O CEO que Eu Paguei

171 Ela o desperta


O som veio primeiro.

Um bip insistente e ritmado como um micro-ondas apitando sem parar.

Aquilo o irritava. Ele tentou tapar os ouvidos, mas não sentiu as mãos.

Tentou abrir os olhos, e nada aconteceu.

Tudo era escuro.

Um escuro espesso e pesado, que parecia engolir o próprio ar.

“Que inferno é esse barulho?” falou.

Mas as palavras não viraram som.

Não havia voz, nem boca, nem corpo.

Só o peso de existir — e não conseguir se mover.

“Que merda tá acontecendo…”

pensou, mas o pensamento vinha embaralhado.Como se a própria mente tropeçasse nas palavras.

Tentou respirar fundo.

O ar veio forte, quente e dolorido, como se passasse por dentro de vidro quebrado.

Havia algo em seu rosto — firme, colado, forçando o oxigênio para dentro.

A garganta queimava.

O peito doía.

E ele sentia como se algo dentro do braço dele estivesse sendo arrancado aos poucos.

“Estou sonhando?”

Tentou mover o braço.

Nada.

Tentou mexer os dedos.

Nada.

O corpo não obedecia.

Era como estar trancado dentro de si mesmo — gritando num lugar onde ninguém escuta.

A mente começou a buscar alguma lembrança.

Um som, uma imagem, qualquer coisa.

Não lembrava de nada sobre a briga. Alguns flashes vinham confusos, Só uma coisa pulsava em algum canto escondido da mente:

Helena.

Onde ela estava?Ela tinha se machucado?O bebê?

Os ecos de algum acontecimento tentavam se formar na sua mente. Fora a sua mente confusa e o barulho terrível do microondas, não havia nenhum outro som ali.

Até ouvir a voz dela.

— Oi, amor… voltei.

O coração dele pareceu acordar antes do resto.

Aquele som era tudo o que ele precisava.

Helena.

Apenas ouvir a palavra “amor” na voz dela bastou para o sangue dele correr mais rápido.

“Oi, amor… você demorou.”

Mas nada saiu.

A boca não se moveu.

A voz não veio.

O pensamento ecoou dentro dele, aprisionado.

“Isso é um sonho?”

E então, o toque.

Os dedos dela deslizando sobre os dele.

O calor do corpo dela se transferindo para o dele era tão acolhedor.

Era vida contra o vazio.

O corpo dele reagiu antes da mente: o coração se aqueceu.

Era ela.

Ele reconheceria aquele toque em qualquer lugar, em qualquer vida.

Helena brincava com os dedos dele, fazendo pequenos círculos, e ele sentia — mesmo sem entender — que o mundo voltava a ter cor.

— Conheci o seu avô, — a voz dela soava próxima, como se falasse dentro da alma dele. — Gostei muito dele. Acho que ele gostou de mim também. Ele é bem teimoso… sempre foi assim ou ficou depois de velho?

Ele quis rir.

A resposta veio automática, mental, quase infantil:

“Ele sempre foi assim… meu avô é terrível.”

Mas a boca não mexeu.

O som não saiu.

E a impotência bateu com força.

Estava preso dentro de um corpo que não respondia.

— Se for depois de velho, tenho que me cuidar com você, — continuou ela, com aquele riso baixo que ele amava. — Imagina se você ficar igual? Vou ter que puxar muito a sua orelha.

Ah, ele queria dizer que não, que iria se comportar.

Que seria o homem dela pra sempre.

Mas o mundo girou.

Uma dor surda atravessou o peito, lembranças de outra dor — o dia em que o avô perdeu a avó. Aquele olhar quebrado no rosto do avô.

E o medo — o mesmo medo — de perder o grande amor da sua vida.

“Não me deixa, Helena…”

Mas antes que a sombra crescesse, veio a luz na voz dela.

— Ele gostou de Heloísa. Você escolheu um ótimo nome.

Heloísa.

O bebê.

A palavra o atravessou como um sopro quente.

Havia vida.

Havia futuro.

E eles ainda tinham uma filha — ou um filho — a caminho.

— Tô pensando em nome de menino com H, mas é difícil, — dizia ela, distraída, massageando o indicador dele. — Pensei em Hugo… mas já tenho um amigo chamado Hugo. Pensei em Henrique, era o nome do meu pai… acredita que seu avô sugeriu Henrique Afonso?

Ele quis rir. Quis dizer “nem pensar”.

Mas o corpo só tremeu de leve, o peito arfando.

— Acho que seu pai não ia gostar muito, — ela riu. — No final o bebê ia ter que se chamar Henrique Afonso Renato! Imagina a confusão.

Ele quis responder “impossível”.

Mas o som que saiu foi um gemido baixo, rouco, quase um suspiro.

Helena continuou, inocente, doce, alheia ao caos dentro dele.

— Hiago e Higor também são opções… mas eu pensei em Humberto.

“Humberto?” ele pensou, tentando falar.

Ela riu.

— Soa clássico, né? Bem tradicional. Eu consigo imaginar Humberto Monteiro. Nome de criança rica.

Um pequeno sorriso se formou dentro dele.

“Humberto… é bom. Tem peso, tem fibra”, pensou, quase sentindo o próprio riso.

E então, com esforço, o corpo reagiu.

