ideia de voltar para a faculdade parecia ter devolvido uma esperança que ela nem percebia que ele havia perdido.
Os dias passaram depressa até chegar a terça-feira em que ela havia combinado de encontrar Jonas.
Naquela manhã, Gustavo saiu para trabalhar. Como Amanda havia dito que tiraria um dia de folga para passear com os meninos, eles resolveram não mandá-los para a escola.
— Tem certeza? — perguntou Gustavo enquanto colocava os tênis. — Aproveita que eles vão estar estudando e descansa um pouco. Você tá precisando.
Amanda sorriu.
— Quero aproveitar eles hoje. Faz tempo que a gente não faz um programa só nós três.
Gustavo sorriu de volta.
— Então tá certo.
Pegou a carteira, retirou o cartão do banco e o estendeu para ela.
— Compra um lanche pra eles. Se eles quiserem algum brinquedinho também, deixa comprar. Aproveitem bastante.
Amanda recebeu o cartão e sorriu.
— Obrigada.
Ele lhe deu um beijo demorado na testa.
— Divirtam-se.
Quando o carro de Gustavo desapareceu na esquina, Amanda permaneceu alguns segundos parada na varanda.
Respirou fundo.
Entrou em casa.
Chamou os meninos.
Pouco tempo depois, os três já estavam dentro do Palio vermelho seguindo em direção ao aquário.
Durante todo o trajeto, Amanda sentia o estômago apertado.
Quando estacionou, desligou o carro, mas não desceu imediatamente.
Virou-se para trás.
— Vem cá, meus amores.
Enzo e Théo olharam curiosos. Amanda saiu do carro, abriu as portas traseiras e se agachou na altura deles.
— Hoje a mamãe chamou um amigo do trabalho pra passear com a gente.
Os olhos de Théo brilharam.
— Obaaa!
Levantou os dois braços.
Enzo apenas inclinou a cabeça.
— Que amigo?
— O nome dele é Jonas. Ele trabalha com a mamãe.
Os dois escutavam atentos. Amanda respirou fundo antes de continuar.
— O papai é um pouquinho ciumento… Então acho melhor a gente não comentar esse passeio com ele agora, tá bom? Depois a mamãe conversa direitinho com o papai.
Théo franziu a testa.
— Por quê?
Amanda sorriu tentando parecer tranquila.
— Porque ele pode entender errado e ficar chateado à toa. A gente só veio passear. Nada demais.
Ela acariciou os cabelos do caçula.
— Posso confiar em vocês?
— Eu prometo! — respondeu Théo imediatamente.
Depois abriu um sorriso.
— Será que ele vai gostar de mim?
Amanda beijou sua testa.
— Vai sim, meu amor.
Ela voltou os olhos para Enzo.
— E você?
Enzo fez que sim com a cabeça.
— Pode confiar.
Amanda sorriu aliviada.
Os três começaram a caminhar em direção à entrada.
Théo ia pulando de uma faixa de concreto para outra como se o chão fosse um enorme jogo.
Enzo caminhava de mãos dadas com a mãe, observando tudo ao redor.
Foi então que Amanda o viu.
Jonas estava encostado próximo à entrada do aquário usando uma camiseta branca, bermuda escura e um tênis casual. Os óculos escuros repousavam sobre os cabelos castanho-claros, que continuavam bagunçados como se nunca obedecessem a pente algum. Assim que os enxergou, abriu aquele sorriso largo que parecia iluminar o rosto inteiro.
Amanda sentiu o coração acelerar.
Ele caminhou até eles.
— Oi, Amandinha. — depois olhou para os dois meninos. — E aí, rapazes.
Enzo respondeu educadamente.
— Oi.
Já Théo correu para trás da perna da mãe e escondeu metade do rosto.
— Oi... — murmurou quase sem voz.
Jonas olhou para Enzo e levantou a mão.
— Então esse cara com cara de jogador é o Enzo?
Enzo sorriu.
— Sou eu.
— Toca aqui.
Os dois bateram as mãos. Jonas fez uma expressão exageradamente surpresa. Sacudiu a própria mão.
— Caraca! Que isso! Tu bate forte pra caramba!
Enzo abriu um sorriso orgulhoso.
— Eu sou o mais forte da minha turma.
— Tô vendo mesmo… — ele olhou teatralmente para os lados. — Mas eu acho que tá faltando alguém aqui. — coçou o queixo. — Dizem que tinha um aventureiro muito corajoso vindo hoje...
Amanda entrou na brincadeira.
— Ué… Também não tô vendo.
Enzo apontou imediatamente.
— Tá escondido atrás da mamãe.
— Enzooo! — reclamou Théo. — Você estragou!
Jonas levou as mãos à cabeça.
— Ahhhh! Então era você! O aventureiro apareceu!
Théo começou a rir. A timidez já parecia ir embora.
Jonas cruzou os braços.
— Mas acho que nenhum dos dois consegue me ganhar numa corrida.
Os dois irmãos responderam ao mesmo tempo.
— Ganha sim!
Jonas fingiu medo.
— Então prova!
Saiu correndo. Mas correu devagar de propósito.
Os dois dispararam atrás dele gargalhando.
Poucos metros depois, passaram por ele.
Jonas colocou as mãos nos joelhos, fingindo estar completamente sem fôlego.
— Não é possível! Esses moleques são rápidos demais!
Théo ria tanto que mal conseguia falar.
— Você que é muito lento!
Enzo também gargalhava.
Amanda observava a cena caminhando logo atrás.
Um sorriso sincero apareceu em seu rosto. Ela acreditou, ainda que por alguns instantes, que talvez tudo realmente pudesse dar certo.
Assim que passaram pela catraca, os olhos de Théo pareciam incapazes de decidir para onde olhar primeiro.
O enorme aquário logo na entrada ocupava quase uma parede inteira. Peixes coloridos cruzavam lentamente a água iluminada, enquanto um cardume prateado mudava de direção ao mesmo tempo, como se todos obedecessem ao mesmo pensamento.
— Nossa... — Théo encostou as duas mãos no vidro. — Eles moram aqui?
— Moram. — respondeu Amanda sorrindo.
Jonas colocou as mãos nos bolsos e ficou observando os peixes junto com eles.
— Sabia que alguns peixes dormem de olho aberto?
Os dois irmãos olharam para ele ao mesmo tempo.
— Mentira. — respondeu Enzo.
Jonas fez cara de ofendido.
— Tá me chamando de mentiroso?
— Tô.
— Então vamos descobrir.
Ele caminhou até a placa ao lado do aquário e começou a ler em voz alta, exagerando a entonação como se fosse um documentário.
— "Algumas espécies reduzem muito a atividade durante o descanso..."
Parou de ler.
Olhou para Enzo.
— Tá vendo? Dormir, eles dormem. Agora o olho aberto eu inventei.
Enzo soltou uma risada.
— Eu sabia.
— Mas quase acreditou.
— Quase.
— Então já valeu.
Amanda observava os três caminhando alguns passos à frente. Era curioso como Jonas parecia nunca ficar sem assunto. Transformava qualquer detalhe em brincadeira, fazia perguntas para os meninos, inventava competições bobas sobre quem encontrava primeiro determinado peixe e comemorava cada vitória deles como se realmente estivesse disputando.
Quando chegaram ao tanque das arraias, Théo arregalou os olhos.
— Ela tá voando!
Jonas olhou para cima como se procurasse alguma coisa.
— Cadê?
— Ali!
— Rapaz... parece um tapete.
Théo começou a rir.
— Tapete não nada!
— Parece sim. Olha o tamanho.
Enzo cruzou os braços.
— Parece uma nave espacial.
Jonas apontou imediatamente para ele.
— Gostei dessa. Muito melhor que tapete.
Os três ficaram alguns minutos discutindo qual comparação era a melhor, enquanto Amanda apenas observava a cena. Fazia tempo que não via os filhos rindo daquele jeito.
Continuaram andando.
Passaram pelos tubarões.
Pelas águas-vivas.
Pelos cavalos-marinhos.
Em cada tanque, Jonas inventava alguma história absurda ou perguntava o que eles fariam se pudessem levar um daqueles animais para casa.
Quando chegaram à área externa, Théo simplesmente parou de andar.
Os olhos estavam completamente fixos em um carrinho.
— Algodão doce… — Amanda olhou na mesma direção. — Depois a gente vê isso, meu amor.
— Mas eu quero agora...
Jonas acompanhou o olhar dos dois.
— Ih… — olhou para Amanda. — Posso?
Ela deu de ombros.
— Se você quiser.
Ele já estava caminhando até o carrinho.
— Quatro.
O vendedor começou a preparar. Amanda franziu a testa.
— Eu não quero.
Jonas sorriu sem olhar para trás.
— Nem eu.
Quando recebeu os algodões-doces, entregou um rosa para Théo.
Outro azul para Enzo.
Depois colocou um branco nas mãos de Amanda.
Ela olhou surpresa.
— Ué… Você disse que não queria.
— Não quero. — ele respondeu naturalmente. — Mas tu queria.
Amanda olhou para o algodão-doce nas próprias mãos.
Sorriu.
— Obrigada.
Jonas deu uma pequena mordida no algodão-doce de Théo.
— Ei!
— Só tava conferindo se não tava envenenado.
Théo começou a rir.
— Tá mentindo.
— Tô mesmo.
Os quatro seguiram caminhando enquanto comiam. Pouco tempo depois passaram pela lojinha de lembranças.
Théo entrou primeiro.
Parou diante de um enorme tubarão de pelúcia.
Abraçou o brinquedo.
— Mãe...
Amanda já conhecia aquele tom.
Sorriu.
— Não.
— Mas...
— Não.
Jonas observava a cena tentando conter o riso.
