O CEO que Eu Paguei
172 Acordar para a Guerra
O som veio antes da consciência.
Um bip... bip... bip... insistente, ritmado, que parecia marcar o tempo de algo que ele ainda não entendia. Não parecia ser um microondas, ele não sabe de onde tirou aquilo.
Heitor piscou — uma, duas vezes — até que o branco agressivo do teto fazerem seus olhos arderem. A visão embaralhou, e o corpo pareceu pesar uma tonelada.
“Onde… onde eu tô?”
Tentou respirar fundo, mas o ar arranhou a garganta, seco. O peito subiu e desceu com esforço, o som abafado do oxigênio ecoando nos ouvidos.
Por instinto, tentou mover o braço — mas algo puxou. Havia fios. Tubos. O antebraço enfaixado, o ombro coberto por curativos espessos.
Por um instante, o pânico veio.
Então veio a voz. Uma que ele reconheceria em qualquer vida.
— Heitor?
A voz era suave, trêmula, mas inconfundível. Ele virou lentamente o rosto, e lá estava ela.
Sua mãe.
O rosto cansado, os olhos marejados, o mesmo perfume que ele. Aquela mulher que nunca fraquejava… agora tremia.
— Filho?
Heitor tentou responder, mas a voz falhou. Um som rouco, raspado.
— Mãe...
Ela se inclinou, passando a mão pelos cabelos dele com delicadeza.
— Devagar, meu amor. Não força a garganta. Você acabou de acordar.
Ele piscou várias vezes, tentando processar.
A mente embaralhada, as lembranças confusas — o barulho, o sangue, o grito...
— Helena... — murmurou, quase sem voz. — Onde tá a Helena?
Celina respirou aliviada por ouvir aquele nome — era o primeiro sinal de lucidez real.
— Ela tá bem, meu amor. — respondeu com doçura. — O bebê também. Ela não pôde vir agora porque está passando muito mal, vomitando o tempo todo. O médico pediu que ela ficasse em observação, mas logo, logo vai estar aqui com você.
Heitor fechou os olhos, e um nó subiu na garganta.
O peito doía — não o físico, o outro.
— Eu pensei que… — ele parou. — Achei que podia ter… perdido eles.
Celina segurou a mão dele.
— Não perdeu. Nenhum dos dois.
Ele tentou sorrir, mas o corpo não acompanhou.
— Tô… zonzo.
Celina fechou os olhos por um instante. Respirou fundo.
O médico já estava ali e falou com uma voz calma.
— Ele acordou antes do previsto. — murmurou o homem, verificando os monitores. — Sou o doutor Arantes, Heitor. Não tente se mexer ainda, tá bem?
Heitor franziu o cenho, confuso.
— Cirurgia? — a palavra pareceu estranha na boca. — Por quê? O que aconteceu?
O médico se aproximou, ajustando o oxigênio, medindo a saturação.
Falava com cuidado de forma pausada e profissional.
— Você passou por um procedimento delicado. Foi ferido e perdeu bastante sangue. Mas está estável agora. Isso é o mais importante, certo?
Ferido.
Ele tentou entender, mas a mente não obedecia.
O espaço parecia girar.
Os batimentos aceleraram.
— Mas… e a Helena? — insistiu, a voz falhando. — Cadê ela?
Celina apertou o ombro dele, tentando conter as próprias lágrimas.
— Filho… calma. Ela tá bem.
— Tem certeza? Eu… eu vi sangue, eu lembro dela chorando… — ele parou, ofegante, tentando puxar ar.
O bip acelerou.
O médico fez um sinal para a enfermeira.
— Heitor, preciso que respire devagar pra mim, certo? Você tá em segurança. Tá no hospital, em recuperação. Não force a memória agora.
Heitor tentou obedecer, mas o medo já tinha entrado.
As imagens vinham e iam, como se alguém folheasse um álbum molhado. Lembranças embaralhadas.
— Foi um acidente? — perguntou com dificuldade. — Com o carro? Eu… tava dirigindo?
O médico e Celina se entreolharam.
O silêncio pesou.
Então o doutor respondeu, escolhendo cada palavra:
— Você sofreu um incidente, sim. Mas, não foi um acidente de carro. Foi ferido, mas já está fora de perigo. Sua memória pode demorar um pouco pra voltar, isso é normal depois de um trauma.
“Ferido.” “Incidente.” “Trauma.”
