O CEO que Eu Paguei
243 Escolhas - Parte II
Notas iniciais
Amanda acordou estranhamente aérea naquela manhã. Enquanto preparava o café, colocou açúcar duas vezes na própria xícara sem perceber. A cabeça parecia distante da cozinha, distante da casa, distante até dela mesma. Voltava repetidamente para a conversa da copa, como se alguém insistisse em rebobinar aquela cena dentro da sua cabeça. Quanto mais lembrava da própria voz dizendo "eu também gostaria de ter te conhecido em outro lugar", mais vontade tinha de esconder o rosto em algum lugar. Por que tinha falado aquilo? O que havia dado nela? Foi apenas uma frase, um comentário impulsivo, um flerte completamente inofensivo... ou pelo menos era isso que repetia para si mesma desde a noite anterior.
Terminou de se arrumar quase no automático. Vestiu a camisa social, passou perfume, pegou a bolsa e conferiu rapidamente se o notebook estava dentro dela. Já estava destrancando o carro quando ouviu Gustavo chamá-la do portão.
— Querida!
Amanda virou o rosto e o viu atravessando a garagem praticamente trotando, um sorriso enorme estampado no rosto e a mão fechada como quem escondia alguma coisa. Ela esperou até que ele se aproximasse e, quando Gustavo abriu a palma da mão, sentiu um pequeno aperto no peito. As duas alianças estavam ali, brilhando como se tivessem acabado de sair da vitrine.
— Quase esqueceu isso aqui.
Amanda olhou automaticamente para a própria mão esquerda e só então percebeu que realmente havia saído sem a aliança.
— Meu Deus... eu nem lembrei.
— Eu imaginei. — Gustavo sorriu daquele jeito satisfeito de quem tinha conseguido evitar um pequeno desastre. Segurou delicadamente a mão dela e deslizou a aliança de volta para o dedo anelar. O ouro parecia novo. Polido. Brilhava tanto que Amanda precisou mover a mão para enxergar melhor. Gustavo deu um passo para trás apenas para admirar o resultado, cruzou os braços e fez cara de aprovação. — Agora sim. De longe já dá pra ver que essa mulher é casada. Ela já tava tão sem brilho que ninguém enxergava mais.
Amanda riu baixinho.
— Você exagera demais.
— Exagero nada. — Ele aproximou o rosto dela novamente, ainda segurando sua mão. — Casamento também merece manutenção. Igual carro. Igual casa. Igual tudo que a gente ama.
Ela sorriu.
Gostava daquele romantismo bobo dele.
Gostava da maneira como Gustavo encontrava motivos para transformar coisas simples em pequenos rituais dos dois. Toda vez que as alianças voltavam da joalheria ela tinha exatamente a mesma sensação: era como se estivesse sendo pedida em casamento outra vez.
Gustavo então a observou dos pés à cabeça, demorando um pouco mais do que o normal.
— Aliás… — os olhos dele brilharam. — Você tá muito bonita.
Amanda abaixou discretamente o rosto.
— Obrigada.
— E espero ser acordado mais vezes daquele jeito.
Ela sentiu o rosto esquentar imediatamente.
— Gustavo...
Ele apenas deu uma piscadinha.
— Tô falando sério.
Quando Amanda voltou a caminhar em direção ao carro, ele segurou delicadamente seu braço, puxando-a de volta apenas o suficiente para roubar outro beijo. Foi um beijo tranquilo, carinhoso, daqueles que os dois trocavam quase todos os dias antes do trabalho.
— Tenha um bom dia, querida.
— Você também.
Amanda entrou no carro, fechou a porta e permaneceu alguns segundos sem ligar o motor. A culpa veio com uma força inesperada. Não porque tivesse feito alguma coisa concreta. Não tinha. Mas bastava olhar para Gustavo através do para-brisa, acenando sorridente enquanto ela saía da garagem, para sentir que havia alguma coisa errada acontecendo dentro dela. Aquela culpa parecia injusta. Gustavo não fez absolutamente nada para merecê-la.
Durante o trajeto até a campanha, a atenção dela se dividia entre o trânsito e o brilho da aliança sobre o volante. O ouro refletia a luz da manhã toda vez que ela mudava as mãos de posição. Amanda passou o polegar sobre a superfície lisa diversas vezes durante o caminho, quase como se precisasse lembrar a si mesma de tudo que aquele pequeno círculo representava. Eram quase dez anos de casamento. Dois filhos. Uma vida inteira construída ao lado de Gustavo. Não existia dúvida nenhuma sobre o amor que sentia por ele. Nunca existiu.
Quando estacionou no prédio da campanha, porém, não desceu imediatamente. Ficou alguns minutos sentada dentro do carro, olhando novamente para a própria mão. A aliança parecia ainda mais bonita depois de polida.
E agora?
O que faria se encontrasse Jonas?
Explicaria que tudo aquilo não passou de uma brincadeira? Mas explicar o quê? Talvez ele nem tivesse pensado mais na conversa da copa. Talvez já tivesse esquecido completamente. Jonas conversava com dezenas de pessoas todos os dias. Era carismático. Extrovertido. Trabalhava praticamente com o prédio inteiro. Por que daria importância justamente para aquela conversa de cinco minutos?
Amanda soltou um longo suspiro e apoiou a testa sobre o volante por alguns instantes.
Era melhor fingir que nada tinha acontecido.
Porque, no fundo, realmente não tinha acontecido.
Foi só uma conversa.
Uma mentira impensada.
Uma frase dita sem pensar.
Ela amava Gustavo.
Continuava amando.
Então por que, toda vez que lembrava de Jonas olhando para ela daquele jeito, seu coração insistia em acelerar antes que a razão conseguisse colocar tudo de volta no lugar?
Ela fechou os olhos por um instante e respirou profundamente.
Precisava enterrar aquilo.
Antes que deixasse de ser apenas um pensamento.
Amanda chegou ao andar decidida a agir como se nada tivesse acontecido. Durante todo o trajeto repetiu a mesma frase para si mesma: foi só uma conversa. Uma conversa completamente sem importância. Bastava trabalhar. Era só isso. Se ocupasse a cabeça com relatórios, gráficos e reuniões, aquela sensação estranha desapareceria naturalmente.
Ligou o computador, abriu os relatórios da equipe e mergulhou nos números antes mesmo que os primeiros colegas chegassem. Respondia e-mails, atualizava alguns gráficos e fazia pequenas anotações em um bloco ao lado do teclado, tentando convencer o próprio cérebro a pensar em qualquer outra coisa que não fosse Jonas. Não estava funcionando muito bem.
Ela estava tão distraída que só percebeu a movimentação no corredor quando algumas batidas fortes ecoaram na parede da sala.
— Acorda, cambada!
Amanda ergueu os olhos quase no mesmo instante.
Jonas estava parado na porta.
Apoiava um dos ombros no batente enquanto batia os nós dos dedos contra a parede, chamando a atenção da equipe inteira. Parecia que nunca aprendia a andar devagar. Tudo nele tinha movimento. Enquanto falava, as mãos acompanhavam naturalmente as palavras, apontando para o corredor, chamando as pessoas, fazendo gestos largos como se estivesse contando uma história para velhos amigos, e não apenas avisando que havia comida lá embaixo.
Amanda o viu.
E, antes mesmo de pensar...
Escondeu a mão esquerda debaixo da mesa.
Foi um reflexo.
Um gesto completamente irracional.
Ela mesma só percebeu o que tinha feito quando seus dedos apertaram discretamente a aliança contra a parte de baixo do tampo da mesa.
O coração acelerou.
"Meu Deus... por que eu fiz isso?"
Jonas ainda nem tinha olhado para ela.
Ou tinha?
Ela já não sabia mais.
Continuou com a mão escondida, sentindo o metal frio entre os dedos, como se aquele pequeno anel pudesse denunciá-la de alguma forma. Era absurdo.
A vergonha veio quase imediatamente.
Vergonha de si mesma.
Vergonha daquele impulso.
Vergonha por perceber que, em algum lugar dentro dela, existia uma vontade que até então ela fingia não enxergar.
— Ganharam um café da manhã lá embaixo! — Jonas anunciou para a sala inteira, abrindo os braços com animação. — Bora antes que o povo da comunicação acabe com tudo.
Alguns colegas levantaram na mesma hora. Outros responderam que já estavam indo. Jonas continuou sorrindo, conversando rapidamente com quem passava perto da porta, até que seus olhos encontraram Amanda.
Ela teve a impressão de que o tempo diminuiu. Ele sorriu exatamente como sorria para todo mundo.
Não havia nada diferente.
Mesmo assim...
Ela sentiu o corpo inteiro responder ao sorriso dele.
— Bora lá comer, Amandinha.
Foi só isso.
Uma única palavra diferente.
Mas bastou aquele diminutivo para que Amanda sentisse novamente aquela descarga quente atravessar seu corpo. O estômago pareceu afundar, as mãos ficaram levemente úmidas, sentiu sua parte umedecer e, por um segundo ridiculamente longo, ela esqueceu completamente do relatório aberto na tela do computador. Jonas nem esperou resposta. Continuou chamando o restante da equipe, fez alguma piada com um assessor que passava pelo corredor e desapareceu dali tão naturalmente quanto havia chegado.
Amanda permaneceu imóvel.
Continuava com a mão escondida debaixo da mesa.
