O CEO que Eu Paguei
247 Teia de Mentiras
Jonas dirigia quase no automático.
O GPS seguia indicando o caminho, Helena falava alguma coisa ao lado dele de vez em quando, mas ele mal conseguia prestar atenção. Seus olhos estavam fixos na estrada, enquanto a cabeça parecia voltar meses no tempo, tentando encontrar o instante exato em que tudo aquilo tinha começado.
Engraçado como a vida mudava sem pedir licença.
Se alguém dissesse, quatro meses antes, que ele estaria desesperado por causa de uma mulher, Jonas provavelmente daria uma gargalhada. Mulher nunca foi um problema na vida dele. Desde moleque sempre teve facilidade para conhecer gente, conversar e conquistar. Nunca faltou companhia, nunca faltou oportunidade. E justamente por isso nunca viu muito sentido em namoro.
Na lógica dele, relacionamento sério dava trabalho demais. Era uma responsabilidade enorme para uma recompensa que ele normalmente já tinha. Pra que escolher uma mulher só, se podia conhecer quantas quisesse?
Não era um cara canalha. Muito pelo contrário. Sempre deixava tudo claro desde o começo. Nunca prometia namoro para conseguir sexo, nunca fazia declaração vazia, nunca iludia ninguém. Se a mulher queria continuar daquele jeito, ótimo. Se queria algo diferente, ele desejava boa sorte e seguia a vida. Simples.
Aquilo funcionava perfeitamente.
Até o dia em que foi morar na casa do Heitor e da Helena.
Pensando agora, talvez a culpa fosse dos dois.
Era impossível conviver com eles sem perceber que existia alguma coisa diferente ali. Não era aquela paixão exagerada de começo de namoro, nem aquele romantismo meloso que Jonas sempre tirava sarro. Era outra coisa.
Companheirismo.
Helena conhecia o Heitor como ninguém. Sabia quando ele estava cansado só pelo jeito que ele fechava a porta. Sabia quando ele estava preocupado antes mesmo de ele abrir a boca. E Heitor... bom, o Heitor parecia ter feito da missão da vida dele cuidar daquela mulher. Não existia orgulho entre os dois. Não existia disputa para saber quem tinha razão. Quando brigavam, brigavam para resolver. Quando um caía, o outro segurava.
Jonas zoava o tempo inteiro.
Chamava o Heitor de emocionado.
Dizia que ele tinha perdido completamente a personalidade.
E o seu cunhado só ria.
"Espera acontecer contigo."
Na época parecia impossível. Hoje ele quase queria voltar no tempo só para pedir desculpas.
Amanda apareceu quando ele menos esperava.
O pai tinha uma regra muito simples. Talvez a única regra que Jonas realmente levasse como lei. Nunca misturar trabalho com vida pessoal.
Principalmente política.
Quem trabalhava no gabinete, na campanha ou em qualquer projeto ligado ao Paulo simplesmente deixava de existir como possibilidade. Eram colegas. Só isso.
Amanda também era.
Durante semanas, Jonas enxergou apenas a profissional competente. Gostava de trabalhar com ela porque Amanda era rápida, inteligente, resolvia problemas antes mesmo que eles aparecessem. Mulher inteligente sempre chamou sua atenção, mas isso nunca significou nada. Ela trabalhava na campanha e usava aliança de casamento. O assunto terminava ali.
Até o dia em que a aliança desapareceu.
Ele lembrava exatamente da roupa que ela usava, da sala quase vazia e do momento em que ela sorriu e disse que gostaria de tê-lo conhecido em outro lugar.
Foi somente uma frase e bastou para bagunçar completamente a cabeça dele.
Na mesma hora Amanda deixou de ser apenas uma colega de campanha.
Virou mulher, uma mulher solteira e mais do que isso, se tornou Disponível.
Ele ainda tentou agir normalmente durante alguns dias. Tentou manter distância, conversar apenas sobre trabalho, fingir que nada tinha mudado. Não conseguiu. Sempre que ela começava a apresentar alguma ideia nas reuniões, ele precisava fazer um esforço absurdo para prestar atenção no projeto, porque a vontade era ficar olhando para ela.
Então começou devagar, uma brincadeira aqui, um elogio ali, um café depois da reunião e uma conversa no estacionamento.
Os toques vieram naturalmente. Primeiro um braço encostando no outro, depois uma mão segurando o cotovelo, um abraço um pouco mais demorado.
Amanda nunca recuava.
Na verdade...
Ela parecia esperar.
Quando finalmente foram para o quarto, Jonas saiu da cama convencido de que tinha feito exatamente o que sempre fazia.
Tinham química, os dois eram adultos e apenas isso.
Só que Amanda começou a chorar. Aquilo desmontou completamente os planos dele.
Não porque estivesse apaixonado.
Ainda não.
Mas porque ela não parecia a mulher segura que mostrava ser todos os dias. Pela primeira vez ele enxergou uma Amanda cansada. Machucada. Com medo.
Foi ali que Jonas lembrou da promessa feita ao pai.
"Merda..."
Se ela falasse algo para alguém, se seu pai descobrisse, ele estaria ‘frito’. Por isso sugeriu que eles continuassem apenas ficando.
Amizade colorida, sem namoro, sem cobrança, sem pressão.
Parecia a solução perfeita. Só esqueceram de avisar que coração nenhum respeita contrato.
As mensagens começaram a aumentar.
Eles conversavam de manhã, na hora do almoço, antes de dormir. Quando Amanda faltava, ele dava um jeito de mandar alguma coisa só para saber como ela estava.
Sem perceber, passou a esperar as notificações dela. Passou a procurar por ela nos corredores. Passou a gostar de simplesmente sentar ao lado dela depois das reuniões.
Foi aí que percebeu.
Estava acontecendo exatamente aquilo que ele tanto zoou no Heitor.
E o pior...
Ele estava gostando.
Quando Amanda contou que tinha dois filhos, ele imaginou que talvez aquilo fosse fazê-lo desistir.
Aconteceu justamente o contrário.
Gostou tanto da ideia que passou dias pesquisando como deveria se aproximar de crianças sem invadir o espaço delas. Não queria bancar o pai. Não queria substituir ninguém. Queria apenas que aqueles dois garotos se sentissem seguros perto dele.
Quando Enzo perguntou por que ele beijava a mãe, Jonas respondeu exatamente do jeito que tinha estudado.
Na volta para casa, passou o caminho inteiro imaginando como seria morar com os três.
Achou graça da própria cabeça.
Logo ele… Pensando em apartamento, escola, quarto para os meninos.
Até a palavra padrasto já não parecia mais tão estranha.
Depois da campanha, conversaria com Helena. Ela convenceria o pai. Paulo talvez reclamasse um pouco, mas acabaria aceitando. Era só esperar mais alguns meses.
Era um plano simples.
Um plano bom.
Agora tudo o que Jonas conseguia pensar era completamente diferente.
O homem que apareceu na porta da casa do Heitor não saía da cabeça dele.
Amanda sempre dizia que o ex-marido tinha dificuldade em aceitar o divórcio. Que ele insistia em aparecer, controlar sua vida, usar os filhos como desculpa para continuar por perto. Jonas nunca deu muita importância. Achava que era só mais um ex inconveniente.
E se Amanda tivesse contado que eles estavam juntos?
E se ele tivesse ido atrás dela antes de aparecer na mansão?
E se ela estivesse machucada?
E os meninos?
Enzo.
Théo.
O estômago de Jonas revirou. Sem perceber, apertou ainda mais o volante.
Pela primeira vez na vida, ele não estava correndo atrás de uma mulher porque queria beijá-la.
Estava correndo porque precisava encontrá-la. Precisava olhar nos olhos dela. Precisava ver aqueles dois meninos sorrindo outra vez.
Só depois disso...
