O CEO que Eu Paguei
246 Em Busca de Respostas
Pelo jeito que Heitor a olhou, Helena teve certeza de que os dois haviam pensado exatamente na mesma pessoa.
Jonas.
O nome pareceu ecoar dentro da sua cabeça. Seu estômago se contraiu e, por alguns segundos, ela simplesmente não conseguiu pensar em nada. Ainda existia a possibilidade de estarem enganados. Talvez aquele homem estivesse enganado. Talvez Amanda sequer fosse a Amanda de quem Jonas havia falado. Ela se agarrou àquela esperança por um breve instante, tentando encontrar alguma explicação que não envolvesse o irmão.
Mas o silêncio durou pouco.
Heitor deu um passo à frente, rompendo a distância entre ele e o desconhecido. Helena conhecia aquele jeito de andar. Os ombros retos, a mandíbula travada e o olhar completamente irritado.
— Escuta aqui... ESCUTA! — a voz dele ecoou pelo portão de ferro.
Helena chegou a prender a respiração. Fazia muito tempo que não o via naquele estado.
— Meu sogro, o pai da minha mulher, é candidato à Presidência da República. Se alguém desta casa participou da campanha foi ela. Ela e o meu filho, que tem três meses de idade. — ele apontou discretamente para Helena antes de continuar, sem desviar os olhos do homem. — Então existem duas possibilidades. Ou a sua mulher resolveu trocar de lado e tá tendo um relacionamento com a minha...o que eu sinceramente acho bem difícil… — seu tom endureceu ainda mais. — ...ou ela tá te traindo com outro filho da puta que não tem porra nenhuma a ver comigo.
O homem respirava com dificuldade, as mãos tremiam de raiva. O peito subia e descia de maneira descompassada, enquanto os olhos permaneciam fixos em Heitor. Havia tanta dor naquela expressão que, por um instante, Helena quase esqueceu a agressividade dele. Enxergou apenas um marido desesperado, tentando encontrar alguém para culpar.
Foi nesse momento que percebeu a oportunidade que Heitor estava criando. Precisavam ganhar tempo até descobrir se Jonas tinha algo haver. Deu um passo à frente antes que Heitor voltasse a falar.
— Moço...
Sua voz saiu tensa. Mentir nunca tinha sido fácil para ela. Muito menos olhando nos olhos de alguém.
— O Heitor tem razão. A única pessoa desta casa que foi até a campanha fui eu. Na verdade, o Humberto também foi... mas ele nem consegue sentar sozinho ainda.
Tentou abrir um pequeno sorriso, na esperança de diminuir um pouco a tensão.
— Qual é o nome da sua esposa?
O homem demorou alguns segundos para responder. Parecia dividido entre continuar gritando e aceitar aquela conversa.
Por fim, respondeu com a voz rouca:
— Amanda... Amanda Oliveira da Silva.
Helena sentiu um frio percorrer a espinha.
Era ela.
O mesmo nome que Jonas havia mencionado.
Uma pontada de culpa atravessou seu peito. Precisou organizar rapidamente os pensamentos antes de responder.
— Quando eu fui à campanha conheci praticamente toda a equipe. Não lembro do nome de todo mundo… — franziu levemente a testa, fingindo buscar a lembrança. — ...mas o da Amanda eu lembro.
Os olhos do homem mudaram imediatamente. Pela primeira vez desde que cheguei, havia mais esperança do que raiva neles.
— Comentaram que ela era muito competente. Inclusive disseram que ela não tinha ido trabalhar naquele dia porque estava doente. — Helena respirou fundo antes de continuar. — Depois todo mundo começou a me seguir nas redes sociais. Eu fiquei curiosa para conhecer melhor o pessoal e tentei encontrar o perfil dela... mas não achei.
Ao terminar a frase, sentiu o olhar de Heitor sobre si. Não precisou encará-lo para saber que ele estava absorvendo tudo que ela dizia para também tentar montar o quebra-cabeça.
O desconhecido passou as duas mãos pelo rosto, como quem tentava acordar de um pesadelo.
Quando voltou a falar, a voz já não carregava a mesma agressividade, carregava dor.
— Então... por que ela não parava de falar sobre você? — disse olhando para Heitor.
Aquilo bastou para fazer Heitor esquecer a paciência.
— Larga de ser burro, porra! A sua mulher podia admirar a minha esposa, cacete! É só abrir a porcaria da internet que acha até quanto eu calço.
Ele deu mais um passo, obrigando os seguranças a acompanharem discretamente o movimento.
— Você aparece na porta da minha casa acusando um homem que nunca viu na vida, desrespeita a minha mulher… e agora quer que eu explique o que passa dentro da cabeça da tua esposa?
O homem já não respondeu.
Os ombros caíram lentamente, como se o próprio corpo começasse a ceder ao peso da situação.
Foi nesse instante que o giroflex azul refletiu nos portões da mansão.
As viaturas da polícia finalmente haviam chegado.
Enquanto os policiais ouviam cada um dos envolvidos e anotavam os depoimentos, Helena observava aquele homem sentado no meio fio, as mãos entrelaçadas sobre a cabeça, completamente derrotado.
Quando perguntaram a Heitor se ele desejava representar contra o invasor, ele respondeu sem sequer pensar.
— Quero registrar ocorrência. Ele tentou invadir a minha propriedade, recusou-se a sair quando foi solicitado e colocou a minha família em risco.
Helena compreendia perfeitamente os motivos dele. Mesmo assim, seu coração doeu, aquele homem parecia estar sofrendo tanto. Esperou os policiais se afastarem alguns passos antes de tocar de leve o braço do noivo.
— Amor...
Heitor olhou para ela. Ainda havia irritação em seu rosto.
— Precisa mesmo? — ela lançou um olhar discreto para o homem. — Ele não me parece uma pessoa ruim...
Heitor acompanhou seu olhar antes de responder.
— Helê… — sua voz já não era alta. Era apenas firme. — Se esse cara tivesse vindo armado, essa conversa podia ter completamente diferente, na verdade, nem conversa teria.
Ela permaneceu em silêncio.
— Ele não tava pensando. Tava dominado pela raiva. Hoje foi um portão... amanhã pode ser uma tragédia.
Helena voltou a olhar para o desconhecido. Naquele momento, finalmente conseguiu enxergar as duas verdades ao mesmo tempo.
Ele era um homem profundamente machucado. E, justamente por isso, tinha se tornado perigoso.
Helena observou em silêncio enquanto os policiais conduziam o homem até a viatura. A alguns metros dali, ele caminhava de cabeça baixa, completamente diferente do sujeito que, poucos minutos antes, gritava e se debatia na porta da propriedade. A raiva parecia ter dado lugar a um vazio profundo, daqueles que nem o próprio corpo conseguia sustentar.
Quando um dos policiais informou que o Palio seria apreendido, Helena resolveu interferir.
— Moço... será que não tem outro jeito?
O policial voltou a atenção para ela.
— Como assim, senhora?
Helena lançou mais um olhar para o carro amassado. O teto afundado pelos socos, a porta torta e o alarme que insistia em disparar de tempos em tempos pareciam contar sozinhos o tamanho do desespero daquele homem.
— Ele já está passando por um momento muito difícil. Se o carro for apreendido, ainda vai ter guincho, diária... vai virar outro problema. Acho que ele já tem problemas demais.
O policial pareceu hesitar.
Foi Heitor quem entrou na conversa. Ainda havia dureza em sua voz, mas ela já não era direcionada ao desconhecido.
— Faz o seguinte. Assim que ele informar o endereço, vocês me passam. Eu mesmo providencio um guincho para levar o carro até a casa dele.
O policial coçou a barba.
— Senhor, o procedimento...
— Eu sei qual é o procedimento. — Heitor respondeu sem perder a educação. — Mas também sei que existe bom senso. O carro não representa risco para ninguém parado aqui dentro. Resolve isso para mim.
Depois de alguns poucos minutos de conversa, o policial finalmente assentiu.
— Vou verificar o que consigo fazer.
Heitor apenas agradeceu com um aceno discreto.
Quando as viaturas desapareceram estrada abaixo, o silêncio tomou conta da entrada da propriedade. Só então ele se virou completamente para Helena. As duas mãos envolveram delicadamente os braços dela, o toque era firme. Quase como se precisasse confirmar que ela realmente estava ali.
— Você tá bem? — os olhos dele percorreram seu rosto, procurando qualquer sinal de medo. — Eu sinto muito que você tenha passado por uma merda dessas. Nunca na minha vida imaginei que você veria esse tipo de cena.
Helena sustentou aquele olhar por alguns segundos.
Conhecia Heitor bem demais. Para qualquer outra pessoa, ele parecia apenas preocupado.