Só então percebeu que ainda segurava a aliança como se precisasse protegê-la de alguém.
Soltou os dedos devagar.
Respirou fundo.
Olhou novamente para o monitor.
Não conseguiu ler uma única linha.
"Amandinha."
Era um apelido bobo.
Provavelmente ele nem tinha pensado antes de falar.
Mesmo assim… ela gostou. Gostou muito mais do que deveria e isso era o que realmente a assustava.
Porque não era o apelido. Era o que ele representava.
Amanda não queria Jonas. Pelo menos era isso que continuava repetindo para si mesma.
O que ela queria era aquela sensação. A sensação de ser percebida. De ser lembrada. De despertar atenção em um homem que, segundo o escritório inteiro, podia ter praticamente qualquer mulher que quisesse. Fazia anos que ninguém a olhava daquela forma. Fazia anos que ela não se perguntava se ainda era interessante para alguém além do próprio marido. Aquilo massageava um pedaço da sua autoestima que ela nem sabia que estava machucado.
Sem perceber, começou a construir uma fantasia completamente juvenil.
"E se ele realmente estiver interessado?"
A ideia fez um sorriso quase surgir.
Não porque ela quisesse ficar com Jonas. Mas porque imaginou como seria divertido inverter aquela história. Imaginar Jonas Medeiros correndo atrás dela.
Mandando mensagem.
Insistindo.
E ela, no fim, recusando tudo com um sorriso tranquilo.
Seria apenas isso.
Uma confirmação.
A prova de que ainda conseguia despertar desejo. Depois cada um seguiria a própria vida.
Amanda baixou os olhos lentamente para a mão esquerda. A aliança brilhava sob a luz branca do escritório. Passou o polegar sobre ela várias vezes.
Pensou em Gustavo.
Pensou nos meninos.
Pensou no beijo que recebeu antes de sair de casa.
A mão ficou imóvel durante longos segundos. Ela sabia que aquilo era errado antes mesmo de acontecer.
Mesmo assim...
Segurou delicadamente a aliança entre os dedos, parou no meio do movimento.
Fechou os olhos.
Respirou fundo.
"É só durante o expediente."
"Quando eu chegar em casa, coloco de novo."
"Eu não vou fazer nada."
"É só..."
Nem ela conseguiu terminar a frase.
A aliança finalmente deslizou para fora do dedo.
Amanda ficou olhando para ela repousada na palma da própria mão. Nunca um objeto tão pequeno pareceu carregar tanto peso. Sentia como se estivesse tirando muito mais do que um anel. Era como se uma parte do próprio caráter tivesse escorregado junto com aquele círculo de ouro.
Ainda assim...
Abriu lentamente a bolsa.
Guardou a aliança no bolso interno.
Amanda caminhou até a copa tentando afastar da cabeça o peso da aliança escondida na bolsa. O café da manhã ocupava praticamente toda a bancada. Cestos de pães ainda quentes, frutas já cortadas, bolos, salgados, sanduíches, café fresco e uma quantidade exagerada de refrigerantes espalhados pela mesa. O ambiente estava muito mais leve do que nos últimos dias. As pessoas conversavam alto, riam umas das outras e alguém comentou que Paulo Medeiros havia mandado aquele café como agradecimento pelo empenho da equipe. A campanha estava exigindo muito de todos, e um gesto simples daqueles bastava para mudar completamente o humor do escritório.
Amanda pegou um prato de papel e começou a se servir. Escolheu um enroladinho de queijo, um pedaço pequeno de bolo e ainda estava decidindo se pegaria café ou suco quando sentiu uma mão pousar demoradamente sobre a parte de cima do seu braço.
O toque foi firme, quente... Ela virou o rosto imediatamente.
— E aí, Amandinha...
Jonas sorria como se aquele cumprimento fosse a coisa mais natural do mundo. A mão dele permaneceu ali por um ou dois segundos a mais do que realmente precisava antes de começar a deslizar lentamente pelo braço dela até se afastar completamente. Talvez nem tivesse percebido que fizera aquilo. Ou talvez tivesse. Amanda não fazia ideia.
O que sabia era que o lugar onde ele havia tocado parecia queimando.
Fazia anos que não sentia aquela reação física tão instantânea. A mesma sensação da adolescência. As borboletas no estômago. O coração disparando sem motivo. O corpo inteiro parecendo responder antes da própria cabeça.
Ela respirou discretamente.
— Oi...
Jonas olhou para o prato que ela segurava.
— O que tá comendo aí?
— Enroladinho de queijo.
Ele fez uma expressão curiosa.
— Deixa eu provar então.
Sem esperar resposta, pegou um da bandeja, deu uma mordida e fechou os olhos por um instante, exagerando a reação.
— Pô... tá bom mesmo. — apontou o salgado para ela. — Tu fez uma ótima escolha.
Amanda sorriu sem perceber.
Foi só então que notou o quanto ele estava perto.
Jonas sempre foi um homem de respeitar muito a distância física entre as mulheres da campanha. Agora, ali ele não estava encostando nela, mas permanecia dentro do espaço onde normalmente só pessoas íntimas permaneciam. Curiosamente, ele parecia completamente confortável ali.
— Vou buscar uma Guaravita. Quer alguma coisa?
Amanda balançou a cabeça.
— Eu mesma pego.
— Ah, qual é. — fez um gesto largo com a mão. — Deixa eu fazer uma gentileza.
Ela sorriu de lado.
— Então... uma Fanta Laranja.
— Fechado.
Jonas saiu caminhando em direção aos refrigerantes, cumprimentando algumas pessoas pelo caminho. Amanda o acompanhou com os olhos antes mesmo de perceber que estava fazendo isso. Ele tinha os ombros largos, caminhava com uma confiança impressionante e parecia conhecer absolutamente todo mundo naquele prédio. Parava para brincar com um assessor, respondia alguma coisa para outra equipe e continuou andando.
Ela desviou os olhos.
Gostava daquele tipo físico.
Sempre gostou.
Na época da faculdade, antes das academias virarem febre, os rapazes dos campeonatos universitários costumavam ter exatamente aquele corpo. Nem exagerado, nem franzino. Apenas forte.
"Meu Deus..."
Pensou consigo mesma.
"Para de olhar."
Jonas voltou poucos segundos depois segurando as duas latinhas.
— Prontinho.
Amanda estendeu a mão.
Quando os dedos dos dois se tocaram por um breve instante durante a entrega da Fanta, uma sensação completamente desproporcional percorreu seu braço. Foi um toque mínimo. Quase inexistente. Ainda assim, parecia que alguma corrente elétrica tinha atravessado sua pele.
— Obrigada.
— Nada.
Jonas abriu a própria Guaravita, tomou um gole longo e apoiou o quadril na bancada atrás dele. Durante alguns segundos apenas observou o movimento da copa, conversando rapidamente com quem passava por perto. Depois voltou a olhar para Amanda.
Havia alguma coisa diferente naquele olhar.
Ela não saberia explicar o quê.
Não era mais intenso.
Nem mais ousado.
Parecia apenas... mais atento.
— Sabe… — ele girou a latinha como se estivesse lendo o outro lado do rótulo antes de continuar. — Fiquei pensando no que você comentou ontem.
Amanda sentiu um frio atravessar a barriga.
— O quê?
— Aquele negócio do divórcio.
Ela parou a Fanta no meio do caminho. A mentira voltava para cobrá-la.
— Ah...
Jonas continuou falando num tom tranquilo, quase casual, como quem apenas puxava assunto.
— Faz muito tempo?
— Faz...
A resposta saiu depressa demais. Ele assentiu devagar.
— Deve ter sido uma fase complicada.
Amanda baixou os olhos para a lata.
— Foi.
O silêncio durou alguns segundos.
Jonas parecia respeitá-lo. Mas havia uma curiosidade discreta no jeito como a observava.
— Engraçado...
Amanda ergueu novamente os olhos.
— Quando te vi sem aliança ontem, achei até que você tinha perdido ela. — sorriu de lado. — Porque até esses dias tu usava.
O estômago dela afundou. Estava sendo encurralada pela própria mentira.
— É que… — a voz quase falhou. — Eu demorei pra parar de usar.
Jonas olhou rapidamente para a mão esquerda dela. Depois voltou para o rosto.
— Faz sentido. — tomou mais um gole da Guaravita. — Mas vou te falar uma coisa de homem.
Ela permaneceu em silêncio.
— A aliança acaba prendendo um pouco também.
Amanda franziu a testa.
— Como assim?
Ele deu de ombros.
— O cara bate o olho. — apontou discretamente para o dedo anelar dela. — Vê uma aliança. Nem tenta conversar.
Falou aquilo sem qualquer malícia. Como se estivesse apenas constatando um fato.
Amanda ficou pensando na frase.
Jonas continuou:
— Então quer dizer que agora tu tá começando uma fase nova?
Ela demorou alguns segundos para responder. A resposta correta seria encerrar aquele assunto. Dizer que ainda estava tentando reorganizar a vida. Mas alguma coisa dentro dela queria prolongar aquela conversa. Queria continuar recebendo aquela atenção. Queria saber até onde aquilo iria.
Respirou fundo.
— Acho que sim.
Fez uma pequena pausa. Depois acrescentou, quase num impulso:
— Na verdade... acho que finalmente tô pronta pra conhecer alguém.
