O CEO que Eu Paguei
270 De outro ponto de vista - Parte VI
Notas iniciais
Depois da primeira traição, Viviane descobriu que perdoar uma pessoa não significava conseguir continuar vivendo ao lado das consequências do que ela fizera. Durante algumas semanas tentou agir como se fosse possível separar as coisas: Gregório havia errado, a outra mulher participara daquele erro, ele prometera que tudo tinha terminado e o casamento precisava seguir. Só que a mulher continuava trabalhando na Fort Group. Viviane a encontrava no elevador, via seu nome em documentos, passava por ela nos corredores e, algumas vezes, bastava enxergá-la de longe para que o estômago se contraísse. Não era apenas ciúme. Era a lembrança de que aquela mulher estivera diante dela sabendo de algo que Viviane ignorava. Tinha perguntado por Antônio. Tinha elogiado sua roupa. Tinha olhado nos olhos da esposa do homem com quem se envolvia e carregado, naquele momento, uma intimidade secreta com Gregório. Viviane começou a antecipar os encontros antes mesmo de acontecerem. Mudava de corredor sem perceber, pedia que outra pessoa participasse de determinada reunião, ficava irritada consigo mesma por permitir que a presença de uma funcionária alterasse a maneira como circulava dentro da própria empresa. Até que, numa manhã, percebeu que não aguentaria mais.
Demitiu-a.
Fez tudo formalmente, sem escândalo, sem humilhação pública, sem contar aos funcionários o motivo real e sem tentar destruir profissionalmente aquela mulher. Garantiu que os direitos fossem pagos, não interferiu para que recebesse referências negativas e não permitiu comentários dentro da diretoria. Ainda assim, quando assinou a decisão, sentiu-se mal. Viviane sabia que aquilo não era inteiramente profissional. Sabia que Gregório era seu marido, que a obrigação de fidelidade era dele e que seria muito conveniente transformar outra mulher na responsável por uma traição cometida dentro do casamento. Não fazia isso. Continuava responsabilizando Gregório. Mas também sabia que não era capaz de sentar todos os dias diante de alguém que participara daquela ferida e fingir uma neutralidade que não possuía. Talvez uma presidente melhor conseguisse. Talvez uma mulher mais fria conseguisse. Viviane, naquele momento, não conseguia. E, pela primeira vez desde que assumira a Fort Group, tomou uma decisão importante sabendo que havia nela muito mais da esposa ferida do que da executiva. A consciência disso lhe trouxe culpa, mas não arrependimento suficiente para voltar atrás.
Gregório não discutiu a demissão. Talvez soubesse que não tinha direito algum de fazê-lo. Durante os meses seguintes, aproximou-se de Viviane com um cuidado que ela não via havia bastante tempo. Voltou a convidá-la para jantar, começou a chegar mais cedo em casa e, principalmente, parou de transformar cada gesto de carinho em uma cobrança pela intimidade que os dois ainda não conseguiam recuperar. Houve noites em que apenas dormiram lado a lado. Houve tardes em que levaram Antônio ao parque e Gregório passou horas correndo atrás do filho, competindo em brinquedos e fingindo indignação quando o menino dizia que a mãe era mais rápida. Aos poucos, Viviane voltou a rir sem lembrar imediatamente do bilhete encontrado no paletó. Voltou a olhar para o marido e encontrar nele partes inteiras do homem que conhecera. Gregório ainda era capaz de ser atencioso, engraçado, encantador. Ainda sabia exatamente como fazer Antônio gargalhar. Ainda podia segurá-la pela cintura na cozinha, beijar-lhe a testa e provocar nela a lembrança física de uma vida muito mais simples. Esses momentos não eram encenação. Era justamente isso que tornava tudo tão difícil. Havia carinho verdadeiro entre os períodos ruins, e Viviane começou a acreditar que talvez aquela primeira traição realmente tivesse sido uma queda num homem que ainda tentava se reconstruir depois de dois anos em que quase morrera.
Alguns meses se passaram, e ela tomou uma decisão deliberada: deixaria aquilo para trás.
