O CEO que Eu Paguei

269 De outro ponto de vista - Parte V


Notas iniciais
⚠️ **AVISO DE GATILHO** Este capítulo aborda temas sensíveis, incluindo **violência sexual e coerção dentro do casamento, violência psicológica, abuso emocional, infidelidade, misoginia e manipulação emocional envolvendo uma criança**. Há passagens em que os limites e a dor de uma personagem são ignorados durante momentos de intimidade. Essas situações são retratadas como parte de uma dinâmica abusiva e **não têm a intenção de romantizar ou justificar esse comportamento**. O capítulo também contém referências a **câncer, infertilidade, sentimentos de inadequação e masculinidade associada à violência e ao controle**. Por favor, leia apenas se se sentir confortável. Cuide-se. ❤️

Gregório permaneceu na Fort Group como vice-presidente.

No papel, era um cargo enorme. Para qualquer pessoa de fora, continuava sendo um dos homens mais importantes de uma das maiores empresas do país. Tinha sala própria, participava de reuniões do conselho, assinava documentos relevantes e ainda possuía influência suficiente para fazer qualquer executivo prestar atenção quando falava. Nos primeiros meses, tentou convencer a si mesmo de que aquilo era apenas uma reorganização natural. Viviane precisava estar na presidência porque os projetos que havia iniciado estavam em andamento, a empresa reagira bem à condução dela e, depois de tudo que acontecera durante sua doença, talvez fosse realmente prudente que a transição não fosse outra vez tão brusca. Gregório repetia essas explicações para si mesmo porque eram razoáveis. O problema era que nenhuma delas conseguia alterar o que sentia quando chegava ao escritório e passava horas sem que ninguém batesse à sua porta.

Antes, pessoas esperavam por ele.

Agora, procuravam Viviane.

Era o nome dela que surgia nos corredores, nas agendas, nos telefonemas e nas decisões que antes teriam sido levadas diretamente ao gabinete dele. Gregório começou a sentir que a vice-presidência era um prêmio de consolação oferecido a um homem que todos ainda tratavam com cuidado demais para retirar completamente da estrutura. Estudara Economia, trabalhara durante anos para compreender o grupo, fizera cortes que poucos teriam coragem de fazer, encontrara fornecedores, negociara contratos, entregara resultados e suportara a pressão de comandar uma empresa que não levava seu sobrenome. Tinha feito tudo aquilo para terminar sentado numa sala enorme enquanto funcionários passavam por sua porta em direção à esposa.

A transformação tecnológica da Fort Group piorava a sensação.

Viviane havia insistido em investimentos que no começo pareciam caros e arriscados, e agora a empresa começava a ser mencionada como uma das pioneiras do país em soluções tecnológicas para grandes organizações. Sistemas, processamento de dados, automação e integração começaram a deixar de ser experiências internas e viraram negócio. Executivos falavam da “visão de dona Viviane”. Clientes queriam conhecer os novos projetos. Entrevistas começaram a aparecer. Fotografias dela surgiam em matérias empresariais. Gregório lia algumas e sentia uma irritação difícil de justificar.

Porque ele conseguia enxergar exatamente como aquilo poderia ter sido dele.

Tinha mentalidade para crescimento. Sempre tivera. Fora ele quem primeiro pressionara a família a abandonar o conforto e pensar maior, quem começara a cortar desperdícios e questionar hábitos antigos. Se não tivesse adoecido, talvez fosse ele quem tivesse conduzido aquela modernização. Talvez tivesse encontrado aquelas oportunidades. Talvez todos estivessem dizendo seu nome.

A doença tinha roubado tempo.

Era assim que começou a pensar.

Depois, pouco a pouco, a ideia ficou pior.

A doença não tinha roubado apenas tempo.

Tinha aberto espaço.

Espaço suficiente para Viviane descobrir que podia fazer aquilo melhor do que ele.

Fisicamente, Gregório melhorava. Voltava aos poucos a se exercitar, recuperava peso e força, e os cabelos loiros começavam novamente a cobrir a cabeça. O rosto ainda estava mais fino que antes do tratamento, mas já havia dias em que conseguia olhar o próprio reflexo sem enxergar imediatamente o doente que fora. Retomou caminhadas, depois exercícios mais pesados, obcecado com a ideia de recuperar o corpo que perdera. Não queria mais que Viviane perguntasse se estava cansado. Não queria que ninguém carregasse nada por ele. Não queria ouvir que deveria descansar.

O pior, porém, era Antônio.

Não porque o menino fizesse qualquer coisa errada.

Justamente porque não fazia.

Antônio continuava sendo carinhoso com o pai de uma maneira que partia Gregório ao meio.

Um dia, encontrou-o se exercitando em casa. Gregório ainda não conseguia usar os pesos que levantava antes da doença, mas já havia recuperado uma parte importante da força. Antônio ficou parado olhando, os olhos atentos, como crianças olhavam para qualquer coisa que parecesse extraordinária.

Quando Gregório terminou, o menino sorriu.

— Papai está ficando forte.

Era um elogio.

Gregório sabia.

Mesmo assim, sentiu como uma pancada.

Ficando.

Na memória do próprio filho, ele não era o homem forte que adoecera. Era o homem fraco que agora começava a melhorar.

Antônio tinha aprendido a ter cuidado com ele. Quando o abraçava, algumas vezes ainda o fazia devagar. Quando Gregório se levantava depressa, o menino perguntava se estava bem. Se alguma coisa caía no chão, Antônio corria para pegar antes que o pai precisasse se abaixar. Eram pequenos gestos de amor ensinados durante os dois anos de doença.

Gregório os odiava.

— Eu consigo — respondeu, mais seco do que pretendia.

Antônio parou.

— Tá bem.

Gregório viu imediatamente a confusão no rosto do filho.

Arrependeu-se.

Chamou-o e passou a mão pelos cabelos claros.

— Vem cá.

Antônio aproximou-se.

Gregório o colocou no colo, mesmo sentindo o esforço nos braços.

Precisava.

Precisava que o menino sentisse o peso dos braços do pai ao redor dele.

Precisava sentir que ainda era capaz de segurá-lo.

Viviane também continuava tratando Gregório de maneiras que antes pareceriam apenas carinho e agora o irritavam. Perguntava se havia tomado os medicamentos. Observava quando ele ficava pálido. Insistia para que não exagerasse nos exercícios. Se ele tossia, olhava imediatamente. Quando uma viagem surgia, perguntava se o médico já havia autorizado deslocamentos longos.

Gregório sabia que ela fazia aquilo porque o amava.

Esse conhecimento não diminuía a humilhação.

— Vivi, eu estou bem.

— Eu sei.

— Então para de me olhar assim.

— Assim como?

Ele não sabia explicar. Como se pudesse quebrar. Como se ainda estivesse doente. Como se ela soubesse coisas sobre o corpo dele que homem algum gostaria que outra pessoa soubesse.

Viviane tinha visto tudo.

Tinha segurado sua cabeça enquanto vomitava. Tinha ajudado quando ele mal conseguia se levantar. Vira sua queda de cabelo, seu emagrecimento, sua fraqueza e a falha sexual que começara antes mesmo do diagnóstico. Sabia que o tratamento provavelmente o tornara infértil. Sabia que, em determinados meses, ele precisara dela até para fazer coisas que antes realizava sem pensar.

E agora era ela quem conduzia sua empresa.

A soma de tudo aquilo começou a se tornar insuportável.

Os encontros dos Fortenelle também mudaram aos olhos dele.

Talvez os homens não tivessem mudado nada.

Talvez fosse justamente esse o problema.

Severino continuava falando de carros antigos e dos projetos industriais que gostava. Getúlio ainda viajava sempre que podia e voltava contando novidades. Jurandir permanecia escandalosamente satisfeito em trabalhar apenas o necessário para manter a vida confortável que adorava. Domingos comprava presentes, ria alto e parecia incapaz de levar o patrimônio familiar com a seriedade que Gregório acreditava que uma riqueza daquela dimensão merecia. Juninho continuava esperando pela hora de ir embora para cuidar dos barcos.

Gregório passou a enxergá-los de outra maneira.

Acomodados.

Preguiçosos.

Homens que tinham recebido uma fortuna e nunca precisaram lutar de verdade para multiplicá-la.

E agora estavam ainda piores porque Viviane fazia o trabalho pesado por todos eles.

Em algumas tardes de domingo, Gregório observava os cunhados e sogros comendo demais, bebendo, discutindo viagens e hobbies enquanto a empresa decolava sob o comando de Viviane e sentia uma irritação quase física.

Aquela família tinha tudo.

E não valorizava nada.

Ele, sim, tinha valorizado.

Ele havia entrado na Fort Group cheio de ideias.

Ele enxergara desperdícios.

Ele pressionara mudanças.

Ele incentivara Viviane a entrar quando ninguém mais parecia disposto a deixá-la.

Essa parte começou a ganhar um peso particular em sua cabeça.

Eu coloquei Viviane ali.

A frase aparecia cada vez com mais frequência.

Se ele não tivesse aceitado a ideia dela de trabalhar como sua secretária naquela noite, talvez ela nunca tivesse entrado daquele jeito.

Se não a tivesse apoiado, talvez Alcides continuasse mantendo a filha longe.

Se não tivesse mostrado números a Viviane, conversado com ela, levado contratos para casa, incentivado perguntas...

Gregório começou a se sentir responsável pelo próprio deslocamento.

Ele tinha preparado o terreno para a mulher que agora ocupava o lugar que deveria ser dele.

Viviane circulava pela Fort Group com o queixo erguido, entrando em reuniões sem pedir licença, dando entrevistas, sendo procurada por homens que antes teriam esperado uma resposta de Gregório. Ele sabia que ela havia conquistado aquilo. Sabia também que não fazia nada deliberadamente para diminuí-lo.

Mesmo assim, a ressentia.

Não contou a ela.

Não contou a Alcides.

Não falou com nenhum Fortenelle.

Guardou.

Até visitar o pai.

O pai de Gregório continuava sendo um advogado respeitadíssimo no Rio de Janeiro, um homem acostumado a entrar em salas e ser ouvido, a falar com juízes, empresários e políticos sem jamais parecer menor que ninguém. Gregório crescera admirando aquilo. Mesmo adulto, havia uma parte dele que ainda buscava aprovação naquele olhar.

A visita começou normalmente.

Conversaram sobre trabalho, sobre o tratamento, sobre os exames de acompanhamento. O pai perguntou se Gregório já havia recuperado completamente a saúde e ele respondeu que sim com mais firmeza do que verdade.

Em algum momento, o assunto chegou à Fort Group.

O pai fez uma pergunta sobre a presidência.

Gregório explicou.

Viviane continuaria.

Ele ficaria na vice-presidência.

O silêncio do pai foi longo demais.

Gregório percebeu.

— O quê?

O homem colocou o copo sobre a mesa.

— Nada.

— Fala.

— Você quer mesmo que eu fale?

