Helena organizava as roupas de Heitor com o cuidado de sempre. Já fazia muito tempo que ela não precisava lavar ou passar nenhuma peça, mas ainda gostava daquele pequeno ritual. Escolhia os ternos para a semana, separava as camisas, combinava as gravatas e deixava tudo pronto para que ele não precisasse se preocupar com nada pela manhã.

Era uma tarefa simples.

Mas ela gostava.

Quando a porta do banheiro se abriu, Helena ergueu os olhos por reflexo.

Heitor saiu usando apenas uma toalha na cintura e um sorriso satisfeito no rosto. O cabelo ainda estava molhado, e ela tinha absoluta certeza de que ele fazia aquilo de propósito. Nunca se secava direito. As gotas escorriam pelos fios escuros, desciam pelo pescoço, percorriam os ombros largos e desapareciam pelo peito.

Era injusto, principalmente porque, depois de todo aquele tempo juntos, ele ainda conseguia deixá-la sem reação.

— Ainda bem que tenho você para cuidar de mim. — disse ele, aproximando-se.

Antes que pudesse responder, ele se inclinou e deixou um beijo em seus lábios. Helena imediatamente sentiu a umidade da pele dele.

— Heitor! — reclamou, rindo. — Vai me molhar.

— Esse é exatamente o objetivo.

Ela balançou a cabeça.

Impossível.

Ele passou um braço ao redor da cintura dela e a puxou para perto. Helena sentiu o calor da pele dele imediatamente.

— Eu sempre te convido para tomar banho comigo de manhã. — murmurou ele. — Você que nunca aceita.

Helena o encarou.

— Porque você é assim, hein?

— Porque eu sou um marido dedicado.

— Noivo.

— Detalhes.

Helena acabou rindo. Aquele sorriso foi o erro dela. Porque os olhos de Heitor mudaram imediatamente.

Ele abaixou o rosto e o acomodou na curva do pescoço dela enquanto inspirava lentamente. Como se estivesse matando a saudade. Como se o cheiro dela fosse algo viciante.

— Você tá com o mesmo perfume de ontem.

— É porque é o mesmo perfume de ontem.

— Que cheiroso delicioso.

Os dedos deslizaram pelos cachos e encontraram seu couro cabeludo. Heitor começou a massageá-lo devagar, exatamente do jeito que sabia que a fazia suspirar.

Helena fechou os olhos por um segundo.

Aquilo era golpe baixo.

— Heitor… — sua voz saiu mais fraca do que pretendia.

— Hum?

— Você tem que trabalhar…

— Eu trabalho todo dia.

— E?

— E você é muito mais interessante.

Helena soltou uma risada.

— Que cantada ruim.

— Funcionou?

— Não…

— Mentirosa.

Ele ergueu o rosto e segurou delicadamente seu queixo. Os olhos azuis encontraram os dela. Aquele olhar deveria vir com algum tipo de aviso.

— Vamos lá. — o sorriso apareceu devagar. — Prometo que vai ser muito melhor do que escolher gravatas.

Helena soltou uma risada.

— Você tem que trabalhar.

— Vou trabalhar muito melhor se estiver relaxado, você não acha?

A voz dele saiu baixa, preguiçosa, próxima demais. Um arrepio percorreu a pele de Helena quando ele encostou os lábios perto de sua orelha.

Ela fechou os olhos por um instante.

Era sempre assim.

Sempre…

— Você é impossível.

— E você continua aqui.

— Porque alguém precisa garantir que você vá trabalhar.

— Que mulher dedicada.

Ele deixou um beijo perto de sua testa. Depois outro próximo à têmpora. Outro junto à linha do maxilar.

Helena tentou manter a expressão séria e fracassou completamente. O sorriso de Heitor se alargou na mesma hora, aquele sorriso vencedor, orgulhoso, convencido e maravilhoso. Ela odiava o quanto amava daquele sorriso.

— Além disso… — a voz saiu num tom preguiçoso. — Você sabe que eu adoro começar o dia com você.

Helena suspirou. Era difícil discutir quando ele ficava daquele jeito. Principalmente porque uma parte dela já estava perdendo a batalha.

— Heitor...

Ele sorriu contra sua pele. Aquele sorriso satisfeito e convencido.

As mãos dele continuavam em sua cintura, puxando-a para mais perto. O calor do corpo dele parecia envolvê-la por completo, tornando cada argumento muito menos convincente do que deveria.

— Você sabe que está sendo insuportável.

— Eu prefiro o termo persuasivo.