Só depois...
Ele pensaria em todo o resto.
Demoraram alguns minutos até encontrar a casa.
A numeração daquela rua parecia não obedecer a lógica nenhuma. O GPS mandava seguir em frente, depois voltar, entrar numa transversal estreita e retornar novamente. Jonas dirigia cada vez mais devagar, olhando atentamente para as fachadas simples que passavam pela janela.
Quanto mais avançavam, mais um incômodo crescia dentro dele.
As calçadas eram irregulares, alguns muros estavam pichados, havia fios pendurados entre os postes e várias casas exibiam grades altas, cercas elétricas, concertina e câmera de segurança. Não era exatamente um lugar onde ele imaginava Amanda criando dois meninos pequenos.
Sem perceber, apertou o volante.
"Ela não pode continuar morando aqui com os meninos."
O pensamento surgiu naturalmente.
Nem sabia como faria aquilo acontecer. Inventaria qualquer desculpa. Diria que conhecia um condomínio melhor, que os meninos mereciam uma escola mais próxima, qualquer coisa.
Mas tiraria os três dali.
Precisava tirar.
— É aquela. — Helena apontou pela janela. — Cento e cinquenta e sete.
Jonas acompanhou a direção do dedo dela.
A casa era pequena, de muro alto, portão de ferro branco já desgastado pelo tempo e uma garagem com portão eletrônico de aço.
Parou o carro em frente ao portão da garagem e permaneceu alguns segundos olhando para a fachada, como se esperasse que alguma resposta aparecesse sozinha.
O silêncio dentro do veículo parecia pesado demais.
— Helena… — ele finalmente falou, sem desviar os olhos da casa. — Vamos.
Ela soltou o cinto, mas antes que abrisse a porta, respondeu calmamente:
— Eu acho melhor te esperar aqui. Se ela estiver nervosa ou aconteceu alguma coisa, talvez seja mais fácil vocês conversarem sozinhos. Qualquer coisa você me chama.
Jonas virou o rosto imediatamente.
Nem pensou.
— De jeito nenhum. — a resposta saiu firme. — Eu não vou deixar você sozinha dentro do carro nesse bairro.
Helena arqueou discretamente as sobrancelhas.
— Jonas...
— Guarda o celular.
Ela franziu a testa.
— Como assim?
— Guarda dentro da calça. Não deixa na mão. — a voz dele continuava séria. — Você não tá acostumada com esses lados.
Helena ficou alguns segundos encarando o irmão. Sem discutir, apenas fez o que ele pediu. Guardou o celular por dentro da calça e assentiu com a cabeça.
— Pronto.
Os dois desceram do carro.
Assim que Helena fechou a porta, Jonas automaticamente deu a volta pela frente do veículo e caminhou até ela.
Sem dizer nada, segurou sua mão.
Helena olhou rapidamente para os dedos entrelaçados e depois para o irmão.
Não falou nada.
Apenas apertou de leve sua mão de volta.
Os dois seguiram juntos até o pequeno portão.
Quanto mais Jonas se aproximava da casa, mais seu coração acelerava.
Mil pensamentos atravessavam sua cabeça ao mesmo tempo.
"Será que ela tá bem?"
"Será que ele machucou ela?"
"E os meninos?"
"Será que eles viram alguma coisa?"
Subiu os dois degraus da varanda e bateu na porta com firmeza.
Nenhuma resposta.
Esperou alguns segundos.
O silêncio pareceu durar uma eternidade.
Bateu novamente.
Mais forte dessa vez.
Helena percebeu que a respiração dele já não estava no ritmo normal. Sem dizer nada, soltou delicadamente sua mão e pousou a palma entre as escápulas do irmão, fazendo um carinho discreto, quase imperceptível.
Era apenas um jeito silencioso de dizer que ela estava ali.
Então ouviram passos do outro lado da porta.
Os dois prenderam a respiração ao mesmo tempo.
— Quem é?
A voz de Amanda atravessou a madeira.
Jonas sentiu o coração disparar.
Ela estava viva.
Só aquilo já fez um peso enorme sair de dentro dele.
Deu um passo para mais perto da porta.
A voz saiu carregada de alívio, mas também de uma ansiedade que ele já não conseguia esconder.
— Amandinha... sou eu. — fez uma breve pausa, como se precisasse ter certeza de que ela reconheceria sua voz. — É o Jonas.
Olhou rapidamente para Helena, que o observava com um discreto sorriso esperançoso.
Então voltou os olhos para a porta.
— Pode abrir?
Helena deu uma leve cotovelada no braço de Jonas antes que ele batesse novamente na porta.
— A câmera... — sussurrou, apontando discretamente para um pequeno equipamento preso no canto da entrada.
Jonas levantou os olhos.
Só então percebeu que, do outro lado, provavelmente Amanda já estava observando os dois.
Deu um pequeno passo para trás, tentando parecer o menos ameaçador possível.
— Amandinha... sou eu. — falou olhando diretamente para a câmera. — Eu tô com a Helena, minha irmã. Tá tudo bem. Pode abrir.
Por alguns segundos, nada aconteceu.
O silêncio voltou a tomar conta da pequena entrada.
Então ouviram o estalo da fechadura eletrônica. A porta se abriu lentamente.
Assim que Jonas a viu, sentiu como se alguma coisa apertasse seu peito com força.
Amanda estava destruída.
Os cabelos, sempre tão bem arrumados, estavam com algumas mechas emboladas. O rosto permanecia completamente vermelho, os óculos escondiam parcialmente os olhos inchados de tanto chorar e os ombros pareciam pequenos demais para sustentar todo o peso que ela carregava naquele momento.
Ela tentou dizer alguma coisa.
Não conseguiu.
Os olhos encontraram os dele e, no instante seguinte, Amanda simplesmente caminhou até Jonas.
Ele não pensou, abriu os braços imediatamente.
Amanda se jogou contra ele com tanta força que quase o fez perder o equilíbrio. Escondeu o rosto em seu peito e começou a chorar outra vez, agora sem tentar conter os soluços.
Jonas fechou os braços ao redor dela como se quisesse protegê-la do mundo inteiro.
O coração dele doía.
Doía de um jeito que ele nunca tinha sentido.
Ver Amanda sofrer era muito pior do que imaginava.
Ele apoiou o queixo sobre os cabelos dela e fez um carinho lento em suas costas.
— Ei… — a voz saiu baixa, quase um sussurro. — Eu tô aqui agora. — apertou-a mais um pouco contra o peito. — Vai ficar tudo bem.
Amanda apenas balançou a cabeça negativamente, ainda escondida entre os braços dele.
O gesto fez Jonas sentir um frio percorrer a espinha. Afastou-a apenas o suficiente para conseguir olhar em seu rosto. Segurou delicadamente seus braços.
— Amanda… — a expressão dele endureceu. — Ele fez alguma coisa com você?
Esperou um segundo.
— Ou com os meninos?
Ela respirou fundo algumas vezes antes de conseguir responder. Ainda chorando, apenas balançou a cabeça, negando.
O alívio que Jonas sentiu foi tão grande que suas pernas quase cederam. Pelo menos eles não estavam machucados.
Helena, que observava tudo em silêncio, aproximou-se devagar.
Não queria interromper aquele momento, mas também sabia que aquela conversa não podia acontecer na porta da casa.
— Vamos entrar. — sua voz saiu calma, acolhedora.
Ela sorriu para Amanda com uma delicadeza quase maternal.
— Oi… Nós estamos com você.
Amanda apenas assentiu, enxugando inutilmente as lágrimas.
Jonas inclinou a cabeça e depositou um beijo demorado no alto da cabeça dela.
— Vem, gatinha… — acariciou de leve seu braço. — Vamos lá pra dentro.