Ela enxergava muito além.
Via a mandíbula rígida, os ombros tensos, a respiração pesada que ele fazia questão de controlar.
Ele estava fervendo.
Helena levou uma das mãos ao rosto dele e fez um carinho demorado em sua barba.
— Eu tô bem. — sorriu de leve. — Só fiquei... chateada.
Fez uma pequena pausa antes de perguntar:
— E você?
Heitor fechou os olhos por um instante. O ar saiu lentamente pelo nariz.
Demorou alguns segundos para responder.
— Vamos pra casa. — a voz saiu em um tom controlado. — A gente conversa lá.
Inclinou-se e depositou um beijo demorado no topo da cabeça dela, permanecendo alguns segundos com a testa encostada em seus cabelos.
Aquilo não era apenas um gesto de carinho. Era uma tentativa silenciosa de se acalmar.
Quando voltou a falar, sua voz já estava mais estável.
— Vamos no seu carro? — olhou rapidamente para o próprio SUV. — Depois eu peço pro pessoal levar o meu.
Helena apenas assentiu.
Passou os braços ao redor da cintura dele e o abraçou forte, sentindo o coração dele bater rápido contra o próprio peito.
Antes de entrarem no carro, lançou mais um olhar para o Palio vermelho.
— E o carro dele?
— Fica aí. — Heitor respondeu sem sequer olhar para trás. — Assim que os policiais me passarem o endereço, eu mando um guincho levar.
Ela assentiu novamente.
Entraram na Range Rover.
Helena assumiu o volante enquanto Heitor se acomodava no banco do passageiro.
Assim que fechou a porta, ele inclinou o banco um pouco para trás, afrouxou discretamente a gravata e passou as duas mãos pelo rosto.
Ficou alguns segundos completamente imóvel, depois soltou outro longo suspiro.
Helena apertou o volante com um pouco mais de força.
Conhecia aquele silêncio, Heitor não estava evitando conversar com ela, só estava tentando organizar os próprios pensamentos antes que a raiva falasse por ele.
O ronco suave do motor foi a única coisa que acompanhou os primeiros metros da estrada.
Enquanto dirigia, ela não conseguia impedir que a frustração voltasse ao seu peito. O plano para aquele fim de tarde era completamente diferente.
Ela imaginara o sorriso de Heitor quando chegasse em casa depois da telemensagem. Queria abraçá-lo, ouvir tudo o que ele tinha sentido, rir da vergonha que ele certamente teria passado. Havia fantasiado tantas vezes aquele reencontro...
Mas bastou aquele homem aparecer para revirar tudo.
Ainda assim, recusava-se a acreditar que Jonas tivesse feito alguma coisa errada. Talvez fosse um mal-entendido. Talvez existisse uma explicação simples para tudo aquilo.
Ela se agarrou a essa esperança enquanto conduzia o carro pela estrada.
Porque queria, mais do que qualquer coisa, que algumas horas depois os dois estivessem rindo daquela confusão no sofá da sala.
No fundo do coração, porém… Uma inquietação insistia em dizer que aquela história estava apenas começando.
Assim que a porta da garagem subterrânea se fechou atrás deles, o silêncio pareceu pesar sobre os dois.
Helena desligou o carro e saiu, mas Heitor não saiu imediatamente.
Permaneceu alguns segundos olhando para frente, respirando fundo. Depois abriu a porta de uma vez, desceu e passou as duas mãos pelos cabelos, bagunçando-os completamente.
Começou a andar de um lado para o outro entre os carros da garagem.
— Eu não acredito nessa porra… — a voz saiu carregada de indignação.
Helena fechou a porta devagar e caminhou até ele.
— Nem eu.
Heitor parou ao lado do capô da Range Rover, apoiou as duas mãos sobre a lataria e abaixou a cabeça por alguns segundos. Quando voltou a erguer o rosto, havia decepção misturada com raiva.
— Como é que o Jonas faz uma merda dessas, Helena? — passou novamente a mão pelos cabelos. — Caralho... não basta se envolver com uma mulher da campanha... ainda escolhe justamente uma mulher casada?
Heitor gostava de Jonas como um irmão mais novo. Talvez fosse justamente por isso que estivesse tão revoltado.
Ela respirou fundo antes de responder.
— Calma... ainda pode ser uma coincidência.
Ele soltou uma risada curta, sem humor nenhum.
— Coincidência?
— O Jonas comentou comigo, faz um tempo, que tava gostando de uma moça da campanha… — ela fez uma pequena pausa, lembrando da conversa que tivera com o irmão. — Disse que tava preocupado porque ela não queria assumir o relacionamento.
Heitor virou a cabeça lentamente para ela. As sobrancelhas se juntaram na mesma hora.
— Pera aí… Como assim ele te contou isso?
— Comentou comigo um dia...
— E por que eu não fiquei sabendo?
Ela cruzou os braços automaticamente.
— Nem começa, Monteiro.
Ele já abriu a boca para responder, mas ela continuou antes.
— O Jonas me pediu pra não contar. Ele me contou que passou semanas te zoando quando descobriu que você tava apaixonado por mim. Ele falou que não queria que você o zoasse.
Heitor soltou uma risada pelo nariz, daquelas completamente desacreditadas.
— Ah, claro… — voltou a andar. — Claro que ele pediu. — parou novamente e apontou para ela. — Você sabe que a gente conversa sobre tudo. — depois apontou para si mesmo. — Tudo.
A voz perdeu um pouco da irritação e ganhou um tom de mágoa.
— E justamente isso você resolveu guardar?
Helena suspirou.
— Ele é meu irmão. Eu achei que tava respeitando a confiança dele.
— Respeitando? — Heitor balançou a cabeça. — Ele não queria que você me contasse porque, além de pegar uma funcionária da campanha… — abriu os braços. — ...a mulher ainda é casada.
Deu uma batida com o dedo indicador sobre o capô do carro.
— Como o Jonas foi fazer uma burrice dessas? — outra batida. — Não se envolve com funcionária. É regra básica.
Helena arqueou uma sobrancelha. Precisou fazer um esforço enorme para não lembrá-lo de que ela mesma tinha sido funcionária dele.
Heitor percebeu a expressão dela. Olhou por um segundo. Depois resolveu fingir que não tinha visto.
— Não faz essa cara.
Ela sorriu de lado.
— Não falei nada.
— É diferente! — ele voltou a respirar fundo. — Eu conheço aquele moleque desde o dia em que nasceu. O Jonas nunca pegou mulher de outro homem. — passou novamente a mão pela nuca. — Nunca. Por isso eu não consigo entender por que ele faria isso agora.
Helena apoiou uma das mãos no braço dele.
— Amanda Oliveira da Silva… — repetiu o nome devagar. — É um nome muito comum.
Ela tentou sorrir.
— Pode existir outra Amanda.
Heitor permaneceu alguns segundos olhando para o chão. Depois tirou o celular do bolso.
— Tu chegou a procurar ela no Instagram?
— Procurei. Inclusive nos seguidores do Jonas. Não achei nada.
Ele desbloqueou o aparelho imediatamente. Os dedos começaram a correr pela tela.
— O cara falou que ela vivia falando da nossa família. — murmurava enquanto pesquisava. — Então ela segue alguém daqui.
Primeiro abriu o próprio perfil, nada. Depois Paulo, nada. Lorena, nada. Isaac, nada.
Ele franziu o cenho.
— Estranho… — pensou por alguns segundos. Então levantou os olhos. — LinkedIn.
Helena soltou uma risadinha.
— Você realmente leva isso a sério, né?
Ele sorriu de canto. Um sorriso cheio daquela autoconfiança irritantemente charmosa que só ele tinha.
— Helê…— abaixou o celular por um instante e olhou para ela. — Tu vive vendo documentário de investigação criminal. Hoje tu vai ver um investigador de verdade trabalhando.
Ela revirou os olhos.
— Convencido.
— Não, sou um profissional.
Abriu a página oficial da campanha. Depois a lista de funcionários. Foi descendo devagar até encontrar o nome.
Amanda Oliveira da Silva.
Entrou no perfil. Era um LinkedIn impecável. Tudo extremamente profissional.
Helena observava cada movimento dele.
Era curioso.
Quando Heitor estava concentrado de um jeito quase obsessivo. Os olhos corriam pela tela procurando padrões, conexões, detalhes que a maioria das pessoas jamais perceberia.
— E como você não me encontrou? — ela perguntou divertida.
Ele nem levantou os olhos.
— Eu ia encontrar. — respondeu naturalmente. — Tua cidade era pequena demais.
Aquilo a fez rir.
— Você fala isso com uma tranquilidade...
— Porque é verdade. Só não achei no primeiro dia porque você mentiu seu nome.
