O CEO que Eu Paguei
235 Ele Só Queria Voltar Para Ela
O lobby tinha o ar impessoal e cansado de qualquer hotel corporativo: luzes claras, poltronas sem personalidade, gente de camisa social ainda falando ao telefone, malas pequenas cruzando o piso e o cheiro constante de café vindo de uma máquina próxima à recepção.
Oseias percebeu no mesmo instante.
Funcionários desconfortáveis. Trocas rápidas de olhar. Vozes baixas interrompidas quando alguém passava. Aquele tipo de inquietação silenciosa que só aparecia quando alguma coisa tinha acontecido e ninguém queria ser a pessoa responsável pelo problema.
A polícia também não estava ali, provavelmente subiram, sem alarde.
Fazia sentido.
Oséias caminhou devagar pelo saguão, os olhos atentos aos detalhes. Não procurava uma cena específica; procurava comportamento. Quem parecia deslocado. Quem queria ir embora rápido demais. Quem estava nervoso por motivo errado.
Foi quando a viu.
Uma mulher perto da saída.
A bolsa apertada contra o corpo, os olhos inquietos, passando depressa pela recepção, pelos elevadores, pela porta, como alguém que media distância até uma fuga.
Não parecia apenas apressada.
Parecia querer desaparecer.
Ele mudou discretamente o trajeto.
Sem afobação.
Parou perto o bastante para fazê-la perceber que estava ali.
— Tudo bem, senhora?
A mulher se assustou quase imperceptivelmente. Mas ele viu.
— Tudo — respondeu rápido, já aumentando o passo.
Oséias acompanhou, passos largos e firmes.
Até parar suavemente à frente dela, obrigando-a a diminuir o ritmo.
— Um instante.
A mulher apertou a bolsa.
— Eu não posso ajudar você. — A voz saiu tensa e defensiva.
Tentou desviar por um lado, mas Oséias permaneceu onde estava, sólido, imóvel daquele jeito silenciosamente intimidador que homens grandes às vezes eram sem precisar fazer esforço.
Tirou o celular do bolso e abriu uma foto.
Uma publicação qualquer no Instagram profissional do Heitor. Terno escuro, expressão séria, aquele jeito naturalmente difícil de esquecer.
Virou a tela para ela.
— Estou procurando esse homem.
Os olhos dela bateram na imagem e fugiram rápido demais.
— Heitor Monteiro.
Ela engoliu seco.
Depois soltou um sorriso estranho, nervoso.
— Deve ter vários iguais por aqui.
Oséias olhou para o celular.
Depois para ela.
E então ao redor, como se realmente considerasse a hipótese.
— Não. — Guardou o aparelho lentamente. — Igual a esse não tem, não.
A mulher deu um passo para trás.
Foi nesse momento que um segurança do hotel se aproximou, cauteloso, lendo a situação antes mesmo de falar.
— Algum problema aqui?
— Esse homem tá me abordando — a mulher disparou rápido, quase aliviada por ter alguém por perto.
Oséias virou minimamente o rosto. Não estava irritado, nem defensivo, apenas objetivo.
— Segurança particular da família Monteiro.
Retirou o crachá da carteira e mostrou ao homem.
— Estou procurando o senhor Heitor Monteiro.
Bastou dizer o nome.
O segurança hesitou, conhecia a situação.
Limpou a garganta.
— Senhor… podemos conversar um instante?
Oséias olhou para a mulher, depois para as câmeras espalhadas pelo saguão.
Quando voltou a encarar o segurança, a voz saiu baixa e tranquila.
— Claro.
Fez uma pausa curta. Quase casual.
— Só acho importante essa senhora aguardar um pouco.
A mulher endureceu.
— Eu vou embora.
— Pode ir.
A resposta veio calma.
Sem ameaça.
Mas os olhos subiram brevemente até as câmeras.
— Só imagino que, se depois precisarem entender o que aconteceu e as filmagens mostrarem uma pessoa importante indo embora sem ninguém sequer perguntar o nome…
Deixou o resto no ar.
O segurança entendeu imediatamente.
Olhou para ela.
Depois ajeitou a postura.
— Senhora, por favor. Só um momento.
Ela ficou pálida.
Oséias já tinha começado a andar ao lado do homem, afastando-se alguns passos da recepção.
— O senhor Monteiro está no quarto 1104 — disse o segurança, mais baixo agora. — Terceiro andar. A polícia subiu faz pouco.
Oséias assentiu lentamente. Como se já esperasse ouvir exatamente aquilo.
— Ótimo.
Estendeu a mão. E o aperto veio rápido.
— Cuida dela pra mim até eu voltar.
E, sem perder tempo com mais nada, virou em direção ao elevador.
Quando a porta do quarto bateu, o silêncio pareceu crescer de repente.
Heitor ficou imóvel por um instante, sentindo um frio estranho atravessar o estômago.
Merda.
Como explicaria aquilo?
A cabeça ainda parecia lenta, pesada, o coração continuava batendo rápido e o corpo inteiro funcionava como se estivesse alguns segundos atrasado.
Então veio a batida novamente.
— Polícia Militar. Senhor Heitor? Precisamos falar com o senhor.
Por um segundo, algo parecido com alívio atravessou seu peito.
Graças a Deus.
Apoiou uma mão na parede, respirando fundo.
— Um momento — respondeu mais alto.
Olhou para baixo, a camisa com botões abertos e o tecido desalinhado. A visão fez uma irritação quase física atravessar seu corpo.
Virou lentamente o rosto para Ana Alice, Heitor sentia puro desprezo.
Enquanto tentava fechar os botões com dedos ainda pouco firmes, percebeu Ana Alice balançando discretamente a cabeça, fazendo sinal para ele não abrir.
Ana Alice tinha um talento especial para impressioná-lo negativamente.
Respirou fundo, apoiou uma mão na parede e caminhou até a porta em passos lentos, pesados, tentando parecer minimamente normal apesar da tontura que vinha em ondas.
Quando abriu, encontrou dois policiais e um homem de meia-idade atrás deles — provavelmente gerente do hotel.
Os três olharam primeiro para ele.
Depois para dentro do quarto.
Depois para Ana Alice, naquela roupa provocante.
O desconforto ficou visível.
— Senhor Heitor Monteiro? — perguntou um dos policiais.
— Sou eu.
A voz saiu rouca. Mais cansada do que ele gostaria.
Uma preocupação ruim apertou no peito.
E se aquilo tivesse virado alguma acusação? Se Ana Alice inventasse alguma merda? Se aquilo respingasse na Helena?
— Polícia Militar, senhor. Sua noiva entrou em contato preocupada. Disse que o senhor parou de responder e parecia estranho numa ligação.
O alívio veio tão forte que quase doeu.
Helena.
Claro.
As pernas falharam minimamente e ele precisou apoiar mais peso na porta quando ela abriu de vez.
O policial franziu a testa.
— Senhor, o senhor tá bem?
Antes que pudesse responder, Ana Alice apareceu atrás dele.
Rápida demais.
— Ele apagou depois de beber — disse, com um sorriso pequeno e íntimo. — Dormiu igual pedra. Amor, você ainda tá confuso.
Heitor fechou os olhos por um segundo.
Respirou fundo, lento. Muito lento.
Porque, se olhasse para ela agora, talvez perdesse completamente a educação que tinha.
Quando abriu os olhos, a mandíbula estava travada.
— Essa…
A voz saiu baixa e cheia de raiva.
Mas ele não terminou a frase. Não podia descer no nível dela.
O som morreu num resmungo irritado.
