O CEO que Eu Paguei
237 Dia dos Pais - Parte II
POV HELENA
— Boa tarde! Demoramos, mas chegamos. — Renato entrou primeiro, já olhando ao redor da sala. — Onde está o pequeno?
Antes que eu pudesse responder, Celina deu uma leve cotovelada no marido.
— Renato! — repreendeu ela. — Cumprimenta o Heitor e a Helena antes, né?
Eu sorri.
Achava os dois adoráveis.
Depois de tantos anos casados, ainda pareciam um casal de namorados em alguns momentos.
Celina veio direto até mim, abrindo aquele sorriso bonito que sempre fazia qualquer ambiente parecer mais acolhedor.
— Helena, querida, boa tarde!
Ela me abraçou com carinho e, logo em seguida, voltou toda sua atenção para o filho.
— Oi, filho!
Heitor recebeu o abraço da mãe com um sorriso imediato.
— Oi, Dona Celina.
Eu precisei morder o lábio para não rir. Celina fechou a cara na mesma hora.
— É mamãe. Já te falei isso.
— Eu sei.
Heitor deu um beijo na bochecha dela.
— Mas eu gosto de ver a sua cara de indignada.
— Menino...
Ele apenas riu.
Depois se virou para o pai e a expressão mudou um pouco. Não de tristeza ou seriedade. Ficou mais suave. Mais emocionada.
— Pai... feliz Dia dos Pais.
Os dois se abraçaram. Renato segurou os ombros do filho e sorriu.
— Feliz Dia dos Pais, filho.
Vi os olhos dos dois brilharem. Daqueles momentos que os homens tentam fingir que não são emocionantes.
— Nós trouxemos um presente. — Celina pegou uma caixinha da bolsa e a entregou para Heitor.
Ele olhou para mim imediatamente. A felicidade estampada no rosto dele chegava a ser engraçada. Parecia uma criança.
— Vamos ver o que eu ganhei.
Abriu a caixa sem cerimônia. Quando viu o relógio, os olhos se arregalaram.
— Caraca… — virou a peça algumas vezes nas mãos. — Era exatamente o que estava faltando na minha coleção.
Levantou o olhar para os pais.
— Obrigado. — o sorriso dele ficou ainda maior. — Obrigado mesmo.
Então abraçou Celina de novo.
Eu amava vê-lo assim.
Porque, apesar de todo o jeito confiante, das piadas e das provocações, Heitor era extremamente ligado à família.
Renato se aproximou de mim logo depois.
— Boa tarde, Helena. — me cumprimentou com um abraço rápido. — Você está muito elegante.
— Boa tarde, Renato. Obrigada. O senhor também.
Ele sorriu.
— Posso entrar?
— Claro. Fique à vontade.
Mas eu já sabia que ele não estava realmente prestando atenção na conversa. Porque seus olhos voltaram imediatamente a procurar outra pessoa.
— E o Humberto?
A pergunta saiu quase automática.
Foi só então que encontrou o carrinho próximo ao sofá.
— Ah… — a expressão dele caiu. — Ele está dormindo.
Sorri.
— Está.
— Que pena.
— Já, já ele acorda.
Olhei para meu filho, que continuava dormindo profundamente.
— Mas espero que continue dormindo pelo menos até a gente conseguir almoçar.
Renato riu.
— Justo.
Depois pareceu se lembrar de alguma coisa.
— Ah, falei com meu pai hoje cedo.
Levantei os olhos imediatamente.
— Falou?
— Falei. Ele e a dona Olívia estão muito bem.
Foi só naquele momento que percebi que ainda não tinha ligado para minha avó.
Eu tinha passado a manhã inteira tão focada no Dia dos Pais, no café da manhã surpresa, no almoço e em garantir que tudo desse certo que nem tinha percebido.
— Nossa… — balancei a cabeça. — Ainda nem conversei com ela hoje.
— Ela mandou dizer para você não se preocupar. — Renato sorriu. — E disse que está adorando o hotel.
Aquilo me tranquilizou instantaneamente.
— Que bom.
— Pelo que entendi, eles têm um cronograma bem cheio hoje. Passeio de bondinho, passeio pelo centro, alguns pontos turísticos...
— Tomara que eles se divirtam bastante.
Sorri enquanto imaginava minha avó reclamando do frio e Afonso fingindo paciência.
— Vou ligar para ela depois do almoço. Quero saber tudo.
— Pode ficar tranquila. A equipe que temos está ajudando bastante os dois.
Foi nesse momento que senti um braço passar pelos meus ombros.
Nem precisei olhar.
Já sabia quem era.
Heitor se encostou ao meu lado e, pelo sorriso que apareceu no canto da boca dele, percebi imediatamente que alguma besteira estava vindo.
— Tenho certeza de que eles vão se divertir muuito. — meu noivo fez uma pausa dramática. — Afinal, já moram juntos...
Olhei para ele.
Renato também.
— Agora viajando juntos...
— São apenas amigos. — eu e Renato respondemos exatamente ao mesmo tempo.
O silêncio que veio depois durou menos de um segundo.
Porque Heitor começou a rir. Aquela risada dele que anunciava confusão.
— Ninguém disse que não são.
— Heitor...
— Estou só observando fatos.
— Monteiro.
— Que foi?
Ele me puxou um pouco mais para perto, claramente satisfeito consigo mesmo.
— Dois amigos de sexo opostos viajando juntos para Campos do Jordão. Nada de estranho.
— Exatamente.
— Exatamente.
Ele assentiu várias vezes.
— Muito normal.
Revirei os olhos.
Renato também.
E isso só fez Heitor rir mais.
— Enfim, nós também temos um presente para o senhor. — falei, puxando Heitor pelo braço antes que ele continuasse implicando com o pai.
Pelo estado dele, a brincadeira ainda estava longe de acabar. O rosto estava vermelho de tanto rir.
— Temos mesmo. — concordou ele, finalmente se deixando arrastar.
A caixa estava sobre o sofá da sala. Heitor a pegou e voltou para perto dos pais antes de entregá-la ao pai.
— Esse é um presente nosso. — Ele sorriu. — E isso inclui o Humbertinho também.
Renato recebeu a caixa com uma expressão genuinamente surpresa. Por um instante, olhou para o filho, depois para mim e, por fim, para Celina, que já estava sorrindo antes mesmo de saber o que havia dentro.
— Olha só, Renato. Um presente de três pessoas. — Ela apoiou a mão em seu braço. — Deve ser algo bem especial.
Meu sogro concordou com um movimento discreto da cabeça.
— Eu agradeço muito. Vou abrir em casa com calma.
— Ah, não! — protestei imediatamente. — Senhor Renato, abre agora.
Ele me olhou, quase assustado com minha insistência.
— Agora?
— Claro que agora. — sorri. — Queremos ver sua reação.
Na verdade, eu que queria ver a reação dele.
Porque tinha visto o carinho que Heitor colocou naquele presente. O tempo que gastou escolhendo a foto, escolhendo a moldura, pensando em cada detalhe.
Renato ficou levemente vermelho.
O que era quase engraçado de ver.
Porque, apesar de todo o jeito sério e metódico, ele parecia ficar genuinamente sem jeito quando era colocado em situações sentimentais.
Celina acabou ajudando-o a abrir a embalagem, já que ele parecia mais preocupado em fugir daquela situação do que em descobrir o presente.
Quando finalmente conseguiu retirar o conteúdo da caixa, o ambiente ficou silencioso.
Era um porta-retrato de madeira, elegante, mas sem exageros. Exatamente o tipo de peça que combinava com Renato.
Mas não era a moldura que importava.
Era a fotografia.
A primeira foto que ele tirou segurando Humberto nos braços.
Eu me lembrava daquele dia.
Lembrava da emoção escondida atrás da postura controlada, da forma cuidadosa como ele segurou o neto pela primeira vez, como se estivesse segurando algo precioso demais para arriscar.
Renato ficou olhando para a fotografia por alguns segundos.
Sem dizer nada, apenas olhou.
E eu senti meu coração apertar. Porque aqueles momentos eram raros.
Muito raros.
Meu sogro não era um homem que demonstrava tudo o que sentia. Por isso, quando demonstrava, era impossível não perceber.
— Pai... — a voz de Heitor saiu mais baixa do que antes.
Quando olhei para ele, vi que seus próprios olhos já estavam brilhando.
— Essa foto foi o primeiro momento em que o senhor segurou seu neto.