Helena soltou uma pequena risada. Aquilo só fez o sorriso dele aumentar antes de voltar a procurar a boca dela. O beijo veio sem pressa, profundo, daqueles que faziam Helena esquecer completamente qualquer intenção de ser sensata. Os dedos dele se perderam em seus cabelos enquanto a puxava para mais perto, como se a distância entre eles fosse algo insuportável.

As mãos dele deslizaram por sua cintura e, em um movimento natural, a ergueram. Helena soltou uma pequena risada entre um beijo e outro, apoiando-se nele enquanto era acomodada sobre uma das prateleiras largas do guarda-roupa.

A toalha acabou ficando para trás em algum lugar do chão, completamente esquecida.

Heitor voltou a beijá-la, roubando qualquer tentativa de raciocínio coerente. Helena já sentia aquele calor familiar tomando conta do peito, aquela sensação perigosa que sempre aparecia quando ele a olhava daquele jeito.

Foi então que o celular começou a tocar.

Os dois ignoraram.

O telefone continuou insistindo.

Helena tentou não prestar atenção.

O aparelho tocou pela terceira vez.

Ela acabou soltando uma risada contra os lábios dele e virou o rosto apenas o suficiente para respirar.

— Heitor...

Ele deixou um beijo demorado em sua bochecha.

— Hum?

— O telefone.

— Não ouvi nada.

O celular voltou a tocar.

Helena apoiou a testa na dele e suspirou.

— Vai acordar o Humberto.

Aquilo finalmente pareceu atravessar a névoa de distração de Heitor. Ele fechou os olhos por um segundo, claramente contrariado.

— Ele tem um sono pesado.

Helena não conseguiu segurar a risada.

— Vai atender, Monteiro. Antes que ele acorde..

Heitor soltou o ar em derrota e saiu do closet praticamente correndo.

Helena levou a mão à boca para esconder a risada enquanto o observava desaparecer para o quarto naquele estado. Era uma cena tão absurda que chegava a ser engraçada.

Aproveitou para descer da prateleira e ajeitar a camisola. O coração ainda batia acelerado e ela precisou respirar fundo algumas vezes antes de recuperar um mínimo de compostura.

Talvez aquela ligação tivesse sido uma intervenção divina. Ou, no mínimo, uma ajuda para que alguém naquela casa continuasse tomando decisões sensatas.

Poucos minutos depois, Heitor voltou.

Estava com o telefone no ouvido e uma expressão fechada que deixava claro que a conversa não tinha sido agradável. Helena precisou morder a parte interna da bochecha para não rir novamente.

Era difícil levar a sério um empresário bilionário discutindo problemas de obra enquanto andava de um lado para o outro completamente nu pelo closet.

A situação ficava ainda mais ridícula porque ele parecia genuinamente irritado.

— Não, eu entendi. — falou ele. — Mas quem autorizou a compra anterior? ... Certo. Depois me manda tudo por e-mail.

Ele ouviu a resposta do outro lado, passou a mão pelos cabelos ainda úmidos e soltou um suspiro.

— Tá bom. Resolve isso e me atualiza em uma hora.

A ligação finalmente terminou.

Heitor abaixou o celular e fechou os olhos por alguns segundos.

— Problema? — perguntou Helena, aproximando-se.

Ele assentiu.

— O pessoal do suprimentos comeu bola. Faltou material em uma obra e me ligaram pedindo autorização para comprar mais caro.

— E a diferença é grande?

— Bastante.

Ele suspirou novamente.

— É um prédio lá em Fortaleza.

Helena levou a mão às costas dele em um carinho automático.

— Mas vai dar certo?

— Vai.

O semblante dele suavizou imediatamente quando olhou para ela.

Como sempre acontecia.

— Vai dar trabalho, mas vai dar certo.

Então o sorriso apareceu. Aquele sorriso. O sorriso que normalmente significava problema para Helena.

— Agora… — ele deu um passo na direção dela. — Onde nós estávamos mesmo?

Helena já sabia.

— Nem pense nisso.

— Helê...

— Não.

— Só um pouquinho.

— Não.

— Cinco minutos.

— Não.

— Três?

Ela cruzou os braços.

— Monteiro.

— Dois?

— Você tem uma obra para resolver.

— Tenho funcionários para resolver.

— E um filho dormindo no quarto ao lado.

— Esse argumento foi baixo.

Helena riu.

Foi até a cômoda, pegou as roupas que já havia separado para ele e colocou tudo em seus braços.

— Se enxuga direito e se veste.

Heitor olhou para as roupas.