Não esqueceria, porque já aprendera que esquecer não era uma escolha, mas pararia de procurar o bilhete em cada atraso e de observar toda mulher que falasse com Gregório como se pudesse descobrir alguma coisa no rosto dela. Não queria viver daquela maneira. Não queria transformar o casamento num interrogatório permanente, muito menos permitir que Antônio crescesse numa casa em que os pais se mediam com desconfiança. Gregório havia pedido perdão. Estava se comportando de outra forma. Ela o amava. Portanto, seguiria em frente. Viviane tomou aquela decisão com a mesma disciplina com que tomava decisões difíceis na Fort Group: definiu o caminho e passou a se policiar para não voltar ao problema que acreditava resolvido.
A viagem para a Flórida veio pouco depois e, durante alguns dias, pareceu provar que estava certa. Foram os três para a Disney e fizeram tudo de maneira exagerada, como os Fortenelle costumavam fazer quando tinham oportunidade de transformar alguma coisa numa lembrança. Antônio tinha sete anos e estava numa idade em que a fantasia ainda era forte o suficiente para vencer qualquer tentativa de parecer crescido. Queria ver tudo, experimentar tudo, voltar aos brinquedos de que gostava e dormir o mínimo possível. Gregório entrou completamente na brincadeira. Carregou o filho nos ombros quando Antônio cansou, comprou coisas que Viviane considerou absolutamente desnecessárias e depois argumentou que uma criança só tinha sete anos uma vez. Ficaram num dos hotéis mais especiais do complexo, cercados por toda aquela experiência que fazia Antônio acordar perguntando o que fariam primeiro. À noite, quando viam o castelo iluminado e o menino permanecia encantado diante dos fogos, Viviane às vezes observava o marido em vez do espetáculo. Gregório estava saudável novamente, os cabelos tinham voltado, havia recuperado parte do corpo que perdera, e Antônio se apoiava nele sem aquele cuidado excessivo aprendido durante o câncer. Por alguns minutos, parecia que os anos ruins realmente haviam terminado.
Numa das noites, Antônio adormeceu antes mesmo de conseguirem colocá-lo adequadamente na cama. Gregório tirou os sapatos do filho enquanto Viviane puxava a coberta. Depois ficaram alguns segundos observando-o dormir, e Viviane sentiu uma felicidade dolorosa de tão simples. Aquilo era o que sempre quisera. Não precisava de mais nada naquele momento. Gregório tocou sua mão e ela entrelaçou os dedos nos dele. Não falou sobre a traição. Não perguntou se ele ainda pensava naquela mulher. Não procurou ameaça alguma. Apenas encostou a cabeça no ombro do marido e pensou que talvez uma família não precisasse atravessar grandes tragédias sem se ferir; talvez bastasse decidir continuar depois delas.
Quando voltaram ao Brasil, Viviane acreditava sinceramente que haviam encontrado novamente alguma coisa que quase perderam.
Um mês depois, Gregório viajou para o Nordeste em seu lugar.
A viagem deveria ter sido de Viviane. Havia clientes importantes em Salvador, encontros comerciais já combinados e uma sequência de compromissos que normalmente a levariam para fora do Rio por alguns dias. Naquela mesma semana, porém, a escola de Antônio realizaria um evento beneficente do qual ele participaria, e Viviane nem considerou a possibilidade de faltar. Mandou reorganizar a agenda e Gregório se ofereceu para ir. Era vice-presidente. Conhecia os clientes. Fazia sentido. Viviane agradeceu, e ele pareceu até satisfeito por voltar a conduzir negociações maiores sozinho. Durante a viagem, telefonava todas as noites. Algumas vezes Antônio atendia primeiro e gastava vários minutos contando coisas que Gregório dificilmente conseguiria acompanhar. Depois Viviane pegava o telefone, perguntava das reuniões, ouvia reclamações sobre horários, falava da escola e desejava boa noite. Nada lhe pareceu estranho.
O evento de Antônio aconteceu e Viviane passou boa parte do dia ajudando como havia prometido. Estava cansada, mas feliz por ter escolhido ficar. Quando o filho a encontrou entre os adultos e abriu aquele sorriso imediatamente satisfeito porque a mãe realmente aparecera, não houve contrato no mundo que pudesse fazê-la se arrepender. No dia seguinte, voltou à Fort Group enquanto Gregório ainda permanecia em Salvador. A rotina retomou seu ritmo habitual, e ela estava no escritório analisando alguns documentos quando a secretária informou que um fornecedor queria falar diretamente com ela. Viviane autorizou a ligação imaginando algum problema de contrato.