Palavras que pareciam contornar a verdade sem tocá-la.
Ele respirou fundo, o ar raspando a garganta.
— Quanto tempo… eu tô aqui?
— Dois dias — disse o médico. — Seu corpo reagiu bem à cirurgia. Isso é um bom sinal. O senhor é muito resistente. Meus parabéns.
— E a Helena? — insistiu. — Ela sabe que eu tô bem?
Celina se inclinou, acariciando o rosto dele com ternura.
— Sabe, meu amor. Ela tá te esperando.
Heitor piscou, a visão turva.
Talvez fosse o efeito da medicação.
Talvez fosse medo.
— Quero ver ela. — murmurou. — Por favor.
— Você vai ver. — garantiu Celina, com a voz trêmula. — Assim que ela se sentir melhor.
Ele tentou responder, mas as pálpebras começaram a pesar.
O soro pingava lentamente.
O bip voltou ao ritmo inicial.
As palavras se dissolviam, misturando-se ao som das máquinas.
Antes de apagar outra vez, ele sussurrou, quase sem ar:
— Diz pra ela… que eu tô bem.
Celina engoliu o choro, beijou-lhe a testa.
— Ela sabe, meu filho. Ela sabe.
O médico observava os monitores, satisfeito com a estabilização.
— Vamos manter ele em observação. O corpo tá reagindo, a confusão mental é normal no quadro dele.
Celina assentiu, limpando o rosto com a ponta dos dedos.
Ficou ali, segurando a mão do filho, enquanto ele caía de novo no sono.
Quando Heitor acordou novamente a pouco tempo depois, foi diferente de antes, ele se sentia melhor, a cabeça não estava mais tão confusa, ele entendia o que estava acontecendo e a sua situação.
A porta se abriu devagar.
O som abafado do corredor invadiu o quarto. Heitor, meio desperto, virou o rosto. E lá estava o seu pai. Impecável como sempre — terno azul-escuro, expressão firme — mas com o olhar diferente. O olhar de um homem que passou dois dias à beira do desespero.
— Olha só pra você... — a voz veio rouca, como se precisasse empurrar as palavras pela garganta. — Nos deu um susto do inferno, rapaz.
Heitor tentou sorrir, mas a voz falhou.
— Pai...
Renato se aproximou, e os dois advogados vieram logo atrás — Duarte e Chagas — os mesmos que haviam defendido Heitor anos atrás, quando tudo quase ruiu pela primeira vez. Ambos estavam mais grisalhos, mas o respeito ainda se impunha.
Duarte se adiantou, com um sorriso discreto.
— Senhor Heitor... não é que o menino cresceu mesmo? — brincou, com aquela leveza controlada de quem conhece a família há décadas. — E continua dando trabalho como sempre.
Renato esboçou um meio sorriso e passou a mão pelos cabelos do filho, o gesto simples, paternal — tão raro que pareceu quebrar a armadura dele.
— Eu devia te dar uma bronca, mas... só consigo agradecer a Deus por ainda estar te vendo respirar.
Heitor fechou os olhos por um segundo, absorvendo o toque.
Aquela mão — firme, que o guiou desde pequeno — agora tremia levemente.
Renato respirou fundo e se sentou na cadeira ao lado.
Os advogados ficaram em pé, discretos, abrindo as pastas e um deles retirou um notebook.
— Você sabe que nos assustou, né? — continuou o pai, com voz baixa. — Celina quase desmaiou na emergência. Eu achei que...
A frase morreu ali, engolida.
Heitor desviou o olhar, o ar pesado.
— E a Helena, pai? — a voz saiu rouca, ansiosa. — Ela tá bem?
— Tá sim. — respondeu Renato. — Não se preocupa. O bebê também. Ela tá sob cuidados, e ninguém vai chegar perto dela.
Heitor assentiu devagar, o maxilar trincado. Ele olhou para o braço enfaixado com a tala.
— Eu lembro... da mensagem... e depois... do restaurante. — as palavras saíam com esforço, mas o olhar já se acendia com as lembranças voltando. — A gente se encontrou lá.
Renato se endireitou na cadeira, o semblante voltando ao modo racional.
— Conta pra mim, com calma. Do começo.
Os advogados pegaram canetas e gravadores discretos.
Heitor respirou fundo, apoiando a cabeça no travesseiro.
As imagens vinham fragmentadas — o som de copos, o tom frio da voz de Antônio, o gosto de sangue.