Continuou mexendo na tela. Abriu o Instagram de cada empresa onde Amanda havia trabalhado.
Nada.
Na terceira empresa, uma empresa pequena de bairro, o perfil tinha pouco mais de trezentos seguidores.
Os olhos dele brilharam.
— Achei.
Começou a abrir um perfil atrás do outro.
Sem foto.
Nome estranho.
Apelido.
Sem foto.
Foto nada haver.
Helena já nem entendia mais o critério que ele usava.
Até que ele clicou em um e um story apareceu. Uma mulher usando o crachá da campanha sorria para a câmera e a legenda “Que Deus abençoe o dia de todos…”
— É ela! — Helena apontou imediatamente. Então ficou na dúvida, Jonas havia mostrado uma foto de longe com toda a equipe — Pelo menos eu acho que é, ela tem uma aparência bem comum, no escritório tinha algumas moças bem parecidas com a foto que o Jonas mostrou.
Heitor abriu aquele sorriso convencido que ela conhecia tão bem.
— Tá na mão.
Guardou o celular por um instante, passou um braço pela cintura dela e lhe deu um selinho demorado.
— Eu sempre falo. — olhou bem nos olhos dela. — Fala comigo primeiro que eu resolvo todos os seus problemas.
Helena riu.
— Você é muito metido.
— Isso se chama eficiência, meu amor.
Ela pegou novamente o celular das mãos dele.
Abriu o perfil.
As primeiras fotos mostravam dois meninos pequenos, todas as fotos do feed eram deles. Foi então para os destaques viu fotos de uma viagem em família, aniversários e outras datas comemorativas. E, em praticamente todas as fotografias, aparecia o mesmo homem que minutos antes gritava desesperado na porta da mansão.
Helena se sentiu triste.
Aquela família parecia feliz.
Ou, pelo menos, tinha sido.
— Coitado… — murmurou sem perceber.
— Vê se o Jonas segue ela. — falou Heitor.
Helena pesquisou.
Nada.
Nem seguindo e nem seguidores .
Levantou lentamente os olhos para Heitor.
— Isso tá muito estranho...
Ele cruzou os braços.
— Estranho nada. Tem que ser muito cara de pau pra seguir amante. — fez um gesto para o celular. — Seu perfil é fechado. Vê se ela me segue.
Helena pesquisou. Arregalou os olhos.
— Ela segue você… — foi descendo a lista. — segue o Paulo. A minha mã-... A Lorena e o Isaac… — franziu a testa. — Mas não segue nem eu... nem o Jonas.
Heitor apertou os olhos.
Um sorriso apareceu lentamente. Daqueles que Helena conhecia muito bem. O sorriso de quem acreditava ter acabado de montar o quebra-cabeça.
— Eu já saquei tudo.
Ela cruzou os braços.
— Você não tá sabendo demais, não?
Ele abriu os braços teatralmente.
— Helê… — fez uma pequena reverência exagerada. — Até parece que tu não sabe com quem tá casando.
Bateu no próprio peito.
— Eu sempre acerto tudo.
Helena balançou a cabeça, rindo.
— Aham... — pegou o próprio celular. — Então vamos ver se o senhor investigador acertou dessa vez.
Já procurava o contato do irmão.
— Vou ligar pro Jonas. Quero ele aqui. Agora.
Helena respirou fundo antes de tocar no contato do irmão. O telefone chamou apenas duas vezes.
— Fala aí, maninha.
A voz de Jonas surgiu exatamente como sempre. Leve. Bem-humorada. Sem qualquer sinal de nervosismo.
Helena ergueu os olhos para Heitor. Ele imediatamente apontou para o celular e, apenas movendo os lábios, pediu: “Viva-voz”.
Ela revirou os olhos. Até numa situação daquelas ele conseguia ser curioso.
Mesmo assim, apertou o botão.
— Jonas... onde você tá?
— Na campanha. Tô revisando um projeto novo do marketing. — Ele deu uma pequena risada. — Tá com saudade de mim, é?
Helena não conseguiu sorrir. Olhou rapidamente para Heitor antes de responder.
— Jonas... aconteceu uma coisa.
Do outro lado da ligação, o silêncio durou alguns segundos.
— O que aconteceu? — A voz dele mudou completamente. — Você tá bem? O Humberto tá bem?
Aquilo tranquilizou Helena por um instante. A preocupação dele parecia genuína.
— Nós estamos... mas eu preciso que você venha pra cá agora. — ela escolhia cuidadosamente cada palavra. — Não liga pra ninguém antes. Não fala com ninguém. Só vem.
Heitor acompanhava cada resposta com atenção, Helena sempre se impressionava com o espírito de fofoqueiro que Heitor parecia ter.
Jonas demorou alguns segundos para responder.
— Helena... você tá me assustando.
Ela apertou o telefone com um pouco mais de força.
— Eu sei. — respirou fundo. — Só preciso que você venha. É muito importante.
— Tá bom. — A resposta veio sem discutir. — Já tô saindo daqui.
Houve uma pequena pausa antes de ele perguntar novamente:
— Quer que eu fique na linha?
Helena balançou a cabeça, embora ele não pudesse vê-la.
— Não precisa. — Sua voz suavizou. — Só vem com cuidado.
Mais alguns segundos de silêncio.
— Tá. — a voz dele saiu baixa. — Fica bem.
Helena fechou os olhos por um instante.
— Você também.
Desligou a ligação lentamente. Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.
Heitor continuava olhando para a tela apagada do celular, completamente pensativo.
Foi ele quem quebrou o silêncio.
— Ele parecia tranquilo. — falou mais para si mesmo do que para Helena. Passou a mão pela barba, pensativo. — Se tivesse acabado de ser descoberto pelo marido de uma amante... dificilmente atenderia desse jeito.
Helena assentiu devagar. Ela também tinha percebido aquilo.
— Então talvez… — começou a falar, escolhendo as palavras. — ...ele realmente não tenha nada a ver com essa história.
Heitor respirou fundo. Dessa vez o ar pareceu realmente aliviar um pouco o peso que carregava desde o portão.
— Ou… — ele ergueu um dedo. — ...ele ainda não sabe que o marido descobriu.
Helena fez uma careta.
— Monteiro...
Ele sorriu de canto.
— Tá bom. — passou a mão sobre o peito dramaticamente. — Ufa. — olhou para o teto da garagem. — Talvez seja só uma coincidência mesmo. Uma coincidência bem bizarra.
Helena não conseguiu conter o sorriso. A tensão que dominava os dois desde a chegada começava, finalmente, a diminuir. Ela cruzou os braços e inclinou levemente a cabeça.
— Quer dizer que o grande Heitor Monteiro pode estar errado?
Ele olhou para ela teatralmente como se aquela fosse a maior ofensa já feita à sua inteligência.
— Errado? — levantou uma sobrancelha. — Nunca. — aproximou-se lentamente. — Posso até me enganar. — passou um dedo de leve pela ponta do nariz dela. — Mas errado... jamais.
Helena caiu na risada.
— É exatamente a mesma coisa.
— Claro que não.
Agora ele também ria. Levou as duas mãos ao rosto dela e acariciou suas bochechas com os polegares.
O semblante sério de poucos minutos antes havia desaparecido completamente.
Os olhos azuis voltaram a ter aquele brilho tranquilo que ela tanto amava.
— Agora… — a voz dele saiu muito mais baixa. — Tem uma coisa que eu ainda não falei.
Helena sustentou o olhar dele.
— O quê?
Um sorriso bonito surgiu no rosto de Heitor, aquele sorriso que era só dela.
— Obrigado. — ela franziu o cenho.
— Pelo quê?
— Pelo que você fez hoje. — acariciou delicadamente uma mecha dos cachos dela. — Pelo telemensagem… — soltou uma pequena risada. — Até agora eu não acredito que você fez aquilo.
Helena já sorria sem perceber.
— Eu prefiro você assim. — passou a mão pela lapela do paletó dele, ajeitando-a automaticamente. — Sorrindo desse jeito. — os olhos dela encontraram os dele novamente. — Amo esse seu sorriso convencido.
Heitor aproximou o rosto até encostar a testa na dela. Os dois permaneceram assim por alguns segundos.
— Não é sorriso convencido. — murmurou. — É sorriso apaixonado. Igual ao seu.
Helena sorriu ainda mais.
— Você tá impossível hoje.
— Culpa sua.
Ele encurtou a distância restante puxando ela com carinho pela cintura e os lábios se encontraram devagar, num beijo calmo, sem qualquer pressa, como se aquele beijo fosse apenas uma continuação da conversa que os dois ainda não tinham terminado. Heitor segurou o rosto dela com uma das mãos, o polegar acariciando sua bochecha enquanto aprofundava o beijo aos poucos.