Jonas permaneceu alguns segundos olhando para ela. Parecia apenas absorver aquela informação. Então o canto da boca subiu discretamente. Ele ergueu a latinha.
— Então… — esperou que ela levantasse a Fanta também. — Um brinde ao teu novo começo.
Amanda encostou a lata na dele.
Depois do brinde, Jonas foi chamado por um grupo de assessores perto da janela. Amanda o viu atravessar a copa no mesmo ritmo de sempre, cumprimentando um, dando um tapa amigável no ombro de outro e entrando naturalmente na roda de conversa. Em poucos segundos, todos já discutiam futebol como se aquele assunto fosse muito mais importante do que uma eleição presidencial. Ela ouviu alguém defender o Flamengo com entusiasmo, outro reclamar da seleção brasileira e Jonas responder alguma coisa que arrancou gargalhadas do grupo inteiro.
Ele parecia pertencer a qualquer ambiente. Era curioso observar aquilo. Não precisava fazer esforço para chamar atenção. As pessoas simplesmente gostavam da presença dele.
Amanda ainda ficou alguns segundos olhando naquela direção, até que uma colega da equipe de Inteligência a chamou para comentar uma pesquisa. Logo depois veio outro analista pedir ajuda com alguns gráficos e, quando percebeu, já estava novamente mergulhada no trabalho. O restante da manhã transcorreu normalmente. Reuniões, planilhas, ligações, pequenas decisões que precisavam ser tomadas com rapidez. Ainda assim, de vez em quando, sem motivo aparente, sua cabeça voltava para a conversa da copa.
Ela não entendia o que tinha acontecido. Nem o que aquilo significava. Na verdade, talvez não significasse absolutamente nada.
Era possível que Jonas conversasse daquele jeito com todas as mulheres do escritório. Talvez aquele fosse apenas o jeito dele. Leve. Carismático. Atencioso.
Mesmo assim...
Amanda não conseguia negar que havia saído daquela conversa diferente.
Mais leve.
Como se uma parte dela, adormecida havia muitos anos, tivesse acordado de repente e isso a assustava.
Quando o expediente terminou, Amanda entrou no carro e permaneceu alguns segundos em silêncio antes de ligar o motor. Abriu a bolsa, encontrou a aliança no bolso interno e ficou observando o pequeno círculo de ouro repousado na palma da mão.
Respirou fundo.
Deslizou-a novamente para o dedo.
O encaixe foi imediato.
Familiar.
Quase reconfortante.
Era como se aquela simples atitude encerrasse tudo o que tinha acontecido durante o dia.
"Pronto."
"Acabou."
Sorriu discretamente para si mesma e deu partida.
Em casa, a rotina voltou a ocupar todos os espaços.
Théo apareceu correndo para mostrar um desenho novo. Enzo queria contar como tinha ido uma partida de videogame com os amigos. Gustavo chegou pouco depois, cansado, mas ainda disposto a brincar com os meninos antes do jantar.
Amanda preparou uma panela enorme de pipoca enquanto os três discutiam qual filme assistiriam.
No fim, venceu Sonic 3.
A paz finalmente voltou à sala.
Durante semanas Enzo brigou porque dizia ser o Sonic. Depois do filme, porém, mudou completamente de ideia.
— Agora eu sou o Shadow.
Théo imediatamente protestou.
— Não! Eu que sou! — ele fez uma cara pensativa. — Então eu sou o Sonic! — sorriu satisfeito.
— Pode ser ele, o Shadow é infinitamente mais legal.
Os dois começaram uma discussão tão séria que Amanda e Gustavo não conseguiram conter a risada.
Por alguns instantes, olhando os quatro juntos na sala, Amanda teve a nítida sensação de que aquela era exatamente a vida que sempre sonhou construir.
Uma casa simples. Um marido que a fazia rir. Dois filhos saudáveis. Planos para comprar um apartamento maior.
Nada daquilo era pouco, muito pelo contrário. Era muito. Talvez por isso a culpa doesse tanto.
Mais tarde, quando a casa finalmente ficou em silêncio e os meninos já dormiam, Gustavo aproximou-se dela naturalmente.
Era um gesto comum entre os dois, sem grandes cerimônias, sem necessidade de palavras. Amanda correspondeu ao carinho do marido, tentando deixar a cabeça completamente vazia.
Queria apenas estar ali, naquele quarto, naquela vida e com aquele homem. Mas, conforme os minutos passavam, percebeu que havia alguma coisa diferente. Na noite anterior existia uma intensidade difícil de explicar. Uma inquietação quase elétrica que parecia percorrer seu corpo inteiro.
Naquela noite...
Não.
Tudo parecia exatamente como sempre foi, carinhoso, confortável e familiar. E justamente por isso Amanda sentiu um aperto inesperado no peito.
Não porque tivesse faltado amor, o amor continuava ali. Mas aquela sensação inexplicável que a acompanhou desde a conversa na copa simplesmente havia desaparecido.
Quando Gustavo adormeceu alguns minutos depois, Amanda permaneceu acordada, olhando para o teto escuro do quarto.
Talvez tivesse sido apenas adrenalina.
Talvez curiosidade.
Talvez vaidade.
Ela não sabia.
Só sabia de uma coisa.
Pela primeira vez em muitos anos, alguma coisa dentro dela havia despertado e ela ainda não fazia ideia de como fazê-la voltar a dormir.
Na manhã seguinte, Amanda repetiu exatamente o mesmo ritual.
Assim que estacionou, abriu a bolsa, retirou cuidadosamente a aliança do dedo e a guardou no mesmo bolso interno do dia anterior. Já não demorou tanto para tomar a decisão. Na verdade, ela percebeu isso com um certo desconforto. O gesto que na primeira vez pareceu enorme agora acontecia quase automaticamente. Ainda sentia culpa, mas já não era aquela culpa sufocante. Era uma voz baixa no fundo da consciência dizendo que aquilo não estava certo.
O restante da manhã foi uma enorme decepção.
Amanda mal encontrou Jonas.
Os dois se cruzaram apenas uma vez no corredor, quando ele saía de uma reunião carregando uma pasta cheia de modelos de santinhos.
— Bom dia, Amandinha.
Sorriu rapidamente enquanto passava.
Ao cruzarem, Jonas encostou de leve a mão no meio das costas dela para dar passagem. O toque durou um segundo a mais do que o necessário, mas provavelmente só porque havia outras pessoas atravessando o corredor ao mesmo tempo.
Ele continuou andando, nem olhou para trás.
Amanda permaneceu parada por um instante. Sentia exatamente o lugar onde a mão dele havia tocado. Aquilo bastou para deixá-la sorrindo pelos próximos vinte minutos e isso a irritava.
Porque, no fim das contas… Não tinha acontecido absolutamente nada.
Na manhã seguinte, Amanda acordou decidida a parar de esperar.
Passou metade da primeira hora de trabalho tentando encontrar um motivo plausível para conversar com Jonas. Pensou em perguntar alguma coisa sobre uma pesquisa, depois descartou a ideia porque podia muito bem perguntar para outra pessoa. Cogitou levar um relatório que ele nem tinha pedido. Também desistiu.
No fundo… ela só queria conversar. A aquele pensamento fez seu coração acelerar.
Respirou fundo e levantou da cadeira.
"É só uma conversa."
Repetiu isso mentalmente durante todo o caminho até a mesa dele.
Jonas estava sozinho.
O notebook aberto ocupava quase toda a bancada. Havia três canecas vazias de café espalhadas pela mesa, uma pilha de papéis rabiscados e o celular vibrando sem parar ao lado do teclado.
Ele soltou um suspiro pesado enquanto passava as mãos pelos cabelos. Parecia completamente exausto.
Quando percebeu a presença dela, levantou imediatamente os olhos.
O semblante cansado desapareceu. Um sorriso largo surgiu quase no mesmo instante.
— Fala aí, Amandinha.
Amanda sorriu de volta antes mesmo de perceber.
Era impressionante. Bastava aquele sorriso para que seu humor mudasse completamente.
— Tá ocupado? — perguntou já puxando discretamente uma cadeira.
Jonas soltou uma risada.
— Infelizmente, eu tô sempre ocupado nessa campanha. — fez um gesto dramático para o notebook. — Acho que tão cometendo algum crime trabalhista comigo.
Amanda arqueou uma sobrancelha.
— Por quê?
Ele olhou para o relógio do computador. Depois voltou para ela completamente indignado.
— Tô trabalhando nove horas por dia. — levantou as duas mãos, indignado. — Nove horas! Isso não é vida, Amanda.
Depois apoiou o cotovelo na mesa.
— Ainda bem que sábado ninguém resolveu inventar reunião. Senão eu fugia do país.
Ela balançou a cabeça rindo.
— Tem gente aqui fazendo hora extra todo dia.
Ele levou as duas mãos ao rosto. Massageou os olhos. Depois desceu os dedos lentamente até o queixo.
— Eu só queria… — suspirou de novo. — Desestressar cinco minutinhos.
Amanda ficou observando aquela cena. Ele parecia genuinamente cansado e foi então que teve uma ideia.
— Eu também.
Jonas levantou os olhos.
— Também o quê?
— Também precisava respirar um pouco. — sorriu. — A gente podia jogar conversa fora cinco minutos.
Ele abriu um sorriso imediato. Como se tivesse recebido exatamente a proposta que queria ouvir.
— Achei excelente.
