O CEO que Eu Paguei
242 Escolhas - Parte I
Alguns meses antes.
O celular despertou às seis horas em ponto.
Amanda abriu os olhos antes mesmo do segundo toque. Desligou o alarme rapidamente, quase por reflexo, e permaneceu alguns segundos deitada, olhando para o teto branco do quarto.
Naquela manhã, o coração estava mais acelerado do que o normal.
Era o primeiro dia.
Depois de quase cinco anos trabalhando na mesma consultoria, ela havia pedido demissão. Nunca imaginou que faria aquilo. Gostava do trabalho, gostava da equipe, mas aquela proposta era boa demais para ignorar.
O comitê da campanha presidencial.
Era um contrato temporário, é verdade. Terminaria quando a eleição acabasse. Mas o salário era praticamente o dobro do que recebia, sem contar os contatos que faria. Se mostrasse serviço, talvez surgisse uma vaga definitiva em algum gabinete depois.
Pela primeira vez em muito tempo, Amanda sentia que estava dando um passo na própria carreira.
Sorriu sozinha.
Talvez aquele fosse o começo de alguma coisa boa.
Ela virou o rosto e viu que Gustavo ainda dormia profundamente ao seu lado, de bruços, um braço atravessado sobre o travesseiro dela, como sempre fazia durante a noite. Ela sorriu de novo.
Com cuidado, afastou o braço dele e saiu da cama. Calçou os chinelos e caminhou até o corredor.
Antes mesmo de ir para a cozinha, abriu devagar a porta do quarto dos meninos.
Enzo Gabriel ocupava metade da cama, completamente atravessado, enquanto o lençol já tinha perdido a batalha havia horas.
Amanda segurou o riso.
Na outra cama, Théo dormia abraçado ao velho dinossauro de pelúcia, com a boca levemente aberta e os cabelos todos arrepiados.
Ela se aproximou e ajeitou a coberta dos dois quase sem pensar. Já era um gesto automático. Um carinho aprendido na repetição dos anos.
— Meus amores... — sussurrou.
Fechou a porta novamente.
A casa ainda dormia.
Mas o dia dela já tinha começado.
Na cozinha, colocou água para o café, separou o pão, abriu a geladeira e começou a montar as lancheiras enquanto a cafeteira espalhava aquele cheiro que sempre fazia a casa parecer mais acolhedora.
Poucos minutos depois, ouviu passos arrastados pelo corredor.
— Já levantou? — Gustavo perguntou, ainda sonolento.
Ela virou o rosto.
— Hoje eu não podia me atrasar.
Ele se aproximou, deu um beijo demorado na testa dela e pegou uma caneca.
— Tá nervosa?
Amanda respirou pelo nariz antes de responder.
— Um pouquinho.
— Isso é normal.
Ela colocou as frutas nas lancheiras.
— Faz tanto tempo que eu não começo em um lugar novo...
— Você vai tirar de letra.
Ela sorriu. Gostava quando ele dizia essas coisas.
— Só tô preocupada com uma coisa. — ela ergueu uma sobrancelha. — O horário.
Gustavo mexia o café distraidamente.
— Campanha política não tem hora pra acabar. Tenho medo de começarem a abusar de você.
Amanda encostou na bancada.
— Vai ser puxado mesmo… — ela deu de ombros. — Mas é uma oportunidade muito boa.
Ele assentiu em silêncio.
— O salário já vale a pena.
— Vale.
Ela sorriu, agora um pouco mais animada.
— E o networking também. Se eu fizer um bom trabalho, quem sabe não aparece uma vaga depois? Num gabinete... em alguma secretaria...
Gustavo olhou para ela por alguns segundos. Era bonito ver aquele brilho nos olhos da esposa. Fazia tempo que ela não falava de trabalho daquele jeito.
Então sorriu também.
— Vai dar certo.
Ela aproximou a caneca da cafeteira enquanto continuava:
— E se der... junto com as tuas comissões...
Ele riu.
— Aí você apelou.
— Ué. — ela deu uma leve batida com o ombro no dele. — Início do ano é a tua Copa do Mundo.
Ele deu uma risada baixa.
— É verdade. Todo mundo resolve virar atleta em janeiro.
— Então.
Ela cruzou os braços.
— Você vende tênis, roupa de academia, bicicleta... eu entro na campanha… — olhou para ele com um sorriso esperançoso. — Talvez esse seja o ano que a gente consegue dar entrada naquele apartamento.
Os olhos dele brilharam imediatamente.
— Aquele de três quartos?
Amanda confirmou com a cabeça.
— Cada menino no próprio quarto.
Gustavo soltou um sorriso largo.
— O Enzo vive reclamando que o Théo pega as coisas dele.
— E o Théo vive dizendo que o Enzo ronca.
Os dois riram.
Por alguns instantes, o futuro parecia muito perto.
Muito possível.
Amanda olhou pela janela da cozinha.
O sol começava a nascer devagar sobre os telhados da cidade.
Ela respirou fundo.
Sem saber… que aquele primeiro dia de trabalho mudaria completamente a vida dela.
Amanda deu uma última olhada pelo retrovisor antes de fechar o portão.
Gustavo já estava na varanda, segurando uma caneca de café enquanto acenava para ela.
— Boa sorte! — gritou.
Ela sorriu.
— Obrigada! Cuida dos meninos!
— Pode deixar.
Ela ligou o velho Palio vermelho. O motor respondeu com aquele barulho conhecido, quase resignado, e ela esperou alguns segundos antes de engatar a primeira marcha.
A sede da campanha ficava do outro lado da cidade. Seria impossível depender de ônibus todos os dias.
Por isso, naquela manhã, Gustavo ficaria sem carro.
Entrava mais tarde na loja de artigos esportivos e, até lá, teria tempo de acordar os meninos, preparar o café deles e colocá-los na van escolar.
Os dois já tinham decorado essa dança.
Funcionava.
Ela entrou na avenida principal enquanto o céu ainda ganhava os primeiros tons alaranjados. O Palio já tinha muitos anos de estrada, fazia barulho, o ar-condicionado só funcionava quando queria e a embreagem reclamava toda vez que enfrentava um morro.
Amanda soltou uma pequena risada sozinha.
— Aguenta só mais um pouquinho...
Passou a mão sobre o volante gasto.
Se tudo desse certo...
Se a campanha rendesse bons contatos...
Se Gustavo realmente conseguisse aquela comissão que estava esperando...
Talvez, no fim do ano, eles finalmente dessem entrada no apartamento maior.
E, quem sabe depois...
Um Onix.
Ela sorriu da própria ambição. Nem era um carro de luxo. Não era uma caminhonete importada. Não era um sedã executivo.
Era um Onix.
Só isso.
Às vezes aquilo a frustrava. Como era possível um sonho tão simples ainda parecer tão distante?
O sinal fechou.
Ela parou atrás de um ônibus e apoiou as mãos no volante.
O pensamento veio quase sem querer. Gustavo poderia estar formado hoje. A lembrança voltou como tantas outras.
O interclasse da faculdade.
Ela, caloura de Administração em uma faculdade particular.
Ele, estudante de Odontologia na universidade federal.
Os dois tinham dezenove anos.
Ela ainda conseguia lembrar da primeira vez que o viu jogando futsal. Ele era sorridente, competitivo e bonito. Tão cheio de planos quanto ela.
Depois veio a gravidez. E, com ela, decisões que nenhum dos dois imaginava tomar tão cedo.
Gustavo não pensou duas vezes. Trancou a faculdade. Arrumou o primeiro emprego que apareceu. Disse que terminaria o curso mais para frente. Esse "mais para frente" nunca chegou.
Amanda apertou levemente os lábios.
Às vezes imaginava como seria a vida deles se as coisas tivessem acontecido em outra ordem.
Não porque se arrependesse.
Nunca.
Bastava pensar no sorriso do Enzo ou na risada escandalosa do Théo para qualquer dúvida desaparecer.
Mas… Às vezes ela sentia saudade de uma vida que nunca viveu.
Os pais dela tinham ficado profundamente decepcionados quando descobriram a gravidez.
O pai passou dias sem olhar na cara dela. Disse que ela estava jogando o futuro fora. Também não queria mais pagar a mensalidade da faculdade.
Foi a mãe quem entrou no meio, conversou, insistiu e convenceu o pai. Graças a ela, Amanda conseguiu continuar estudando.
