O CEO que Eu Paguei

283 Entre Eles Três


Quando Humberto finalmente parou de chorar, Helena já estava convencida de que o controle remoto da televisão tinha se tornado o objeto mais importante de toda a existência do filho.

O problema começara uns quinze minutos antes, quando ele o avistara sobre o sofá. Não interessava que tivesse ao redor mordedores, brinquedos coloridos, um livro de tecido que até aquela manhã parecia fascinante e pelo menos três objetos desenvolvidos especificamente para um bebê de cinco meses. Humberto queria o controle.

Helena deixara que ele tocasse por alguns segundos enquanto segurava o objeto, imaginando que a curiosidade passaria.

Não passou.

Humberto agarrou com as duas mãos e, naturalmente, tentou levá-lo à boca.

— Não, meu amor. Isso você não pode comer.

Ela puxou o controle.

Humberto ficou imóvel por um segundo, como se precisasse processar a dimensão daquela injustiça. Depois o rosto se desmanchou.

O choro que veio em seguida teria feito qualquer pessoa do lado de fora acreditar que Helena acabara de cometer alguma atrocidade.

— Meu Deus, Humberto. — Ela o colocou no colo. — A mamãe tirou um controle remoto da sua boca, não destruiu a sua vida.

Não adiantou.

Humberto chorou indignado, virou o corpo procurando o objeto e ficou ainda mais revoltado quando percebeu que Helena o havia colocado fora de alcance.

— Não adianta olhar. Acabou.

Ele olhou para ela e chorou mais forte.

— Você está tentando me intimidar?

Outro berro.

Helena precisou morder a parte interna da bochecha para não rir, porque sabia que rir naquele momento seria uma péssima ideia. Aquele salto dos cinco meses estava sendo exatamente tudo que os vídeos que vira no TikTok prometiam. Humberto parecia ter acordado alguns dias antes com opiniões próprias sobre absolutamente tudo e a convicção de que elas deveriam ser respeitadas.

Nada servia quando não era o que queria. Os brinquedos tinham perdido metade do encanto diante de objetos proibidos, qualquer frustração era recebida como uma ofensa pessoal e seu humor podia mudar em segundos. Humberto queria o celular, o controle, os cabelos de Helena, o relógio de Heitor, o copo em cima da mesa, a alça de uma bolsa, o pote de cotonetes e qualquer outra coisa que não tivesse sido fabricada para ficar nas mãos dele.

Mesmo assim, Helena estava adorando aquela fase.

Talvez fosse loucura admitir isso depois de passar vários minutos negociando com um bebê furioso por não poder lamber um controle remoto, mas ele também estava mais sorridente, mais atento e muito mais interativo. Falava o dia inteiro, descobria sons novos, parecia genuinamente esperar respostas e começava a deixar cada vez mais evidente o que gostava, o que não gostava e o que pretendia conquistar.

E estava ficando cada vez mais parecido com o pai.

Não fisicamente apenas. Havia alguma coisa naquela insistência, naquela confiança absurda de que bastava querer muito uma coisa para eventualmente consegui-la, que fazia Helena enxergar Heitor em miniatura.

— Você está ficando igualzinho ao seu pai — murmurou quando o choro finalmente se reduziu a alguns soluços ofendidos. — Isso é muito preocupante.

Humberto fungou contra seu peito.

— Um Heitor já dá trabalho suficiente.

Ele levantou o rosto.

Os olhos azuis ainda estavam úmidos, as bochechas vermelhas, mas a tragédia começava a passar.

— Não adianta fazer essa cara. O controle continua proibido.

Humberto encostou a cabeça nela outra vez.

Helena beijou seus cabelos e voltou a olhar para a televisão sem realmente prestar atenção no que estava passando.

Esperava Heitor chegar.

A sexta-feira tinha começado com três candidatas e uma certeza confortável de que Lívia provavelmente ficaria atrás das outras duas. Terminara com três candidatas e absolutamente nenhuma certeza.

Agora Helena tinha dois problemas enormes.

O primeiro era escolher quem cuidaria da pessoa mais preciosa da vida dela.

O segundo era que já não queria dizer não para nenhuma das três.

No começo do processo, isso não existia. Eram currículos, experiências, referências e qualificações. Helena conseguia olhar para cada nome e pensar exclusivamente em Humberto: quem era mais segura, quem combinava com a rotina deles, quem respeitaria seus limites e quem saberia agir numa emergência.

Depois vieram os dias práticos.

Denise deixou de ser a mulher de quarenta e cinco anos com anos de experiência e passou a ser a mãe de Marina, que trabalhara muito porque precisava sustentar a filha, engolira situações por necessidade e aprendera da maneira difícil que amar uma criança de quem cuidava não lhe dava o direito de ocupar o lugar da mãe.

Patrícia deixou de ser apenas a técnica de enfermagem que passara anos em maternidade e UTI neonatal. Helena conhecera a mulher reservada, criada em Niterói por uma mãe auxiliar administrativa e um pai da manutenção, a irmã mais nova, a sobrinha adolescente que a chamava de velha e aquele humor seco que só aparecia depois que alguém atravessava a primeira camada.