Endireitou o corpo na cadeira. Olhou rapidamente para os lados. Depois inclinou-se um pouco na direção dela. Baixou a voz como se fosse contar um segredo.
— A gente pode até ficar aqui. — fez um gesto para o notebook. — De vez em quando balança a cabeça olhando pra tela. Todo mundo vai achar que a gente tá trabalhando.
Amanda não conseguiu segurar a risada.
— Criativo…— ficou alguns segundos pensando. Então lançou a ideia quase sem refletir. — Ou… A gente podia buscar um açaí.
Jonas franziu o nariz. Ficou olhando para ela por um segundo.De repente abriu um sorriso enorme. Apontou para Amanda como quem acabara de descobrir alguma coisa.
— Ahhh… — balançou a cabeça rindo. — Sua malandrinha. — levantou num impulso. — Gostei dessa.
Nem esperou ela responder. Virou-se para o escritório inteiro.
— Galera! Quem quiser açaí aproveita! Vou descer agora!
Como sempre acontecia, várias vozes responderam quase ao mesmo tempo.
— O meu sem granola!
— Pede um de morango!
— Quinhentos ml!
Amanda ficou olhando aquela cena completamente incrédula. Ela e Jonas iam sair juntos do prédio. E ninguém parecia achar aquilo estranho.
Ninguém fazia piada.
Ninguém olhava diferente.
Talvez porque, para todos ali...
Aquilo realmente não significasse nada.
Ou talvez...
Ninguém acreditasse que Jonas Medeiros pudesse se interessar justamente por ela.
Esse pensamento provocou um aperto estranho dentro dela. Poucos minutos depois, os dois entravam no elevador carregando a lista de pedidos.
Assim que a porta se fechou, Jonas soltou um longo suspiro e sorriu para ela.
— Valeu por ter me salvado.
Amanda sorriu.
— Eu?
— Claro. — enfiou as mãos nos bolsos. — Eu tava precisando respirar um pouco.
Depois olhou rapidamente para ela.
— Boa ideia essa do açaí.
Amanda desviou os olhos para o painel do elevador, tentando esconder o sorriso que insistia em aparecer.
Pela primeira vez desde que tudo aquilo começou...
Ela tinha a sensação de que a conversa não aconteceria por acaso.
Os dois queriam aqueles cinco minutos.
Quando saíram do elevador e atravessaram a calçada até a açaíteria, Amanda percebeu uma pequena fila se formando no caixa. Havia umas seis ou sete pessoas aguardando para fazer o pedido, nada que demorasse muito. Ainda assim, era tempo suficiente para conversarem sem a pressa do escritório. Jonas colocou as duas mãos nos bolsos da calça e soltou um suspiro satisfeito.
— Cara... só de sair daquele prédio por dez minutos já parece que o cérebro volta a funcionar.
Amanda sorriu.
— Tá achando tão pesado assim?
— Tá maluca? — ele virou para ela completamente indignado, como se a resposta fosse óbvia. — Ano de campanha é um hospício. Todo mundo quer tudo pra ontem. Meu pai acorda falando de pesquisa e vai dormir falando de pesquisa. Acho que ele até sonha com gráfico de intenção de voto.
Ela riu da comparação.
— Mas você já trabalhava com ele antes, não?
— Sim e trabalhava para um caralho. — Jonas fez uma careta divertida. — Eu ficava lá no gabinete duas vezes por semana. Quatro horinhas. Assinava umas coisas, resolvia uns pepinos e ia embora viver minha vida.
Amanda pensou que aquela vida era muito irreal, arqueou uma sobrancelha.
— E agora?
Ele apontou para o próprio peito.
— Agora eu virei CLT premium.
Ela riu novamente. Jonas continuou, exagerando o drama de propósito.
— Nove horas por dia. Todo dia. Eu tenho certeza que isso é contra os direitos humanos.
— Para...
— Tô falando sério. — depois deu uma pequena risada. — Mas campanha é diferente. Eu reclamo pra caramba, só que... quando chega eleição, eu entro de cabeça.
Amanda percebeu que a expressão dele mudava quando falava do pai. O tom brincalhão continuava, mas havia um respeito muito evidente.
— Meu pai sempre fala uma frase. — fez uma voz mais grave, imitando Paulo. — "O trabalho dignifica o homem." — revirou os olhos. — Quando eu comecei a ir pro gabinete, achei que tava perdendo era a dignidade.
Amanda caiu na gargalhada. Jonas também riu.
— Só que ele acredita nisso de verdade. Política é a vida dele. Ele ama aquilo. E... sei lá... se eu posso aliviar um pouco as costas dele, eu faço. Reclamo o tempo inteiro… — deu de ombros. — Mas faço direito.
Amanda ficou olhando para ele por alguns segundos. Até aquele momento, imaginava que Jonas fosse apenas um playboy divertido. Naquela conversa, começava a enxergar também outra coisa.
— Você é bem família, né?
A pergunta pareceu pegá-lo de surpresa. Ele ficou pensativo por alguns segundos antes de responder.
— Muito. — sorriu sozinho. — Principalmente depois que a Helena apareceu.
O nome surgiu de forma tão espontânea que Amanda percebeu imediatamente o carinho que existia ali.
— Como ela é?
Jonas soltou uma risada baixa.
— Rapaz… — passou a mão na nuca. — A Helena é difícil de explicar.
Olhou para o teto por alguns segundos, procurando as palavras.
— Ela é durona. Muito durona. Se tiver que comprar briga por quem ela ama, compra sem pensar duas vezes. Ao mesmo tempo… — sorriu outra vez. — Ela cuida das pessoas de um jeito que nem percebe.
Amanda ouviu em silêncio.
— Tu acredita que aquela mulher faz um frango empanado que eu nunca comi igual?
Amanda riu.
— Sério?
— Juro. — levantou a mão como se estivesse prestando juramento. — O Heitor acha que ela cozinha só pra ele. Mas ela também me chama para comer na casa deles.
Amanda deu risada. Jonas continuava sorrindo enquanto falava.
— Ela tá se soltando mais agora. A gente conversa todo santo dia. Às vezes passa horas trocando mensagem. É engraçado… Porque parece que a gente sempre foi irmão. Mesmo antes de descobrir. Foi muito natural. Não teve esforço nenhum.
Amanda observava a forma como ele falava. Os olhos brilhavam. O sorriso aparecia sozinho. Havia um orgulho enorme naquela voz.
— Você gosta muito dela.
Jonas nem precisou pensar.
— Pra caramba.
A resposta saiu imediatamente. Depois ficou alguns segundos olhando para a fila andar.
— Acho que tô tentando recuperar vinte e oito anos em poucos meses.
Amanda sorriu. Era bonito ouvir aquilo.
— O problema… — Jonas voltou a rir. — É o Heitor.
Amanda segurou a risada.
— Por quê?
— Porque aquele homem não larga da minha irmã. — fez uma expressão indignada completamente teatral. — Agora então, com ela grávida… Meu Deus do céu. Ele tá colado nela vinte e quatro horas.
Amanda riu.
— Isso é fofo.
— Fofo? — Jonas olhou para ela como se tivesse ouvido um absurdo. — É ridículo. Os dois ainda nem casados são. Ela devia ir morar com a gente até lá. Mas, o mundo anda tão bagunçado.
Amanda caiu na risada. Jonas continuou gesticulando.
— Às vezes eu quero conversar cinco minutos com a Helena. Lá tá o Heitor. Quero tomar café. Lá tá o Heitor. Quero levar minha irmã pra almoçar. Lá vem o Heitor junto. — balançou a cabeça dramaticamente. — Eu gosto dele pra caramba. Mas o homem é um carrapato apaixonado.
Amanda ria tanto que precisou enxugar discretamente os olhos. Quando conseguiu se recompor, olhou novamente para Jonas.
— E você?
Ele virou o rosto.
— Eu o quê?
— Nunca se apaixonou assim?
Jonas soltou uma risada automática. Daquelas sinceras.
— Nunca.
Amanda estreitou os olhos.
— Nunca?
Ele fez um gesto com a mão, balançando-a de um lado para o outro.
— Nunquinha. — sorriu daquele jeito convencido. — Essas coisas não me pegam. — passou o dedo pelo nariz — Eu gosto demais da liberdade. Namoro dá muito trabalho. Casamento então… — fez uma careta teatral. — Tá maluco.
Amanda sorriu, sem jeito.
Jonas fez uma careta imediatamente, como quem percebeu que tinha falado a coisa errada.
— Putz... foi mal. Não era minha intenção. — A voz saiu bem mais baixa do que o habitual. Pela primeira vez desde que começaram a conversar, ele parecia realmente preocupado em ter tocado num assunto delicado.
Amanda ergueu os olhos para ele. Por alguns segundos, pensou em simplesmente concordar e deixar o assunto morrer. Teria sido o mais inteligente. Mas a mentira já tinha criado vida própria, e agora ela precisava sustentá-la.
— A verdade... — começou devagar, girando distraidamente o celular entre as mãos. — ...é que eu gostava de ser casada.
As palavras atravessaram sua garganta como pequenas facas.
— É muito bom ter alguém que se importa com você... alguém que divide os planos, as preocupações, as vitórias... O cônjuge acaba sendo a família que a gente escolhe.
Enquanto falava, Amanda sentia um peso esmagador crescendo dentro do peito. Cada frase era verdadeira. Dolorosamente verdadeira. Talvez por isso mentir estivesse ficando cada vez mais fácil. Bastava contar a própria história... mudando apenas o final.