Depois para ela.

Depois para as roupas novamente.

— Você ficou mandona depois que virou mãe.

— E você continua igualzinho depois que virou pai.

— Eu vejo isso como um elogio.

— Vai se arrumar.

Ele soltou um suspiro dramático. Daqueles completamente exagerados. Mas obedeceu.

Enquanto ele começava a se vestir, Helena deixou o closet e caminhou até o quarto.

A primeira coisa que fez foi olhar para o moisés.

Humberto continuava dormindo profundamente, abraçado à manta, completamente alheio ao caos romântico que tinha acabado de interromper sem nem acordar.

Helena sorriu.

Algum tempo depois, Helena estava sentada na cama respondendo mensagens no celular. Ela respondia uma mensagem de Júlia quando ergueu os olhos e viu Heitor parado na porta do closet. Aquilo deveria ser proibido. O homem já era bonito normalmente. Arrumado para trabalhar então parecia ter saído de uma propaganda de TV.

A camisa escura destacava seus olhos, o relógio aparecia sob a manga dobrada e os cabelos ainda estavam levemente úmidos do banho. Helena sentiu aquele mesmo aperto bobo no peito que sentia desde que se apaixonara por ele.

Talvez até mais forte agora.

Porque agora ele era dela.

Seu noivo.

O pai do seu filho.

O homem que fazia seu coração disparar só por aparecer arrumado para trabalhar.

— Uau...

Heitor sorriu imediatamente.

— Isso foi um elogio?

— Foi uma reclamação.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Como assim?

— Você fica bonito demais de terno.

O sorriso dele aumentou.

— Ah. Então foi um elogio.

Helena revirou os olhos, mas não conseguiu esconder o próprio sorriso.

— Você sabe que foi.

— Gosto quando você admite essas coisas.

— Eu admito sempre.

— Não o suficiente.

Ela balançou a cabeça, divertida. Mas então percebeu uma coisa. Ele continuava parado. Sem vir até ela. Sem roubar um beijo. Sem fazer nenhuma gracinha. Aquilo era estranho. O sorriso dela diminuiu um pouco.

— O que foi?

— Hum?

— Essa cara.

Heitor desviou os olhos por um segundo. Algo estava acontecendo.

— Monteiro.

Ele suspirou.

— Nada.

— Mentira.

— Não é nada demais.

— Então fala.

Helena já o conhecia bem demais. Aquela mão indo para a nuca. O jeito que evitava encará-la diretamente. A pequena ruga surgindo entre as sobrancelhas. Tudo aquilo significava exatamente a mesma coisa.

Heitor estava nervoso e Heitor raramente ficava nervoso.

— Desembucha.

Ele soltou outro suspiro.

— Não sei se esse é o momento.

— Agora eu preciso saber.

— Talvez depois.

— Heitor.

— Talvez amanhã.

— Monteiro.

Aquilo arrancou um sorriso dele. Mas foi um sorriso curto. Inseguro.

O que só deixou Helena mais preocupada.

— Você está me assustando.

— Não era essa a intenção.

— Então fala logo.

Heitor passou a mão pelo rosto. Pensou por alguns segundos. Depois colocou as mãos nos bolsos da calça.

— Promete que não vai surtar?

Helena cruzou os braços.

— Eu odeio quando você começa uma conversa assim.

— Isso não é uma promessa.

— Fala.

— Promete?

— Não.

— Helena.

— Heitor.

Os dois se encararam por alguns segundos. Até que ele perdeu a batalha. Como sempre acontecia quando ela usava aquele tom.

— Tá bom.

Ele respirou fundo e então disse:

— Eu quero ter mais filhos com você.

O silêncio que veio depois foi tão grande que ele chegou a franzir o cenho.

Helena apenas piscou.

Uma vez.

Duas.

Três.

E então começou a rir. Não conseguiu evitar.

— Era isso?

— Era.

— Meu Deus do céu, eu achei que alguém tinha morrido.

— Eu sabia que você ia reagir assim.

— Você falou "precisamos ter uma conversa séria".

— E é séria.

— Heitor, o Humberto tem três meses.

— Eu sei.

— Três meses!

— Eu participei da gravidez, lembro da data.

Helena passou a mão pelo rosto, tentando esconder o sorriso. Mas quando voltou a olhar para ele percebeu que agora ele estava realmente sério. Não parecia mais estar brincando.

Os olhos azuis estavam calmos e carinhosos. E havia algo quase vulnerável neles.

— Eu amo ser pai, Helê.