Ana Alice se aproximou outra vez.
— Heitor, vem deitar, você tá—
Tentou tocar o braço dele.
Ele puxou imediatamente.
Instintivo.
Como se aquilo queimasse.
— Não encosta em mim.
O policial ergueu a mão, firme:
— Senhora, dá um passo pra trás.
A postura endureceu um pouco.
O parceiro olhou de Heitor para Ana Alice.
— Senhor, o senhor quer que ela fique afastada?
— Quero. Pra caralho.
— Mas, porq—
Heitor soltou o ar com força. A irritação finalmente escapando.
— Porra, tira essa mulher de perto de mim.
Passou a mão no rosto, respirando pesado.
A cabeça latejou na mesma hora.
Olhou rapidamente para o policial.
— Vocês falaram com a Helena?
A voz saiu diferente. Menos raiva. Mais tensão.
— Ela tá bem?
— Tá, senhor. Ela está vindo para o hotel.
O peito afrouxou imediatamente. Ele fechou os olhos um instante.
Graças a Deus.
Respirou fundo. Tentando se organizar.
— Senhores…
Passou a mão pelos cabelos.
A cabeça parecia funcionar pela metade.
— Eu recebi um bilhete na empresa, assinado como se fosse da minha noiva. Achei que ela tava aqui.
Engoliu seco. A visão ainda falhando levemente.
— Tomei remédio de gripe. Dois energéticos. Acho que misturei tudo errado. Comi uns salgados e apaguei enquanto via uma estranha sair do banheiro.
A mandíbula travou.
Olhou minimamente na direção de Ana Alice.
Nojo.
Raiva.
Desconfiança.
— Só que quando acordei…
Fez uma pausa curta.
Ainda tentando montar a própria memória.
— Essa mulher estranha me acusou de várias coisas e depois saiu correndo.
Respirou fundo.
O peito apertou de novo.
— E essa aqui tava comigo no quarto. Eu não sei quanto tempo apaguei.
Os olhos foram para os policiais.
— Mas, eu sei que essa mulher — apontou para Ana Alice — tramou para mim.
— Isso não é verdade! — rebateu Ana Alice rapidamente. — Eu tenho as mensagens. Foi ele quem me chamou pra cá.
Heitor soltou um riso curto. Descrente. Cheio de ódio.
Passou a língua pelos dentes antes de responder.
— Porra, Ana Alice… para de mentir.
A voz saiu rouca. Mas carregada de uma irritação fria que fez até um dos policiais olhar de um para o outro.
— Vocês se conhecem? — perguntou um deles.
Heitor respirou fundo. O peito ainda apertava estranho. A cabeça parecia lenta demais.
— Sim.
Passou a mão pelo rosto. Cansado e irritado.
— Ela é ex do meu cunhado. Eu conheço essa mulher.
O olhar foi direto para Ana Alice.
— Mas eu não tenho contato com ela.
Puxou o celular do bolso quase com impaciência.
Destravou a tela num movimento brusco.
— Olha isso.
Virou a tela para o policial.
— Procura o nome dela. Não tem conversa. Não tem mensagem. Não tem porra nenhuma.
O policial olhou rapidamente, sem pegar o aparelho da mão dele.
Assentiu minimamente.
Depois ergueu o olhar.
— Tá. Vamos fazer isso com calma.
Virou-se para Ana Alice.
— Senhora, preciso que aguarde ali sem interromper.
Indicou a área próxima à mesa.
Ana Alice abriu a boca imediatamente.
— Mas ele tá claramente confuso—
— Eu ouvi.
O outro policial se moveu discretamente, posicionando-se entre ela e Heitor sem parecer ostensivo.
O primeiro voltou a atenção para Heitor.
— Senhor Monteiro.
Esperou até ele focar.
— O senhor está dizendo que acreditava vir encontrar sua noiva, apagou sem entender exatamente o motivo e acordou aqui com essa senhora?
Heitor fechou os olhos por um instante.
A cabeça latejou imediatamente.
— Sim.
Respirou fundo.
Tentando organizar pensamentos que pareciam chegar atrasados.
— Eu achei que a Helena tava aqui.
A mandíbula endureceu.
O olhar desviou minimamente para Ana Alice.
Nojo.
— E eu jamais marcaria alguma coisa com outra mulher.
Fez um gesto curto e impaciente na direção dela.
O policial assentiu.
— O senhor lembra do que consumiu aqui?
Heitor passou a mão pela nuca. Tentando puxar memória.
— Energético.
Fez uma pausa.
— Depois… salgado.
O cenho fechou. Mais forte agora.
— Meu corpo começou a pesar. Muito.
Respirou fundo.
— E eu apaguei.
O parceiro, até então quieto, cruzou os braços.
— Vou perguntar direto.
Olhou rápido para Ana Alice.
Depois para Heitor.
— O senhor acha que colocaram alguma coisa no que o senhor consumiu?
Heitor ficou imóvel. O cérebro parecia lento. Mas algo começou a encaixar.
E então a sua expressão mudou.
— O cheesecake!
Enfiou a mão no bolso da calça e puxou o bilhete amassado.
Estendeu ao policial.
— Eu recebi um cheesecake no trabalho. — a cabeça parecia girar de novo. — Com isso.
Indicou o papel.
— A letra não é da Helena. Achei que ela tinha pedido pra alguém escrever.
Passou a mão pelo rosto.
Irritado consigo mesmo.
— E tinha um gosto estranho. — o cenho franziu. A memória encaixando. — O mesmo gosto.
Levantou os olhos. Raiva pura.
— Caralho…
Olhou diretamente para Ana Alice.
— O mesmo gosto dos salgados. Você premeditou isso?
Ana Alice soltou uma risada nervosa.
— Meu Deus, isso é absurdo—
— Senhora.
O policial virou o rosto imediatamente. Sem paciência agora.
— Eu pedi pra esperar.
Depois voltou para Heitor. Mais sério.
— Senhor Monteiro… o senhor precisa de atendimento médico?
Foi quando uma voz grave surgiu da porta.
— Com licença.
Era o Oséias, ele entrou mostrando a identificação de segurança.
— Sou segurança da família Monteiro.
Heitor virou o rosto imediatamente.
E, pela primeira vez desde que acordou, alguma coisa no rosto relaxou.
— Oséias… — soltou o ar. Até riu sem humor. — Porra. Bom te ver.
Deu um passo. Depois outro. Mas a expressão mudou na hora.
Preocupação.
— E a Helena? — olhou rapidamente ao redor. Depois para Ana Alice. Depois para o quarto inteiro. — Ela não pode ver essa cena. — disse irritado quase aflito.
— Ela tá lá embaixo aguardando o senhor — respondeu Oséias, calmo. — Muito preocupada.
Depois Oséias olhou para o gerente parado perto da porta.
— Acompanha o senhor Monteiro até o Volvo preto. — voltou para os policiais, prático. — Ele precisa de médico.
O olhar rápido em Heitor. Que claramente parecia péssimo.
— O motorista leva direto pro hospital. A família vai colaborar com tudo.
Heitor soltou um riso curto. Seu orgulho masculino gritou de imediato.
— Eu não preciso de hospital. — Oséias nem discutiu. Era experiente demais pra isso. — Entendo. — assentiu. — Então encontra a Dona Helena primeiro.
Oséias sabia exatamente o que aconteceria. Helena resolveria.
Heitor soltou o ar lentamente. Passou a mão no rosto. Estava muito cansado.
— Tá. — tirou a chave do carro do bolso lateral e entregou. — Meu carro tá lá embaixo. Você sabe qual é.