E Lívia...

Helena soltou o ar devagar.

Lívia tinha ido embora havia poucas horas com o rosto vermelho, tentando manter a compostura enquanto admitia que queria muito aquela oportunidade. Tinha olhado para Humberto e falado sobre vê-lo sentar, engatinhar, andar, crescer. Já tinha ideias para acompanhar um desenvolvimento que mal começara e, durante um único dia, conseguira fazer Helena enxergar que menos anos de experiência não significavam menos a oferecer.

Agora eram pessoas.

E pessoas esperariam uma ligação na segunda-feira.

Duas delas receberiam uma notícia ruim.

— Por que eu fui conversar com elas? — Helena perguntou baixinho para Humberto.

Ele respondeu alguma coisa incompreensível contra seu peito.

— Exatamente. Eu devia ter contratado por currículo e pronto.

Ela não faria isso nem se pudesse voltar no tempo.

Humberto se mexeu, e Helena ajustou sua posição antes de tornar a apoiar a cabeça no sofá.

Ainda havia outra coisa ocupando sua cabeça.

Renato ligara mais cedo.

Não era incomum que o sogro telefonasse para falar com ela ou perguntar pelo neto, mas daquela vez tinha um pedido.

— Helena, amanhã vocês têm algum compromisso com o Humberto?

— Não. Por quê?

— Posso roubar meu neto por um dia?

Helena sorrira imediatamente.

— Pode. Aconteceu alguma coisa?

Renato hesitara apenas o suficiente para ela perceber.

— Vou para os Estados Unidos domingo à noite. Queria passar o sábado com ele antes.

O sorriso de Helena diminuíra.

— Estados Unidos?

— Miami.

— Por quanto tempo?

— A estimativa é umas duas semanas. Pode se estender um pouco.

Ela se endireitara no mesmo instante.

— Está tudo bem?

Renato respondera com aquela tranquilidade que Helena já aprendera a reconhecer nele.

— Está. Não precisa se preocupar. É parte do negócio.

Ela ainda fizera mais duas perguntas, mas Renato não parecera preocupado, apenas ocupado. No fim, combinaram que ele passaria o sábado com Humberto, e Helena prometera separar tudo que o bebê pudesse precisar.

Agora, horas depois, a ligação voltava à sua cabeça.

Porque parte do negócio tinha adquirido uma dimensão completamente diferente nos últimos meses.

A Monteiro Inc. não estava simplesmente abrindo um escritório nos Estados Unidos.

Heitor tinha explicado isso para Helena desde o início.

A entrada em Miami aconteceria junto com o ‘Monteiro Bay Residences’, o primeiro grande empreendimento americano da construtora e, por isso mesmo, uma espécie de cartão de visitas da empresa naquele mercado. A previsão era uma torre residencial de luxo de aproximadamente quarenta andares, com apartamentos grandes, coberturas e uma estrutura de serviços que se aproximava do padrão de hotelaria de alto nível.

Para entrar mais rápido num mercado que não conheciam da mesma forma que conheciam o Brasil, tinham fechado uma parceria com uma empresa americana já estabelecida em Miami. O parceiro tinha relacionamento local, conhecimento dos processos, acesso a fornecedores, bancos, corretores e toda uma rede que levaria anos para a Monteiro construir sozinha. A Monteiro, por outro lado, tinha patrimônio, capacidade financeira, experiência em grandes projetos e o controle da operação.

Heitor resumira para ela de maneira muito simples uma noite.

Setenta por cento Monteiro Inc. Trinta por cento parceiro americano.

Eles abriam portas e a Monteiro Inc. entrava com força suficiente para atravessá-las.

Na ocasião, Helena até achara interessante.

Agora começava a entender o tamanho do que vinha junto.

Heitor já a avisara que os próximos meses seriam frenéticos. Ela só não tinha imaginado quanto.

Nos últimos dias, parecia não existir decisão pequena. O orçamento final do empreendimento passava por ele. A tabela de preços dos apartamentos passava por ele. Distribuição das unidades, padrão de acabamento, contratos da joint venture, projeções financeiras, financiamento, identidade do projeto, materiais de lançamento, cronograma, escolha da empresa responsável pelas vendas, estratégia comercial e uma quantidade interminável de decisões que chegavam do escritório americano acabavam, de alguma forma, na mesa de Heitor.

E quase todas envolviam dinheiro demais para que alguém simplesmente decidisse e seguisse em frente.

Helena começara a entender isso ouvindo as conversas dele.

Uma alteração de fachada que para qualquer pessoa pareceria estética podia mexer em engenharia, custo, prazo e até área vendável. Uma mudança na planta de determinados apartamentos alterava posicionamento e preço. Um fornecedor que não cumprisse o esperado não significava apenas escolher outro; podia afetar orçamento e cronograma.

E havia gente demais querendo coisas diferentes.