O homem começou a conversa de maneira tão casual que ela levou algum tempo para perceber que havia alguma coisa errada.
— Espero que tenham feito uma boa viagem.
Viviane franziu a testa.
— Perdão?
O fornecedor riu.
— Salvador. Achei que a senhora ainda estivesse aqui.
Ela olhou automaticamente para a agenda sobre a mesa, como se pudesse ter esquecido a própria semana.
— Eu não fui para Salvador.
Houve um pequeno silêncio do outro lado.
— Ah.
Aquele “ah” fez o corpo inteiro de Viviane ficar atento.
— O Gregório foi no meu lugar.
— Sim, eu encontrei o doutor Gregório.
Viviane ficou quieta.
O homem tentou mudar de assunto depressa demais.
— Então devo ter me confundido.
— Com o quê?
— Nada importante, dona Viviane.
— O senhor disse que esperava que tivéssemos feito uma boa viagem.
— É que eu vi o doutor Gregório algumas vezes e imaginei que a senhora estivesse com ele.
Viviane não sentia ainda exatamente medo. Sentia uma espécie de vazio.
— Por que imaginou isso?
O fornecedor hesitou.
Ela reconheceu a hesitação de pessoas que percebem tarde demais que disseram alguma coisa que não deveriam.
— Porque ele estava acompanhado.
Viviane segurou o telefone com mais força.
— De quem?
— Eu não sei.
— Então por que achou que era eu?
A resposta veio constrangida.
— Eu não a conheço pessoalmente tão bem. Já a vi em eventos, fotografias... de longe, pensei que pudesse ser a senhora.
Viviane respirou pelo nariz.
— Onde o senhor os viu?
— Dona Viviane...
— Onde?
O homem cedeu.
Vira Gregório com uma mulher perto do hotel. Depois os encontrara novamente passeando. Em outra ocasião, passara próximo deles num restaurante. Nada que, isoladamente, provasse alguma coisa. Um homem podia jantar com uma colega. Podia caminhar com uma executiva. Podia estar acompanhado durante uma viagem comercial. Mas o fornecedor acreditara que fosse a esposa dele porque a maneira como os vira juntos lhe parecera íntima o suficiente para tornar natural aquela conclusão. E, acreditando estar diante de Viviane, sentira-se ofendido porque “ela” passara por ele mais de uma vez sem cumprimentá-lo.
Viviane encerrou a ligação com educação.
Depois ficou sentada.
Não chorou.
Dessa vez, o primeiro sentimento não foi tristeza.
Foi raiva.
Uma raiva tão intensa que as mãos começaram a tremer.
Alguma coisa dentro dela recusava-se a reviver aquilo outra vez. Não depois das desculpas. Não depois dos meses de esforço. Não depois de Gregório ter olhado para ela e dito que nunca mais. Não depois da Disney, de Antônio dormindo entre os dois no avião, das fotografias, dos fogos, da mão de Gregório segurando a sua enquanto observavam o filho.
E havia algo ainda mais humilhante.
Outra pessoa sabia.
Um fornecedor tinha visto.
Talvez outros tivessem visto.
Talvez funcionários soubessem.
Viviane sentiu a mesma sensação da primeira traição, só que pior: a possibilidade de existir um mundo inteiro sobre seu casamento ao qual todos tinham acesso menos ela.
Não telefonou para Gregório.
Dessa vez não.
Também não pediu explicações imediatamente.
Naquela noite, depois que Antônio dormiu, Viviane abriu uma garrafa de vinho e serviu uma taça. Bebia pouco quando estava sozinha e, justamente por isso, o gesto lhe pareceu estranho. Sentou-se na sala escura, tirou os sapatos e permaneceu durante muito tempo sem acender a luz principal. Pensou na mulher da primeira traição. Pensou no bilhete. Pensou na vergonha de demiti-la. Pensou na viagem. Pensou em Gregório ligando todas as noites de Salvador e perguntando por Antônio como se não houvesse absolutamente nada a esconder.
Serviu outra taça.
Não queria confrontá-lo sem saber.
Não suportaria ouvir mais uma explicação e passar novamente semanas perguntando se tinha entendido errado.
Por isso contratou um detetive particular.
A decisão lhe causou vergonha antes mesmo de produzir qualquer resultado. Viviane odiava a ideia de seguir o próprio marido. Parecia sórdida, pequena, indigna da relação que acreditara ter construído. Durante alguns dias considerou cancelar tudo. Depois lembrava da voz constrangida do fornecedor e mantinha.