Não foi fácil.
Assistia aula grávida. Depois assistia aula cansada. Muitas vezes levava o Enzo ainda bebê para a casa da mãe antes de correr para a faculdade.
Dormia pouco. Chorava escondida no banheiro. Mas terminou. Segurou o diploma nas mãos com o filho no colo.
Até hoje, era uma das maiores vitórias da vida dela.
Ela sorriu ao lembrar daquela fotografia. Depois voltou os olhos para o trânsito.
Apertou um pouco mais o volante.
Talvez...
Talvez aquele novo trabalho fosse o começo da recompensa por todos aqueles anos.
Quando o prédio surgiu à frente, Amanda diminuiu a velocidade quase sem perceber.
Era muito maior do que imaginava.
As paredes de vidro refletiam o céu da manhã, enquanto pessoas de terno e roupas sociais atravessavam a entrada principal com passos apressados, segurando cafés e celulares como se todos ali fossem extremamente ocupados.
Ela estacionou o Palio na vaga destinada aos colaboradores e desligou o motor. Ficou alguns segundos olhando para a fachada. Um sorriso escapou sozinho.
— Então é aqui...
Apoiou as duas mãos sobre o volante. Mal podia esperar para contar aos meninos.
Enzo certamente perguntaria se aquele prédio era realmente de vidro. Théo provavelmente só iria querer saber se havia elevadores também de vidro. Amanda riu sozinha antes de pegar a bolsa no banco do passageiro. Respirou fundo.
— Vai dar tudo certo.
Assim que atravessou a porta giratória, precisou conter o impulso de olhar para todos os lados. O saguão parecia mais um hotel cinco estrelas do que um escritório.
O piso de porcelanato polido refletia as luminárias do teto como um espelho. As paredes eram revestidas por pedra clara, e enormes arranjos de flores deixavam o ambiente sofisticado sem parecer exagerado. Até o cheiro do lugar era diferente.
Ela olhou discretamente para os próprios sapatos. Por um instante, sentiu-se deslocada.
Não porque estivesse mal vestida. Estava elegante. Mas havia pessoas ali que pareciam ter nascido usando aquelas roupas, caminhando com aquela segurança.
Amanda ainda precisava fingir que pertencia àquele ambiente. Endireitou os ombros. Caminhou até a recepção. O rapaz sorriu educadamente.
— Bom dia.
— Bom dia. Sou a Amanda Oliveira da Silva. Hoje é meu primeiro dia.
Ele conferiu rapidamente a lista no computador, imprimiu um crachá provisório e o entregou.
— Seja bem-vinda, Amanda. O treinamento dos novos colaboradores acontece no sexto andar. Pode subir, por favor.
Ela agradeceu com um sorriso. O crachá balançava preso ao cordão enquanto ela caminhava até os elevadores.
Quando as portas se abriram no sexto andar, Amanda encontrou um ambiente completamente diferente do térreo. Haviam pequenos grupos espalhados pelo corredor. Alguns conversavam animadamente, outros mexiam no celular.
Ela procurava discretamente alguém da equipe quando uma gargalhada chamou sua atenção.
Instintivamente virou o rosto. Era um grupo de homens e no centro deles, um rapaz falava alguma coisa enquanto todos riam.
Amanda não ouviu a piada.
Nem precisava.
Foi ele quem chamou sua atenção.
Os cabelos castanho-claros tinham aquele aspecto naturalmente bagunçado de quem parecia nunca precisar ajeitá-los. O sorriso era largo, fácil, acompanhado por covinhas discretas que apareciam apenas quando ele ria de verdade.
Mas eram os olhos que prendiam, expressivos e vivos. Daqueles que pareciam conversar antes mesmo da boca abrir.
Ela percebeu que estava olhando tempo demais. Desviou imediatamente.
Meu Deus...
Sentiu o rosto aquecer. Fazia tempo que não reparava em um homem daquele jeito.
Não porque faltassem homens bonitos no mundo. Mas porque sua vida já não passava muito por esse lugar.
Sorriu, quase constrangida consigo mesma.
Olhar não era pecado.
Continuava sendo casada. Continuava amando a família que tinha.
Achou graça do próprio pensamento.
"Que ridícula..."
Respirou fundo e voltou a prestar atenção ao motivo de estar ali. Uma mulher de blazer azul-marinho aproximou-se do grupo.
— Bom dia, pessoal. Eu sou Cláudia, gerente de integração. Vamos começar?
Amanda caminhou até os demais novatos. Durante a apresentação, descobriu a estrutura da campanha, as equipes, o funcionamento dos departamentos e suas responsabilidades.
Tudo era muito maior do que imaginara. Quando a porta do auditório se abriu novamente, um burburinho percorreu a sala.
O próprio Paulo Medeiros entrou acompanhado de alguns assessores. Amanda endireitou a postura automaticamente. Ela já o tinha visto inúmeras vezes pela televisão. Ao vivo, porém, transmitia uma presença completamente diferente.
Ele falou durante cerca de quinze minutos. Não fez promessas. Falou sobre equipe, compromisso, responsabilidade e terminou dizendo algo que Amanda guardou imediatamente:
— Campanhas são feitas por quem aparece no palco... mas são vencidas por quem trabalha nos bastidores.
Ela sorriu.
Era exatamente onde ela queria estar. No final, Paulo fez questão de cumprimentar todos os novos colaboradores.
Houve fotos.
Amanda também tirou a sua.
Assim que a reunião terminou, pegou o celular.
Amanda:Olha com quem eu acabei de tirar foto!
Enviou para Gustavo. A resposta veio poucos segundos depois.
Gustavo:Caramba kkkkk.
Gustavo:Ele parece bem mais alto na televisão.
Amanda riu.
Amanda:Esse lugar é enorme. Tem muita gente elegante aqui... e umas mulheres muito bonitas.
Os três pontinhos apareceram quase imediatamente.
Gustavo:Imaginei. Esse povo da política normalmente liga muito pra aparência.
Amanda ficou olhando a tela por alguns segundos.
Não era uma resposta ruim. Mas... não era a que ela esperava.
Talvez um: "Mas nenhuma mais bonita que você."
Ela balançou a cabeça, achando graça de si mesma. Ainda assim, respondeu.
Amanda:Se eu tivesse dinheiro, fazia um monte daqueles procedimentos estéticos.
A resposta demorou um pouco mais.
Gustavo:Então eu vou ter que parar de vender tanto.
Ela franziu a testa.
Amanda:Por quê?
Gustavo:Porque eu gosto de você exatamente do jeito que você é.
Amanda sorriu sozinha. Era isso que ela queria ler. Guardou o celular por alguns segundos... depois tornou a pegá-lo.
Abriu a foto com Paulo Medeiros.
Pensou e sorriu.
Publicou nos stories.
Era uma conquista pequena.
Mas era dela.
A manhã passou num ritmo muito mais intenso do que Amanda imaginava. Mal teve tempo de respirar.
Recebeu acessos aos sistemas, participou de reuniões de alinhamento, aprendeu os fluxos internos da equipe e, antes mesmo de decorar o nome de todos os colegas, já estava cruzando pesquisas eleitorais, levantando indicadores e analisando dados.
A equipe de Inteligência Eleitoral era extremamente técnica.
Ela gostou daquilo.
Sempre gostava de ambientes organizados, onde cada pessoa sabia exatamente o que precisava fazer.
Enquanto trabalhava, sorriu sozinha ao lembrar do curso de Análise de Dados que fez meses antes. Na época, muita gente perguntou por que ela estava estudando aquilo.
Agora fazia todo sentido.
Mais de uma vez algum colega elogiou a rapidez com que ela encontrava determinadas informações. Aquilo aumentou sua confiança. Talvez realmente estivesse no lugar certo.
Quando o relógio marcou meio-dia, uma das coordenadoras apareceu sorrindo.
— Vamos almoçar? Porque, se depender dessa equipe, vocês esquecem até que existem.
Alguns riram.
Amanda acompanhou o grupo até o restaurante do prédio. Sentaram-se todos na mesma mesa. Como praticamente ninguém se conhecia, a conversa começou tímida.
Falaram sobre o prédio. Sobre o tamanho da estrutura da campanha. Sobre o discurso que Paulo Medeiros havia feito pela manhã. Até que uma das analistas comentou enquanto espetava um pedaço de frango no garfo.