Aquilo a fez ficar em silêncio. Porque ela sabia que era verdade. Via aquilo todos os dias. Via no jeito que ele carregava Humberto. Nas fotos que tirava escondido. Na quantidade absurda de vídeos que gravava. No modo como falava do filho para qualquer pessoa que aceitasse escutá-lo.

— Eu amo mesmo. — a voz dele saiu mais baixa. — É uma das melhores coisas que já aconteceram na minha vida.

Ele se aproximou devagar.

— E eu fico imaginando o Humberto crescendo sozinho.

Helena observou o rosto dele.

— Eu fui filho único. — Heitor sorriu de lado. Mas havia tristeza naquela lembrança. — E não quero isso para ele.

Ela sentiu o coração apertar um pouco. Porque entendia. Entendia perfeitamente.

— Eu quero que ele tenha irmãos.

— Você quer uma casa cheia.

— Muito cheia.

— Eu percebi.

Ele riu.

— Você já viu o tamanho dessa casa?

— Já.

— Ela está praticamente vazia.

— Heitor...

— Estou falando sério.

— Eu sei que está.

Ele segurou as mãos dela.

— Mas eu também sei que a gravidez foi difícil. — o sorriso dele desapareceu completamente. — E eu jamais vou te pressionar. Jamais.

— Meu chip ainda tem um ano e sete meses. — ela viu os olhos dele se iluminarem. — Quando vencer... a gente tenta outro bebê.

Por alguns segundos Heitor ficou completamente imóvel. Como se estivesse processando a informação. Então abriu um sorriso tão grande que parecia um menino ganhando o presente que mais queria. Helena sentiu o coração aquecer. Era impossível não sentir. A felicidade dele era tão genuína que chegava a ser contagiante.

— Que maravilha. — Ele a puxou para os braços antes mesmo que ela pudesse reagir. — Meu Deus, que maravilha.

Helena começou a rir.

— Nem aconteceu ainda.

— Mas vai acontecer.

— Daqui um ano e sete meses.

— Passa rápido.

— Para quem não vai engravidar.

Heitor abriu a boca para responder, mas acabou fechando de novo.

— Tá. Esse foi um ponto justo.

— Eu sei que foi.

Ela apoiou a cabeça em seu peito por um instante. Conseguia ouvir o coração dele batendo forte e regular sob a camisa social. Aquilo sempre a acalmava.

Mas então percebeu aquele brilho estranho nos olhos dele. O mesmo brilho que aparecia toda vez que uma ideia absurda surgia em sua cabeça.

Helena se afastou apenas o suficiente para estreitar os olhos.

— O que foi?

— Nada.

— Monteiro.

O sorriso dele aumentou. Era exatamente o que ela imaginava.

— Fala logo.

— Eu só estava pensando...

— Péssimo começo.

— Deixa eu terminar. — continuou ele sorrindo

— Tô preocupada agora.

Heitor soltou uma risada e passou um braço pela cintura dela novamente.

— Eu só estava pensando que depois do segundo…

Helena fechou os olhos.

— Não.

— Você nem sabe o que eu vou falar.

— Sei sim.

— Não sabe.

— Quantos filhos você quer? — perguntou Helena cruzando os braços.

Ele pareceu sinceramente ofendido.

— Eu não gosto quando você me conhece tão bem.

— Quantos?

Heitor inclinou a cabeça para o lado. Pensativo. Como se estivesse calculando.

— Entre três e cinco.

O silêncio que se seguiu foi tão longo que ele começou a rir sozinho. Porque a expressão de Helena era impagável.

— Cinco?

— Eu falei entre três e cinco.

— Cinco, Heitor?

— É um número bonito.

— É um time de futebol.

— Que exagero. Ai seriam onze e eu só quero cinco.

— Exagero é você.

Ele continuava sorrindo. Não um sorriso de quem estava provocando. Um sorriso de quem estava sonhando acordado. E isso era o pior. Porque Helena conseguia ver que ele falava sério.

— Amor, pensa comigo.

— Não quero. — Helena começou a caminhar pelo closet, tentando pegar um pouco de ar.

— Nossa casa é enorme.

— Não. — ela parou e apoiou as mãos na cômoda com a tampa de vidro com as joias dela.

— Nós temos condição. — Heitor foi se aproximando.

— Não.

— Eu amo crianças.

— Eu percebi.

— Você também ama.

— Isso não significa que eu quero abrir uma creche.

A gargalhada dele ecoou pelo quarto. Daquelas altas. Sinceras e felizes.

Helena adorava quando ele ria daquele jeito.