O que recebeu não foi uma resposta simples.
Foi um padrão.
O investigador não lhe entregou uma lista cinematográfica de flagrantes incontestáveis. Trouxe fotografias, datas, encontros, registros de viagens, restaurantes, hotéis e mulheres aparecendo repetidamente em situações difíceis demais para serem todas coincidência. Algumas eram de fora. Outras Viviane reconheceu.
E foram essas que a destruíram.
Funcionárias da Fort Group.
Mulheres que circulavam pelos mesmos corredores.
Mulheres que recebiam salário de uma empresa que pertencera ao avô dela.
Mulheres que talvez tivessem sentado em reuniões comandadas por Viviane pela manhã e encontrado Gregório depois.
A primeira traição não tinha sido uma exceção.
Gregório nunca havia parado.
Talvez tivesse interrompido por algumas semanas. Talvez tivesse apenas ficado mais cuidadoso. O homem que chegava cedo, avisava dos atrasos e parecia reconstruir a confiança estava, em algum ponto daquele mesmo período, encontrando outras mulheres.
Viviane passou páginas sem conseguir respirar normalmente.
Não sabia quantas.
O relatório também não podia provar a natureza de todos os encontros. Algumas mulheres podiam realmente ser colegas. Outras situações eram difíceis demais de explicar. Uma mesma funcionária aparecia entrando num hotel em horário incompatível com qualquer compromisso de trabalho. Outra tinha sido fotografada com Gregório fora de um restaurante muito depois de uma reunião já encerrada. A mulher de Salvador aparecia próxima dele em contextos diferentes ao longo dos dias.
Viviane fechou a pasta.
Chorou.
Depois abriu novamente.
Precisava saber.
Quanto mais lia, mais percebia que não havia como localizar um único momento em que Gregório tivesse voltado a ser fiel.
A viagem em família não significara o que significara para ela.
Essa descoberta doeu mais que qualquer fotografia.
Na Disney, quando Viviane olhara para o marido e acreditara que estavam reconstruindo a família, Gregório já carregava segredos que ela desconhecia.
Ela pensou em ir embora.
Pela primeira vez de verdade.
Pensou em pegar Antônio, voltar para perto de Ivone, contar tudo a Alcides e nunca mais dividir uma cama com Gregório. Financeiramente, nada a prendia. A casa não a prendia. A sociedade não a prendia. Viviane tinha dinheiro, carreira, família e meios para viver sem aquele homem.
O que a prendia era muito mais difícil de cortar.
Era Gregório.
O Gregório que existira antes. O homem que Severino apresentara numa festa. O homem que a buscava na escola. O pai que segurara Antônio recém-nascido com lágrimas nos olhos. O paciente cuja mão ela segurara durante dois anos. O homem que prometera ver o filho crescer. O homem que ainda podia, numa tarde qualquer, brincar com Antônio até os dois perderem o fôlego de tanto rir.
E havia Antônio.
Viviane pensou nele até doer.
Não queria que o filho tivesse pais separados.
A ideia parecia, naquele momento, uma espécie de fracasso familiar que ela não conseguia aceitar. Não porque julgasse outras pessoas divorciadas, mas porque nunca imaginara aquela vida para o próprio filho. Antônio amava o pai. Esperava por ele. Procurava sua aprovação. Gostava das viagens dos três, dos domingos, das brincadeiras. Viviane se perguntava o que aconteceria com aquele menino se Gregório saísse de casa. Se perguntava se deveria destruir a família por traições que talvez não tivessem sentimento algum.
Era assim que pensava.
Destruir a família.
Como se o ato destrutivo ainda pudesse ser dela.
Quando Gregório voltou ao Rio, Viviane esperou novamente Antônio não estar por perto. Mandou o filho passar a tarde com Ivone, certificou-se de que não retornaria cedo e deixou a pasta sobre a mesa.
Gregório chegou, viu os documentos e imediatamente fechou a expressão.
— O que é isso?
Viviane estava cansada demais para rodeios.
— Você nunca parou.
Ele a encarou.
— O quê?
— Não faz isso comigo.
— Fazer o quê?
— Fingir que não sabe.