Amanda respirou fundo, tentando recuperar um mínimo de controle sobre si mesma. Quando atravessaram a porta, ela pareceu lembrar de alguma coisa. Virou-se para Jonas ainda fungando.
— O portão… — apontou discretamente para o lado de fora. — Você pode colocar o carro na garagem?
Jonas olhou rapidamente para Helena. Os dois se conheciam bem o suficiente para não precisar de palavras. Fez apenas um discreto movimento com a cabeça.
"Fica com ela."
Helena respondeu da mesma forma.
"Pode deixar."
— Claro. — Jonas sorriu de leve para Amanda. — Já volto.
Ela apertou o controle remoto que ainda segurava na mão. O portão começou a deslizar lentamente, e Jonas voltou até o carro.
Enquanto manobrava para entrar na garagem estreita, ainda conseguia ouvir as vozes das duas vindas da entrada de dentro.
Helena fazia exatamente o que ela sabia fazer de melhor, conversava sem pressionar, sem invadir.
— O Jonas comentou que você tem dois meninos. — a voz dela era suave. — Eu adoraria conhecer eles qualquer dia. Eles estão aqui?
— Não… — a resposta de Amanda saiu baixa, quase um sussurro. — Eles estão na minha sogra.
Helena demorou um segundo para responder.
— Na... sua sogra? — corrigiu a própria frase imediatamente, com cuidado para não parecer invasiva. — Quer dizer... na avó paterna deles? Sua ex-sogra?
— Isso… — Amanda respondeu sem hesitar. — Na avó deles.
Jonas diminuiu a velocidade do carro ao entrar na garagem. Aquela palavra ficou ecoando na cabeça dele.
Sogra.
Engraçado...
Agora que Helena tinha chamado atenção para aquilo, percebeu que Amanda sempre falava daquele jeito.
Nunca dizia ex-sogra.
Nunca dizia mãe do meu ex-marido.
Era sempre...
"Minha sogra."
Ele franziu levemente a testa.
Talvez fosse apenas costume.
Depois de tantos anos casada, muita gente continuava falando assim.
Provavelmente era isso.
Ela mesma nem devia perceber.
Estacionou o carro e desligou o motor.
Antes de sair, seus olhos percorreram rapidamente a garagem.
Num dos cantos havia duas bicicletas infantis, uma azul e outra verde, ambas com rodinhas. Mais adiante, uma bola de futebol encostada na parede, um patinete pequeno e alguns brinquedos espalhados pelo chão denunciavam a rotina de duas crianças que ainda transformavam qualquer espaço em lugar de brincar.
Jonas sorriu sem perceber.
Por um instante, imaginou Enzo e Théo correndo por ali, brigando por causa da bola ou disputando quem andava primeiro na bicicleta.
Jonas voltou da garagem tentando recuperar um pouco da calma.
Assim que entrou na sala novamente, seus olhos percorreram o ambiente quase por instinto. Nunca tinha estado ali antes. A casa era simples, mas extremamente acolhedora. Havia um cuidado evidente em cada detalhe. A manta cuidadosamente dobrada sobre o braço do sofá, as almofadas combinando entre si, desenhos infantis sobre o rack, pequenos vasos de plantas espalhados pelos móveis...
Amanda realmente tinha transformado aquela casa em um lar.
Aquilo só aumentou sua vontade de tirá-la dali.
Na cabeça dele, uma mulher como ela merecia viver sem medo.
Helena permanecia de pé, observando tudo em silêncio. Jonas percebeu que a irmã analisava a sala inteira com uma atenção incomum, como se procurasse alguma coisa. Tentou encontrar seu olhar para entender o que ela estava pensando, mas Helena parecia completamente concentrada no ambiente.
"Depois eu pergunto."
Agora existiam prioridades muito maiores.
Ele caminhou até Amanda e sentou-se ao lado dela no sofá. Sem dizer nada, segurou delicadamente sua mão entre as duas dele.
Ela continuava fria.
Amanda retirou os óculos por um instante para enxugar os olhos com a barra da blusa. Respirou fundo algumas vezes, tentando controlar os soluços. Depois tornou a colocá-los, mas continuava olhando para baixo, distraída, fazendo carinho distraidamente na mão de Jonas, como se precisasse daquele contato para não desmoronar outra vez.
Jonas apertou levemente seus dedos.
— Amandinha… — a voz saiu cheia de cuidado. — Me conta o que aconteceu.
Amanda ergueu lentamente o rosto. Esboçou um sorriso pequeno, completamente sem força, daqueles que existiam apenas para tentar tranquilizar quem estava por perto.
— Jonas… — sua voz falhou. Ela respirou fundo antes de continuar. — Eu... eu e o meu ex-marido discutimos... Ele quer voltar comigo.
As palavras atravessaram Jonas como uma facada. Era exatamente esse medo que vinha carregando desde a mansão. Ele tentou manter a calma.
Tentou.
— E você? — perguntou devagar, procurando seus olhos por trás das lentes dos óculos. — Você quer voltar com ele?
Amanda permaneceu alguns segundos em silêncio. Olhou rapidamente para Helena. Depois voltou a abaixar a cabeça.
— Eu…— sua voz saiu quase inaudível. — Eu não sei. — respirou outra vez. — Tô muito confusa.
Alguma coisa explodiu dentro de Jonas.
Ele soltou a mão dela apenas para passar as duas mãos pelo rosto, respirando fundo, tentando controlar a irritação.
Não conseguiu.
— Confusa? — a palavra saiu mais alta do que ele pretendia. — Amanda, esse cara te traiu!
Levantou-se sem perceber. Começou a andar de um lado para o outro da sala.
— Não traiu só você. — apontou para o corredor da casa. — Traiu a família de vocês.
A voz dele foi ficando cada vez mais carregada.
— Esse maluco tentou invadir a casa da minha irmã achando que tava fazendo justiça. — olhou diretamente para ela. — Amassou o teto do teu carro no soco.
Deu mais um passo.
— Tentou partir pra cima do Heitor. — respirou fundo. — Você não pode estar pensando em dar outra chance pra um cara desses.
Amanda empalideceu. A menção a Gustavo pareceu fazê-la esquecer até de respirar.
— O que… — a voz dela tremia. — O que aconteceu com ele?
Jonas cerrou os dentes. Aquela pergunta o irritou profundamente.
Depois de tudo...
Ela ainda estava preocupada com aquele homem?
— Tá preso. — respondeu seco. — E, sinceramente? — deu de ombros. — Lá ele não machuca mais ninguém.
Amanda tirou os óculos novamente. Dessa vez não conseguiu segurar. As lágrimas voltaram ainda mais fortes. Ela cobriu parcialmente o rosto com as mãos enquanto o corpo inteiro estremecia.
Jonas olhava aquela cena completamente perdido. Aquilo não fazia sentido. Como alguém podia sofrer tanto por um homem que só lhe causava dor? O peito dele queimava de indignação.
— Amanda… — sua voz já não escondia mais a frustração. — Você gosta tanto assim desse cara?
Ela não respondeu. Continuou chorando.
Jonas passou a mão pelos cabelos, completamente sem entender.
— Puta merda… — abaixou o tom da voz. — A gente se conhece há pouco tempo. — respirou fundo. — Mas eu tenho certeza de uma coisa.
Ajoelhou-se na frente dela. Segurou novamente suas mãos.
— Eu sou muito melhor pra você do que ele. — os olhos dele brilhavam de sinceridade. — Eu vou cuidar de você. — depois sorriu de leve. — E vou cuidar daqueles dois moleques também.
Olhou rapidamente ao redor da casa. Tomou uma decisão impulsiva.
— Arruma algumas roupas. — a voz saiu firme.— Vamos buscar os meninos.
Ela arregalou os olhos.
— Depois vocês ficam comigo. — passou a mão pelos cabelos, ele estava agitado. — Hotel. Casa de alguém. Não sei. Depois a gente pensa num apartamento. Mas você não vai passar essa noite sozinha.