Enzo, muito mais contido, olhava uma estante cheia de miniaturas de animais marinhos.
Pegou discretamente uma tartaruga.
Virou o preço.
Colocou de volta.
Achando que ninguém tinha visto.
Jonas viu.
Esperou Amanda se distrair conversando com Théo.
Aproximou-se de Enzo.
Falou baixinho.
— Qual você gostou?
Enzo balançou a cabeça.
— Nenhuma.
— Tá. Então me mostra a "nenhuma".
O menino acabou apontando para a tartaruguinha.
Jonas pegou a peça.
— Boa escolha.
Enzo imediatamente balançou a cabeça.
— Não precisa.
— Eu sei. Mas eu quero.
— Minha mãe vai brigar.
— Então deixa que eu converso com ela.
Quando Amanda percebeu, Jonas já voltava com uma sacola na mão.
— Tu comprou alguma coisa?
Ele levantou a sacola.
— Um presente pros meus dois novos amigos.
Amanda abriu a boca para reclamar.
— Jonas...
— Relaxa. É lembrança de passeio. Não é presente caro.
Ele se abaixou. Entregou o tubarão de pelúcia para Théo. O menino praticamente pulou no pescoço dele.
— Obrigado!
Jonas riu alto. Depois entregou a tartaruguinha para Enzo. O garoto olhou para o objeto por alguns segundos. Depois para Jonas.
— Valeu.
Foi apenas isso.
Mas Amanda percebeu.
Era a primeira vez que Enzo sorria para ele sem nenhuma timidez.
Enquanto os dois irmãos caminhavam alguns passos à frente discutindo nomes para o tubarão, Jonas ficou ao lado dela.
Olhou discretamente para os meninos.
Depois sorriu.
— Gostei deles.
Amanda também olhava os filhos. Sentiu o coração aquecer.
— Eles também gostaram de você.
Jonas abriu um sorriso satisfeito.
— Eu sabia que ia ganhar esses dois.
Amanda riu.
— Convencido.
— Não. Só tenho experiência. Eu sou um ótimo irmão e ainda tenho um sobrinho.
Ela deu uma leve cotovelada no braço dele.
Jonas fingiu sentir dor.
Os dois riram juntos.
Quando saíram do aquário, o sol do início da tarde já esquentava o estacionamento. Théo ainda caminhava abraçado ao enorme tubarão de pelúcia, fazendo a maior questão de carregá-lo sozinho, enquanto Enzo girava distraidamente a pequena tartaruga entre os dedos. Os dois falavam ao mesmo tempo sobre os peixes, discutindo qual animal era mais forte e se um tubarão venceria um jacaré numa luta. Jonas caminhava entre eles ouvindo tudo com a maior seriedade do mundo, como se aquela fosse uma discussão científica de extrema importância.
Já próximos da saída, ele colocou as mãos na cintura e olhou para os dois.
— Certo... depois de uma aventura dessas, eu acho que dois exploradores precisam almoçar.
Os dois concordaram imediatamente. Jonas então apontou para eles.
— Agora eu quero saber uma coisa muito importante. Qual é a comida favorita de vocês?
Théo nem precisou pensar.
Levantou o braço como se estivesse respondendo uma pergunta na escola.
— Hambúrguer!
Jonas assentiu, extremamente sério.
— Excelente escolha.
Virou-se para Enzo.
— E você?
O menino ficou alguns segundos refletindo.
— Pizza.
Jonas fechou os olhos devagar. Depois soltou um longo suspiro.
— Ih… Temos um problema.
Os dois irmãos o olharam ao mesmo tempo.
— Que problema? — perguntou Théo.
Jonas cruzou os braços.
— Vocês escolheram comidas diferentes. Agora isso precisa ser resolvido...
Olhou para Amanda. Depois voltou a encarar os meninos.
— Como homens.
Théo arregalou os olhos. Enzo também parecia curioso.
— Como assim?
Jonas aproximou-se dos dois, colocou uma mão sobre cada ombro e falou em tom conspiratório.
— Existe um jeito usado pelos maiores guerreiros da humanidade para resolver conflitos.
Os dois prenderam a respiração.
— Pedra... papel... ou tesoura.
Théo abriu um sorriso enorme.
— Eu sei!
— Eu também. — respondeu Enzo.
Jonas fez um gesto apontando para um espaço vazio da calçada.
— Então posição!
Os dois correram para ficar um de frente para o outro. Amanda observava a cena rindo sozinha. Jonas caminhou entre eles como um juiz de campeonato.
— Atenção… Nada de roubar. Nada de chorar. Nada de reclamar do resultado. Quem perder aceita igual homem. Entendido?
— Sim! — responderam os dois ao mesmo tempo.
— Então… Pedra… Papel… Tesoura!
Os três fizeram o movimento juntos. Théo venceu a primeira. Comemorou levantando os braços.
— Hambúrguer!
Jonas levantou um dedo.
— Calma. Melhor de três. Segunda rodada. Pedra… Papel… Tesoura!
Agora Enzo venceu. Os dois ficaram empatados.
Jonas levou as mãos à cabeça teatralmente.
— Meu Deus… Isso ficou sério.
Amanda ria tanto que precisou cruzar os braços.
Nunca imaginou ver um homem de vinte e oito anos levar uma disputa infantil tão a sério.
Jonas caminhava de um lado para o outro como um técnico antes da final da Copa do Mundo.
— Última rodada. Quem vencer… Decide o almoço da equipe inteira.
Os dois irmãos se encararam. A tensão parecia real.
— Pedra… Papel… Tesoura!
Enzo abriu papel. Théo mostrou pedra.
Por um segundo, os dois apenas olharam para as próprias mãos. Então Jonas levantou o braço de Enzo como um árbitro.
— Temos um campeão!
Enzo abriu um sorriso discreto, mas claramente satisfeito.
Théo fez um biquinho enorme.
— Ah...
Jonas imediatamente se abaixou na frente dele.
— Ei. Quem perde também é importante. Sabia disso?
Théo cruzou os braços.
— Não.
— Porque sem adversário não existe campeão.
O menino pareceu pensar naquilo. Sem entender direito.
— Então...
Ele olhou para Enzo.
— Eu ajudei ele ganhar?
— Exatamente.
Théo sorriu de novo.
— Então tá bom.
Jonas levantou-se rindo. Passou um braço pelos ombros de cada um.
— Pronto. A democracia funcionou. Hoje é dia de pizza.
Enquanto caminhavam em direção ao estacionamento, Amanda observava os três alguns passos à frente. Jonas conversava com os meninos como se os conhecesse havia anos. Não fazia voz infantil, não os tratava como bebês e nem tentava impressioná-los. Apenas brincava, ouvia as respostas deles e entrava nas fantasias dos dois com uma naturalidade que a encantava.
Ela sorriu sozinha.
Tinha imaginado aquele encontro de dezenas de maneiras diferentes.
Mas jamais imaginou que, em poucas horas, Jonas conseguiria conquistar seus dois maiores tesouros com tanta facilidade.
Antes de entrarem no estacionamento, Jonas tirou a chave do bolso e apertou o botão de destravamento.
Poucos metros à frente, um SUV preto piscou os faróis duas vezes. As maçanetas saltaram automaticamente da lataria, enquanto uma sequência elegante de luzes percorria toda a dianteira do carro.
Théo parou de andar.
— Uaaau...
Enzo também diminuiu o passo.
— Esse carro é seu?
Jonas sorriu de canto.
— É.
Os dois irmãos correram até o veículo. Théo passou a mão na pintura brilhante.
— Parece carro de filme.
— Parece carro de super-herói. — corrigiu Enzo.
Amanda caminhava logo atrás deles, observando a cena. Era a primeira vez que via o carro de Jonas de perto. Até então, sempre haviam se encontrado diretamente nos motéis ou nos restaurantes. Nunca tinham ido juntos para lugar nenhum.
Ela também ficou impressionada.
O carro parecia novo. Grande, imponente, completamente diferente do Palio vermelho que dirigia todos os dias.
Jonas apertou outro botão na chave. O porta-malas abriu sozinho.
Théo arregalou os olhos.
— Ele abriu sozinho!
Jonas fez cara de quem aquilo era a coisa mais normal do mundo.
— Abriu. Mas só funciona porque ele sabe que sou bonito.
Enzo riu.
— Mentiroso.
— É sério. Se você apertar não abre.
— Abre sim.
— Quer apostar?
Enzo estendeu a mão.
— Me dá a chave.
— Ih... agora não. Vai que você descobre meu segredo.
Os dois começaram a rir.
Jonas colocou as pelúcias no porta-malas e fechou a tampa apenas apertando um botão.
Théo acompanhava cada movimento como se estivesse assistindo a um show de mágica.
— Nossa...
Amanda se aproximou.
— Eu vou no meu carro...
Jonas virou para ela.
— Nem pensar.
Ela franziu a testa.
— Como assim?
— Hoje vocês são meus convidados. Depois eu volto aqui e a gente busca o seu.
Amanda hesitou. Olhou para o Palio estacionado do outro lado. Depois voltou a encará-lo.
— Tá bom...
Jonas abriu a porta do passageiro dianteiro. Fez uma pequena reverência exagerada.
— Senhorita.
Amanda sorriu, um pouco sem graça.
— Obrigada.
Ela entrou.
O banco era extremamente confortável.
Assim que fechou a porta, uma faixa de iluminação azul percorreu discretamente todo o painel e as portas, deixando o interior do carro com um ar futurista.
Amanda passou os olhos por tudo.
A tela central parecia maior que o notebook do trabalho.
Os bancos eram de couro claro. O acabamento misturava madeira escura e alumínio. Cheirava a carro novo.
Enzo entrou logo atrás dela.