Helena sentiu o corpo relaxar completamente.
Toda a tensão que carregava desde a chegada daquele homem desconhecido parecia derreter a cada segundo em que estava nos braços do Heitor.
Heitor sorriu contra seus lábios, como fazia sempre que ela correspondia do mesmo jeito, e voltou a beijá-la com mais carinho. Os dedos dele deslizaram até a nuca dela, afundando delicadamente entre os cachos macios, enquanto a outra mão na sua cintura a puxava para mais perto.
Helena passou os braços ao redor do pescoço dele quase por instinto. Gostava daquela sensação de ficar completamente encaixada em seu corpo.
O beijo ganhou um pouco mais de intensidade.
Ele mordiscou de leve o lábio inferior dela, arrancando um sorriso discreto antes de voltar a encontrá-la outra vez. Helena sorriu entre um beijo e outro, correspondendo ao carinho da maneira que ele mais gostava, deixando que os lábios se demorassem um pouco mais, que a respiração desacelerasse e que, por alguns instantes, existissem apenas os dois.
O beijo terminou quando um ruído conhecido ecoou pela garagem.
Os dois se afastaram ao mesmo tempo e olharam para o portão automático se abrindo.
Era o SUV de Heitor entrando lentamente, conduzido por um dos funcionários.
Heitor roçou o nariz no dela e soltou uma risada baixa, claramente frustrado.
— Belo timing...
Helena riu baixinho.
— Eu diria que foi o pior possível.
— Calma.
Ele deu um último selinho nela antes de entrelaçar seus dedos aos dela. Um brilho animado voltou aos seus olhos.
— Já que, por enquanto, parece que o mundo resolveu parar de desabar na nossa cabeça… — sorriu daquele jeito travesso que ela conhecia tão bem. — Eu trouxe uma surpresa pra você.
Helena franziu levemente a testa.
— Surpresa?
Heitor apenas sorriu.
Aquele sorriso de quem estava claramente aprontando alguma coisa.
— Já volto.
Ele lhe deu um beijo rápido na testa antes de se afastar.
Helena ficou parada exatamente onde estava, acompanhando cada passo dele com os olhos. Heitor atravessou a garagem praticamente trotando, num entusiasmo que combinava muito mais com um garoto do que com o CEO de uma das maiores construtoras do país.
Assim que chegou ao SUV, conversou rapidamente com o funcionário que havia trazido o carro de volta. Os dois trocaram algumas palavras, riram de alguma coisa e o rapaz logo percebeu que estava sobrando naquele momento.
— Boa tarde, dona Helena.
— Boa tarde. — ela respondeu sorrindo.
O funcionário foi seguindo para o elevador.
Foi só então que Heitor abriu a porta traseira. Helena observava curiosa, tentando descobrir o que ele tanto escondia.
No instante em que ele voltou a aparecer, segurando um enorme buquê de flores, ela simplesmente perdeu o ar.
As flores pareciam uma explosão de cores. Eram vários tipos de flores, havia amarelo, lilás, vermelho, laranja, tons de rosa, pequenos ramos delicados preenchendo os espaços e folhas verdes que deixavam tudo ainda mais vivo. Era um buquê alegre, vibrante, impossível de ignorar.
Assim como ele.
Heitor caminhava em sua direção com um sorriso que parecia não caber no próprio rosto.
Não olhava para as flores.
O olhar estava preso nela. Esperando exatamente aquela reação.
— Amor...
Ele parou bem à sua frente. Ergueu o buquê entre os dois.
— Se eu pudesse, eu te dava o mundo inteiro. — os olhos azuis encontraram os dela. — Mas, como ainda não consegui comprar o planeta… — deu uma pequena risada. — ...resolvi começar pelas cores dele.
Helena sentiu o rosto esquentar imediatamente. Levou as duas mãos às bochechas quase por reflexo.
— Heitor...
Ele caiu na risada. Daquelas gostosas, sinceras. Apontou discretamente para uma das rosas vermelhas.
— Sabia.
Ela continuava escondendo o rosto.
— Olha só.
Aproximou a flor da face dela.
— Tu tá exatamente dessa cor aqui.
Helena soltou uma risada completamente sem graça, escondendo ainda mais o rosto.
— Para...
— Não vou parar, não.
Ele aproximou-se mais. Com a mão livre envolveu delicadamente a cintura dela e diminuiu a distância entre os dois.
— Deixa eu ver esse rostinho bonito.
Ela continuava escondida.
— Vai… — a voz dele saiu baixa, cheia de carinho. — Eu fiz isso tudo justamente pra ver sua carinha.
Helena respirou fundo e, aos poucos, afastou as mãos do rosto. Heitor ficou alguns segundos simplesmente olhando para ela.
Como se tivesse esquecido completamente das flores.
Sorriu, um sorriso completamente apaixonado. Levantou a mão até o queixo dela, acariciando-o com o polegar.
— Pronto… — murmurou. — Agora sim. — os olhos dele passearam lentamente pelo rosto corado dela. — Você é linda demais, sabia?
Helena sorriu sem conseguir evitar.
Ele continuou.
— Eu adoro quando você fica vermelhinha. — passou o polegar de leve sobre a bochecha dela. — Sua pele fica em um tom tão bonito.
Ela abaixou os olhos, completamente encabulada.
— Heitor...
Ele deu uma risadinha baixa.
— O quê? — aproximou o rosto. — Eu te amo. — depositou um selinho demorado em seus lábios. — Muito.
Helena já não sabia mais onde esconder o rosto. Sentia o coração acelerado e um calor gostoso subir pelas bochechas. Levou uma das mãos até a nuca dele e o puxou para outro beijo, dessa vez um pouco mais demorado.
Quando se afastou, recebeu finalmente o buquê nos braços, as flores tinham um perfume delicado. Ela passou a ponta dos dedos sobre algumas pétalas, completamente encantada.
— Amor… — olhou novamente para ele. Os olhos brilhavam. — Eu nunca recebi um buquê assim.
Sorriu daquele jeito que fazia Heitor esquecer qualquer problema do mundo.
— Ele é lindo. — respirou fundo, sentindo o perfume das flores. — Não... lindo, não. — ergueu novamente os olhos para ele. — Perfeito. Eu amei, muito.
Heitor abriu um sorriso enorme.
— Muito, muito?
Ela riu. Puxou ele pela gravata. Aproximou-se até encostar o nariz no dele.
— Muito, muito.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Tem certeza?
— Absoluta. — Helena sorriu e deu mais um selinho nele.
— Mas eu ainda amo mais quem trouxe as flores.
Heitor colocou uma das mãos sobre o peito dramaticamente.
— Aí tu acabou comigo, Helê… — sorriu de orelha a orelha. — Desse jeito eu vou começar a comprar flor todo dia.
O celular de Helena começou a vibrar dentro do bolso da calça. Ela ainda segurava o enorme buquê junto ao peito quando olhou para a tela e viu o nome de Isaac aparecer.
— Oi, Isaac.
Mal terminou de falar e percebeu pela voz dele que alguma coisa estava errada.
— Helena, onde você tá?
Ela deixou o sorriso diminuir aos poucos. Heitor percebeu a mudança na expressão dela no mesmo instante. Aproximou-se sem fazer barulho, curioso, inclinando discretamente a cabeça para tentar acompanhar a conversa.
— Tô em casa... por quê?
Do outro lado da ligação houve uma pequena pausa.
— O Heitor tá com você?
Ela olhou rapidamente para o noivo e respondeu sem entender.
— Tá sim. Aconteceu alguma coisa?
Isaac soltou o ar do outro lado da linha.
— O Jonas acabou de me ligar. Disse que te achou muito estranha no telefone. Falou que você pediu pra ele largar tudo e ir correndo pra casa, mas não quis explicar o motivo. Eu tô indo também... só vou demorar um pouco porque o trânsito tá completamente parado.
Helena sentiu o estômago apertar. Não imaginava que Jonas fosse ligar para Isaac. Fazia sentido, afinal. Os dois eram muito próximos, e Jonas certamente tinha percebido que havia algo diferente na voz dela.
— Quer que eu ligue pro nosso pai?
A pergunta a pegou completamente desprevenida.
Ela arregalou os olhos e virou imediatamente para Heitor.
Ele já tinha entendido o que Isaac perguntara. Sem dizer uma única palavra, apenas balançou a cabeça negativamente. Os olhos azuis permaneciam fixos nela enquanto movia os lábios bem devagar.
"Não."
Helena respirou fundo antes de responder.
— Não, Isaac. Não precisa preocupar o Paulo agora. — fez uma pequena pausa, escolhendo cuidadosamente cada palavra. — É uma coisa que eu preciso conversar com o Jonas primeiro. Depois, se for necessário, a gente fala com ele.