— Ele me mandou mensagem. Disse que queria conversar “como homem”. Eu pensei em ignorar, mas... a Helena acreditava que ele queria fazer as pazes. Ela disse que ele parecia diferente e eu achei que fosse verdade.
Renato ouviu em silêncio, só o leve bater dos dedos contra a coxa denunciava a tensão.
— Eu fui para finalizar esse assunto e o futuro dos nossos filhos serem diferentes dos nossos. — continuou Heitor, com a voz rouca. — Cheguei no restaurante, pedi água. Ele começou com aquele papo de desculpas... que queria deixar o passado pra trás. Eu ouvi. Até aí, tudo normal.
Duarte anotava.
Chagas observava com atenção de promotor.
— Aí ele começou a mudar o tom. — Heitor olhou para o nada, o olhar escurecendo. — Falou da Helena. Disse que “o bebê podia ser dele”. Que eles tinham se envolvido antes da FORT GROUP. — ele engoliu seco, os dedos da mão boa se fechando em punho sobre o lençol. — Eu perdi o controle.
Renato não o interrompeu.
— Dei o primeiro soco. — admitiu, firme. — Ele levantou, revidou. Pegou um copo e quebrou na minha cabeça. Me cortou no ombro e no braço com os estilhaços. Eu tentei segurar, mas... foi tudo muito rápido. Só lembro do sangue e da raiva.
O som do bip da máquina preencheu o silêncio.
Duarte levantou o olhar da pasta.
— O senhor não usou nenhuma arma de vidro? Nenhum objeto cortante? Ou outra coisa?
— Não. — respondeu Heitor. — Só minhas mãos. Eu o machuquei bastante, mas o sangue no chão era meu, não dele. Quando a equipe entrou, eu já tava caindo.
Chagas trocou um olhar breve com Duarte e fez um aceno sutil: “essa versão é sólida”.
Renato respirou fundo.
— O laudo médico confirma. Perfurações compatíveis com vidro. Nenhum resíduo de impressão digital sua nos estilhaços.
Heitor fechou os olhos, exausto.
— Ele me provocou, pai. Ele sabia o que tava fazendo. Disse que a Helena mentiu pra mim. Que o filho não era meu. Eu devia ter saído, mas... — engoliu o nó. — Não consegui.
Renato se inclinou e pousou a mão sobre o braço bom do filho.
— Você reagiu como qualquer homem reagiria ao ver o nome da mulher e do filho sendo manchados. Mas agora é comigo, entendeu?
Heitor olhou para ele, tenso.
— O que vão fazer?
Renato soltou o ar devagar.
— Primeiro, te manter vivo e calmo. Depois, te defender com a verdade. Esses dois aqui — apontou para os advogados — são os mesmos que te tiraram daquela tempestade anos atrás. Vão fazer isso de novo.
Duarte assentiu, firme.
— Vamos estruturar sua declaração com base médica e testemunhal. O garçom e o segurança confirmaram a briga, e há câmeras. O importante é que o senhor se mantenha em silêncio público por enquanto.
Heitor respirou fundo, aliviado e tenso ao mesmo tempo.
— E o Fortenelle?
— Ainda internado. Menos ferido do que você. Mas o império dele... vai sangrar por muito mais tempo.
Renato se levantou, ajeitou o terno e olhou para o filho.
O tom endureceu, mas o olhar era puro afeto.
— Se preocupa só em se recuperar. Eu cuido do resto. E, filho... — ele passou a mão no cabelo de Heitor, num gesto quase esquecido — promete que dessa vez vai ficar inteiro até o fim.
Heitor deixou escapar um sorriso cansado.
— Prometo, pai.
Renato assenti, iria sair, mas parou. Tinha pensado em não mostrar para Heitor ainda, mas era melhor ele saber sobre antes de ver Helena.
— Mostrem a postagem para ele— disse firme, Heitor olhou confuso.
Os advogados, Duarte e Chagas, já tinham aberto as pastas. O notebook sobre a mesinha exibia a manchete do SociedadeRJ. Chagas pegou o eletrônico e segurou perto para que Heitor conseguisse ler.
Heitor leu em silêncio.
O sangue subiu ao rosto.
E então, o estrondo:
— Eles ousaram colocar o nome dela?!
A voz ecoou pelo quarto, fria e violenta.