Gregório se irritou antes mesmo de ouvir.

— Quero.

O pai olhou para ele.

— Eu sinto vergonha de ver você assim.

A frase foi tão inesperada que Gregório demorou a responder.

— Assim como?

— Desse jeito.

— Vice-presidente de uma das maiores empresas do país?

O pai soltou uma risada sem humor.

— Você sabe do que eu estou falando.

Gregório sentiu o corpo ficar rígido.

— Não. Não sei.

— Todo mundo sabe.

— Sabe o quê?

O homem se inclinou um pouco para a frente.

— Que você perdeu o controle da própria vida.

Gregório ficou em silêncio.

O pai continuou.

— Da sua empresa. Da sua casa. Do seu nome.

— Aquela empresa nunca foi minha.

— Exatamente.

A palavra doeu.

— Você passou anos trabalhando para uma família que nunca vai considerar você um deles de verdade. Agora sua mulher senta na cadeira principal e você anda atrás dela com um cargo bonito para não ficar feio.

Gregório sentiu o rosto esquentar.

— Viviane não me deu cargo nenhum.

— Pior. O pai dela deu.

— O conselho decidiu.

— Claro.

O pai recostou-se.

— E você aceitou.

Gregório apertou a mandíbula.

— Eu estava doente.

— Você está sempre com uma explicação.

— Eu tive câncer.

— E venceu.

Gregório ficou olhando para ele. O homem não suavizou.

— Mas parece que deixou alguma coisa naquele hospital.

— O quê?

— Você.

A frase encontrou exatamente tudo que Gregório vinha tentando não olhar.

O pai não parou.

— Você era um homem com futuro. Formado, inteligente, bonito, com seu nome. Agora eu vejo meu filho sendo apresentado como marido de Viviane Fortenelle.

Gregório levantou-se.

— Cuidado.

— Está vendo? Ainda consegue ficar bravo.

— Eu mando na minha casa.

O pai levantou as sobrancelhas.

— Manda?

Gregório sentiu algo quase infantil dentro de si.

— Mando.

— Então por que seu filho não tem seu nome?

A pergunta o atingiu de maneira completamente diferente.

— Antônio é meu filho.

— Antônio é Fortenelle.

— Nós combinamos isso antes do casamento.

— Você combinou.

O pai balançou a cabeça lentamente.

— Abriu mão do próprio nome antes mesmo de seu filho nascer. Agora abriu mão da empresa. Amanhã vai abrir mão de quê?

Gregório não respondeu.

— Ele deveria ser Antônio Borborema. Você entregou sua própria linhagem.

Gregório sentiu raiva.

— Não fala do meu filho.

— Estou falando de você. — o pai levantou-se também. — Tenho outros filhos, graças a Deus.

Aquilo foi cruel o suficiente para fazer Gregório ficar imóvel.

— Porque se dependesse de você… — ele parou, como se a frase seguinte também o enojasse. — Você virou um cachorrinho daquela mulher.

Gregório avançou um passo.

— Não fala da Viviane assim.

— Está defendendo ela de mim? É disso que você precisa agora para se sentir homem? — o pai balançou a cabeça. — Eu olho para você e vejo um homem usando saia.

Gregório ficou branco.

A vergonha foi tão profunda que por alguns segundos nem encontrou raiva suficiente para responder.

O pai percebeu.

E completou:

— Você entregou tudo para os Fortenelle e ainda acha que eles te respeitam.

Gregório foi embora sem se despedir. Dirigiu por muito tempo sem saber exatamente por onde passava. A conversa continuava dentro da cabeça, frase após frase, repetindo-se com uma clareza cruel.

Marido de Viviane Fortenelle.

Antônio Fortenelle.

A empresa dos Fortenelle.

O dinheiro dos Fortenelle.

A casa comprada depois do casamento, em grande parte sustentada por uma fortuna Fortenelle.

Os empregados.

As viagens.

Os eventos.

Os contatos.

Até o lugar onde trabalhava.

O que, exatamente, era Gregório Borborema naquele mundo?

Ele tentou responder. Encontrou muito pouco que parecesse exclusivamente seu. Quando chegou em casa, estava tomado por uma raiva que não tinha direção clara.

Viviane percebeu no instante em que o viu.

— O que aconteceu?

— Nada.

Ela aproximou-se.

— Você foi ver seu pai?

— Fui.

— E?

— E nada.

Viviane estendeu a mão para tocar seu braço. Gregório se afastou. O gesto foi pequeno. Ela percebeu.

— Gregório?

— Eu só estou cansado.

Era a frase que usara durante meses antes do câncer.

Viviane ainda tinha memória suficiente daquela época para sentir um desconforto imediato.

— Aconteceu alguma coisa.

— Não aconteceu nada.

Ele queria encerrar. Ela, preocupada, continuou.

— Você está estranho.

Foi justamente a palavra errada.

Estranho. Fraco. Doente. Vice. Marido.

Gregório sentiu tudo de uma vez.

Virou-se para Viviane e, por um instante, viu não a mulher que amava, mas a pessoa diante de quem mais se sentia exposto.

Ela sabia demais sobre ele.

Sabia como tinha sido fraco.

Sabia como o corpo havia falhado.

Sabia que talvez jamais pudesse lhe dar outro filho.

Sabia que a empresa funcionara melhor em suas mãos.

Talvez tivesse contado à família.

A ideia apareceu sem qualquer prova.

Talvez os Fortenelle soubessem de suas falhas na cama.

Talvez rissem.

Talvez aquele jeito satisfeito dos tios nas reuniões tivesse um significado que Gregório nunca percebera.

A razão desapareceu debaixo da vergonha.

— Para de me olhar assim.

Viviane franziu a testa.

— Assim como?

— Como se eu estivesse doente.

— Eu não estou...

— Está!

Ela recuou.

Gregório percebeu.

E aquilo, por algum motivo, lhe deu uma sensação breve de poder.

Não orgulho.

Poder.

Viviane tinha recuado.

Nos meses seguintes, pequenas coisas começaram a mudar entre eles.

Não tudo de uma vez.

Se tivesse acontecido de uma vez, talvez Viviane percebesse mais cedo.

Gregório continuava sendo carinhoso em muitos dias. Ainda levava presentes. Ainda brincava com Antônio. Ainda podia fazê-la rir durante o jantar. Havia fins de semana aparentemente normais e noites em que os dois conversavam como antes.

Só que outras noites começaram a ser diferentes.

Na intimidade, Gregório passou a procurar Viviane com uma urgência que no começo ela interpretou como um retorno do desejo perdido durante a doença.

Isso a deixou feliz.

Por pouco tempo.

Havia alguma coisa diferente na maneira como ele a tocava.

Menos atenção.

Mais força.

Como se estivesse tentando provar alguma coisa.

Na primeira vez em que Viviane disse que estava machucando, Gregório diminuiu.

Pediu desculpas.

Ela não pensou muito.

Na segunda, demorou mais.

— Gregório, devagar.

Ele continuou por alguns segundos antes de obedecer.

Depois disse que tinha se empolgado.

Viviane aceitou. Mas começou a sentir um pequeno medo antes de algumas noites.

O pior foi quando a brutalidade deixou de ser acidente.

Gregório a procurava e parecia precisar que ela cedesse no ritmo que ele queria. Se Viviane pedia para parar, ele se irritava. Se dizia que doía, às vezes respondia que ela estava exagerando. Em algumas ocasiões, segurava seus braços com força demais ou mandava que ficasse quieta.

Viviane começou a perceber que não se tratava apenas de desejo.

Gregório estava usando aqueles momentos para reafirmar alguma coisa que ela não compreendia.

Era ali, dentro do quarto, longe da empresa, do conselho, dos jornais, dos Fortenelle e da cadeira onde Viviane sentava durante o dia, que Gregório parecia precisar provar que ainda podia comandar.

O corpo dela tornou-se o lugar onde ele buscava uma autoridade que sentia ter perdido em todo o restante.

Ele não formulava aquilo dessa maneira.

Não pensava: vou machucá-la para me sentir homem.

A mente humana raramente oferece confissões tão claras.

Pensava que Viviane precisava parar de tratá-lo como doente.

Que ela era sua mulher.

Que não havia nada errado em um marido desejar a própria esposa.

Que estava apenas recuperando aquilo que o câncer lhe tirara.

Quando ela dizia não ou pedia que diminuísse, a recusa atingia exatamente a ferida que ele tentava esconder.

Fraqueza.

Impotência.

Falta de controle.

E Gregório reagia aumentando a força justamente quando deveria parar.

Viviane também não tinha palavras prontas para aquilo.

Era seu marido.

O mesmo homem que a buscara na escola com flores. O homem que segurara Antônio pela primeira vez. O homem de quem cuidara durante dois anos para impedir que morresse.

Ela demorou a entender que alguma coisa grave estava acontecendo porque continuava procurando o Gregório antigo dentro daquele comportamento.

Talvez fosse trauma.

Talvez fosse o medo depois do câncer.

Talvez estivesse zangado com a vida.

Talvez precisasse de tempo para se sentir normal novamente.

Viviane explicava.

Porque explicar ainda era mais suportável do que admitir que começava a ter medo do próprio marido.

Gregório nunca falou com ela sobre a conversa com o pai.

Nem sobre a vergonha.

Nem sobre a vice-presidência.

Nem sobre o nome de Antônio.

Nem sobre o ressentimento pelos Fortenelle.

Não contou que, algumas vezes, entrava numa festa da família e sentia vontade de ir embora assim que via todos felizes.

Mas encontrou alguém para quem começou a falar.

Antônio.

O menino tinha cinco anos.

Ainda era pequeno demais para compreender o peso das palavras do pai, e talvez fosse justamente por isso que Gregório escolhesse falar com ele.

Antônio não discutia.

Não julgava.

Não podia compará-lo com Viviane.

Era seu filho.

Seu sangue.

Gregório começou de maneira aparentemente inocente.

Enquanto brincavam, dizia:

— Você sabe que é Borborema também, não sabe?

Antônio levantava os olhos.

— Eu sou Fortenelle.

— Também.

— Mamãe é Fortenelle.

— Eu sei.

Gregório tentava sorrir.

— Mas você é meu filho. Tem meu sangue.

Antônio assentia sem entender. Alguns dias depois, Gregório voltava ao assunto.

— Seu avô Alcides gosta muito de você.

— Gosta.

— Seus tios também.

— O tio Domingos me deu um carrinho.

Gregório fazia um carinho nos cabelos dele.

— Eles dão muita coisa.

— Dão.

— Mas não quer dizer que eles sabem tudo.

Antônio já tinha voltado para o brinquedo.

Gregório continuava falando. Com o tempo, as frases ficaram piores. Os Fortenelle eram acomodados. Os Fortenelle tinham dinheiro porque Geraldo trabalhara, não porque os filhos fossem extraordinários. Os tios de Viviane eram preguiçosos. A mãe trabalhava demais porque gostava de mandar. O avô Alcides sempre achava que sabia o que era melhor para todo mundo.