O parceiro americano defendia uma solução porque conhecia o mercado de Miami. A equipe da Monteiro Inc. defendia outra porque conhecia o padrão da empresa. O financeiro olhava para uma especificação e achava o custo absurdo. O marketing argumentava que economizar justamente naquele ponto diminuiria a percepção de luxo do empreendimento.

No fim, alguém precisava decidir.

E esse alguém, muitas vezes, era Heitor.

Talvez por isso Helena tivesse começado a preparar os lanches dele sem nem perguntar.

Não podia sentar numa reunião da joint venture e decidir qual acabamento deveria entrar nos apartamentos. Não podia resolver uma divergência contratual, revisar uma projeção financeira nem dizer se o preço de uma cobertura estava certo. Mas podia perceber que Heitor saíra de casa sem café da manhã.

Podia deixar alguma coisa pronta para ele comer.

Podia entrar no escritório perto das onze da noite e dizer que já chegava.

Podia voltar quinze minutos depois quando ele respondesse já vou e continuasse diante do computador.

Podia cuidar dele.

E, egoisticamente, Helena estava feliz por poder fazer isso.

Helena apertou Humberto um pouco mais contra o peito só de imaginar.

Preferia Renato nessa rotina de viagens.

Sentiu-se horrível no mesmo instante.

— Não desse jeito — murmurou, como se precisasse se justificar para o bebê.

Não queria que o sogro passasse duas semanas longe de Celina. Muito menos desejava que ele tivesse trabalho extra para poupar Heitor.

Era apenas...

Helena olhou para a entrada da sala.

Heitor estava trabalhando muito. Mais do que ela gostaria. Às vezes chegava cansado, jantava com ela e Humberto e, antes que Helena pudesse acreditar que finalmente teria o noivo para si, vinha a frase que já aprendera a odiar.

“Vou resolver só uma coisa.”

A coisa virava duas.

Depois uma ligação.

Depois uma reunião.

Depois onze da noite.

Mas ele estava ali.

Helena podia entrar no escritório.

Podia abraçá-lo por trás da cadeira, beijar seu rosto, reclamar que estava tarde. Podia levar café. Podia tirar o notebook da frente dele quando perdia a paciência. Podia dormir sabendo que, em algum momento, sentiria o colchão afundar quando Heitor finalmente se deitasse ao seu lado.

Humberto se mexeu novamente e Helena olhou para ele.

— Seu avô vai viajar e sua mãe já está sofrendo por uma viagem que nem é do seu pai.

Os olhos azuis se abriram um pouco.

— Não conta pra ele.

Humberto fez um som baixo.

— Fofoqueiro.

A porta ao longe ainda não tinha se aberto.

Helena olhou o horário no celular.

Heitor não estava atrasado.

Ela é que estava esperando demais.

Talvez porque tivesse passado o dia inteiro acumulando coisas para contar.

Queria falar sobre Lívia. Sobre o jardim. Sobre Humberto tentando arrancar grama, sobre a maneira como Lívia tinha percebido o cansaço dele, sobre os dois minutos ridículos que Helena conseguira ficar longe durante o banho. Queria contar o que Lívia dissera na despedida.

Queria falar de Denise.

De Patrícia.

Das três.

E queria perguntar sobre Renato, sobre a nova filial.

Humberto levantou a cabeça de repente.

Helena ouviu o carro antes de vê-lo.

O som chegou abafado até a sala e desapareceu quando o veículo entrou na garagem subterrânea. Ela olhou imediatamente para Humberto, ainda acomodado em seu colo depois da tragédia envolvendo o controle remoto.

— Quem chegou?

Humberto acompanhou o tom da voz dela antes mesmo de entender qualquer outra coisa. Os olhos se arregalaram.

— Será que foi o papai?

Um sorriso começou a aparecer.

Helena sentiu o próprio peito aquecer.

— Foi? Vamos lá ver?

Levantou-se com ele no colo e seguiu para o hall do elevador falando pelo caminho, mais animada do que precisava estar.

— O papai chegou. Você passou o dia inteiro aprontando e agora vai fingir que foi um anjo, não vai?

Humberto respondeu com uma sequência de sons e bateu uma das mãos no peito dela.

— Eu vou contar tudo. Inclusive o escândalo do controle.

As portas ainda estavam fechadas quando chegaram. Helena ajeitou Humberto no colo e ficou esperando, já sorrindo antes mesmo de Heitor aparecer.

Pouco depois, ouviu o elevador.

As portas se abriram.

Heitor estava de cabeça baixa, digitando alguma coisa no celular enquanto saía. Ainda usava a roupa do trabalho, a camisa presa dentro da calça, mangas no lugar, aparência de quem não tinha terminado completamente o dia apesar de ter chegado em casa. Deu dois passos antes de levantar os olhos.

Parou.

O sorriso que apareceu foi tão imediato e tão bonito que Helena sentiu as próprias bochechas responderem antes que pudesse evitar.

Humberto reagiu ainda mais.

O corpo inteiro começou a se movimentar em seus braços. Pernas, braços e um gritinho e aquele sorriso enorme que parecia exigir participação de cada músculo disponível.