— E aí... o que vocês acharam dos filhos do Paulo?
Um rapaz respondeu primeiro.
— Eu achei o Jonas muito mais carismático do que imaginava.
— Também achei. — disse outra moça. — Mas eu gostei mais do Isaac.
— Sério?
— Uhum. Passa muito mais confiança.
O rapaz deu uma risada.
— Engraçado como os dois são completamente diferentes.
— Totalmente.
— O Isaac é super low profile. Eu até procurei o Instagram dele porque trabalho monitorando redes sociais... o rapaz quase não posta nada.
— Já o Jonas... — outra menina riu antes mesmo de terminar a frase. — Esse aí é praticamente figurinha carimbada das páginas de fofoca.
A mesa inteira deu risada. Amanda apenas ouviu. Outra analista entrou na conversa.
— E a Helena? O que vocês acharam?
— Achei ela linda.
— Muito elegante.
— Também achei. Depois daquele escândalo da paternidade... precisa ter muita postura pra continuar aparecendo em público daquele jeito.
Um rapaz deu de ombros.
— Ah, mas esse pessoal já tá acostumado com escândalo.
— Ela não. — respondeu outra colega. — Pelo que eu li, ela nem era desse meio. A vida dela virou de cabeça pra baixo.
A conversa seguiu naturalmente por mais alguns minutos. Amanda ouviu mais do que falou. Queria conhecer as pessoas antes de sair opinando sobre qualquer coisa. Quando surgiu uma pequena pausa, resolveu participar. Mais para se enturmar do que por curiosidade.
— O Jonas veio hoje? Eu não reparei.
Um rapaz sentado à sua frente pegou o celular.
— Veio, sim. Tá no grupo da campanha. Olha aqui.
Abriu o WhatsApp e virou a tela para ela. Era a foto de perfil dele.
Amanda reconheceu imediatamente. O homem que tinha visto mais cedo no corredor. Os cabelos castanho-claros bagunçados e o sorriso bonito.
Ela devolveu o celular alguns segundos depois.
— Ah... então era ele.
— É. — respondeu o rapaz. — Confesso que achei que ele nem apareceria.
— Eu também. — disse outra menina. — Pela fama que ele tem, imaginei que fosse daqueles que só vêm tirar foto e vão embora.
— Pois é. Mas o cara passou a manhã inteira em reunião.
— Parece que entrou de cabeça na campanha.
Uma das mulheres sorriu de lado.
— Dizem que ele é mulherengo.
— Dizem? — um rapaz riu. — Isso aí nem é segredo.
— Nunca assume ninguém.
— Toda hora aparece em story de alguma influencer diferente.
— Festa, viagem, camarote...
— E na semana seguinte já tá com outra.
Outra mulher tomou um gole do refrigerante antes de comentar, divertida:
— Mas esse tipo de homem costuma ter um padrão muito específico. — fez um gesto vago com a mão. — E acho difícil ele encontrar alguém desse padrão aqui dentro.
Alguns riram.
Outro completou:
— Ainda bem. Misturar romance com campanha deve dar uma dor de cabeça...
A mesa concordou entre risadas. Amanda sorriu também, mais por educação do que por achar graça. Na verdade, nem entendia muito bem aquele comentário. Havia mulheres muito bonitas trabalhando ali.
Extremamente bonitas, inclusive.
Ela mesma não se colocava naquele grupo, mas era impossível não notar o quanto algumas colegas eram elegantes e chamavam atenção.
Enquanto terminava o almoço, lembrou-se dos tempos de faculdade.
Sempre existia um ou outro rapaz com fama de conquistar metade do campus. Curiosamente, eram justamente esses que mais insistiam em conversar com ela.
Amanda nunca deu muita abertura.
Namorava Gustavo desde os dezenove anos e, depois que os meninos nasceram, aquele tipo de assunto simplesmente deixou de fazer parte da sua vida.
Sorriu discretamente.
No fim das contas, pouco importava se Jonas Medeiros era bonito, rico ou famoso.
Ela estava ali para trabalhar e, se tudo desse certo, construir o futuro que ela e Gustavo sonhavam havia tantos anos.
Aquele primeiro dia terminou muito depois do que Amanda imaginava. Quando desligou o computador da campanha, sentiu os ombros pesarem. Nunca tinha trabalhado tanto em um único dia. Sorriu sozinha enquanto organizava a mesa. Agora entendia por que o salário era tão acima do mercado. Não estavam pagando apenas pelo conhecimento, estavam pagando pela responsabilidade.
Antes de ir embora, conversou mais uma vez com Cláudia, sua coordenadora. As duas alinharam como seria sua rotina dali para frente. Quando o trabalho envolvesse apenas análises de dados, cruzamento de pesquisas e elaboração de gráficos, Amanda faria home office. Ela explicou que precisava estar em casa por volta das cinco e meia da tarde para receber os filhos da van escolar.
Cláudia ouviu com atenção.
— Da minha parte, não vejo problema. Pelo contrário, você parece render muito bem trabalhando sozinha.
Amanda sorriu, aliviada.
— Obrigada.
A coordenadora, no entanto, fez uma ressalva.
— Só preciso que você entenda uma coisa. Conforme a campanha for esquentando, principalmente daqui alguns meses, vai ter dia que ninguém vai embora antes das oito... nove da noite.
Amanda assentiu, já imaginava.
— Nesses dias vou precisar de você aqui.
— Sem problemas. — ela respondeu quase automaticamente.
Mas, enquanto caminhava até o estacionamento, começou a pensar.
Precisaria encontrar alguém para receber os meninos. Talvez a mãe, a sogra, uma vizinha ou alguma babá apenas para o fim da tarde.
Ela daria um jeito. Sempre dava.
Quando chegou em casa, a primeira coisa que fez foi colocar água para ferver. Os meninos chegariam famintos. Preparou um bolo simples com café e separou frutas sobre a mesa.
Poucos minutos depois, ouviu a buzina da van. Antes mesmo de abrir a porta, os dois já entravam correndo.
— Mããããe!
Théo praticamente pulou no colo dela. Enzo largou a mochila no sofá.
— E aí? Como foi?
Amanda riu.
— Você tá perguntando igual adulto.
— Quero saber.
Ela contou um pouco do dia, falou da campanha, das pesquisas, da quantidade de computadores e das reuniões. Os dois ouviram educadamente… por cerca de trinta segundos. Depois Enzo perguntou:
— Tem videogame lá?
Amanda caiu na risada.
— Não.
— Então nem parece tão legal assim.
Ela pegou o celular.
— Mas olha isso aqui.
Mostrou uma foto da fachada do prédio. Depois outra do enorme hall de entrada. Os olhos dos dois mudaram imediatamente.
— Nossa!
Théo arregalou os olhos.
— Parece shopping!
— Eu quero conhecer!
— Eu também. — Enzo respondeu na mesma hora. — Se ele for, eu vou.
Amanda sorriu.
— Um dia eu levo vocês.
Os dois comemoraram como se já fosse no fim de semana. Poucos minutos depois, Enzo apareceu ao lado dela.
— Mãe...
Ela nem precisou perguntar. Entregou o celular.
— Uma hora só.
— Tá.
Cinco minutos depois...
— Mããããe! O Enzo não deixa eu jogar!
Ela fechou os olhos.
— Enzo Gabriel...
— Só mais uma partida!
— Você falou isso faz dez minutos!
Amanda respirou fundo.
Levou o notebook para a bancada da cozinha. Enquanto ajustava alguns gráficos que precisava entregar na manhã seguinte, mexia a panela do arroz com a outra mão.
Já estava acostumada.
A vida inteira aprendeu a fazer duas coisas ao mesmo tempo.
Pouco depois das sete, ouviu a chave girando na fechadura. Os meninos correram.
— Pai!
Gustavo mal teve tempo de entrar. Recebeu um abraço de cada lado.
— Calma, calma... deixa eu respirar.
Amanda apareceu na cozinha enxugando as mãos no pano de prato. Ele caminhou até ela. Os dois trocaram um selinho rápido.
— E aí?
— Sobrevivi.
Ele riu.
— E você?
Gustavo abriu um sorriso animado.
— Janeiro começou bem.
— É?
— Vendi bastante hoje. E você começou o seu emprego chique.
Ele esfregou as mãos.