Os olhos passeavam por todos os cantos.
— Mãe… Olha isso. Tem uma televisão.
Jonas deu risada enquanto colocava o cinto.
— Não é televisão. É a central multimídia.
Théo já apertava discretamente alguns botões da porta.
— Nossa… Tem luz aqui!
Jonas olhou pelo retrovisor.
— Gostaram?
Os dois responderam juntos.
— Sim!
Ele apertou um comando próximo ao volante.
A iluminação ambiente mudou lentamente do azul para um tom roxo. Depois ficou vermelha. Depois branca.
Théo abriu a boca.
— Mãe! As luzes mudam de cor!
Jonas olhou para trás.
— Qual vocês querem?
— Azul! — respondeu Théo.
— Verde. — disse Enzo.
Jonas fingiu pensar bastante.
— Democracia de novo?
Os dois riram.
— Hoje quem manda é o motorista. — disse Amanda.
Escolheu um azul bem forte. O interior inteiro ganhou um brilho elegante.
Amanda observava tudo em silêncio.
Nem lembrava a última vez que tinha andado em um carro daquele padrão.
Jonas apertou o botão de partida.
O motor acordou com um ronco grave, cheio, fazendo os dois meninos arregalarem os olhos ao mesmo tempo.
— Caracaaa! — gritou Théo.
Enzo abriu um sorriso.
— Que barulho bonito.
Jonas sorriu discretamente. Era exatamente a reação que esperava. Deu uma acelerada rápida, apenas o suficiente para o ronco ecoar pelo estacionamento.
Théo começou a rir.
— Faz de novo!
— Ah, não pode abusar. Senão ele fica mal acostumado.
Saiu lentamente da vaga. Enquanto dirigia, mostrava algumas funções do carro.
— Tá vendo essa câmera? Ela mostra tudo em volta. Não tem ponto cego.
Apertou outro botão. No para-brisa surgiu uma projeção indicando velocidade e direção.
Enzo se inclinou para frente.
— Tá aparecendo na frente!
— Chama head-up display. Assim eu não preciso olhar pra baixo.
Théo já havia tomado outra decisão.
— Mãe… Quando eu crescer… Vou comprar um carro igualzinho.
Jonas olhou pelo retrovisor e sorriu.
— Não. Vai comprar melhor.
Os olhos de Théo brilharam.
— Melhor ainda?
— Claro. Tem que superar o tio Jonas.
Amanda virou discretamente o rosto para a janela.
Sorriu sozinha.
Ver os dois meninos completamente encantados e Jonas entrando na brincadeira com tanta naturalidade fazia aquela tarde parecer perigosamente... uma tarde de família.
A tarde passou depressa.
Depois da pizza, caminharam sem pressa pela orla. Jonas fazia questão de parar em praticamente todos os lugares que chamavam a atenção dos meninos. Entraram nas lojinhas de lembranças, tiraram fotos em frente aos navios antigos, fizeram um passeio de bondinho e, quando Théo viu outro carrinho de sorvete, nem precisou pedir duas vezes.
— Eu sabia que tu ia olhar pra esse sorvete. — brincou Jonas.
— Como você sabia?
— Porque eu também tava olhando.
Enzo, que no começo do passeio respondia apenas com "sim" e "não", já conversava naturalmente com Jonas. Fazia perguntas sobre os peixes, sobre o carro, sobre o trabalho dele e até sobre futebol, os dois eram flamenguistas. Em determinado momento, os dois ficaram discutindo qual era o melhor goleiro do Brasil enquanto Théo caminhava na frente, segurando uma casquinha de sorvete quase maior que a própria mão.
Amanda observava tudo alguns passos atrás. Não conseguia acreditar na facilidade com que Jonas havia conquistado os dois. Nenhum esforço parecia forçado. Ele simplesmente os tratava como pessoas.
Brincava.
Escutava.
Respondia.
Entrava nas fantasias deles e, de alguma forma, aquilo bastava.
Quando voltaram ao estacionamento, o relógio já se aproximava das seis da tarde.
Amanda olhou discretamente as horas.
Sentiu um aperto no peito.
— Eu preciso ir.
Jonas fez uma careta.
— Já?
Ela assentiu.
— Tenho um compromisso às seis, eu te avisei.
Ele sorriu de lado.
— Tá bom. Então vamos embora antes que eu seja acusado de sequestrar meus dois parceiros.
Théo riu.
— Você não consegue me sequestrar.
— Não?
— Não. Porque eu corro muito.
Jonas colocou a mão no peito.
— Verdade… Hoje eu descobri isso da pior maneira.
Chegaram ao carro.
Jonas abriu a porta traseira para os dois entrarem. Antes que fechassem a porta, agachou-se na altura deles.
— Gostei muito de vocês.
Enzo sorriu.
— A gente também.
Théo abraçou novamente o tubarão de pelúcia.
— Quando a gente vai passear de novo?
Jonas olhou rapidamente para Amanda antes de responder.
— Logo. Se depender de mim, bem logo.
Théo abriu um sorriso enorme.
— Promete?
Jonas estendeu o dedo mindinho.
— Prometo.
Os dois fizeram o cumprimento. Depois ele fechou a porta.
Amanda permanecia parada ao lado do carro.
Os dois se olharam por alguns segundos.
Aquela tarde tinha sido boa demais. Boa a ponto de assustá-la.
Jonas deu um passo à frente e abriu um sorriso tranquilo.
— Gostei de hoje.
— Eu também. — ela disse sorrindo de volta.
Ele levou uma das mãos até a cintura dela, devagar. Já fazia aquilo naturalmente.
Amanda não recuou, pelo contrário. Sentiu o corpo relaxar.
Jonas inclinou o rosto e a beijou, foi um beijo curto, cheio de carinho. Muito diferente dos que trocavam escondidos nos motéis. Não havia urgência nem desejo desenfreado. Era apenas um beijo de despedida.
Era quase... um beijo de casal.
— Olha, Enzo!
A voz de Théo cortou o estacionamento.
Os dois se afastaram imediatamente. Amanda sentiu o sangue desaparecer do rosto.
Théo apontava para eles completamente empolgado.
— Ele tá apaixonado! — depois olhou para o irmão. — Igual o papai com a mamãe!
Enzo arregalou os olhos. Ficou alguns segundos olhando para Jonas. Depois voltou os olhos para Amanda.
— Mãe… Por que vocês se beijaram?
Amanda abriu a boca. Mas nenhuma resposta saiu. O coração parecia bater dentro da garganta.
Enzo continuou.
— E o meu pai?
Amanda sentiu as pernas enfraquecerem.
Foi Jonas quem deu um passo à frente. Apoiou os braços na janela do carro e sorriu para os dois.
— Posso explicar?
Os dois fizeram que sim. Jonas falou com a maior naturalidade do mundo.
— Vocês sabem que o papai de vocês sempre vai ser o papai de vocês, né?
Os dois assentiram.
— Isso nunca muda.
Ele sorriu.
— Mas a mamãe também pode conhecer pessoas novas. Gostar delas. Assim como vocês conheceram um amigo novo hoje.
Théo olhou para Amanda.
— Então você gosta do Jonas?
Amanda sentiu um aperto enorme no peito.
Antes que conseguisse responder, Jonas entrou novamente na conversa.
— Espero que sim. Porque eu gostei muito de vocês. Muito mesmo.
Ele bagunçou os cabelos de Théo e depois olhou para Enzo.
— E eu queria continuar conhecendo vocês. Ir passear. Comer pizza. Tomar sorvete. Essas coisas.
Théo abriu um sorriso enorme.
— Então você vai passear com a gente de novo?
— Se a mamãe deixar… Eu quero.
Os olhos do menino brilharam.
— Obaaa!
Enzo ainda parecia mais pensativo.
— Então você quer ser namorado da minha mãe?
Jonas deu uma pequena risada. Olhou rapidamente para Amanda antes de responder.
— Eu gosto muito dela. E tô conhecendo vocês também. Vamos deixar as coisas acontecerem devagar. O importante é que hoje foi um dia muito legal.
Enzo permaneceu alguns segundos em silêncio. Depois abriu um pequeno sorriso.
— Tá bom.
Amanda olhava aquela cena completamente imóvel.
Na cabeça de Jonas, tudo fazia sentido.
Ele acreditava estar entrando, aos poucos, na vida de uma mulher divorciada e de dois meninos que precisavam apenas de tempo para conhecê-lo.
Jonas ficou parado na calçada observando o carro se afastar. Ainda levantou a mão em despedida quando Amanda fez a primeira curva. Ela respondeu com um aceno discreto pelo retrovisor e seguiu dirigindo.
Durante alguns segundos, ninguém falou nada.
Então Théo abraçou o tubarão de pelúcia com força.
— Mãe!
Amanda sorriu.
— Oi, meu amor.
— Eu gostei muito do Jonas!
Ela deu uma risadinha.
— Eu percebi.
— Ele corre devagar pra gente ganhar.
Amanda sorriu de novo.
— Você descobriu?
— Descobri.
Enzo, sentado ao lado do irmão, continuava olhando pela janela. Parecia muito mais pensativo que o caçula. De repente, levantou os olhos e encontrou os da mãe pelo retrovisor.
— Mãe...
Ela sentiu um aperto no peito.
— Oi?
— Eu achei que você só podia beijar o papai.
Amanda apertou um pouco mais o volante. Por alguns segundos, não soube o que responder.
— É… Essas coisas de adulto são um pouco complicadas.
Enzo continuou olhando para ela.
— Então você gosta do Jonas?
Amanda respirou fundo.
— Gosto.
O menino permaneceu em silêncio. Ela aproveitou para continuar.
— Mas eu queria pedir uma coisa pra vocês.