Heitor guardou o celular.

— Oi, família. Que honra.

— Olha quem chegou — Helena disse para Humberto, embora fosse completamente desnecessário.

Heitor foi primeiro até ela.

Passou um braço por sua cintura e a beijou.

— Oi, meu amor. Que saudade. — beijou sua boca outra vez, depois uma bochecha. — Como foi seu dia?

Outra bochecha.

— Heitor...

Ele já estava beijando seu maxilar.

— Me conta, vai.

Desceu para o pescoço.

Helena começou a rir.

— Eu não consigo falar se você continuar fazendo isso.

— Consegue sim.

— Foi um dia bem confuso.

— Imagino.

Mais um beijo.

Helena sentia as bochechas doerem de tanto sorrir quando Humberto decidiu que aquela recepção já tinha ultrapassado todos os limites aceitáveis.

Veio primeiro um resmungo.

Ninguém respondeu.

Outro, mais alto.

Heitor riu contra o pescoço dela.

— Ih.

Humberto reclamou de verdade.

— Amor, não deixa ele assim — Helena protestou, já olhando para o filho.

Heitor finalmente se afastou.

— Sua vez agora, garotão.

Pegou Humberto dos braços dela e recebeu imediatamente uma sequência indignada de sons.

— Eu sei. Um absurdo. Seu pai chega em casa e cumprimenta sua mãe primeiro.

Humberto resmungou e ainda fazia um bico enorme quando Heitor levantou um pouco sua camiseta.

— Deixa eu ver uma coisa.

Helena já sabia o que viria.

Heitor encostou a boca na barriga do filho e soprou.

O som arrancou de Humberto uma gargalhada instantânea.

Heitor levantou o rosto.

— Ah.

Humberto abriu a boca num sorriso enorme.

— Encheu?

Outra soprada.

Humberto se acabou de rir, encolhendo as pernas.

Heitor parou.

— Acabou?

O bebê ficou olhando para ele, esperando.

— O balão esvaziou?

Humberto mexeu as pernas.

— Acho que esvaziou.

Heitor soprou a barriga novamente.

A gargalhada voltou.

Helena ficou parada assistindo aos dois por alguns minutos, sorrindo. O cansaço que ainda via no rosto de Heitor não tinha desaparecido, mas alguma coisa nele sempre mudava quando pegava Humberto. Como se aquela parte do dia exigisse outra versão dele.

Quando subiram, Heitor começou a soltar os primeiros botões da camisa.

— Helê, eu não posso trocar de roupa de verdade. Tenho reunião mais tarde.

Helena, que acabava de colocar Humberto sobre o trocador, virou o rosto.

— Que horas?

— Mais tarde.

— Heitor!

Ele sorriu.

— Umas oito e meia.

— Então você pode tomar banho e ficar um pouco confortável. Está um inferno de quente.

Ele se aproximou e deu um selinho nela.

— Sim, senhora.

— Vai.

Enquanto Heitor tomava banho, Helena trocou a fralda de Humberto e precisou lutar com duas pernas que tinham decidido não colaborar. Quando terminou, o filho já tinha conseguido agarrar o próprio pé e parecia extremamente satisfeito com a conquista.

Heitor saiu pouco depois, de cabelo molhado e usando apenas uma bermuda leve e camiseta.

— Muito melhor.

Helena olhou para ele.

— Eu falei.

Ele passou por ela, roubou um beijo e pegou Humberto.

— Estou curioso demais pra começar qualquer coisa. Quero saber tudo.

— Tudo?

— Tudo. Denise eu ouvi. Patrícia eu ouvi. Hoje é a última peça do quebra-cabeça.

Foram para a varanda da sala principal. O calor do dia ainda permanecia no ar, mas ali havia uma brisa agradável. Na mesa havia uma jarra de limonada, copos e o controle das luzes daquela área.

Heitor ouviu tudo. Não interrompeu Helena além de uma pergunta ou outra, e, quando ela terminou de contar sobre a despedida de Lívia, ficou alguns segundos em silêncio, passando distraidamente o polegar pela mão de Humberto.

O bebê estava sentado em seu colo, apoiado contra seu peito, mas já começava a se impacientar com o fato de o pai prestar atenção demais em outra pessoa. Puxou dois dedos de Heitor, bateu a mão pequena sobre eles e soltou um som alto.

— Eu estou te ouvindo também — Heitor murmurou.

Humberto abriu um sorriso.

Helena riu.

Heitor olhou para ela e passou a mão pela barba por fazer.

— Agora ficou bem difícil.

— Eu avisei.

— Não, Helê. A gente estava praticamente convencido de que eram duas. Você gostava mais da Denise, eu estava mais inclinado à Patrícia. A Lívia corria por fora.

— Eu sei.

— Aí você passa um dia com ela e volta desse jeito.

Helena franziu a testa.

— Que jeito?

Heitor sorriu.

— Gostando dela.

— Eu gostei mesmo.

— Eu percebi isso.