Gregório nunca dizia aquilo diante de Viviane.

Só para Antônio.

O menino ouvia como ouvia histórias de adultos que não compreendia inteiramente.

Às vezes repetia alguma coisa nos desenhos.

Desenhava o avô com um rosto bravo porque o pai dissera que Alcides mandava em todo mundo. Fazia Jurandir dormindo porque Gregório o chamara de preguiçoso. Uma vez desenhou Viviane muito grande diante de uma mesa e Gregório menor ao lado.

Quando a mãe perguntou o que era, Antônio respondeu:

— Você manda na empresa.

Viviane sorriu.

Não viu nada além disso.

O menino também não.

Antônio amava a mãe.

Amava os tios.

Amava o avô.

Amava o pai.

Uma crítica de Gregório não se transformava automaticamente numa verdade dentro dele. Aos cinco anos, o mundo ainda era muito maior que as frustrações de um adulto. Mas Gregório começou a tratar a educação do filho de outra maneira.

Não queria que Antônio se tornasse como os Fortenelle.

Essa passou a ser uma obsessão silenciosa.

Quando o menino desistia de uma brincadeira porque estava difícil, Gregório o fazia voltar.

— Termina.

— Não quero mais.

— Não perguntei se quer.

Viviane, se estava perto, interferia.

— Ele tem cinco anos.

Gregório respondia:

— É assim que começa.

— Começa o quê?

Ele não explicava.

Quando Antônio perdia alguma coisa, Gregório não gostava de vê-lo simplesmente aceitar.

— Você podia ter ganhado.

— Mas eu perdi.

— Então faz melhor na próxima.

O menino aprendia a olhar para o pai antes de comemorar um segundo lugar.

Gregório começou a repetir frases que, para ele, pareciam ensinamentos.

— Você precisa ser o melhor.

— Por quê?

— Porque ninguém respeita quem fica para trás.

Antônio não entendia.

Gregório continuava.

— Você é meu filho. Não quero você crescendo achando que tudo cai no seu colo.

Viviane ouvia ocasionalmente e achava que o marido estava apenas sendo rígido. Ainda não percebia que Gregório não estava educando Antônio apenas para o mundo. Estava educando o filho contra uma família inteira. Queria criar nele tudo aquilo que acreditava que os Fortenelle não possuíam.

Ambição.

Competitividade.

Resistência.

A necessidade de vencer.

E, acima de tudo, uma masculinidade que Gregório sentia ter deixado escapar das próprias mãos.

Antônio era pequeno demais para compreender qualquer uma dessas coisas.

Para ele, o pai apenas ficava mais sério quando falava de ganhar.

A mãe continuava enchendo seu rosto de beijos.

Os tios continuavam trazendo presentes.

O avô Alcides ainda o colocava no colo.

A vida ainda era boa.

Mas, pela primeira vez, dentro daquela criança que crescera acreditando que o mundo inteiro sorria quando ele sorria, alguém começava a plantar uma ideia diferente.

Talvez não bastasse ser amado.

Talvez fosse preciso ser o melhor para merecer continuar sendo.

Antônio tinha seis anos quando descobriu, pela primeira vez, que querer muito uma coisa não significava recebê-la.

Até aquele momento, príncipes lhe pareciam quase uma extensão natural de si mesmo. Gostava das histórias, das capas, das coroas, dos cavalos e, principalmente, da maneira como todos olhavam para um príncipe quando ele entrava em algum lugar. Nos aniversários, sempre acabava vestido como um. Viviane fazia questão das festas bonitas, os tios exageravam nos presentes e alguém sempre encontrava um modo de colocar uma coroa na cabeça daquele menino loiro, de olhos verdes e sorriso fácil que aprendera muito cedo a gostar quando diziam que parecia saído de algum livro. Por isso, quando a escola anunciou que faria uma peça e que haveria um príncipe, Antônio não pensou propriamente que gostaria do papel. Pensou que seria seu. Não por arrogância consciente; aos seis anos, ele ainda não sabia organizar sentimentos dessa maneira. Era apenas a lógica que conhecia. Havia um príncipe. Ele gostava de príncipes. Era bom nas falas que ensaiara. Os adultos sempre lhe diziam que era bonito, inteligente, educado. Portanto, seria o príncipe.

Fez a audição com essa certeza. Subiu ao pequeno palco, repetiu suas falas com a voz firme que havia treinado e terminou satisfeito. Entre as crianças esperando estava um menino de cabelos escuros que Antônio já conhecia de vista, Heitor Monteiro. Heitor chegou a aplaudi-lo quando desceu, coisa à qual Antônio mal prestou atenção. Naquela idade, Heitor ainda não significava nada para ele. Era só mais um menino da escola, um pouco barulhento demais, com o cabelo quase sempre fora do lugar e aquela facilidade irritante de conversar com qualquer pessoa como se já fossem amigos havia anos. Antônio saiu da audição pensando no figurino que usaria, em como seria a coroa e em quantas pessoas da família apareceriam para assistir.

Descobriu então que seria o Camponês.

Entrou no carro com o pequeno caderno da peça apertado contra o peito e uma raiva que ainda não sabia esconder. O motorista mal havia fechado a porta quando Viviane percebeu o rosto do filho. Ela tinha conseguido sair da Fort Group mais cedo para acompanhá-lo naquele dia e estava ao lado dele no banco de trás, ainda com a roupa social do trabalho e os cabelos claros impecavelmente arrumados. Antônio sentou-se, cruzou os braços e ficou olhando pela janela.

— O que aconteceu?

— Nada.

Viviane esperou apenas alguns segundos.

— Filho.

Ele conhecia aquele tom. Não era uma bronca, mas significava que ela não aceitaria “nada” como resposta. Antônio puxou o caderno de dentro da mochila e praticamente o colocou no colo dela.

— Eu não sou o príncipe.

Viviane olhou para a capa.

— Não?

— Não.

— E quem você vai ser?

A palavra saiu como se fosse uma ofensa.

— Camponês.

Viviane abriu o caderno. Antônio esperava que ela entendesse imediatamente a gravidade do acontecimento. Em vez disso, começou a folhear as páginas.

— Olha só.

Ele virou o rosto para ela, desconfiado.

— O quê?

— Você tem bastante fala.

— Mas eu sou o Camponês.

— Eu vi.

— O príncipe é melhor.

Viviane continuou lendo por mais alguns segundos. Depois fechou o caderno sobre as pernas e olhou para o filho.

— Por quê?

Antônio não estava preparado para precisar explicar.

— Porque ele é príncipe!

— Isso eu entendi. Mas por que é melhor?

Ele abriu a boca e não respondeu.

Era melhor porque... era.

Viviane percebeu a hesitação e sorriu.

— Sabe qual é a vantagem do Camponês?

Antônio fez uma cara que deixava claro que duvidava da existência de qualquer vantagem.

— Qual?

— O príncipe só pode ser príncipe.

Ela abriu novamente o caderno e apontou para algumas partes da história.

— O Camponês pode aprender coisas. Pode viajar. Pode ficar rico. Pode virar soldado. Pode salvar alguém. Pode até virar rei um dia, dependendo da história. Ele pode ser um monte de coisas. O príncipe começa príncipe e termina príncipe.

Antônio pensou.

Viviane continuou, aproveitando que finalmente havia conseguido sua atenção.

— E olha aqui. O Camponês aparece quase tanto quanto ele. Você não pegou um papel ruim. Pegou outro papel.

— Mas ele não usa coroa.

— Isso realmente é um problema grave.

Antônio olhou para a mãe.

Viviane mantinha a expressão perfeitamente séria.

— Muito grave.

Ele começou a sorrir contra a própria vontade.

— Mamãe.

— O quê? Você tem várias em casa. Se for indispensável, usa uma depois.

Antônio riu.

A raiva começou a perder força quase tão depressa quanto surgira. Aos seis anos, ainda era fácil deslocar uma frustração. A mãe abriu o caderno novamente e passou a ler algumas falas com ele, exagerando as partes que considerava interessantes, dizendo que o Camponês era corajoso e que, na verdade, talvez fosse até mais difícil interpretá-lo porque não bastava colocar uma coroa e ficar bonito.

— Eu consigo.

— Claro que consegue.

— Melhor que o outro menino.

Viviane olhou para ele.

— Você não precisa ser melhor que ninguém. Precisa fazer o seu bem.

Antônio pensou mais um pouco.

— Eu vou fazer muito bem.

— Isso.

Quando chegaram em casa, ele já estava muito mais interessado na ideia de apresentar o Camponês do que na perda do papel de Príncipe. Desceu do carro segurando a mão da mãe e falando sobre uma das cenas, enquanto Viviane prometia que, depois do ensaio da semana seguinte, poderiam ir ao parque e comprar alguma coisa gostosa no caminho. Antônio perguntou se podia escolher a sobremesa daquela noite. Viviane permitiu e ele entrou na casa praticamente saltando.

Gregório os esperava.

Estava perto da entrada, mais forte do que estivera no ano anterior, embora ainda houvesse alguma magreza no rosto que a doença deixara. Antônio percebeu imediatamente que o pai estava olhando para ele e correu alguns passos.

Gregório sorriu.

— E aí? Conseguiu?

Antônio assentiu.

— Consegui!

O sorriso de Gregório aumentou.

— Eu sabia. Você vai ser um excelente príncipe. Depois do jantar a gente pode treinar suas falas.

Antônio hesitou.

Viviane, ao lado, percebeu.

— Conta para o papai.

O menino levantou os olhos.

— Eu não vou ser o príncipe.

Gregório demorou um instante.

— Não?

— Vou ser o Camponês.

A mudança no rosto do pai foi pequena, mas Antônio viu. O sorriso desapareceu. Gregório olhou para Viviane, depois novamente para o filho.

— Quem ficou com o Príncipe?

Antônio deu de ombros.

— Outro menino.

— Que menino?

— Não sei.

Viviane interveio com naturalidade.

— Ele fez uma ótima audição. O papel do Camponês também é grande. Nós já estávamos lendo no carro.

Gregório não respondeu a ela. Continuou olhando para Antônio.

— Você não sabe o nome dele?

Antônio tentou lembrar. Tinha visto o menino várias vezes, mas naquele momento realmente não sabia.

— Não.

Gregório permaneceu em silêncio por mais alguns segundos. Então se abaixou um pouco para ficar mais próximo da altura do filho.

— Da próxima vez, seja melhor que ele.

Antônio piscou. Gregório não falou com raiva. Talvez por isso a frase tenha entrado tão fundo.

— Mesmo sem saber quem é — acrescentou. — Se você quer um lugar, não dá motivo para darem para outra pessoa.

Viviane franziu ligeiramente a testa.

— Gregório, eles têm seis anos.

Ele se levantou.

— E?

— É uma peça de escola.

Gregório deu de ombros.

— Estou só ensinando uma coisa para ele.

Depois tocou brevemente a cabeça de Antônio e entrou.