Oséias assentiu.
Os policiais trocaram um olhar rápido.
Um deles murmurou baixo:
— Ele realmente não tá bem.
Heitor e Oséias trocaram um cumprimento curto com a cabeça.
O gerente então deu um passo à frente e estendeu o braço para Heitor.
— Senhor Monteiro, sou o gerente do hotel. Sinto muito pelo inconveniente. Eu posso ajudá-lo—
Heitor se ofendeu. Endireitou minimamente a postura.
Mesmo tonto.
Mesmo mal.
Mesmo claramente funcionando na força do ódio e do orgulho.
Sorriu educadamente.
— Não precisa. — a voz saiu firme. — Eu consigo.
E começou a andar devagar. A cabeça girando em ondas ocasionais. As pernas falhando às vezes. Mas ainda assim andando do jeito mais digno que conseguia.
Ele e o gerente desceram juntos.
O homem parecia empenhado demais em fingir normalidade. Falava sobre coisas banais — o movimento do hotel, uma convenção acontecendo na cidade, o trânsito perto da orla — numa tentativa transparente de transformar aquele corredor silencioso, aquele elevador e aquele saguão numa situação comum.
Heitor entrou no jogo porque precisava.
Assentia quando fazia sentido, soltava uma resposta curta aqui e ali, sustentando a postura na base do orgulho e do puro hábito. Anos de reuniões, crises e negociações ensinavam um homem a manter a compostura mesmo quando tudo parecia desmoronar por dentro.
Mas a verdade era que ele estava péssimo.
O corpo parecia pesado demais para pertencer a ele. As pernas carregavam uma fraqueza estranha, a cabeça vinha em ondas lentas de pressão e calor, enquanto o coração batia rápido demais, num ritmo irritante e descompassado que o deixava inquieto sem conseguir explicar por quê. Às vezes precisava se concentrar só para continuar andando em linha reta.
Ainda assim, atravessou o lobby como se nada estivesse acontecendo.
Quando passaram pelas portas automáticas e o ar fresco da noite tocou seu rosto, Heitor soltou um suspiro quase involuntário.
Foi então que ouviu.
— Heitor!
A voz de Helena veio rasgando a distância antes mesmo que ele pudesse procurar.
O olhar a encontrou imediatamente.
Ela vinha na direção dele rápido, os cabelos levemente bagunçados, o rosto cansado, aflito, os olhos brilhando daquela ansiedade desesperada de quem já tinha imaginado mil tragédias antes de chegar até ali. E ela estava tão linda, nossa, Heitor prendeu até a respiração,
— Heitor!
A voz de Helena veio rasgando a distância antes mesmo que ele pudesse procurar.
O olhar a encontrou imediatamente.
Ela vinha na direção dele rápido, os cabelos levemente desalinhados pelo vento e pela pressa, o rosto bonito tomado pela aflição, os olhos brilhando daquela ansiedade desesperada de quem já tinha imaginado mil tragédias antes de chegar até ali. Ainda vestia as roupas para as fotos da campanha, estava impecável, elegante, linda de um jeito que parecia até injusto. O tecido sofisticado marcava a silhueta, os brincos discretos refletiam a luz do hotel, a maquiagem leve ainda intacta apesar do desespero estampado no rosto.
E, porra… ela estava linda.
Linda num nível que fez o coração apaixonado dele se encher de amor mesmo naquele estado miserável.
Heitor chegou a prender a respiração. Por um segundo, todo o mal-estar pareceu ficar distante, borrado, pequeno diante dela correndo na direção dele daquele jeito. O coração, já descompassado, pareceu bater ainda mais forte e ele nem sabia dizer se era do corpo ruim ou do simples fato de que Helena continuava tendo o poder absurdo de desmontá-lo inteiro só de existir.
Mesmo grogue, quente, zonzo, quase caindo, uma parte ridiculamente apaixonada dele ainda conseguiu pensar, com a devoção silenciosa de quem já tinha perdido a luta há muito tempo:
Puta merda… como essa mulher consegue ficar bonita até desesperada?
Mesmo naquele estado miserável, Heitor sorriu.
Não foi um daqueles sorrisos automáticos, sociais, treinados para reunião, fotografia ou negociação. Foi um sorriso dele — inteiro, involuntário e quente — desses que surgiam sem pedir licença quando o assunto era Helena.
Mas, então… ele viu a forma desesperada como ela procurava por ele antes mesmo de alcançá-lo.
Helena o amava. Amava mesmo. Num nível que doía de tão sincero.
E Heitor, naquele instante ridículo, zonzo, febril, quase sem conseguir firmar o próprio corpo, teve uma vontade absurda de parecer melhor do que estava.
Mais forte.
Mais inteiro.
Só para ela não olhar daquele jeito. Só para ela não sofrer.
O abraço veio antes que ele conseguisse dizer qualquer coisa. Cheio daquela aflição silenciosa de quem passou horas imaginando tragédias.
O impacto quase desmontou o pouco equilíbrio que ainda tinha. Por um segundo real, assustadoramente real, as pernas falharam e ele sentiu o corpo ameaçar ceder.
Disfarçou na hora.
Mudou discretamente o peso do corpo, como se tivesse tropeçado no próprio pé, um gesto pequeno, automático, quase orgulhoso demais para admitir qualquer fraqueza.
Porque havia coisas que Heitor Monteiro aceitava. Mas parecer frágil diante da mulher que amava nunca foi uma delas.
Ainda assim, a abraçou com força e com necessidade.
E, quando enterrou o rosto nos cabelos dela por um segundo mais longo do que deveria, respirando aquele cheiro familiar, absurdamente dela, que o deixava até embriagado de paixão. Ele tinha a certeza, que seu coração era completamente tomado por ela.
— Oi, amor… — a voz dele saiu rouca, baixa, cansada, mas inevitavelmente mais leve do que vinha sendo nas últimas horas.
A mão dele subiu até as costas dela quase num reflexo, apertando de leve como quem precisava confirmar que ela estava ali.
Que era real.
— Que saudade…
E era verdade.
Porque o amor tinha feito uma coisa patética com ele: transformado ausência em saudade física.
Apertou o abraço mais uma vez antes de afastar o rosto o suficiente para vê-la direito.
E, no instante em que encontrou aqueles olhos, veio também a culpa.
A culpa por ela estar daquele jeito.
Por aquele medo estampado nela.
Por fazê-la sofrer.
— O que aconteceu hoje? Por que você sumiu? Não me respondeu…
A pergunta saiu antes que ele conseguisse evitar. Parte preocupação. Parte necessidade infantil de entender onde ela tinha estado enquanto o mundo dele parecia desmoronar.
Helena começou a responder rápido demais, tropeçando nas palavras do jeito que sempre fazia quando estava nervosa.
Falou do celular esquecido, da bolsa errada, da confusão, de Jonas.
Mas então parou.
Parou porque finalmente o olhou.
E Heitor assistiu à mudança no rosto dela acontecer diante dos seus olhos.
O susto.
A mão dela subiu imediatamente até sua testa, depois desceu para o rosto, o pescoço, num toque cuidadoso, aflito, quase trêmulo.
Como se estivesse conferindo se ele ainda estava inteiro.
Como se tivesse medo do que ia encontrar.
— Heitor… — a voz veio pequena. Frágil. Assustada. — Você tá quente…
Os dedos dela permaneceram na pele dele por mais tempo.
Franziu o nariz. Os olhos enchendo daquele pânico silencioso que ela claramente tentava controlar.
— Meu Deus… você tá suando frio.