Helena sorriu e passou a mão pela perna de Humberto. O bebê imediatamente virou para ela e abriu aquele sorriso largo que ainda fazia seu corpo inteiro participar, as pernas se mexendo no colo do pai.

— Oi, meu amor.

Ele respondeu com uma sequência incompreensível de sons.

Helena respondeu como se tivesse entendido perfeitamente.

Heitor esperou a conversa dos dois terminar antes de voltar ao assunto.

— Depois de tudo que você me contou, eu ainda fico mais seguro com a Denise e a Patrícia.

Helena assentiu. Não ficou surpresa.

— Por causa da experiência. — completou ela.

— É. As duas já cuidaram de bebê pequeno por muito tempo, já passaram por um monte de situação diferente. Isso, pra mim, pesa agora. — ele ajeitou Humberto, que começava a escorregar de lado. — Eu acho que a Lívia seria uma excelente babá. De verdade. Se ele tivesse dois anos, talvez eu estivesse olhando pra ela de outro jeito. Mas ele tem cinco meses, Helê. Ainda é muito pequeno.

— Eu pensei nisso também.

— Só que você está em dúvida.

Helena soltou o ar e recostou no sofá.

— Entre as três.

Heitor sorriu de leve.

— Não fica satisfeito com a minha desgraça.

— Não estou satisfeito. Só estou feliz de não ser o único sem resposta.

Helena empurrou a perna dele com o pé.

— Para de me implicar.

Ele segurou seu tornozelo por um instante, fazendo um carinho distraído antes de soltá-lo.

— O que está pesando pra você na Lívia?

Helena pensou um pouco antes de responder.

— Eu consigo imaginar ela ajudando muito no desenvolvimento dele. Não de um jeito exagerado, de ficar querendo ensinar coisa o tempo inteiro. Foi justamente o contrário. Ela observa muito. Parece que consegue aproveitar aquilo que ele já está interessado para estimular alguma coisa.

Heitor assentiu.

— Isso ficou bem claro pelo que você contou.

— E eu gostei do jeito que ela olha pra ele.

Helena observou Humberto brincando novamente com a mão do pai.

— Como a gente combinou, qualquer uma que entrar eu vou ficar junto por um tempo. Não vou simplesmente voltar a trabalhar no dia seguinte e deixar ele sozinho com alguém. Então eu também teria tempo de ver mais da Lívia, principalmente por ela ter menos experiência.

— Eu acho justo. — Heitor olhou para ela. — E, sinceramente? Eu respeito mais a sua impressão do que a minha nesse ponto.

Helena ergueu os olhos.

— Você passou o dia com cada uma delas, Helê. Viu como cuidam dele quando estão cansadas, como falam com você, como se comportam dentro da nossa casa. Eu vi a entrevista e ouvi a referência. É diferente.

— Mas você também precisa confiar.

— E vou precisar. Só não acho que minha insegurança inicial com a Lívia tenha que decidir por nós dois se você viu alguma coisa nela que eu não tive oportunidade de ver.

Helena ficou olhando para ele por alguns segundos.

Era exatamente por isso que conseguia tomar decisões com Heitor mesmo quando discordavam. Ele tinha opiniões fortes, às vezes fortes demais, mas não precisava transformar todas elas em última palavra.

Humberto bateu a mão no peito do pai, exigindo atenção novamente.

Heitor baixou os olhos.

— O que foi, cara?

Humberto sorriu.

— Era só isso?

Outro sorriso.

Heitor beijou sua testa.

— Carente demais.

— Olha quem fala — Helena murmurou.

Ele virou o rosto.

— Eu?

— Você.

— Com você, sou eu mesmo.

Helena tentou esconder o sorriso e não conseguiu.

Ficaram alguns segundos em silêncio, até ela olhar novamente para o jardim.

— Eu não quero dar negativa pra nenhuma delas.

Heitor soltou uma pequena risada pelo nariz.

— Eu percebi isso.

— Não ri.

— Não estou rindo de você.

— Está um pouquinho.

— Porque eu sabia que isso ia acontecer.

Helena fez uma careta.

— Elas são muito boas, Heitor. E agora eu conheci as três. A Lívia quer muito essa oportunidade. A Denise... depois de tudo que ela me contou. A Patrícia também. Eu fico pensando que segunda-feira a gente vai ligar e duas delas vão receber uma resposta que não querem.

Heitor estendeu a mão e segurou a dela.

— Helê, elas são excelentes profissionais. Justamente por isso, provavelmente não estão esperando só a nossa resposta. Devem estar conversando com outras famílias, participando de outros processos.

— Talvez estejam mesmo.

— Então não carrega uma culpa que não é sua. A gente não está decidindo quem é boa e quem é ruim. As três são boas. A gente só vai contratar uma, e precisa escolher quem está mais alinhada com a nossa rotina, com o Humberto e com você.

Helena apertou os dedos dele.

— Mesmo assim é uma rejeição.

— É. E vai ser uma merda receber, principalmente se elas gostaram daqui. Mas não é o fim da linha pra nenhuma delas. Denise vai encontrar outra família. Patrícia também. Lívia também.