Viviane olhou para o filho.

— Não liga. Seu pai leva competição a sério demais. — beijou o alto de sua cabeça. — Vou pedir sua sobremesa. Depois quero ouvir as falas do Camponês.

Antônio sorriu para ela. Mas alguma coisa já tinha mudado.

Durante o caminho de volta, ele tinha deixado de sentir que perdera. A mãe lhe mostrara outro jeito de olhar. O Camponês não era pior. Era diferente. Podia ser qualquer coisa. Tinha falas boas. Participava da história. Antônio já estava até um pouco orgulhoso do papel.

Agora havia uma nova pergunta.

Por que o outro menino tinha sido melhor?

Foi a primeira vez que a frustração deixou de ser apenas frustração e ganhou o gosto de fracasso.

Nos ensaios, Antônio descobriu o nome.

Heitor.

Heitor Monteiro.

Era o menino dos cabelos escuros e olhos azuis que tinha assistido à sua audição e batido palmas quando ele terminara.

Antônio começou a prestar atenção nele.

E isso não ajudou.

Heitor não parecia levar o papel com a solenidade que Antônio considerava necessária. Brincava antes do ensaio, conversava com o menino que fazia uma árvore, esquecia a capa em qualquer lugar e precisava ser chamado mais de uma vez para voltar à posição. Mesmo assim, quando a professora pedia que começassem, alguma coisa mudava. Heitor entrava na cena com facilidade. Falava como se não estivesse repetindo frases decoradas. Olhava para as pessoas. Sorria nos momentos certos. E, pior, as professoras gostavam.

Antônio começou a corrigir Heitor mesmo quando não havia muito o que corrigir.

— Você falou errado.

Heitor franzia a testa.

— Falei?

— Falou.

— A professora não disse nada.

— Mas falou.

Heitor aceitava com uma facilidade irritante.

— Tá bom. Na próxima eu faço melhor.

Não discutia.

Não ficava bravo.

Isso incomodava Antônio sem que ele entendesse por quê.

Ele queria que Heitor soubesse que o papel poderia ter sido dele.

Só que Heitor nem parecia saber que existia uma disputa.

À noite, Gregório perguntava.

— Como foi?

Antônio respondia.

— Bem.

— E o príncipe?

— Bem também.

Gregório olhava para ele.

— Melhor que você?

Antônio sentia alguma coisa apertar no peito.

— Não.

— Então mostra isso.

Era sempre pouco. Uma frase no jantar. Um comentário no carro. Uma pergunta antes de dormir.

Gregório não sentava o filho diante de uma mesa para ensinar rivalidade. Fazia algo muito mais eficiente sem perceber: ensinava Antônio a interpretar pequenos acontecimentos por esse filtro.

Se alguém recebia elogio, Gregório perguntava por que não tinha sido ele. Se outra criança fazia alguma coisa melhor, dizia que Antônio podia superar. Quando o filho falava que havia perdido num jogo, a primeira pergunta era:

— Para quem?

Depois:

— Por quê?

Viviane também gostava que Antônio se esforçasse, mas fazia de outro jeito.

— Você se divertiu? Aprendeu? Fez o seu melhor?

Gregório perguntava:

— Ganhou?

A apresentação chegou cercada por uma expectativa que Antônio já não sabia administrar.

A família inteira estava ali.

Viviane tinha se organizado para não perder nem um minuto. Alcides apareceu. Ivone. Alguns tios e tias. O menino conseguia identificar vários rostos conhecidos no teatro e isso normalmente o faria feliz.

Naquela noite, porém, procurava principalmente um.

Gregório.

Encontrou o pai sentado perto da mãe e decidiu que faria tudo certo. Não queria que Gregório pensasse que o outro menino merecia ter sido príncipe. Queria terminar e ver no rosto dele alguma coisa que dissesse que tinham cometido um erro.

A pressão, que não deveria existir num menino de seis anos durante uma peça escolar, começou a fazer exatamente o contrário.

Antônio conhecia suas falas.

Tinha ensaiado dezenas de vezes.

Mas, em determinado momento, olhou para a plateia, encontrou o pai e a frase simplesmente desapareceu.

Foram apenas alguns segundos.

Para qualquer pessoa assistindo, talvez mal tivesse importância. Antônio recuperou-se, falou e continuou. A professora não precisou interromper. A peça seguiu.

Para ele, pareceu enorme.

Heitor, em contraste, parecia cada vez mais confortável.

O menino caminhava pelo palco com aquela roupa azul, falava com firmeza, reagia aos outros personagens e, sempre que fazia alguma coisa particularmente boa, a plateia respondia.

Risos.

Palmas.

Sorrisos.

Antônio começou a ouvir cada aplauso como uma comparação.

Nem precisava olhar para Gregório para imaginar o que o pai estava pensando.

Ele é melhor que você.

Gregório nunca havia dito exatamente aquilo.

Não precisava.

Quando chegou a cena final, Antônio já estava tenso.

Era uma cena que tinha ensaiado.

Conhecia perfeitamente.

O Camponês deveria se ajoelhar diante do Príncipe e, em seguida, a história mostraria que os dois tinham o mesmo valor. A professora explicara inúmeras vezes que a cena não significava inferioridade; justamente o contrário. O gesto servia para que o Príncipe o levantasse e declarasse igualdade entre eles.

Durante os ensaios, Antônio fizera.

Na apresentação, olhou para Heitor.

Viu a coroa.

Ouviu a plateia silenciosa esperando.

E alguma coisa dentro dele simplesmente recusou.

Se ajoelhar diante daquele menino pareceu, naquele instante, confirmar tudo aquilo que tentava negar desde que recebera o papel.

Heitor era o Príncipe. Ele era o Camponês.

Heitor tinha conseguido o lugar que Antônio queria.

Heitor estava sendo mais aplaudido.

E agora Antônio ainda precisava se ajoelhar diante dele.

Ficou parado.

Heitor sussurrou alguma coisa, tentando ajudá-lo.

Antônio não se mexeu. Os segundos cresceram. A vergonha subiu pelo pescoço. Então Heitor fez uma coisa que Antônio jamais esqueceria.

Ajoelhou-se.

Ele próprio.

Diante do Camponês.

Pegou a mão de Antônio e improvisou a cena, transformando o erro numa declaração de igualdade entre os dois.

A plateia explodiu.

Foi o maior aplauso da noite.

Antônio ficou imóvel enquanto o teatro inteiro parecia se apaixonar por Heitor Monteiro.

Ali, aos seis anos, sem possuir palavras adultas para organizar o que sentia, Antônio conheceu uma emoção muito específica: a humilhação de ser salvo justamente pela pessoa que ele queria superar.

Heitor não tinha feito aquilo para humilhá-lo. Antônio só entenderia essa possibilidade muito mais tarde. Naquela hora, parecia pior. Porque Heitor não apenas tinha vencido o papel. Tinha salvado a cena que Antônio estragara.

Quando as cortinas fecharam, a família de Antônio ainda o recebeu como se tivesse sido brilhante.

Viviane foi a primeira.

Abraçou-o.

Beijou seu rosto.

— Você estava lindo!

Antônio deixou.

Alcides elogiou.

Ivone também.

Os tios falaram ao mesmo tempo.

Alguém disse que o Camponês era um dos melhores personagens. Viviane lembrou, satisfeita:

— Eu falei.

Antônio chegou até a sorrir.

Aquela família tinha uma capacidade impressionante de fazer qualquer criança acreditar que havia acabado de conquistar o mundo.

Por alguns minutos, funcionou.

Então ouviu o nome de Heitor outra vez.

Uma professora comentava a improvisação. Alguém dizia que o menino tinha presença. Outra pessoa queria tirar foto com o Príncipe. Até as meninas da escola se aproximavam.

Antônio olhou.

Heitor estava cercado.

O sentimento voltou.

Ele se afastou para os bastidores e encontrou uma caixa de papelão.

Chutou.

Não tinha força suficiente para fazer grande estrago.

Chutou novamente.

Era injusto.

Não sabia exatamente o que era injusto, mas era.

Ele tinha ensaiado. Ele tinha tentado. Sua família inteira tinha ido vê-lo. Ele queria que o pai ficasse orgulhoso. E todo mundo falava do outro menino.

Ouviu passos.

Virou-se.

Heitor.

Antônio sentiu a raiva aumentar só por vê-lo.

Heitor, porém, não parecia ter vindo provocar.

Estava sem a coroa e tinha aquele mesmo sorriso aberto de sempre.

Disse que Antônio tinha ido bem.

Antônio não respondeu.

Heitor então fez o que provavelmente faria com qualquer criança de quem gostasse.

Apresentou-se direito.

Heitor Monteiro.

E estendeu a mão.

Perguntou se podiam ser amigos.

Antônio olhou para aquela mão.

Talvez, se tudo tivesse terminado no carro com a mãe, ele aceitasse.

Talvez se Gregório apenas tivesse dito que estava orgulhoso, aceitasse.

Talvez se Antônio ainda enxergasse o Camponês como a mãe lhe ensinara — outro personagem, não um papel inferior —, aquele dia terminasse com duas crianças brincando juntas.

Mas agora a mão diante dele pertencia ao menino que tinha ocupado o lugar que Antônio queria.

O menino que tinha sido aplaudido.

O menino que precisara salvar sua cena.

Antônio bateu na mão de Heitor.

— Nunca vou ser seu amigo.

Saiu antes que o outro respondesse.

Ainda não odiava Heitor.

Não de verdade.

Tinha seis anos.

Provavelmente nem sabia o que seria odiar alguém durante vinte ou trinta anos.

Naquele momento, estava apenas envergonhado.

Na comemoração que os Fortenelle organizaram depois, a sensação começou a desaparecer de novo. Havia comida, familiares, presentes pequenos pela apresentação e adultos interessados demais em ouvir Antônio repetir alguma fala. Domingos fez uma encenação horrorosa do Príncipe que o fez rir. Juninho perguntou se o Camponês tinha barco de pesca. Getúlio afirmou que, se tivesse, certamente seria personagem mais importante. Viviane repetiu que ele tinha sido ótimo até Antônio finalmente acreditar um pouco.

Quando foi dormir, já estava quase bem.

Crianças tinham essa capacidade.

Gregório não deixou a experiência morrer completamente.

Não falou de Heitor imediatamente.

Não precisava.

Sentou-se perto do filho em outra noite e perguntou sobre a peça.

— Gostou de ser o Camponês?

Antônio pensou.

— Gostei.

Gregório assentiu.

— Mas queria ser o Príncipe.

— Queria.

— E quem ficou?

Antônio já sabia o nome.

— Heitor.

Gregório guardou.

— Heitor o quê?

— Monteiro.

— Entendi. — passou a mão pelos cabelos do filho. — Você sabe que não tem nada de errado em perder uma vez, não sabe?

Antônio olhou para ele.

A frase parecia gentil.

— Sei.

Gregório continuou:

— Desde que você entenda por que perdeu.