Helena, que até então permanecera em silêncio, finalmente falou. A voz continuava calma.
— Jonas… — esperou ele olhá-la. — Você não acha que tá indo rápido demais?
Ele virou o rosto imediatamente. Ainda estava irritado.
— Não. — respondeu sem pensar. — Eles tão separados.
Voltou a olhar para Amanda.
— Eu sou o homem dela agora. — deu de ombros. — É isso que um homem faz.
Helena não respondeu.
Apenas continuou observando a sala.
Então, discretamente, fez um pequeno movimento com a cabeça.
— Jonas… — a voz saiu baixa. — Olha para mim.
Ele soltou um suspiro impaciente. Achava que a irmã ainda queria discutir aquele assunto. Mesmo assim acompanhou a direção indicada por ela.
Os olhos pararam ao lado de um dos sofás do canto.
Um chinelo masculino, grande, claramente usado.
Por alguns segundos, Jonas simplesmente ficou olhando.
O coração pareceu esquecer como batia. O ar desapareceu dos pulmões.
Não...
Aquilo não podia estar ali.
Sentiu um frio subir pela coluna.
Devagar, voltou os olhos para Amanda. Ela continuava chorando.
O mundo de Jonas pareceu inclinar alguns centímetros. Ele passou as duas mãos pelo rosto. Depois apoiou os cotovelos nos joelhos, encarando o chão por longos segundos.
Quando voltou a falar, sua voz havia perdido completamente a força.
— Helena… — engoliu em seco. — Você pode deixar eu conversar sozinho com ela?
Helena olhou primeiro para Amanda. Depois para o irmão. Assentiu devagar.
— Posso. — fez uma pequena pausa antes de completar, num tom carregado de significado — Só... pensa antes de tirar qualquer conclusão.
Jonas apenas fez um gesto afirmativo com a cabeça.
Mal ouviu os passos da irmã se afastando.
As mãos continuavam apoiadas sobre os joelhos, enquanto ele encarava o piso da sala sem realmente enxergá-lo. Sentia a cabeça pesada, como se cada informação daquela tarde estivesse tentando ocupar espaço ao mesmo tempo. A história do homem no portão. O choro de Amanda. O jeito como ela falava do ex. O chinelo ao lado do sofá.
Nada fazia sentido.
Respirou fundo uma vez, depois outra. Só então levantou a cabeça.
— Eu vou te perguntar uma coisa. — a voz saiu baixa, cansada. Ele ainda evitava olhar diretamente para ela. — Não porque eu ache que você tenha mentido pra mim… — um sorriso amargo surgiu no canto da boca. — Mas porque eu tô começando a achar que quem tá ficando maluco aqui sou eu.
Amanda permaneceu em silêncio. Jonas finalmente ergueu os olhos.
— Você... e o Gustavo… — as palavras pareciam difíceis de sair. — Vocês ainda ficam juntos?
Amanda franziu levemente a testa.
— Como assim?
Ele respirou fundo, perdeu a delicadeza.
— Vocês ainda transam?
O silêncio que tomou conta da sala pareceu durar uma eternidade.
Amanda soltou uma pequena risada, mas não havia graça nenhuma nela. Era uma risada de cansaço. De quem já não sabia mais o que responder.
— Você não pode estar falando sério...
Jonas sustentou o olhar dela.
— Eu tô. — a voz saiu firme. — Me responde.
Amanda fechou os olhos por um instante. Quando voltou a abri-los, havia culpa neles.
— Algumas vezes… — disse quase num sussurro. — Mas eu não sou sua namorada, Jonas.
A frase caiu sobre ele como um soco no meio da cara. Por alguns segundos, Jonas simplesmente ficou olhando para ela.
Sentiu alguma coisa rasgar dentro do peito.
Não era ciúme.
Era pior.
Era a sensação de ter chegado tarde demais. Ele passou a mão pelo rosto lentamente.
— Eu achei… — a voz falhou. Precisou limpar a garganta antes de continuar. — Eu achei que vocês tinham encerrado isso.
Amanda abaixou os olhos.
— Nós temos dois filhos. — passou as mãos uma na outra, inquieta. — As coisas nunca são tão simples.
Jonas levantou-se devagar. As pernas pareciam pesadas. O corpo inteiro tremia, mas não era de raiva, era de frustração, de impotência.
Parou diante dela e respirou fundo, tentando organizar as próprias palavras.
— Então acaba com essa história.
Amanda ergueu lentamente o rosto.
Ele deu mais um passo.
— Namora comigo.
Ela piscou algumas vezes, surpresa.
Jonas continuou antes que ela pudesse responder.
— Eu sei que você tem medo. Sei que teu casamento te machucou. Sei que você olha pra mim e pensa que eu nunca levei ninguém a sério, que sempre fui um irresponsável… — sorriu de lado. — E talvez eu realmente tenha sido.
Os olhos dele começaram a marejar.
— Mas eu nunca senti isso antes. Nunca. — a voz falhou novamente.— Eu quero você.
Respirou fundo.
— Quero os meninos. Quero chegar em casa e encontrar vocês. Quero levar o Enzo pra jogar bola. Quero ensinar o Théo a andar de bicicleta. Quero reclamar porque vocês bagunçaram a sala. Quero tudo isso. — passou a mão pelos cabelos. — Eu dou a minha palavra.
Olhou firme para ela.
— Vou ser o melhor homem que você poderia escolher. Vou cuidar de você. Vou cuidar dos seus filhos como se fossem meus.
Amanda continuava completamente imóvel.
O choque estampado em seu rosto não era o sorriso emocionado que Jonas imaginou encontrar.
Era uma expressão de quem parecia estar sendo esmagada pelo peso da própria consciência.
Aquilo fez o estômago dele afundar. Mesmo assim, recusou-se a desistir.
Abaixou-se lentamente diante dela. Os joelhos tocaram o chão.
Segurou delicadamente as duas mãos dela entre as suas. Pela primeira vez em toda a vida...
Jonas Monteiro ajoelhava por uma mulher.
— Eu quero que você seja minha primeira namorada. — sorriu com tristeza. — E, se Deus quiser… A única.
Os olhos dele brilhavam. Não havia vaidade. Não havia charme. Não havia o conquistador que sempre soube exatamente o que dizer.
Só existia um homem apaixonado.
— Eu faço o que você quiser. — apertou de leve as mãos dela. — Mas, por favor… — a voz saiu quase num sussurro. — Me escolhe.
Jonas ainda permanecia ajoelhado diante dela, segurando suas mãos entre as dele. O coração batia tão forte que chegava a doer. Nunca tinha pedido nada daquele jeito para ninguém. Na verdade, nunca precisara. As coisas simplesmente aconteciam. As mulheres apareciam, ele se divertia, cada um seguia seu caminho.
Com Amanda era diferente.
Pela primeira vez na vida, ele tinha medo de ouvir um "não".
Amanda sustentou o olhar dele por alguns segundos. Depois respirou fundo, apertando delicadamente seus dedos.
— Mas... e o seu pai? E a campanha?
Jonas nem precisou pensar.
— Meu pai eu resolvo. — a resposta saiu imediata. — Se for preciso, eu saio da campanha.
Amanda arregalou discretamente os olhos.
— Jonas...
— Tô falando sério. — ele apertou um pouco mais as mãos dela. — Você não vai ser prejudicada por minha causa. Eu dou um jeito em tudo. Sempre dei.
Ele sorriu de leve.
— Só não quero perder você. — a voz baixou alguns tons. — Nem perder isso que a gente começou a construir.
Amanda abaixou os olhos, como se aquelas palavras a tivessem emocionado. Era exatamente a reação que Jonas esperava encontrar.
