O CEO que Eu Paguei
60 Ela me deixou no vácuo
O dia foi uma porrada. Reunião atrás de reunião. RH, jurídico, compliance, gestores de setor... tudo pra garantir que ninguém — ninguém — tivesse coragem de abrir a boca contra a mulher que ele escolheu.
Nem nome tinha o que eles eram ainda, mas ele já sentia.
Um negócio aqui no peito, que apertava às vezes, que dava uma raiva do caralho quando pensava que alguém podia tratar ela diferente por causa dele. Um sentimento que não cabia em palavra nenhuma, só cabia em atitude. E era isso que ele tava fazendo.
Assumiu. Sem pedir permissão. Sem roteiro.
Quando a última porta da última sala fechou, o prédio já tava quase vazio. O andar corporativo em silêncio, a luz fria das luminárias deixando o blazer dele com sombra nos ombros. Ele parou diante da parede de vidro.
Do outro lado? A mesa dela. Vazia. Cadeira empurrada de qualquer jeito. E o coração dele… bagunçado igual.
Pegou o celular. Tela bloqueada. Nenhuma notificação.
Nenhuma mensagem.
Franziu a testa. Digitou.
“Tá na sua casa?”
Esperou uns segundos. Nada.
“Tá tudo certo?”
Mais silêncio.
O peito começou a esquentar.
Abriu o contato. Ligou.
Chamou uma. Duas. Três vezes.
“...Após o sinal, deixa o seu recado...”
— Caralho, Helena... — murmurou, jogando o celular no banco do Audi A7 com mais força do que devia.
Entrou no carro. Acendeu o painel. O ronco do motor soou como desaforo.
Ele nem precisava mais do GPS. Sabia o caminho de cor. Cada curva, cada lombada, cada poste antes da esquina onde ela morava. O bairro era pequeno demais pra esconder ela. E ele era grande demais pra se esconder de si mesmo.
A rua tava calma. Interior de Minas. Segunda-feira. Céu limpo. Cheiro de terra molhada. A única coisa que destoava era ele: um homem grande, tenso, no volante de um Audi preto metálico, com os olhos azuis mais afiados do que qualquer farol.
Parou o carro na frente da casa. Olhou pro portão.
A luz da sala… acesa.
Totó, o cachorro vira-lata invocado, já tava do lado de dentro latindo como se tivesse visto o capeta. Heitor abaixou o vidro.
— Fala, Totó. Relaxa, parceiro. É o mesmo cara de ontem.
Mas o cachorro não parava de latir.
Heitor deu algumas buzinadas. Mas, Helena não apareceu. Nenhuma movimentação. Nem sombra. Nem voz. Nem passo.
A garganta fechou.
— Cacete... ela tá me ignorando.
Desceu do carro. Encostou no portão, olhou lá pra dentro.
— HELENA?
Nada.
— Porra, Helena…
A raiva misturou com o desespero. Aquele tipo de coisa que dá nó na barriga. Que faz a respiração virar soco no pulmão.
Ele botou a mão no ferro. Olhou pro lado. Olhou pro outro.
— É só subir e cair leve do outro lado. Vai dar nada. — disse pra si mesmo.
E subiu.
Camisa social enroscando na ponta do portão. Relógio roçando nas barras. A barra da calça presa no ferro pontudo. Mas ele foi. Porque quando a cabeça fica cheia... o corpo resolve pular.
— Ô MEU DEUS! — gritou uma voz fina do outro lado da rua.
A vizinha. A fofoqueira. A aposentada com WhatsApp de dedo rápido. Aquela que Dona Olívia disse que havia viajado para o casamento do filho. A única daquele bairro que não o conheceu.
— SOCORRO! ESTÃO INVADINDO A CASA DA OLÍVIA!
— Calma, senhora! Sou eu! Sou o namorado da Helena!
— Vagabundo querendo assaltar! EU TÔ LIGANDO PRA POLÍCIA!
— Eu NÃO tô assaltando! EU VIM VER MINHA MULHER!
— BANDIDO!
— SENHORA! PELO AMOR DE DEUS, É A CASA DA MINHA MULHER! EU SÓ TÔ TENTANDO RESOLVER UM PROBLEMA!
Mas era tarde demais.
A viatura chegou em menos de quatro minutos.