Gregório abriu a pasta. Folheou algumas páginas. A indignação começou a surgir no rosto dele antes da culpa. Isso surpreendeu Viviane.
— Você mandou alguém me seguir?
— Eu perguntei outra coisa.
— Você contratou um detetive?
— Gregório!
— Você ficou louca?
A palavra a atingiu.
— Não vira isso para mim.
— Como você quer que eu reaja? Minha mulher está pagando um homem para me seguir pelo país.
Viviane levantou-se.
— Porque um fornecedor me ligou achando que eu estava em Salvador com você.
Gregório parou.
Foi apenas um segundo.
Viviane viu.
— Quem?
— Isso importa?
— Importa se está espalhando mentira.
— Ele não estava espalhando nada. Achou que a mulher era eu.
Gregório soltou uma risada incrédula.
— Então pronto. Um homem viu alguma mulher perto de mim e você decidiu que estou transando com metade da empresa?
Viviane apontou para a pasta.
— Não foi um homem.
— Isso prova o quê?
— Você quer que eu leia?
— Pode ler o que quiser. Almoço com funcionária virou traição agora?
— Hotel também?
— Eu estava viajando a trabalho.
— Ela também?
— Algumas pessoas trabalham, Viviane.
O tom foi tão cortante que ela sentiu a raiva voltar.
— Não me trata como idiota.
— Eu não estou tratando. Você é que está vendo coisa onde quer ver.
— Eu quero ver meu marido me traindo?
— Depois da primeira vez, você nunca mais confiou em mim.
Viviane ficou em silêncio. Gregório percebeu que encontrara uma brecha.
— Você demitiu uma mulher porque não conseguia olhar para ela.
— Não coloca aquilo aqui.
— Coloco, sim. Você ficou obcecada.
— Obcecada?
— Toda vez que atraso, você pergunta onde eu estava. Toda viagem vira problema. Qualquer mulher que fala comigo, você olha diferente.
Viviane sentiu uma espécie de vertigem. Havia verdade suficiente em algumas frases para fazer o restante parecer possível. Ela perguntava horários. Observava mulheres. Tinha contratado um detetive. Tinha demitido a primeira amante.
Gregório continuou.
— Você sabe o que é entrar em casa sabendo que sua mulher está analisando cada palavra para ver se você está mentindo?
Viviane quase riu.
— Você estava mentindo.
— Uma vez.
— E isso aqui?
— Fotografias.
Ele levantou algumas folhas.
— Olha isso. Eu saindo de restaurante com uma funcionária. Eu entrando num hotel onde estava hospedado. Eu conversando com gente da empresa. Isso virou prova de caso?
— E Salvador?
— Era uma cliente.
Viviane hesitou.
— O fornecedor disse...
— O fornecedor achou. — Gregório se aproximou. — Você percebe o que fez?
A pergunta deveria ser dela. Mesmo assim, Viviane começou a sentir vergonha.
— Eu só queria saber a verdade.
— Então podia ter perguntado!
Ela olhou para ele como se aquilo fosse absurdo.
— Eu perguntei na primeira vez. Você só contou porque achei o bilhete.
Gregório respirou fundo.
— E eu admiti.
— Porque não tinha como negar.
— Exatamente. Eu admiti, pedi desculpa, terminei aquilo e passei meses tentando reconstruir nosso casamento. E você aparentemente passou os mesmos meses esperando eu errar de novo.
A frase encontrou a viagem para a Disney. Encontrou as noites tranquilas. Encontrou a decisão de Viviane de confiar. Ela se confundiu.
— Então você não está me traindo?
Gregório olhou diretamente para ela.
— Não.
Disse com tanta firmeza que, por um segundo, Viviane acreditou.
— Nenhuma delas?
— Nenhuma.
— Você jura?
Gregório nem piscou.
— Juro.
Viviane sentiu os olhos encherem. Ele se aproximou mais.
— Vivi, olha para você.
Ela odiou aquela frase. Mesmo assim, olhou.
— Você está destruindo sua cabeça com isso. — Gregório tocou a pasta. — Pagou alguém para me seguir. Está interpretando qualquer mulher perto de mim como amante. Isso não é saudável.
Viviane respirou fundo.
— Eu fiquei com medo. — a voz saiu menor do que gostaria.
Gregório suavizou imediatamente.
— Eu sei.
A mudança foi quase perfeita.
A raiva desapareceu.