— Eu não quero ser um problema na sua vida… — disse ela quase num sussurro. — Você gosta tanto da campanha...
Jonas soltou uma pequena risada.
— Eu gosto. — deu de ombros. — Mas gosto muito mais de você.
Amanda finalmente sorriu, foi um sorriso pequeno e delicado. Suficiente para fazer Jonas sentir que todo aquele sofrimento tinha valido a pena.
Ela passou o polegar lentamente sobre a mão dele.
— Então promete uma coisa?
— O que você quiser.
Ela inclinou um pouco a cabeça.
— Não vai desistir de mim. — fez uma pequena pausa. — Nem quando as coisas ficarem difíceis.
Jonas sorriu daquele jeito cativante que sempre aparecia quando tinha certeza de alguma coisa.
— Amanda… — acariciou o rosto dela. — Eu sou conhecido justamente por isso.
— Pelo quê?
— Quando eu coloco uma coisa na cabeça… — sorriu. — Não tiro por nada.
Ela riu baixinho.
— Engraçado… — os olhos dela brilhavam. — Eu achei que você fosse conhecido justamente por não levar nada a sério.
Jonas acompanhou a risada.
— Isso era antes. — inclinou-se um pouco mais. — Antes de você.
Naquele instante, Jonas teve absoluta certeza de que havia vencido.
Como ela poderia escolher um homem que a traía, gritava e destruía a própria família... quando tinha diante dela alguém disposto a largar a campanha política, enfrentar o próprio pai e assumir dois meninos que nem eram seus?
Aquilo nem parecia uma escolha.
Era óbvio.
Ela ia escolhê-lo.
Foi justamente nesse momento que Helena reapareceu na porta da sala.
Jonas levantou os olhos imediatamente. Bastou olhar para o rosto da irmã para perceber que alguma coisa tinha mudado.
Ela parecia inquieta. Muito mais do que antes.
— Aconteceu alguma coisa?
Helena apontou discretamente para a entrada da casa.
— Tem uma mulher chamando você lá no portão, Amanda.
Amanda franziu levemente a testa.
— Quem será?
Pegou o controle remoto sobre a mesa de centro, ligou a televisão e mudou rapidamente para o sistema das câmeras externas.
Assim que a imagem apareceu, ela soltou um pequeno suspiro.
— Ah… — apontou para a tela. — É minha sogra.
Helena cruzou os braços.
— Ex-sogra.
Amanda deu um sorriso sem graça.
— É… — corrigiu-se. — Minha ex-sogra. — olhou novamente para a televisão. — Vou deixar ela chamar um pouco. Daqui a pouco ela vai embora.
Jonas também olhava para a tela. A senhora parecia realmente nervosa. Andava de um lado para o outro diante do portão enquanto apertava a campainha repetidas vezes e batia no portão.
Helena foi a primeira a estranhar.
— Amanda… — falou calmamente. — Ela não estava com os meninos?
Amanda confirmou com a cabeça.
— Estava.
— Então eu acho melhor você atender.
Helena continuava serena, mas Jonas conhecia aquele tom.
Era o mesmo que ela usava quando percebia alguma coisa errada e ainda não sabia exatamente o quê.
— Pode ter acontecido alguma coisa com eles.
Amanda pareceu hesitar por um instante. Depois sorriu enquanto desligava a TV.
— Você tem razão. — olhou para Jonas. — Me espera aqui? — inclinou-se rapidamente e deu um selinho nele. — Eu já volto.
Assim que ela desapareceu pelo corredor, Helena virou-se imediatamente para o irmão. A expressão dela já não escondia a preocupação.
— Eu não acredito no que eu acabei de ouvir.
Jonas soltou o ar pelo nariz. Já sabia o sermão que vinha.
— Lêlê… — revirou os olhos. — Essa é a minha história de amor.
Aproximou-se dela sorrindo.
— Você já teve a sua. — deu uma leve cutucada na barriga da irmã. — Agora para de querer estragar a minha.
Helena nem sorriu, continuava séria, muito séria.
— Jonas… Essa mulher não tá me passando confiança.
Ele balançou a cabeça imediatamente.
— Você tá vendo problema onde não existe.
— Não. — a resposta saiu firme. — Eu tô vendo perguntas demais... e resposta de menos.
Jonas soltou uma pequena risada. Amanda nunca tinha lhe dado motivo para pensar diferente.
Segurou delicadamente os ombros da irmã.
— Você vai poder visitar a gente quando quiser. — sorriu. — Eu também vou continuar indo na mansão encher tua paciência.
Helena continuava sem retribuir o sorriso.
— Jonas… — a voz saiu quase como um pedido. — Não faz isso agora. Pesquisa mais. Descobre mais coisas. Essa história inteira tá muito estranha.
Ele balançou a cabeça.
— Você tá preocupada porque me ama. Eu sei. Mas eu fui escolhido, Lêlê. Ela quer ficar comigo.
Antes que Helena pudesse responder, um grito atravessou a casa inteira.
— TEM HOMEM AÍ DENTRO?
Os dois congelaram. Outro grito veio logo em seguida, ainda mais alto.
— VOCÊ TÁ COM O AMANTE AÍ? EU TÔ VENDO O CARRO.
Jonas franziu a testa.
Helena fechou os olhos por um segundo e passou a mão na própria testa, como quem via exatamente o desastre se formando diante dos seus olhos.
— Jonas… — Ela segurou o braço do irmão com força. — Acorda! — A voz saiu quase num sussurro. — Essa mulher tá escondendo muita coisa.
Ele olhou para Helena apenas por um instante. Depois voltou a encarar o corredor por onde Amanda havia saído.
Do lado de fora, a discussão aumentava a cada segundo.
Ainda não era possível entender as palavras.
Só o desespero.
Jonas respirou fundo.
— Eu vou lá.
Helena não hesitou.
— Eu também.
Jonas praticamente atravessou a sala de estar e saiu para a varanda em passos largos. Antes mesmo de alcançar o portão, as vozes já chegavam nítidas, atravessando a rua inteira.
— MEU FILHO ME LIGOU DA PRISÃO! — gritava uma senhora, a voz rouca de tanto chorar. — VOCÊ TÁ LOUCA, AMANDA? TÁ LOUCA?
Jonas reconheceu imediatamente outra voz.
— Mãe... por que a gente não pode entrar? — perguntou Enzo, chorando. — A gente mora aqui...
O peito de Jonas apertou.
Amanda permanecia parada na frente do portão, impedindo qualquer tentativa de entrada. O corpo inteiro dela parecia tenso.
— Terezinha, volta pra casa. Eu vou resolver isso depois.
— DEPOIS? — a senhora deu um passo à frente. — EU NÃO VOU EMBORA ENQUANTO VOCÊ TIVER AÍ DENTRO COM OUTRO HOMEM E O MEU FILHO TIVER DORMINDO NUMA CELA!
A voz dela rachou completamente.
— ELE É O SEU MARIDO!
Amanda perdeu a paciência.
— Isso é um problema entre eu e o Gustavo! — apontou para a rua. — A senhora não tinha o direito de trazer os meus filhos pra cá!
Jonas sentiu o sangue gelar.
Ela estava impedindo as crianças de entrarem na própria casa?
Foi então que ele chegou.
— Amanda. — a voz saiu firme.
Ela se virou assustada.
Jonas passou por ela e automaticamente colocou uma das mãos em sua cintura, afastando-a da passagem sem qualquer agressividade.
Só então conseguiu enxergar quem estava do outro lado.
Uma senhora de cabelos grisalhos completamente desalinhados, o rosto inchado, os olhos vermelhos. As mãos tremiam tanto que ela precisava se apoiar no muro para permanecer de pé.
Ao lado dela, Enzo chorava em silêncio, segurando o braço da avó como se tentasse sustentá-la.