Renato continuou olhando para a imagem.
— Eu fiquei pensando muito no que te dar de presente. Mas, no fim, percebi que essa foto significava mais do que qualquer outra coisa.
Heitor respirou fundo. Claramente tentando manter a voz firme.
— É a continuidade da nossa família. Da nossa história. E achei que ela merecia ficar naquela sua estante... a dos momentos importantes. — a garganta dele pareceu apertar. — O senhor sempre foi um excelente pai e está sendo um excelente avô também.
Os olhos de Renato finalmente deixaram a fotografia e encontraram os do filho.
— Obrigado por tudo.
Senti meus próprios olhos se encherem de lágrimas. Ao meu lado, Celina também piscava mais do que o normal.
Renato passou o polegar sobre a moldura com cuidado antes de apertá-la contra o peito por um instante. Um gesto pequeno. Mas carregado de significado.
— Vou colocar ao lado da sua foto de formatura. — a voz saiu rouca, quase falhando. — Acho que ela merece ficar lá.
Heitor sorriu. Aquele sorriso emocionado que sempre me desmontava.
— Eu também acho.
— Me lembrou daquela foto sua com o Heitor nos braços. — comentou Celina, olhando para o marido. — A do hospital.
Renato soltou uma risada baixa pelo nariz.
— É verdade.
Baixou os olhos para a imagem novamente.
— É bem parecida.
— Você lembra dessa foto, Helena? — perguntou Celina, voltando-se para mim. — Aquele dia em que te mostrei os álbuns.
Sorri imediatamente.
Como esquecer?
Eu tinha passado horas vendo fotos do Heitor pequeno enquanto a mãe dele contava histórias embaraçosas.
— Lembro sim. — ri. — Mas vou adorar ver de novo.
Renato pigarreou discretamente e passou a mão pelos olhos como se tivesse apenas uma irritação qualquer.
Ninguém comentou.
Porque todos sabíamos exatamente o que ele estava fazendo.
— Com licença. — ele respirou fundo. — Vou ver meu neto.
— Eu também. — Celina concordou imediatamente.
E os dois seguiram para o carrinho quase na mesma hora.
Como se precisassem desesperadamente de uma desculpa para interromper aquela conversa antes que acabassem chorando de verdade.
Renato e Celina acabaram parando ao lado do carrinho. Os dois observavam Humberto dormir como se ele fosse a coisa mais fascinante do mundo.
Celina ajeitou a mantinha que nem precisava ser ajeitada, enquanto Renato mostrava o porta-retrato para ela pela terceira vez. Os dois cochichavam alguma coisa que eu não conseguia ouvir direito e trocavam aqueles olhares cúmplices de quem passou uma vida inteira construindo uma história juntos.
Sorri observando a cena.
Tudo parecia tão certo.
Tão tranquilo.
Tão feliz.
Foi justamente por isso que pensei no meu avô.
Pensei no quanto ele teria gostado de estar ali.
Provavelmente estaria disputando espaço com Renato para segurar Humberto, fingindo que não, enquanto minha avó reclamava dos dois. A imagem surgiu tão viva na minha cabeça que por um instante quase consegui ouvi-lo rir.
Meu peito apertou.
Eu queria desejar feliz Dia dos Pais para ele também.
Queria vê-lo segurando o bisneto.
Queria ouvi-lo dizendo que Humberto tinha puxado alguma característica da família que só ele enxergaria.
Mas então outro pensamento veio logo atrás.
Meu pai.
A alegria daquele dia parecia deixar a ausência dele ainda mais evidente.
Olhei para Humberto dormindo no carrinho e senti um nó se formar na garganta. Eu tinha a idade dele quando meu pai morreu.
Três meses…
Era estranho pensar nisso agora que eu era mãe.
Antes aquilo sempre foi apenas uma informação. Uma história que me contavam. Uma tragédia distante que fazia parte da minha vida desde antes que eu pudesse me lembrar dela.
Mas agora...
Agora eu olhava para o meu filho e conseguia dimensionar o tamanho daquele tempo.
Três meses era tão pouco.
Tão absurdamente pouco.
Humberto ainda nem sabia engatinhar. Nem falar. Nem andar.
Ele ainda precisava de mim para tudo.
Eu não tinha nenhuma lembrança do meu pai.
Nenhuma.
Nem a voz.
Nem o rosto em movimento.
Nem o cheiro.
Nada.
Será que meu pai teria gostado de mim?
Será que teria gostado do Heitor?
Será que teria amado o neto?
Será que, em algum lugar, ele sabia quem eu me tornei?
A pergunta surgiu sem que eu pudesse impedir.
E logo depois veio outra.
Será que ele estaria decepcionado comigo?
Ou triste?
Ou arrependido?
Senti os olhos arderem.
Droga.
Não naquele momento.
Não hoje.
Apertei os lábios e tentei respirar fundo, mas a angústia continuou crescendo silenciosamente dentro do peito.
Foi então que senti um braço passar ao redor da minha cintura.
— Helê? — a voz de Heitor saiu baixa perto do meu ouvido. — O que foi, amor?
Encostei a cabeça em seu ombro por um segundo e o abracei pela cintura com força. Como se aquilo fosse suficiente para me manter inteira.
— Não é nada. — minha voz saiu mais fraca do que eu gostaria. — Só me emocionei um pouquinho.
Mentira.
Pelo jeito que Heitor me olhou, ele sabia.
Meu noivo me conhecia bem demais.
Ele me soltou apenas o suficiente para encontrar meus olhos e ficou me observando por alguns segundos.
Aquele olhar sempre me desmontava.
Porque não era insistente.
Não era invasivo.
Era apenas paciente.
Como se dissesse que ele esperaria o tempo que fosse necessário.
— Eu tô aqui, tá? — a voz saiu baixa. Só para mim. — Sempre vou estar. — passou o polegar pela minha mão. — Se alguma coisa estiver te incomodando, você sabe que pode dividir comigo.
Meu coração apertou de um jeito bom. Sorri e me estiquei na ponta dos pés para deixar um selinho em seus lábios.
— Eu te amo. — essa é a maior verdade que existe no meu coração. — Tá tudo bem.
Ele claramente não acreditou.
Mas aceitou.
Pelo menos por enquanto.
Um sorriso pequeno apareceu no canto da boca dele e, antes que pudesse responder, a campainha tocou.
Logo em seguida a porta se abriu.
— Isso é uma maluquice! — a voz de Jonas ecoou pela sala. — Eu fui expulso da minha própria casa!
Revirei os olhos imediatamente.
Pronto.
Fim do momento emocional.
Porque Jonas Medeiros tinha chegado.
Na verdade, eu não tinha expulsado ninguém. Só tinha dito que ele não precisava dormir ali na noite anterior e que poderia aparecer para o almoço com todo mundo. Eu simplesmente não queria meu irmão sentado à mesa enquanto preparava um café da manhã romântico para o meu noivo.
O que me parecia perfeitamente razoável.
Jonas entrou com os óculos escuros apoiados nos cabelos, uma expressão indignada no rosto e a energia de quem estava pronto para criar confusão em menos de cinco minutos.
— Olha ela ali! — apontou para mim. — Lelê!
Abriu os braços dramaticamente.
— Boa tarde! — depois apontou para Heitor. — Boa tarde pra você também.
— Fala, cara.
Heitor riu e estendeu a mão.
— Feliz Dia dos Pais. — Jonas deu um tapa amigável em suas costas. — A idade chega para todo mundo mesmo.
— Chegou para você? — Heitor arqueou uma sobrancelha. — Parabéns.
Jonas soltou uma gargalhada.
E, apesar de toda a implicância, acabou abraçando Heitor.
Aquilo sempre me fazia sorrir.
Porque Jonas gostava de agir como meu irmão mais velho, mas no fundo ainda enxergava Heitor como um irmão também.
Talvez nunca admitisse.
Mas eu sabia.
Quando me viu novamente, abriu os braços e me puxou para um abraço apertado.
— Nunca mais me expulsa de casa.
— Ah, é?
— Ainda sou menor de idade.
Afastei-me apenas o suficiente para olhar para ele.
— Só se for quinze anos em cada perna.
Jonas abriu um sorriso.
— Quase isso.
— Boa tarde, pessoal.
Virei o rosto em direção à porta.
Lorena.
Meu sorriso diminuiu um pouco sem que eu conseguisse evitar.
Logo atrás dela vinha Paulo.