Os dois prestaram atenção.
— O passeio de hoje foi muito legal, não foi?
— Foi! — respondeu Théo imediatamente.
— Então… Acho melhor a gente não comentar sobre o Jonas com o papai.
Enzo franziu a testa.
— Por quê?
Amanda procurava as palavras com cuidado.
— Porque o papai pode entender tudo errado. E acabar ficando chateado à toa. — ela sorriu tentando deixar a situação mais leve. — E se ele ficar chateado… Talvez ele não deixe a mamãe passear com vocês e com o Jonas de novo.
Théo arregalou os olhos. Virou imediatamente para o irmão.
— Não conta, Enzo!
Enzo não respondeu. Continuava olhando para a mãe pelo espelho.
— Mas… Se eu não contar… O papai não vai ficar triste?
Amanda sentiu um nó subir pela garganta.
— Ele só vai ficar triste se achar que aconteceu alguma coisa errada. E não aconteceu. Foi só um passeio. — ela sorriu novamente. — Então deixa a mamãe conversar com ele quando chegar a hora certa.
Enzo ficou pensando por alguns segundos. Depois fez apenas um gesto afirmativo com a cabeça.
Amanda soltou o ar discretamente.
Durante o restante do caminho, Théo voltou a falar sem parar. Contava sobre o tubarão, sobre o algodão-doce, sobre a corrida que tinha vencido e repetia várias vezes que queria voltar ao aquário com o "tio Jonas". Enzo participava bem menos da conversa. Apenas completava uma informação ou outra, mas permanecia muito mais quieto que o irmão.
Quando estacionaram em casa, Amanda ainda sentia o coração acelerado.
Entrou carregando algumas sacolas enquanto os meninos corriam para o quarto brincar com os presentes. Ela foi direto para a cozinha e começou a preparar o jantar, tentando ocupar a cabeça. Cortava os legumes sem prestar atenção, voltava várias vezes para mexer a panela que nem precisava ser mexida e olhava o relógio a todo instante.
O portão abriu.
Gustavo havia chegado.
Assim que abriu a porta, Théo saiu correndo.
— Papai!
Gustavo o pegou no colo.
— E aí? Como foi o passeio?
A pergunta fez Amanda prender a respiração na cozinha.
Enzo apareceu logo atrás do irmão. Os dois começaram a falar ao mesmo tempo.
— A gente viu tubarão!
— E arraia!
— E eu ganhei um tubarão!
— Eu ganhei uma tartaruga!
— A gente comeu pizza!
— E sorvete!
— E andou de bondinho!
Gustavo ria tentando entender a avalanche de informações.
— Calma! Um de cada vez!
Amanda permanecia imóvel diante do fogão.
Esperando.
Esperando ouvir o nome de Jonas.
Mas ele nunca veio.
Os dois meninos contavam a tarde inteira com um entusiasmo contagiante, descrevendo cada detalhe do passeio, cada peixe diferente, cada brincadeira, cada corrida...
Sem mencionar Jonas uma única vez.
Amanda fechou os olhos por um breve instante.
Um alívio enorme percorreu seu corpo.
Talvez...
Talvez aquilo realmente pudesse dar certo.
No dia seguinte, Jonas voltou a mandar mensagem.
"Os meninos perguntaram de mim?"
Amanda sorriu sozinha antes mesmo de responder.
"O Théo perguntou quando vocês vão correr de novo."
"Sabia!" — ele respondeu quase imediatamente. "Marca outro passeio. Tô com saudade daqueles dois."
Amanda ficou olhando a tela por alguns segundos. Era estranho. Jonas parecia realmente ter gostado dos meninos.
Depois de algumas mensagens, acabaram combinando outro passeio para a semana seguinte.
Ela desligou o celular sentindo um frio na barriga. Talvez aquilo estivesse indo longe demais.
No final da tarde seguinte, encontraram-se novamente no motel.
Horas depois, o quarto permanecia em silêncio. Jonas terminava de vestir a camiseta enquanto procurava a chave do carro sobre a cômoda. Amanda ainda estava sentada na cama, distraída, enrolada no lençol, observando-o andar de um lado para o outro.
Foi então que ele comentou, como quem lembrava de um detalhe qualquer.
— Ah... amanhã a Helena vai aparecer na campanha.
Amanda levantou os olhos.
— É?
— Vai tirar umas fotos, conversar com o pessoal... essas coisas. — ele sorriu enquanto passava a mão pelos cabelos. — Aproveito e apresento vocês.
Amanda abriu um sorriso espontâneo.
— Você quer muito que eu conheça ela, né?
— Quero.
Ele respondeu sem pensar. Depois deu uma pequena risada.
— É que ela é praticamente a única pessoa que vai apoiar o que eu tô fazendo.
Amanda franziu a testa.
— Como assim?
Jonas terminou de fechar o relógio no pulso antes de responder.
— Quando comecei a trabalhar no gabinete, meu pai teve uma conversa séria comigo.
Ela continuava ouvindo.
— Ele falou que política mistura muita coisa... poder, interesse, fofoca... e que um relacionamento dentro do gabinete pode causar um clima ruim. Perda de credibilidade e coisas do tipo. — deu de ombros. — Aí eu prometi pra ele que nunca me envolveria com uma funcionária.
Amanda arregalou os olhos.
— Pera aí… Então... a gente também é um segredo pra você?
Jonas sorriu de lado.
— Por enquanto.
Amanda precisou conter o próprio sorriso. Aquilo era perfeito. Se ele também precisava esconder o relacionamento, jamais insistiria para que ela assumisse alguma coisa.
Sentiu um enorme alívio.
Mas ele continuou falando.
— A Helena nem sabe dessa promessa. E acho que ela nem vai me julgar quando descobrir.
Amanda arqueou uma sobrancelha.
— Descobrir?
Jonas assentiu naturalmente.
— Depois que essa campanha acabar… — ele ficou alguns segundos procurando as palavras. Coçou a nuca. Pela primeira vez parecia um pouco sem jeito. — Sei lá… Acho que ia ser legal.
Ela permaneceu em silêncio.
— Legal como?
Ele sorriu. Um sorriso sincero.
— Poder sair contigo sem ficar escondendo. Ir jantar. Viajar. Conhecer seus meninos sem precisar inventar desculpa. Encontrar vocês num shopping… Num parque… Essas coisas.
Amanda sentiu o estômago afundar. Jonas continuava falando com a maior naturalidade.
— Eu gostaria que as pessoas soubessem que a gente tá junto.
Ela sorriu.
Ou, pelo menos, tentou sorrir.
— Também acho...
A resposta saiu automática.
Mas, por dentro, sua cabeça gritava.
"Ele tá falando sério."
"Ele realmente acredita que um dia nós vamos assumir isso."
Amanda percebeu que Jonas estava, aos poucos, construindo um futuro que só existia porque ela continuava sustentando uma mentira.
Na manhã seguinte, Amanda acordou decidida.
Mandou uma mensagem para a coordenadora dizendo que estava passando muito mal e que ficaria em casa. Algumas horas depois, Jonas respondeu perguntando se ela estava bem. Disse que a Helena já estava lá na campanha para conhecer parte da equipe e tirar algumas fotos institucionais.
"Que pena. Ela tava doida pra te conhecer." respondeu ele.
Amanda apenas respondeu que estava com muita febre.
Mentira.
Ela não podia conhecer Helena. Não depois da conversa da noite anterior. Não depois de perceber que Jonas realmente imaginava um futuro para os dois. Era melhor desaparecer um dia do que permitir que aquilo avançasse mais.
Na manhã seguinte, voltou normalmente ao escritório. Assim que entrou na copa, Jonas apareceu na porta.
— Caraca, Amandinha… Tu me deu um susto.
Ela sorriu sem graça.
— Já tô melhor.
Ele se aproximou. Levou naturalmente a mão até o braço dela.
— A Helena perguntou de você.
Amanda sentiu o estômago embrulhar.
— É?
— É. Falei que tu era uma das pessoas mais inteligentes da campanha.
Ela ficou sem saber o que responder.
Jonas sorriu.
— Ela desejou melhoras.
Amanda apenas assentiu. Preferiu mudar de assunto. Durante o almoço, acabaram sentando juntos.
Jonas parecia muito mais sério do que de costume. Mexia distraidamente na comida.
Foi Amanda quem perguntou.
— Aconteceu alguma coisa?
Ele respirou fundo.
— Aconteceu.
Ela esperou.
— Lembra da Ana Alice?
Amanda fez que sim.
Como esqueceria? Toda a campanha comentava aquele escândalo. Jonas balançou lentamente a cabeça.
— Ela conseguiu fazer uma das coisas que eu mais odeio na vida.
Amanda permaneceu em silêncio.
— Mentiu pro Isaac. Usou os sentimentos dele. Brincou com a cabeça dele. — a voz dele endurecia a cada frase. — Meu irmão gostava dela de verdade. Ela fez ele acreditar numa vida inteira. Depois destruiu tudo.
Amanda abaixou discretamente os olhos. Jonas continuava.
— E ainda mexeu com a Helena… Com o Heitor… Com o Humberto.— passou a mão no rosto. Claramente irritado. — Aquela mulher perdeu completamente a noção.
Amanda mexia distraidamente no arroz. Quase não escutava os próprios talheres.
— A sorte dela é que tá em época de eleição. Meu pai tá segurando muita coisa. Mas isso não vai ficar barato. — ele olhou diretamente para Amanda. — O meu pai contratou um advogado muito bom. O Heitor também colocou a equipe jurídica dele em cima. Ela vai responder por tudo.
Amanda apenas assentiu. Jonas deu um pequeno sorriso sem humor.
— Sabe qual é o negócio?
Ela levantou os olhos.