Quando Terezinha viu Jonas, levou a mão ao peito.
A dor estampada em seu rosto era tão profunda que ele quase deu um passo para trás.
— Meu filho… — ela sussurrou. As lágrimas voltaram imediatamente. — Meu filho não merecia isso...
Antes que Jonas conseguisse responder, outra voz cortou a confusão.
— Jonas!
Era Théo.
O menino conseguiu escapar da mãe por um instante e correu na direção dele. As bochechas estavam completamente molhadas.
— Eu contei pra vovó… — soluçava tanto que quase não conseguia falar. — Eu falei pra ela guardar segredo do papai… — esfregou os olhos. — Foi culpa minha… — começou a chorar ainda mais alto. — Não fica bravo comigo...
Jonas sentiu o coração apertar. Abaixou-se imediatamente, pegando o garoto no colo.
— Ei… — passou a mão nas costas dele. — Calma.
— Eu estraguei tudo...
— Não estragou nada. — apertou o menino contra o peito. — Tá ouvindo? Nada.
Depois caminhou até a senhora.
— A senhora tá passando mal? — perguntou com verdadeira preocupação. — Deixa eu chamar uma ambulância.
Terezinha afastou a mão dele imediatamente. Como se aquele toque queimasse.
— Não encosta em mim! — a voz saiu carregada de sofrimento. — Você… — respirou fundo. — Você destruiu a família do meu filho.
Jonas ficou completamente perdido.
— Senhora… — tentou manter a calma. — Tá acontecendo algum mal-entendido...
— Eu sei muito bem quem você é! — ela apontou diretamente para ele. — Você é o homem que tá dormindo com a minha nora!
A rua inteira pareceu silenciar por um instante.
Jonas respirou fundo.
Ainda sem entender onde aquela conversa queria chegar.
— Sim. — respondeu honestamente. — A gente tá junto.
Foi Helena quem passou por ele naquele momento, sem elevar a voz, sem perder a calma.
Ela foi direto até a senhora.
— A senhora tá bem? — segurou delicadamente seu braço. — Meu nome é Helena.
Terezinha olhou para ela completamente confusa.
— Quem é você?
— Sou irmã dele. — apontou discretamente para Jonas.
Amanda caminhou rapidamente até eles.
— Helena… — tentou segurá-la pelo ombro. — Vamos entrar. Eu resolvo isso.
Helena retirou o ombro imediatamente. O tapa que deu na mão de Amanda ecoou seco.
— Chega. — a voz não foi alta. Mas carregava uma firmeza que Jonas raramente via na irmã.
Ela respirou fundo antes de continuar.
— Chega de esconder as coisas. — olhou diretamente para Amanda. — Você não deixou os seus próprios filhos entrarem em casa. — depois apontou discretamente para Terezinha. — E olha o estado dessa senhora.
A mandíbula de Amanda endureceu.
— Helena...
— Não. — ela interrompeu. — Agora eu quero entender o que tá acontecendo.
Jonas só então percebeu o movimento ao redor. As portas das casas vizinhas estavam abertas. Pessoas ocupavam as calçadas. Algumas cochichavam. Outras já seguravam celulares apontados para aquela confusão.
Aquilo estava virando um espetáculo.
— Lêlê… — Jonas tentou intervir. — Vamos entrar.
Ela nem olhou para ele. Continuava encarando Amanda.
— Eu fui arrastada pra essa história. Agora eu quero a verdade.
Enzo voltou a chorar. Apontou para o irmão mais novo.
— Foi culpa do Théo… — o nariz escorria enquanto falava. — Eu queria continuar sendo teu amigo… — olhou para Jonas. — Mas ele estragou tudo...
Jonas apertou Théo um pouco mais contra o peito.
— Ei. — sorriu de leve para Enzo. — A gente continua amigo. Sempre.
Depois voltou a olhar para Terezinha. Falou com calma. Como quem realmente queria encerrar aquela dor.
— Senhora… Eu imagino o quanto isso tudo deve estar sendo difícil pra senhora. Mas a Amanda tá seguindo a vida dela. A culpa disso não é dela. Quem destruiu esse casamento foi o seu filho quando resolveu trair ela.
A senhora fechou os olhos. As lágrimas escorreram livremente.
Quando tornou a olhar para Jonas, havia uma mistura de pena e incredulidade.
— Seguindo a vida… — repetiu quase num sussurro. Depois balançou a cabeça lentamente. — Seguindo a vida como? — a voz falhou. — Ela continua sendo casada com ele.
O mundo pareceu parar.
Jonas permaneceu completamente imóvel.
Não piscou.
Não respirou.
Não conseguiu sequer formular um pensamento.
Foi Helena quem falou primeiro, a voz saiu baixa, quase descrente.
— Amanda… — ela sustentou o olhar da mulher. — Você disse pro meu irmão que vocês eram divorciados.
O silêncio que caiu sobre aquela rua foi muito mais pesado do que todos os gritos que haviam vindo antes. Só se ouvia a respiração descompassada de Terezinha... e o coração de Jonas, que parecia acabar de se partir em dois.
Jonas olhou para Amanda como se ainda esperasse que alguém dissesse que tudo aquilo era um enorme mal-entendido.
Os olhos dele procuravam os dela desesperadamente.
Só precisava de uma palavra.
Uma.
Qualquer coisa que desmentisse aquela senhora.
— Me diz que isso é mentira...
A voz saiu baixa, completamente diferente da de alguns minutos antes. Já não havia segurança. Nem charme. Nem o homem que prometia enfrentar o pai, abandonar a campanha e construir uma família.
Só existia alguém implorando para não ter acreditado na pessoa errada.
As lágrimas começaram a encher seus olhos.
— Me diz… — engoliu em seco. — Você é casada?
Amanda fechou os olhos por um instante.
Passou a mão pelo rosto devagar, como quem tentava organizar uma resposta que já sabia não existir.
Quando voltou a encará-lo, também chorava.
— Jonas… — respirou fundo. — Eu me apaixonei por você. — a voz falhava. — Eu nunca imaginei que aquilo que começou casualmente fosse virar isso.
Deu mais um passo na direção dele.
— Você acabou de dizer que quer ficar comigo...
Jonas recuou automaticamente, um passo, depois outro. Como se ela tivesse acabado de empurrá-lo.
O peito parecia pequeno demais para o ar que tentava entrar.
Naquele instante, ele não pensava na mentira.
Nem na humilhação.
Pensava apenas em uma coisa.
Ele tinha sido o amante.
Justamente ele.
O homem que sempre repudiou qualquer forma de traição.
O filho que prometeu ao pai nunca misturar trabalho com relacionamento.
O irmão que acabou de enfrentar Heitor por um erro que ele mesmo havia cometido.
Logo ele.
Sentiu um gosto amargo subir pela garganta.
Olhou para Théo em seus braços.
O menino continuava agarrado ao seu pescoço com toda a força que um garoto de cinco anos conseguia fazer.
Jonas tentou colocá-lo no chão.
— Théo… — a voz quase não saiu. — Me solta, campeão...
Mas o menino apenas apertou o abraço. Escondeu o rosto no pescoço dele.
— Não… — soluçava. — Não vai embora...
Jonas tentou outra vez. As mãos tremiam.
— Por favor...
Quanto mais tentava afastá-lo, mais Théo se agarrava. Como se tivesse medo de perdê-lo para sempre.
Foi ali que Jonas quebrou. Levou uma das mãos ao rosto. Os ombros começaram a tremer.
O primeiro soluço escapou antes mesmo que ele percebesse.
Nunca tinha sentindo tamanha dor como aquela.
Nunca.
Enzo correu imediatamente até ele. Abraçou sua cintura por trás. Também chorava sem conseguir parar.
— Desculpa… — as palavras saíam entrecortadas. — Eu devia ter cuidado do Théo… Eu falei pra ele guardar segredo… Foi culpa nossa...