Então era isso.
O momento tinha chegado.
— Eu queria ter vindo mais cedo, maninha — continuou Jonas, cruzando os braços. — Mas foi impossível tirar o Isaac daquele apartamento.
Meu coração apertou imediatamente.
Eu tinha tentado.
Mais de uma vez.
Queria que ele estivesse ali.
Queria vê-lo cercado de gente que o amava.
Mas, desde a prisão de Ana Alice, Isaac parecia carregar um peso cada vez maior nos ombros. Aquilo me machucava. Porque, acima de tudo, ele era meu irmão e tudo o que eu queria era vê-lo feliz outra vez.
Lorena entrou primeiro e, como sempre acontecia, a primeira coisa que me atingiu foi o quanto nós duas parecíamos uma versão mais jovem e mais velha da mesma pessoa. O mesmo formato do rosto, dos olhos e do nariz, as sardas nas bochechas, até algumas expressões pareciam ter sido copiadas. Durante muito tempo aquilo me irritou. Hoje só me deixava desconfortável.
Ela me encontrou imediatamente com o olhar. Havia algo ali que eu nunca soube nomear direito. Não era pena. Não era culpa. Era uma espécie de esperança silenciosa, como se cada encontro fosse uma nova tentativa de encontrar algum espaço dentro da minha vida.
Não éramos próximas. Talvez nunca fôssemos. Mas também não éramos mais estranhas. E isso já era muito mais do que eu imaginei que seria um dia.
— Oi, Lorena.
Ela sorriu daquele jeito cuidadoso que sempre usava comigo.
— Oi, filha.
Meu peito apertou. Porque, por mais complicada que fosse nossa história, eu sabia que aquela palavra era sincera. E, eu também sabia que minhas mágoas eram sinceras. As duas coisas podiam existir ao mesmo tempo.
Antes que eu encontrasse qualquer coisa para responder, Paulo soltou a mão dela e se aproximou. E foi impossível não notar como o ambiente mudava quando ele chegava. Talvez fosse o hábito de lidar com pessoas. Talvez fosse o cargo. Talvez fosse simplesmente porque Paulo tinha aquele tipo raro de carisma que fazia qualquer conversa parecer mais leve.
Ele abriu um sorriso enorme ao me ver. Um sorriso genuíno.
— Helena! Você está linda.
Meu rosto aqueceu imediatamente.
Aquilo era outra coisa que eu ainda não sabia lidar.
O carinho dele.
Porque Paulo nunca tinha me tratado como obrigação. Nunca tinha me tratado como a filha da esposa dele. Ele sempre me tratou como filha dele.
— Tudo bem com você?
Olhei para Heitor quase por reflexo. Ele já estava sorrindo. A mão dele deslizou para a minha lombar e me empurrou suavemente para frente, num gesto tão pequeno que provavelmente ninguém mais percebeu.
Era o jeito dele dizer: vai.
Engoli em seco.
Porque a ideia tinha sido minha. Mesmo assim, de repente, eu estava nervosa.
— Oi...
Foi tudo o que consegui dizer, então me aproximei e o abracei.
Por um instante senti Paulo ficar imóvel, claramente surpreso. Não foi uma reação grande. Foi só aquele pequeno instante de incredulidade que dura menos de um segundo.
Depois os braços dele me envolveram, calorosos e familiares. Aquilo me pegou desprevenida.
Porque me lembrou do meu avô.
Não do abraço em si, mas da sensação. Daquele jeito de fazer alguém se sentir protegido sem dizer uma única palavra. Quando nos afastamos, o sorriso dele continuava ali.
Mas havia algo diferente em seus olhos, algo mais brilhante e mais emocionado.
— Tudo bem, filha?
A pergunta saiu baixa, carinhosa. Como sempre era.
— Tudo bem.
Sorri.
— E com você?
— Eu estou excelentemente bem.
Acabei rindo.
Era uma resposta tão Paulo que poderia facilmente estar em um discurso de campanha.
Ele riu junto.
E, por um instante, tudo pareceu simples. Então meus olhos encontraram os de Heitor do outro lado da sala. Ele estava conversando com Lorena, mas prestava atenção em mim ao mesmo tempo. Quando percebeu que eu o observava, fez um movimento discreto com a cabeça.
O combinado.
Meu coração acelerou imediatamente. Nós tínhamos conversado sobre aquilo. Eu falaria com Paulo.
Sem fugir.
Sem adiar.
Sem fingir que não era importante.
Olhei para minhas próprias mãos por um instante e inspirei devagar. Levantei os olhos novamente.
— Paulo... eu preciso falar com você.
Ele arqueou as sobrancelhas, curioso.
— Claro.
— Em particular.
O sorriso dele diminuiu um pouco. Não por preocupação, mas por atenção. Como alguém que percebe imediatamente quando uma conversa importa.
— Podemos ir ali?
— Claro que podemos.
Assenti e comecei a caminhar em direção à varanda da sala. Mas, quando chegamos lá, imediatamente perdi a coragem.
Que ótimo.
Passei a manhã inteira do dia anterior pensando naquela conversa, combinei tudo com o Heitor, ensaiei mentalmente umas cinquenta vezes e, agora que finalmente estava ali, parecia que tinha esquecido como falar.
Paulo percebeu na mesma hora.
— Aconteceu alguma coisa? — perguntou com calma.
Balancei a cabeça rapidamente.
— Não. Quer dizer... não aconteceu.
Soltei uma risada nervosa.
— Eu estou tornando isso muito mais difícil do que deveria.
O sorriso dele apareceu de leve.
— Sem pressa.
Aquilo só me deixou mais nervosa.
Cruzei os braços, descruzei, mexi na pulseira que ele me deu, olhei para a varanda, para o jardim, para qualquer lugar que não fosse diretamente para ele.
— Sabe… — respirei fundo. — Você sempre foi muito bom comigo.
Paulo ficou em silêncio.
— Desde o começo. — engoli em seco. — E eu sei que talvez eu nunca tenha facilitado as coisas.
Talvez?
Quase ri.
Eu definitivamente não tinha facilitado.
— Mas você sempre esteve ali. — olhei para ele. — Sempre.
A expressão dele mudou um pouco. Mais séria. Mais atenta.
— E isso significa muito para mim. — minha garganta apertou. — Mais do que eu consigo explicar.
Baixei os olhos por alguns segundos.
Aquilo ainda era difícil.
Muito difícil.
— Eu não me lembro do meu pai. — s frase saiu mais baixa do que eu pretendia. — Nada.
Passei o polegar sobre a própria mão.
— Eu queria lembrar. Eu queria muito me lembrar, de verdade. Nem que fosse da voz. Nem que fosse de alguma coisa pequena. Mas não tenho nada. Absolutamente nada.
O silêncio entre nós se prolongou.
Não era desconfortável. Mas era pesado.
— E meu avô...
Sorri sem perceber. Só de falar nele.
— Meu avô foi tudo. Ele me criou. Me protegeu. Me ensinou tudo. Quando eu penso em pai, é nele que eu penso. Quando eu penso em amor, é nele que eu penso. Quando eu penso em segurança...
Minha voz falhou.
— Também é nele.
Vi Paulo respirar fundo.
Como se já entendesse para onde aquela conversa estava caminhando. Mas não me interrompeu.
— E talvez seja por isso que eu fiquei tão confusa quando você apareceu.
Confusa era uma palavra educada. A verdade era que eu tinha ficado assustada.
— Porque eu não estava procurando ninguém. Não estava procurando uma mãe. Não estava procurando um pai. Eu já tinha aprendido a viver sem isso. Pelo menos era o que eu achava.
Senti os olhos arderem.
Droga.
— Só que aí você começou a aparecer. — uma risada sem humor escapou de mim. — E começou a se importar.
Olhei para ele.
— E isso era muito injusto da sua parte.
Aquilo arrancou uma risada dele, pequena e emocionada.
— Injusto?
— Muito. — assenti. — Porque eu queria continuar brava. Queria continuar dizendo para mim mesma que não precisava de ninguém. Mas você não colaborava.
Os olhos dele ficaram brilhantes. E os meus também.
— Você sempre me tratou com carinho. Sempre. Mesmo quando eu não merecia. Mesmo quando eu era grossa. Mesmo quando eu fazia questão de manter distância.
Minha voz começou a falhar novamente.
— E a verdade é que...
Parei.
Respirei fundo.
Tentei outra vez.