Do outro lado da ligação, Isaac permaneceu alguns segundos em silêncio. Parecia ponderar se insistia ou não. Helena conhecia o irmão o suficiente para imaginar exatamente a expressão que ele devia estar fazendo naquele momento: nariz franzido e aquela mania de ficar mordendo discretamente o lábio inferior quando alguma coisa o preocupava.
— Tá bom… — a voz dele continuava carregada de preocupação. — Mas eu tô indo assim mesmo.
Helena sorriu de leve.
— Tudo bem. Eu espero vocês aqui.
— Tá. Beijo.
— Beijo.
Ela desligou a ligação, mas continuou olhando para a tela apagada do celular por alguns segundos. Tinha a sensação de que, a cada minuto, mais gente estava sendo puxada para dentro daquela confusão.
Quando levantou os olhos, encontrou Heitor parado bem à sua frente.
— Ele ficou preocupado. — comentou quase num sussurro.
Heitor apenas assentiu. Passou a mão pelos cabelos enquanto olhava rapidamente para o relógio de pulso.
— É natural.
A voz dele já havia recuperado o jeitinho de sempre, embora Helena percebesse pequenos detalhes que denunciavam o contrário.
— Vamos subir.
Ele passou um braço ao redor dos ombros dela e os dois começaram a caminhar em direção ao elevador da garagem.
— O Jonas e o Isaac já devem estar chegando... e, se eu conheço aquele nosso filho, daqui a pouco ele acorda com fome. — Helena sorriu automaticamente ao olhar para o aplicativo da babá eletrônica no celular. A imagem mostrava Humberto dormindo profundamente, abraçado ao paninho de estimação.
— Mais uns minutinhos e ele começa a reclamar de fome.
— Exatamente.
Heitor sorriu também. O clima entre os dois finalmente parecia voltar ao normal. Foi então que ele se lembrou de alguma coisa.
— Ah… — olhou para ela daquele jeito travesso que sempre antecedia alguma surpresa. — Eu ainda tenho outra coisa pra te mostrar.
Os olhos de Helena imediatamente brilharam.
— Outra?
Ele deu uma risadinha.
— Uhum.
— Então me conta.
— Nem pensar.
Ela fez uma careta.
— Heitor...
— Não adianta fazer essa cara. — levantou a mão e apertou delicadamente a ponta do nariz dela. — Primeiro a gente resolve essa história do Jonas. Depois eu continuo provocando você.
Helena soltou um riso.
— Você faz isso de propósito.
— Faço. — respondeu sem o menor constrangimento. — E ainda gosto quando funciona.
Ela balançou a cabeça, divertindo-se com aquele jeito convencido dele, mas, no fundo, a ansiedade já voltava a ocupar espaço. Por mais que tentasse acreditar na hipótese de uma coincidência, alguma coisa dentro dela insistia em dizer que aquela história ainda estava longe de terminar.
Os dois seguiram para a sala. Heitor nem chegou a trocar de roupa. Continuava vestindo a mesma roupa do trabalho, só deixou o paletó e a gravata no sofá, quando o telefone voltou a tocar. Era um dos policiais. Enquanto conversava, caminhou até a janela e anotou algumas informações no bloco de notas do celular. Descobriu que o homem se chamava Gustavo Guedes da Silva e recebeu o endereço da residência dele. Assim que desligou, ligou imediatamente para uma empresa de guinchos e pediu que o Palio fosse levado até lá, fazendo questão de arcar com todos os custos.
— Pelo menos isso ele não vai precisar enfrentar hoje. — comentou ao guardar o telefone no bolso. — Quando tudo for esclarecido eu retiro a queixa.
Helena apenas concordou com um aceno. Gostava daquele lado de Heitor. Mesmo profundamente irritado, ele nunca deixava de agir com humanidade quando percebia que alguém estava sofrendo.
Os minutos seguintes passaram devagar demais. Nenhum dos dois conseguiu realmente conversar sobre as flores, sobre a telemensagem ou sobre a surpresa que ainda estava escondida no carro. Parecia que toda vez que tentavam retomar o clima gostoso daquela tarde, a preocupação voltava para lembrá-los de que ainda faltava uma peça importante naquele quebra-cabeça.
Helena caminhou algumas vezes até a janela da sala. Voltava para o sofá. Sentava. Levantava de novo. Heitor fingia estar distraído olhando algumas mensagens no celular, mas ela conhecia aquele homem o suficiente para perceber que ele fazia a mesma coisa que ela: esperava.
Quase quarenta minutos depois, o barulho de um carro entrando pela alameda da mansão rompeu o silêncio da casa.
Os dois olharam para a janela ao mesmo tempo.
Helena foi a primeira a se aproximar do vidro. Reconheceu imediatamente o sedã de Jonas.
Ela respirou fundo, agora não existiam mais teorias, nem coincidências.
Chegara a hora de descobrir a verdade.
O ronco de um motor ecoou pela parte da frente da mansão. Helena ainda estava próxima à janela quando viu o sedã de Jonas entrar pela alameda muito mais rápido do que ele costumava dirigir. O carro sequer foi estacionado direito. Parou torto, ocupando toda a frente, e a porta foi aberta antes mesmo de o motor desligar completamente.
Nem Helena, nem Heitor tiveram tempo de reagir.
— HELENA! — a voz de Jonas atravessou o hall como um trovão.
Jonas praticamente atravessou a porta de entrada da casa. Os cabelos estavam bagunçados pelo vento, a camisa social já tinha sido arrancada de dentro da calça e ele respirava ofegante, como quem tinha vindo o caminho inteiro acelerado.
Os olhos procuravam desesperadamente por Helena. Quando finalmente a encontrou inteira, sem um arranhão sequer, o alívio apareceu em seu rosto.
Logo em seguida os olhos dele encontraram Heitor. Toda a expressão mudou. Foi como assistir uma porta se fechando. A mandíbula endureceu, os punhos se fecharam e ele caminhou decidido na direção do cunhado.
Helena sentiu um arrepio subir pela espinha. Aquilo não era normal.
— Porra, Heitor… — a voz de Jonas saiu carregada de ódio. — Que merda tu fez?
Heitor franziu a testa. Até aquele momento, imaginava que Jonas chegaria assustado com a ligação de Helena.
Não aquilo.
— Tá falando do quê?
Jonas não respondeu. Empurrou Heitor com força no peito.
O CEO deu dois passos para trás mais pela surpresa do que pela força do empurrão.
Helena arregalou os olhos.
— Jonas! — ela correu na direção dos dois.
— Que porra é essa?! — a voz de Heitor também já havia endurecido.
Jonas apontou o dedo para ele, completamente transtornado.
— Eu te falei que, se um dia tu fizesse minha irmã sofrer, eu mesmo acabava contigo! — a respiração dele estava acelerada. Os punhos cerrados. — Passei no portão e os seguranças me contaram tudo! Tinha um maluco aí dizendo que tu tá pegando a mulher dele!
Helena levou a mão à testa. Agora entendia.
Antes que qualquer um pudesse explicar, Jonas avançou outra vez, dessa vez foi para acertar.
O soco veio rápido.
Heitor conseguiu apenas inclinar o corpo para o lado. O punho passou raspando por seu rosto. Quando voltou a encarar Jonas, os olhos azuis já não tinham mais nenhum traço de compreensão.
— Tu tá maluco, porra? — Heitor explodiu.
Os dois ficaram frente a frente.
Helena entrou imediatamente entre eles e segurou o braço do irmão.
— Para, Jonas!
— Me solta! — ele se desvencilhou, andando para frente — Eu não vou aceitar essa merda! Vou quebrar a cara dele!
— Jonas! — ela segurou os dois braços dele agora. — Escuta o que eu tô falando!
Do outro lado, Heitor também já perdia a paciência.
— Deixa ele vir, Helena. Vou dar a surra que ele tá merecendo.
Helena virou imediatamente para ele.
— Heitor! — foi a primeira vez que precisou elevar o tom de voz com os dois ao mesmo tempo.
Os dois finalmente pararam, ainda respirando pesado. Ainda se encarando.
Ela respirou fundo antes de falar.
— Chega. — olhou primeiro para Jonas. — O Heitor não fez absolutamente nada. — depois virou-se para Heitor. — E você também fica quieto.
Os dois permaneceram em silêncio. Foi só então que Helena conseguiu continuar.
— Veio um homem aqui. — olhou novamente para Jonas. — Chamado Gustavo. — ela viu o irmão prestar atenção nas palavras dela. — Ele disse que é marido da Amanda.
Foi como se alguém tivesse desligado Jonas. Toda a agressividade desapareceu do rosto dele.
Ele piscou algumas vezes.