Ele acariciou o dorso da mão dela com o polegar.

— Você não está tirando a oportunidade delas, amor. Só está escolhendo quem vai ocupar uma vaga que existe na nossa casa.

Helena olhou para ele.

— É difícil.

Heitor sorriu, dssa vez sem provocação.

— É mesmo.

Humberto soltou um som entre os dois e estendeu a mão para Helena.

Ela se aproximou para oferecê-la, mas ele agarrou um de seus dedos sem sair do colo do pai, satisfeito em permanecer onde estava desde que pudesse ter os dois.

Heitor olhou para a mãozinha fechada ao redor do dedo dela.

— Pelo menos o motivo da confusão parece bem tranquilo.

Helena sorriu e se aproximou um pouco mais de Heitor no sofá.

— Então a gente não decide hoje?

— Não.

— Amanhã?

— A gente pensa amanhã.

— E se continuar sem saber?

Heitor beijou sua têmpora.

— Aí a gente continua pensando, Helê. Não precisamos correr na escolha.

Helena assentiu.

O celular vibrou outra vez sobre a mesa.

Heitor olhou para a tela, mas não o pegou. Humberto, ao contrário, acompanhou o brilho com interesse imediato e se inclinou no colo do pai.

— Não.

A mão de Heitor segurou sua barriga antes que avançasse mais.

Humberto insistiu, esticando o braço.

— Nem adianta.

— Gué… gué… gaaa!

— Pode reclamar.

Helena sorriu por cima do copo.

O vento que atravessava a varanda estava mais fresco agora. Ainda fazia calor, mas já não havia o abafamento do fim da tarde. Sob as luzes baixas da área externa, Heitor parecia finalmente ter desacelerado um pouco, embora Helena soubesse que aquela trégua tinha hora para acabar.

Ele ainda teria uma reunião.

Humberto desistiu do celular e voltou à mão do pai, muito mais interessante do que os brinquedos espalhados pelo sofá. Abriu os dedos grandes de Heitor, examinou a palma, puxou o indicador e tentou levá-lo à boca.

— Amanhã vou precisar ir à empresa de manhã.

Helena virou o rosto.

— Sábado?

— É.

Aquilo, sim, era incomum.

Desde que tinham ido morar juntos, Heitor nunca precisara ir à empresa num sábado. Trabalhar em casa era outra história. Nos últimos tempos, principalmente, o escritório da casa já o tinha roubado deles mais vezes do que Helena gostaria.

— Está tudo bem?

— Está. Hoje foi um inferno e eu não consegui reunir o pessoal que embarca domingo. Preciso alinhar umas coisas antes de eles irem.

— Da operação de Miami?

— É. Coisa que era pra eu ter fechado hoje.

Ele falou sem preocupação, apenas cansado.

— Vou cedo. Quero resolver isso de manhã e voltar.

Helena assentiu. Não precisava perguntar muito mais. Conhecia o projeto, sabia o tamanho da movimentação que aquela nova fase da Monteiro Inc. exigia e, principalmente, sabia que Heitor não deixaria uma equipe embarcar com questões que considerava mal resolvidas.

— Seu pai me ligou hoje. Ele quer ficar com o Humberto amanhã.

Heitor baixou os olhos para o filho.

— Ah.

— Como vai viajar domingo e pode passar mais de duas semanas fora, pediu o dia com ele.

— E você deixou.

Helena estranhou a frase.

— Claro, ué.

— Então acabou meu plano.

— Que plano?

— Ia levar vocês pro clube à tarde.

Helena se ajeitou no sofá.

— Você ia?

— Ia. Já passou da hora de usar aquela boia que a gente comprou pra ele.

Ela começou a rir.

— Aquela boia.

— Qual é o problema da boia?

— Você comprou antes de ele nascer.

— E agora ele já tá aqui.

Helena riu mais.

— Argumento irrefutável.

Humberto soltou o dedo do pai e bateu a mão em seu peito.

Heitor olhou para ele.

— Você ia gostar.

— Ele ama água.

— Pois é.

Ele pegou uma das argolas que estava ao lado e ofereceu ao filho. Humberto segurou, olhou durante dois segundos e a largou sobre a perna do pai.

Heitor ergueu uma sobrancelha.

— Comprei brinquedo pra quê?

— Eu tenho me perguntado isso todos os dias.

Humberto voltou para a mão dele.

Helena sorriu.

— Seu pai é mais interessante.

— Ele tem bom gosto. Puxou a você,

Ela revirou os olhos.

Heitor olhou para ela, divertido.

— Se você quiser, a gente vai sozinho.

Helena pensou por um instante.

Não havia aperto no peito ao imaginar Humberto com os sogros. Havia saudade antecipada, vontade de mandar mensagem, de saber se tinha mamado e dormido, mas não medo. Com Renato, Celina ou sua avó, a confiança existia antes mesmo de ela atravessar a porta.

Além disso, Humberto adorava os avós. Renato, então, tinha conquistado o neto de um jeito quase indecente.

— Eu quero.

— Então vamos.