Antônio ficou em silêncio.

— Quando alguém ocupa um lugar que você queria, aquela pessoa tomou alguma coisa que podia ter sido sua.

Ele falou calmamente, como se estivesse ensinando uma regra simples do mundo.

— Não significa que você precisa ficar chorando. Significa que da próxima vez precisa estar tão preparado que ninguém consiga escolher outro.

Antônio pensou em Heitor usando a coroa.

— Então ele pegou meu papel?

Gregório fez uma pausa. Poderia ter corrigido. Poderia dizer que o papel nunca tinha sido de Antônio.

Em vez disso respondeu:

— Ele ficou com o lugar que você queria.

Para uma criança, a diferença era pequena demais.

Nos meses seguintes, o nome Heitor começou a surgir de vez em quando. Não porque Gregório fosse obcecado pelo menino; naquele momento, não era. Mas Antônio começara a usar Heitor como referência antes mesmo de perceber.

Heitor tinha sido escolhido.

Heitor tinha sido elogiado.

Heitor era lembrado pela improvisação.

E Gregório ensinava o filho a olhar para aquilo não com curiosidade, mas como medida.

— Se ele consegue, você consegue melhor.

Era uma frase aparentemente motivadora.

Antônio gostava quando o pai dizia.

Fazia com que se sentisse grande.

Especial.

Capaz.

Só que, aos poucos, “fazer bem” começou a perder valor. Precisava fazer melhor. Se ficava em segundo lugar num jogo, queria repetir. Se um primo sabia alguma coisa que ele não sabia, perguntava até aprender. Se errava uma conta, amassava o papel. Se perdia, ficava irritado.

Viviane percebeu.

Não se assustou.

Via muito de si mesma naquele menino.

Ela também sempre gostara de fazer as coisas bem. Geraldo, seu avô, detestava precisar consertar duas vezes. A própria família tinha uma longa história de homens técnicos, metódicos e orgulhosos do que construíam.

Quando Antônio insistia até conseguir alguma coisa, Viviane sorria.

— Teimoso igual à mim.

Quando queria refazer um desenho porque uma linha tinha saído errada, ela dizia que não precisava ficar perfeito. Mas secretamente se orgulhava da dedicação.

Não conseguia enxergar o que havia de perigoso porque, naquela idade, quase não havia nada.

Antônio ainda brincava. Ainda ria. Ainda perdia e esquecia algumas horas depois. Ainda corria para a mãe quando se machucava e se enfiava no colo dela quando estava cansado. Ainda adorava os tios, os avós e os primos.

Heitor ainda era apenas um menino da escola que o incomodava mais do que os outros.

O que Viviane não via eram as pequenas conversas que aconteciam quando ela não estava por perto.

Gregório ajeitando a gola da camisa do filho antes de algum evento.

— Você é um Borborema também.

Antônio olhando para ele.

— E Fortenelle.

A mandíbula de Gregório se contraía por um instante.

— Eu sei. Mas tem meu sangue.

Ou depois de alguma competição:

— Quem foi o melhor?

Antônio respondia. Às vezes era ele. Gregório sorria.

— Assim que eu gosto.

Às vezes não. E o sorriso desaparecia.

— Então da próxima vez seja você.

Para Gregório, aquilo era formar um homem diferente dos Fortenelle que desprezava. Um filho que não se acomodaria porque tinha dinheiro, que não aceitaria o segundo lugar, que não precisaria que ninguém lhe entregasse coisa alguma.

Para Antônio, era muito mais simples.

O pai ficava feliz quando ele ganhava.

A mãe ficava feliz quando ele estava feliz.

A diferença parecia pequena.

Só não era.

Aos seis anos, Antônio ainda não sabia que existiriam pessoas que perderiam e continuariam sorrindo.

Não sabia que Heitor seria uma delas.

E talvez tenha sido justamente isso que, anos depois, se tornaria tão impossível de suportar.

A Fort Group crescia numa velocidade que teria parecido improvável alguns anos antes. Os projetos tecnológicos deixavam de ser experiências e começavam a ocupar espaço real dentro do grupo, os contratos se multiplicavam, clientes que antes conheciam os Fortenelle apenas pelas áreas tradicionais agora procuravam a empresa por soluções que levavam o nome de Viviane associado à modernização. Ela era excelente com números, mas já não era apenas isso. Aprendera a administrar pessoas, identificar riscos, negociar, reconhecer quando alguém escondia um problema atrás de uma apresentação bonita e, principalmente, enxergar como decisões tomadas num setor repercutiam em todos os outros. Os tios apareciam cada vez menos na administração central. Severino continuava ligado ao que realmente lhe interessava, Getúlio acompanhava seus projetos, Jurandir fazia exatamente o necessário, Domingos preferia os negócios que lhe davam prazer e Juninho nunca fingira querer uma vida inteira dentro de um escritório. Nenhum deles parecia incomodado em deixar que Viviane conduzisse o conjunto. Pelo contrário. A empresa estava saudável, a família continuava recebendo seus dividendos e, para os Fortenelle, aquele sempre fora o objetivo. Viviane poderia ter usado a posição como desculpa para viver exclusivamente em função da Fort. Não usou. Continuava organizando a agenda em torno de Antônio sempre que podia, aparecia nas reuniões da escola, acompanhava apresentações, conhecia os nomes dos professores, sabia o que o filho gostava de comer e percebia quando ele estava diferente antes mesmo que dissesse alguma coisa. Também se esforçava para ser uma esposa presente. Era importante para ela. Talvez mais importante justamente porque começava a sentir que havia uma parte do casamento que não conseguia mais reconhecer.

Viviane ainda amava Gregório. Isso nunca esteve em dúvida para ela naquele período. Ele continuava capaz de ser carinhoso, continuava brincando com Antônio, ainda sabia fazê-la rir e, em muitos dias, parecia exatamente o homem que atravessara uma doença terrível e agora tentava reorganizar a própria vida. Era isso que tornava tudo tão difícil de nomear. Se tivesse se transformado num estranho de uma hora para outra, talvez Viviane tivesse entendido antes. Mas Gregório podia passar o domingo inteiro com o filho, levar flores para ela numa segunda-feira, beijar-lhe a testa antes de sair para o trabalho e, na quarta, transformar a intimidade dos dois em alguma coisa que fazia Viviane desejar que terminasse o mais depressa possível. Não era apenas falta de vontade. Havia noites em que ela sentia o corpo enrijecer antes mesmo que Gregório a tocasse, porque já sabia que ele poderia ignorar quando pedisse que fosse mais devagar, insistir quando ela dissesse que estava cansada ou agir como se sua dor fosse apenas uma dificuldade passageira que não precisava interromper nada. Viviane não dizia diretamente que não queria. Ainda não conseguia. Em vez disso, começou a dizer que estava com dor de cabeça, que havia sido um dia longo, que precisava acordar cedo, que estava exausta. Algumas vezes Gregório aceitava e virava para o outro lado. Em outras insistia, beijava-a, dizia que fazia tempo, perguntava por que ela estava sempre cansada. E havia noites em que Viviane cedia não porque passasse a desejar aquilo, mas porque lhe parecia mais simples suportar do que transformar o quarto em mais um lugar de conflito.

Depois ficava deitada em silêncio, olhando para o teto, tentando convencer a si mesma de que casamento também era feito de fases ruins.

Não sentia prazer. Muitas vezes sentia dor. E quanto mais antecipava que doeria, mais difícil ficava relaxar, o que tornava tudo ainda pior. Às vezes Gregório percebia que ela estava diferente e perguntava o que havia acontecido; Viviane dizia que nada. Em outras, ele parecia nem notar. Ela nunca pensava naquilo usando as palavras que usaria se estivesse ouvindo a história de outra mulher. Não dizia para si mesma que o marido estava desrespeitando sua vontade, muito menos que havia alguma forma de violência no que acontecia entre os dois. Pensava que Gregório estava traumatizado, que tinha passado dois anos vendo o próprio corpo deixar de lhe obedecer, que quase morrera, perdera a fertilidade, a presidência, a força e parte da identidade que construíra. Pensava que estava tentando se sentir homem novamente e que, talvez, a maneira como a procurava fosse apenas uma manifestação ruim de uma dor que ainda não sabia expressar. Viviane conhecia o Gregório que existira antes de tudo aquilo. Era nele que se agarrava. Se precisasse de paciência para que aquele homem voltasse, teria paciência. Se precisasse suportar algumas noites difíceis, suportaria. O pensamento nunca lhe pareceu heroico. Era apenas a maneira como tentava manter intacta uma história que ainda amava.

Gregório, porém, não pensava naquelas noites como Viviane.

Para ele, havia algo profundamente desconfortável na maneira como o próprio desejo se transformara depois da doença. Durante o tratamento, o corpo o havia traído de todas as maneiras possíveis. Houve meses em que não sentia vontade de nada, outros em que sentia desejo e não conseguia responder fisicamente, e isso havia se tornado uma lembrança humilhante demais para ser discutida. Viviane vira. Esse era o ponto que mais o incomodava. Ela conhecia a versão dele que perdera cabelo, peso, força, controle e capacidade sexual. Conhecia detalhes que nenhuma outra pessoa conhecia. Quando finalmente se recuperou o bastante para voltar a se exercitar, recuperar músculos e perceber mulheres olhando novamente, Gregório sentiu alguma coisa antiga despertar junto com a saúde.

No início, eram apenas olhares.

Ele os reconhecia porque sempre os reconhecera. Desde muito jovem, mulheres olhavam para Gregório. Era bonito demais para não perceber. Mesmo antes de Viviane, havia sido cortejado, convidado, provocado; aparecera em publicidade justamente porque o rosto funcionava diante de uma câmera e aprendera cedo que bastava sorrir de determinada maneira para conseguir atenção. Durante o casamento, isso nunca lhe parecera particularmente importante. Gostava de saber que era atraente, claro, mas tinha Viviane, estava apaixonado por ela e não precisava provar nada. Depois do câncer, porém, o mesmo olhar ganhou outro significado.

Uma mulher que não o conhecera doente não via um paciente.

Não sabia que ele já precisara da esposa para se levantar de uma cama.

Não sabia das noites em que o corpo falhara.

Não sabia que talvez jamais pudesse ter outro filho.

Via um homem alto, loiro, de olhos verdes, ainda elegante, recuperando o físico e ocupando a vice-presidência de uma das empresas mais conhecidas do país.

E desejava aquele homem.

Na primeira vez em que percebeu uma funcionária olhando para ele por tempo demais, Gregório sentiu uma satisfação que lhe pareceu desproporcional. Não fez nada. A mulher desviou os olhos, ele continuou andando, e aquilo poderia ter terminado ali. Só que passou o restante do dia lembrando.

No dia seguinte, quando a encontrou novamente, sorriu.

Ela sorriu de volta.

Foi assim que começou.

Não como uma paixão.

Nem como uma decisão consciente de ferir Viviane.