— ...da Amanda? — perguntou quase sem voz.
Helena assentiu lentamente.
Viu o irmão começar a ligar uma lembrança na outra. Ele levou a mão até a cabeça. Passou os dedos pelos cabelos. Respirou fundo.
— Não… — balançou a cabeça. os olhos começaram a procurar alguma explicação que não existia. — Deve ser o ex-marido dela. — falava mais consigo mesmo do que com eles. — Ela me contou que ele podia dar problema se eu conhecesse os filhos...
Heitor ainda estava irritado. Mas até ele percebeu que alguma coisa tinha mudado.
— Pera aí. — franziu o cenho. — Tu conheceu os filhos dela?
Jonas assentiu automaticamente.
— Conheci. — os olhos continuavam perdidos. — Ela queria saber se eles iam gostar de mim…
Foi então que ele congelou. A lembrança parecia ter encaixado uma peça importante. Os olhos se arregalaram.
— O carro… — virou-se tão rápido que quase perdeu o equilíbrio. — Caralho… — olhou para Helena. — A Amanda tem um Palio vermelho igual aquele. — a voz começou a falhar. — Hoje ela apareceu sem carro...
Passou as mãos pelos cabelos outra vez.
— Eu perguntei se queria carona. Ela disse que não precisava… — o rosto dele perdeu completamente a cor. — Merda…
Sem pensar duas vezes, saiu correndo de volta para o carro.
Helena e Heitor se entreolharam. Os dois enxergaram exatamente a mesma coisa. Aquilo não parecia a reação de um homem que acabara de ser descoberto numa traição. Parecia o desespero de alguém que acabara de perceber que a mulher que amava podia estar correndo perigo.
— Heitor… — Helena segurou discretamente a mão dele. — Você tá bem?
Ele apertou os dedos dela de volta.
— Tô. — os olhos continuavam acompanhando Jonas. — Mas acho melhor a gente ver o que esse panaca vai fazer agora.
Os dois seguiram rapidamente até a entrada. Quando chegaram perto do carro, Jonas já procurava o celular desesperadamente entre os bancos.
Encontrou.
Ligou imediatamente e levou o aparelho ao ouvido.
— Atende… — murmurou. — Vai, Amandinha… Atende...
A ligação chamava.
Chamava.
E ninguém atendia.
Helena aproximou-se devagar.
— Jonas… — disse baixinho. — O que tá acontecendo?
Ele nem tirou o telefone do ouvido.
— Pode ter acontecido alguma coisa. — a voz saiu embargada. — O ex dela é completamente maluco. Traiu a Amanda durante anos… Mas não aceita que ela siga a vida. Ela morria de medo dele descobrir que eu conheci as crianças, porque ele é muito possessivo.
Helena olhou rapidamente para Heitor. Os dois pareciam chegar à mesma conclusão. Mesmo assim, precisava perguntar.
— Jonas… — segurou delicadamente o braço dele. — Ela é divorciada mesmo?
— Claro que é! — ele respondeu quase ofendido. Baixou finalmente o celular. — Assinou tudo. Já tá separado faz tempo.
Olhou firme para a irmã.
— Eu nunca me envolveria com uma mulher casada.
Heitor soltou um riso curto, ainda irritado.
— Então explica isso pro marido dela. Porque ele veio até a porta da minha casa disposto a me matar.
Jonas fechou os olhos por um instante, respirando fundo.
Discou novamente.
Nada.
A ligação continuava sem resposta.
Só então olhou para Heitor.
A culpa finalmente apareceu em seu rosto.
— Cara… — coçou a nuca, completamente sem graça. — Foi mal. Achei que tu tinha feito merda.
Heitor cruzou os braços.
Ainda estava irritado.
Muito.
Mas enxergava a sinceridade do rapaz. Depois de alguns segundos, respondeu:
— Fico feliz de saber que tu tá disposto a defender a Helena. Mas, da próxima vez… — olhou diretamente nos olhos dele. — Pergunta antes de sair distribuindo porrada.
— Jonas... você sabe onde a Amanda mora? — perguntou Helena, já tirando o celular do bolso. Os dedos dela tremiam enquanto desbloqueava a tela. — A gente liga para a polícia, pede para uma viatura ir até lá.
Jonas permaneceu alguns segundos completamente imóvel. Os olhos estavam presos na tela do próprio telefone, como se insistisse que a próxima ligação seria atendida. Quando finalmente respondeu, a voz saiu baixa, carregada de frustração.
— Eu... não sei.
Helena chegou a abaixar o celular, olhando para ele sem acreditar.
— Como assim você não sabe? — ela franziu o cenho, tentando organizar aquilo na própria cabeça. — Jonas... você está saindo com essa mulher há meses, conheceu os filhos dela... e não sabe onde ela mora?
Ele fechou os olhos por um instante e passou a mão pelo rosto, claramente constrangido.
— Porque... nunca foi desse jeito. — respirou fundo antes de continuar. — A gente começou ficando casualmente. Sempre se encontrava depois do expediente... normalmente em motel. Era prático para nós dois.
Ele deu uma risada curta, completamente sem humor.
— Eu nunca achei estranho ela não me falar esse tipo de coisa. — olhou para Helena. — Depois de um tempo, eu falei que queria algo sério. Ela disse que, antes de qualquer namoro, precisava saber se os filhos iam gostar de mim. Foi por isso que conheci o Enzo e o Théo. — um sorriso pequeno apareceu por um segundo ao lembrar dos meninos. — A gente saiu com eles semana passada... e de novo ontem.
O sorriso desapareceu na mesma velocidade.
— Eu achei que ela só fosse muito discreta. Ela sempre dizia que tinha passado por um relacionamento difícil, que tinha medo de se envolver de novo... e eu respeitei isso.
Helena sentiu um aperto no peito. Ela acreditava que Jonas estava dizendo a verdade. Não havia malícia na voz dele. Havia apenas um homem tentando entender como a própria história tinha se transformado naquele caos.
Heitor permaneceu em silêncio por alguns segundos. Estava de braços cruzados, observando Jonas com atenção. Então deu um passo à frente.
— Jonas… — a voz saiu muito mais calma do que alguns minutos antes. — Tem uma coisa nessa história que não tá fechando.
Jonas levantou os olhos.
— O quê?
— Você disse que vocês só se encontravam em motel.
— Sim.
— Sempre?
— Sempre.
Heitor passou a mão pela barba.
— E tu nunca estranhou isso?
Jonas demorou a responder.
— Não. — balançou a cabeça. — Ela dizia que precisava proteger os filhos... que não queria misturar as coisas antes de ter certeza do relacionamento. — ele deu de ombros. — Eu achei bonito, na verdade.
Heitor olhou para Helena.
— Amor… — estendeu o celular para ela. — Mostra.
Jonas franziu a testa.
— Mostrar o quê?
Helena respirou fundo. Não queria ser ela a fazer aquilo. Mesmo assim, abriu o perfil que haviam encontrado minutos antes.
— Lembra quando eu disse que era estranho ela não ter Instagram?
Jonas apenas assentiu. Helena virou a tela na direção dele.
— A gente encontrou um perfil. Vê se é dela.
Jonas pegou o celular sem entender. No instante em que a foto apareceu, ele respondeu sem hesitar.
— Esses são o Enzo e o Théo. — foi passando as imagens lentamente. Um sorriso pequeno surgiu ao reconhecer algumas. Mostrou uma fotografia dos meninos sorrindo. — Essa aqui foi no aquário.
Olhou para Helena.
— Foi nesse passeio que eu conheci os dois.
Continuou descendo o feed. A cada foto, sua expressão ia mudando. A confusão começou a tomar o lugar da tranquilidade.
— Eu… — franziu o nariz. — Eu não entendo.
Levantou os olhos para Helena.
— Por que ela mentiu pra mim? — a pergunta saiu machucada. — Eu sou tão ruim assim?
A voz dele falhou.
— Era um perfil de mãe... eu nunca ia comentar besteira. Nem se fosse um perfil só dela.
Helena sentiu o coração apertado. Ela nunca tinha visto o irmão daquele jeito. Heitor aproximou-se e apontou discretamente para a tela.
— Abre os destaques.
Jonas obedeceu. Assim que as primeiras fotos apareceram, o semblante dele endureceu.
Nas imagens estavam Amanda, as crianças… e Gustavo.
Jonas passou uma foto.
Depois outra.
Depois mais uma.
Respirou fundo.
— Essas fotos são antigas. — falou quase imediatamente. — Bem antigas.
Olhou para os dois.
— A gente começou a ficar tem três meses. — devolveu o celular para Helena e pegou novamente o próprio telefone. — Não tem nada de errado.
Discou outra vez e levou o aparelho ao ouvido.