— Eu consigo perdoar muita coisa. Erro. Orgulho. Mas uma coisa eu não consigo aceitar.
Amanda sentiu o coração acelerar.
— O quê?
— Mentira. E a mentira dentro de relacionamento é algo de sociopata. Usar o sentimento de alguém. Isso eu tenho nojo.
As palavras bateram nela como um soco. Jonas continuava falando, completamente alheio ao efeito que causava.
— Quando alguém faz isso… Não tá machucando só quem foi enganado. Tá destruindo a confiança da pessoa pra sempre.
Amanda apertou discretamente o garfo. As mãos começavam a suar.
— Por isso eu fiquei tão puto com a Ana Alice. Ela sabia exatamente o que tava fazendo.
Amanda forçou um pequeno sorriso. Ela falava para si mesma que era diferente de Ana Alice, porque Amanda era apaixonada pelo Jonas. Eles eram o par perfeito, porém no momento errado.
Em casa, ela contou tudo sobre o que Ana Alice fez, como tentou dopar Heitor Monteiro para Gustavo, ele ouvia com paciência, já nem reclamava mais sobre ela falar do Heitor.
Era sábado à noite.
Amanda colocou o copo de água sobre a cabeceira de Théo, conferiu se a janela estava fechada e puxou o cobertor até o peito dele. Enzo ainda organizava alguns carrinhos sobre o criado-mudo, claramente tentando adiar a hora de dormir.
Quando ela já se preparava para apagar a luz, Enzo sorriu para ela.
— Mãe...
— Oi, filho.
— Qual é o presente do papai?
Amanda parou no meio do movimento.
— Presente?
Enzo fez uma expressão de quem estranhou a pergunta.
— É… O de Dia dos Pais. Quero saber se ele vai gostar.
Foi como se alguém tivesse puxado o chão debaixo dos pés dela.
Dia dos Pais.
Amanhã.
Ela simplesmente...
Esqueceu.
Durante toda a semana só pensou nas mensagens do Jonas, nos encontros escondidos, nas desculpas que inventaria para sair novamente com ele com os meninos. Naquele mesmo sábado, passou horas respondendo às reclamações dele porque Helena havia praticamente o expulsado de casa para que Heitor pudesse passar o primeiro Dia dos Pais apenas com ela e o filho.
Jonas tinha reclamado a tarde inteira. Ela respondera todas as mensagens.
E, mesmo assim… Não ligou uma coisa à outra.
Esqueceu completamente do Dia dos Pais de Gustavo. Sentiu um aperto enorme no estômago.
— Conta pra mim também, mamãe. — pediu Théo, já deitado. — Eu sou muito bom guardando segredo.
Amanda forçou um sorriso. Precisava responder alguma coisa.
— O presente de amanhã vai ser diferente.
Os dois esperaram.
— A gente vai levar o papai no shopping. E ele vai escolher exatamente o que quiser.
Théo abriu um sorriso.
— Obaaa!
Mas Enzo não pareceu convencido. Cruzou os braços.
— Mas isso não é presente de verdade.
Amanda tentou manter o sorriso.
— Por que não?
— Porque ele vai saber qual é. Presente tem que ser surpresa.
Ela ficou alguns segundos olhando para o filho. Até uma criança de nove anos entendia aquilo.
Respirou fundo.
— Então a gente faz assim. Enquanto o papai dorme… Nós três vamos sair cedinho. Compramos um presente escondido e fingimos que já estava tudo planejado.
Os olhos dos dois brilharam.
— Eu gostei! — disse Enzo.
Théo levantou a mão imediatamente.
— Eu também!
Amanda sorriu para eles. Mas, por dentro, sentia uma vergonha que mal conseguia explicar. Ela sempre fora a pessoa que lembrava das datas. Que comprava os presentes.Que fazia os cartões. Que ensinava os meninos a escrever "eu te amo" para o pai.
Naquele ano… Só havia esquecido porque sua cabeça estava ocupada demais pensando em outro homem.
Quando apagou a luz do quarto, fechou a porta devagar e encostou-se por alguns segundos na parede do corredor.
Levou a mão ao rosto.
"O que eu estou fazendo com a minha família?"
O segundo passeio foi muito mais difícil de organizar.
Na noite anterior, Amanda disse a Gustavo que precisaria tirar mais um dia para resolver algumas pendências da campanha e que aproveitaria para levar os meninos com ela depois. Gustavo não gostou nem um pouco da ideia.
— Amor, eles já faltaram aula esse mês. — comentou enquanto guardava a marmita na mochila. — Duas faltas por passeio é demais.
Amanda respirou fundo.
— Eu sei... mas depois a campanha vai apertar muito. Quero aproveitar enquanto ainda consigo passar um tempo com eles.
Gustavo continuava com uma expressão de dúvida.
— Não podia ser no sábado?
— Sábado também vou trabalhar algumas horas. Você sabe como tá essa campanha.
Ele ainda hesitou por alguns segundos. Amanda aproximou-se, segurou delicadamente a mão dele.
— Prometo que é só dessa vez.
Gustavo acabou cedendo.
— Tá bom… Mas depois manda eles pra escola direitinho depois, tá?
Ela sorriu.
— Prometo.
Pouco depois das nove da manhã, Jonas já os esperava. Assim que Théo o viu, soltou a mão da mãe e saiu correndo.
— Jonas!
Ele abriu os braços.
— Aí está o piloto mais rápido do Rio de Janeiro!
Théo praticamente se jogou no abraço dele. Enzo aproximou-se logo atrás, bem mais tranquilo.
— E aí.
Jonas estendeu a mão.
— Fala, parceiro.
Os dois bateram as mãos. Amanda observava a cena com um sorriso discreto. Parecia que eles já se conheciam havia anos. O primeiro destino foi uma pista de kart. Théo quase explodiu de felicidade quando viu os carrinhos. Mas a empolgação durou pouco.
Assim que descobriram que havia idade mínima para dirigir, ele cruzou os braços e fez um enorme bico.
— Ah...
Jonas agachou na frente dele.
— Seguinte… Missão cancelada. Plano B.
Théo ainda parecia desanimado.
— Qual?
Jonas abriu um sorriso.
— Carrinho bate-bate.
Os olhos do menino voltaram a brilhar.
— Sério?
— Claro. E dessa vez ninguém pode reclamar da tua idade.
No shopping, os três praticamente esqueceram que Amanda existia. Jonas fazia questão de provocar os dois. Sempre escolhia o carrinho mais próximo para bater de propósito.
— Peguei!
— Não vale!
— Vale sim!
Enzo ria enquanto tentava alcançá-lo.
Théo fazia ainda mais bagunça, dirigindo sem direção nenhuma e acertando qualquer carro que aparecesse pela frente.
Quando o tempo terminou, os dois estavam ofegantes de tanto rir. Depois passaram pela Game Station.
Jonas entregou um cartão para cada um.
— Hoje vocês mandam.
Amanda arregalou os olhos.
— Jonas...
— Relaxa. Hoje eu quero perder dinheiro.
Os meninos correram para os brinquedos. Durante quase uma hora jogaram de tudo um pouco.
Basquete.
Corrida.
Caça aos dinossauros.
Simulador.
No fim, chegaram ao balcão dos prêmios.
Enzo ficou completamente hipnotizado por um skate.
— Mãe...
Amanda olhou a quantidade absurda de tickets.
— Filho… Não dá.
Jonas aproximou-se discretamente do atendente.
Perguntou quantos tickets faltavam. Ouviu a resposta. Pegou o cartão novamente.
— Me dá cinco minutos.
Saiu andando. Poucos minutos depois voltou com o dobro dos tickets para o prêmio.
O atendente entregou dois skates.
Enzo ficou imóvel.
— É... meu?
— Claro.
O menino largou o skate no chão e abraçou Jonas pelas pernas.
— Obrigado!
Jonas bagunçou os cabelos dele.
— Agora quero ver aprender.
Amanda observava tudo em silêncio. Aquela facilidade que Jonas tinha para fazê-los felizes era quase injusta. Depois do almoço, seguiram para a marina.
Amanda nunca havia estado ali.
Os barcos enormes balançavam suavemente na água enquanto funcionários caminhavam pelos píeres.
Jonas os conduziu até um iate branco.
Os olhos dos dois meninos brilhavam.
— Esse barco é seu? — perguntou Enzo.
Jonas riu.
— Não. Esse não. Mas um amigo deixou a gente usar hoje.
Durante o passeio, os meninos praticamente não pararam. Olhavam a cidade de outro ângulo, apontavam aviões, contavam embarcações e faziam perguntas sobre tudo.
Em determinado momento, Jonas levou Enzo até o posto de comando.
— Quer aprender uma coisa?
O menino fez que sim imediatamente.
Jonas explicou como funcionava o leme, mostrou os instrumentos do painel e deixou que ele conduzisse a embarcação por alguns instantes, sempre com a própria mão acompanhando a dele.
Amanda observava de longe.
O coração acelerava.
— Cuidado...
Jonas olhou para trás e sorriu.
— Relaxa. O capitão tá de olho na gente.
Enzo mantinha uma concentração impressionante.
— Assim?
— Isso. Agora um pouquinho pra esquerda. Perfeito.
Amanda não sabia dizer o que a assustava mais.
Ver Enzo tão feliz… Ou perceber o orgulho estampado no rosto de Jonas enquanto o ensinava.
No fim da tarde, retornaram à marina.
Os meninos já demonstravam o cansaço típico de um dia inteiro brincando. Mesmo assim, continuavam sorrindo.
Na despedida, Théo abraçou Jonas duas vezes.
Enzo apertou sua mão com firmeza.
— Valeu. Foi muito maneiro.
— Semana que vem tem revanche no bate-bate.