Ele parecia novamente o marido arrependido que estivera diante dela meses antes.
— Eu sei que a culpa disso começou comigo.
Aquilo foi ainda mais eficaz. Gregório não negava a primeira traição. Assumia responsabilidade suficiente para parecer honesto sobre o resto.
— Eu fiz você perder a confiança. Sei disso. Mas se nós vamos continuar casados, você precisa me deixar provar que não sou aquilo.
Viviane começou a chorar.
Gregório a abraçou. Ela demorou antes de permitir. Depois cedeu. Ficou nos braços dele sentindo-se confusa, cansada e estranhamente culpada.
— Desculpa — murmurou.
Gregório fechou os olhos.
— Está tudo bem.
Era Viviane quem pedia desculpas. Por investigar o homem que realmente a traía. Por desconfiar do homem que realmente mentia. Por interpretar como sinais aquilo que, muitas vezes, eram exatamente sinais.
Quando se afastou, Gregório segurou seu rosto.
— Não faz mais isso com você.
Viviane assentiu.
Ela guardou a pasta. Não a jogou fora. Mas parou de abrir. E, a partir daquele dia, começou a desenvolver um hábito muito mais perigoso do que a desconfiança.
Quando alguma coisa parecia estranha, Viviane tentava explicar antes de perguntar.
Um atraso podia ser reunião. Um perfume diferente podia ter vindo de qualquer pessoa num elevador. Uma funcionária excessivamente familiar podia simplesmente ser expansiva. Uma viagem podia ter horários ruins. Uma mensagem interrompida quando ela entrava podia ser confidencial.
Viviane começou a fazer vista grossa não porque não percebesse, mas porque Gregório a convencera de que perceber demais era uma falha dela.
Ainda havia momentos em que mulheres a olhavam daquela forma. Aquela segurança. Aquela intimidade silenciosa.
Viviane sentia.
Depois lembrava da pasta. Do detetive. Da palavra “louca”. E desviava o pensamento.
Enquanto isso, Gregório aprendia uma coisa perigosa sobre a esposa: bastava haver dúvida suficiente.
Não precisava apagar todos os rastros.
Precisava apenas tornar a interpretação de Viviane menos confiável do que a palavra dele.
E, dentro de casa, fazia algo semelhante com Antônio, embora de uma maneira diferente.
O menino estava crescendo e Gregório se tornava cada vez mais exigente. Aos sete anos, Antônio já sabia distinguir perfeitamente o sorriso do pai quando fazia alguma coisa bem daquele silêncio curto quando não correspondia ao esperado. Se ganhava uma corrida, Gregório perguntava o tempo. Se tirava uma nota excelente, perguntava se alguém tinha tirado mais. Se fazia um gol, queria saber quantos o outro menino fizera. Se vencia um jogo, recebia o carinho que tanto buscava; se perdia, vinha a análise.
— Você é meu filho.
Antônio ouvia aquilo com orgulho.
— Sim!
— Então não aceita qualquer coisa.
Outra frase aparecia cada vez mais.
— Não seja acomodado.
Algumas vezes Gregório completava:
— Fortenelle aceita qualquer coisa porque nunca precisou conquistar nada.
Antônio franzia a testa.
— O vovô trabalha.
— Trabalhou.
— Mamãe trabalha muito.
A menção a Viviane provocava uma pausa. Gregório então ajeitava a camisa do menino ou passava a mão por seus cabelos.
— Sua mãe é diferente.
Era o máximo de concessão que fazia.
Depois retomava:
— Mas você é meu filho. Eu quero mais para você.
Antônio começou a compreender “mais” como “melhor que os outros”.
Não bastava jogar futebol. Precisava ser bom.
Não bastava estudar. Precisava estar entre os primeiros.
Não bastava participar. Precisava vencer.
Quando perdia, ficava cada vez mais irritado consigo mesmo. Às vezes chorava sozinho, não porque Gregório o castigasse por uma derrota, mas porque já sabia antecipar a expressão do pai.
Viviane observava parte daquela mudança sem conseguir enxergar toda a origem.
Via um menino competitivo.
Perfeccionista.
Orgulhoso.
Reconhecia traços que existiam nela própria e no avô Geraldo. Tentava ensinar equilíbrio, dizia que perder fazia parte, abraçava Antônio quando ele se frustrava e repetia que tinha orgulho dele independentemente de colocação.
