O CEO que Eu Paguei
83 E Se Eu Tivesse Ficado Calada?
O salto ecoava pelos corredores da Monteiro Inc.
Mas o barulho que mais incomodava Helena naquele momento… era o silêncio dele.
Desde que desceu do carro, sentia a cabeça longe demais do corpo.
Os passos estavam ali, firmes, presentes.
Mas o pensamento?
Completamente estacionado em um par de olhos azuis que ela não conseguia esquecer.
Assim que entrou na sala da Plano & Forma, Clara veio na direção dela com aquele sorriso esperto:
— Bom dia, Helena. Dormiu bem?
Helena respondeu com um aceno e um “mais ou menos”.
Hugo tentou fazer piada. Júlia veio logo atrás falando de um novo projeto que estavam organizando.
Ana Alice passou e fez uma piadinha sobre “estar com cara de quem passou a noite bem acompanhada”.
Helena não riu.
Não retrucou.
Estava ali, mas não estava.
— Tá tudo bem? — Júlia perguntou mais tarde, num intervalo entre e-mails.
— Tô, só… com a cabeça cheia.
Júlia não insistiu.
Hugo fingiu que acreditou.
Mas ela sabia que os dois estavam se olhando de canto.
Mais tarde, já com a mesa organizada, o café no copo térmico e o barulho da equipe voltando à rotina, Helena sentou-se e pegou o celular.
Destravou a tela.
Nada de mensagens.
A notificação do Instagram estava lá.
E era dele.
Abriu.
O story tinha sido postado ontem, pouco depois do jogo.
Era um vídeo — feito por ele — dos dois assistindo o Fluminense no bar.
Helena aparecia sorrindo, surpresa com a movimentação, e logo depois vinha a comemoração do gol.
Heitor a pegando no colo, dando risada, vibrando como um moleque.
No story seguinte, tocava ao fundo “Lapada dela” – Grupo Menos é Mais
“...Eu caí no corpo dela e me viciei…Agora eu tô apaixonado, olha onde eu entrei…Todo dia eu quero pegar ela…Não consegui dormir pensando na lapada dela…Tô aqui pensando em cada movimento dela…”
E escrito:
"A mais nova pé quente. 1x0. ❤️💚🤍"
Helena sorriu.
Um sorriso real.
Desses que não se controla.
Ela lembrava de ontem.
Do short que vestiu pra provocá-lo.
Do beijo na calçada.
Do corpo dele encostado no dela, a mão firme na cintura.
Do jeito como ele falava que ela era dele.
E depois... da varanda.
Do silêncio.
Do estrago que ela talvez tenha feito.
E o pior é que ele não jogou na cara.
Não cobrou.
Só se afastou.
Com elegância. Com dor.
E com muito mais maturidade do que ela esperava.
Helena ficou ali, olhando o story, o vídeo repetindo.
Ele estava tão bonito ali…
O sorriso largo, o cabelo meio bagunçado, os olhos azuis brilhando.
Ela sentiu falta dele.
Mesmo tendo acordado ao lado dele hoje.
E isso a fez parar.
Porque talvez fosse isso.
A coisa mais perigosa de todas.
Estar com ele — e ainda assim sentir falta.
Helena apoiou o cotovelo na mesa e mordeu a tampa da caneta.
celular ali do lado, virado para cima, brilhava mais do que devia.
Ela desbloqueou.
Abriu o chat com o nome dele.
E ficou olhando aquele fundo branco que parecia zombar dela.
Escreveu:
“O café de hoje estava ótimo. Diz pra Dona Cidinha que eu elogiei.”
Apagou.
Escreveu outra:
“Você tá bem? Achei você meio distante hoje…”
Apagou com mais força.
— Aff, ridículo isso — murmurou pra si mesma.
Tentou outra:
“Saudade de ontem.”
Apagou mais rápido ainda.
O rosto começava a esquentar.
Então escreveu:
“Vi que tem o 2 daquele filme que vimos ontem, quer assistir hoje?”
Ficou olhando. Pensou em apagar. Mas não apagou.
Acrescentou:
“Eu sei fazer uma pipoca doce muito boa, posso fazer enquanto a gente assiste.”
Leu umas três vezes.
Suspeitou do próprio tom.
Mas, por algum milagre ou surto temporário, apertou “enviar”.
O mundo não caiu.
Mas o estômago dela… esse deu uma volta.
O tempo passou.
Três minutos.
Cinco.
Dez.
Nada.
Ela tentou disfarçar, focar nas planilhas.
Mas os olhos voltavam pro celular toda hora.
Até que…
“Heitor está digitando...”
“Podemos marcar pra outro dia? Tenho compromisso hoje.”
Ela arqueou a sobrancelha.