— A verdade é que eu gosto muito de você, Paulo.
O silêncio que veio depois pareceu enorme.
— Muito.
Passei rapidamente a mão pelos olhos.
— E isso me assusta um pouco. Porque eu amo o meu pai. Mesmo sem lembrar dele. Eu amo o meu avô. E às vezes eu fico com medo de estar traindo os dois. De estar ocupando um lugar que não deveria ser ocupado.
Pela primeira vez, vi dor nos olhos dele.
Uma dor tranquila.
Madura.
Daquelas que já aprenderam a existir. Mas não desaparecem. E foi aí que ele deu um passo na minha direção. Só um. O suficiente para que eu percebesse que ele também estava emocionado.
Muito.
— Eu sei que é estranho... — minha voz saiu falhando um pouco. — E tem alguma coisa em mim que... quando eu estou com você...
As palavras pareciam pequenas demais para explicar o que eu sentia.
Parei.
Respirei fundo.
Meu Deus.
Por que aquilo era tão difícil?
— Eu me sinto segura.
Os olhos dele não saíam dos meus.
— E às vezes... eu sinto como se você fosse meu pai.
O silêncio que veio depois foi tão absoluto que consegui ouvir o barulho distante das conversas dentro da casa.
Paulo não respondeu imediatamente.
Ele apenas ficou me olhando.
Como se tivesse certeza de que tinha escutado errado.
Como se estivesse com medo de acreditar.
Então fechou os olhos.
Só por um instante.
Quando voltou a abri-los, estavam cheios de lágrimas.
Meu coração apertou.
— Meu Deus… — a voz dele saiu quase num sussurro.
Ele soltou uma risada trêmula e passou a mão pelo rosto. Tentando recuperar a compostura. Fracassando completamente.
— Você passou trinta anos sem saber quem eu era… — a voz falhou. — E eu passei trinta anos querendo ouvir alguma coisa parecida com isso.
Senti meus olhos arderem novamente.
Paulo deu mais um passo na minha direção.
A mão dele alcançou meu rosto com cuidado, quase como se eu pudesse desaparecer se ele fosse brusco demais.
— Helena...
Ele sorriu. Mas era um sorriso triste. Emocionado.
— Se existe uma coisa da qual eu me arrependo nesta vida, é de não ter podido estar lá.
Engoli em seco.
— Não pude te ensinar a andar de bicicleta. Não pude te levar para a escola. Não pude te buscar quando você caiu e machucou o joelho. Não pude espantar os monstros debaixo da cama quando você era pequena.
Os olhos dele ficaram ainda mais vermelhos.
— Eu não estive presente em nenhum dos momentos em que um pai deveria estar.
Uma lágrima escorreu pelo rosto dele.
E aquilo me destruiu.
Porque Paulo não estava falando como governador.
Não estava falando como político.
Nem como marido da minha mãe.
Estava falando como um homem que realmente lamentava ter perdido aqueles anos.
— Mas, mesmo assim… — ele respirou fundo. — Mesmo assim você está aqui.
A voz dele quase quebrou.
— E está me dizendo isso.
Meu peito apertou tanto que chegou a doer.
— Então acho que hoje é um dos dias mais felizes da minha vida. — ele sorriu através das lágrimas. — E por coincidência…
Soltou uma pequena risada.
— É Dia dos Pais.
Eu ri também.
Entre lágrimas.
Entre soluços.
Entre tudo.
Naquele momento que percebi que não estava mais com medo. Nem do meu pai. Nem do meu avô. Porque amar Paulo não diminuía o amor que eu sentia por eles.
Não roubava nada deles.
Talvez eles tivessem me ensinado a reconhecer amor quando o encontrasse.
A pergunta saiu antes que eu pudesse pensar melhor.
Talvez porque estivesse guardada dentro de mim há tempo demais.
— Paulo...
Minha voz tremia.
— Eu posso ser sua filha?
Vi o mundo parar diante dos meus olhos.
Literalmente.
Paulo ficou imóvel.
Completamente imóvel.
Os olhos se arregalaram devagar, como se aquela pergunta fosse grande demais para ser compreendida de uma vez só.
Então ele desviou o olhar. Passou a mão pelos olhos. Pelo rosto.Respirou fundo. Tentou se recompor.
Tentou.
Mas era impossível.
— Você realmente escolheu acabar comigo hoje, não foi?
Acabei soltando uma risada molhada.
Ele balançou a cabeça, sorrindo.
— Logo hoje… — a voz saiu rouca. — No Dia dos Pais.
Ficamos alguns segundos sem falar nada.
Nenhum dos dois parecia capaz de continuar.
Foi Paulo quem conseguiu primeiro.
— Sabe qual é a verdade?
Balancei a cabeça.
Ele segurou minhas mãos.
As duas.
Com força.
Como se tivesse medo de que aquilo desaparecesse.
— Eu nunca soube se tinha esse direito.
Minha garganta apertou.
— Eu sabia que amava você. — a resposta veio sem hesitação. — Desde o momento em que soube que você existia. — os olhos dele voltaram a se encher. — Mas amar você e ser seu pai eram coisas diferentes.
Ele sorriu.
Triste.
Carinhoso.
— Essa escolha nunca poderia ser minha.
Eu senti as lágrimas voltarem.
Porque ele estava certo.
Sempre esteve.
— Então eu esperei.
— Trinta anos?
A pergunta escapou dos meus lábios.
— Trinta anos.
Não houve sequer um segundo de dúvida.
— E quando você apareceu na minha vida, eu prometi a mim mesmo que não pediria nada.
Apertou minhas mãos.
— Nem espaço. Nem carinho. Nem reconhecimento. — a voz dele ficou mais baixa. — Porque eu já era feliz só por finalmente poder conhecer você.
Meu coração quase explodiu dentro do peito.
Paulo sorriu através das lágrimas.
— Mas agora você está aqui… — ele balançou a cabeça. Ainda incrédulo. — Olhando para mim e perguntando se pode ser minha filha.
Soltou uma risada emocionada.
— Minha querida… — a voz falhou completamente. — Você não faz ideia do que isso significa para mim.
As lágrimas escorriam livremente agora.
Sem qualquer tentativa de esconder.
— Se você me permitir… — ele levou a mão ao meu rosto. — Eu vou ser seu pai pelo resto da minha vida.
Minha visão ficou embaçada.
— Não para substituir o homem que lhe deu a vida. — o polegar dele enxugou uma lágrima da minha bochecha. — Nem para ocupar o lugar do seu avô.
Sorriu.
— Porque ninguém poderia. — acariciou meu rosto mais uma vez. — Mas para caminhar ao seu lado. Para cuidar de você. Para estar presente. Para amar você do jeito que um pai ama uma filha.
Eu já estava chorando novamente quando ele terminou.
— Então a resposta é sim.
A voz dele quebrou. Dessa vez de verdade.
— Sim, mil vezes sim.
Ele me puxou para um abraço tão apertado que comecei a chorar contra seu ombro.
E, quando senti os braços dele me envolvendo, tive a estranha sensação de que alguma coisa dentro de mim finalmente tinha encontrado o lugar ao qual pertencia.
Ficamos ali por um longo tempo.
Não faço ideia de quanto.
Só sei que, em algum momento, ouvi a voz dele junto ao meu ouvido.
Baixa.
Emocionada.
Cheia de amor.
— Você não imagina quantas vezes eu sonhei em ouvir essa pergunta.
Ele me apertou mais uma vez.
E então sussurrou:
— Obrigado, minha filha.
Dessa vez, a palavra não ficou presa entre o que poderia ter sido e o que nunca aconteceu.
Pela primeira vez, ela era real.
Paulo sorriu para mim. Os olhos ainda estavam vermelhos, o rosto levemente molhado e havia algo quase desarmado em sua expressão. Eu não estava acostumada a vê-lo assim. O governador, o candidato à presidência, o homem que parecia sempre ter uma resposta pronta para tudo, naquele momento parecia apenas... meu pai.
A ideia me aqueceu por dentro.
— Me desculpe. — Ele soltou uma risada sem jeito enquanto tirava um lenço do bolso. — Eu não costumo me emocionar tanto assim.
— Mentira.
Paulo arqueou uma sobrancelha.
— Mentira?
— Mentira. Você só é muito bom em esconder.
Aquilo arrancou uma gargalhada dele.
— Talvez.
Ele me entregou o lenço.
— Limpa esse rostinho.
