O CEO que Eu Paguei
32 Encosta
Heitor entrou no carro com a mesma expressão séria de antes — mas Helena já sabia que, por trás daquela cara fechada, ele estava pegando fogo.
Ele digitou o endereço dela no GPS com precisão. Estava nos recentes. Era como se ele tivesse colocado ali mil vezes, de tanto pensar em levar ela pra casa.
O motor ligou com um ronco baixo. Ele não olhou pra ela, mas ela o observou pelo canto do olho. As mãos grandes no volante. O maxilar tenso. O volume avantajado bem marcado no calção.
Ela tentou se distrair com a paisagem — que era quase inexistente naquela rua residencial apagada — mas foi quando a música começou que algo diferente aconteceu.
Era WIU. O som grave e lento de "Felina" invadiu o carro com aquele beat arrastado e a letra quente demais pra um silêncio daqueles.
"...Reparei no jeitinho, aquele cabelo cacheado…"
"...Quem me dera ser o cara…"
"...Quem me dera ser abençoado…"
Helena arqueou uma sobrancelha.
— Ué… você escuta isso?
Heitor, ainda olhando pra frente, coçou o queixo de leve.
— Eu sou bem eclético.
Ela mordeu o canto da boca, lutando contra o sorriso. Passou a mão devagar pelo pescoço, os dedos escorregando até a clavícula, como se estivesse pensando — mas no fundo, ela sabia o efeito que aquilo tinha nele.
A música continuava.
"...Me embolei nesse cabelo…"
"...Viajei no rebolado…"
"...E vi que você colocou meu coração pra rebolar…"
"...Tu existir e golpe baixo…"
"...Sigo alto indignado…"
"...Vendo minha marra naufragar…"
— Essa música te lembra alguma coisa? — ela perguntou, com a voz leve, quase provocando.
Heitor respondeu sem virar o rosto, mas com a voz mais baixa:
— Me lembra você.
Helena sentiu um arrepio começar na nuca e descer até o fim da espinha. Olhou devagar pra ele, ainda com um sorrisinho malicioso.
— Já tá ouvindo música pensando em mim, é?
Heitor não respondeu. Mas deu aquele sorriso. Aquele meio sorriso, de canto de boca, com um brilho nos olhos azuis que fazia o estômago dela dar cambalhotas. Ele sabia o que estava fazendo. Sabia o efeito que tinha.
E ela... odiava como isso funcionava nela.
Ou fingia que odiava.
Ela se ajeitou no banco, mas não de qualquer jeito. Virou um pouco o quadril pro lado dele, como se estivesse procurando uma posição mais confortável — mas empinou de leve, deixando a parte de trás do vestido esticar e o volume da bunda se destacar ainda mais. Se esfregou devagar no banco, simulando um incômodo. E sabia. Sabia que ele estava olhando.
E ele estava mesmo.
Heitor ficou em silêncio, os olhos ainda na rua, mas as narinas inflaram. A respiração dele ficou mais pesada. O volume no calção já estava bem ereto, parecendo uma barraca armada. Agora parecia sufocar.
Helena continuou.
Passou o braço devagar por baixo dos seios, como se fosse ajeitar o cinto, mas empinou eles de leve. Um gesto inocente… se ela não estivesse mordendo o lábio naquele exato instante.
Depois, mexeu no cabelo — puxando de leve os fios soltos do lado esquerdo, expondo o pescoço com um movimento que ela sabia que ele adorava.
Heitor engoliu em seco. Errou a entrada da rua. Xingou.
— Puta que pariu — murmurou.
Helena riu.
— Calma aí, Monteiro… vai acabar me jogando num matagal desses.
— Se você continuar desse jeito, eu te jogo no banco de trás mesmo — ele rebateu, a voz mais baixa e mais rouca.
Ela riu, sem recuar.
— Eu? Eu tô quietinha aqui. É você que tá quase babando.
Heitor lançou um olhar rápido, mas intenso.
— Você sabe exatamente o que tá fazendo.
Helena inclinou a cabeça devagar, olhando pra ele com um ar fingidamente inocente.
— Eu só tô sentada aqui. Bonita. Cheirosa. Com a calcinha encharcada. O problema não sou eu.
Ele apertou o volante com força. O GPS recalculando rota. A música ainda tocando, como uma trilha sonora feita sob medida pro caos dos dois.
Helena mordeu o canto da boca.
— O que foi? Tá difícil dirigir?
Ele soltou um riso baixo, puxando o ar com esforço, e respondeu sem olhar:
— Dirigir com você assim do lado é quase impossível.
Ela virou totalmente o corpo na direção dele agora, deixando claro que não ia parar.
— Então estaciona.
— Quê? — perguntou como se tivesse ouvido que o céu é rosa.
— Isso mesmo. Estaciona.
Os olhos dele encontraram os dela. Sérios. Azuis. Famintos.
Helena cruzou as pernas devagar. A mão direita foi deslizando pela coxa nua, chegando até perto da barra do vestido, enquanto ela dizia, com a voz mais baixa:
— Ou você vai querer chegar na porta da minha casa com essa barraca armada e fingir que a noite foi normal?
Heitor resmungou um palavrão e virou à direita. Ali, no escuro, havia uma ruazinha estreita, entre terrenos baldios e algumas árvores mal cuidadas.
Ele estacionou o carro.
E desligou o motor.
Sem dizer nada.
O silêncio pesava mais que tudo.
Helena mordeu o lábio inferior. Ele estava tão quieto. Mas o peito subia e descia como se ele tivesse corrido um quilômetro.
— Porra… Fala alguma coisa, Helena… ou eu vou entender que é pra te devorar inteira.
Ela virou o rosto devagar e disse, com um sorriso travesso:
— Tá esperando o quê?
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