Começou com a sensação de voltar a ocupar o próprio corpo.

Gregório passou a reparar mais nas mulheres ao redor. Uma secretária de outro setor que ria com facilidade quando ele falava. Uma fornecedora que mantinha contato visual por tempo demais. Uma executiva divorciada que o elogiou depois de uma reunião e comentou, num tom aparentemente inocente, que ele parecia muito bem depois de tudo pelo que passara.

A frase ficou com ele.

Você parece muito bem.

Não “como está sua saúde?”

Não “você deve descansar.”

Não “tem certeza de que consegue viajar?”

Bem.

Homem.

Inteiro.

Gregório começou a prolongar conversas que antes encerraria.

Não se considerava infiel por isso.

Ainda não.

Dizia a si mesmo que apenas conversava. Gostava da atenção. Não devia explicações por perceber que continuava atraente. Viviane era admirada por homens o tempo inteiro e ele precisava aceitar. Por que seria diferente com ele?

A diferença era que Gregório passou a procurar aquilo.

Escolhia sentar perto de determinada mulher num evento. Demorava alguns minutos a mais numa conversa. Fazia um elogio que sabia exatamente como seria entendido. Testava.

E funcionava.

A primeira vez que cruzou a linha veio quase um ano depois de o ressentimento ter começado a se instalar de verdade.

Foi banal o suficiente para tornar tudo pior.

Não havia amor.

Não havia futuro.

Não havia uma mulher extraordinária capaz de ameaçar o lugar de Viviane.

Havia apenas Gregório e uma mulher que o queria.

Depois, sozinho, ele deveria ter sentido culpa primeiro.

Sentiu triunfo.

Foi um sentimento curto, quente, quase juvenil. Por algumas horas não era o homem que perdera a presidência. Não era o marido da presidente da Fort. Não era o paciente recuperado. Não era alguém cuja esposa sabia exatamente como seu corpo tinha falhado.

Era apenas Gregório.

Desejado.

Capaz.

Escolhido.

A culpa veio mais tarde.

Quando chegou em casa.

Antônio já dormia. Viviane estava sentada na sala lendo alguns documentos e levantou os olhos ao ouvi-lo entrar.

Sorriu.

— Achei que você fosse chegar mais tarde.

Gregório olhou para ela.

Foi quase insuportável perceber que a mulher não desconfiava de nada.

Viviane fechou a pasta.

— Comeu?

Ele assentiu.

Ela se levantou e aproximou-se para beijá-lo.

Gregório deixou.

O perfume dela era familiar.

O toque era familiar.

A casa inteira era familiar.

Por alguns segundos, ele sentiu vergonha.

Quase contou.

Não contou.

No dia seguinte, acordou ao lado de Viviane e decidiu que não aconteceria outra vez.

Durante algumas semanas, acreditou nisso.

Foi mais carinhoso com ela. Levou-a para jantar. Tentou participar mais da rotina de Antônio. Em determinado momento, Gregório chegou a pensar que talvez aquela traição tivesse lhe devolvido justamente o que precisava e, por isso, não haveria razão para repetir. Estava melhor. Sentia-se mais seguro. Voltava a olhar para o espelho e reconhecer o homem refletido.

Só que validação funciona mal quando precisa ser renovada.

Depois de algum tempo, o efeito desapareceu.

A vice-presidência continuava vazia demais.

Viviane continuava sendo procurada.

As matérias continuavam falando dela.

Os Fortenelle continuavam confortáveis.

Antônio continuava carregando o sobrenome Fortenelle antes de Borborema e Viviane continuava, sem intenção alguma, perguntando se ele estava cansado quando percebia qualquer sinal de abatimento.

Gregório voltou a olhar.

Dessa vez, levou menos tempo para cruzar a linha.

Na segunda traição, a culpa foi menor.

Na terceira, encontrou justificativas antes mesmo de acontecer.

O casamento já não era o mesmo.

Viviane estava sempre ocupada.

Ela o rejeitava com dores de cabeça e cansaço.

Quando aceitava estar com ele, parecia distante.

Gregório começou a transformar as consequências da própria brutalidade em argumentos para novas traições.

Não pensava: ela não me deseja porque eu a machuco.

Pensava: ela não me deseja mais.

A diferença protegia seu orgulho.

Com o passar dos meses, as mulheres deixaram de ser exceção e começaram a formar um padrão. Algumas estavam ligadas à própria Fort, o que teria parecido impensável alguns anos antes. Gregório sabia o risco. Sabia também que aquilo tinha um sabor específico. Dentro da empresa onde se sentia um adorno, existiam mulheres que o olhavam como alguém importante. Não como vice de Viviane. Como Gregório.

Quanto mais fazia, mais precisava continuar acreditando que tinha direito de fazer.

E, para sustentar essa versão de si mesmo, tornou-se mais cruel em casa.

Não necessariamente com grandes explosões no início. Eram pequenas frases.

Viviane chegava tarde de uma reunião.

— A presidente finalmente resolveu voltar para casa.

Ela o olhava.

— Tive um problema com um contrato.

— Claro.

Ou vestia uma roupa para um evento.

Gregório observava.

— Precisa chamar tanta atenção?

Viviane franzia a testa.

— Estou vestida como sempre.

— Agora todo mundo olha.

Ela achava estranho.

Às vezes respondia.

Outras não.

Se algum homem elogiava Viviane em público, Gregório sorria no momento e perguntava depois por que ela havia dado tanta abertura.

— Eu não dei abertura nenhuma.

— Você gosta.

— Gosto do quê?

— De ser admirada.

Viviane não sabia de onde vinha aquilo.

Gregório sabia.

Vinha dele.

Quanto mais traía, mais imaginava a possibilidade de que ela também pudesse fazê-lo.

A ideia o enfurecia.

Não havia lógica.

Ele não precisava de lógica.

Também começou a endurecer ainda mais com Antônio.

O filho crescia, aprendia rápido e já compreendia muito bem quando tinha agradado ou decepcionado o pai. Gregório passou a transformar quase tudo em avaliação. Escola. Esporte. Jogos. Comportamento. Se Antônio ganhava, recebia elogio. Se perdia, precisava explicar.

— Quem ganhou?

— O Pedro.

— Por quê?

Antônio encolhia os ombros.

— Ele correu mais rápido.

— Então você treina.

— Mas foi só uma corrida.

Gregório o olhava.

— É assim que Fortenelle pensa.

Antônio ficava quieto.

Gregório imediatamente corrigia:

— Você não é só Fortenelle.

O menino já sabia a continuação.

— Sou Borborema também.

— Exatamente.

A palavra “também” começou a incomodá-lo cada vez mais.

Gregório queria que o filho tivesse orgulho do nome dele de uma maneira que Antônio nunca precisara ter orgulho de Fortenelle. Fortenelle estava em todos os lugares. Nos avós, nos tios, na empresa, nos almoços, nas histórias familiares, no dinheiro, nas fotografias antigas.

Borborema era o pai.

Apenas o pai.

Então Gregório fazia questão de ocupar mais espaço.

— Você é meu filho.

— Eu sei.

— Quero que seja melhor do que eu fui.

Antônio sorria algumas vezes porque interpretava aquilo como elogio.

Gregório continuava:

— Não quero que cresça esperando que as coisas venham porque sua família tem dinheiro.

— Eu não espero.

— Ótimo.

— Mamãe também trabalha.

A menção a Viviane podia mudar o humor dele.

— Sua mãe nasceu Fortenelle.

Antônio não entendia o que aquilo significava.

— Eu também.

Gregório fechava a expressão.

— Você nasceu meu filho.

Era confuso para uma criança.

Então Antônio fazia aquilo que crianças faziam quando queriam agradar um adulto: aprendia qual resposta deixava o pai feliz.

Começou a dizer:

— Sou Borborema.

Gregório sorria.

— Isso.

Pouco a pouco, Gregório ensinava ao filho que havia uma diferença entre ele e os outros Fortenelle. Eles tinham recebido. Antônio deveria conquistar. Eles aceitavam perder. Antônio não deveria. Eles eram acomodados. Antônio precisava ser forte.

Se o menino queria parar alguma atividade:

— Termina.

Se dizia que estava cansado:

— Mais uma vez.

Se ficava em segundo:

— Na próxima é primeiro.

Se reclamava:

— Você é meu filho. Aguenta.

Nada disso parecia monstruoso isoladamente.

Era justamente por isso que funcionava.

Antônio começou a exigir de si mesmo mais do que qualquer criança precisaria exigir.

Viviane percebeu que o filho ficava irritado quando perdia.

Que apagava exercícios até furar o papel.

Que às vezes preferia não participar de alguma coisa se achasse que não seria bom.

Tentava intervir.

— Filho, não precisa ficar perfeito.

— Eu sei.

— Então deixa assim.

— Não quero.

Viviane sorria.

Via teimosia.

Via dedicação.

Via um pouco dela mesma.

Talvez um pouco de Geraldo, que nunca gostara de fazer duas vezes o que podia fazer direito na primeira.

Gregório via outra coisa.

Progresso.

Quando Antônio conquistava alguma coisa, ele se aproximava do filho, colocava a mão sobre seu ombro e dizia:

— Sabia que você conseguia.

O menino brilhava.

Era aquilo que Gregório queria.

Aquele olhar.

Aquele orgulho.

A certeza de que o filho ainda o via como alguém cuja aprovação valia conquistar.

Na Fort Group, quase ninguém precisava da aprovação dele.

Viviane não precisava.

Os Fortenelle certamente não.

Antônio precisava.

E Gregório começou a ocupar aquele espaço cada vez mais.

Enquanto isso, a infidelidade deixava de ser um segredo ocasional e se transformava numa parte paralela da vida dele. Uma mulher aqui. Outra meses depois. Uma funcionária. Alguém de fora. Nada que ele chamasse de relacionamento. Nada que ameaçasse o casamento na forma como Gregório entendia casamento.

Porque ele nunca pensou em abandonar Viviane.

Esse era o paradoxo mais cruel.

Gregório ainda a amava à sua maneira.

Queria voltar para aquela casa.

Queria Antônio.

Queria o lugar à mesa.

Queria os domingos.

Queria que Viviane continuasse sendo sua mulher.

O que não queria mais era aceitar qualquer limite que o fizesse sentir pequeno.

E cada vez que atravessava um deles sem perder imediatamente a família, o limite seguinte ficava mais fácil de atravessar.