E então ele viu.
Viu a forma como ela passou a observá-lo inteiro, o rosto abatido, a postura estranha, o esforço exagerado para parecer normal, a lentidão nos movimentos.
Helena conhecia ele. Conhecia bem demais. Sabia exatamente como ele era quando estava forte. E sabia reconhecer, sem esforço, quando ele não estava.
Aquilo o atingiu numa parte profundamente masculina e orgulhosa dele.
Porque Heitor odiava a ideia de parecer quebrado.
Especialmente diante dela.
Especialmente diante da mulher que ele queria proteger.
Mas antes que pudesse minimizar qualquer coisa, ela segurou sua mão com firmeza, quase como quem tinha medo de ele escapar.
— Nós vamos pro hospital.
Não foi pedido.
Foi decisão.
E Deus…
Ele amava aquilo nela.
Mesmo no desespero. Mesmo quase chorando.
Helena amava organizando o caos. Amava cuidando. Amava ficando.
Porque tudo o que queria naquele momento era poupar aquela mulher de mais uma preocupação.
Mas também, egoisticamente, queria só ir para casa.
Deitar.
Dormir perto dela. Sentir a mão dela no cabelo. Ouvir aquela voz baixa contando sobre o seu dia. Como se isso, sozinho, resolvesse alguma coisa.
— Amor… — a voz dele saiu cansada, baixa, quase um pedido. — Eu só queria ir pra casa…
Olhou para ela. Com aquele amor silencioso, enorme, desesperadamente rendido que já nem fazia questão de esconder.
— Ficar perto de você um pouco.
— Monteiro, olha o seu estado… — a voz dela saiu fina de preocupação, quase trêmula, enquanto ainda o guiava pela mão, como se tivesse medo de que ele simplesmente resolvesse cair ali.
Heitor diminuiu o passo e depois parou.
O movimento fez Helena virar o rosto na hora, os olhos imediatamente procurando os dele, aflitos, atentos demais.
Ele soltou um suspiro baixo.
Porra. Como explicava aquilo sem assustá-la?
— Helê…
A voz saiu cansada, rouca, mais baixa do que ele gostaria.
Passou a mão pelo rosto, tentando ganhar um segundo para organizar os pensamentos que insistiam em vir lentos e embaralhados.
— Se eu entrar num hospital desse jeito, vão querer me internar. — Tentou soar casual.
Não conseguiu.
O cansaço atravessava até a voz.
— E eu não aguento mais ficar internado, pô…
Respirou fundo, olhando para ela daquele jeito que sempre olhava quando baixava a guarda só um pouco.
Com honestidade.
Com amor.
Quase vulnerável demais.
— Sou seu homem, Helê… preciso manter pelo menos um restinho de dignidade aqui.
Era brincadeira.
Mas nem tanto.
Porque alguma parte absurdamente masculina e orgulhosa dele odiava a ideia de Helena vê-lo daquele jeito, fraco, tonto e mal conseguindo sustentar a própria postura. Ele queria ser o homem que resolvia, que segurava, que protegia. Não o que precisava ser amparado.
Os olhos dela encheram de água quase na mesma hora.
— É tão ruim assim?…
A pergunta veio pequena. Cheia daquele medo que Helena tentava esconder, mas nunca conseguia de verdade quando se tratava dele.
Heitor sentiu o peito apertar.
Merda.
Era justamente isso que ele não queria.
Vê-la sofrendo.
Aproximou-se um pouco, levando a mão até a dela, envolvendo os dedos pequenos entre os seus enquanto fazia um carinho distraído com o polegar.
— Ei…
A voz saiu mais suave. Mais dele. Mais amor.
— Não é tão ruim assim.
Mentira parcial.
Mas necessária.
— Eu vou, tá?
Assentiu de leve, tentando colocar alguma leveza na expressão.
— Talvez eu precise de um soro… uns exames… mas pronto. Só não me deixa internado.
Helena respirou fundo, tentando se recompor à força.
Ficou na ponta dos pés e encostou a boca na dele num selinho rápido, pequeno, mas cheio daquele amor aflito que parecia transbordar dela desde que chegou.
— Você vai me contar tudo no caminho — disse baixinho, tentando soar firme, embora os olhos ainda estivessem brilhando. — Mas agora a gente precisa ir rápido… por favor.
Heitor assentiu com um pequeno sorriso, rendido.
Porque, mesmo no caos, ainda tinha alguma coisa quase absurda no jeito como Helena cuidava dele.
Como ele amava aquela mulher.
Mesmo sentindo o corpo pesado, quente, estranho, mesmo odiando parecer tão acabado diante dela, não havia muito o que fazer. O orgulho teria que sobreviver à humilhação de existir um pouco menos inteiro naquela noite.
No carro, Jonas bastou bater o olho nele por alguns segundos antes de soltar um assobio baixo.
— Caralho… tu tá completamente fodido.
Heitor soltou uma risada fraca pelo nariz. Sem energia nem para fingir indignação.
Sentiu o rosto aquecer, vergonha, febre ou irritação, já não sabia distinguir, e aquilo só fez Helena apertar ainda mais a mão dele.
Como se tivesse medo de soltá-lo.
No bebê conforto, Humberto abriu um sorriso instantâneo assim que o viu.
O corpinho inteiro se agitou.
Os bracinhos começaram a balançar naquele entusiasmo absoluto e puro de bebê que reconhece o pai.
Aquilo aqueceu o coração dele.
Estendeu a mão e brincou com os dedinhos do filho enquanto Carlos colocava o carro em movimento, e, por alguns segundos, aquele amor pequeno, simples e silencioso pareceu tornar tudo um pouco menos pesado.
No caminho, resolveu contar o que lembrava.
Não tudo.
Não falou da Ana Alice de babydoll. Nem de que não lembrava de quanto tempo ficou apagado com ela. Nem do quanto odiava a própria sensação de vulnerabilidade.
Mas contou todo o resto, desde quando recebeu o cheesecake até o Oséias aparecer no quarto.
Jonas passou a mão no rosto, incrédulo.
— Caralho… eu sabia que ela era podre, mas não nesse nível.
Ao lado dele, Helena soltou uma respiração dura, os olhos brilhando não de medo agora, mas de raiva.
— Que ódio daquela mulher… — a voz saiu baixa, tremendo de nervoso. — Eu devia ter esganado ela mais.
Heitor deixou escapar um riso cansado, apertando os dedos dela entre os seus.
O olhar caiu nela por um instante.
Bonita.
Brava.
Assustada.
Do lado dele.
Sempre.
— Amor, não pense nela. O Oséias resolve isso com a polícia — disse num tom mais sério, mais controlado. — Sem escândalo.
Olhou para Helena.
Depois para Jonas.
— Principalmente porque eu não quero isso respingando no Paulo.
Chegaram ao hospital rápido demais para o gosto de Heitor.
Mal tinha conseguido organizar os pensamentos desde o hotel e já estava sendo encaminhado para atendimento, ouvindo perguntas, vendo gente passar apressada e tentando, na medida do possível, parecer um homem minimamente funcional.
Helena não desgrudou dele um segundo sequer.
Antes mesmo de chamarem o nome dele, já tinha decidido tudo: Jonas ficaria com Humberto e ela iria acompanhar Heitor.
Claro que iria.
Como se existisse alguma chance de ela deixá-lo sozinho naquela situação.
Enquanto caminhavam pelo corredor em direção ao consultório, Heitor ainda tentava sustentar alguma dignidade até sentir um puxão repentino na orelha.