Por fora, porém, seu semblante permanecia sereno.
Jonas a observava em silêncio. Já não tinha aquele sorriso brincalhão estampado no rosto. Apenas escutava.
Depois de alguns segundos, perguntou com cuidado:
— E depois do divórcio... você ainda consegue se imaginar num relacionamento sério?
Amanda demorou um instante para responder. Aquela pergunta parecia pequena. Mas ela sabia que não era.
Sentia, sem entender exatamente o motivo, que a resposta definiria alguma coisa entre os dois dali para frente.
Respirou fundo.
— Consigo. — sorriu discretamente. — Só descobri que eu sou muito mais difícil de conquistar do que eu imaginava.
O canto da boca de Jonas subiu devagar. Ele abaixou a cabeça, soltando uma pequena risada pelo nariz.
— É mesmo?
Amanda deu de ombros, tentando parecer indiferente.
— Acho que sim.
Jonas ficou olhando para ela durante um segundo a mais do que o normal. Depois voltou a sorrir daquele jeito leve que parecia nunca abandoná-lo.
— Então vou fazer o seguinte… — encostou o dedo no braço dela — Qualquer dia que aparecer uma festa boa, eu te chamo.
Amanda arqueou uma sobrancelha.
— Pra quê?
— Pra tu voltar pra vida. — ele riu. — Aposto que nem lembra mais como beija uma boca.
Amanda sentiu o coração disparar. Aquilo era exatamente o tipo de reação que, no fundo, queria provocar.
Apoiou uma das mãos na mesa ao lado e respondeu no mesmo tom leve:
— Acho que vou precisar aprender de novo.
Os dois sorriram ao mesmo tempo.
A fila finalmente começou a andar. Nenhum deles tinha percebido que já eram os próximos, até o atendente levantar a cabeça e chamá-los.
— Pode vir!
Jonas deu um passo para o lado e, naturalmente, colocou o braço ao redor da cintura de Amanda por apenas um instante, conduzindo-a na direção do caixa.
— Bora. É a nossa vez.
O toque foi rápido. Mas suficiente para fazer o corpo inteiro dela endurecer.
Aquele calor voltou de repente, espalhando-se pelo peito e descendo pelo estômago. Amanda precisou de alguns segundos para conseguir dar o primeiro passo. Sentia as pernas estranhamente leves, quase bambas, e rezava para que Jonas não tivesse percebido.
Mal chegaram ao balcão quando ouviram alguém entrar apressado na açaíteria.
Um homem de terno entrou praticamente correndo, ofegante, olhando desesperadamente ao redor.
— Jonas!
Jonas virou o rosto imediatamente.
— O que foi, caralho?
— A Helena entrou em trabalho de parto!
Por um instante, tudo pareceu parar.
— PUTA QUE PARIU!
O rosto de Jonas perdeu completamente a cor.
— Vamos! Teu pai tá no carro esperando!
Ele nem respondeu.
Saiu andando em passos largos na direção da porta, já tirando o celular do bolso, completamente tomado pela notícia. Pela primeira vez desde que Amanda o conheceu, parecia genuinamente desnorteado.
Ela permaneceu parada diante do balcão.
Jonas sequer olhou para trás. Não se despediu. Não explicou nada.
Apenas desapareceu pela porta junto com o assessor.
E Amanda ficou observando os dois sumirem pela calçada, sem entender por que aquela saída tão repentina lhe provocava uma estranha sensação de vazio.
O restante do dia pareceu não terminar nunca.
Amanda tentou se concentrar no trabalho, participou de duas reuniões e respondeu todos os e-mails que chegaram, mas fazia tudo no automático. Sua cabeça insistia em voltar para a açaíteria. Revivia a conversa inteira nos mínimos detalhes, lembrando da forma como Jonas havia sorrido, do brinde que fizeram e da maneira tranquila com que ele falava da própria família. Então, inevitavelmente, chegava ao mesmo pensamento.
Justo naquele momento.
Tantos dias para Helena entrar em trabalho de parto.
Por que tinha sido justamente quando eles finalmente estavam conseguindo conversar de verdade?
Ela mesma se irritava com aquele pensamento. Era egoísta. Uma criança estava nascendo. A irmã dele precisava dele. Mesmo assim, uma parte dela lamentava profundamente a interrupção daquela conversa.
Quando o expediente terminou, Amanda não foi embora junto com o restante da equipe. Continuou na própria mesa fingindo revisar alguns relatórios, mas, na verdade, olhava para a porta do escritório a cada poucos minutos. Talvez Jonas voltasse. Talvez passasse rapidamente para buscar alguma coisa. Talvez ela pudesse dar os parabéns pelo nascimento do sobrinho, perguntar se estava tudo bem, desejar sorte... qualquer coisa.
Sem perceber, acabou inventando desculpas para permanecer ali.
Chegou até a mandar uma mensagem para Gustavo avisando que trabalharia até mais tarde e pediu que a van deixasse Enzo e Théo na casa de dona Terezinha. A sogra já estava preparada para ajudar durante a campanha eleitoral e sempre dizia que adorava quando os netos apareciam de surpresa.
Amanda permaneceu mais de uma hora no escritório.
Jonas não voltou.
Quando finalmente desistiu e entrou no carro, sentiu uma frustração infantil que fazia questão de esconder até de si mesma.
Ao chegar em casa, encontrou Gustavo colocando os pratos sobre a mesa enquanto os meninos corriam pela sala.
O cheiro de frango assado tomava conta da cozinha.
Amanda sorriu sozinha.
Conhecia o marido bem demais.
Os galetos já estavam cuidadosamente colocados em uma travessa bonita, as batatas distribuídas ao redor e todas as embalagens do delivery haviam desaparecido como num passe de mágica.
Gustavo odiava cozinhar.
O combinado entre os dois sempre fora muito claro: Amanda fazia a comida e ele cuidava da limpeza da casa.
Mas os meninos ainda acreditavam que o pai preparava aqueles jantares de vez em quando e Gustavo fazia questão de manter a fantasia viva. Escondia as embalagens antes que eles chegassem e servia tudo como se tivesse passado a tarde inteira no fogão.
Amanda nunca teve coragem de estragar aquela encenação.
Achava até engraçado.
Durante o jantar, Enzo comentou sobre a escola, Théo contou uma história completamente sem sentido envolvendo um carrinho e um dinossauro, e Gustavo ouviu tudo com a maior atenção do mundo.
Amanda participava da conversa, sorria quando precisava, respondia aos filhos...
Mas, em alguns momentos, sua mente escapava novamente para a campanha.
Depois que a cozinha ficou organizada, Amanda sentou-se no sofá com o celular nas mãos enquanto Gustavo assistia ao jogo tomando uma cerveja.
Foi então que uma manchete apareceu em sua tela.
Ela arregalou os olhos.
— Guto...
Ele não desviou imediatamente os olhos da televisão.
— Hum?
— Olha isso aqui.
Gustavo pegou o celular das mãos dela. Leu rapidamente a notícia.
— Meu Deus...
Amanda sentiu o estômago gelar.
Segundo a reportagem, um homem chamado Antônio Fortenelle havia invadido a maternidade onde Helena estava internada e tentado sequestrá-la logo após o nascimento do bebê. A matéria dizia ainda que Jonas e Heitor conseguiram conter o agressor até a chegada da polícia.
— Que horror... — murmurou Gustavo. — Alguém se machucou?
Amanda continuou lendo.
— Aqui diz que não. Diz que estão todos bem.
Ela respirou aliviada.
— O bebê é filho daquele empresário... o Heitor Monteiro.
— Quem?
— O genro do governador. Dono da construtora Monteiro Inc.
— Ah… — Gustavo devolveu o celular. — Ainda bem que ninguém se feriu.
Amanda permaneceu alguns segundos olhando a tela. Sentia um aperto estranho no peito. Não conseguia deixar de imaginar Jonas no meio daquela confusão.
— Acho que vou mandar uma mensagem no grupo da campanha... perguntar se está tudo bem.
— Faz isso. — Gustavo voltou a atenção para o jogo. — É uma demonstração de carinho.
Amanda abriu o grupo do WhatsApp. As mensagens chegavam sem parar.
Desejos de força.
Orações.
Solidariedade ao governador e à família.
Ela escreveu uma mensagem parecida.
Depois ficou olhando para a foto de perfil de Jonas. O polegar permaneceu parado sobre a tela por quase um minuto inteiro.
Aquilo seria inconveniente?
Ou apenas educado?
Respirou fundo.
Antes que pudesse desistir, digitou:
"Oi, Jonas. É a Amanda. Vi a notícia agora. Tá tudo bem com vocês?"
Assim que enviou, arrependeu-se.
Por que eu mandei isso?
Mal teve tempo de pensar. Os três pontinhos apareceram imediatamente.
Jonas respondeu contando, de maneira resumida, o que havia acontecido. Disse que todos estavam fisicamente bem, mas que tinham levado um susto enorme. Amanda perguntou sobre Helena, sobre o bebê, sobre Paulo. Jonas respondeu tudo com paciência e agradeceu por ela ter perguntado.
A conversa continuou naturalmente. Sem perceberem, passaram de um assunto para outro. Falaram do susto. Depois da campanha. Depois da comida da cantina do hospital.