Simples assim. Heitor pegou o copo e tomou um gole da limonada.

— Minha mãe vai aproveitar.

— O quê?

— Meu pai duas semanas fora, você começando a conseguir deixar o Humberto um pouco mais...

Helena já sorriu, entendendo.

— Ela vai querer me carregar junto?

— Provavelmente. — Heitor sorriu. — E vai ser bom pra vocês. Quando você estiver mais tranquila e conseguir deixar ele um pouquinho com a babá, vocês podem voltar a fazer as coisas de vocês.

Helena gostou da ideia mais do que esperava.

Antes de Humberto nascer, elas almoçavam juntas, saíam, às vezes Celina simplesmente ligava com algum programa já meio decidido e perguntava se Helena queria ir.

Nos últimos cinco meses, naturalmente, tudo tinha passado a girar em torno do bebê.

— Eu sinto falta de sair com ela.

— Ela também sente. Minha mãe adora você, Helê.

— Eu também adoro ela.

Heitor passou o polegar distraidamente pela barriga de Humberto.

— Então pronto. Daqui a pouco vocês duas me abandonam e eu fico em casa com esse cara.

Humberto levantou o rosto ao ouvir a voz do pai.

— Não faz essa cara. Eu fico com você, bebê do papai.

O bebê sorriu.

Helena riu.

— Nossa, que sacrifício.

— Enorme.

Heitor beijou a cabeça do filho, desmentindo completamente a reclamação.

Helena olhou novamente para Humberto.

— E a boia a gente testa domingo aqui.

— Fechado.

— Eu prefiro.

Heitor percebeu o tom.

— Por quê?

— Eu não sei se quero colocar ele em piscina de clube ainda.

— Por causa de quê?

— De tudo. Água, um monte de gente entrando, criança... ele é muito pequeno. Tenho medo de pegar alguma coisa.

Heitor pensou por um instante e assentiu.

— É. Faz sentido.

Não tentou convencê-la.

— Aqui a gente sabe como a piscina é cuidada, e ele pode ficar só um pouquinho. Se eu achar que não está bom, tiro.

— Então fazemos aqui.

Helena sorriu.

Heitor ajeitou Humberto, que começava a escorregar em seu colo.

— Você ainda está pensando em colocar ele na natação?

— Estou.

— Quando?

— Ainda não sei. Quero conversar com a pediatra de novo. Mas quero.

Ela acariciou o pezinho de Humberto.

— Só que eu quero fazer com ele. Se ele for entrar numa piscina pequenininho assim, quero estar junto.

— Vai ser bom pra vocês dois.

Humberto começou a bater os pés, animado com a atenção que voltara para ele.

Heitor segurou uma das perninhas.

— Esse aí vai tirar de letra. Puxou o pai.

Helena ergueu as sobrancelhas.

— Por quê?

— Eu sou meio peixe.

Ela olhou para ele por alguns segundos.

— Meio sereio, então.

Heitor ficou sério.

— Você fala isso porque não valoriza os sacrifícios que eu fiz por essa relação.

Helena já começou a rir.

— Que sacrifícios?

— Abandonei minha cauda mágica por você.

Ela gargalhou.

— Sua cauda mágica?

— Tinha uma vida inteira no mar, Helê.

— Imagino.

— Família, amigos...

— Um reino?

— Não quero entrar em detalhes.

Helena ria tanto que precisou apoiar o copo na mesa.

Heitor manteve a expressão séria.

— Vim pra terra por amor e é assim que sou tratado.

— Coitado.

— Finalmente algum reconhecimento.

Humberto olhava de um para o outro, os olhos atentos à animação dos dois. Quando Helena tornou a rir, ele abriu um sorriso enorme e começou a mexer braços e pernas no colo do pai.

— Olha ele! — Helena se aproximou. — Está rindo sem nem saber de quê.

— Está defendendo o pai.

— Está nada.

— Claro que está.

Humberto soltou um gritinho.

Heitor apontou para ele.

— Viu?

— Vocês são dois bobos.

— Dois homens injustiçados.

Helena passou a mão pela perna do filho.

— Você não acredita no seu pai, não.

Humberto respondeu com uma sequência animada de sons.

— Gué... ah! Da-da-da!

Heitor olhou imediatamente para Helena.

— Ouviu?

Ela já sabia.

— Não.

— Falou “dada”.

— Ele fez um som.

— Em inglês, falou papai.

Helena começou a rir outra vez.

— Você não vai superar isso, né?

— Meu filho é precoce e a primeira palavra vai ser papai. Só aceita.

Humberto, satisfeito por ter a atenção dos dois, abriu aquele sorriso que fazia o corpo inteiro participar.

Helena sentiu o peito aquecer.

Gostava demais de vê-los juntos.

A cada dia Humberto parecia um pouco mais com Heitor. Não apenas fisicamente. Havia alguma coisa nas expressões, na insistência, no jeito como franzia a testa quando era contrariado. Até a satisfação evidente quando conseguia chamar a atenção dos dois lembrava o pai mais do que Helena gostaria de admitir.