Renato tentou intervir, mas o filho continuou:
— Falaram da Helena. Do bebê. Disseram que o “herdeiro Monteiro” pode não ser Monteiro coisa nenhuma. — ele riu, aquele riso curto, perigoso. — Eu quero cada um deles destruído.
Celina se inclinou, com o tom sereno que sempre usava quando o marido e o filho estavam prestes a explodir.
— Heitor… respira. O que eles querem é te ver perder o controle.
— Eu já perdi. — ele respondeu. — Agora eu quero tomar o controle.
Renato cruzou os braços, observando.
Sabia reconhecer aquele olhar, não, aquele olhar era pior do que em 2002.
Heitor virou-se para os advogados:
— Quero um plano de ação. Agora.
Duarte pigarreou, tentando manter o tom profissional:
— Senhor Monteiro, com o devido respeito, o ideal é começarmos com o jurídico. O processo de difamação, o laudo, o pedido de remoção das publicações…
— Processo é coisa pra quem quer justiça, Duarte. — cortou Heitor, a voz firme, quase gelada. — Eu quero vingança.
Renato ergueu o olhar, surpreso.
— E o que você pretende fazer?
Heitor olhou fixo pro pai.
— Mostrar pra esses filhos da puta que a Monteiro não é uma empresa. É uma dinastia. E dinastias não perdem, elas esmagam.
Um silêncio denso caiu sobre a sala.
Celina soltou um suspiro leve.
Renato passou a mão pelo queixo e disse apenas:
— Então vamos ouvir o nosso CEO.
Heitor começou a falar com o mesmo tom que ele usava nas reuniões, a diferença agora era que estava carregada de puro ódio. A garganta ainda doía quando ele falava, mas não estava nem aí.
— Primeiro: quero uma nota oficial assinada por mim. — disse ele. — Foto formal, sem pose de CEO, sem assessoria melosa. Só uma mensagem direta: houve agressão, o caso está sob investigação e qualquer manipulação de informação será processada.
Chagas anotava em silêncio.
Heitor continuou:
— Tom calmo, mas letal. Quero que pareça aviso, não desabafo. Pública em seis horas, sem a assessoria de imprensa do grupo.
Celina levantou uma sobrancelha.
— E a Helena nisso tudo?
— Ela não será citada. — respondeu ele, sem hesitar. — Nenhuma palavra sobre gravidez, sobre nós, nada. A prioridade é a proteção dela.
Renato assentiu, satisfeito com pelo menos esse ponto.
— E a segurança?
— Dobrem a equipe. — ordenou Heitor. — Quero bloqueio digital, acesso monitorado, e qualquer jornalista que tentar contato direto, a gente processa por assédio.
Duarte olhou para Chagas e murmurou:
— PR legal. Imediato.
— Isso cobre as próximas doze horas. — disse Renato. — E depois?
Heitor se endireitou na cama, mesmo com o braço enfaixado.
— Depois a gente parte pro estrangulamento.
Ele ditava como quem comanda um exército:
— Ações jurídicas paralelas: difamação, danos morais, liminar pra tirar tudo do ar. Eu quero petições protocoladas até sexta.
Renato interveio:
— Duarte cuida disso. Já sabemos o rito.
Heitor prosseguiu:
— Segunda coisa: quero que registrem queixas formais nos órgãos reguladores. CVM, concorrência, prefeitura, onde for. Pede auditoria independente nos contratos da Fort Group.
Chagas ergueu a cabeça.
— Isso vai travar licitações e atrasar o caixa deles.
Heitor sorriu.
— Exato. Enquanto isso, quero os bancos aliados recebendo um “alerta de risco reputacional”. Nada direto, só o suficiente pra deixá-los desconfiados.
Renato soltou um leve assobio.
— Estratégia de mercado... você aprendeu bem.
Heitor não respondeu.
— E dentro de duas semanas, quero matérias. — acrescentou. — Tudo com documento: ficha de 2002, contrato fraudado, depoimento real. Sem calúnia. Só fatos. Mas em sequência. Um golpe de cada vez.
Duarte assentiu.
— Eu autorizo só se as provas passarem pelo nosso crivo.
— Você vai autorizar, Duarte. — disse Heitor. — Porque vai ser limpo.
Celina Apoiou os cotovelos na cama e perguntou:
— E o que fazemos com a Viviane?
— Você cuida dela. — respondeu Heitor, direto. — Quero que ela suma dos almoços, dos eventos, das festas de caridade. Liga pras anfitriãs, pras comissões. Diz que é pra “evitar constrangimento social”.