— Pode ser que ela só nunca tenha apagado por causa dos meninos…
A ligação chamou.
Chamou de novo.
Nada.
Jonas fechou os olhos.
— Atende… — murmurou baixinho. — Pelo amor de Deus, Amanda… Atende...
A chamada caiu mais uma vez sem resposta.
Ele passou as duas mãos pelos cabelos e começou a andar de um lado para o outro.
Helena observava tudo em silêncio.
Quanto mais olhava para o irmão, menos acreditava que ele soubesse de alguma traição. Mas, ao mesmo tempo, Gustavo também parecia sincero. Os dois homens tinham a mesma dor estampada no rosto e isso era o que mais a assustava.
Heitor aproximou-se dela e apoiou delicadamente as mãos em sua cintura.
O gesto era automático, quase inconsciente. Fazia questão de mantê-la perto.
— A polícia me passou o endereço do Gustavo. — Ele olhou primeiro para Helena, depois para Jonas. — Acho que a gente devia ir até lá. Se realmente aconteceu alguma coisa, talvez descobrimos.
Jonas levantou a cabeça imediatamente. Seus olhos mostraram um pouco de esperança.
— Vale a pena. — disse sem pensar duas vezes. — Eu preciso saber se ela tá bem. E os meninos também.
Helena concordou.
— O Isaac já deve estar chegando e o Humberto também vai acordar daqui a pouco. — voltou-se para Heitor. — Acho melhor deixarmos ele com seus pais.
Respirou fundo.
— Eu podia ficar aqui… — mas balançou a cabeça antes mesmo de terminar a frase. — Não. — os olhos encontraram os dele. — Eu preciso ir com vocês.
Heitor sustentou o olhar dela por alguns segundos. Sabia que seria inútil tentar convencê-la do contrário.
No fim, apenas assentiu.
— Certo. — passou a mão de leve pelos cabelos dela. — Então eu vou buscar o Humberto, separar as coisinhas dele e avisar meus pais.
Olhou rapidamente para Jonas.
— Vocês dois me esperem aqui.
Sem esperar resposta, virou-se e seguiu em direção ao elevador.
Helena observou Heitor se afastar.
— Acho que tem alguma coisa muito errada nessa história, Helena…
A voz de Jonas saiu bem mais baixa do que de costume. Ele passou a mão pelos cabelos, apertando os olhos por alguns segundos, como se tentasse organizar os próprios pensamentos, mas parecia que, quanto mais tentava entender, menos sentido tudo fazia.
— Tem muita coisa que eu não sei. — soltou uma risada curta, completamente sem humor. — Eu devia ter perguntado mais... devia ter insistido mais. Saber onde ela morava, conhecer os pais dela, entender melhor o passado... qualquer coisa.
Ele ergueu os olhos para a irmã, estavam marejados. Helena sentiu o coração como se estivesse sendo espremido. Jamais imaginou ver Jonas daquele jeito.
Ele sempre fora o mais leve dos irmãos. O que ria alto, fazia piadas em qualquer situação e conseguia transformar qualquer problema em motivo para uma brincadeira. Enquanto Isaac carregava tudo nas costas e ela tentava resolver o mundo inteiro, Jonas era quem lembrava os dois de respirar.
Agora, porém, parecia completamente perdido.
— Eu nunca gostei de alguém desse jeito… — a frase saiu quase num sussurro.
Ele respirou fundo, desviou os olhos e apoiou as costas na lateral do carro. Ficou alguns segundos encarando as próprias mãos, como se procurasse nelas alguma resposta.
— Eu não sabia muito bem o que fazer. — sorriu de leve, mas era um sorriso triste. — Acho que ainda não sei.
Engoliu em seco antes de completar:
— Eu não queria… — ficou calado por um tempo — Mas eu me apaixonei por ela.
Aquelas palavras atingiram Helena em cheio.
Ela não respondeu imediatamente.
Apenas deu um passo à frente e envolveu o irmão num abraço de lado, passando um dos braços ao redor dele enquanto a outra mão afundava nos cabelos claros, fazendo um carinho lento.
— Ei… — a voz dela saiu baixinha. — Olha pra mim.
Jonas balançou a cabeça negativamente.
Não conseguiu.
Helena então apoiou delicadamente a cabeça dele contra o próprio ombro.
— Você não fez nada de errado. — continuou acariciando seus cabelos. — Muito pelo contrário. — sorriu de leve. — Você deu o melhor de você.
Ela lembrava da conversa que tinham tido dias antes. Jonas, todo empolgado, contando sobre Amanda. E ele falando com um sorriso dos filhos dela.
Aquilo não era um homem brincando com sentimentos. Era um homem tentando construir uma família.
— Você mudou por ela. — murmurou. — Conheceu os filhos dela... se preocupou com eles... eu vi o brilho nos seus olhos quando falou daqueles meninos. Eu consigo enxergar o carinho que você sente por eles.
Jonas respirou fundo, depois outra vez. Mas parecia que o ar nunca era suficiente.
O peito subia e descia em movimentos curtos, descompassados, como se cada inspiração precisasse vencer um nó preso na garganta. Ele apertou os olhos com força, mordeu o lábio inferior e tentou controlar a própria respiração.
Não conseguiu.
Um soluço escapou… depois outro…
Sem dizer absolutamente nada, escondeu o rosto entre o ombro e o braço dela, como se quisesse desaparecer por alguns instantes.
Helena o abraçou com mais força.
Os dedos apertavam discretamente o tecido da blusa dela enquanto ele tentava recuperar o controle. Um som rouco escapou contra a pele dela. O corpo inteiro estremeceu num soluço involuntário. Ele puxava o ar de forma irregular, tentando recuperar o controle antes que o próximo soluço escapasse, mas era tarde. As lágrimas escorriam quentes, passando pelo braço dela antes de pingarem no chão.
Ela fechou os olhos por um instante, seu coração doía junto com o dele.
Ver Jonas daquele jeito despertava nela um instinto feroz. Com Isaac, ela ainda carregava a culpa de não ter conseguido o salvar da decepção que Ana Alice causou.
Com Jonas ela não cometeria o mesmo erro, faria o que estivesse ao seu alcance.
— E se ela quiser voltar pra ele? — a pergunta saiu abafada contra o ombro dela. Tão frágil que fez Helena sentir um nó subir pela garganta. — E se... no fim... ela escolher ele?
Helena afastou apenas o suficiente para conseguir olhar para tentar olhar o rosto do irmão. Segurou o rosto dele entre as mãos e sorriu com um carinho que só uma irmã mais velha conseguia transmitir.
— Escuta uma coisa. — esperou até que ele realmente prestasse atenção. — Você é inteligente, trabalhador, engraçado, carinhoso... você cuida das pessoas sem nem perceber. — passou o polegar secando discretamente uma lágrima que ainda escorria pelo rosto dele. — E, modéstia à parte, também é bonito pra caramba.
Jonas soltou uma risada fraca, completamente misturada ao choro.
Helena sorriu também.
— Qualquer mulher inteligente teria sorte de ter um homem como você do lado.
Voltou a acariciar seus cabelos.
— E eu conheço a Amanda só pelas coisas que você me contou… — respirou fundo. — Mas, se ela levou você para conhecer os filhos... duas vezes… — enfatizou as últimas palavras. — Ela já estava colocando você dentro da vida dela, Jonas.
Olhou firme para ele.
— Mulher nenhuma apresenta os filhos para um homem qualquer. — a voz dela saiu cheia de convicção. — Eu acredito, de verdade, que ela queria construir alguma coisa com você. Então não deixa esse medo tomar conta antes da gente descobrir o que realmente aconteceu.
Sorriu de leve.
— Vamos encontrar a Amanda. — segurou a mão dele. — Depois vocês dois brigam, se explicam, se beijam ou fazem o que tiverem que fazer.
Os olhos dela brilharam.
— Mas primeiro... vamos descobrir a verdade.
O barulho de outro carro subindo pela alameda interrompeu o silêncio que havia se instalado entre eles.
Jonas levantou a cabeça imediatamente. Com as costas da mão, enxugou depressa as lágrimas que ainda insistiam em permanecer no canto dos olhos. Respirou fundo algumas vezes, tentando recuperar o controle da própria respiração, mas o peito continuava subindo e descendo em movimentos irregulares. Os olhos estavam vermelhos, o nariz também, e Helena percebeu que ele fazia um esforço enorme para fingir que estava bem.
O sedã de Isaac estacionou próximo do carro do Jonas. A porta abriu quase no mesmo instante, e Isaac desceu com passos rápidos, olhando de um lado para o outro antes mesmo de fechar a porta. Bastou Helena bater os olhos nele para sentir um aperto conhecido no peito.