Jonas fechou os olhos. Sentia uma criança agarrada ao pescoço. Outra abraçada à sua cintura.
E, pela primeira vez na vida...
Desejou simplesmente desaparecer.
Helena assistia a tudo alguns passos atrás. Sentia o coração apertar a cada soluço do irmão.Foi então que alguma coisa dentro dela rompeu.
Ela caminhou decidida até Amanda.
Sem gritar.
Sem avisar.
O tapa atravessou o silêncio da rua.
PLÁC!
Os óculos de Amanda voaram do rosto e caíram no chão.
Por um segundo, ninguém respirou.
Helena permanecia parada diante dela, o peito subia e descia rapidamente. Os olhos castanhos queimavam de indignação.
— Nunca mais… — a voz tremia de raiva. — Nunca mais chega perto da minha família.
Apontou para Jonas, que continuava abraçado aos dois meninos.
— Muito menos do meu irmão.
Terezinha levou a mão à boca. As lágrimas voltaram ainda mais fortes. Olhou para Amanda como quem já não reconhecia a mulher que um dia chamara de filha.
— Eu nunca… — a voz da senhora falhou. Precisou respirar para conseguir continuar. — Eu nunca devia ter colocado você dentro da minha casa.
Amanda levou a mão à bochecha avermelhada.
Olhou primeiro para Jonas.
Depois para Helena.
O desespero começou a aparecer em seu rosto.
— Helena… — a voz saiu desesperada. — Você tinha que me entender. Você mais do que ninguém.
Apontou para ela.
— Você ficou entre o Antônio e o Heitor.
Helena deu um passo à frente. Os olhos faiscavam.
— Você é completamente doente. — a voz saiu firme. Sem um único tremor. — Eu nunca fiquei entre homem nenhum.
Ergueu o queixo.
— Desde o primeiro dia em que eu me apaixonei pelo Heitor, eu fui dele. E vou continuar sendo até o último dia da minha vida.
Olhou para Jonas novamente. As lágrimas voltaram aos seus próprios olhos.
— Já você… — a voz embargou. — Você destruiu a sua família...
Depois apontou para o irmão.
— E ainda arrastou o meu irmão pra dentro da pior parte dessa história.
Respirou fundo. O ódio deu lugar à decepção.
— Eu tinha pena de você. — balançou lentamente a cabeça. — Mas você fez questão de acabar com tudo sozinha. Não sobrou ninguém para destruir. Nem a sua família. Nem a nossa. Nem você mesma.
Foi naquele instante que outro carro entrou na rua.
O sedan de Isaac parou alguns metros atrás dos curiosos que já ocupavam as calçadas. Antes mesmo que o motor fosse desligado completamente, Heitor abriu a porta e praticamente saltou para fora.
Bastou uma rápida olhada para entender que a situação havia saído completamente do controle.
Vizinhos filmando.
Crianças chorando.
Jonas completamente destruído.
E Helena parada diante de Amanda, respirando pesado.
Ele foi direto até a noiva.
— Helê… — segurou delicadamente seu braço. — O que aconteceu?
Helena demorou alguns segundos para responder. Ainda mantinha os olhos presos em Amanda, como se qualquer palavra daquela mulher fosse capaz de fazê-la perder o controle outra vez.
Quando falou, sua voz saiu dura.
— Ela é casada.
Heitor fechou os olhos por um instante.
— Mentiu pra todo mundo. — apontou discretamente para Jonas. — Inclusive pro meu irmão. — respirou fundo. — O Gustavo é realmente marido dela.
Heitor levou automaticamente a mão à testa.
— Puta que pariu...
Foi tudo o que conseguiu dizer.
Enquanto isso, Isaac caminhava na direção do irmão. Conforme diminuía a distância, o coração parecia apertar mais.
Nunca tinha visto Jonas daquele jeito.
Desde pequenos, Jonas sempre foi o mais forte dos dois. O que brigava por ele na escola, o que o buscava quando apanhava no futebol, o que dizia que tudo ficaria bem, mesmo quando nada parecia ficar e de alguma forma acaba ficando.
Agora era ele quem precisava segurá-lo.
Os próprios olhos começaram a arder.
Mas não podia chorar.
Não agora.
Parou diante do irmão, Jonas continuava imóvel.
Théo ainda agarrado ao seu pescoço e Enzo abraçado à sua cintura. Como se aqueles dois meninos tentassem impedir que ele desaparecesse.
Isaac respirou fundo.
Primeiro ajoelhou diante de Enzo.
— Garoto… — a voz saiu surpreendentemente calma. — Vem comigo um pouquinho.
Enzo balançou a cabeça imediatamente. As lágrimas escorriam sem parar.
— Não… — apertou ainda mais a camisa de Jonas. — Eu não quero que ele vá embora.
Isaac fechou os olhos por um segundo.
Depois segurou delicadamente os ombros do garoto.
— Confia em mim. Precisamos ajudar o Jonas agora.
Enzo olhou para o amigo.
Jonas permanecia olhando para o chão, sem reação, sem conseguir sequer levantar a cabeça.
Devagar, o menino soltou a camisa dele. Assim que ficou livre, correu imediatamente para os braços da avó.
Terezinha o abraçou forte, chorando junto com o neto.
Isaac voltou-se para Théo.
O menino continuava agarrado ao pescoço de Jonas com tanta força que seus dedinhos já estavam completamente brancos.
— Você… — chamou com paciência. — Vamos descer.
O garoto fez que não com a cabeça.
— Eu fico com ele.
— Não pode.
— Posso! — o choro voltou ainda mais alto. — Ele prometeu!
Isaac respirou fundo. Tentou soltar uma das mãozinhas. O menino apertou ainda mais.
— Eu quero o Jonas! — a voz saiu desesperada. — Eu quero ele!
Isaac perdeu a paciência.
Não com o garoto.
Com toda aquela situação.
Segurou Théo com firmeza pela cintura e, mesmo com o menino se debatendo, conseguiu afastá-lo dos braços de Jonas.
O choro ecoou pela rua inteira.
— JONAAAAAS!
As perninhas chutavam o ar.
Os braços tentavam voltar para ele.
— NÃO! EU QUERO O JONAS!
Isaac caminhou diretamente até Amanda.
Praticamente colocou o menino em seus braços.
— Segura o teu filho. — a voz saiu firme e fria. — Eu vou levar o meu irmão embora.
Amanda mal conseguiu segurá-lo. Théo se debatia tanto que quase escapou novamente.
— ME SOLTA! — gritava. — EU QUERO O JONAS! EU QUERO!
Amanda tentava abraçá-lo.
— Filho… Calma.
— NÃO! — ele empurrava a mãe com as mãozinhas. — Você fez o Jonas e o papai chorarem! Eu não gosto mais de você!
Aquelas palavras atingiram Amanda como uma flecha.
Mas Isaac já havia voltado para Jonas, segurou delicadamente sua mão. A mesma mão que tantas vezes o puxou quando eram crianças.
Agora era a vez dele.
— Vamos embora, irmão. — falou baixinho. — Vem.
Jonas finalmente deu um passo, depois outro. Como um homem que caminhava sem realmente saber para onde. Escondeu o rosto na própria camisa.
Naquele momento, pouco importava quem estava filmando.
Só não queria que ninguém visse o tamanho da dor que carregava.
Heitor observou rapidamente os celulares apontados para eles.
Cada segundo ali significava mais exposição.
Mais vídeos.
Mais manchetes.
Segurou a mão de Helena.
— Amor. — falou baixo. — Tá todo mundo filmando. Precisamos tirar o Jonas daqui agora.
Helena respirou fundo, mas antes de responder voltou a olhar para Amanda.
O ódio ainda queimava dentro dela.
