O CEO que Eu Paguei
84 A Ausência Que Ela Mesmo Pediu
Helena chegou em casa mais tarde do que o normal.
O portão estava fechado.
Sem o Audi preto parado na frente.
E aquele simples detalhe… fez o peito dela pesar.
Totó correu para recebê-la, abanando o rabo.
Dona Olívia estava na sala, com a televisão ligada baixo, assistindo à novela repetida de sempre.
— Uai... cadê o Heitor? Não veio hoje? — perguntou, olhando por cima dos óculos.
Helena largou a bolsa no sofá.
— Ele teve que revisar uns relatórios com o pai. Coisa da empresa.
A avó assentiu com um ar de quem suspeitava de algo mais.
Mas não insistiu.
Helena foi pro quarto, tomou um banho longo.
A água escorrendo pelas costas trazia lembranças que ela tentou, sem sucesso afastar.
O banho da noite anterior.
O jeito como ele a segurava.
As palavras que ele dizia no ouvido dela.
As mãos.
A boca.
O calor.
Ela sentiu o corpo reagir.
E o rosto… queimar.
Enrolou-se na toalha e caminhou pelo quarto com lentidão, como se os próprios passos carregassem o peso do arrependimento.
Tentou ver um filme.
Nada prendeu.
Tentou começar uma série.
Desistiu no terceiro diálogo.
Acabou no Inst4gram.
O perfil dele ainda aberto.
O story do jogo de ontem.
A música.
A legenda.
“A mais nova pé quente.”
Helena passou um tempo demais olhando aquilo.
Depois abriu o WhatsApp.
A conversa com ele.
As últimas mensagens.
Ela digitou algo.
Apagou.
Escreveu de novo.
Apagou de novo.
Enfim, mandou:
“Como está a revisão de contratos?”
Ficou encarando o “online”.
Mas o tempo passou.
E nada.
Ela sentiu a garganta apertar.
E os dedos começarem a suar.
Respirou fundo e escreveu de novo.
“Senti sua falta no escritório hoje.”
Dessa vez, ela não apagou.
Apertou “enviar”.
E se arrependeu no segundo seguinte.
O tempo passou.
O tempo não respondeu.
Ela já estava quase jogando o celular no travesseiro quando veio a resposta.
“Está tranquilo. São bons contratos, consigo aprender muito com o mestre.”
Só isso.
Sem emoji.
Sem “você”.
Sem “também senti”.
Sem uma curtida sequer.
Helena leu e releu.
Procurando nas entrelinhas algo que não estava ali.
Porque o que ela queria mesmo… Era ele.
De volta.
Por inteiro.
Como sempre foi.
Mas agora, pela primeira vez… não era mais ele quem estava disponível.
Era ela.
E talvez tivesse chegado tarde.
Helena desceu da cama já sem vontade de deitar de novo.
Estava tudo tão... barulhento por dentro.
O celular ficou jogado na escrivaninha, o quarto parecia menor do que de costume.
Ela abriu a porta e sentiu o cheirinho familiar vindo da cozinha — alho refogado, café fresco e aquele silêncio de quem já viveu muito.
Dona Olívia estava sentada à mesa, mexendo o chá com calma.
Helena foi até lá com os passos lentos, como se o corpo soubesse que ali... ela ia escutar o que estava evitando.
— Cansada, minha filha? — a avó perguntou, sem nem olhar.
— Um pouco. O dia foi puxado.
Dona Olívia assentiu. Bebeu um gole do chá. E então:
— E o Heitor? Sumiu?
Helena hesitou.
— Ele tá resolvendo uns trens com o pai dele.
A avó não disse nada. Só deu mais um gole, com os olhos fixos na caneca.
Helena sentou do outro lado da mesa.
O silêncio se arrastou por alguns segundos.
E então, Dona Olívia falou, com a voz calma — mas certeira como uma flecha:
— Tem homem que quando é dispensado, some. Mas tem uns que somem… pra respeitar. O problema é que às vezes a gente só percebe que queria que ele ficasse… quando ele já aprendeu a ir.
Helena sentiu a respiração falhar.
— Eu não dispensei ele.
— Não precisa usar a palavra, Helena. A gente sabe quando empurra alguém com o jeito.
Silêncio.
— Eu só não… sei ser tudo o que ele espera.
A avó sorriu de canto, triste e doce ao mesmo tempo.
— E ele sabe? Homem nenhum sabe. Nem mulher. A gente só descobre quando decide tentar junto. Sozinho, a gente só aprende a desistir.
Helena não respondeu.
Dona Olívia levantou, deu um beijo na testa da neta e sussurrou:
— Ocê é esperta, menina. Só não deixa o medo ser mais alto que sua vontade.
E saiu.
Deixou o bule, o cheiro de hortelã, e a dúvida entalada na garganta.
Mais tarde, no quarto
Helena se jogou na cama com o celular nas mãos.
Abriu a galeria.
As fotos com ele.
A do bar.
A que ele tirou dela rindo.
A selfie que ela fez dele mexendo na churrasqueira com cara emburrada porque ela não deixava ele usar sal grosso demais.
Abriu o Instagram.
Clicou em “nova publicação”.
Selecionou a foto dos dois no bar.
Tão bonita. Tão boba.
Tão cheia de verdade.
Escreveu uma legenda:
“Quem vive, sabe.”
Olhou.
Engoliu seco.
Apagou.
Escreveu de novo:
“Tem dias que bastam um gol e um olhar pra tudo mudar.”
Apagou também.
Fechou tudo.
Respirou fundo.
Foi até a conversa com ele no WhatsApp.
Nada novo.
Só aquela última resposta dele:
“São bons contratos.”
Sem emoji. Sem pergunta de volta.
Sem ela ali dentro da conversa.
E foi ali, naquele vazio de notificações… que ela entendeu.
Heitor era intenso, sim.
Mas não era um idiota.
Ele tinha sentido.
E agora, estava se protegendo.
Dela.
Helena deitou de lado, olhando pro teto.
A vontade era gritar.
Mas o orgulho só deixava ela suspirar.
E o pior?
Ela não sabia mais se ele voltaria com aquele sorriso.
Ou se agora… só apareceria por educação.
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