Peguei o lenço e obedeci, embora não estivesse em condição de zombar da aparência de ninguém.
— E você?
Paulo já estava passando discretamente a parte interna do paletó pelos olhos.
— Eu estou ótimo.
— Claro que está.
— Estou mesmo.
— Paulo...
— Helena...
Acabei rindo.
Ele balançou a cabeça, rendido.
— Só preciso de alguns segundos para recuperar a dignidade.
— Acho que nós dois perdemos ela nessa conversa.
O clima finalmente começou a ficar mais leve.
Foi então que me lembrei da caixa.
Fui até uma das poltronas da varanda e retirei a almofada que estava em cima dela.
— Quase esqueço.
Paulo me olhou curioso.
— O que é isso?
— Seu presente. — levantei a caixa. — Cortesia minha, do Heitor e do Humbertinho.
Os olhos dele brilharam imediatamente.
— Eu adoro presentes.
Paulo abriu a embalagem com rapidez e, quando viu o conteúdo, abriu um sorriso genuíno.
— Abotoaduras! — pegou a caixa com cuidado. — Helena, eu estava precisando mesmo.
Olhou para mim, surpreso.
— Como você sabia?
— Eu não sabia. — dei de ombros. — Mas imaginei que um homem que usa mais ternos do que roupas normais acabaria gostando.
Ele riu.
Sem perder tempo, retirou as abotoaduras que estava usando e começou a colocar as novas.
— Já vou estrear meu presente.
Observei enquanto ele ajeitava os punhos do paletó.
— Ficaram bonitas.
— Ficaram perfeitas.
Paulo guardou as antigas no bolso interno do paletó e admirou as novas por mais alguns segundos.
— Eu gostei de verdade. — o sorriso dele suavizou. — Obrigado, filha.
Meu coração deu um pulinho tão ridículo que precisei desviar o olhar por um instante.
Eu nunca iria me acostumar com aquilo.
Nem queria.
— Fico feliz que tenha gostado.
Meu celular vibrou no bolso.
Quando o peguei, encontrei uma mensagem de Jonas.
Jonas:
"Maninha, cadê você? O Heitor tá segurando todo mundo na sala e eu tô morrendo de fome. Não era um almoço?"
Não consegui segurar a risada.
Helena:
"Já tô indo."
Guardei o celular novamente.
— Estamos oficialmente sendo solicitados.
— Pelo Jonas?
— Pelo estômago do Jonas.
— Ah.
Paulo assentiu.
— Então a situação é grave.
— Gravíssima.
Ele ofereceu o braço de forma exageradamente elegante.
— Vamos?
— Vamos.
Começamos a caminhar de volta para dentro da casa.
— Ainda bem que usamos as panelas de barro e deixamos tudo aquecendo.
— Concordo.
— Senão, a essa altura, o almoço já teria virado jantar.
— E eu ouvi dizer que você cozinha muito bem.
Olhei para ele.
— Ouviu de quem?
— Do Renato e da Celina.
— Ah.
— Eles falaram com tanto orgulho que fiquei com expectativas altíssimas.
Ri.
— Espero não decepcionar então.
— Impossível.
Entramos na sala e imediatamente senti todos os olhares se voltarem para nós.
Meu rosto esquentou na hora.
Será que estava tão óbvio assim?
A primeira pessoa que procurei foi Humberto.
Ele já estava acordado e acomodado tranquilamente no colo de Renato, observando tudo com aquela expressão curiosa de quem acreditava estar participando de uma reunião extremamente importante.
Meu coração derreteu.
Então encontrei Isaac. Sentado um pouco mais afastado, quieto. A expressão abatida fez meu peito apertar. Trocamos apenas um sorriso pequeno. Mas suficiente para eu perceber que ele ainda estava sofrendo. E aquilo me partia o coração. Porque, acima de tudo, Isaac era meu irmão.
— Então, bora comer, pessoal! — anunciou Heitor.
Imediatamente o clima da sala mudou.
Ele veio na minha direção e, assim que chegou perto, inclinou-se discretamente para falar no meu ouvido.
— Pela cara sorridente de vocês dois...
Olhei para ele.
— Hum?
— Acho que a conversa foi ótima.
Aquele sorriso fofoqueiro apareceu.
— Me conta tudo.
Revirei os olhos.
— Depois.
— Depois quando?
— Depois do almoço.
— Será que eu aguento esperar?
Como se o universo tivesse decidido responder por mim, a barriga dele roncou alto.
Muito alto.
Eu comecei a rir na mesma hora.
— Pelo jeito vai.
Heitor suspirou dramaticamente e seguimos para o almoço.
Tenho que admitir que o almoço ficou muito melhor do que eu imaginava.
Todo mundo comeu bastante. Na verdade, comeu até demais.
Eu ainda não tinha decidido quem repetiu mais vezes, se Jonas ou Heitor. Mas, pensando bem, vou declarar oficialmente a vitória do Heitor. Se eu disser o contrário, ele vai ficar emburrado o resto da semana.
Humberto ficou boa parte do almoço no carrinho, observando todo mundo com aqueles olhos curiosos. De vez em quando tirava a chupeta da boca só para balbuciar alguma coisa e chamar atenção. Funcionava todas as vezes.
Depois que terminamos de comer, a mesa foi sendo abandonada aos poucos e todo mundo acabou migrando para a varanda. Alguns levaram bebidas, outros sobremesa. Em poucos minutos a conversa virou aquela bagunça gostosa de família grande, onde três assuntos diferentes acontecem ao mesmo tempo e ninguém parece se incomodar.
Eu estava sentada ao lado de Heitor, encostada nele, ouvindo alguma história absurda que Jonas contava, quando Isaac se aproximou.
— Helena, você pode ir comigo até a cozinha pegar mais doce?
Levantei os olhos para ele.
— Claro.
Dei um selinho em Heitor e me levantei. Meu noivo imediatamente estreitou os olhos.
— Mais doce?
— Mais doce. — afirmei.
— Eu também quero.
— Você já comeu doce por três pessoas.
— Eu contei apenas para duas. — Heitor disse com seriedade.
Acabei rindo e segui Isaac antes que Heitor começasse uma discussão séria sobre seu direito constitucional à sobremesa.
O mais engraçado era que Humberto nem percebeu que eu estava saindo. Havia tantas pessoas em volta dele que, pela primeira vez na vida, meu filho parecia ter me esquecido por alguns minutos.
Seguimos até a cozinha em silêncio.
Foi só quando entramos que percebi como Isaac parecia cansado. As olheiras estavam profundas. O rosto abatido. E aquele brilho tranquilo que ele normalmente carregava parecia ter desaparecido. Meu coração apertou imediatamente.
— Zac…
Ele levantou os olhos.
— Tá tudo bem com você?
Isaac ficou alguns segundos em silêncio. Então abaixou a cabeça. Quando voltou a me olhar, havia tanta culpa em seus olhos que meu estômago afundou.
— Eu sei que a gente já conversou sobre isso. — a voz dele saiu baixa. — Mas eu precisava te falar pessoalmente.
Meu coração apertou ainda mais.
— Me perdoa.
Franzi a testa.
— Pelo quê?
— Por tudo. — a voz falhou. — De verdade.
Aquilo saiu quase como uma súplica.
— Zac...
— Eu fui quem trouxe a Ana Alice para perto de todo mundo.
Balancei a cabeça imediatamente.
— Não.
— Fui sim.
— Não foi.
— Foi.
Dei um passo na direção dele.
— Isaac, para.
Ele passou a mão pelo rosto. Frustrado. Cansado.
— Se eu não tivesse insistido tanto nela, nada disso teria acontecido.
— E se eu tivesse colocado ela no lugar dela anos atrás, talvez também não tivesse acontecido.
Ele soltou uma risada sem humor.
— Não faz isso.
— Faço.
— Não tenta pegar a culpa para você.
Cruzei os braços.
— Então você também não pega para você.
Isaac me encarou por alguns segundos. Foi aí que percebi o quanto ele parecia jovem. Não porque fosse imaturo. Mas porque estava sofrendo. Era o primeiro amor dele. A primeira vez que alguém quebrava seu coração daquela forma. A primeira vez que ele descobria que amar alguém não impedia essa pessoa de machucar você.
— A culpa é da Ana Alice. — minha voz saiu firme. — Só dela.
— Eu devia ter visto.
— Não.
— Devia.
— Não.