Barulho de sirene, giroflex piscando, e dois PMs do interior de Minas Gerais desceram com aquele jeitão de que nada nunca acontecia ali e olharam com aquela cara de quem nunca viu um homem de relógio de grife tentando escalar portão às dez da noite.
— Parado aí, cidadão! — disse o primeiro.
— Desce rápido! Levanta as mãos! — disse o segundo, colocando a mão no coldre.
— O que cê tá fazendo pulando portão dos outros? — perguntou o primeiro com um sorriso curioso.
Heitor ergueu uma das mãos ainda segurando no portão, sem acreditar.
— Eu... tô tentando ver a minha mulher. Eu ia pular o portão porque achei que ela tava me ignorando. Eu só queria falar com ela. Eu...
— Isso aí é invasão de domicílio. E tentativa de arrombamento.
— Documento!
— Eu sou Heitor Monteiro! CEO da Monteiro Inc., p0rra! Procura aí! Liga na central da cidade! Eu tenho CPF, CNPJ, até MEI se vocês quiserem!
O primeiro levantou a sobrancelha.
— É carioca?
— Sou sim — Heitor responde fechando a cara.
— Carioca Monteiro? Aqui é bairro! Isso aqui é casa de vó, não é escritório não, cidadão.
— Eu sei! A vó dela é a Dona Olívia! Totó é o cachorro! Eu compro a ração dele, caralho!
— Vai ter que explicar isso tudo na delegacia.
— Delegacia o caralho! Quem vocês têm que prender é ela!
— Ela quem?
Foi nessa hora que o Uber estacionou.
Helena desceu com uma expressão tranquila... até ver a cena.
— O que que tá acontecendo aqui?! — ela gritou, correndo até o portão.
Heitor, ainda com os braços erguidos, virou o rosto.
— Helena! Fala pra eles que eu não sou ladrão, caralho! Tão querendo me prender!
Helena olhou pros policiais, depois pra ele.
— VOCÊ TÁ MALUCO? O QUE VOCÊ TÁ FAZENDO AQUI? PULANDO O PORTÃO DA MINHA CASA?!
— EU TENTEI TE LIGAR, TU NÃO ATENDEU! EU FIQUEI MALUCO! EU PENSEI QUE TU TAVA ME IGNORANDO! TU DEIXOU LUZ ACESA!
— PORRA, HEITOR! VOCÊ NÃO PULA PORTÃO DAS CASAS DAS PESSOAS! ISSO DÁ CADEIA!
— ENTÃO TU VEM COMIGO! VOU PRESO MAS LEVO TU JUNTO!
— TÁ LOUCO?!
— QUEM TEM QUE SER PRESA É TU, HELENA! TU QUE ME DEIXOU NO VÁCUO! TU QUE ME FEZ PERDER O JUÍZO! SOU SÓ UM CARA APAIXONADO! SOU SEU REFÉM!
— Isso não é defesa legal, senhor. — disse o policial, tentando conter o riso.
— NÃO É DEFESA, MAS É VERDADE! — gritou Heitor, agora com os dois braços abaixados segurando nas barras, encarando Helena.
Ela segurava o riso. Mas tava vermelha.
— Desce daí agora! — disse, abrindo o portão.
— Promete que vai falar comigo?
— DESCE, HEITOR! Antes que o Totó te morda e eu que leve um processo.
Ele desceu. Meio gato, meio gorila. Caiu com o pé meio torto. Limpou a camisa com dignidade de quem ainda tinha nome limpo na Receita Federal.
Helena virou pros policiais:
— Ele é meu… amigo. Tá tudo bem. Eu vou conversar com ele.
Os PMs trocaram olhares.
— Tem certeza, senhora?
— Infelizmente, sim.
— Então tá. Se precisar, liga de novo.
— Se ele fizer mais uma dessas, eu ligo.
A viatura ainda estava lá, o giroflex rodando, os policiais olhavam a cena com olhares divertidos, Helena abriu o portão e encarou ele no meio da calçada.
Ele, suado, amarrotado, com cara de quem tinha enfrentado um dragão e perdido pro cachorro da frente.
— Você é maluco.
— Só por você.
— Eu não tô pronta pra isso.
— Mas eu tô.
Fale com o autor