Celina sorriu, não era a primeira vez que faria isso.
— Deixa comigo. Nada humilha mais do que ser esquecida.
Renato observava, meio orgulhoso, meio preocupado.
Heitor continuou:
— Antônio vai sentir a ruína financeira. Cortem fornecedores que dependem da Monteiro. Reavaliem contratos. Quero revisões de crédito com os bancos, questionamentos sobre apólices. Que ele tenha que justificar cada centavo.
— Isso é sufocar, Heitor. — comentou Renato.
— É ensinar. — respondeu Heitor. — Ele me fez sangrar. Agora eu quero que ele aprenda o significado da palavra colateral.
Renato olhou o filho por alguns segundos.
— Você quer mesmo isso? Tomar a empresa dele?
Heitor deu um meio sorriso.
— Eu não quero o império dele. Quero o silêncio dele.
— Então como pretende conseguir? — perguntou Duarte.
— A Monteiro vai comprar ações via intermediários. Pouco a pouco. Vamos ter voz no conselho. Depois, incentivo minoritários a pedirem auditoria. Quando a casa dele estiver cheia de rachaduras, a gente pede tutela cautelar e afasta os diretores.
Renato estava orgulhoso, era muito parecido com o que ele fez em 2002. Ele nunca contou para ninguém sobre aquilo.
— Isso é um golpe empresarial.
— Não. — corrigiu Heitor, firme. — É um lembrete: nunca se mexe com a minha família.
— Quando tudo estiver em ruínas — completou Heitor — Quero que a história dele vire livro. Documentário, o que for. Que o nome Fortenelle vire sinônimo de podridão. E que todo patrocinador que ainda estiver com eles corte laços.
Renato respirou fundo, cruzando as mãos.
— Você sabe que esse tipo de guerra deixa marca, filho.
— Já deixou. — respondeu Heitor. — Agora eu vou devolvê-la.
Silêncio.
O som do monitor cardíaco preenchia o quarto.
Renato finalmente disse:
— Então está decidido. Duarte, prepare a minuta das petições. Chagas, os contatos com a CVM. Celina, comece o isolamento social.
— E você? — perguntou o filho.
Renato deu um leve sorriso.
— Eu vou garantir que nenhum juiz tente segurar nossos processos.
Celina se levantou, ajeitando o casaco.
— Eu vou ligar pra dona Regina. Ela é a anfitriã do Instituto de Arte. Viviane era presença fixa. Não vai ser mais.
Heitor fechou os olhos, o rosto voltando à rigidez.
— Em quarenta e oito horas, quero que o nome Fortenelle signifique perigo. Em sete dias, quero que investidores comecem a fugir. Em três meses, quero que ele não tenha onde jantar.
Renato olhou pro filho, sério, mas com um brilho no olhar.
— E a Helena?
Heitor abriu os olhos.
A fúria deu lugar à firmeza.
— Eu cuido dela. Do meu jeito.
Renato assentiu, devagar.
— Então que comece a guerra.
Renato pigarreou, tirando os óculos.
— Muito bem. Vamos alinhar o que eu já fiz.
Colocou os papéis sobre a mesa, ajeitando-os por ordem.
— Assim que vi a postagem, acionei o jurídico da Monteiro Inc. Pedi três coisas principais: Boletim de ocorrência e instauração de inquérito por difamação, medida cautelar pra remoção imediata da matéria e qualquer imagem que viole a intimidade de vocês, e solicitação de sigilo processual, pra gente controlar o fluxo de informação.
Heitor apenas assentiu, a mandíbula travada.
— Também contratei um policial federal aposentado para investigar particularmente — continuou Renato. — Ele rastrear a origem do vazamento, prints, quem enviou o quê e de onde partiu. Pedi relatório em quarenta e oito horas.
Celina cruzou os braços, observando o marido.
— E os bancos?
— Já informei discretamente — respondeu ele. — Só disse que há investigação em curso e que mantenham contratos e estoques em observação. Ninguém vai romper nada, mas já estão preocupados.
— Boa. — murmurou Heitor. — Assim eles se travam sozinhos.
Renato assentiu, respirando fundo.
— O objetivo agora é conter o dano jurídico e criar legitimidade. Assim que o relatório dos PIs sair, começamos a contra-ofensiva.