— Ai! — virou o rosto para ela, franzindo a testa. — Que isso, mulher?
Ela o encarava daquele jeito muito próprio, uma mistura confusa de irritação, nervoso e preocupação que fazia o coração dele apertar mesmo quando levava bronca.
Porque ela estava linda.
Até brava.
— Diz a verdade pro médico, Heitor Monteiro — falou baixo, firme, apontando o dedo para ele como quem dava uma ordem muito séria. — Não esconde nada, pelo amor de Deus.
A voz saía irritada. O rosto, porém, entregava tudo, como ela estava aflita.
Heitor acabou sorrindo, um sorriso quente e apaixonado.
Porque até brigando ela cuidava. Até nervosa ela amava.
— Eu sei, amor — respondeu mais baixo, tocando de leve a mão dela. — Fica tranquila.
Entraram na sala.
Heitor explicou os sintomas, contou o que lembrava, o gosto estranho da comida, a tontura, a fraqueza, o quarto, Ana Alice — omitindo detalhes que julgava humilhantes demais para verbalizar.
O médico o examinou com calma antes de apoiar a prancheta no colo.
— Entendi. Algumas substâncias usadas para sedação podem desaparecer rapidamente do organismo — explicou. — Vou colher sangue para análise e também preciso de uma amostra de urina. Como está sua bexiga?
Heitor soltou um pequeno sopro pelo nariz.
— Eu consigo fazer esse exame, doutor.
O médico assentiu com um sorriso profissional. Chamou uma enfermeira, pediu os exames e, depois da coleta de sangue, entregou a Heitor um potinho e uma garrafa de água.
— Precisa de auxílio pra ir ao banheiro?
O orgulho masculino respondeu antes do cérebro cansado.
— Não. Eu consigo sozinho.
— Eu vou com ele — Helena falou imediatamente.
No banheiro, Heitor virou a garrafa inteira quase de uma vez.
A boca parecia lixa.
Seca.
A cabeça ainda pesada, os pensamentos lentos.
Quando terminou, virou o rosto para o lado.
Helena continuava ali.
Parada.
Braços cruzados.
Uma expressão descaradamente arteira no rosto.
Observando.
Esperando.
Como quem claramente não tinha intenção nenhuma de sair.
Ele estreitou os olhos, divertido.
— Amor… — apontou discretamente para a porta. — Privacidade existe, sabia?
Helena riu na mesma hora. Aquele riso baixo e bonito que sempre fazia o coração dele amolecer.
— Você não tá em condição de pedir privacidade, Monteiro.
A sobrancelha dela arqueou. O sorrisinho de lado apareceu.
— Além disso… não tem absolutamente nada aí que eu já não tenha visto.
Ele soltou uma risada pelo nariz. Aquela mulher da vida dele. Mesmo se sentindo meio morto, ainda conseguia fazer o coração bater errado.
Heitor colocou a língua para ela, teatral, antes de abaixar a calça só o suficiente e dar uma balançada exageradamente de quadril.
Depois ergueu de novo.
Helena ficou dois segundos processando.
E então começou a rir.
Daquelas risadas genuínas, cheias e lindas.
— Sei que tá querendo — disse ele, fazendo a melhor voz sofrida possível — mas você que me trouxe pro hospital.
Helena levou a mão à testa.
— Você é insuportável!
Colocou a língua para ele.
Na mesma hora, Heitor devolveu o gesto, apontando com o dedo para trás e fazendo um movimento claro para ela dar meia-volta.
Ela revirou os olhos.
Mas sorrindo.
Sempre sorrindo daquele jeito quando ele conseguia arrancar um pedaço da preocupação dela.
— Sabe o que você é? — perguntou, debochada.
Ele não resistiu.
Se aproximou, puxando-a de leve pela cintura, um sorriso largo aparecendo apesar do cansaço.
— Seu futuro marido?
Inclinou um pouco a cabeça.
— Pai do seu filho?
A voz saiu divertida, baixa.
Quase carinhosa demais.
— O homem mais maravilhoso da sua vida?
E então esfregou a cabeça na dela, num gesto afetuoso.
Helena soltou uma risada baixa antes de encostar um selinho rápido na boca dele.
— Exatamente isso.
A mão dela apertou de leve o braço dele.
— Agora vou virar. Vai logo, Monteiro.
Depois da coleta, uma enfermeira levou os exames para análise e os encaminhou até a sala de medicação.
Heitor precisaria tomar soro, medicação para náusea e algo para aliviar a dor de cabeça.
Quando se sentou na poltrona, lançou imediatamente aquele olhar para Helena.
Aquele.
O de quem claramente estava fazendo charme.
Os olhos azuis grandes, a expressão cansada misturada com uma dó quase teatral, como um cachorro abandonado prestes a ser deixado na chuva.
Mesmo meio grogue, ainda encontrava energia para fazer manha.
E Helena sabia o quanto aquilo funcionava nela. Franziu o nariz, tentando sustentar a pose séria, mas o sorrisinho já ameaçava nascer no canto da boca.
Aproximou-se devagar, inclinando-se até ele.
Deixou um beijo no topo da cabeça dele, uma mão deslizando pelos cabelos escuros, a outra apertando de leve seu ombro.
— Coitadinho do meu drama king… — murmurou baixo.
Ele fechou os olhos por um instante. Parecia até um gato recebendo carinho.
Foi então que o médico a chamou discretamente para um canto.
Helena olhou na direção dele, surpresa.
Heitor imediatamente ergueu uma sobrancelha, fazendo uma expressão confusa e apontando para si mesmo, como quem perguntava silenciosamente: o que foi?
Ela apenas deu de ombros.
Também não fazia ideia.
Antes de sair, ainda fez uma careta para ele e mexeu os lábios sem emitir som:
Fica quietinho.
Heitor respondeu se ajeitando na cadeira e cruzando os braços numa encenação muito ruim de homem emburrado.
Helena quase riu.
Quando estavam a alguns passos de distância, o médico se virou para ela.
— Helena, a situação do seu noivo não parece preocupante neste momento. Mas ainda precisamos aguardar os exames para ter mais certeza. Vamos deixá-lo em observação.
Ela soltou o ar devagar.
Sem perceber, talvez estivesse prendendo a respiração desde o hotel.
Ainda assim, o peito continuava apertado.
Porque Heitor parecia mal.
Muito mal.
E ela conhecia aquele homem bem o suficiente para saber quando ele estava fingindo firmeza.
— Ele vai precisar ficar internado? — perguntou rapidamente. — Porque ele vai odiar, vai reclamar… mas, se precisar, ele fica.
A preocupação na voz acabou vencendo a tentativa de leveza.
O médico sorriu, paciente.
— O ideal seria observação mais longa, mas acredito que algumas horas serão suficientes. O efeito do que ele tenha ingerido parece estar diminuindo.
Helena assentiu, aliviada. Quase imediatamente levou a mão ao bolso da calça, já pegando o celular. A cabeça começou a funcionar rápido.
Humberto.
Celina.
Noite no hospital.
— Desculpa, doutor… meu bebê está lá fora com meu irmão. Acho que vou ligar para minha sogra buscar ele. Aí fico aqui com o Heitor essa noite.
Falou aquilo como se fosse óbvio.
Porque, para ela, era.
Não existia cenário em que deixasse Heitor sozinho naquele estado.
O médico balançou a cabeça suavemente.
— Não precisa se preocupar tanto. Pelo que estou vendo, acredito que duas horas de observação após o soro serão suficientes. Depois vocês devem conseguir ir para casa.
Casa.
A palavra relaxou a relaxou.