— Acho que a gente merece comemorar.
Os meninos, que escutavam escondidos atrás da parede, apareceram imediatamente.
— Pizza!
— Pizza!
Amanda riu.
— Vocês dois estavam ouvindo?
— Não… — respondeu Théo.
Gustavo fez cara de inocente.
— Então... pizzaria?
Ela olhou para a panela sobre o fogão. Depois para a mesa já posta.
— Sexta-feira.
Ele acompanhou o olhar dela.
— Você já fez janta...
— Fiz.
Ele suspirou dramaticamente.
— Fui derrotado.
— Sexta a gente vai.
Os meninos comemoraram como se fosse no mesmo dia.
As semanas seguintes passaram depressa. Amanda mergulhou completamente na campanha. Chegava cedo. Ia embora tarde quando necessário. Estudava em casa. Revisava relatórios.
Nas reuniões, fazia questão de participar. Sempre que enxergava uma oportunidade, apresentava uma ideia.
Não para aparecer. Mas porque queria que lembrassem do nome dela quando aquele contrato terminasse.
Também fazia questão de conhecer as pessoas. Conversava com quem podia, aprendia nomes. Perguntava sobre os setores.
Se oferecia para buscar os pedidos do delivery quando as reuniões atravessavam o horário do almoço.
Pouco a pouco, deixava de ser "a novata".
Virava Amanda.
O primeiro salário virou motivo de comemoração. Não era o maior salário do mundo, nem de longe. Mas, para Amanda, significava muito mais do que dinheiro. Era a prova de que ela tinha conseguido.
Na sexta-feira seguinte, Gustavo apareceu em casa mais cedo do que de costume.
— Todo mundo pronto? — perguntou, ainda na porta.
— Pra quê? — Amanda respondeu, saindo da cozinha.
Ele abriu um sorriso.
— Hoje ninguém janta em casa.
Os olhos de Théo brilharam.
— Pizza?
— Melhor.
Enzo já começou a colocar o tênis.
— Outback?
Gustavo apontou para ele.
— Esse é meu filho.
Os dois meninos comemoraram como se tivessem acabado de ganhar na loteria.
Amanda riu.
— Você combinou isso com eles?
— Claro que não.
Os três trocaram um olhar cúmplice. Ela balançou a cabeça.
— Sei que foi combinado…
Quando chegaram no restaurante, ele estava cheio. Esperaram alguns minutos até conseguirem uma mesa. Naquela noite ninguém economizou. Pediram entrada, refrigerante e sobremesa.
Os meninos brigaram pelas batatas fritas. Théo tentou beber o refrigerante do irmão. Enzo reclamou. Gustavo ria da bagunça toda.
Amanda olhava aquela mesa cheia de comida e, pela primeira vez em muito tempo, sentiu um orgulho silencioso. Parte daquela conta estava ali por causa dela.
Quando o garçom trouxe a máquina de cartão, Amanda pegou a bolsa imediatamente.
— Deixa que eu pago.
Gustavo segurou o pulso dela antes que ela alcançasse a carteira.
— Nem pensar.
— Gustavo...
— Hoje a comemoração é sua.
— Justamente por isso.
Ela sorriu.
— Quem paga sou eu.
Ele apenas tirou o cartão da carteira. Amanda cruzou os braços.
— Você é muito teimoso.
Ele piscou para ela.
— Você pode ganhar cem vezes mais do que eu. — aproximou-se um pouco, falando baixo para que apenas ela ouvisse. — Mas eu ainda sou o homem dessa família.
Amanda revirou os olhos.
— Ai, meu Deus...
Mas sorriu. Conhecia aquele orgulho dele e, para ser sincera… achava bonito. Às vezes exagerado. Mas bonito.
Depois do jantar resolveram passear pelo shopping. Os meninos praticamente correram quando viram a Game Station. Gustavo colocou cem reais no cartão de cada um.
— Aproveitem.
Os dois desapareceram entre os brinquedos. Amanda caminhava devagar ao lado do marido, observando os filhos correndo de um lado para o outro.
— Eles estão crescendo muito rápido.
Gustavo acompanhou o olhar dela.
— Nem fala.
— Parece que foi ontem que o Enzo aprendia a andar.
Ele sorriu.
— Agora ele já acha que manda em mim.
Amanda deu uma risadinha.
— Um pouco ele acha mesmo.
Os dois continuaram andando de mãos dadas enquanto observavam os meninos de longe. Foi uma noite boa, leve. Daquelas que passam rápido demais.
O problema começou na hora de trocar os tickets. Enzo ficou completamente encantado por um carrinho de controle remoto exposto na prateleira mais alta. Era enorme, porém custava muito mais tickets do que ele tinha. Ele olhou para Gustavo.
— Pai...
Gustavo já conhecia aquele tom.
— Não.
— Mas falta pouco.
— Falta bastante.
— Coloca mais dinheiro no cartão.
— Hoje não.
Enzo insistiu.
— Só mais um pouquinho.
— Filho...
Gustavo abaixou na altura dele.
— A gente guarda esses tickets. Da próxima vez você junta mais e consegue levar.
O menino olhou novamente para o carrinho. Depois para o pai. Os olhos encheram de lágrimas.
— Eu quero agora!
Amanda respirou fundo. Algumas pessoas começaram a olhar.
— Enzo...
Ele bateu o pé no chão.
— Eu quero!
— Filho, já conversamos.
— Eu quero!
As lágrimas vieram de vez. Ele cruzou os braços, emburrado. Amanda sentiu o rosto esquentar. Ajoelhou-se na frente dele.
— Enzo Gabriel, olha pra mamãe.
Ele não olhou. Continuava encarando o carrinho. Ela respirou fundo mais uma vez.
— Acabou.
Segurou delicadamente sua mão.
— Vamos embora.
— Não!
— Vamos.
Ele resistiu alguns passos, reclamando o caminho inteiro. Amanda saiu da Game Station completamente sem graça. Só quando chegaram ao corredor do shopping ela parou. Agachou-se novamente diante do filho. Esperou até que ele finalmente a encarasse.
— Você pode ficar triste porque não ganhou.
Ele fez um biquinho.
— Mas você não pode fazer esse tipo de cena. — a voz dela continuava calma. — Sabe por quê?
Ele balançou a cabeça.
— Porque nem tudo que a gente quer, a gente consegue na hora.
Enzo fungou. Ela passou a mão em seus cabelos.
— Seu pai prometeu que vocês vão juntar os tickets. Eu acredito nele.
Ele ficou em silêncio por alguns segundos. Depois apenas assentiu. Amanda sorriu.
— Agora limpa esse nariz e vamos aproveitar o resto da noite.
Ele deu um abraço nela.
— Desculpa, mãe.
Ela o apertou de volta.
— Tá perdoado.
Quando levantou, encontrou Gustavo observando a cena. Ele sorriu discretamente para ela. Ela devolveu o sorriso. Aquela noite tinha sido exatamente o que ela queria. Uma comemoração simples. Em família. E, enquanto caminhavam pelo shopping, Amanda teve a sensação de que, depois de muito tempo, as coisas finalmente estavam entrando nos trilhos.
Era uma terça-feira de fevereiro. O sexto andar parecia uma pequena cidade engarrafada. Telefone tocando, gente atravessando os corredores com notebook aberto debaixo do braço, alguém discutia números perto da copa. Do outro lado, um assessor quase corria porque uma reunião tinha mudado de sala.
Amanda nem percebeu quando uma voz anunciou:
— O delivery chegou!
Os olhos continuaram presos ao monitor. Estava comparando duas pesquisas e queria terminar antes que a linha de raciocínio escapasse. Alguns segundos depois, alguém repetiu mais alto:
— Gente! O delivery tá na portaria!
Amanda ergueu a cabeça. Sorriu automaticamente.
— Eu vou buscar.
Pegou o crachá sobre a mesa e saiu do setor.
Gostava de ajudar. Além disso, cada ida até o hall era uma oportunidade de conhecer alguém novo. Conversar. Ser lembrada. Networking não acontecia só dentro das salas de reunião.
Ela caminhava pelo corredor olhando distraidamente algumas mensagens no celular quando ouviu um assobio curto.
— Psiu.
Parou e olhou para o lado. Era o Jonas.