Quando Amanda olhou o relógio, já fazia muito mais tempo do que imaginava.
Levou o celular consigo até o banheiro enquanto tomava banho, apoiando-o sobre a bancada para continuar respondendo às mensagens. A água já tinha parado de correr quando ouviu Gustavo bater levemente na porta.
— Amor... tá tudo bem aí?
Amanda olhou assustada para o relógio. Já fazia quase uma hora.
— Tá sim! Já tô saindo!
Sorriu sozinha.
Antes de guardar o celular, resolveu encerrar a conversa.
"Boa noite. Espero que vocês consigam descansar um pouco depois de um dia desses."
A resposta veio poucos segundos depois.
"Boa noite, Amandinha. Obrigado pela preocupação. Dorme com Deus. 😊"
Amanda ficou olhando para a tela por alguns instantes. Mordeu discretamente o lábio inferior. Depois respondeu quase sem pensar.
"Você também. E tenta descansar."
A resposta dele foi apenas um emoji sorrindo de volta.
Mesmo assim...
Foi suficiente para que um calor gostoso percorresse seu corpo inteiro. Quando saiu do banheiro, Gustavo já estava deitado.
— Ainda preocupada com o pessoal da maternidade?
Amanda fez que sim com a cabeça.
Apagou a luz.
Deitou-se ao lado dele.
E, buscando afastar aquela inquietação que voltava a crescer dentro de si, aproximou-se do marido e o beijou delicadamente.
Naquela noite, mais uma vez, tentou convencer a si mesma de que ainda tinha controle sobre tudo aquilo enquanto fazia sexo com o marido.
No restante da semana, Jonas não voltou para a campanha. Helena ainda estava se recuperando do parto, o pequeno Humberto monopolizava completamente a casa e, pelas mensagens, Amanda percebia que Jonas praticamente havia se mudado para lá. Ele mandava fotos do sobrinho dormindo, reclamava que Heitor não deixava ninguém ficar muito tempo com o bebê no colo e fazia piada dizendo que a função dele agora era impedir que a irmã inventasse de levantar da cama.
Amanda achava tudo aquilo absurdamente fofo.
Os dois conversavam todos os dias. Às vezes sobre a campanha, às vezes sobre alguma notícia, um filme, futebol ou qualquer besteira que surgisse. Não havia declarações. Não havia mensagens de duplo sentido. Nenhum dos dois ultrapassava qualquer limite. Eram apenas duas pessoas que haviam descoberto que gostavam da companhia uma da outra. Em pouco tempo, Amanda já esperava naturalmente pelas notificações dele.
Foi justamente por isso que resolveu trocar o nome do contato.
Tayna Logística.
Sorriu sozinha quando terminou.
Era um nome completamente aleatório. Se Gustavo visse o celular, jamais perguntaria quem era. Assim que esse pensamento passou por sua cabeça, Amanda sentiu um pequeno aperto no peito.
Guardou o aparelho. Preferiu não pensar no motivo de ter feito aquilo.
Na semana seguinte Jonas voltou para a campanha.
O escritório pareceu recuperar parte da energia que havia perdido durante aqueles dias. Jonas entrava falando alto, cumprimentava praticamente todo mundo, fazia piada com um assessor, discutia alguma pesquisa com outra equipe e, antes do almoço, já parecia ter passado por todos os setores do andar.
Com Amanda não era diferente.
Os dois se cruzavam pelos corredores, trocavam sorrisos discretos, conversavam alguns minutos entre uma reunião e outra e continuavam falando pelo WhatsApp mesmo estando no mesmo prédio.
Nada parecia errado.
Era só amizade.
Pelo menos era isso que Amanda insistia em repetir para si mesma.
Duas semanas passaram quase sem que ela percebesse.
Na quinta-feira, perto do fim do expediente, Amanda encontrou Jonas sozinho na copa terminando um café.
Ele encostava o quadril na bancada enquanto mexia distraidamente no celular.
Assim que a viu, sorriu.
— Aí, Amandinha...
Ela pegou um copo de água.
— Oi.
Jonas guardou o celular no bolso e a olhou como quem lembrava de alguma coisa.
— Sábado um amigo meu vai fazer uma festa lá na casa dele.
Amanda continuou ouvindo.
— Casa?
Jonas riu.
— isso! Piscina, bebida, DJ… e gente bacana.
Amanda sorriu.
Ele continuou naturalmente:
— Eu queria que tu fosse comigo.
A frase fez o coração dela acelerar.
Comigo.
Não "com o pessoal".
Não "vamos todos".
Comigo.
Ela tentou não demonstrar.
— Vai muita gente?
— Vai. Um monte de antigos colegas de faculdade, influencer… galera da nossa idade, sabe?
Amanda permaneceu em silêncio.
Networking.
A palavra apareceu imediatamente na sua cabeça. Era uma excelente oportunidade.
Pessoas influentes, empresários, contatos, talvez algum secretário, alguém de um gabinete. Quem sabe até uma oportunidade futura de trabalho.
Era uma festa.
Mas também podia ser investimento na própria carreira.
Quanto mais repetia isso para si mesma, mais razoável a ideia parecia.
Jonas observava a expressão dela sem fazer pressão.
— Se tu não gostar, fica meia hora e vai embora.
Amanda riu.
— Você já pensou em vender curso de persuasão?
— Já. — sorriu convencido. — Só não achei quem comprasse.
Ela balançou a cabeça, rindo.
— Tá bom. Eu vou.
O sorriso dele aumentou imediatamente.
— Boa! — bateu uma palma baixa. — Eu passo na tua casa.
Amanda respondeu quase no impulso.
— Não precisa. Vou de carro.
— Fechado. — pegou o celular. — Me manda o modelo e a placa. A portaria só libera quem tiver na lista.
Amanda enviou os dados.
Enquanto voltava para sua mesa, tentava organizar os próprios pensamentos.
"É uma festa."
"Mas também é networking."
"Vai ter um monte de gente importante."
"Não estou indo por causa do Jonas."
Repetiu isso tantas vezes que começou a acreditar.
Depois do jantar, Amanda esperou Gustavo terminar de guardar os copos na pia. Enzo e Théo estavam entretidos na sala discutindo por causa do Roblox, então aquele parecia o momento perfeito.
— Amor...
Gustavo olhou para ela.
— Oi.
Amanda apoiou os braços na bancada da cozinha, tentando parecer completamente tranquila.
— Sábado eu vou precisar trabalhar um pouco.
— Sábado?
— É. — ela assentiu naturalmente. — A campanha contratou uma empresa que faz análise de pesquisa eleitoral e cruzamento de dados. O pessoal vai apresentar umas estratégias e depois vai ter uma confraternização entre as equipes.
Gustavo franziu levemente a testa.
— Vai ser o dia inteiro?
— Não. — ela respondeu rápido. — A parte do trabalho é à tarde. Depois eles resolveram fazer um happy hour pra integrar o pessoal.
Gustavo permaneceu alguns segundos em silêncio.
— Vai muita gente?
Amanda confirmou imediatamente.
— Bastante. O pessoal da pesquisa, marketing, inteligência, comunicação... praticamente todo mundo que tá trabalhando diretamente na campanha.
Ela mentiu com tanta naturalidade que, por um instante, quase acreditou na própria história.
Gustavo apoiou uma mão na bancada.
— Entendi...
O silêncio dele sempre a incomodava.
Ela continuou falando antes mesmo que ele perguntasse qualquer outra coisa.
— É importante pra mim. Esse pessoal conhece muita gente. Secretário, assessor, empresário... campanha política é muito baseada em indicação. Se eu conseguir fazer um networking legal agora, minhas chances de conseguir alguma coisa depois aumentam muito.
Gustavo fez um gesto afirmativo com a cabeça.
— Faz sentido.
Amanda respirou discretamente, aliviada.
Mas ele continuou:
— Só não gosto muito desse negócio de happy hour.
Ela soltou um suspiro cansado.
— Gustavo...
— Não tô brigando. — ele levantou as duas mãos. — Só tô falando o que eu penso. Essas confraternizações sempre têm bebida, gente querendo aparecer, pessoal perdendo a noção...
Amanda cruzou os braços.
— Você vê problema em tudo.
— Não. — ele respondeu calmamente. — Eu tenho uma visão clínica do que muito provavelmente vai dar problema.
Ela permaneceu em silêncio.
Gustavo continuou:
— Você é muito ingênua às vezes. Tem gente que mistura trabalho com outras intenções muito rápido.
Amanda sentiu a irritação crescer.
— Eu sei me cuidar.
— Eu sei. — sorriu de leve. — Mas quem tá do outro lado eu não conheço.
Ela respirou fundo.
— Você confia em mim?
A pergunta saiu um pouco mais dura do que pretendia.
Gustavo nem precisou pensar.
— Confio. Cem por cento.
Ela relaxou um pouco.
— Então pronto.
Ele permaneceu olhando para ela durante alguns segundos antes de sorrir.
— Faz o seguinte então. Se resolver beber, me liga. Eu vou te buscar, chego de uber.
— Não precisa.
— Precisa sim. Bebida e direção não combinam.
Amanda balançou a cabeça.
— Eu nem tô bebendo mais.
— Eu sei. Mas às vezes a pessoa bebe porque todo mundo tá bebendo. Porque quer socializar. Porque não quer parecer antipática.
Ela ficou em silêncio.
No fundo… Sabia que ele tinha razão.