Isaac estava cada vez mais magro.
As olheiras profundas marcavam seu rosto de uma forma que ela nunca tinha visto antes. Havia dias em que parecia apenas cansado. Naquele, porém, ele parecia carregar semanas inteiras sem dormir direito. A barba por fazer, os ombros caídos e o olhar constantemente perdido davam a impressão de que existia um peso invisível sendo arrastado por ele todos os dias.
Assim que se aproximou dos irmãos, seus olhos passaram rapidamente por Helena e pararam em Jonas.
— O que aconteceu? —a pergunta saiu curta, objetiva.
Depois de alguns segundos observando o irmão, franziu o cenho.
— Você... tá chorando?
Jonas virou discretamente o rosto.
— Não. — a resposta veio rápida demais. Mas a respiração trêmula e a voz embargada desmentiam qualquer tentativa de parecer forte.
Isaac não insistiu.
Conhecia Jonas desde que ele nasceu. Sabia exatamente quando ele estava mentindo.
Voltou-se para Helena.
— Alguém pode me explicar o que está acontecendo?
Helena respirou fundo e começou a contar tudo desde o início. Falou do homem que apareceu no portão, das acusações contra Heitor, da conversa, do nome de Amanda e da reação desesperada de Jonas quando percebeu que o Palio vermelho podia ser dela.
Isaac ouviu tudo em silêncio.
Não interrompeu uma única vez.
Quando Helena terminou, ele permaneceu alguns segundos olhando para o chão. Depois ergueu os olhos lentamente até encontrar Jonas.
A expressão dele não era de raiva, era de decepção.
— Você não devia estar envolvido nisso. — a voz saiu firme, mas muito mais cansada do que agressiva. — O pai deixou isso muito claro pra nós. Nenhum de nós podia se envolver com pessoas ligadas ao gabinete.
Isaac olhou diretamente para o irmão.
— Eu prometi. — os olhos permaneceram firmes. — Você também prometeu. Por que quebrou essa promessa?
Helena percebeu Jonas engolir em seco.
Lorena disse uma vez que quando eles eram pequenos, Jonas era justamente o irmão que mais levava promessas a sério. Se dizia que faria alguma coisa, fazia. Se prometia guardar um segredo, morria sem contar.
Talvez por isso aquelas palavras tivessem pesado tanto. Ele passou a mão pelo rosto e respondeu quase olhando para o chão.
— Porque… — demorou alguns segundos para encontrar coragem de continuar. — Ela me atraía muito.
Sorriu de forma triste ao lembrar.
— Ela dizia que queria voltar a viver... que queria recomeçar. — respirou fundo. — Eu achei que podia ajudar.
Os olhos marejaram novamente.
— Ela era inteligente... engraçada... discreta… — balançou a cabeça devagar. — Eu achei que dessa vez ia dar certo.
Isaac fechou os olhos por um instante antes de responder.
— Você deixou o coração decidir. — voltou a encará-lo. — E esqueceu de usar a cabeça.
Jonas levantou o rosto imediatamente, havia dor nos olhos dele. Mas também havia orgulho.
— E quem é você pra me julgar? — a voz saiu mais alta. — Esqueceu da Ana Alice?
A pergunta caiu como uma pedra no meio dos três.
Isaac desviou os olhos na mesma hora. Helena sentiu o estômago afundar.
Jonas continuou, ainda magoado.
— Helena… — olhou para a irmã. — Você sabia que, depois de tudo o que aconteceu, ele foi visitar a Ana Alice na prisão?
Helena ficou completamente imóvel. Virou lentamente o rosto para Isaac. Uma sensação amarga percorreu seu peito.
— Você fez isso?
Isaac respirou fundo antes de responder.
— Pode falar o que quiser de mim. — a voz dele continuava calma. — Mas eu não quebrei promessa nenhuma. — ergueu os olhos. — Eu fui até lá porque precisava entender. — passou a mão pelo rosto, claramente cansado. — Depois de tudo o que a Ana Alice fez... eu precisava olhar pra ela e perguntar por quê.
A voz falhou pela primeira vez.
— A gente teve uma história. Eu precisava encerrar aquilo dentro de mim.
Helena permaneceu alguns segundos em silêncio.
Ela entendia, mas não aceitava.
— Isaac… — sua voz saiu baixa. — Ela podia ter matado o Heitor.
Ele assentiu imediatamente.
— Eu sei. — os olhos dele finalmente encontraram os dela. — E foi justamente por isso que eu fui. — respirou fundo. — Eu precisava entender como alguém que eu amei foi capaz de fazer aquilo.
Helena levou a mão ao rosto. Naquela família, todo mundo parecia guardar segredos para proteger os outros. E, no fim, todos acabavam se machucando.
Ela respirou fundo antes de responder.
— Espero que tenha sido só isso mesmo. — olhou demoradamente para o irmão. — Porque nós dois ainda precisamos conversar.
Isaac apenas assentiu.
Sabia que aquela conversa aconteceria. Só não seria naquele momento.
O som dos passos interrompeu a tensão.
Todos viraram o rosto ao mesmo tempo.
Heitor apareceu carregando o bebê-conforto de Humberto com uma facilidade que só ele tinha. Um pequeno cobertor infantil protegia o bebê do vento frio da noite, enquanto a bolsa do menino descansava no ombro dele.
O contraste da cena era quase absurdo.
Enquanto os adultos pareciam desmoronar emocionalmente, Humberto dormia profundamente, alheio a qualquer problema do mundo.
Heitor aproximou-se deles.
— Estamos prontos. — só então percebeu Isaac. — Opa... chegou.
Cumprimentou o cunhado com um aceno de cabeça. Depois olhou de um rosto para outro.
Era impossível não perceber que alguma coisa tinha acontecido enquanto ele esteve dentro da casa.
— Eu perdi alguma coisa?
Isaac respondeu primeiro.
— Só estava lembrando o Jonas da promessa que nós fizemos ao nosso pai. — fez uma breve pausa. — Ele acabou se envolvendo com uma funcionária da campanha.
Heitor voltou os olhos para Jonas e soltou o ar.
— Eu ainda ia tocar nesse assunto. — a voz saiu séria, mas sem julgamento. — Você realmente não devia ter se envolvido com uma funcionária.
Jonas soltou uma risada pelo nariz.
— Ah, claro… — cruzou os braços. — Justo você falando isso. — olhou diretamente para Heitor. — O homem que vai casar com a própria funcionária.
Heitor nem piscou.
— Não foi a mesma coisa. — respondeu imediatamente. — Eu conheci a Helena antes de descobrir que ela prestava serviço pra Monteiro Inc. — olhou rapidamente para a noiva. — E ela nem era funcionária da empresa. Era terceirizada.
Jonas ergueu as duas mãos em rendição.
— Nossa… — ironizou. — Que diferença gigantesca.
Helena quase sorriu, Heitor sempre insistia naquele enredo, não admitia de forma alguma que ela era funcionária dele.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Jonas respirou fundo e voltou a olhar para o celular. A tela permanecia sem nenhuma resposta de Amanda.
Toda a ironia desapareceu.
— A gente pode ir? — a voz saiu aflita outra vez. — Ela nunca demora tanto pra responder.
Heitor olhou para Helena, depois para Humberto. Tomou uma decisão.
— Isaac. — entregou-lhe a alça da bolsa do bebê. — Vamos comigo deixar o Humberto na casa dos meus pais.
Depois olhou para Helena.
— Amor… — segurou delicadamente a mão dela. — Você vai primeiro com o Jonas.
Helena franziu a testa.
— Ué… — sorriu de leve. — E eu não vou com você?
Ele acariciou sua mão.
— A gente se encontra lá. — depois levou a mão para fazer um carinho rápido em seu rosto. — Acho melhor o Jonas não dirigir sozinho agora.
Ela olhou rapidamente para o irmão.
Concordou.
— Tá bom.
Heitor aproximou-se e lhe deu um selinho demorado, daqueles que pareciam dizer muito mais do que qualquer palavra.
— Daqui a pouco eu encontro vocês.
— Anda, Helena… — Jonas já caminhava em direção ao carro. — Vamos.
Ela sorriu para Heitor mais uma vez antes de se aproximar do bebê-conforto.
Afastou cuidadosamente um cantinho do cobertor.
Humberto continuava dormindo profundamente, chupando a chupeta e uma das mãozinhas fechadas ao lado do rosto.
Helena não resistiu.
Acariciou de leve seus cabelinhos.
— Dorme, meu amor… — murmurou.
Depois ergueu novamente os olhos para Heitor. Os dois trocaram um último olhar silencioso. E seguiram caminhos diferentes, unidos pela mesma esperança.
Que ainda houvesse tempo de encontrar Amanda.
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