Ele suspirou. E pela primeira vez pareceu desistir da discussão.
— Tá bom.
Observei seu rosto por alguns segundos.
— Você está comendo direito?
— Estou.
— Dormindo?
— Estou.
— Mentira.
Aquilo arrancou um sorriso cansado dele. Pequeno. Mas real.
— Não parece?
— Nem um pouco.
Isaac passou a mão na nuca.
— Essa semana foi complicada.
— Quanto você trabalhou?
— Teve dia que deu quatorze horas.
Parei de andar.
— Quatorze horas?
— É normal.
— Em que universo isso é normal?
— No mercado financeiro.
Fiz uma careta.
— Eu odeio o mercado financeiro.
— Você trabalha quase que com finanças.
— Exatamente por isso.
Aquilo arrancou outra risada dele. Pelo menos um pouco da tristeza parecia ter diminuído.
— Olha… — pensei por alguns segundos. — Por que você não vem morar aqui um tempo?
Isaac arqueou uma sobrancelha.
— Aqui?
— Tem quarto sobrando. Tem espaço. Tem comida. Tem gente. E eu sinto falta de assistir filme com você.
O sorriso dele aumentou.
— Eu também sinto falta.
— Então pronto.
— Lelê...
— Vem.
— Meu apartamento fica do lado do banco.
— E daí?
— Eu levaria duas horas para chegar ao trabalho.
— Não tem problema.
Isaac riu. Daquela vez de verdade.
— Você não desiste.
— Nunca.
Ele balançou a cabeça.
— Eu agradeço. De verdade. Mas não preciso.
Fiquei alguns segundos observando seu rosto. Então perguntei baixinho:
— Vocês conversaram?
O sorriso desapareceu. Isaac negou com a cabeça.
— Não. — olhou para o chão. — Desde o término, não.
Assenti devagar. Eu sabia que ele ainda se importava. Qualquer pessoa que o conhecesse saberia. Mesmo depois de tudo. Mesmo depois da prisão. Mesmo depois das mentiras. Era impossível desligar um sentimento assim de um dia para o outro. Especialmente quando era o primeiro amor.
— Talvez seja melhor assim.
Ele não respondeu.
— Ana Alice fez coisas horríveis, Zac.
— Eu sei.
— E você merece coisa melhor.
O silêncio durou alguns segundos. Então me inclinei na direção dele.
— Quer saber um segredo?
Ele arqueou uma sobrancelha.
— Qual?
Sorri.
— Existem muitas mulheres no mundo.
Isaac soltou uma risada. Uma risada de verdade. A primeira que ouvi dele naquele dia.
— Vou ficar um tempo longe de relacionamentos.
— Tá com medo?
— Muito. — ele balançou a cabeça. — Vou focar no trabalho.
— Cuidado com isso.
— Por quê?
— Porque você já tá trabalhando quatorze horas por dia. Daqui a pouco vai casar com o banco.
— Pelo menos o banco não vai ser preso.
— ISAAC!
Ele começou a rir e eu também. Por alguns segundos, parecia o meu irmão de sempre. Então ele me abraçou.
— Obrigado, Lelê.
Passei os braços ao redor dele.
— Eu faria qualquer coisa por você. — falei enquanto o apertada.
— Eu vou ficar bem.
— Eu sei.
E eu realmente queria acreditar nisso.
Meu celular vibrou na minha mão. Olhei para a tela e arregalei os olhos.
— É a minha avó.
Isaac sorriu.
— Então atende logo.
— Já volto.
— Manda um abraço pra ela por mim.
— Pode deixar.
Saí da cozinha e caminhei até o pergolado próximo à casa. O movimento da varanda ficou distante e, pela primeira vez desde o almoço, encontrei um pouco de silêncio.
Sentei-me em uma das poltronas e atendi a chamada de vídeo.
O rosto da minha avó apareceu tão perto da câmera que eu só conseguia ver metade da testa e um olho.
Automaticamente comecei a sorrir.
— Oi, vó!
— Ôh, minha fia! Boa tarde!
A voz dela saiu animada.
— Cê tá boa?
— Tô sim. E a senhora?
— Tô boa também, graças a Deus.
Ela ajeitou o celular.
— E aí? Como foi o almoço?
— Foi ótimo. — sorri. — Todo mundo gostou.
— Eu sabia que ia dá certo.
— Eu e o Heitor acertamos o tempero.
— Uai, eu falei que cês davam conta. — ela abriu um sorriso orgulhoso. — E o café da manhã? O rapaz gostou?
Acabei rindo.
— Gostou demais. Acho que ele comeu por três pessoas.
— Tem que alimentá bem esse homem.
Minha avó apontou o dedo para a câmera.
— Num deixa ele passá fome não.
— Pode deixar.
— Homem grande daquele tamanho precisa de sustança.
Ri balançando a cabeça.
— E a viagem? Tá gostando?
Na mesma hora ela virou o celular. A imagem começou a balançar para todos os lados.
Árvores.
Céu.
Uma parte da própria testa.
Mais céu.
— Tá lindo aqui, minha fia!
A voz dela saiu mais alta.
— Tá vendo essas flor tudo?
— Tô tentando!
— E as borboleta?
— Vó, a senhora tá filmando uma nuvem.
— Uai.
A câmera girou novamente.
— Agora tá?
— Agora tá.
— Deixa eu ver a Helena.
Reconheci a voz imediatamente. Alguns segundos depois o rosto do Afonso apareceu.
— Oi, Helena.
— Oi, senhor Afonso. — sorri gentilmente. — Feliz Dia dos Pais.
Ele abriu um sorriso.
— Tá certo. — assentiu. — Obrigado.
Olhou ao redor.
— Cadê o Heitor?
— Tá na varanda com o Renato.
— Depois ele me liga.
— Pode deixar.
Observei os dois por alguns segundos.
— E vocês? Estão se divertindo?
— Muito.
O sorriso dele aumentou.
— Andei de bondinho hoje.
— E quase caiu! — a voz da minha avó surgiu ao fundo.
— Calúnia.
— Eu vi.
— Não caiu nada.
— Quase caiu.
Acabei rindo. Afonso então virou a câmera para os dois.
— Chega mais pra cá.
— Pra quê?
— Pra ela ver nós dois.
Minha avó se aproximou.
Muito.
Próxima demais. Meu olho deu uma leve contraída.
— A câmera pega de longe, sabia? — tentei parecer casual. — Vocês não precisam ficar tão colados assim.
— Aqui tá frio, minha fia.
— Frio nada.
— Tá sim.
— Frio mesmo é na Europa.
Afonso passou o braço pelos ombros dela de maneira completamente natural.
— Depois eu te mostro.
Eu pisquei.
— Como é que é? — falei incrédula.
— Europa.
— Europa?
— Claro.
— Afonso… — chamei.
— O quê?
— Vamos devagar. — fui tentando falar.
Ele me ignorou completamente.
— Você vai adorar, Olívia.
Minha avó abriu os olhos.
— Será que eu posso mesmo?
— Claro que pode.
— Mas é longe demais!
— Melhor ainda.
— Eu nunca saí do Brasil.
— Então tá na hora.
Eu já estava começando a ficar preocupada.
— Gente… — tentei novamente.
— Além disso, no final do ano nós vamos esquiar em Courchevel.
— O quê?
— Courchevel.
— O quê é isso?
— França.
— França?!
Minha avó parecia dividida entre o pânico e a felicidade.
— Eu nunca nem vi neve.
— Vai ver.
— Afonso!
— Vai ser divertido.
— Eu posso quebrar uma perna!
— Aí a gente vai pro spa.
— Spa?
— Tem massagem.
— Ah...
A reação dela mudou imediatamente.
— Massagem é bom.
— Tá vendo?
— Gente! — tentei chamar atenção. — Gente!
Ninguém me ouviu.
— E a Helena vai também? — minha avó perguntou.
— Claro que vai.
— Ah bom.
Respirei aliviada.
— Ano passado a gente não conseguiu viajar por causa de tudo que aconteceu.
— É verdade.
— Então esse ano vamos compensar.
Afonso abaixou o celular para mostrar alguma coisa. Minha avó se inclinou junto. Os dois começaram uma conversa paralela.
— Tem aquele restaurante também.
— Aquele da sopa?
— Esse mesmo.
— Ah, eu gostei daquele.
— Então voltamos lá.
— E o bondinho?
— Amanhã.
— E a Helena?
— Ela vem outro dia.