Heitor percebeu que ela o observava.

— O quê?

— Vocês estão cada dia mais parecidos.

Ele olhou para Humberto e depois tornou a olhar para ela, claramente satisfeito.

— O moleque deu sorte.

Helena soltou uma risada.

— Modesto.

— Você queria que eu mentisse?

Ela se aproximou e passou a mão pela barba por fazer.

— Está se achando muito hoje.

Heitor virou o rosto e beijou sua palma.

— Mas, a sorte mesmo é que ele me lembra tanto você, vejo muito de você nele, isso o deixa tão perfeito.

A resposta veio tão naturalmente que Helena apenas sorriu.

Humberto, talvez incomodado por perder a atenção outra vez, soltou um grito e bateu a mão no peito do pai.

Dessa vez, forte.

Heitor segurou a mãozinha antes da segunda.

— Ei. Não. — a voz de Heitor mudou, não ficou alta e sim firme.

Humberto parou e olhou para ele.

— Não bate no papai.

O bebê ficou sério.

Heitor manteve a mão pequena entre os dedos por mais um instante.

— Carinho. — passou a palma de Humberto devagar pelo próprio peito. — Assim.

Quando soltou, Humberto olhou para Helena.

Ela acariciou sua perna.

— O papai está certo, meu amor. Não pode bater.

A boca começou a se fechar num bico.

Heitor não voltou atrás.

— Pode ficar bravo.

Humberto resmungou.

— Continua não podendo.

Alguns segundos depois, a mão pequena voltou ao peito dele, dessa vez apenas agarrando a camiseta.

— Isso.

Heitor beijou seus dedos.

Helena ficou olhando os dois novamente.

Era impossível não olhar.

O celular vibrou outra vez sobre a mesa.

A tela acendeu.

Heitor acompanhou o brilho de relance, mas Humberto foi mais rápido e tentou se inclinar na direção dela.

— Ah, não. Você já tentou isso.

Heitor o trouxe de volta contra o peito.

Humberto reclamou.

— Não adianta ficar indignado.

Helena riu e pegou o próprio copo.

— Ele está numa fase impossível.

— Está numa fase ótima.

— Você fala isso porque chega no fim do dia.

— Acho que isso também é verdade.

Ela sorriu.

Heitor ficou olhando para ela por um instante a mais.

Helena percebeu.

— O quê?

— Faz tempo que eu não te vejo de biquíni.

Ela soltou uma risada.

— Faz mesmo.

— Tempo demais.

— Então era essa a ideia do clube?

— Também.

O sorriso dele dizia o resto.

— Safado.

— Tô com saudade, Helê.

Aquilo a fez rir ainda mais.

— De mim ou do biquíni?

Heitor passou os olhos por ela.

— De você no biquíni.

— Pelo menos foi sincero.

— Sempre sou.

— Agora eu vou de maiô.

— Vai estar linda também.

Helena sorriu.

— Mas prefere o biquíni.

— Muito mais.

Ela balançou a cabeça, ainda sorrindo.

Heitor alcançou sua mão e entrelaçou os dedos nos dela.

— Amanhã vai ser bom. Só nós dois um pouco.

Helena apertou sua mão.

— Vai.

— E domingo a gente fica aqui com ele, testa a boia e pensa nas babás.

— Ainda não sei o que fazer.

— Nem eu.

— Segunda-feira está aí.

— Eu sei, Helê. Mas não precisa resolver agora.

Ele passou o polegar sobre os dedos dela.

— Amanhã a gente descansa a cabeça. Domingo conversa de novo.

Helena assentiu. Talvez fosse exatamente do que precisavam. Antes que dissesse qualquer coisa, uma das funcionárias apareceu à porta da sala.

— Desculpa interromper. O jantar está pronto.

Helena virou-se.

— Obrigada.

— Obrigado — Heitor respondeu.

A mulher voltou para dentro.

Helena se levantou primeiro.

— Vamos comer, meu amor.

Humberto respondeu com um som cansado e esfregou o rosto contra o peito do pai.

Heitor olhou para ele.

— Esse aí está acabando.

— Está lutando contra o sono desde que você chegou.

— Queria ver o pai.

Helena sorriu.

— Queria mesmo.

A satisfação apareceu imediatamente no rosto dele.

Heitor beijou o alto da cabeça do filho e se levantou, firmando-o contra o corpo.

O celular vibrou novamente. Dessa vez ele voltou até a mesa e o pegou. Leu a mensagem rapidamente, digitou uma resposta curta e guardou o aparelho no bolso.

Helena o esperava junto à porta.

Quando Heitor chegou até ela, passou a mão livre por sua cintura e a trouxe naturalmente para perto.

— Vamos, Helê.

Helena passou o braço por suas costas.

Humberto, espremido entre os dois por um instante, soltou um pequeno protesto.

Heitor olhou para ele.

— Pô, cara. Dá licença que ela também é minha.

Helena riu e beijou a bochecha do filho.

— Não liga pra ele.

— Aí você me quebra.

Ainda sorrindo, os três entraram juntos para jantar.