— Não seria uma creche. — falou ele com uma entonação divertida.

— Seria praticamente um condomínio.

— Imagina o Natal.

Ela já conhecia aquele tom. Era o tom de CEO. O mesmo que usava quando queria convencê-la de alguma coisa.

— Não.

— Todo mundo correndo pela casa.

— Não.

— A mesa enorme. — ele se apoiou na cômoda ao lado dela com aquele sorriso enviesado.

— Não.

— Os irmãos crescendo juntos.

— Não.

— As férias.

— Não.

— Os aniversários. — Heitor a virou para ele.

— Não.

— O caos.

— Principalmente não!

Heitor apoiou a testa na dela. Ainda sorrindo.

— Você está jogando um balde de água fria nos meus sonhos.

— Eu estou salvando sua sanidade.

— Eu sou perfeitamente são.

— Você acabou de me pedir cinco filhos.

— Entre três e cinco.

— Isso não ajuda.

Ele soltou outra risada. Mas, aos poucos, o sorriso foi ficando mais suave. Mais carinhoso.

— Sabe por que eu quero tanto?

Helena percebeu a mudança na voz dele imediatamente. Aquilo já não era brincadeira.

— Por quê?

Heitor passou o polegar devagar pela mão dela. Pensativo.

— Porque eu gosto disso.

— Disso o quê?

— Disso aqui.

O olhar dele percorreu o quarto. A cama desarrumada. O moisés de Humberto. As roupinhas espalhadas. A bagunça discreta de uma casa onde existia uma família de verdade. Então voltou para ela.

— Eu gosto de chegar em casa e encontrar vocês. — a voz saiu baixa e honesta. — Eu gosto do barulho. Gosto dos brinquedos espalhadas. Gosto de ouvir o Humberto chorando porque sei que ele está aqui.

Helena sentiu o peito apertar.

— Passei muito tempo sozinho, Helê.

Ela levou a mão ao rosto dele.

— Eu sei.

— Então quando penso no futuro...

Ele sorriu. Um sorriso pequeno. Quase tímido.

— Eu sempre penso numa casa cheia.

O coração dela derreteu completamente. Era impossível discutir quando ele falava daquele jeito.

— Dois. — ela disse por fim.

Heitor fechou os olhos. Derrotado.

— Dois?

— Dois. — ela sorriu vitoriosa.

— Mas eu vou rezar para o segundo ser uma menina.

— Heitor.

— O quê?

— Se vier outro menino, não vamos continuar tentando até nascer uma menina.

— Eu sei.

— Estou falando sério.

— Eu também.

Ele se inclinou e beijou sua testa.

— Mas um casalzinho seria muito fofo.

— Acho que então a gente deveria focar em se casar primeiro. — disse Helena, observando-o com atenção.

O sorriso de Heitor suavizou imediatamente. Ela sempre gostava de ver aquilo. Aquele momento exato em que o empresário desaparecia e restava apenas o homem apaixonado. Helena sabia o quanto Heitor queria se casar, ela tinha cortado esse assunto uma vez, mas agora se sentia à vontade para falar a respeito.

Ele continuou acariciando suas costas devagar, como se nem percebesse que estava fazendo aquilo.

— Eu gostaria de me casar em maio. — ele disse baixo.

Helena ergueu uma sobrancelha.

— Maio?

— Maio. — os olhos azuis dele ficaram mais suaves. — É o mês em que o Humberto nasceu. O mês em que nossa família nasceu de verdade.

Aquilo fez o coração dela bater mais rápido. Porque era exatamente o tipo de significado que Heitor dava para as coisas. Ele podia comprar qualquer coisa no mundo, mas sempre acabava valorizando aquilo que não tinha preço.

— Além disso — continuou ele — é o mês mais bonito para casar.

— Isso é opinião sua.

— É uma opinião extremamente correta.

Helena riu. Ele beijou sua testa rapidamente.

— Podemos casar na última semana de maio. Assim o aniversário do Humberto continua sendo dele.

Helena ficou pensativa. A ideia não era ruim. Na verdade, era boa. Mas havia uma imagem que ela carregava desde o pedido de casamento. Uma imagem que não conseguia abandonar.

— É que eu queria que o Humberto entrasse na igreja carregando nossas alianças.

Heitor sorriu imediatamente.

— Claro que ele vai.

— Com um ano ele vai correr para o lado errado. — Helena falou divertida, imaginando Humberto tão pequenininho.

— Eu corro atrás dele.

— Ele vai sentar no chão.