Fazia poucos dias que Antônio completara sete anos e a casa ainda carregava vestígios da festa. Havia presentes que não tinham encontrado lugar definitivo, caixas guardadas para serem levadas ao quarto, fotografias espalhadas sobre uma mesa e um brinquedo que Antônio insistia em abandonar exatamente no meio do corredor por mais vezes que Viviane pedisse que guardasse. O Natal se aproximava, e isso fazia a rotina parecer ainda mais cheia. A Fort Group entrava no período de encerramento do ano, havia reuniões, números para fechar, compromissos sociais, confraternizações e uma quantidade absurda de decisões que pareciam precisar ser tomadas antes que dezembro terminasse. Mesmo assim, Viviane fazia questão de que a casa tivesse árvore, presentes embrulhados e todas aquelas pequenas tradições que Antônio adorava. Naquele ano ele já compreendia melhor a expectativa pelo Natal, perguntava quantos dias faltavam, tentava descobrir os próprios presentes e havia decidido que já era grande demais para acreditar em algumas histórias infantis, embora ainda mantivesse outras quando lhe eram convenientes. Viviane se divertia com aquilo. Estava cansada, muito mais do que admitiria, mas gostava de chegar em casa e encontrar o filho correndo para mostrar alguma coisa. A família continuava sendo o lugar para onde voltava depois de qualquer dia ruim.

Talvez por isso tenha demorado tanto para perceber determinadas coisas.

Nos meses anteriores, algumas mulheres começaram a agir de maneira estranha perto dela. Não eram todas, nem acontecia o suficiente para formar imediatamente um padrão. Uma funcionária da Fort Group sustentava seu olhar por um segundo a mais do que seria necessário. Outra cumprimentava Gregório com uma intimidade difícil de definir e, quando percebia Viviane por perto, parecia assumir uma postura quase divertida. Uma mulher ligada a um fornecedor certa vez olhara para Gregório e depois para Viviane com uma expressão que a incomodou durante o restante da noite, embora ela não soubesse explicar por quê. Não havia provocação aberta. Nenhuma ousaria dizer nada diretamente à presidente da Fort Group. Era algo pior justamente por ser pequeno: uma segurança. Como se soubessem alguma coisa que Viviane não sabia. Como se, por alguns segundos, aquelas mulheres olhassem para ela não com inveja, respeito ou simples curiosidade, mas de cima.

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Viviane atribuiu a impressão ao cansaço.

Não era uma mulher insegura. Era jovem, bonita, elegante, bem-sucedida e crescera num ambiente em que sempre recebera atenção. Não estava acostumada a disputar homem. Gregório fora desejado desde antes de conhecê-la e aquilo nunca lhe parecera uma ameaça real. Mulheres haviam olhado para o marido durante todo o casamento. Ela mesma costumava brincar quando as antigas alunas se penduravam nas janelas para vê-lo esperá-la na escola. Gregório era bonito. Continuava sendo, talvez ainda mais agora que recuperara parte do físico e os cabelos loiros tinham voltado. Isso não significava nada. Pelo menos era o que Viviane acreditava.

Na tarde em que descobriu, não estava procurando.

Essa seria uma das coisas que mais lembraria depois.

Gregório tinha deixado um paletó jogado sobre uma cadeira no quarto, coisa que fazia com frequência. Viviane estava organizando algumas roupas que seriam enviadas à lavanderia e esvaziou os bolsos antes de separar a peça. Encontrou primeiro um recibo dobrado, depois algumas moedas, um cartão de visitas e, no bolso interno, um pequeno papel dobrado duas vezes.

Não teria sequer aberto se não tivesse reconhecido o nome escrito por fora.

Gregório.

A letra era feminina.

Viviane ficou alguns segundos segurando o papel.

Não sentiu ciúme.

Ainda não.

Pensou que fosse algum recado de trabalho.

Abriu.

Havia poucas linhas.

Poucas demais para permitir qualquer interpretação confortável.

A mulher dizia que ainda estava pensando na noite anterior. Que Gregório tinha razão: havia sido melhor do que imaginara. Que esperava que ele conseguisse escapar novamente antes do Natal. E terminava com uma intimidade que não pertencia a uma colega, fornecedora ou amiga.

O nome estava embaixo.

Viviane conhecia.

Era uma mulher da Fort Group.

Não uma amiga próxima, mas alguém que ela já encontrara diversas vezes.

Alguém que, menos de duas semanas antes, estivera numa confraternização, conversara com Viviane, elogiara o vestido que ela usava e perguntara por Antônio.

Viviane releu. Depois outra vez. Na terceira, as palavras continuavam iguais.

Foi uma sensação física.

Não começou no coração, como imaginara tantas vezes que aconteciam grandes dores.

Começou no estômago.

Uma náusea tão súbita que precisou apoiar a mão sobre a cômoda.

Ficou olhando para o papel, esperando encontrar alguma coisa que tivesse perdido. Uma expressão ambígua. Uma brincadeira. Um contexto profissional absurdo que explicasse aquilo.

Não havia.

A noite anterior.

Viviane lembrou.

Gregório tinha chegado tarde. Dissera que estivera numa reunião.

Ela estava cansada e Antônio havia demorado a dormir porque queria terminar um brinquedo novo que ganhara no aniversário. Quando Gregório entrou, Viviane estava sentada na cama lendo alguns documentos. Perguntou se ele tinha comido.

Ele respondeu que sim.

Beijou sua testa.

Dormiram na mesma cama.

A lembrança fez alguma coisa dentro dela se quebrar.

Gregório tinha voltado para casa depois de estar com outra mulher.

Tinha se deitado ao lado dela.

Viviane sentou-se na ponta da cama porque as pernas já não pareciam confiáveis.

A primeira reação foi incredulidade.

A segunda foi procurar culpa em si mesma.

Veio tão automaticamente que depois sentiria vergonha.

Pensou nas dores de cabeça inventadas.

Nas vezes em que dissera estar cansada.

Na quantidade de noites em que evitara o toque de Gregório porque sabia que podia doer.

Pensou que talvez ele tivesse percebido.

Talvez soubesse que ela não o desejava como antes.

Talvez tivesse procurado fora aquilo que não encontrava mais dentro do casamento.

A ideia atravessou sua cabeça por poucos segundos antes que outra aparecesse, mais dolorosa.

Mas por que ela não queria?

Viviane fechou os olhos.

Porque tinha medo de ser machucada. Porque o corpo começara a aprender a antecipar dor antes mesmo da mente admitir o que estava acontecendo. Porque Gregório transformara alguma coisa que antes fora íntima e boa entre eles num lugar onde ela precisava suportar.

A traição não tinha começado com ela.

Mesmo assim, a primeira coisa que Viviane fizera ao descobrir tinha sido procurar onde falhara.

Aquilo a fez chorar.

Não alto.

As lágrimas simplesmente começaram a cair enquanto continuava sentada segurando o papel.

Olhou para o quarto. Para a cama. Para as fotografias. Havia uma imagem de Antônio pequeno no colo dos dois, outra de uma viagem feita antes da doença, uma fotografia do casamento sobre um móvel. Gregório estava sorrindo para ela naquela foto como se não existisse mais ninguém na igreja.

Viviane apertou o papel entre os dedos.

O homem daquela fotografia ainda existia em algum lugar.

Ela precisava acreditar.

Ou talvez precisasse acreditar que existira.

Ficou muito tempo sozinha antes de guardar novamente o bilhete, não no paletó, mas na bolsa.

Não telefonou para Gregório.

Não foi à Fort Group procurá-lo.

Não fez escândalo.

Antônio estava em casa.

Isso bastava para obrigá-la a funcionar.

Quando o menino apareceu perguntando se poderia abrir um dos presentes de Natal antecipadamente porque já sabia qual era, Viviane virou o rosto depressa, limpou as lágrimas e disse que não. Antônio reclamou, negociou, tentou argumentar que faltavam poucos dias. Ela quase não conseguiu acompanhar.

— Mamãe?

Viviane olhou.

— O que foi?

— Você está triste?

A pergunta atravessou tudo.

Ela sorriu.

— Estou cansada.

Antônio aceitou.

Viviane puxou o filho para perto e beijou seus cabelos.

Ficou alguns segundos abraçada a ele mais do que o necessário.

A discussão não aconteceria diante daquela criança.

Isso ela sabia antes mesmo de saber o que diria ao marido.

Esperou Antônio jantar.

Esperou brincar.

Esperou tomar banho.

Esperou entrar no quarto.

Sentou-se ao lado dele enquanto lia algumas páginas de um livro e respondeu quando o filho fazia perguntas.

Beijou sua testa.

Apagou a luz.

Esperou ainda mais algum tempo, até ter certeza de que estava dormindo.

Só então procurou Gregório.

Ele estava no escritório de casa olhando alguns papéis quando Viviane entrou e fechou a porta.

Gregório levantou os olhos.

— Aconteceu alguma coisa?

Ela ficou parada.

Durante alguns segundos, apenas olhou para ele. Era impressionante o quanto podia conhecer um rosto e, de repente, não saber quem estava olhando.

Gregório percebeu.

— Vivi?

Ela abriu a bolsa, retirou o papel, colocou sobre a mesa e Gregório olhou. O rosto mudou antes mesmo de tocá-lo.

Foi o bastante.

Viviane sentiu outra dor, dessa vez mais funda, porque ainda existia uma parte dela que esperava ouvir alguma explicação impossível.

Gregório pegou o bilhete.

Leu.

Passou a mão pelo rosto.

— Viviane...

Ela nunca esqueceu o modo como ele disse seu nome. Não havia surpresa. Havia culpa.

— Quem é ela?

Gregório permaneceu em silêncio. Viviane conhecia o nome, mas precisava ouvi-lo dizer.

— Quem é ela?

Ele respondeu.

Baixo.

Era exatamente a mulher que Viviane imaginava. Aquela que estivera diante dela alguns dias antes. Aquela que sorrira. Aquela que perguntara pelo aniversário de Antônio. Viviane sentiu vontade de vomitar.

— Há quanto tempo?

— Não é o que você está pensando.

A frase a atingiu como insulto.

— O bilhete diz que ela passou a noite com você.

— Não a noite inteira.

Viviane ficou imóvel. Gregório percebeu imediatamente o absurdo do que acabara de dizer.

— Eu não quis dizer...

— Não a noite inteira? — a voz dela saiu baixa. — É isso que você tem para me dizer?

— Não. — Gregório levantou-se. — Foi uma vez.

Viviane olhou para ele.

— Uma vez.

— Foi.

— Ontem?

Ele hesitou. Essa hesitação respondeu.

— Gregório.

— Vivi, me escuta.

— Ontem?

— Sim.

Viviane sentiu os olhos encherem.

— Você chegou em casa ontem.

Ele não respondeu.

— Você entrou naquele quarto ontem. Você me beijou.

— Eu sei.

— Dormiu do meu lado.

Gregório baixou os olhos.

— Eu sei.

A repetição despertou nela uma raiva que momentaneamente superou a dor.

— Para de dizer que sabe!

Ele levantou o rosto. Viviane raramente gritava. Não gritou naquele dia. Talvez teria sido mais fácil se gritasse.

— Você não sabe o que isso está fazendo comigo.

Gregório passou a mão pelos cabelos.

— Foi um erro.

— Um erro?

— Sim.

— Você caiu em cima dela?

Ele fechou os olhos.

— Viviane.

— Eu quero entender como isso acontece por acidente.

— Não aconteceu por acidente.