O calor subiu pelas bochechas.
Ele sempre respondia na hora. Sempre.
E agora isso?
Ela respondeu de impulso:
“Que compromisso?”
E a resposta dele veio:
“kkkkkk calma, patroa.
É compromisso familiar.
Meu pai me ligou, disse que quer repassar uns projetos comigo.”
Helena quase jogou o celular pela janela.
“Não é possível que eu só mandei isso. Não sou assim.”
A cabeça fervendo.
A garganta seca.
Ela olhou o chat.
Viu a própria frase.
E pensou:
“Caralho… virei CIUMENTA?”
Respirou fundo.
Muito fundo.
Apoiou o celular na mesa de novo.
Virado pra baixo dessa vez.
E sussurrou pra si:
— Nunca mais mando porra nenhuma.
Mas no fundo?
No fundo ela sabia.
Era mentira.
Porque quando a gente começa a sentir falta… é só questão de tempo até sentir saudade.
O expediente passou arrastado.
Helena respondeu e-mail, organizou relatório, deu check no cronograma do projeto.
Fez tudo.
Menos esquecer Heitor.
Mas foi quando o relógio bateu 17h12 que Hugo apareceu encostado na divisória da baia dela com um sorriso conspirador.
— Bora comer um sanduba hoje? Eu, tu, Clara, Júlia… até a Ana Alice vai.
— Ah não, se ela vai eu desisto — Helena resmungou com um meio sorriso.
— Eu ouvi, hein? — Ana Alice disse ao fundo, sem virar.
— Era pra ouvir mesmo — rebateu Helena.
Júlia chegou com a bolsa pendurada no ombro.
— Não adianta fugir, Lêlê. Tu vai. Hoje é dia de sanduba raiz, molho na cara, batata frita e esquecer que a vida é uma novela mexicana.
— Ou lembrar que é — completou Clara, já ajeitando a chave do carro.
Helena hesitou por um segundo.
Pensou em Heitor.
Na resposta seca.
Na pipoca que ela não faria.
No filme que não veria.
E naquele "kkkkk" que ainda estava entalado na garganta.
— Tá. Eu vou. — respondeu, se levantando. — Mas só se tiver milk-shake.
— Já disse que amo essa mulher? — Hugo respondeu teatralmente.
Então foram.
O lugar era simples, mas aconchegante — um trailer grande com área externa coberta, luzes amarelas e mesas de madeira. O tipo de canto onde todo mundo se sentia à vontade pra rir alto, lamber os dedos e contar alguma vergonha.
Pediram batata grande, hambúrguer artesanal, refrigerante, milk-shake, suco… e conversaram. Muito.
Helena ria.
De verdade, às vezes.
Outras… fingia.
Clara falava sobre um cliente maluco que queria uma fonte “com cheiro de lavanda”.
Júlia narrava uma história sobre o ex dela, que jurava que os signos estavam atrapalhando o namoro.
Hugo imitava Gaspar de forma tão precisa que Helena chorou de rir por uns segundos.
Ana Alice não deixou de alfinetar.
— E o CEO, hein, Lêlê? Sumiu hoje? Problemas no paraíso?
Helena fingiu que não ouviu.
Júlia revirou os olhos.
— Cala a boca, Ana Alice. Você fala como se ela tivesse contratado o homem pra ser sócio da Plano.
Ana Alice deu de ombros.
— Só acho estranho. Tava mó romance, agora sumiu.
— Tá quieto hoje — Helena respondeu, simples.
E ninguém precisava saber que aquela resposta queimou por dentro.
A comida chegou, as risadas aumentaram, e por um tempo, ela esqueceu.
Ou fingiu melhor.
Quando o sanduíche veio, com pão tostadinho, carne suculenta e queijo derretido, ela deu a primeira mordida e suspirou.
— Isso aqui cura qualquer coisa. Até homem.
— Mentira — disse Hugo. — Cura fome. Homem a gente precisa de terapia ou surra.
— Surra de pirroca só se for — completou Clara, bebendo o suco.
Júlia olhou pra Helena e sorriu de canto.
— Mas olha só… ela tá com cara de quem tá pensando em fazer besteira mais tarde.
Helena fingiu indignação:
— Eu? Jamais. Eu sou a racional do grupo.
— Você é a que faz a besteira com mais classe, isso sim — Júlia rebateu.
Helena riu.
E por um momento, foi bom estar ali.
Com eles.
Longe da casa de Heitor.
Longe do peso daquela varanda.
Longe do “Podemos marcar pra outro dia?”
Mas o nome dele…
O nome dele seguia ali.
Sussurrando no fundo da mente.
Mesmo com molho escorrendo no pão e a gargalhada dos amigos no ar.
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