A escuridão começou a clarear.

Primeiro um borrão branco.

Depois formas.

Depois sombras.

Tudo doía, até a luz.

Mas ele forçou os olhos, entreabertos.

O quarto era um borrão de luz e ruído.

E no meio, uma silhueta sentada ao lado da cama —

ela.

O amor dele.

Mesmo desfocada, ele sabia.

A curva do rosto. O jeito como mexia nas mãos. O silêncio entre frases.

Apenas ela.

Ele tentou falar, mas a garganta queimava.

O som saiu arranhado, quase sem voz:

— …Humberto… soa bem.

O ar parecia doer, mas o coração disparou quando ela reagiu.

— Amor! — Helena soluçou, surpresa, a voz chorosa. — Você acordou!

Outras vozes surgiram ao redor.

Rápidas, apressadas.

— Vou chamar o médico! — alguém gritou.

“Médico?” ele pensou, confuso.

E com esforço, a voz rasgou a garganta:

— Helena… o que houve? Você tá bem? Por que tá chorando?

O bip… bip… bip… acelerou, em sincronia com o pânico.

Os borrões se moveram.

Gente demais.

Movimento demais.

— O que é isso? Onde a gente tá? — perguntou, forçando o corpo a se levantar.

A dor explodiu no ombro.

O ar sumiu.

Gemidos escaparam.

— Heitor! — Helena segurou a mão dele, desesperada. — Não tenta se mexer!

Ele piscava forte, tentando limpar a visão.

Mas tudo rodava.

Sentia o braço pesado, o corpo preso a fios, alguma coisa presa no rosto dele que ele não sabia o que era..

— Helena… o que tá acontecendo? — a voz saiu falha, rasgando a garganta.

Ela tentava manter a calma, mas o choro tremia nas palavras.

— Amor, a gente tá no hospital… você se machucou um pouco. Mas já tá tudo bem.

Ele tentou mexer o braço.

Um grito abafado de dor saiu antes que conseguisse conter.

As veias ardiam. O peito doía.

O corpo parecia não ser mais dele.

Mas mesmo assim, ele lutou.

Levantou trêmulo o braço que sentia mais, devagar, até tocar a barriga dela.

A ponta dos dedos encostou na pele sob a roupa hospitalar e com dificuldade foram se abrindo até a palma dele repousar ali.

Ele respirava rápido, o peito subindo e descendo em descompasso. Os olhos vagavam, sem foco.

— O bebê… — sussurrou, ofegante. — Eu só preciso respirar…

Helena começou a chorar e ele sentiu a mão dela segurar a dele com forma sobre o ventre. Heitor estava aflito, confuso e apavorado. “O que estava acontecendo?” “Tinha algo de errado com o bebê?”

A vergonha veio logo depois — a de parecer fraco, vulnerável, perdido diante dela.

Mas ele não recuou.

Não ia se esconder da mulher que amava.

A porta se abriu e de repente, vultos brancos preencheram o quarto. O barulho irritante do microondas ficou mais alto e mais forte.

Tentou erguer o tronco, mas a dor aguda o atravessou, como se algo dentro dele rasgasse, tão forte que o fez ver tudo em branco por um instante. O esforço foi brutal, quase insuportável, mas ele não desistiu. Com o braço dormente, apoiou-se como pôde, cambaleante, trêmulo. O outro braço, pesado e trêmulo, empurrou Helena para trás com o resto de força que ainda tinha.

— Se afastem! — tentou gritar, mas a voz não saiu inteira.

— Senhor Monteiro, aqui é o doutor Arantes, — disse uma voz masculina, aproximando-se. — O senhor está no hospital Copa Star. Perdeu muito sangue e passou por uma cirurgia. Ainda está sob efeito dos sedativos.

Heitor piscou, confuso.

A cabeça latejava.

— Do que você tá falando? — rosnou, a voz falhando. — Porra, o que aconteceu?

Helena segurou o rosto dele com cuidado.

— Amor, calma. Tá tudo bem. É a equipe médica.

Mas o instinto falou mais alto.

— Fica atrás de mim, Helena. — disse, com dificuldade, erguendo o tronco, tentando de algum jeito ficar na frente dela.

Os borrões se moveram.

Ele não sabia quem eram, mas não ia deixar ninguém tocar nela.

Dois enfermeiros se aproximaram.

Helena chorava, tentando acalmá-lo.

— Heitor, por favor… eles tão ajudando. Calma, amor…

Mas ele já não ouvia direito. Ou melhor, ouvia — mas tudo parecia distante, submerso. Somente a voz dela atravessava o ruído. Tudo nele gritava perigo.

“Não toquem nela!”

Mas as mãos dele já não tinham força.

Sentiu algo vindo em sua direção, não conseguia se mover, “Droga”, sentiu algo encostar no seu pescoço. Um frio percorreu a veia, rápido e cruel.

A visão ficou mais turva.

O som mais distante.

O corpo bem mais pesado.

Heitor sentiu a força se esvaindo, o corpo cedendo.

— Helena… corre… — murmurou, sentindo o próprio corpo afundar.

A última coisa que viu foi a silhueta dela — borrada, tremida, mas ali.

A única coisa que ainda fazia o mundo valer a pena.

E então, o escuro voltou.