— Eu gostei daquelas flor.
— Amanhã te mostro mais.
Fiquei alguns segundos olhando para a tela. Esperando. Ninguém voltou. Nem perceberam que eu ainda estava ali. Cruzei os braços.
— Certo.
Nada.
— Tá bom então.
Continuaram conversando.
— Perfeito.
Desliguei a chamada. Fiquei olhando para a tela escura por alguns segundos.
Estava tão ocupada tentando me convencer de que minha avó e o Afonso eram apenas amigos que quase não ouvi os passos se aproximando.
Só percebi quando Mel apareceu primeiro.
A golden veio trotando pelo jardim e imediatamente encostou a cabeça na minha perna, exigindo carinho. Passei os dedos por trás da orelha dela automaticamente.
Logo atrás vinha Heitor. As mãos nos bolsos. Aquele sorriso suspeito estampado no rosto.
Nunca era um bom sinal.
— Helê, o que você tá fazendo aqui sozinha?
Suspirei.
— Eu estava tentando conversar com a minha avó.
— E?
— E o Afonso roubou a atenção dela.
Heitor mordeu o canto da boca para segurar o sorriso. Aquilo só me deixou mais desconfiada.
— O quê?
— Nada.
— Heitor.
— Nada.
— Monteiro.
Ele finalmente perdeu a luta contra o próprio sorriso.
— Deixa os dois.
Revirei os olhos.
— São só amigos.
— Claro que são.
— São mesmo.
— Eu concordei.
— Mas você tá com essa cara.
— Que cara?
— Essa cara.
Ele começou a rir.
— Seu avô pediu pra eu ligar pra ele mais tarde. — falei.
— Ligo depois. Agora ele tá ocupado.
— Ocupado fazendo o quê?
Heitor fingiu pensar.
— Sei lá. — ele deu de ombros. — No encontro dele.
— HEITOR!
Ele gargalhou. Daquelas gargalhadas sinceras que faziam seus ombros balançarem.
Mel levantou a cabeça e olhou para nós dois como se tentasse entender o motivo da discussão.
— Você inventa cada coisa.
— Eu não invento.
— Inventa sim.
Ele levantou as mãos em rendição. Mas continuava rindo.
— Vem, vamos voltar para dentro.
Acabei me levantando da poltrona e Heitor entrelaçou os dedos nos meus enquanto caminhávamos de volta para a casa. Mel veio atrás de nós, balançando o rabo, claramente satisfeita por ter encontrado companhia. No caminho eu contei sobre a minha conversa com o Paulo e com o Isaac para ele.
O restante da tarde passou de um jeito que eu gostaria de guardar em um potinho.
Depois de tanta emoção, tanta comida e tantas conversas, acabamos fazendo uma das coisas favoritas da família Monteiro: jogar Banco Imobiliário.
Era praticamente uma tradição.
Antes mesmo de eu entrar para a família, eles já tinham o hábito de separar uma noite da semana para se divertirem juntos. Ultimamente, com Humberto, trabalho, campanhas políticas e todos os problemas que pareciam surgir um atrás do outro, fazia tempo que não conseguíamos repetir aquilo.
Mas naquele dia conseguimos.
E foi maravilhoso.
Lorena estava naquele ditado “o importante é competir”.
Paulo ficou quase toda a partida na cadeia.
Isaac era o “banco”.
Jonas passou metade da partida tentando roubar dinheiro do banco, foi divertido o ver discutindo com o Isaac.
Heitor jurava que estava sendo tendo uma maré de má sorte.
Renato ficou indignado quando caiu pela terceira vez em uma propriedade da Celina.
E Celina...
Bem.
Celina simplesmente destruiu todos nós.
A mulher tinha uma sorte absurda nos dados.
No final da partida, ela estava sorrindo como uma rainha observando o próprio império.
— Isso é suspeito. — reclamou Heitor pela quinta vez.
— Chama-se talento. — respondeu Celina, elegantemente.
— Chama-se pacto com forças ocultas.
— Heitor!
— Eu só estou falando o que todos estamos pensando.
Ninguém estava pensando aquilo.
Mas todos riram mesmo assim.
Quando o sol começou a se pôr, a despedida veio aos poucos.
Lorena e Paulo foram os primeiros a sair. Depois Isaac. O Jonas simplesmente anunciou que continuaria ali e correu escada acima antes que alguém pudesse argumentar.
No fim, ninguém teve energia para discutir.
Os últimos a se despedirem foram Renato e Celina.
Já estávamos próximos da porta quando Renato parou de repente.
Como se tivesse se lembrado de alguma coisa.
— Heitor.
Meu noivo se virou.
— Oi, pai?
Renato levou a mão ao bolso interno do casaco. Por algum motivo, seu semblante havia mudado. Estava mais sério. Mais quieto.
Ele retirou um envelope, velho. Muito velho.
O papel estava amarelado pelo tempo e os cantos apresentavam pequenas marcas de desgaste.
Renato o entregou ao filho.
Heitor pegou o envelope sem entender.
— O que é isso?
Meu sogro sorriu. Um sorriso pequeno. Quase tímido.
— Meu presente para você.
Heitor olhou para o envelope. Depois para o pai.
— Um envelope?
— O verdadeiro presente. — a voz de Renato saiu mais baixa.Mais emocionada. — Feliz Dia dos Pais, filho.
Antes que Heitor pudesse perguntar qualquer coisa, Renato o puxou para um abraço. Um abraço firme. Demorado. Daqueles que dizem muito mais do que as palavras.
Eu vi algo passar pelos olhos dos dois naquele momento.
Algo que não consegui identificar.
Mas senti que era importante.
Quando se afastaram, Renato apenas deu um tapinha em seu ombro.
Como se não confiasse na própria voz para continuar falando.
— Depois você lê.
Heitor ainda parecia confuso.
— Tá certo...
Sorriu.
— Obrigado, pai.
Renato assentiu.
Então entrou no carro ao lado de Celina.
E, pela expressão satisfeita que carregava no rosto enquanto fechava a porta, parecia alguém que finalmente tinha conseguido concluir algo que estava pendente havia muito tempo.
Ficamos observando o carro desaparecer pelo portão.
Quando voltamos para dentro da casa, Heitor ainda girava o envelope entre os dedos.
— O que será que tem aí? — perguntei.
— Não faço ideia.
Fechei a porta.
— Mas agora eu também quero saber.
Humberto já havia apagado novamente. Aquele dia tinha sido movimentado demais até para ele. Estava dormindo profundamente no carrinho, com a chupeta torta na boca e uma das mãozinhas agarrada à manta.
Meu coração derreteu na mesma hora.
— Vamos sentar. — apontei para a sala. — Estou curiosa.
— Eu também.
Nos acomodamos no sofá. O silêncio da casa parecia estranho depois de um dia tão cheio.
Heitor observou o envelope por mais alguns segundos.
Passou os dedos pelas bordas gastas.
Virou-o de um lado para o outro.
Como se tentasse descobrir seu conteúdo apenas olhando.
Então finalmente abriu e retirou a carta que estava guardada ali dentro.
“ Meu filho,
Se você está lendo esta carta, então alguma coisa muito boa aconteceu: você se tornou pai.
Hoje você tem nove meses de idade. Está dormindo no quarto ao lado enquanto escrevo. Sua mãe provavelmente vai rir de mim se descobrir que estou fazendo isso, porque nunca fui um homem de cartas. Na verdade, nunca fui um homem de falar muito sobre sentimentos. Mas hoje é Dia dos Pais e, pela primeira vez na vida, esse dia significa alguma coisa para mim.
Quando você nasceu, eu pensei que o mais difícil seria a responsabilidade. Eu já estava acostumado com responsabilidade. Naquela época eu já comandava milhares de funcionários, tomava decisões que movimentavam fortunas e carregava um sobrenome que vinha sendo construído havia gerações. Achei que estava preparado para qualquer coisa.
Não estava.
Lembro de segurar você pela primeira vez no hospital. Você era tão pequeno que tive medo de machucar você. E isso pode parecer ridículo quando você pensa no tamanho que eu tenho e no tamanho que você tinha, mas foi exatamente o que senti. Pela primeira vez na vida inteira, me colocaram nos braços algo que eu sabia que amaria mais do que a mim mesmo.
Ninguém me preparou para isso.