Gregório ensinava outra coisa quando ela não estava.
Que o mundo tinha lugares limitados.
Que alguém sempre ocuparia o lugar que você não conquistasse.
Que homens fortes não aceitavam ficar para trás.
Que Antônio carregava o sangue dele e deveria provar que aquilo significava alguma coisa.
O menino aprendia as duas linguagens ao mesmo tempo.
Com a mãe, podia errar e continuar sendo amado.
Com o pai, começou a acreditar que ser amado era ainda melhor quando vencia.
E Viviane, ocupada demais tentando salvar uma empresa, preservar uma família e convencer a si mesma de que não estava enlouquecendo, ainda não percebia que Gregório fazia com o filho uma versão diferente daquilo que começava a fazer com ela.
Aos poucos, ensinava ambos a desconfiar do próprio instinto.
Viviane aprendia que talvez enxergasse traições onde não existiam.
Antônio começava a aprender que talvez nunca fosse bom o suficiente enquanto existisse alguém à sua frente.
No início do ano seguinte, Alcides estava preocupado com assuntos muito mais agradáveis do que a Fort Group. Havia decidido levar Ivone e os netos para Fernando de Noronha e tratava a viagem com uma empolgação que a idade não diminuíra em nada. Já tinha comprado roupas demais para crianças que cresceriam antes de usá-las, discutia com Ivone sobre quantos dias seriam necessários e insistia que os netos precisavam conhecer tudo, embora alguns fossem pequenos demais para guardar lembranças claras. A vida que levava agora era, em muitos aspectos, exatamente aquela que imaginara quando passara tantos anos desejando sair da administração do grupo. Ele e Ivone viviam boa parte do tempo no sítio, recebiam filhas, genros e netos aos fins de semana, viajavam quando queriam e tinham adquirido o privilégio de acordar sem que uma empresa inteira esperasse alguma decisão antes do café. Alcides não sentia falta da Fort. Ia a eventos porque Viviane estava lá. Sentava na primeira fila quando a filha recebia algum reconhecimento, comparecia a aniversários importantes do grupo e aceitava convites quando sabia que sua presença significaria alguma coisa para ela. Fora disso, não tinha interesse em voltar. A empresa estava melhor do que estivera em anos, Viviane comandava com uma competência que ainda lhe provocava uma mistura estranha de orgulho e arrependimento por não ter percebido mais cedo quem tinha dentro da própria casa, e até os irmãos dele haviam se afastado quase completamente da rotina. Severino aparecia quando algum assunto técnico lhe interessava, Getúlio surgia com novidades e desaparecia em seguida, Domingos ainda mantinha relações comerciais que gostava de acompanhar, Jurandir parecia ter finalmente conseguido trabalhar tão pouco quanto sempre sonhara, e Juninho se ocupava cada vez mais com qualquer coisa que não exigisse permanecer num escritório. Para Alcides, aquilo era um sinal de que tudo funcionava como deveria.
Foi no meio dessa tranquilidade que Lindenberg telefonou.
Alcides conhecia aquele homem havia décadas. Lindenberg começara a trabalhar com os Fortenelle quando Viviane ainda era uma menina que aparecia na empresa segurando a mão do pai e fazendo perguntas demais sobre papéis que não compreendia. Tinha visto Geraldo vivo, atravessado a reorganização dos negócios entre os irmãos, conhecido Gregório quando ele ainda era apenas o namorado absurdamente bonito da filha de Alcides e acompanhado a entrada de Viviane na empresa. Não era íntimo da família no sentido doméstico, mas era uma dessas pessoas que, depois de vinte ou trinta anos compartilhando trabalho, crises e mudanças, já não podiam ser tratadas como simples funcionários. Alcides confiava nele. E, talvez mais importante naquele momento, sabia que Lindenberg não era fofoqueiro.
Por isso percebeu que havia alguma coisa séria antes mesmo de ouvir.
A conversa começou com banalidades. A viagem. Ivone. Os netos. Lindenberg desejou que aproveitassem Noronha, comentou que fazia anos que não tirava férias decentes e riu quando Alcides respondeu que aquilo era problema dele. Depois veio um silêncio.
— Alcides...
O modo como disse o nome bastou.
— Fala.
— Eu não sei se deveria me meter nisso…
Alcides endireitou-se na cadeira.