— Se acontecer isso...
Ele deu um passo na direção dela.
— Me liga. Nem entro no lugar. Espero na rua. Você entra no carro e a gente vai embora.
Amanda sorriu de canto. Era exatamente o tipo de solução que Gustavo inventaria.
— Tá bom. Combinado.
Ele abriu um sorriso satisfeito, aproximou-se e a abraçou pela cintura.
— Te amo.
Amanda fechou os olhos por um instante.
— Eu também.
Enquanto correspondia ao abraço, uma culpa pesada apertou seu peito.
Não porque estivesse indo a uma festa.
Mas porque, pela primeira vez desde que se casara, descobriu que mentir ficava muito mais fácil quando a outra pessoa confiava completamente em você.
O sábado finalmente chegou.
Amanda passou a manhã inteira tentando convencer a si mesma de que aquilo não era um encontro.
Era apenas uma festa.
Uma oportunidade de conhecer pessoas influentes, aumentar o networking, criar contatos para quando a campanha terminasse. Repetiu essa justificativa tantas vezes enquanto se arrumava que quase acreditou nela.
Vestiu uma calça de alfaiataria bege, uma camisa branca de manga curta e um scarpin baixo, exatamente como se estivesse indo trabalhar. Quem a visse sair de casa jamais imaginaria que o destino era uma festa na piscina. No porta-malas, porém, escondida dentro de uma mochila, estavam um short jeans, uma regata de tecido leve e uma rasteirinha. Trocaria de roupa quando chegasse.
Dirigia tentando controlar a ansiedade.
Será que Jonas acharia estranho ela aparecer vestida daquele jeito?
Será que ele imaginaria que ela era careta?
Ou pior...
Será que nem repararia?
A simples possibilidade a incomodava mais do que gostaria de admitir.
O endereço ficava em um dos condomínios mais luxuosos da cidade. Logo na entrada, os seguranças conferiram seu nome na lista de convidados e liberaram a cancela. Amanda seguiu lentamente pelas ruas arborizadas até encontrar a mansão indicada. Era enorme.
Muito maior do que qualquer casa onde já havia entrado.
A fachada parecia saída de uma revista de arquitetura. Vidros enormes refletiam o sol da tarde, palmeiras impecavelmente alinhadas cercavam a entrada e, mesmo antes de estacionar, ela já conseguia ouvir a música eletrônica ecoando do jardim dos fundos.
Quando desligou o carro, respirou fundo.
Pegou o celular.
A conversa com "Tayna Logística" continuava arquivada.
Assim que abriu o WhatsApp, levou um pequeno susto.
Havia várias mensagens de Jonas enviadas nos últimos quinze minutos.
"Cadê você?"
"Se perdeu?"
"Se quiser, manda a localização que eu vou te buscar na entrada."
"Tá demorando, hein?"
Amanda sorriu involuntariamente.
Digitou rapidamente.
"Acabei de chegar."
Nem deu tempo de guardar o celular.
A resposta apareceu quase imediatamente.
"Então desce logo."
Ela riu sozinha. Sentia-se ridícula. Parecia uma adolescente escondendo alguma travessura dos pais.
Abriu a porta do carro.
Só então percebeu um detalhe que não tinha notado ao entrar. Ao redor dela, praticamente todos os veículos eram importados.
Utilitários de luxo, esportivos, sedãs que ela só conhecia por comerciais de televisão. Seu carro parecia pequeno demais naquele estacionamento.
Por um instante, pensou em voltar.
Respirou fundo, pegou a mochila, fechou a porta e mal teve tempo de dar os primeiros passos.
Lá estava ele.
Jonas caminhava em sua direção com uma grande animação. Usava apenas um calção estampado em tons claros com flores, chinelos e um par de óculos escuros apoiado sobre os cabelos castanho-claros, bagunçados pelo vento. O sol iluminava seu rosto de lado, destacando o sorriso fácil que ela já conhecia tão bem.
Amanda perdeu o ar por um segundo.
Nunca o tinha visto fora do ambiente da campanha, principalmente assim, quase sem roupas.
O físico chamava atenção sem qualquer esforço. Ombros largos, peito firme marcado pelos anos de academia, braços fortes que gesticulavam enquanto ele caminhava. A pele levemente avermelhada contrastava com alguns fios claros espalhados pelo peito, discretos, naturais, que desciam em direção ao cós do calção e desapareciam logo abaixo do tecido.
Amanda desviou os olhos imediatamente.
Sentiu o rosto aquecer.
"Meu Deus..."
Precisou lembrar a si mesma de respirar.
Jonas claramente percebeu que ela o tinha observado de cima a baixo.
O sorriso dele aumentou devagar, daquele jeito convencido de quem acabou de confirmar uma suspeita. Levou dois dedos à boca e soltou um assobio baixo.
— Que isso, hein, doutora... — disse rindo. — Ficou com medo de eu não te reconhecer vestida tão comportadinha assim?
Amanda sentiu o rosto esquentar.
— Eu...
Nem conseguiu terminar a frase.
Jonas já estava perto demais.
Abriu os braços naturalmente e a envolveu em um abraço apertado, daqueles que pareciam íntimos demais para serem apenas um cumprimento. A mão dele pousou firme na lombar dela, conduzindo seu corpo para mais perto, enquanto o rosto se inclinava para lhe dar um beijo na bochecha.
Só que o beijo demorou um segundo além do comum.
Amanda ficou completamente imóvel.
O perfume dele era inebriante. Não era um cheiro forte. Era daqueles que obrigavam a pessoa a chegar perto para perceber.
Sem pensar, inspirou discretamente.
Jonas, em vez de se afastar logo, abaixou um pouco mais o rosto. Os lábios não tocaram sua pele, mas a respiração dele passou perto de seu pescoço.
— Humm… — a voz saiu baixa, quase divertida. — Ainda tô achando que esse perfume combina contigo.
Amanda sentiu um arrepio subir pela nuca.
Seu corpo respondeu antes da razão, sentia um calor subir pelo corpo, principalmente em suas partes.
Precisou prender a respiração para não demonstrar o quanto aquela proximidade a desestabilizava.
Quando Jonas finalmente ergueu o rosto, os dois ficaram frente a frente por um breve instante.
Ela sustentou o olhar dele por um segundo.
Depois desviou.
— O-obrigada… — a voz saiu mais baixa do que gostaria. — Você... você também tá muito cheiroso.
Jonas estreitou os olhos imediatamente. Um sorriso torto apareceu no canto da boca.
— Ah, é? — inclinou levemente a cabeça. — Nem chegou perto pra saber.
Amanda percebeu na mesma hora a armadilha em que tinha caído.
— Dá pra sentir daqui. — tentou parecer natural. — Você tá bem perto.
Ele soltou uma risada gostosa.
— Justo. — pegou a mochila dela com a maior naturalidade. — Posso?
Amanda entregou sem resistência.
Jonas passou a alça por um dos ombros e olhou rapidamente para ela.
— Tô curioso pra ver qual foi a roupa que tu trouxe aí dentro.
Amanda sentiu o coração acelerar outra vez.
— Você é muito curioso.
— Demais. — respondeu sem o menor constrangimento. — É um defeito meu.
Fez um gesto com a cabeça na direção da entrada.
— Bora. Vou te mostrar o lugar.
Os dois começaram a subir a escada principal da mansão.
Enquanto caminhavam, Jonas ia apontando algumas coisas pelo caminho, comentando quem era o dono da casa, fazendo piada com um carro esportivo estacionado na entrada e perguntando se ela tinha conseguido chegar sem dificuldade.
Amanda respondia, mas sua atenção se dividia entre a conversa e a presença dele caminhando ao seu lado.
Quando chegaram à porta principal, um segurança de terno sorriu educadamente.
— Boa tarde. Posso recolher os celulares, por favor?
Amanda olhou surpresa para Jonas. Ele já tirava o aparelho do bolso.
— Relaxa, gatinha. — sorriu para ela. — Aqui funciona assim. No final a gente pega de volta.
Amanda desligou o próprio celular antes de entregá-lo.
Aquilo lhe causou uma sensação estranha.
Era como se, ao deixar o telefone nas mãos do segurança, também deixasse do lado de fora a possibilidade de voltar atrás.
Assim que atravessaram a porta principal, uma onda de música eletrônica envolveu os dois.
O ambiente parecia outro mundo.
A piscina ocupava praticamente todo o centro do jardim, cercada por espreguiçadeiras brancas e bangalôs de madeira. Um DJ tocava em uma estrutura montada ao lado da água, enquanto garçons circulavam entre os convidados oferecendo drinques coloridos e petiscos sofisticados. Pessoas bronzeadas conversavam em pequenos grupos, outras riam dentro da piscina, alguns casais trocavam carinhos sem qualquer preocupação com quem estivesse olhando.
Amanda diminuiu o passo involuntariamente.
Aquele lugar parecia pertencer a uma realidade completamente diferente da dela.
"Eu não devia estar aqui."
O pensamento surgiu automaticamente. Mas, antes que pudesse alimentar aquela insegurança, Jonas olhou para trás, percebeu que ela havia ficado alguns passos distante e estendeu a mão para ela com um sorriso tranquilo.
— Vem. Hoje tu é minha convidada e eu vou te apresentar pra todo mundo.