Porque, honestamente?
Tudo o que queria era colocar Heitor na cama, cobri-lo, obrigá-lo a beber água, talvez fazer sopa, passar a mão no cabelo dele até dormir e vigiar a respiração de cinco em cinco minutos.
Mesmo sabendo que era exagero.
Mesmo sabendo que ele provavelmente reclamaria.
— Isso seria ótimo — admitiu, soltando um suspiro.
O médico sorriu.
— Estou encerrando meu plantão agora, mas vou deixar tudo orientado para meu colega. Seu bebê tem quantos meses?
Helena abriu um sorriso automático.
Daqueles inevitáveis de mãe.
— Três meses.
Nem pensou.
Já estava puxando o celular.
— Quer ver uma foto?
Mostrou a foto tirada naquela manhã.

O médico sorriu imediatamente.
— Ele é a cara do pai. Um bebêzão bonito e saudável. Parabéns.
O coração dela amoleceu inteiro.
Orgulho de mãe era um negócio perigosíssimo.
Ridículo até.
Porque bastava elogiarem o filho que ela já queria mostrar mais vinte fotos.
— Obrigada…
Sorriu daquele jeito bobo que só aparecia quando falavam dos dois homens da vida dela.
— Vou trazer algo mais confortável para você ficar aqui — disse o médico. — Mas o bebê realmente não pode entrar. Hospital não é um ambiente ideal nessa idade.
— Meu irmão tá no carro com ele.
— Certo. Já volto. — disse o médico antes de sair.
Quando Helena retornou, encontrou Heitor exatamente como imaginava:
Uma sobrancelha arqueada.
Cara de homem injustiçado.
Claramente tentando parecer casual.
Claramente fazendo drama.
— O que ele falou? — perguntou na hora.
Ela precisou segurar o sorriso.
Mesmo meio acabado, grogue e tomando soro, ele ainda conseguia parecer territorial.
Ainda conseguia parecer… Heitor.
— Que você não vai precisar ficar internado — respondeu, já mais animada. A mão subiu até o rosto dele num carinho automático. — Vai ficar só umas horinhas de observação.
Ela viu o alívio passar discretamente pela expressão dele.
— Hmm… que bom.
Então veio aquela pausa.
Aquela pausa perigosíssima.
Os olhos dele estreitaram minimamente.
— E o médico parece ter gostado de você.
Pronto.
Helena quase riu na hora.
Ah.
Ali estava.
O ciúme.
Ela reconheceria de olhos fechados.
Aquele tom casual demais para ser casual, aquela implicância silenciosa, a forma como ele fingia não ligar enquanto claramente ligava muito.
Sentiu até ternura.
Porque era ridículo.
Mas também absurdamente fofo.
E talvez… só talvez… ela estivesse com vontade de provocar um pouquinho.
Só um pouquinho.
— É mesmo? — perguntou, fingindo pensar. — Nem reparei…
Inclinou a cabeça de leve.
— Achei ele muito educado. Prestativo também.
Heitor soltou o ar pelo nariz, longo e claramente contrariado.
O maxilar travou só um pouco.
— Ah, sério isso?
O tom saiu sem humor.
Seco daquele jeito tipicamente dele quando estava fazendo birra emocional disfarçada.
Helena não resistiu.
Riu.
Se aproximou dele até sentir aquele cheiro familiar dele que ela amava, desde a primeira vez que se tocaram naquele quarto de hotel, Helena nunca tinha sentindo um cheiro tão gostoso e que fazia as borboletas do seu estômago ficarem alvoroçadas.
Deixou um beijo no rosto dele.
Depois outro.
E outro.
— Sem biquinho, Monteiro…
A voz saiu baixa, divertida, cheia daquele carinho que desmontava ele inteiro.
Os dedos dela deslizaram pelos cabelos escuros ainda bagunçados.
— Você sabe que eu sou completamente louca por você.
Aquilo bateu nele do jeito mais patético possível. Porque bastava Helena falar daquele jeito e toda a irritação idiota evaporava. Ainda sustentou a cara emburrada por uns segundos.
Por puro orgulho.
Por esporte.
Mas já sentia a boca querendo sorrir.
— Gostei de ouvir isso…
A voz saiu baixa, quase manhosa.
Fazendo charme descaradamente.
— Fala de novo.
Helena riu pelo nariz.
Tão homem.
Se inclinou até ele.
Deixou um beijo mais demorado na boca, calmo, quente e cheio de amor.
— Sou louca por você.
Outro beijo.
— Te amo.
Heitor sorriu finalmente.
Um sorriso satisfeito.
Daqueles só dela.
A mão subiu automaticamente até os cabelos dela, enrolando distraidamente alguns cachinhos nos dedos enquanto fazia carinho.
— Com licença.
A voz do médico surgiu junto ao som das rodinhas de uma poltrona.
Helena se afastou um pouco e Heitor automaticamente se ajeitou na cadeira, endireitando a postura quase num reflexo masculino.
O médico parou ao lado deles.
— Trouxe uma poltrona da maternidade. Vai ficar mais confortável para você descansar, Helena.
Ela abriu um sorriso sincero.
— Nossa, obrigada.
Antes mesmo de terminar a frase, percebeu Heitor discretamente mais ereto na cadeira, observando tudo.
Quase avaliando.
Quase territorial.
Meu Deus.
Ela segurou a vontade de rir.
O médico posicionou a poltrona perto deles.
— Heitor, meu colega assume daqui pra frente. Como os sintomas estão diminuindo, vamos observar por cerca de duas horas após o soro e, se continuar bem, liberamos você.
— Agradeço, doutor.
Heitor assentiu.
Depois olhou para Helena.
E voltou para o médico.
— Principalmente pelo conforto da minha noiva.
A mão dele encontrou a dela automaticamente.
— Me preocupo mais com ela do que comigo.
Sutil.
Mas nem tanto.
Helena reconheceu o movimento na hora.
Marcando território.
De novo.
O médico apenas sorriu, tranquilo.
— Trabalhei um tempo com saúde da mulher na residência. O corpo dela ainda está se recuperando. Descanso importa bastante.
Indicou um botão preso à lateral.
— Qualquer coisa, apertem aqui. Meu colega e a equipe vão acompanhar vocês.
— Obrigada, doutor. Bom descanso.
Ele sorriu, se despediu e saiu.
Helena mal teve tempo de voltar a se sentar quando ouviu a voz de Heitor:
— Espero não arrumar problema com esse aí agora.
Ela virou o rosto na mesma hora.
— O quê?
Sentou-se na poltrona, pegando a mão dele entre as suas.
Heitor soltou um suspiro dramático.
— Já tive problema com o Fortenelle, com teu ex, com a Ana Alice…
Olhou para ela.
Depois para o teto.
— Tudo num intervalo curtíssimo de tempo.
Apertou os dedos dela entre os seus.
— Eu só quero curtir minha mulher, meu filho, minha família… sem esse bando de urubu em volta.
Fez uma pausa curta.
Depois estreitou os olhos.
— Só falta esse médico resolver ir atrás de você agora.
Helena soltou uma risada baixa.
— Não seja dramático, Monteiro — disse, acariciando os dedos dele. — Ele só foi gentil.
Inclinou um pouco o rosto.
A preocupação voltando.
— Como você tá se sentindo?
Heitor respirou fundo.
O corpo ainda pesado, mas menos ruim.
— Melhorando.
Piscou devagar.
— Minha visão não tá mais turva.
O alívio atravessou Helena imediatamente. Ela sorriu pequeno. Quase sem perceber.
— Isso é ótimo.