— Fechado.
Os dois entraram no carro.
Amanda permaneceu do lado de fora por alguns segundos. Jonas aproximou-se.
— Gostei mais de hoje.
Ela sorriu.
— Eu também.
Ele segurou delicadamente o rosto dela.
— Até semana que vem.
Amanda assentiu. Os dois trocaram mais um beijo, curto, carinhoso e natural. Quando entrou no carro, encontrou os dois filhos observando-a pelo retrovisor.
Théo apenas sorriu.
Enzo também.
Nenhum dos dois disse uma palavra.
Quando estacionou em casa, o celular tocou antes mesmo de ela desligar o motor.
Era Gustavo.
Amanda atendeu colocando o telefone entre o ombro e a orelha enquanto soltava o cinto.
— Oi, amor.
— Oi. Já chegaram?
— Acabei de estacionar.
Do outro lado da linha, ele parecia animado.
— Faz um favor pra mim?
— Claro.
— Leva os meninos pra casa da minha mãe, já com mochila e roupa pra dormir.
Amanda franziu a testa.
— Ué... por quê?
Ela ouviu a risada dele.
— Porque hoje eu quero minha esposa só pra mim.
Amanda permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Como assim?
— Faz tempo que a gente não sai sozinho. Eu organizei tudo. Minha mãe já sabe, vai ficar com os meninos e eu vou te buscar.
Ela olhou para o banco traseiro.
Os dois irmãos ainda discutiam quem tinha vencido mais vezes no carrinho bate-bate.
Sorriu sem perceber.
— Tá bom.
Terezinha recebeu os netos com o entusiasmo de sempre.
Os dois praticamente invadiram a casa contando, ao mesmo tempo, tudo o que tinham feito durante o dia. Amanda deixou as mochilas, deu um beijo nos filhos e prometeu buscá-los na manhã seguinte.
Pouco depois, Gustavo chegou.
Assim que entrou no carro, Amanda percebeu que ele havia colocado uma camisa que ela adorava.
— Nossa… Você tá bonito.
Ele sorriu.
— Você também. Achei que merecia caprichar.
O jantar foi em um restaurante italiano que Amanda sempre dizia ser o melhor da cidade. Gustavo fez a reserva com antecedência, pediu vinho para ele e o refrigerante favorito dela sem nem precisar perguntar.
Durante toda a refeição, ele evitou falar sobre contas, campanha, escola dos meninos ou qualquer preocupação da rotina.
Falavam apenas deles.
Do primeiro encontro. Da vergonha que ele sentiu quando a chamou para sair. Da primeira viagem que fizeram de ônibus. Das alianças simples que compraram quando ainda juntavam dinheiro para mobiliar a casa.
Amanda ria lembrando de histórias que parecia ter esquecido. Em determinado momento, Gustavo segurou a mão dela por cima da mesa.
— Sabe… Mesmo depois de tantos anos… Eu ainda fico nervoso quando saio com você.
Ela sorriu.
— Para de mentir.
— É sério. Você continua bonita pra caramba.
Amanda desviou os olhos.
Não sabia explicar por quê, mas aquele elogio do marido parecia muito mais profundo do que qualquer um que recebeu nos últimos meses.
Depois do jantar, caminharam pela orla.
A noite estava agradável.
Andavam de mãos dadas como sempre faziam. Em alguns momentos, Gustavo apenas apertava discretamente a mão dela, sem dizer absolutamente nada.
Como se aquele silêncio já fosse uma conversa.
Mais tarde, seguiram para um hotel que ele havia reservado.
Amanda ficou surpresa.
— Você planejou isso tudo?
Ele deu de ombros.
— Minha esposa merece um mimo de vez em quando.
Ela sorriu.
Naquela noite, fizeram amor sem pressa. Sem urgência. Sem esconderijos. Sem medo de alguém descobrir.
Gustavo a beijava demoradamente, fazia carinho em seus cabelos, perguntava se ela estava confortável, ria entre um beijo e outro.
Amanda conseguia sentir uma coisa que havia esquecido nos últimos meses.
Amor.
Um amor tranquilo.
Construído ao longo dos anos.
Quando adormeceram, Gustavo permaneceu abraçado nela a noite inteira.
Na manhã seguinte, os dois tomaram café juntos antes de sair.
Já dentro do carro, Gustavo comentou como quem lembrava de um detalhe qualquer.
— Ah… Hoje eu vou ser liberado mais cedo.
Amanda virou o rosto.
— É?
— Vou ficar com o carro. Te deixo na campanha agora e passo pra te buscar quando sair.
Ela sentiu o coração disparar. Por fora, apenas sorriu.
— Nossa… Que bom.
Por dentro, porém, o pensamento era outro.
"E agora?"
Ela não poderia sair escondida. Não poderia inventar uma reunião. Nem desaparecer durante a tarde. Precisava pensar em alguma desculpa antes do expediente terminar.
Quando chegaram em frente ao prédio da campanha, Amanda soltou o cinto rapidamente.
— Tá. Então eu vou indo.
Abriu a porta, mas Gustavo segurou delicadamente seu braço.
— Ei...
Ela virou.
— Vai me deixar sem beijo?
Amanda olhou discretamente para a entrada do prédio. Alguns funcionários já circulavam pela calçada.
— Amor… Não pega muito bem.
Ele deu uma pequena risada.
— Sou teu marido. Não tô fazendo nada escondido.
Ela ainda hesitou.
— Vai… Rapidinho.
Amanda acabou sorrindo. Inclinou-se e lhe deu um beijo rápido, Gustavo ainda fez um cafuné rápido nos cabelos dela.
— Bom trabalho.
— Pra você também.
Ela desceu do carro. Esperou Gustavo sair com o veículo. Só então respirou fundo.
Mais uma mentira.
Mais um dia tentando impedir que dois mundos inevitavelmente se encontrassem.
Dona Terezinha já esperava os netos na varanda. A casa dela ficava muito mais perto da escola do que a de Amanda, por isso, quando os meninos iam para a casa dela, chegavam bem mais cedo. Ela gostava daqueles dias. A casa ficava cheia de risadas, brinquedos espalhados pela sala e discussões sobre quem era o personagem mais forte dos desenhos.
Assim que a van parou, ela abriu um sorriso.
— Meus amores chegaram!
Os dois desceram correndo. Théo foi o primeiro a abraçá-la. Enzo veio logo atrás, carregando o skate novo com o maior cuidado do mundo.
— Primeiro lava a mão! — disse Terezinha, apontando para a pia da cozinha. — Depois eu deixo vocês mexerem em qualquer coisa.
Os dois obedeceram resmungando. Poucos minutos depois, já estavam sentados à mesa.
Terezinha colocou um copo de suco para cada um e trouxe um bolo de fubá ainda morno que havia feito naquela manhã.
— Come bastante. Vocês chegaram com cara de quem tá morrendo de fome.
— Eu tô mesmo! — respondeu Théo, já dando uma mordida enorme.
Enzo nem respondeu. Enfiava pedaços de bolo na boca enquanto olhava o skate apoiado perto da porta.
Parecia ansioso para terminar logo.
— Como foi a escola? — perguntou Terezinha.
Théo começou a contar tudo ao mesmo tempo.
Quem tinha levado bronca.
Quem tinha chorado.
Quem tinha feito gol na educação física.
Enquanto isso, Enzo apenas balançava a cabeça de vez em quando, completamente concentrado em comer.
Assim que terminou o último pedaço de bolo, levantou-se.
— Posso ir andar de skate?
— Vai, mas toma cuidado. — respondeu a avó. — Não quero ninguém voltando sem dente.
— Eu não vou cair.
Ele pegou o capacete e já caminhava em direção à porta.
Théo levantou o rosto.
— Eu também quero aprender. — depois sorriu. — Quero mostrar pro amigo da mamãe.
Terezinha achou graça.
— Que amigo da mamãe?
Théo deu de ombros.
— É do trabalho dela.
Ela continuou sorrindo.
— Ah... Ele anda de skate?
— Não sei. Vou perguntar pra ele quando a gente sair de novo.
Antes que Terezinha pudesse perguntar qualquer outra coisa, Enzo virou rapidamente.
— Théo! — o irmão mais novo olhou. — Cala a boca!
A voz saiu muito mais alta do que de costume. Terezinha imediatamente repreendeu.
— Enzo! Não fala assim com seu irmão.
O menino parecia nervoso.
— Não é pra contar!
Théo fez uma careta.
— Eu nem contei que a mamãe beijou ele na boca. — depois colocou a língua para fora na direção do irmão.
Enzo arregalou os olhos.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!— Você estragou tudo! — largou o skate no chão e saiu correndo para o quintal.
Terezinha permaneceu imóvel. Sentiu um frio subir lentamente pela espinha.
Olhou para Théo. O menino continuava comendo bolo, balançando as pernas como se absolutamente nada tivesse acontecido.
Ela respirou fundo. Tentou manter a voz calma.
— Théo… Que história é essa?
Ele levantou os olhos.
— Ué… Ele beijou a mamãe.
Terezinha sentiu o coração acelerar. Ainda tentava encontrar alguma explicação inocente. Talvez um beijo na bochecha. Talvez uma brincadeira. Talvez a criança tivesse entendido errado.
— Beijou onde?
Théo apontou para a própria boca.
— Aqui. Igualzinho ela beija o papai. Ele tá apaixonado que nem o papai.
As mãos de Terezinha ficaram geladas. Ela ainda não conseguia acreditar no que estava ouvindo.
— E... o papai sabe?
Théo fez uma expressão de quem havia lembrado de algo importante.
Levantou o dedo indicador.
— Vovó… A senhora tem que guardar segredo. A mamãe falou que o papai não pode saber. Porque… Se ele descobrir… Nunca mais vai deixar a gente passear com eles de novo.