— Vai ser uma cerimônia memorável.

Helena começou a rir.

— Estou falando sério.

— Eu também.

Ele estava. E aquilo só a fez rir mais.

— Amor, com um ano ele mal vai entender o que está acontecendo.

Heitor ficou pensativo por alguns segundos. Ela quase conseguia ouvir as engrenagens funcionando. Então ele abriu um sorriso. O sorriso de quem tinha acabado de ter uma ideia.

— E se a gente casar em maio de 2028?

Helena piscou. Ele parecia cada vez mais satisfeito com o próprio raciocínio.

— O Humberto já vai ter feito dois anos. Vai andar direitinho, vai entender mais as coisas e provavelmente vai roubar a cena.

— Isso é verdade.

— Além disso…

Ele fez uma pausa suspeita.

Muito suspeita.

— Seu chip já vai ter perdido o efeito.

Helena fechou os olhos.

— Heitor...

— O quê?

— Eu conheço esse tom.

— Que tom?

— O tom de quem está tentando encaixar outro bebê na conversa.

— Eu jamais faria isso. — ele sorriu. — Tá, eu faria sim.

Helena balançou a cabeça, já rindo.

— Você não desiste.

— Nunca.

— Eu não sei se vou engravidar tão rápido assim.

— A gente conversa com a médica.

Ela passou os dedos pelos dele, brincando com sua mão. Gostava das mãos de Heitor, eram grandes, quentes e seguras. Gostava de pensar que passaria o resto da vida segurando aquelas mãos.

— Mas eu gosto da ideia. — admitiu baixinho. — O Humberto com dois anos seria lindo.

Heitor abriu um sorriso tão satisfeito que ela quase se arrependeu de ter falado.

— Eu sabia.

— Não comemora ainda.

Ele se inclinou e beijou sua bochecha. Demoradamente. Como se estivesse feliz demais para esconder.

— E temos tempo para organizar tudo.

— Isso é verdade.

— Sem correria.

— Perfeito.

Helena observou o rosto dele por alguns segundos.

— Mas podemos casar no civil antes. — disse ele de repente.

— Heitor.

— O quê?

— Não.

— Mas eu quero.

— Não.

— Quero muito.

Helena já conhecia aquela expressão. O biquinho. O olhar de cachorro abandonado. A completa falta de vergonha.

— Casamos na igreja primeiro. — ela disse definitiva.

— Mas eu queria que você fosse Helena Monteiro logo.

O coração dela aqueceu imediatamente. Ele sempre fazia isso. Sempre encontrava um jeito de transformar uma discussão simples em alguma coisa romântica.

— Monteiro, não.

— Por quê?

— Porque eu quero fazer tudo certinho.

— Eu também quero.

— Então espera.

— Mas o Humberto vai perguntar por que o nome dele é Monteiro e o seu não.

Helena começou a rir.

— Com dois anos ele não vai perguntar isso.

— Você não sabe.

— Sei sim.

Ela revirou os olhos. Heitor passou os dedos pelos cachos dela, ajeitando algumas mechas atrás de sua orelha. O olhar dele era tão carinhoso que Helena sentiu o peito aquecer novamente.

— Certo. — ele suspirou dramaticamente. — Como sempre, você venceu.

— Sim.

Ela segurou o rosto dele e esfregou o nariz no seu.

— Porque eu estou certa.

— Detalhes.

— Não são detalhes.

— São um pouco.

Helena sorriu. Então percebeu aquele brilho suspeito surgindo novamente nos olhos dele.

— O que foi agora?

— Só uma observação. Sabe a minha tatuagem?

— O que tem ela?

Ele levantou a camisa.

— Ainda tem espaço para quatro nomes.

Helena ficou alguns segundos em silêncio. Depois fechou os olhos.

— Meu Deus.

— O quê?

— Você não consegue ficar cinco minutos sem falar de filhos.

— Consigo.

— Acabou de provar que não.

— Mas olha pelo lado bom.

— Qual?

— Já temos o espaço planejado.

Helena apertou a bochecha dele.

— Vai ter o nome do Humberto e de mais um filho. Depois você coloca os nomes dos netos.

— Helê...

— Ou da Mel.

— Amor...

— Ou de algum peixe.

Heitor soltou uma risada. Mas a expressão de pena continuava ali. Daquelas completamente exageradas.

— Eu só quero uma família grande.

— Você já tem uma família grande.

Ele levantou as mãos em rendição. Mas o sorriso continuava ali. Claramente ele não tinha desistido da ideia. Nem um pouco.