Brincou distraidamente com os dedos dele.
— E relaxa… acho que agora já apareceram pessoas problemáticas suficientes nas nossas vidas.
Ele soltou um sopro curto pelo nariz.
— Que assim seja.
O celular de Helena vibrou na mão.
Ela olhou a tela.
Jonas.
Atendeu na mesma hora.
— Alô?
Antes mesmo de ele conseguir dizer qualquer coisa, o coração dela apertou.
O choro de Humberto atravessou a ligação.
Alto.
Sentido.
Helena fechou os olhos por um segundo.
— Maninha, o Humbertinho tá muito puto — a voz de Jonas veio cansada e levemente desesperada. — Já tentei conversar, brincar, cantar, mostrar vídeo, fazer cara de idiota… ele não quer nem saber. Tá chorando sem parar. Você consegue vir aqui rapidinho?
— Claro. Tô indo.
Desligou.
Quando ergueu os olhos, encontrou Heitor olhando para ela. Ele tinha escutado o choro.
E ela viu na mesma hora a preocupação atravessar o rosto dele.
— Vai lá, amor — disse ele baixinho. — Ele deve tá irritado de ficar preso no carro… e provavelmente bravo porque ninguém é você.
Tentou sorrir.
Aquele sorriso cansado, mas cheio de carinho.
— Vai lá cuidar do nosso bebê.
Helena se aproximou imediatamente.
Ainda odiava deixá-lo sozinho.
— Você vai ficar bem? — perguntou baixinho antes de dar um selinho nele.
Os dedos roçaram no rosto quente dele quase sem perceber.
Heitor segurou a mão dela por um instante.
— Vou sim.
Fez um charme automático.
— Inclusive já tô praticamente curado.
O canto da boca ergueu num sorrisinho torto.
— Vai lá ver o nosso pequeno. — depois inclinou um pouco a cabeça. — Dá um beijo nele por mim. E fala que o pai tá com saudade.
O peito dela apertou.
Porque, Deus…
Como amava aqueles dois.
— Pode deixar.
Helena saiu do quarto usando a pulseira de acompanhante no braço.
Antes de ir até o estacionamento, passou no banheiro.
Lavou as mãos com cuidado.
Depois os braços.
Água.
Sabão.
Álcool em gel.
A última coisa que queria era levar bactéria de hospital para um bebê de três meses.
Quando saiu para fora, o ar fresco da noite bateu no rosto.
E bastou se aproximar do carro para ouvir.
O chorinho sofrido de Humberto.
Jonas abriu a porta assim que a viu.
— Ah, Helena… graças a Deus! — parecia um homem que tinha sobrevivido a uma guerra. — Esse menino tá me julgando faz meia hora.
Rapidamente Helena tirou o casaco e entregou ao irmão enquanto pegava Humberto no colo.
O bebê praticamente se jogou nela.
As mãozinhas pequenas agarraram a blusa na mesma hora.
Com força.
A boquinha aberta num chorinho emburrado.
Os olhinhos azuis brilhando molhados.
E ainda teve um resmungo indignado.
Quase como um:
"Finalmente."
— Oi, meu amor… o que aconteceu? — a voz dela ficou instantaneamente melosa. — Cansou do titio? Ficou bravo?
Humberto continuou reclamando baixinho entre fungadinhas.
Mas já se aconchegava nela.
A cabecinha encostando no peito.
As mãozinhas segurando firme a roupa da mãe como se precisasse garantir que ela não desapareceria de novo.
Helena começou a balançá-lo devagar.
Beijinhos no topo da cabeça.
Na bochecha.
Na testa.
— O papai mandou beijo, sabia? — a voz saiu baixinha, carinhosa. — Tá morrendo de saudade do bebê dele.
Os olhinhos azuis a encontraram imediatamente.
Cheios de lágrima.
Expressivos demais.
A boquinha fez um biquinho tão sofrido que quase partiu o coração dela.
Ele resmungou alguma coisa incompreensível na linguagem secreta dos bebês, como se tivesse uma longa reclamação a fazer.
Helena sorriu sem perceber.
— É? Foi isso tudo?
A chupeta finalmente entrou na boca.
Ainda meio contrariado.
Algumas pessoas passando pela calçada chegaram a perguntar se ela precisava de ajuda.
Ela agradeceu, disse que estava tudo bem.
Pouco a pouco, o chorinho virou fungada.
Depois resmungo.
Depois conversa.
Porque Humberto era assim.
Mesmo bravo, gostava de interagir.
A mãozinha gordinha subiu até o rosto dela, apoiada na sua bochecha.
Helena abriu um sorriso imediato.
— Ah… agora tá me amando de novo?
Como se entendesse perfeitamente, Humberto abriu um sorrisão repentino.
Grande.
Banguelinha.
A chupeta quase caiu da boca.
E ele ainda soltou um som animado, como se estivesse contando alguma história importantíssima.
Parecia até esquecer que estava chorando.
Helena continuou conversando.
Fazendo vozinha.
Respondendo aos balbucios.
Ajeitando a touquinha.
Enrolando melhor a manta.
Até perceber que os olhinhos começavam a pesar.
Piscavam mais devagar.
A mãozinha já não apertava sua blusa com tanta força.
Ainda tentou resistir.
Pequeno guerreiro.
Mas acabou perdendo.
A cabeça tombou de leve no peito dela.
Dormindo.
Helena continuou balançando por mais alguns minutos, só porque gostava daquela sensação.
— Dormiu? — Jonas perguntou do carro, mexendo no celular.
Ela assentiu baixinho.
— Que alívio — ele respondeu. — Dona Olívia tá quase surtando no WhatsApp. Quer vir pra cá.
Helena riu nasalmente.
— Fala pra ela não se preocupar. O Heitor vai sair em umas duas horas, no máximo.
Jonas arqueou a sobrancelha.
— Só isso? Ana Alice pegou leve com o Monteiro.
Helena virou tão rápido que ele quase se arrependeu na hora.
— Jonas!
A voz saiu baixa.
Mas afiada.
— Não fala isso nem brincando.
Ele levantou as mãos.
— Tá, tá… desculpa. Não resisti.
Do banco da frente, Juliano virou um pouco o rosto.
— Boa noite, dona Helena.
— Boa noite, Juliano. O Carlos foi embora de Uber?
— Foi sim, senhora.
Ela assentiu.
— Certo. Depois mando mensagem pra ele.
Virou-se para Jonas.
— Consegue ficar com ele? Se acordar, me liga.
— Claro. Deixa comigo.
Ainda fez um joinha.
Helena se abaixou, acomodando Humberto cuidadosamente no bebê conforto.
Ajeitou a manta.
A touquinha.
Passou os dedos pela bochecha fofinha.
Deixou um beijo demorado na testa dele.
— Te amo, meu filho…
— E eu? Não me ama não? — Jonas perguntou, ofendido, franzindo o nariz.
Helena revirou os olhos na hora.
— Sim, Jonas. Eu amo você também.
Ele abriu um sorriso satisfeito.
— Eu também te amo, maninha.
Helena voltou para o hospital ainda carregando um resto do calor do corpo de Humberto nos braços.
Mesmo depois de deixá-lo dormindo no bebê conforto, enroladinho na manta, com a boquinha quase derrubando a chupeta e aquele ar satisfeito de bebê finalmente vencido pelo sono, parecia que alguma parte dela continuava ali no carro. Outra permanecia no quarto de medicação, presa ao rosto cansado de Heitor, ao jeito como ele tentava fingir força mesmo claramente abatido, fazendo charme no meio do soro como se ainda precisasse convencê-la de que continuava sendo inabalável.