Ele estava apoiado de lado em um armário alto de arquivos, o antebraço descansado sobre a parte de cima do móvel, como se aquele corredor fosse a sala da casa dele. Estava muito bem vestido com o conjunto social.
Quando a viu olhando, fez um pequeno gesto com a cabeça.
Chamando-a.
Amanda sentiu um calor subir pelo pescoço.
"Meu Deus..."
Era ela. Na mesma hora lembrou da conversa do restaurante e das páginas de fofoca.
"Mulherengo."
"Influenciadoras."
"Nunca assumiu ninguém."
"Vive em festa."
Respirou discretamente.
"Pronto… Lá vem alguma cantada..."
Endireitou a postura e caminhou até ele.
— Posso te ajudar?
Jonas bateu com o pé o bico do sapato esquerdo devagar no chão. Parecia preguiçoso, jogado ali. E então empurrou o corpo para frente e apontou a caneta para ela como quem lembrava de alguma coisa importante.
— Posso te dar um conselho?
"Conselho?"
Amanda segurou um sorriso.
"Nossa... vamos ver se ele é criativo."
— Pode.
Ele tentou girou a caneta entre os dedos que caiu em cima de uma mesa, mas ele não se importou. Depois apontou para o crachá dela.
— Para de buscar o delivery.
...
Amanda ficou olhando para ele. Esperando o restante da frase. Ela não veio.
— Como assim?
Jonas afastou o braço do armário e passou a falar usando as duas mãos, desenhando praticamente tudo no ar.
— Você já foi umas quatro vezes essa semana. — levantou quatro dedos. — E a semana começou ontem! — apontou para o corredor. — Daqui a pouco ninguém mais pergunta quem pode ir. — Fez um gesto teatral com a mão. — "Cadê a menina do delivery?"
Ela riu sem acreditar.
— Eu gosto de ajudar.
— Eu sei.
A resposta veio rápida. Ele apontou para ela.
— Esse é justamente o problema.
Amanda franziu a testa.
— Problema?
Jonas fez uma careta.
— Tá vendo? — disse e suspirou cansado. — Você acha que tá construindo uma imagem de prestativa.
Depois apontou para o chão, como se desenhasse outra situação.
— Eles tão construindo outra.
Ela cruzou os braços.
— Eu não vejo problema em ajudar.
Ele balançou a cabeça.
— Também não. — apoiou novamente o antebraço sobre o armário. — O problema é quando ajudar vira sua função.
Fez um gesto como quem empilhava caixas invisíveis.
— Primeiro você busca uma vez. Depois duas. Depois cinco. Daqui a pouco… — estalou os dedos. — “Pega um café pra mim?", "Ô fulana, imprime isso?",”Fulana, desce lá rapidinho?"
Ela mordeu discretamente a parte interna da bochecha. Aquilo a incomodou. Porque, para ela, ajudar era justamente uma forma de mostrar comprometimento.
— Eu só queria mostrar serviço… — a voz saiu mais baixa.
Jonas parou de sorrir.
— Então mostra. — apontou para a sala da Inteligência Eleitoral. — Nas reuniões. Nos relatórios. Nas análises. Você dá ideia boa. Já reparei. — as mãos dele voltaram a se mover naturalmente enquanto falava. — Você foi contratada pra pensar. Não pra virar a menina do delivery.
Amanda abaixou os olhos. Sentiu como se tivesse levado uma bronca e aquilo a ofendeu um pouco. Porque ela realmente acreditava que estava fazendo a coisa certa.
— Eu só não quero que pensem que eu sou antipática...
Jonas soltou um riso curto.
— Moça...
Esperou ela olhar para ele.
— Tem uma diferença enorme entre ser educada...e deixar empurrarem serviço que não é seu.
Ela não respondeu. Não porque concordava. Mas porque não queria discutir. Muito menos com o filho do candidato.
Jonas percebeu e sorriu de lado.
— Relaxa. É só um toque.
Ela respirou fundo.
— Tá...
Ele deu dois tapinhas no próprio bolso.
— Agora… Já que você vai descer mesmo… — Jonas tirou a carteira do bolso, puxou um cartão preto e estendeu para ela. — Compra um açaí pra mim?
Ela pegou o cartão. Ainda meio contrariada.
— Tá.
— Mas presta atenção. — levantou o indicador. — Não aceita substituir ingrediente.
Ela arqueou uma sobrancelha. Ele começou a contar nos dedos.
— Trezentos mililitros.
Primeiro dedo.
— Açaí com banana batida.
Segundo.
— Banana em rodelas bem fininhas.
Terceiro.
— Granola.
Quarto.
— Paçoca.
Quinto.
— Leite em pó.
Terminou a lista completamente satisfeito.
— Fechou?
Amanda abriu o bloco de notas do celular.
— Repete.
— Ah, sabia que você não ia decorar.
Ele riu. Foi repetindo enquanto ela digitava. Nesse instante, um assessor passou pelo corredor.
— Vai pedir açaí?
Jonas respondeu sem pensar. Apontou para Amanda.
— Ela vai buscar.
— Sério? — o homem abriu um sorriso. — Caraca, pede um pra mim também?
Ela levantou os olhos do celular. Nem teve tempo de responder. Outra voz surgiu atrás.
— Vai ter açaí?
— Opa! Pede um pra mim também!
Mais uma pessoa apareceu. Depois outra. Amanda começou a anotar.
— O meu sem granola.
— O meu com morango.
— Quinhentos mililitros.
— Sem leite em pó.
— Troca a banana por morango.
Ela digitava cada vez mais rápido. Jonas permaneceu encostado no armário, braços cruzados agora e assistindo, sem dizer uma palavra.
Cinco pedidos.
Dez.
Quinze.
Vinte e três.
Vinte e oito.
Trinta e três.
Quando finalmente o corredor voltou ao normal, Amanda encarou a tela do celular.
Trinta e três pedidos.
Ela ficou alguns segundos em silêncio. Depois levantou lentamente os olhos.
Jonas descruzou os braços, deu dois passos até ela. Pegou o celular delicadamente da mão dela. Olhou a quantidade de pedidos. Assobiou e devolveu. Sorriu daquele jeito debochado, mas sem maldade.
— Agora… — inclinou um pouco a cabeça. — Entendeu o conselho?
Amanda olhou novamente para a lista, depois para ele. Ela não conseguiu pensar em um argumento para dizer que ele estava errado.
Depois do episódio do açaí, Amanda nunca mais se ofereceu para buscar o delivery.
Na verdade, nem precisava. Bastava alguém anunciar que a comida tinha chegado para ela lembrar da fila de trinta e três pedidos no corredor e do sorriso debochado que Jonas lhe lançara depois, como quem dizia: "Eu avisei." Só de recordar a cena, ainda sentia o rosto esquentar de vergonha.
Pegou um certo ranço dele.
Na cabeça dela, ele poderia muito bem ter explicado tudo aquilo sem transformá-la em exemplo para o escritório inteiro. Tinha certeza de que ele fez de propósito. Sempre que o encontrava pelos corredores, desviava discretamente o caminho ou fingia estar ocupada demais para conversar. Não queria dar espaço para que ele resolvesse lhe ensinar mais alguma lição.
— Amanda, você pode pegar pra gente? — perguntou um rapaz da equipe.
Ela ergueu os olhos do computador.
— Agora não consigo. Tô terminando um relatório. Melhor pedir pra outra pessoa.
O rapaz fez uma cara de quem não gostou muito da resposta, mas chamou outro colega. Cinco minutos depois, Amanda percebeu que ninguém havia morrido porque ela disse "não".
Depois já nem perguntavam mais. Era engraçado admitir aquilo para si mesma, mas Jonas tinha razão.
Na quinta-feira daquela semana, toda a equipe de Inteligência Eleitoral e alguns outros setores estavam reunidos em uma das salas maiores da campanha.
O telão exibia uma sequência de gráficos enquanto analistas discutiam o comportamento do eleitorado em algumas cidades estratégicas. A conversa ia e voltava sobre os mesmos números, mas, para Amanda, havia algo que ninguém estava enxergando.
Ela respirou fundo.
Não gostava de interromper pessoas mais experientes, mas também não fazia sentido guardar aquela ideia. Esperou uma pequena pausa.
— Eu pensei numa possibilidade...
Algumas cabeças se voltaram para ela.
Amanda explicou o raciocínio com calma, apontando para uma das curvas do gráfico. Cruzou aqueles dados com outra pesquisa realizada na semana anterior e sugeriu uma mudança de estratégia para uma região específica.