Você ainda não vai entender quando ler esta parte um dia, mas talvez entenda agora que tem um filho seu. Existe uma diferença enorme entre ser responsável por alguma coisa e ser responsável por alguém. Quando é alguma coisa, você aceita perder. Quando é alguém, não.
Durante esses nove meses eu já perdi a conta de quantas vezes acordei durante a noite para ir até seu quarto. Não porque você estivesse chorando. Muitas vezes você estava dormindo tranquilamente. Eu só precisava olhar. Precisava ter certeza de que estava tudo bem.
Imagino que, se você acabou de se tornar pai, talvez esteja fazendo a mesma coisa.
Espero que esteja.
Quando olho para você agora, ainda tão pequeno, fico pensando em quem você vai se tornar. Não penso muito em dinheiro, embora você certamente tenha responsabilidades que vêm junto com nossa família. Não penso muito na empresa, embora um dia ela seja sua para liderar. Penso mais no homem que você será quando ninguém estiver olhando.
Espero que você seja honesto. Espero que tenha coragem de defender o que acredita. Espero que nunca escolha o caminho fácil apenas porque ele é mais fácil. O mundo está cheio de homens inteligentes. Está cheio de homens ambiciosos. Mas homens em quem se pode confiar são mais raros do que as pessoas imaginam.
Espero também que você encontre uma mulher extraordinária.
Não quero dizer uma mulher perfeita. Sua mãe está longe de ser perfeita e eu também não sou. Mas desde o dia em que a conheci, nunca duvidei de que queria envelhecer ao lado dela. Espero que você tenha encontrado alguém que faça você sentir a mesma coisa.
Alguém que transforme uma casa em lar.
Alguém para quem você tenha vontade de contar as boas notícias primeiro.
Alguém cuja presença torne os dias difíceis mais leves.
Eu passei boa parte da minha vida trabalhando mais horas do que deveria. Houve períodos em que saía de casa antes do sol nascer e voltava quando ele já tinha ido embora. O que fazia valer a pena era saber que sua mãe estaria me esperando. Espero que você tenha isso também.
Mas, acima de tudo, espero que você tenha encontrado o que encontrei quando você nasceu.
Propósito.
Porque essa foi a palavra que me veio à cabeça.
Eu já tinha conquistado coisas que passei anos perseguindo. Já tinha alcançado metas que, quando era jovem, pareciam impossíveis. E ainda assim, quando olhei para você pela primeira vez, percebi que todas aquelas conquistas tinham sido apenas parte do caminho.
Você era o destino.
Talvez isso seja difícil de entender quando somos filhos. Acho que eu mesmo só entendi completamente quando você nasceu.
Talvez seja por isso que estou escrevendo esta carta para ser lida somente agora.
Porque somente agora você consegue saber o que estou sentindo enquanto escrevo.
Você provavelmente olhou para seu filho pela primeira vez e sentiu uma mistura estranha de amor, orgulho e medo. Um medo que não existia antes. Porque, de repente, existe alguém no mundo cuja felicidade importa mais do que a sua.
Foi exatamente assim comigo.
E existe uma última coisa que quero que você saiba.
Ao longo da sua vida, vou errar algumas vezes. Talvez mais do que algumas. Haverá momentos em que você vai discordar de mim, momentos em que vai ficar com raiva de mim e talvez momentos em que nem goste muito de mim.
Tudo isso faz parte.
Mas nunca, nem por um único dia da sua vida, duvide do quanto foi amado.
Você ainda não consegue entender isso aos nove meses. Talvez nem aos vinte anos. Talvez nem aos trinta.
Mas agora que é pai, acredito que consiga.
Porque, se estiver sentindo pelo seu filho o que sinto por você, então finalmente encontrou a medida exata desse amor.
E ela é maior do que qualquer coisa que eu poderia colocar em palavras.
Com amor,
Seu pai
Renato
Primeiro Dia dos Pais da minha vida”
Quando terminei de ler a última linha, não consegui falar. Nem por um segundo. O silêncio ocupou a sala inteira. Heitor continuava olhando para as folhas.
Imóvel.
As mãos segurando a carta com cuidado.
Meu peito já estava apertado. Mas então vi o movimento da garganta dele. O jeito como engoliu em seco.
Uma vez.
Depois outra.
E soube.
Aquela carta tinha acertado em cheio.
— Amor… — minha voz saiu quase num sussurro.
Ele não respondeu imediatamente.
Os olhos continuaram presos às palavras. Depois de alguns segundos, ele soltou uma respiração longa.
Daquelas que parecem sair do fundo da alma.
— Eu nunca imaginei isso. — a voz estava rouca.
Olhei para ele.
— O quê?
Heitor passou o polegar devagar pela borda da folha. Ainda olhando para a carta.
— Que ele pensava tudo isso.
Meu coração apertou. Porque eu entendi exatamente o que ele queria dizer.
Renato sempre amou o filho.
Sempre.
Mas amor nunca foi uma coisa que ele transformava em discursos.
Era um homem que ensinava.
Que orientava.
Que cobrava.
Que aparecia.
Que protegia.
Que ficava.
— Ele sempre amou você.
— Eu sei.
Os olhos dele finalmente encontraram os meus. Já estavam brilhando.
— Eu sempre soube. — a voz falhou um pouco. — Mas isso aqui…— ele levantou a carta. — Isso é diferente.
Senti as lágrimas queimarem atrás dos meus olhos.
— É.
Heitor baixou o olhar novamente. E ficou em silêncio por alguns segundos. Longos segundos.
Quando voltou a falar, a voz saiu mais baixa.
— Acho que eu só consigo entender porque tenho o Humberto.
Pronto.
Acabou comigo.
Porque eu também tinha pensado exatamente a mesma coisa.
Ele respirou fundo.
— Quando eu li a parte do hospital...
A frase morreu antes do fim.
Passou a mão pelo rosto.
Tentando se recompor.
Sem sucesso.
— Eu lembro da primeira vez que segurei ele.
Minha visão ficou embaçada imediatamente.
— Eu também.
Um sorriso pequeno apareceu. Emocionado.
— Eu estava apavorado.
Soltei uma risada entre as lágrimas.
— Eu percebi.
— Eu tinha medo de tudo.
— Você verificou se ele estava respirando umas cinquenta vezes.
— Foram mais.
— Eu sei.
— Muito mais.
Aquela risada emocionada desapareceu tão rápido quanto surgiu. Ele olhou novamente para a carta. E então para algum ponto distante.
Foi a primeira lágrima. Escorreu sem que ele percebesse. Sem que tentasse impedir.
Meu coração se partiu e se encheu ao mesmo tempo.
— Amor...
Estendi a mão. Ele a segurou imediatamente. Como sempre fazia. Os dedos se entrelaçando aos meus.
— Eu quero fazer isso.
Levantei os olhos.
— O quê?
Ele sorriu e havia lágrimas naquele sorriso.
— Para o Humberto.
Meu peito aqueceu inteiro.
— Uma carta?
— Não.
Olhou para o papel. Depois para mim.
— Várias.
Minha garganta fechou.
— Várias?
Ele assentiu.
— Uma quando ele for mais velho. Outra quando sair de casa. Outra quando se apaixonar. Outra quando tiver um filho.
Os olhos dele voltaram para os meus.
— Porque tem coisas que a gente sente e nunca diz.
As lágrimas escorreram pelo meu rosto.
— Você vai fazer eu chorar.
— Você já está chorando.
— Culpa sua.
Um sorriso apareceu no canto da boca dele.
— Vem cá.
Não precisei pensar. Me inclinei imediatamente. Ele me puxou para perto. Encostou a testa na minha. Fechando os olhos. Respirando fundo. Como se precisasse daquele contato. Como se eu fosse a âncora dele.
— Vou escrever e vou usar aquela caneta.
A voz saiu baixa. Entre nós. Só para mim. Não consegui evitar a risada emocionada.
Ele sorriu.
— Foi o presente perfeito.
Meu coração derreteu.
— Foi?
— Foi.
Passou o nariz de leve contra o meu. Aquele gesto carinhoso que sempre me desmontava.
— Um dia o Humberto vai ler. — a voz dele ficou embargada outra vez. — E vai saber exatamente o quanto foi amado, desde antes de nascer.
Fechei os olhos.
Porque naquele momento eu sabia de uma coisa com absoluta certeza. Nosso filho talvez esquecesse presentes. Talvez esquecesse datas. Talvez esquecesse mil coisas ao longo da vida.
Mas jamais esqueceria o amor do pai.
Jamais.
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