Heitor entrou no carro com a mesma expressão séria de antes — mas Helena já sabia que, por trás daquela cara fechada, ele estava pegando fogo.

Ele digitou o endereço dela no GPS com precisão. Estava nos recentes. Era como se ele tivesse colocado ali mil vezes, de tanto pensar em levar ela pra casa.

O motor ligou com um ronco baixo. Ele não olhou pra ela, mas ela o observou pelo canto do olho. As mãos grandes no volante. O maxilar tenso. O volume avantajado bem marcado no calção.

Ela tentou se distrair com a paisagem — que era quase inexistente naquela rua residencial apagada — mas foi quando a música começou que algo diferente aconteceu.

Era WIU. O som grave e lento de "Felina" invadiu o carro com aquele beat arrastado e a letra quente demais pra um silêncio daqueles.

"...Reparei no jeitinho, aquele cabelo cacheado…"

"...Quem me dera ser o cara…"

"...Quem me dera ser abençoado…"

Helena arqueou uma sobrancelha.

— Ué… você escuta isso?

Heitor, ainda olhando pra frente, coçou o queixo de leve.

— Eu sou bem eclético.

Ela mordeu o canto da boca, lutando contra o sorriso. Passou a mão devagar pelo pescoço, os dedos escorregando até a clavícula, como se estivesse pensando — mas no fundo, ela sabia o efeito que aquilo tinha nele.

A música continuava.

"...Me embolei nesse cabelo…"

"...Viajei no rebolado…"

"...E vi que você colocou meu coração pra rebolar…"

"...Tu existir e golpe baixo…"

"...Sigo alto indignado…"

"...Vendo minha marra naufragar…"

— Essa música te lembra alguma coisa? — ela perguntou, com a voz leve, quase provocando.

Heitor respondeu sem virar o rosto, mas com a voz mais baixa:

— Me lembra você.

Helena sentiu um arrepio começar na nuca e descer até o fim da espinha. Olhou devagar pra ele, ainda com um sorrisinho malicioso.

— Já tá ouvindo música pensando em mim, é?

Heitor não respondeu. Mas deu aquele sorriso. Aquele meio sorriso, de canto de boca, com um brilho nos olhos azuis que fazia o estômago dela dar cambalhotas. Ele sabia o que estava fazendo. Sabia o efeito que tinha.

E ela... odiava como isso funcionava nela.

Ou fingia que odiava.

Ela se ajeitou no banco, mas não de qualquer jeito. Virou um pouco o quadril pro lado dele, como se estivesse procurando uma posição mais confortável — mas empinou de leve, deixando a parte de trás do vestido esticar e o volume da bunda se destacar ainda mais. Se esfregou devagar no banco, simulando um incômodo. E sabia. Sabia que ele estava olhando.

E ele estava mesmo.

Heitor ficou em silêncio, os olhos ainda na rua, mas as narinas inflaram. A respiração dele ficou mais pesada. O volume no calção já estava bem ereto, parecendo uma barraca armada. Agora parecia sufocar.

Helena continuou.

Passou o braço devagar por baixo dos seios, como se fosse ajeitar o cinto, mas empinou eles de leve. Um gesto inocente… se ela não estivesse mordendo o lábio naquele exato instante.

Depois, mexeu no cabelo — puxando de leve os fios soltos do lado esquerdo, expondo o pescoço com um movimento que ela sabia que ele adorava.

Heitor engoliu em seco. Errou a entrada da rua. Xingou.

— Puta que pariu — murmurou.

Helena riu.

— Calma aí, Monteiro… vai acabar me jogando num matagal desses.

— Se você continuar desse jeito, eu te jogo no banco de trás mesmo — ele rebateu, a voz mais baixa e mais rouca.

Ela riu, sem recuar.

— Eu? Eu tô quietinha aqui. É você que tá quase babando.

Heitor lançou um olhar rápido, mas intenso.

— Você sabe exatamente o que tá fazendo.

Helena inclinou a cabeça devagar, olhando pra ele com um ar fingidamente inocente.

— Eu só tô sentada aqui. Bonita. Cheirosa. Com a calcinha encharcada. O problema não sou eu.

Ele apertou o volante com força. O GPS recalculando rota. A música ainda tocando, como uma trilha sonora feita sob medida pro caos dos dois.

Helena mordeu o canto da boca.

— O que foi? Tá difícil dirigir?

Ele soltou um riso baixo, puxando o ar com esforço, e respondeu sem olhar:

— Dirigir com você assim do lado é quase impossível.

Ela virou totalmente o corpo na direção dele agora, deixando claro que não ia parar.

— Então estaciona.

— Quê? — perguntou como se tivesse ouvido que o céu é rosa.

— Isso mesmo. Estaciona.

Os olhos dele encontraram os dela. Sérios. Azuis. Famintos.

Helena cruzou as pernas devagar. A mão direita foi deslizando pela coxa nua, chegando até perto da barra do vestido, enquanto ela dizia, com a voz mais baixa:

— Ou você vai querer chegar na porta da minha casa com essa barraca armada e fingir que a noite foi normal?

Heitor resmungou um palavrão e virou à direita. Ali, no escuro, havia uma ruazinha estreita, entre terrenos baldios e algumas árvores mal cuidadas.

Ele estacionou o carro.

E desligou o motor.

Sem dizer nada.

O silêncio pesava mais que tudo.

Helena mordeu o lábio inferior. Ele estava tão quieto. Mas o peito subia e descia como se ele tivesse corrido um quilômetro.

— Porra… Fala alguma coisa, Helena… ou eu vou entender que é pra te devorar inteira.

Ela virou o rosto devagar e disse, com um sorriso travesso:

— Tá esperando o quê?


Notas finais
Caso não queiram ler os capítulos "quentes", por gentileza, pular para o capítulo 38.