Foi nesse momento que o celular dele começou a vibrar. Depois veio o som das mensagens chegando sem parar. Pelo som, eles sabiam que era o número pessoal dele. Os dois olharam para o bolso do paletó ao mesmo tempo.

— Será que é urgente? — perguntou Helena.

Heitor fechou os olhos por um segundo. Como alguém fazendo uma oração silenciosa.

— Eu espero sinceramente que não.

Então colocou a mão no bolso e pegou o celular.

Heitor desbloqueou a tela e imediatamente um sorriso surgiu no canto de sua boca.

— É o James.

Helena se aproximou por curiosidade. Ela já conseguia compreender bastante coisa em inglês. Não tudo, mas muito mais do que alguns meses atrás. O suficiente para entender a mensagem que aparecia na tela.

"Happy Father's Day, my friend. I'm late, but I have a gift for you."

— Um presente? — perguntou ela.

— Conhecendo o James, isso pode significar qualquer coisa.

Ele abriu o vídeo.

Nos primeiros segundos apareceu apenas o rosto do americano. James estava claramente segurando uma risada.

— Certo... vamos tentar de novo.

A câmera virou.

E Helena imediatamente prendeu a respiração.

Era Augusto.

Por um segundo ela simplesmente esqueceu de piscar.

O menino parecia maior do que ela lembrava. As bochechas estavam ainda mais redondas, os olhos acinzentados enormes e atentos para tudo ao redor, os cabelos fininhos dourados sob a luz. Por alguns segundos ele apenas encarou a câmera, como se estivesse tentando entender o que era aquele objeto apontado para ele.

Augusto abriu um sorriso tão grande que parecia impossível caber em um bebê tão pequeno e era tão contagiante que fez Helena sorrir junto sem perceber.

— Meu Deus... — escapou de seus lábios.

Ao lado dela, Heitor permaneceu em silêncio.

James caiu na gargalhada.

— Viu só? Eu sabia que você estava prestando atenção.

O bebê respondeu com um balbucio animado e começou a agitar os braços rechonchudos.

— Ah, então era isso. — James continuou rindo. — Eu juro que não ensaiei nada.

A gravação balançou um pouco enquanto ele se sentava ao lado do berço.

— Seu pai vai ficar convencido agora. Olha só para esse rosto.

O menino piscou os olhos grandes e cinzentos.

— Parece capa de revista.

O vídeo seguiu por mais alguns instantes. James falava com ele como se estivessem tendo uma conversa séria, enquanto Augusto respondia do único jeito que um bebê de um mês conseguia responder: sorrindo e mexendo as perninhas.

Helena não conseguia parar de olhar.

Talvez porque Humberto tivesse quase a mesma idade.

Talvez porque existisse algo profundamente injusto em ver um bebê tão pequeno sem uma família.

Ou talvez porque aquele sorriso lembrasse demais o do próprio filho.

Quando James virou a câmera para si novamente, a expressão dele mudou.

Ficou mais séria.

— Feliz Dia dos Pais, meu amigo.

O quarto pareceu ficar mais silencioso.

— Sei que você vai reclamar quando ouvir isso.

James sorriu.

— Mas eu te conheço há anos. E também sei que esse garoto está vivo, saudável e sorrindo desse jeito por sua causa.

Helena sentiu o corpo de Heitor enrijecer ao seu lado.

O vídeo terminou poucos segundos depois.

Durante um momento nenhum dos dois falou nada.

Helena permaneceu olhando para a tela alguns segundos depois que o vídeo terminou. Ao seu lado, Heitor parecia ter esquecido até de respirar durante a gravação inteira. Tinha sido um vídeo curto, simples até, mas suficiente para mexer com os dois de um jeito que nenhum deles esperava.

Augusto estava tão diferente da última vez que o viram.

Maior.

Mais forte.

As bochechas redondas faziam parecer impossível que aquele bebê tivesse passado por tudo o que passou antes mesmo de nascer. E aquele sorriso...

Aquele sorriso era contagiante.

— Isso foi de extremo mal gosto. — A voz de Heitor a trouxe de volta.

Ela virou o rosto para ele. O cenho dele estava franzido e os olhos continuavam presos à tela apagada do celular.

— Desculpa por isso, Helê.

Helena demorou um pouco para responder. Ainda conseguia ver o rostinho do menino na própria cabeça.

— Ele está crescendo bem... — comentou por fim. — Bem bochechudo.

Heitor soltou o ar pelo nariz.

— Pois é.

O silêncio durou apenas alguns segundos.