Quando terminou de falar, o silêncio durou apenas dois segundos. Depois alguém voltou ao assunto anterior. Outro analista comentou um detalhe completamente diferente.
A coordenadora fez uma anotação rápida e a discussão seguiu como se Amanda nunca tivesse aberto a boca. Ela baixou lentamente a tampa do notebook. Já esperava por aquilo.
Foi justamente nesse instante que uma cadeira arrastou pelo chão.
— Puta que pariu...
A voz veio do fundo da sala. Todo mundo olhou.
Jonas levantou devagar, passando uma das mãos pelo rosto enquanto a outra permanecia enfiada no bolso do paletó. Caminhou alguns passos sem pressa até ficar de frente para o telão. Tinha aquele jeito estranho de ocupar qualquer ambiente sem fazer esforço. Bastava começar a falar que as pessoas naturalmente prestavam atenção.
Ele apontou para o gráfico projetado.
— Vocês tão olhando pra esse negócio ou só fingindo?
Ninguém respondeu. Jonas franziu o nariz, claramente impaciente.
— Ela acabou de entregar a solução e ninguém percebeu.
Virou o rosto na direção de Amanda. A expressão mudou completamente.
— Como é teu nome mesmo?
— Amanda.
Ele estalou os dedos.
— Isso.
Voltou a olhar para o restante da equipe.
— Prestem atenção na Amanda, pelo amor de Deus. Eu quero ganhar essa eleição, caralho. Se ela tá mostrando um cruzamento que conversa com todos os números da pesquisa, por que vocês tão ignorando?
A sala mergulhou num silêncio constrangedor. A coordenadora voltou imediatamente para o slide anterior.
— Amanda, explica outra vez.
Dessa vez ninguém mexeu no celular. Ninguém interrompeu.
Ela repetiu toda a linha de raciocínio e, conforme falava, viu alguns analistas balançando a cabeça em concordância.
No fim da reunião, a própria coordenadora decidiu testar aquela estratégia.
Quando todos começaram a guardar os computadores, duas pessoas se aproximaram dela para pedir os dados completos. Depois vieram mais duas. Um dos analistas pediu que ela lhe enviasse a planilha por e-mail.
Amanda saiu da sala tentando esconder o sorriso.
Pela primeira vez desde que chegara à campanha, sentiu que realmente tinha sido ouvida.
E, gostasse ou não… Devia aquilo ao homem que mais evitava encontrar pelos corredores.
Depois daquele dia, alguma coisa mudou.
Jonas passou a procurá-la com frequência. Nunca para conversar sobre assuntos pessoais. Sempre aparecia com alguma dúvida da campanha.
“Amanda, me empresta aqueles números do Sul.”
“Você consegue cruzar essa pesquisa com a da semana passada?”
“Cê acha que esse instituto tá viajando ou sou eu?”
As conversas quase sempre terminavam em trabalho, mas nunca ficavam só nisso. Jonas tinha uma energia difícil de acompanhar. Gesticulava enquanto falava, caminhava de um lado para o outro, voltava no meio da frase porque lembrava de outra coisa, fazia imitações de políticos, reclamava do marketing, contava alguma situação absurda que tinha acontecido na agenda do pai e, quando Amanda percebia, já tinham passado quinze minutos.
Ela nunca conhecera alguém tão... leve.
Era impossível conversar com ele e não rir pelo menos uma vez.
Com o passar das semanas, começou a esperar aqueles momentos sem perceber. Quando ele aparecia na mesa dela, o trabalho parecia ficar menos pesado. Quando passava o dia inteiro sem vê-lo, sentia uma estranha decepção que fazia questão de ignorar.
Foi então que um pensamento começou a incomodá-la. Talvez ele estivesse tentando conquistá-la. Afinal, não era exatamente essa a fama dele?
Amanda passou alguns dias observando com mais atenção. Ele continuava aparecendo, continuava puxando assunto, continuava procurando justamente ela.
Aquilo só podia significar uma coisa e era um problema enorme.
Ela gostava de trabalhar ali. Gostava da equipe. Principalmente, queria construir um bom networking. Se o filho do candidato resolvesse realmente dar em cima dela, como recusaria sem criar um clima estranho?
Só de pensar, já ficava aflita.
Enquanto isso, sem perceber, começou a cuidar um pouco mais de si mesma.
Escolhia as roupas com mais calma antes de sair de casa. Comprou duas blusas novas, voltou a usar um batom discreto e passou a prender o cabelo de formas diferentes. Dizia para si mesma que era por causa do ambiente elegante da campanha. Conviver diariamente com tantas pessoas bem vestidas fazia qualquer um querer se arrumar um pouco mais.
No Dia das Mães, Gustavo apareceu com um perfume embrulhado em papel dourado.
— Gostei dessa sua fase — disse, entregando o presente.
Amanda sorriu.
— Que fase?
— Essa de andar toda produzida. — ele a olhou de cima a baixo, orgulhoso. — Tá parecendo uma ricona agora.
Ela caiu na risada.
Na mesma manhã, Enzo e Théo apareceram escondendo um pacote atrás das costas. Era um cartão-presente da Boticário, segundo Enzo estava “cheinho de dinheiro” pelos dois com a ajuda do pai. Amanda quase chorou quando abriu o pacote que vinha junto. As letras tortas, algumas espelhadas, outras enormes demais para caber na folha, valiam muito mais do que qualquer presente.
Naquele momento, olhando para os três homens da sua vida reunidos na sala, ela tinha certeza de que era feliz.
E justamente por isso...
Não fazia ideia do perigo que representava começar a esperar, todos os dias, pelos minutos de conversa com Jonas Medeiros.
Na segunda-feira seguinte, a equipe inteira voltou a se reunir na sala de estratégia. Amanda já não tinha mais aquela sensação de ser uma estranha ocupando uma cadeira emprestada. As pessoas passaram a prestar atenção quando ela falava, faziam perguntas sobre as análises dela e até a procuravam antes das reuniões para conferir alguns números. Aquilo fazia um bem enorme ao seu ego profissional. Não era vaidade. Era o reconhecimento de um trabalho que vinha exigindo noites mal dormidas e horas extras praticamente todos os dias.
Durante boa parte da reunião, Amanda participou como vinha fazendo nas últimas semanas. Expôs dois levantamentos que havia preparado durante o fim de semana, sugeriu pequenos ajustes em algumas estratégias regionais e respondeu tranquilamente às perguntas que surgiram. Quando terminou de falar, anotou algumas observações no notebook e continuou acompanhando a discussão. Estava satisfeita consigo mesma.
Foi então que Raquel pediu a palavra.
Amanda ergueu os olhos na direção dela. Ainda não conhecia muito a analista. Sabia apenas que fazia parte da equipe de comunicação, era nova na campanha como praticamente todos ali e chamava atenção por onde passava. Era uma mulher muito bonita. Loira, alta, sempre impecavelmente arrumada, daqueles tipos que pareciam acordar maquiadas e com o cabelo pronto. Tinha uma postura extremamente segura e uma facilidade para falar em público que Amanda admirava em silêncio.
Raquel explicou uma estratégia para responder aos ataques que a oposição vinha fazendo nas redes sociais. Enquanto ela falava, Amanda acompanhava o raciocínio sem muita expectativa. Mas, conforme a apresentação avançava, precisou admitir para si mesma que a ideia era realmente muito boa. Não apenas boa. Era inteligente. Simples. Elegante. Daquelas soluções que pareciam óbvias depois que alguém tinha coragem de dizê-las em voz alta.
Quando Raquel terminou, houve alguns segundos de silêncio.
Jonas, que até então rabiscava alguma coisa em um bloco de papel, ergueu a cabeça e soltou uma risada curta, quase incrédula.
— Puta que pariu… — passou uma das mãos pelos cabelos, levantando-se da cadeira. — É isso! — ele apontou para Raquel com a caneta. — Essa saída foi genial.
Raquel sorriu, um pouco sem graça.
— Como é teu nome mesmo?
— Raquel.
— Pronto. — Jonas fez um gesto largo com as mãos, como se empurrasse a ideia para o centro da mesa. — Esse assunto agora é teu. Quero você puxando essa frente porque foi a melhor solução que apareceu até agora.