— E o Gustavo? — perguntou. — Vai continuar preso por causa dessa mulher?
Heitor balançou a cabeça.
— Não. Já peguei o contato do delegado. Vou retirar a ocorrência. Ele não merece responder por uma coisa que nasceu de uma mentira.
Helena apenas assentiu.
Respirou fundo.
— O carro do Jonas tá na garagem.
Heitor olhou para dentro da casa.
— Eu busco.
Depois encarou Amanda. A expressão dele era completamente diferente da de alguns minutos antes.
Fria.
Autoritária.
— Abre a garagem. Agora. Antes que eu chame a polícia pra abrir por você.
Amanda apenas apertou o controle.
O portão começou a subir lentamente.
Enquanto isso, Théo tentava escapar de seus braços.
— EU QUERO O JONAS! — esperneava sem parar.
— FILHO! — Amanda já chorava também. — Para!
Ela acabou segurando o braço do menino com mais força do que pretendia.
— Vai pro teu quarto! Agora!
— NÃO VOU! — o garoto gritava cada vez mais alto. — O JONAS É MEU AMIGO!
Do outro lado, Isaac continuava conduzindo o irmão até o carro.
Foi quando Jonas sentiu uma mãozinha pequena encaixar-se na sua.
Olhou para baixo.
Enzo.
O menino caminhava ao lado dele, tentando acompanhar seus passos largos. Os olhos estavam completamente inchados.
— Você prometeu… — a voz saiu entre soluços. — Você falou que a gente ia sair de novo… — apertou mais forte sua mão. — Não vai embora...
Jonas sentiu as lágrimas voltarem. Não conseguiu responder. A garganta simplesmente fechou.
Isaac olhou para o garoto. O coração doía por ele. Mas precisava proteger o irmão.
— Campeão… — falou com carinho. — Solta ele. Por favor.
Enzo fez que não.
— Eu não quero perder meu amigo...
Terezinha aproximou-se devagar. Também chorava. Passou a mão pelos cabelos do neto.
— Filho… — a voz saiu completamente quebrada. — Deixa ele ir.
Enzo olhou para a avó, depois para Jonas. Parecia que seu pequeno mundo também estava desmoronando.
Por fim, soltou lentamente a mão dele.
Mas, antes que Jonas entrasse no carro, correu de volta até Amanda. As lágrimas escorriam sem parar. Puxou a barra da blusa da mãe.
— Mãe… — a voz era puro desespero.— Fala pro Jonas ficar… — olhou rapidamente para o amigo. — Eu converso com o papai. Eu prometo.
A inocência daquela frase foi capaz de partir o coração de todos que estavam ali. Porque, no mundo de Enzo, bastava conversar. Bastava pedir. Ele ainda não sabia que existiam dores que nem o amor de uma criança conseguia consertar.
Os três entraram no carro sem trocar uma palavra.
Isaac assumiu o volante. Helena sentou no banco do passageiro, enquanto Jonas permaneceu atrás, afundado no banco, os cotovelos apoiados sobre os joelhos e a cabeça baixa. As mãos continuavam entrelaçadas com tanta força que os nós dos dedos já haviam perdido a cor.
Do lado de fora, Heitor entrou no carro de Jonas para buscá-lo. Assim que viu Isaac arrancar, ligou o motor e passou a segui-los em silêncio.
Dentro do veículo, só se ouvia o barulho do ar-condicionado e o trânsito do fim da tarde carioca.
Helena olhou pelo retrovisor algumas vezes. O irmão continuava exatamente na mesma posição. Nem sequer enxugava as lágrimas. Parecia completamente vazio.
Ela sentiu vontade de dizer alguma coisa. Qualquer coisa. Mas conhecia Jonas o suficiente para saber que existiam dores que precisavam de alguns minutos de silêncio antes de aceitarem qualquer palavra.
Foi Isaac quem quebrou aquele clima. Sem tirar os olhos da rua, perguntou calmamente:
— Pra onde?
Helena respirou fundo antes de responder.
— Vamos pra sua casa. É mais perto daqui.
Isaac fez um pequeno gesto afirmativo com a cabeça.
— Pode ser. — tentou até esboçar um sorriso. — Só não repara na bagunça. Minha casa nunca tá pronta pra receber visita.
Helena sorriu de leve.
Era típico dele tentar aliviar um ambiente pesado, mesmo quando o próprio peito também estava apertado.
Mas o sorriso durou pouco.
O celular de Jonas começou a tocar. A tela iluminou o banco traseiro. Jonas sequer levantou a cabeça. O telefone vibrou uma vez. Depois outra. Até silenciar sozinho.
Helena apenas olhou pelo retrovisor.
Não insistiu.
Se ele não conseguia atender uma ligação, também não conseguiria explicar para ninguém o que estava sentindo.
Poucos segundos depois, o celular dela começou a tocar.
Ela olhou a tela.
PAULO MEDEIROS.
O coração acelerou imediatamente. Respirou fundo antes de atender.
— Alô...
Do outro lado, não era a voz do pai.
— Senhora Helena? — a voz masculina era conhecida, formal e controlada.
— Sim...
— Aqui é o doutor Travenas, chefe de gabinete do governador Paulo Medeiros.
Helena endireitou a postura sem perceber.
— O Jonas está com a senhora?
Ela olhou rapidamente pelo retrovisor. O irmão continuava imóvel.
— Está. Ele... não está muito bem.
Do outro lado, houve um breve silêncio.
— Entendo. — a voz permaneceu profissional. — Preciso que os senhores compareçam imediatamente à residência do doutor Paulo Medeiros.
Helena franziu a testa.
— Aconteceu alguma coisa?
— Precisamos conversar sobre alguns vídeos que começaram a circular nas redes sociais. E sobre algumas acusações que chegaram ao gabinete.
Foi como levar um soco no estômago.
Já tinham chegado.
Tudo.
Ela engoliu em seco.
— Nós estamos indo.
— Estaremos aguardando.
A ligação terminou.
Durante alguns segundos, Helena permaneceu olhando para a tela apagada do celular.
Sem conseguir organizar os pensamentos.
Ela ainda processava o fato de que aquilo já havia chegado ao gabinete do governador quando ouviu Isaac falar, ainda olhando para a rua.
— Eu ouvi. — a voz dele saiu muito mais baixa do que o normal. — Vou direto pra casa do pai.
Helena virou lentamente o rosto para ele.
— Eles já sabem...
Isaac apenas assentiu.
— Sabem.
O silêncio voltou a ocupar o carro. Foi então que ele completou, quase num sussurro:
— O pai não quis ligar.
Helena franziu a testa.
Não entendeu.
— Como assim?
Isaac demorou alguns segundos para responder. Parecia escolher cuidadosamente as palavras.
— O doutor Travenas é o chefe de gabinete. — segurou o volante com mais força. — Quando é ele quem liga… — respirou fundo. — É porque o pai não quis falar.
Só então Helena percebeu que havia alguma coisa muito maior acontecendo.
Ela conhecia Paulo havia pouco mais de um ano.
Ainda estava aprendendo como aquela família funcionava. Mas bastou olhar para Isaac para entender que aquilo não era comum.
O rosto dele estava completamente fechado. O maxilar contraído. Os dedos apertavam o volante com tanta força que os tendões saltavam nas mãos.
Foi nesse instante que ela olhou novamente pelo retrovisor.
Jonas continuava imóvel.
Mas agora apertava o tecido da própria calça com tanta força que parecia querer rasgá-lo.
Ele também tinha entendido.
Melhor do que qualquer um dentro daquele carro.
Desde pequeno, existia apenas uma regra que Paulo repetia para os dois filhos.
Nunca misturem a vida afetiva com a política.
Era a única promessa que Jonas jamais imaginou quebrar.
E justamente essa...
Ele havia destruído.
Fale com o autor