O lobby do hospital estava silencioso, tomado pelo vai e vem discreto de acompanhantes cansados e funcionários que pareciam ter aprendido a se mover sem fazer barulho.
Foi ali, no meio daquela normalidade fria e impessoal, que Helena desacelerou os passos.
Primeiro estranhou a sensação.
Depois reconheceu.
A mulher estava de costas, próxima à recepção, rindo baixo de algo que um funcionário dizia. A postura elegante, impecavelmente alinhada, os cabelos loiros arrumados daquele jeito polido de quem parecia sair pronta até para comprar pão, a bolsa sofisticada pendendo do antebraço com naturalidade.
Helena reconheceria aquela silhueta em qualquer lugar.
E, sinceramente?
Só podia ser piada do destino.
Porque, depois da Ana Alice, depois do caos, depois da noite infernal, agora o universo decidia colocar Marcela no caminho dela?
Ah, ótimo.
Perfeito.
A mulher virou o rosto ainda sorrindo e imediatamente a reconheceu.
A surpresa durou pouco.
Logo veio aquela compostura impecável, elegante, quase irritantemente refinada.
— Helena?
A voz saiu suave.
Educada.
Daquelas pessoas incapazes de parecerem descontroladas até diante do constrangimento.
E aquilo, de algum jeito muito irracional, irritou Helena um pouco mais.
Porque teria sido mais fácil se Marcela fosse desagradável.
Mais fácil odiar alguém grosseiro.
Arrogante.
Prepotente.
Mas não.
Marcela parecia exatamente o tipo de mulher fina da alta sociedade que sabia sorrir mesmo em situações desconfortáveis.
A primeira lembrança que atravessou Helena veio com força: gravidez, hormônios, medo, o quarto de hospital, Heitor internado, a sensação sufocante de fragilidade… e Marcela aparecendo quando ela estava emocionalmente destruída demais para reagir como queria.
Naquela época, Helena estava cansada demais.
Frágil demais.
Assustada demais.
Agora?
Agora não.
Agora ela tinha energia.
E, principalmente, tinha raiva acumulada.
Talvez até uma raiva deslocada.
Toda a irritação que Ana Alice tinha deixado fervendo dentro dela pareceu encontrar um endereço temporário.
Marcela se aproximou com delicadeza, percebendo o desconforto óbvio de Helena, mas sem fingir que ele não existia.
Ainda assim, inclinou-se num cumprimento leve, um meio abraço rápido, respeitoso, quase protocolar.
— Eu sabia que era você — disse com um pequeno sorriso. — Que bom te encontrar. Nós não nos vimos desde… bem, daquela vez.
Os olhos dela percorreram Helena discretamente, gentis.
— Você está muito bem. — houve um brilho sincero no olhar. — E vi as fotinhas do seu filho. Ele é muito fofinho… realmente a cara do Heitor.
Pronto.
Foi suficiente.
O sangue de Helena ferveu.
A pergunta saiu quase instantânea, sem filtro.
— O que você está fazendo aqui?
Direta.
Seca.
Quase ríspida.
Marcela não se abalou.
Se incomodou, escondeu bem.
Apenas ajustou delicadamente a bolsa no ombro antes de responder com calma:
— Estou esperando meu namorado. — depois hesitou um instante, como alguém organizando as palavras. — Mas, sendo honesta… eu queria muito encontrar você outra vez.
Helena franziu minimamente a testa. Aquilo definitivamente não seguia o roteiro mental preparado. Marcela respirou fundo.
Não dramática.
Só sincera.
— Principalmente para me desculpar. — os olhos dela permaneceram firmes. Calmos. — Eu me comportei muito mal naquele dia.
A voz suavizou.
— Você estava grávida, vivendo algo extremamente delicado, com o Heitor internado… e eu fui inadequada. — suspirou baixinho. — Sinto muito mesmo.
Helena piscou.
Porque aquilo era profundamente inconveniente.
Muito pior do que imaginava.
Ela tinha vindo pronta para guerra.
Com discurso mental montado.
Irritada.
Armada.
Só para a mulher simplesmente… pedir desculpas?
E parecer genuinamente arrependida?
Que inferno.
Toda a raiva cuidadosamente alimentada começou a murchar de maneira profundamente frustrante.
— Você me fez passar muita raiva — disse ainda séria.
Marcela assentiu na mesma hora.
Sem justificativa.
Sem defesa.
— Eu imagino. — o sorriso pequeno veio carregado de constrangimento elegante. — E sinto muito por isso.
Depois acrescentou, com serenidade:
— Nós somos mulheres, Helena. Honestamente? Acho que deveríamos nos apoiar mais. Não gosto da ideia de rivalidade por causa de homem.
Helena cruzou os braços.
Ainda emburrada.
Ainda desconfiada.
Ainda Helena.
— Quem apareceu foi você.
Marcela chegou a rir baixinho pelo nariz.
Quase de si mesma.
— Sim. — assumiu sem resistência. — E eu me arrependo muito.
Ajeitou a alça da bolsa.
— Só queria me retratar. E, sinceramente, se algum dia você precisar de alguma coisa… pode me mandar mensagem.
Helena quase bufou.
— Não. Nem tem perigo. — disse Helena, seca.
Marcela apenas assentiu.
Nenhum traço de irritação.
Nenhum ressentimento.
Como se já esperasse aquela resposta.
— Imaginei.
Houve um silêncio pequeno.
Depois ela sorriu com tranquilidade.
— E, caso isso ajude de alguma forma… eu realmente já superei o Heitor. Meu relacionamento é recente, mas muito saudável. Muito recíproco. Estou feliz.
— Bom pra você.
Helena já começava a encerrar a conversa quando percebeu algo mudar no rosto de Marcela.
Os olhos dela ergueram-se para algum ponto atrás de Helena.
E então veio um sorriso completamente diferente, grande, bonito, afetuoso e íntimo. Daqueles que simplesmente não se fingem.
— Amor!
Helena virou o rosto e congelou.
Porque o médico do Heitor estava caminhando na direção delas.
— Desculpa, amor. Te deixei esperando — disse ele, aproximando-se naturalmente antes de inclinar-se para beijar Marcela com a intimidade tranquila de quem claramente fazia aquilo todos os dias.
Marcela riu baixo, abraçando-o pela cintura.
— Já estou acostumada.
O médico então olhou para Helena e abriu um sorriso simpático.
— Oi, Helena!
— Oi, doutor… — respondeu, tentando parecer normal.
Talvez sem muito sucesso.
— Desculpa interromper a conversa de vocês, mas temos ingressos pro cinema — disse ele, divertido.
Marcela sorriu imediatamente.
— Para uma sessão que começa em dez minutos e fica do outro lado da cidade.
Ele suspirou dramaticamente.
— Vai dar certo. Eu escolho acreditar.
Marcela riu.
Daquelas risadas pequenas e elegantes.
Depois voltou-se para Helena.
— Foi bom te ver.
— Então até mais, Helena — disse o médico.
— Tchau! — Marcela completou, ainda sorrindo.
Helena demorou um segundo a responder.
Ainda processando.
Ainda levemente humilhada pelo rumo inesperado da situação.
— Até…
Ficou parada vendo os dois se afastarem pelo lobby, caminhando de mãos dadas, bonitos, bem vestidos, absurdamente tranquilos.
E, pela primeira vez naquela noite, teve vontade de revirar os olhos para si mesma.
Porque tinha acabado de criar uma novela inteira na própria cabeça.
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