Amanda permaneceu olhando a cena por alguns segundos. Não havia nada de errado.
Pelo contrário.
Jonas estava fazendo exatamente com Raquel o que fizera com ela dias antes.
Mesmo assim...
Alguma coisa a incomodou.
Era uma sensação pequena. Difícil de explicar. Como se alguém tivesse tirado discretamente um objeto do lugar e ela ainda não soubesse exatamente o que estava faltando.
No fim da reunião, as pessoas começaram a guardar notebooks, fechar planilhas e sair conversando pelos corredores. Amanda demorou um pouco mais organizando suas anotações. Quando levantou os olhos, viu Jonas parado perto da porta, digitando alguma coisa no celular. Ele sorria para a tela daquele jeito espontâneo que parecia surgir sem esforço. Amanda caminhou até ele antes mesmo de decidir se realmente queria fazer aquilo.
— Oi, Jonas.
Ele levantou os olhos imediatamente.
— Opa! Fala aí, Amanda.
Guardou o celular no bolso do paletó e voltou toda a atenção para ela. Amanda apoiou uma pasta contra o peito e sorriu de maneira casual, como quem apenas queria comentar sobre a reunião.
— A ideia da Raquel foi muito boa, né?
Os olhos dele praticamente acenderam.
— Boa? Foi genial!
As mãos começaram imediatamente a desenhar o raciocínio no ar, acompanhando cada frase.
— A oposição tá batendo na gente naquele ponto faz semanas. Ela conseguiu virar o jogo sem atacar ninguém de volta. Isso é muito difícil de fazer. — deu um pequeno estalo com os dedos. — Vai funcionar pra caramba.
Amanda apenas concordou com a cabeça e esperou. Talvez ele comentasse também sobre os levantamentos que ela havia apresentado. Talvez dissesse alguma coisa parecida com a semana anterior.
Ele não disse.
Continuava empolgado falando da estratégia de Raquel quando um assessor apareceu na porta.
— Jonas, teu pai tá te chamando.
— Já tô indo. — virou novamente para Amanda. — Depois a gente conversa daqueles números de Mato Grosso.
Deu um sorriso rápido, bateu de leve na pasta que ela segurava e saiu praticamente no mesmo ritmo em que havia chegado.
Amanda permaneceu parada por alguns segundos. Não soube dizer exatamente o que esperava daquela conversa. Só sabia que, quando ela terminou, ficou com uma estranha sensação de vazio.
Durante o restante da tarde, sem querer, começou a reparar em coisas que normalmente passariam despercebidas. Jonas parou algumas vezes na mesa de Raquel. Depois os dois apareceram conversando perto da copa junto com outros analistas. Mais tarde, ele voltou para mostrar alguma coisa no notebook dela e os dois riram de alguma piada que Amanda não ouviu.
Ela desviou os olhos imediatamente.
Aquilo era ridículo.
Raquel teve uma ideia excelente. Era natural que ele quisesse discutir o assunto com ela. Era exatamente o que Jonas fazia com qualquer pessoa que entregasse um bom trabalho. Ele nunca escondia quando admirava uma boa ideia.
Mesmo assim...
Amanda não conseguiu impedir aquele pequeno incômodo de crescer dentro dela.
Tentou convencer-se de que estava apenas preocupada em continuar se destacando. Afinal, desde que chegara à campanha, Jonas havia sido uma das pessoas que mais valorizava seu trabalho. Talvez ela tivesse se acomodado. Talvez estivesse produzindo menos. Talvez precisasse estudar mais.
No fim das contas, a verdade era simples.
Raquel tinha ido melhor naquela reunião. Muito melhor e isso a irritava, mas não se irritava com Raquel e, sim consigo mesma.
Naquela noite, avisou Gustavo que chegaria mais tarde. Disse que precisava revisar alguns materiais antes da reunião da manhã seguinte. Ele respondeu apenas que tomasse cuidado na volta.
Amanda permaneceu no escritório por mais de duas horas depois que boa parte da equipe foi embora. Abriu relatórios antigos, releu pesquisas, rabiscou possibilidades em um bloco de notas e tentou encontrar uma estratégia que superasse a proposta apresentada por Raquel. Quanto mais pensava, porém, mais precisava admitir o óbvio.
A ideia dela era realmente brilhante. Fechou o notebook frustrada.
No caminho para casa, o celular vibrou várias vezes.
"Já saiu?"
Cinco minutos depois.
"Tá tudo bem?"
Mais alguns minutos.
"Ainda tá no escritório?"
Amanda suspirou, apertando um pouco mais o volante. Sabia que Gustavo só estava preocupado. Mas, naquela noite, aquelas mensagens começaram a irritá-la de uma maneira completamente injusta.
"Onde mais eu estaria?"
"Claro que eu tô trabalhando."
Parada em um congestionamento, pegou o celular e, quase sem perceber o que fazia, entrou no Instagram. Pesquisou o nome de Raquel e encontrou o perfil imediatamente. As fotos mostravam viagens, restaurantes, um apartamento moderno, amigas igualmente bonitas e uma rotina que parecia saída de uma propaganda. Havia centenas de comentários, milhares de seguidores e homens elogiando praticamente todas as publicações.
Amanda deslizou mais algumas fotos antes de apagar a tela.
Olhou o próprio reflexo no retrovisor.
A maquiagem já não estava tão bonita quanto pela manhã. Alguns fios de cabelo haviam escapado do coque e pequenas marcas de cansaço apareciam abaixo dos olhos.
Não era feia. Nunca se considerou feia. Mas também nunca foi uma mulher que chamasse atenção quando entrava em algum lugar.
Era... comum. Uma mulher comum.
No dia seguinte, Amanda estranhou a própria mão enquanto dirigia até a sede da campanha. O dedo anelar estava vazio e, por mais bobo que aquilo parecesse, ela sentia falta do peso da aliança. Gustavo havia saído mais cedo para deixá-las na joalheria. Fazia isso a cada dois anos. Dizia que ouro sem brilho passava uma impressão que o casamento era ruim e vivia implicando que a aliança dela já estava tão opaca que mal dava para enxergar de longe. Amanda sempre ria daquele exagero, mas gostava do ritual. Quando ele voltava para casa e colocava novamente a aliança em seu dedo, ela tinha a sensação de que estava sendo pedida em casamento outra vez.
Assim que entrou no prédio da campanha, porém, a lembrança de Jonas voltou sem que ela quisesse. O elogio exagerado à Raquel ainda incomodava mais do que deveria. Era ridículo. Ela sabia disso. Respirou fundo, entrou no banheiro antes de subir para o sexto andar e ficou alguns segundos diante do espelho. Soltou o cabelo, passou os dedos pelos fios e depois prendeu novamente. Retocou o batom, ajeitou a base perto do nariz e, antes de guardar a maquiagem, tirou os óculos por alguns segundos.
Ficou olhando para o próprio reflexo.
Talvez estivesse na hora de comprar lentes de contato.
Sempre achou que os óculos pesavam demais no seu rosto. Será que sem eles pareceria mais bonita? Mais jovem? Mais interessante?
Sorriu de si mesma.
Que bobagem.
Guardou tudo na bolsa e subiu.
Mesmo tentando agir normalmente, carregou aquela irritação silenciosa durante o dia inteiro. Não era uma raiva que explodia. Era pior. Ficava escondida. Ela respondia aos colegas com educação, participava das reuniões, entregava os relatórios no horário, mas bastava lembrar da reunião do dia anterior para sentir aquele aperto estranho no peito. Parecia que alguma expectativa havia sido quebrada, embora ela não conseguisse explicar qual.
No fim da tarde, resolveu levantar para tomar um café. Precisava respirar um pouco. A copa estava vazia, iluminada pela luz alaranjada do fim do dia que atravessava as janelas. Enquanto o café caía lentamente na xícara, Amanda ficou observando a fumaça subir, tentando convencer a si mesma de que aquilo tudo era apenas cansaço.
— Amanda, que coincidência.
Ela virou discretamente o rosto.
Jonas acabava de entrar na copa.
Estava com as mangas da camisa dobradas até os antebraços, a gravata afrouxada e o paletó pendurado despreocupadamente sobre um dos ombros. Caminhava daquele jeito relaxado que parecia desafiar qualquer protocolo de escritório. Pegou a maior caneca que encontrou no armário e começou a enchê-la de café sem nenhuma cerimônia.