— Mas com um mês ele já não deveria ter sido adotado? — perguntou ela. — Normalmente as pessoas preferem recém-nascidos, não preferem?

Heitor pareceu pensar naquilo. Então digitou uma mensagem rápida.

“Alguém na fila da adoção?”

A resposta chegou quase imediatamente.

“Ninguém ainda.”

Heitor releu a mensagem duas vezes.

— Caralho...

— O quê?

— Ninguém.

Helena sentiu um aperto estranho no peito. Pegou o celular dele e abriu o vídeo outra vez. Augusto apareceu sorrindo para a câmera como se o mundo inteiro fosse um lugar maravilhoso.

— Eu não sei por que ele é tão gordinho... — murmurou ela. — Mas definitivamente não me lembra o genitor.

Heitor soltou uma risada sem humor.

— Graças a Deus. — O sorriso desapareceu logo em seguida. — Ele precisa de uma família logo. Imagina esse garoto crescer e achar que eu sou o pai dele? Isso é inadmissível.

Helena percebeu o desconforto imediatamente.

— Eu gosto do sorriso dele. — disse ela baixinho. — Ele parece muito feliz.

Heitor passou a mão pelo rosto.

— Vou ligar para o James.

Ele já estava colocando o telefone no ouvido antes mesmo de terminar a frase.

Helena observou enquanto ele caminhava alguns passos pelo closet. O inglês ainda escapava dela em vários momentos, mas não era difícil perceber que a conversa estava deixando Heitor cada vez mais sério.

Quando a ligação terminou, ele ficou alguns segundos olhando para a tela antes de desligá-la.

Passou a mão pelos cabelos, bagunçando-os. Era um gesto que ele sempre fazia quando estava preocupado.

— O James mandou um abraço.

— Outro para ele. — Helena hesitou. — E sobre o Augusto?

Heitor desviou os olhos por um instante.

— Problemas legais.

Ela franziu a testa.

— Como assim?

— Mesmo ele tendo nascido nos Estados Unidos, como a gestação foi feita para um brasileiro, a adoção precisa seguir determinadas exigências brasileiras. Que o condiciona a ser adotado por brasileiros.

— Nunca ouvi falar disso.

— Nem eu tinha ouvido. — Ele abriu os braços, frustrado. — O James recorreu da decisão. Porque, sinceramente, qual é a lógica? O garoto está nos Estados Unidos. Como exatamente ele vai ser adotado por brasileiros que estão em outro país?

Helena não soube responder. Voltou a olhar para a tela do celular. Para a imagem congelada do vídeo. Para aquele sorriso enorme.

— Ele é tão feliz... — disse baixinho. — Será que ele está bem naquele orfanato?

Heitor se aproximou.

— Está.

A resposta veio imediata.

— É um dos melhores lugares possíveis. Além disso, eu fiz uma doação para eles. O James acompanha tudo de perto. O Augusto é muito bem cuidado.

Helena assentiu.

Ela sabia disso.

Sabia que James jamais permitiria que algo acontecesse ao menino. Mesmo assim, a angústia continuava crescendo dentro dela. Porque, de repente, tudo o que conseguia enxergar era Humberto. Humberto dormindo no berço. Humberto procurando seus braços. Humberto sorrindo quando via o pai. Os dois bebês tinham praticamente a mesma idade. Os dois eram tão pequenos. Tão frágeis. Tão dependentes de alguém. E aquilo fez sua garganta fechar.

As lágrimas vieram antes que ela conseguisse impedir.

— Helena...

Heitor a abraçou imediatamente.

— Não chora, amor.

Ela escondeu o rosto contra o peito dele.

— Eu não consigo parar de pensar nele. — a voz saiu abafada.

— Eu sei.

— Ele é só um bebê.

— Eu sei.

Heitor beijou seus cabelos.

— O James é o homem mais teimoso que eu conheço. Ele não vai desistir até resolver essa situação.

Helena assentiu contra o peito dele.

Sabia que ele tinha razão.

Sabia que Augusto estava seguro.

Sabia que existiam pessoas lutando por ele.

Mesmo assim, a tristeza continuava ali.

Talvez porque tivesse acabado de passar um dia inteiro cercada de pais, filhos e famílias.

Talvez porque tivesse visto Renato emocionado com o neto.

Talvez porque tivesse acabado de ganhar um pai naquele mesmo dia.

Ou talvez porque, pela primeira vez, ela tivesse entendido o quanto toda criança merecia alguém para chamar de família.

E Augusto ainda estava esperando pela sua.