O silêncio se instalou por um instante, até que Renato se recostou na cadeira e soltou:
— Ah, sim... o Paulo entrou em contato.
Heitor levantou o olhar, na hora.
Celina apenas ergueu uma sobrancelha.
— Disse que queria se encontrar comigo amanhã cedo — continuou Renato. — Alegou que quer “ajudar a conter o caos midiático”. — Fez aspas com os dedos. — Achei... estranho. Ele parece interessado demais na Helena.
Celina soltou um suspiro baixo, trocando um olhar rápido com o filho.
Renato percebeu, e o silêncio entre os três se prolongou.
— O que eu tô perdendo aqui? — perguntou Renato, desconfiado.
Celina virou-se para os advogados.
— Duarte, Chagas… podem nos dar um momento?
Os dois se entreolharam, recolheram as pastas e saíram sem questionar. A porta se fechou atrás deles, abafando o som dos corredores.
O quarto ficou em silêncio.
Só o leve bip do monitor cardíaco.
Celina se aproximou devagar, parando diante de Renato.
— O que eu vou dizer agora não pode sair desta sala. — disse, firme. — Prometa.
Renato franziu a testa.
— Celina, o que foi agora?
— Prometa, Renato. — insistiu ela.
Ele assentiu, ainda confuso.
— Está bem. Prometo.
Ela respirou fundo, o olhar fixo no marido.
— A Lorena Medeiros… é a mãe biológica da Helena.
O tempo parou.
Renato ficou imóvel, a expressão se esvaziando.
— O quê? — a voz dele saiu num sussurro incrédulo. — Isso é… isso é sério?
Celina assentiu devagar.
— É. Eu já sabia há um tempo. Lorena me contou.
Renato se inclinou na cadeira, passando a mão pelos cabelos, tentando processar.
— Meu Deus… — murmurou. — E a Helena…?
— Não sabe. — respondeu Celina. — Nem desconfia.
Heitor manteve o olhar baixo, o maxilar tenso.
Foi ele quem falou depois:
— Quando Helena desapareceu aquele dia... — pausou, respirando fundo. — Ela foi pra casa dos Medeiros.
Renato o encarou, estarrecido.
— Como você sabe disso?
— Ela me contou. Achei umas coisas estranhas então resolvi verificar por mim mesmo. — respondeu Heitor. — Quando olhei para Lorena, as duas são quase idênticas. Paulo também estava lá, me tratou como um genro. Foi quando entendi que ele sabia de tudo.
Renato levou a mão à testa.
— Então… é verdade mesmo.
— É. — confirmou Celina, num tom triste, mas firme. — Lorena me chamou depois e confessou. Há coisas que não posso contar e espero que entendam. Essa parte não cabe a mim, seria apenas fofoca.
Renato ficou em silêncio por longos segundos.
Depois, recostou-se na parede, os olhos perdidos.
— Isso muda tudo.
Celina respirou fundo.
— Não muda o essencial: Helena continua sendo a mulher que nosso filho ama. Mas explica… muita coisa.
Renato passou a mão pelo rosto, tenso.
— Agora faz sentido o Paulo querer “ajudar”. Ele quer proteger a enteada.
— E provavelmente… a esposa também. — completou Celina.
— Lorena Medeiros… tinha uma filha. — murmurou, ainda tentando aceitar. — E eu estranhando no porquê ele estar tão empenhado com o ano da candidatura logo aí.
Renato respirou fundo, dominado por uma mistura de gratidão e espanto.
— Então… somos todos família.
Celina sorriu com melancolia.
— Sempre fomos. Só não sabíamos.
Heitor cruzou os braços, o olhar carregado de propósito.
— E agora os Medeiros e os Monteiro estão juntos.
Renato ergueu o olhar.
— Contra os Fortenelle.
Celina assentiu, com serenidade e determinação.
— Antônio e Viviane mexeram com o sangue errado.
Heitor franziu o cenho, firme.
— Que eles entendam o peso do que fizeram.
Renato se levantou e colocou a mão sobre o ombro do filho.
— Eles vão entender, Heitor. Porque agora… o império dobrou de tamanho.
Celina esboçou um pequeno sorriso.
— Os Fortenelle começaram uma guerra entre famílias. Eles só esqueceram de contar quantos inimigos têm.
Heitor ergueu o olhar para os dois — o pai, a mãe — e afirmou, convicto:
— Então vamos mostrar a eles. Medeiros e Monteiro. Lado a lado.
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