Amanda sorriu sem vontade.
— Oi...
Jonas olhou rapidamente para ela enquanto apertava o botão da cafeteira. Bastaram dois segundos para perceber que havia alguma coisa errada.
— Tá tudo bem? Você tá com uma cara péssima. Ontem também. O pessoal até comentou que você tava estranha.
Ela soprou o café antes de responder.
— Tá tudo bem... é só um problema particular.
Jonas assentiu devagar, respeitando a resposta. Pegou a caneca, mas, antes de sair, seu olhar desceu naturalmente para a mão esquerda dela.
Ele parou no mesmo instante.
— Pera aí… — franziu a testa. — Cadê tua aliança?
Amanda olhou para a própria mão. Então ele tinha reparado. Sentiu um calor gostoso subir pelo peito. Não era exatamente felicidade. Era a sensação de perceber que alguém havia prestado atenção nela. Logo ele.
— O Gustavo levou pra polir.
Jonas respirou aliviado.
— Ah, bom… — sorriu de lado. — Achei que vocês tinham brigado.
Amanda ficou alguns segundos olhando para a própria xícara. Foi nesse instante que um pensamento completamente absurdo atravessou sua cabeça.
"E se eu dissesse que sim?"
Queria entender.
Queria saber qual seria a reação dele.
Queria... sentir-se desejada outra vez.
Antes que pudesse impedir, as palavras escaparam.
— Na verdade... eu me divorciei.
Assim que terminou de falar, se arrependeu.
Jonas congelou. Toda a expressão leve desapareceu do rosto dele.
— Caraca… — a voz saiu baixa, sincera. — Eu sinto muito.
Amanda apenas abaixou os olhos.
O silêncio entre os dois ficou pesado.
Jonas passou a mão na nuca, claramente procurando alguma coisa que pudesse aliviar aquela situação.
— Deve estar sendo uma barra, né?
Ela apenas fez um gesto afirmativo. Ele respirou fundo mais uma vez.
— Olha... quem perdeu foi ele.
Amanda ergueu lentamente o rosto. Jonas continuava olhando para ela com a maior sinceridade do mundo.
— Fica tranquila. Você vai encontrar alguém melhor.
Ela soltou uma risada amarga.
— Alguém com essa minha aparência? Eu sou uma mulher completamente comum, Jonas.
Ele fez uma careta imediatamente.
— Ah, para com isso.
Amanda deu de ombros.
— É verdade.
Jonas balançou a cabeça algumas vezes, como quem recusava aquela ideia.
— Amanda, vou te falar uma coisa de homem. — apontou discretamente para ela com a própria caneca. — Você é gatinha.
Ela arregalou os olhos. Ele continuou naturalmente, completamente alheio ao efeito que aquelas palavras tinham causado.
— Sério mesmo. Se a gente tivesse se conhecido em outro lugar... eu já tinha te passado o rodo.
O silêncio caiu entre os dois.
Jonas piscou duas vezes e a ficha dele caiu. Ele fechou os olhos por um segundo e levou a mão à testa.
— Puta merda… — soltou uma risada completamente sem graça. — Eu falei igual um animal agora.
Amanda continuava olhando para ele. Jonas começou a gesticular, tentando desesperadamente consertar a situação.
— Não foi isso que eu quis dizer. Foi modo de falar. Quer dizer... eu quis dizer que você é uma mulher bonita. Só isso. Ambiente de trabalho, eu jamais...
Quanto mais tentava explicar, pior parecia ficar.
Amanda sentiu o coração acelerar de um jeito completamente inesperado.
A espontaneidade dele era desarmante.
Ele não estava usando frases prontas.
Nem tentando impressioná-la.
Na verdade, parecia genuinamente preocupado por ter ultrapassado uma linha que ele mesmo respeitava.
Sem pensar muito, respondeu baixinho:
— Eu acho que também gostaria de ter te conhecido em outro lugar.
As palavras saíram antes que o bom senso pudesse alcançá-las.
Jonas parou imediatamente de falar.
A expressão dele mudou. Não foi um sorriso. Não foi surpresa. Foi como se alguma chave tivesse girado silenciosamente dentro dele.
Os dois permaneceram alguns segundos apenas se olhando. Então Jonas respirou fundo, desviou os olhos e ajeitou a caneca entre as mãos.
— Eu... vou voltar pra minha mesa. — a voz continuava calma, mas havia perdido toda a leveza de antes. — A gente se fala depois.
Amanda voltou para a própria mesa completamente desnorteada.
Tentou terminar um relatório, respondeu alguns e-mails, participou de outra conversa rápida com a equipe de pesquisa, mas fazia tudo no automático. As palavras de Jonas voltavam à sua cabeça de tempos em tempos, quase como uma música irritante que insistia em tocar sem que ela percebesse.
"Você é gatinha."
"Se a gente tivesse se conhecido em outro lugar... eu já tinha te passado o rodo."
Ela fechou os olhos por um instante.
Foi só uma brincadeira… Um comentário infeliz… Nada além disso.
Mesmo assim, sentia o rosto aquecer toda vez que lembrava da expressão dele tentando consertar o que havia dito. Jonas não pareceu um homem tentando conquistá-la. Pareceu um garoto que deixou escapar um pensamento sincero e, no segundo seguinte, ficou desesperado para não desrespeitá-la.
Aquilo mexeu com ela de um jeito que não deveria.
Durante o restante do expediente, os dois sequer voltaram a se encontrar. Amanda chegou a levantar da cadeira duas ou três vezes imaginando que talvez cruzasse com ele no corredor, mas isso não aconteceu. Quando deu seis horas, guardou o notebook na bolsa e foi embora levando uma inquietação que parecia crescer a cada quilômetro percorrido.
No trânsito, desligou o rádio.
Em casa, mal conseguiu prestar atenção na conversa dos meninos. Ouviu Enzo contar alguma história da escola, respondeu às perguntas de Théo, ajudou Gustavo a colocar a mesa e jantou normalmente. Por fora, ninguém perceberia nada.
Por dentro, porém, parecia haver uma energia que ela não conseguia descarregar.
Andava de um cômodo para o outro sem motivo. Arrumava uma almofada que já estava arrumada. Conferia o celular sem esperar mensagem alguma. Abriu a geladeira duas vezes apenas para fechá-la logo em seguida.
Sentia o corpo estranho, quente. Como se estivesse inquieta por dentro.
Quando finalmente os meninos dormiram e a casa mergulhou no silêncio da noite, Amanda deitou ao lado de Gustavo tentando convencer a si mesma de que aquilo passaria. Bastava dormir. No dia seguinte tudo voltaria ao normal.
Ela virou de lado, olhou para o marido dormindo tranquilamente.
Fazia tempo que os dois não tinham um momento só deles durante a semana. O trabalho, as crianças, a rotina... tudo acabava ficando para o fim de semana.
Sem pensar muito, aproximou-se dele, passou os dedos devagar por seu braço e depois encostou os lábios em seu pescoço. Gustavo abriu os olhos com um sorriso preguiçoso.
— Ué... que milagre é esse? Quer namorar numa terça-feira?
Amanda sorriu de volta.
— Quero… — a voz saiu quase como um sussurro.
Ele virou o rosto para beijá-la, envolvendo-a nos braços com a intimidade de quem conhecia cada detalhe dela havia quase dez anos.
Amanda fechou os olhos, queria estar completamente ali, queria sentir apenas o marido, queria que aquela inquietação desaparecesse.
Mas, por um único instante...
Quando os lábios dele encontraram os seus...
A imagem que atravessou sua cabeça não foi a dele.
Foi Jonas, o sorriso de canto, aquele jeito desajeitado de tentar consertar a própria frase, como ela reparou em como ele estava sexy.
Amanda abriu os olhos imediatamente.
O coração disparou.
Sentiu uma culpa tão grande que quase precisou prender a respiração.
"Meu Deus..."
Aquilo estava errado.
Muito errado.
Mas...
Era só um pensamento. Pensamentos não mudavam quem ela era.
Não apagavam dez anos de casamento. Não significavam que ela deixara de amar Gustavo. Ela repetiu isso para si mesma, quase como uma oração.
Mesmo assim...
Naquela noite, pela primeira vez desde que se casou, descobriu que a mente podia ser muito mais difícil de controlar do que qualquer atitude.
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