A sinceridade veio tarde demais para aliviar. Gregório puxou uma cadeira e sentou como se as pernas tivessem perdido força.

— Eu fiz uma merda.

Viviane ficou de pé. Não queria sentar perto dele.

— Por quê?

Gregório demorou tanto para responder que ela começou a acreditar que não responderia.

— Eu não sei.

— Sabe.

— Não sei.

— Você não entra numa cama com outra mulher sem saber por quê.

Ele levantou os olhos. Havia vergonha ali. Verdadeira. Naquele momento, Gregório ainda era capaz de sentir vergonha pelo que fizera.

— Eu não sei o que aconteceu comigo depois de tudo aquilo.

Viviane ficou imóvel. Ele continuou antes que ela pudesse responder.

— Depois da doença.

A palavra atingiu exatamente onde ele talvez soubesse, talvez não soubesse, que atingiria. Gregório passou as mãos pelo rosto.

— Eu me sinto diferente, Vivi.

Ela não respondeu.

— Eu achei que fosse morrer. — a voz falhou. Gregório desviou os olhos. — Durante dois anos eu achei que talvez não visse o Antônio crescer. Eu olhava no espelho e não me reconhecia. Não conseguia levantar da cama. Não conseguia...

Parou.

Viviane sabia o que ele não queria dizer. Não conseguia tocá-la. Não conseguia responder sexualmente. Não conseguia ser o homem que acreditava que precisava ser.

Gregório respirou fundo.

— Eu perdi tudo.

Viviane finalmente falou.

— Você não perdeu tudo.

— Eu sei.

— Você tinha a mim.

Gregório olhou para ela.

A frase pareceu machucá-lo.

— Eu sei.

— Tinha seu filho.

— Eu sei.

— Sua família.

— Eu sei.

— Então não diz que perdeu tudo.

Gregório assentiu. As lágrimas apareceram nos olhos dele.

Viviane odiou vê-las.

Porque ainda o amava. Porque conhecia aquele sofrimento. Porque tinha vivido cada parte dele ao lado dele.

— Eu precisava sentir que ainda era eu.

Viviane fechou os olhos.

Gregório continuou:

— Eu sei que isso não justifica.

E realmente não justificava.

— Eu só… — ele parou novamente. — Ela olhou para mim e não sabia.

Viviane abriu os olhos.

— Não sabia o quê?

Gregório engoliu em seco.

— De nada.

Ela entendeu.

A mulher não o vira doente. Não o vira careca. Não o vira incapaz de se levantar. Não o vira vomitar. Não sabia sobre sua infertilidade. Não sabia sobre as falhas do corpo. Não conhecia o homem que Gregório se envergonhava de ter sido. Para aquela mulher, ele era apenas Gregório Borborema.

Bonito.

Desejável.

Inteiro.

Viviane compreendeu.

Essa foi uma das partes mais cruéis. Ela compreendeu perfeitamente o que ele estava dizendo. E isso tornou tudo mais difícil.

— Então você dormiu com ela porque ela não cuidou de você quando você estava morrendo?

Gregório ficou branco.

— Não.

— Porque foi isso que você acabou de dizer.

— Não foi.

— Foi.

Viviane sentiu as lágrimas voltarem.

— Eu vi tudo, Gregório. — a voz finalmente começou a tremer. — Eu estava lá.

Ele baixou a cabeça.

— Eu sei.

— Quando seu cabelo caiu, eu estava lá. Quando você não conseguia comer, eu estava lá. Quando tinha medo, eu estava lá. Quando você não conseguia levantar, quando não conseguia dormir, quando achava que ia morrer...

Ela precisou parar.

Gregório chorava agora.

Viviane também.

— E agora isso me torna menos mulher para você porque eu vi?

— Nunca.

— Então por quê?

— Não é sobre você.

Viviane riu sem humor.

— Você transou com outra mulher e quer me dizer que não é sobre mim?

— Eu amo você.

— Não fala isso agora.

— Mas eu amo.

— Não fala.

Gregório levantou-se. Tentou aproximar-se. Viviane recuou imediatamente.

O movimento fez os dois pararem. Ele não tentou novamente.

— Desculpa.

Viviane apertou os braços contra o corpo.

— Você me fez sentir uma idiota.

Gregório fechou os olhos.

— Eu sei.

— Ela falou comigo.

A frase mudou o rosto dele.

— O quê?

— Na confraternização.

Gregório não respondeu.

— Ela falou comigo. Perguntou do Antônio. E ficou me olhando daquele jeito.

Viviane finalmente compreendeu aquela expressão.

Não era imaginação.

A mulher sabia.

Sabia que havia alguma coisa entre ela e Gregório que Viviane desconhecia.

E tinha permanecido diante da esposa dele carregando aquele segredo como uma espécie de vantagem.

Aquilo humilhou Viviane de uma maneira diferente.

— Ela estava rindo de mim?

— Não.

A resposta veio rápida demais.

Viviane percebeu.

— Você sabe?

— Ela não estava rindo.

— Como você sabe o que ela pensa?

Gregório não conseguiu responder.

Viviane virou o rosto.

Foi pior.

Muito pior.

Porque de repente imaginou conversas.

O que ele dizia sobre ela? Falava que o casamento estava ruim? Falava sobre a intimidade dos dois? Contava que Viviane o evitava? A outra mulher sabia que ela inventava dor de cabeça? Sabia que eles tinham dificuldades? Sabia coisas sobre ela que nunca autorizara Gregório a compartilhar?

— Você falou de mim com ela?

— Não.

— Tem certeza?

— Tenho.

Viviane olhou diretamente para ele. Gregório sustentou. Talvez aquilo fosse verdade. Naquele momento ainda havia coisas que ele considerava sagradas.

— Acabou?

Ele assentiu.

— Acabou.

— Hoje.

— Hoje.

— Não porque eu descobri.

Gregório hesitou. Viviane sentiu outra facada.

— Gregório.

— Eu ia terminar.

— Quando?

Ele não tinha resposta.

Viviane virou-se. Foi até a porta.

— Vivi!

Ela parou sem olhar.

— Eu não vou dormir com você.

Gregório ficou quieto.

— Não hoje.

Viviane corrigiu:

— Não sei quando.

Saiu.

Durante os dias seguintes, dormiu em outro quarto. Gregório não tentou impedir.

Mandou flores no segundo dia. Viviane recebeu. Olhou para o arranjo durante alguns segundos e pediu que colocassem em outra sala. Flores tinham sido deles.

Durante anos, Gregório chegara à porta da escola com flores e ela fingira reclamar porque as alunas passavam os últimos minutos da aula olhando pela janela.

Agora não significavam a mesma coisa.

Ele percebeu.

Não mandou novamente.

Tentou de outras formas.

Chegava em casa no horário.

Avisava onde estava.

Telefonava quando alguma reunião se estendia.

Durante algumas semanas, parecia ter entendido que qualquer ausência inexplicada se transformava imediatamente numa pergunta dentro da cabeça de Viviane.

Ela odiava aquilo. Odiava perguntar.

— Que horas você volta?

Antes era uma pergunta prática. Agora carregava outra coisa.

Onde você estará? Com quem? Está dizendo a verdade?

Quando Gregório atrasava quinze minutos, Viviane percebia o próprio coração mudar.

Isso a revoltava consigo mesma.

Não queria ser aquela mulher.

Nunca fora.

Gregório sabia.

E parecia genuinamente arrependido.

Uma noite, encontrou-a na sala depois que Antônio já dormia.

Viviane ainda evitava o quarto dos dois.

Ele sentou a uma distância respeitosa.

— Eu sinto sua falta.

Ela não respondeu. Gregório continuou.

— Não estou dizendo para você voltar.

Viviane olhou para ele.

— Eu só quero que saiba.

Ela permaneceu em silêncio. Gregório parecia cansado.

— Eu estraguei uma coisa que era boa.

Viviane sentiu os olhos arderem.

— Estragou.

Ele assentiu. Não tentou negar.

— Eu queria conseguir desfazer.

— Não consegue.

— Eu sei.

Foi talvez essa ausência de defesa que começou a quebrar a resistência dela.

Se Gregório tivesse culpado Viviane, talvez fosse mais fácil odiá-lo.

Mas ele assumia.

Chorava.

Falava da doença.

Dizia que estava perdido.

Que se odiava pelo que fizera.

Que não queria perder a família.

E Viviane lembrava do homem no hospital.

Do marido segurando Antônio depois da notícia da remissão.

Do Gregório bonito que a esperava na porta da escola.

Do homem que aceitara imediatamente que seus filhos fossem Fortenelle porque aquilo era importante para o pai dela.

Do jovem que a fizera rir numa quadra de tênis.

As pessoas não deixavam de ser tudo o que haviam sido apenas porque faziam uma coisa terrível.

Talvez essa fosse uma das verdades mais perigosas que Viviane aprenderia.

Ela não perdoou numa noite.

Não voltou para o quarto porque Gregório pediu.

Não esqueceu.

Durante semanas, alguma parte dela permanecia alerta. Quando cruzou novamente com a mulher na Fort Group, sentiu uma humilhação tão intensa que precisou se controlar para não demonstrar. A outra mulher pareceu desconfortável dessa vez.

Viviane sustentou seu olhar.

Não disse nada.

Não precisava.

A mulher baixou os olhos primeiro.

Aquilo não trouxe satisfação.

Só tristeza.

Algumas semanas depois, Viviane voltou a dormir no quarto.

Gregório não a tocou.

Esperou.

Quando finalmente tentou aproximar-se, Viviane ficou tensa.

Ele percebeu e recuou.

Foi uma das poucas vezes naquele período em que respeitou imediatamente o corpo dela.

Talvez por culpa. Talvez porque soubesse o quanto estava perto de perdê-la.

Isso também ajudou Viviane a acreditar.

Durante alguns meses, Gregório realmente pareceu diferente.

Ia da Fort Group para casa.

Passava mais tempo com Antônio.

Não havia bilhetes. Não havia atrasos inexplicáveis. Não havia mulheres olhando para Viviane com aquele conhecimento secreto.

A casa começou a recuperar uma aparência de normalidade.

Viviane nunca voltou a confiar exatamente da mesma forma. Mas escolheu continuar. Escolheu porque amava. Porque Antônio adorava o pai. Porque eles tinham sobrevivido a um câncer juntos. Porque Gregório parecia arrependido. Porque uma parte dela continuava acreditando que a doença tinha quebrado alguma coisa nele e que, com tempo suficiente, carinho suficiente e estabilidade suficiente, o homem por quem se apaixonara encontraria o caminho de volta.

Durante algum tempo, Gregório também acreditou nisso. E talvez tenha sido essa a crueldade maior daquela primeira traição.

Viviane não permaneceu porque era fraca.

Permaneceu porque ainda tinha razões verdadeiras para acreditar que havia alguma coisa a salvar.

Só não sabia que Gregório aprenderia, com o próprio perdão dela, uma lição muito diferente da que deveria ter aprendido.