Na loja de equipamentos esportivos, Gustavo havia acabado de finalizar o atendimento de um cliente. O dia estava sendo excelente. Tinha vendido bem, a equipe parecia animada e, dali a pouco, sairia mais cedo para buscar Amanda no trabalho, como haviam combinado.
Foi então que ouviu a voz do gerente.
— Ô, Gustavão! Pode vir aqui um minutinho?
Gustavo caminhou até a sala de Júnior e bateu duas vezes na porta.
— Pode entrar.
Ele girou a maçaneta.
Atrás da mesa estava Júnior. Ao lado dele, uma mulher elegante de aproximadamente quarenta anos, usando um blazer azul-marinho e um sorriso acolhedor.
Júnior levantou-se imediatamente.
— Gustavo! Entra, meu amigo.
Os dois apertaram as mãos.
— Boa tarde, Júnior.
— Boa tarde. Quero que você conheça a Luciana, nossa gerente de Recursos Humanos.
Luciana levantou-se e estendeu a mão.
— Muito prazer, Gustavo.
— O prazer é meu.
— Pode se sentar. Fique à vontade.
Gustavo acomodou-se na cadeira em frente aos dois.
Por alguns segundos, ninguém falou.
Gustavo se sentiu desconfortável e com o coração acelerado, uma gerente de recursos humanos e o outro gerente juntos nunca eram um bom sinal. Ainda mais tão próximo da hora de ir embora e depois dele ter combinado de sair mais cedo para buscar a esposa no trabalho.
Júnior percebeu e sorriu.
— Está nervoso?
Gustavo deu uma risada sem jeito.
— Um pouco... Quando o gerente manda chamar junto com o RH, a gente acaba imaginando um monte de coisas.
Os três riram. O ambiente ficou mais leve.
Júnior cruzou as mãos sobre a mesa.
— Fica tranquilo. Se fosse alguma coisa ruim, eu não estaria sorrindo desse jeito.
Gustavo respirou um pouco mais aliviado. Foi então que Luciana começou a falar.
— Gustavo, antes de qualquer coisa, quero dizer que esta reunião acontece porque a empresa reconhece o profissional que você se tornou.
Ela abriu uma pasta.
— Nós conhecemos seus resultados. Sabemos das metas que você bateu, do relacionamento que construiu com seus clientes e da admiração que conquistou entre seus colegas.
Gustavo permaneceu em silêncio.
— Mas quero que saiba de uma coisa muito importante. — continuou Luciana. — Nós não estamos aqui apenas por causa dos seus números.
Ela olhou diretamente para ele.
— Números podem ser ensinados. Caráter, não.
Aquelas palavras fizeram Gustavo prender a respiração.
Luciana prosseguiu.
— Nos últimos meses, realizamos uma avaliação para identificar colaboradores com potencial para assumir posições estratégicas dentro da empresa. Diversos gestores enviaram indicações. — ela sorriu. — Seu nome apareceu mais de uma vez.
Gustavo olhou para Júnior, confuso. O gerente apenas sorriu.
— Não fui só eu que enxerguei seu potencial. — Júnior falou com um sorriso largo.
Luciana continuou.
— Conversamos com líderes, analisamos seu histórico, ouvimos feedbacks de clientes, avaliamos sua postura profissional e sua capacidade de influenciar pessoas. E chegamos a uma conclusão. Gustavo, você deixou de ser apenas um excelente vendedor. Agora é visto pela empresa como um futuro líder.
Ele ficou imóvel. Não sabia o que responder.
Luciana deslizou um documento sobre a mesa.
— A diretoria aprovou sua entrada no Programa Executivo de Desenvolvimento de Lideranças. Durante os próximos meses, você passará por um processo intenso de formação. Estudará gestão de pessoas, administração, planejamento estratégico, liderança e operações. Trabalhará diretamente com nossos gestores mais experientes para conhecer a empresa em um nível completamente diferente daquele que conhece hoje.
Gustavo piscou algumas vezes. Parecia que ainda não havia entendido completamente.
Luciana sorriu.
— E essa formação tem um objetivo muito claro. Quando estiver concluída… Você assumirá a liderança da Regional Zona Sul.
Gustavo arregalou os olhos.
— Eu... desculpe… Acho que não ouvi direito.
— Ouviu, sim. — respondeu Luciana com serenidade. — A Regional Zona Sul é uma das operações mais importantes da nossa companhia. Ali estão algumas das lojas de maior faturamento da rede. Os clientes são exigentes, o nível de excelência precisa ser constante e as decisões tomadas naquela regional impactam diretamente os resultados da empresa.
Ela fez uma pausa antes de completar:
— Não colocamos qualquer pessoa nessa função. Escolhemos alguém em quem acreditamos.
Os olhos de Gustavo já estavam marejados.
Júnior então resolveu falar.
— Posso dizer uma coisa agora?
Luciana assentiu. O gerente levantou-se da cadeira e caminhou até Gustavo.
— Você lembra do seu primeiro dia aqui?
Gustavo sorriu.
— Lembro.
— Eu também. Você era um garoto de vinte e três anos. Chegou cedo com um uniforme impecável. Olhava para tudo com vontade de aprender. Naquele dia, eu disse para mim mesmo: "Esse rapaz vai longe."
Júnior sorriu emocionado.
— Só que eu estava errado.
Gustavo franziu a testa.
— Errado?
— Sim. Porque você foi muito mais longe do que eu imaginava. Você nunca foi apenas o melhor vendedor da loja. Foi o primeiro a ajudar quando alguém precisava. O último a reclamar. O mais respeitado pela equipe. O cliente confiava em você. Os vendedores confiavam em você. E eu também.
Luciana abriu outra pasta.
— Gustavo, existe mais uma decisão da empresa. Sabemos que você nunca teve oportunidade de fazer uma faculdade para ajudar a sua família.
Ele abaixou a cabeça.
— Isso...
— Isso nunca diminuiu seu valor. Mas acreditamos que grandes líderes precisam ter acesso às melhores ferramentas. Por isso, a empresa custeará integralmente sua graduação em Administração, além de todos os cursos, treinamentos e especializações necessários durante sua formação. Tudo será pago pela empresa. Queremos investir em você.
Gustavo levou as mãos ao rosto, tentou conter as lágrimas.
Não conseguiu.
Depois de alguns instantes, conseguiu falar.
— Eu não sei como agradecer...
Júnior colocou a mão em seu ombro.
— Então não agradeça. Continue sendo o Gustavo que entrou nesta loja cinco anos atrás. Humilde. Honesto. Trabalhador. Porque foi esse homem que chamou a atenção da empresa.
Luciana sorriu.
— E quero terminar dizendo uma última coisa. A Regional Zona Sul não é o destino da sua carreira. É apenas o começo. Nós temos planos muito maiores para você. Queremos prepará-lo para ocupar posições estratégicas dentro desta companhia. Talvez, um dia, seja você quem estará sentado nesta mesa, escolhendo os próximos líderes.
Júnior olhou para Gustavo com um orgulho que não fez questão de esconder.
— Eu sempre disse que você ia longe. Hoje tenho certeza. Ainda estamos vendo apenas o começo da sua história.
Luciana fechou a pasta que estava à sua frente e retirou um último envelope. Era um documento mais espesso, acompanhado de algumas folhas explicativas. Ela o colocou cuidadosamente sobre a mesa, na direção de Gustavo.
— Este é o seu termo de promoção e o contrato referente ao novo cargo. Leia com calma. Se estiver de acordo, basta assinar na última página.
Gustavo segurou os papéis com as duas mãos, respirou fundo e começou a ler.
Nas primeiras linhas, viu a descrição do novo cargo e da data em que assumiria oficialmente suas novas funções.
Mais abaixo, encontrou a nova remuneração. Seus olhos voltaram ao número, leu novamente.
Achou que tivesse entendido errado.
Leu pela terceira vez.
Seu coração disparou.
Era um salário que ele jamais imaginou receber sem ter uma graduação.
Continuou lendo.
Além do salário-base, havia uma remuneração variável vinculada ao desempenho da regional, bônus anual por metas atingidas, participação nos lucros e resultados da empresa, plano de saúde e odontológico premium para toda a família, seguro de vida, veículo corporativo para uso profissional e auxílio-combustível.
Mas foi um benefício, em especial, que fez seus olhos marejarem foi o auxílio-educação para os filhos, cobrindo praticamente todo o valor das mensalidades escolares até a conclusão do Ensino Médio.
Sem perceber, um sorriso tomou conta de seu rosto.
Naquele instante, fez uma conta rápida.
Com o novo salário, conseguiria pagar sozinho as parcelas do apartamento novo que ele e Amanda estavam querendo financiar.
Pela primeira vez desde que se casaram, o salário da esposa deixaria de ser indispensável para a vida que eles mantinham.
Amanda teria liberdade para guardar o próprio dinheiro, investir nos sonhos dela, viajar com as crianças ou simplesmente viver com muito mais tranquilidade.
Era uma sensação que Gustavo nunca havia experimentado.
Não era apenas um aumento de salário, era segurança, era estabilidade e era a certeza de que sua família teria um futuro muito mais confortável.
Luciana observava a expressão dele em silêncio.
— Gostou do pacote?
Gustavo levantou os olhos. Ainda parecia não acreditar.
— Eu... sinceramente... nunca imaginei que um dia teria uma oportunidade como essa.
Júnior sorriu.
— Você trabalhou por ela todos os dias, Gustavo. Só está colhendo o que plantou.
Luciana apontou para a última folha.
— Se estiver de acordo, assine aqui.
Após assinar, quando devolveu a caneta, Luciana estendeu a mão.