Amanda conheceu algumas pessoas que reconheceu imediatamente das páginas de fofoca. Empresários, influenciadores, políticos, jogadores de futebol... Era um mundo que ela só conhecia pela internet. Jonas a apresentava com naturalidade, sempre segurando sua mão como se aquilo fosse parte do cotidiano. Ninguém perguntava quem ela era. Ninguém estranhava sua presença. Pelo contrário, a tratavam como se já pertencesse àquele ambiente.
No bar, Jonas pediu uma Budweiser para si e virou o rosto para ela.
— E você?
— Tem alguma coisa sem álcool?
Jonas riu.
— Tu já esqueceu como funciona festa, né? — virou-se para o bartender. — Uma Mansão 27 de morango pra ela. — depois voltou os olhos para Amanda. — Lembrei que tu gosta de morango.
Ela sorriu, surpresa por ele ter guardado um detalhe tão pequeno.
A bebida era doce, leve, quase perigosa justamente porque escondia completamente o álcool.
— Gostou?
Amanda deu outro gole.
— Gostei...
— Eu sabia. — Jonas apoiou o cotovelo no balcão. — Quer subir pra trocar de roupa? O Marlon deixa um quarto cheio de roupa de praia feminina pros convidados. Pode escolher o que quiser.
Amanda aceitou.
O closet parecia uma loja de grife. Araras organizadas, biquínis ainda com etiqueta, saídas de praia, chapéus, sandálias...
Demorou alguns minutos até escolher um conjunto simples. Vestiu o short jeans que havia levado, ajustou a saída de praia e respirou fundo antes de abrir a porta.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Jonas estava encostado na parede do corredor.
Assim que ela apareceu, os olhos dele percorreram Amanda lentamente, dos pés a cada centímetro que se subia até encontrarem seus olhos outra vez.
Um sorriso satisfeito surgiu em seu rosto.
— Caramba… — balançou a cabeça devagar. — Ficou linda.
Amanda sentiu o rosto aquecer.
A tarde passou leve. Comeram frutos do mar, riram em jogos de grupo, entraram na piscina junto com os demais convidados. Jonas era exatamente como no escritório, só que ainda mais espontâneo e totalmente solto. Fazia piada de tudo, implicava com os amigos, puxava Amanda para as brincadeiras sem lhe dar tempo para recusar.
Em determinado momento, no meio da piscina, ela virou para responder alguém.
Quando voltou… Jonas já estava perto… muito perto.
A mão dele repousou em sua cintura. Os dois ficaram alguns segundos apenas se olhando.
Foi Amanda quem não desviou os olhos. Jonas aproximou o rosto devagar, como se ainda lhe desse a oportunidade de recuar.
Ela não recuou.
O beijo aconteceu naturalmente, longo, intenso e sem plateia. Quando se afastaram, os dois respiravam mais depressa. Jonas encostou a testa na dela por um instante.
Depois falou baixinho:
— Vamos subir?
Amanda não respondeu, apenas assentiu.
Ela já tinha reparado durante o beijo que Jonas não queria ficar apenas naquilo.
Jonas segurou sua cintura e a ajudou a sair da piscina. Os dois pegaram toalhas sem dizer uma única palavra. Enquanto secavam os cabelos e os braços de qualquer jeito, o silêncio entre eles parecia falar muito mais do que qualquer conversa. A música continuava alta ali na área, as pessoas riam, brindavam, mergulhavam novamente na água... e, ainda assim, parecia que o mundo inteiro havia desaparecido.
Ele voltou a entrelaçar os dedos nos dela. Amanda apertou sua mão de volta.
Subiram as escadas em silêncio.
O coração dela batia tão forte que chegava a doer. A cada degrau, uma voz dentro da sua cabeça repetia que ela deveria ir embora. Bastava soltar a mão dele. Bastava dizer que precisava voltar para casa.
Ela não fez nenhuma das duas coisas.
Quando chegaram ao corredor dos quartos, Jonas diminuiu o passo. Olhou rapidamente para os lados. O corredor estava vazio e então parou.
Amanda mal teve tempo de erguer os olhos.
Ele a puxou delicadamente pela cintura e seus corpos se encontraram outra vez. O beijo veio intenso, quase urgente, completamente diferente de qualquer beijo que ela já tivesse ganhado. Não havia mais a brincadeira da piscina, nem a leveza do estacionamento. Havia semanas de olhares, mensagens, expectativas e fantasias se encontrando naquele único instante.
Amanda correspondeu sem pensar.
As mãos dela encontraram os ombros dele, enquanto Jonas a mantinha junto de si como se tivesse medo de que ela desaparecesse. Entre um beijo e outro, ele encostava o rosto em seu pescoço e o beijava, respirando profundamente, fazendo Amanda fechar os olhos por um instante. Ela nunca tinha experimentado uma atração daquele tamanho. Era como se todo o seu corpo respondesse à simples presença dele.
Jonas afastou o rosto apenas o suficiente para olhá-la.
Os dois respiravam depressa. Nenhum deles dizia absolutamente nada. Não era necessário. Ele segurou sua mão novamente. Abriu a porta do quarto.
Amanda entrou primeiro.
O quarto era elegante, organizado e impessoal. Uma cama enorme ocupava o centro do ambiente, e uma cômoda de madeira escura ficava encostada na parede. Jonas caminhou até ela e abriu uma das gavetas.
Amanda olhou por curiosidade.
Lá dentro havia preservativos organizados ao lado de pequenos kits de higiene.
Ela sorriu, nervosa.
— Esse teu amigo pensa em tudo.
Jonas riu baixo enquanto escolhia.
— O Marlon gosta de facilitar a vida dos convidados.
Amanda percebeu que ele estava com um preservativo de morango, ela ainda tentava esconder o próprio nervosismo. Então resolveu fazer uma piadinha.
— Então… — sorriu de lado. — Vai ser hoje que eu descubro esse tal morango diferente?
Jonas aproximou-se novamente. Parou tão perto que Amanda conseguia sentir sua respiração e não apenas isso naquela altura.
Ele não respondeu.
Apenas sorriu daquele jeito que fazia o estômago dela se encher de borboletas e voltou a beijá-la.
Amanda não sabe quando, mas Jonas a virou, o libido dela estava tão alto que ela nem percebeu quando exatamente ele a penetrou. Não havia romance, apenas a carne falando mais alto. Ela sentiu quando ele terminou e se afastou de dentro dela.
Amanda permaneceu alguns segundos sem conseguir organizar os próprios pensamentos.
O coração ainda batia acelerado. A respiração demorava a voltar ao normal. Seu corpo inteiro parecia anestesiado pela intensidade daqueles últimos minutos.
Ela nunca se sentiu assim, nunca se sentiu tão mulher como naquele momento.
Então, virou-se para trás, Jonas estava sentado na cama, ela soltou um sorriso enquanto o observava em silêncio.
Esperava que ele dissesse alguma coisa.
Qualquer coisa…
Talvez sorrisse daquele jeito dele que a fazia perder o chão. Talvez se aproximasse de novo. Talvez a abraçasse. Talvez apenas permanecesse ao lado dela por alguns instantes.
Mas Jonas apenas respirou fundo, se levantou, passou a mão pelos cabelos e caminhou tranquilamente até a cômoda e abriu a gaveta.
Amanda acompanhou o movimento com os olhos. Jonas pegou outro pacote com a maior naturalidade do mundo. Como quem repetia um gesto conhecido. Sorriu de canto, ainda sem perceber o que acontecia dentro dela.
— Que delícia, gata… — falou num tom leve, quase descontraído. — Vou trocar a capa.
Ele voltou a atenção para a gaveta.
Foi exatamente naquele instante… Que alguma coisa desmoronou dentro de Amanda.
O calor desapareceu.
Como se alguém tivesse aberto uma janela e levado embora toda a adrenalina que a sustentava até então.
Ela permaneceu encostada ali, olhando para as próprias mãos.
"O que eu fiz?"
A pergunta surgiu inteira, pesada e violenta. Seu estômago embrulhou.
Ela olhou novamente para Jonas.
Ele continuava de costas, ocupado tirando o preservativo usado e passando um lenço pelo membro. Ele estava tão tranquilo, tão à vontade, tão... acostumado.
Foi então que Amanda entendeu.
Aquilo não era uma história de amor. Não era o começo de um romance. Não era um momento único para ele.
Era apenas desejo, um desejo enorme e recíproco.
Mas só isso.
Nenhuma declaração, nenhum carinho e nenhuma promessa.
Ela fechou os olhos.
A imagem de Gustavo apareceu imediatamente.
O sorriso dele escondendo as embalagens do delivery para convencer os meninos de que tinha preparado o jantar.
O beijo antes de ela sair para trabalhar.
O abraço na cozinha.
Enzo.
Théo.
A pequena casa.
Os planos para comprar um apartamento maior.
A aliança.
Amanda levou a mão à boca, sentia vontade de chorar. Não porque Jonas tivesse feito alguma coisa errada. Ele não prometera absolutamente nada.
Nunca disse que a amava. Nunca fingiu ser outra pessoa.
Quem havia transformado olhares em sentimento...
Mensagens em romance...
Atenção em amor...
Tinha sido ela.
E agora, sentada naquele quarto, compreendia com uma clareza cruel que havia colocado em risco toda a sua família por alguns minutos de desejo.
Pela primeira vez desde que tudo aquilo começara, Amanda não se sentia apaixonada.
Sentia-se profundamente suja.
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