— Parabéns, Gustavo. A partir do primeiro dia do próximo mês, você passará a receber integralmente a remuneração e todos os benefícios previstos para o seu novo cargo. Seja muito bem-vindo ao time de liderança da companhia.
Gustavo apertou a mão dela.
Naquele momento, compreendeu que aquela assinatura representava muito mais do que um novo contrato de trabalho.
Era o início de um novo capítulo na vida de toda a sua família.
Gustavo saiu da loja praticamente flutuando.
Júnior o liberou mais cedo que o combinado.
— Vai lá contar pra tua família. Hoje é dia de comemorar.
Ele nem discutiu.
Entrou no carro sorrindo sozinho. Durante todo o caminho, olhava de vez em quando para a pasta sobre o banco do passageiro. Ainda parecia mentira.
Pegou o celular e gravou um áudio para Amanda.
— Amor! Vou buscar os meninos e depois passo aí. Vamos sair nós quatro. Tenho uma novidade muito boa pra contar.
Mandou a mensagem e sorriu. Na cabeça dele, já imaginava a reação da esposa. Amanda o abraçando. Os meninos pulando de felicidade.
Enquanto dirigia até a casa da mãe, um pensamento insistia em voltar.
"Agora ela não vai mais precisar trabalhar por obrigação."
Aquilo o deixava genuinamente feliz. Amanda sempre foi inteligente. Agora poderia trabalhar porque gostava, estudar, fazer uma pós-graduação e realizar sonhos.
Ele pisou mais fundo no acelerador. Mal podia esperar para vê-la.
Estacionou em frente à casa da mãe, ainda sorria.
Apertou o interfone duas vezes e entrou assobiando baixo.
— Ô, mãe! Cadê meus moleques?
Assim que entrou na sala, o sorriso desapareceu. Terezinha permanecia sentada no sofá. As mãos apertavam uma contra a outra. O rosto estava abatido. Os olhos vermelhos.
— Oi, mãe… O que foi?
Ela levantou lentamente o rosto. Demorou alguns segundos antes de responder.
— Filho… Senta aqui.
A alegria de Gustavo começou a dar lugar a uma estranha inquietação. Sentou-se ao lado dela.
Olhou ao redor.
— Cadê os meninos? Tá tudo bem?
Terezinha respirou fundo. Parecia procurar coragem.
— Gustavo… O Théo me contou uma coisa. Não sei nem como começar.
Ele tentou sorrir.
— Ih… O que eles aprontaram agora?
Ela balançou lentamente a cabeça.
— Filho… O Théo disse que a Amanda tá vendo outro homem.
O mundo parou. Gustavo ficou alguns segundos olhando para a mãe.
Sem reação.
Depois soltou uma pequena risada. Daquelas de quem acabou de ouvir um absurdo.
— Mãe… Pelo amor de Deus. O Théo tem cinco anos. Deve ter entendido alguma coisa errada.
Ela permaneceu em silêncio.
— Filho… Ele disse que eles saíram juntos. Que a Amanda pediu segredo.
O sorriso desapareceu completamente. Gustavo passou a mão no rosto. Sentiu um frio percorrer a coluna.
Ainda assim… Ainda queria acreditar que existia alguma explicação.
Qualquer uma.
Levantou-se rapidamente. A voz saiu mais alta do que pretendia.
— THÉO!
O menino apareceu no corredor quase imediatamente.
Quando viu o pai sério, seus olhos já começaram a encher de lágrimas.
— Pai...
Gustavo ajoelhou diante dele. Tentava parecer calmo. Mas sua voz tremia.
— Filho… O que é esse negócio de segredo?
Théo começou a chorar.
— Pai… Não fica bravo. A mamãe falou que o senhor ia ficar bravo. Desculpa… Eu não queria contar.
Cada palavra parecia apertar ainda mais o peito de Gustavo. Ele segurou delicadamente os ombros do menino.
— Eu não tô bravo com você. Tá ouvindo? Não tô bravo. Só preciso saber a verdade. Você nunca pode mentir pro papai.
Théo chorava cada vez mais.
— Eu prometi… O Enzo falou que eu não podia contar.
Gustavo fechou os olhos por um segundo, respirou fundo e depois chamou.
— ENZO!
O menino apareceu na porta do corredor. Não olhava para ninguém. Mantinha a cabeça baixa.
— Enzo Gabriel. Você sabe do que seu irmão tá falando?
Silêncio.
— Filho… Olha pra mim.
Enzo levantou os olhos lentamente. Já estava chorando também.
— Você viu a mamãe beijar outro homem?
O menino mordeu o próprio lábio. As lágrimas começaram a cair.
— Eu prometi que não ia contar...
Gustavo sentiu o coração acelerar de um jeito que nunca havia sentido.
A voz saiu rouca.
— Enzo… Responde pro papai.
O menino apertou os olhos. Como se estivesse tentando decidir entre duas pessoas que amava.
— Pai… Eu quero andar de iate com ele de novo… Se o senhor descobrir… Nunca mais a gente vai passear.
Naquele instante, Gustavo sentiu alguma coisa se partir dentro dele.
Ainda não era certeza.
Ainda não.
Ainda havia uma parte desesperada de si procurando outra explicação.
Qualquer explicação.
Foi então que Théo, entre um soluço e outro, falou inocentemente:
— Papai… Ele vai ser namorado da mamãe. A mamãe falou que não tem problema.
Não foi uma frase. Foi uma certeza.
Gustavo sentiu como se alguém tivesse arrancado todo o ar dos seus pulmões. As pernas perderam a força. Ele deu um passo para trás sem perceber. Depois outro. As vozes ao redor desapareceram. Já não ouvia mais o choro dos filhos. Nem a respiração da mãe. Nem o barulho da televisão ligada na casa vizinha.
Era como se o mundo inteiro tivesse sido mergulhado embaixo d'água. Seu peito doía. Não era uma dor comum. Era uma pressão brutal.
Como se uma mão invisível apertasse seu coração até não sobrar mais nada.
Vieram, num único instante, dezenas de lembranças.
Amanda grávida. Os dois comprando as roupinhas do Enzo.
As alianças.
O nascimento do Théo.
As dificuldades.
As promessas.
O jantar da noite anterior.
O hotel.
O beijo antes de ela entrar no trabalho naquela manhã.
O áudio que havia mandado minutos antes, todo feliz.
"Vamos sair nós quatro... tenho uma novidade..."
A pasta da promoção ainda estava no banco do carro.
Ele queria correr até ela. Mostrar para Amanda. Abraçá-la. Dizer que tudo ia melhorar.
Agora… Nem sabia mais se ainda tinha uma família para quem contar.
Foi então que uma única palavra voltou à sua mente.
Iate.
Enzo tinha falado em um iate.
Gustavo permaneceu imóvel, encarando o chão da sala enquanto tentava reorganizar os próprios pensamentos. A respiração estava pesada, o peito parecia comprimido e as palavras dos filhos passavam repetidamente por sua cabeça. "A gente foi andar de iate..."... "Ele vai ser namorado da mamãe..."... "O papai não pode saber...". Quanto mais tentava encontrar uma explicação diferente, mais todas as peças pareciam se encaixar em uma direção que ele se recusava a aceitar.
Foi então que outra lembrança surgiu com força.
Nas últimas semanas ela não parava de comentar sobre um homem. Não exatamente sobre ele, mas sobre o universo ao redor dele. Falava das reportagens, da mansão, da família, das fotos que apareciam nas redes sociais, do bebê que havia nascido, do escândalo na maternidade... Sempre existia algum assunto envolvendo aquele empresário. Chegaram até a discutir por causa disso. Gustavo lembrava perfeitamente de ter dito que ela parecia obcecada por Heitor Monteiro. Amanda ficou irritada, respondeu que era apenas curiosidade porque aquele homem aparecia muito nas notícias e porque trabalhava na campanha do sogro dele. Naquele momento, Gustavo acreditou. Achou que fosse apenas admiração por alguém bem-sucedido.
Agora, porém...
O estômago revirou.
Aquela possibilidade entrou em sua cabeça como um veneno. Quanto mais pensava, mais difícil ficava expulsá-la. Pela primeira vez desde que ouvira a revelação dos filhos, a dor começou a dar lugar a outra coisa. Não era raiva. Ainda não. Era uma necessidade quase desesperada de descobrir a verdade. Ele precisava olhar nos olhos da esposa. Precisava ouvir da boca dela que tudo aquilo era um enorme mal-entendido. Precisava que ela dissesse que as crianças haviam confundido as coisas, que aquele beijo não existiu, que não havia homem nenhum.
As lágrimas simplesmente pararam de cair.
Seu rosto perdeu toda a expressão. Restou apenas um olhar vazio, duro, como se toda a alegria que carregava ao entrar naquela casa tivesse sido arrancada em poucos minutos. A mão fechou-se lentamente até os nós dos dedos ficarem completamente brancos. A pasta com a promoção, que poucos minutos antes representava o futuro dos sonhos para sua família, agora parecia não ter importância alguma.
Ele levantou a cabeça e olhou para Terezinha. Depois olhou para Enzo e Théo, que continuavam chorando, completamente assustados, sem compreender que suas palavras haviam mudado a vida do pai para sempre.
Gustavo respirou fundo apenas uma vez.
Pegou lentamente a chave do carro sobre a mesa.
— Mãe... cuida deles pra mim. — sua voz saiu vazia.
Terezinha levantou-se imediatamente.
— Gustavo... pelo amor de Deus... o que você vai fazer?
Ele já caminhava em direção à porta. Parou apenas por um instante, ainda de costas para ela.
— Vou descobrir quem é esse homem. — abriu a porta. — E vou tirar essa história a limpo. Agora.
A porta bateu atrás dele.
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