Não era negócio.
Se fosse dinheiro, contrato ou problema de funcionário, Lindenberg não hesitaria daquela maneira.
— Então provavelmente já decidiu que deve.
Do outro lado, o homem respirou fundo.
— É assunto da sua família.
Alcides sentiu alguma coisa apertar dentro do peito.
— Aconteceu alguma coisa com uma das minhas meninas?
— Não. Não diretamente.
A resposta não tranquilizou.
— Lindenberg.
— É o Gregório.
Alcides ficou em silêncio.
O nome não vinha acompanhado de nenhuma informação e, ainda assim, produziu uma inquietação imediata.
— O que tem ele?
Lindenberg demorou alguns segundos.
— Eu tenho visto umas coisas.
— Que coisas?
— Mulheres.
Alcides franziu o cenho.
— Que mulheres?
— Da empresa…
O silêncio que se formou foi diferente. Alcides apoiou o cotovelo na mesa.
— Explica direito.
Lindenberg explicou com cuidado. Não apresentou rumores como fatos. Não disse que “todo mundo sabia”. Não inventou detalhes para tornar a história pior. Disse apenas que Gregório vinha sendo visto em situações que ultrapassavam a familiaridade profissional com algumas funcionárias, que havia comentários discretos entre gente antiga e que ele próprio presenciara mais de uma coisa que o deixara desconfortável.
Alcides ouviu tudo.
Não explodiu.
— Você viu?
A pergunta veio seca.
— Vi coisa suficiente para achar que o senhor precisa ver também.
— Beijo?
Lindenberg hesitou.
— Não.
Alcides fechou os olhos por um instante.
— Então você não viu traição.
— Não disse que vi.
Aquilo, mais do que qualquer dramatização, fez Alcides prestar atenção. Lindenberg não estava tentando convencê-lo.
— Mas?
— Vi portas fechando. Horário estranho. Mulher saindo do gabinete dele quando a dona Viviane já não estava no andar. Vi uma delas agarrada nele num estacionamento e se soltando quando percebeu gente chegando. Posso estar errado sobre alguma coisa. É justamente por isso que não fui falar com sua filha.
Alcides ficou muito tempo em silêncio.
Gregório havia passado por um câncer. Quase morrera. Perdera anos da vida. Voltava de uma recuperação que mexera com tudo, inclusive com a posição que ocupava na Fort. Alcides sabia que havia gente dentro e fora da empresa capaz de usar qualquer fraqueza de um executivo para derrubá-lo. O fato de Gregório já não ser o presidente e de Viviane ocupar a cadeira poderia produzir ressentimentos, fofocas e disputas.
Ele não condenaria um homem pela palavra de outra pessoa.
Nem mesmo quando esse homem era casado com sua filha.
Principalmente nesse caso.
— Quando?
Lindenberg entendeu.
— Tem um horário.
— Qual?
— Fim de tarde. Não todo dia. Às vezes quinta, às vezes terça. Normalmente quando dona Viviane desce para acompanhar o pessoal de tecnologia. Ela fica horas no outro lado da empresa quando tem demonstração de equipamento ou apresentação de mercado.
Alcides sabia disso.
Viviane gostava daquela parte. Entrava numa reunião técnica dizendo que ficaria vinte minutos e desaparecia por duas horas fazendo perguntas.
— E você acha que acontece nesse horário?
— Acho que o senhor deve ver por conta própria.
Alcides desligou sem prometer nada.
Não contou a Ivone.
Não telefonou para Viviane.
Não procurou Gregório.
Durante dois dias, tentou convencer a si mesmo de que aquilo provavelmente teria uma explicação. No terceiro, entrou no carro e foi à Fort Group.
A sensação foi estranha.
Havia anos que não pisava ali sem uma razão formal. Ao atravessar a recepção, cumprimentou pessoas que imediatamente endireitaram a postura, outras que sorriram com surpresa e alguns funcionários mais antigos que vieram apertar sua mão. Alcides respondeu a todos com tranquilidade. Disse que estava apenas passando. Perguntou por famílias. Fez uma brincadeira com alguém que comentou que ele estava bronzeado demais para um homem aposentado.
Ninguém percebeu que ele tinha o estômago fechado.
Esperou.
Viviane estava no prédio naquele dia.
Alcides soube pela secretária dela.
Pouco depois, viu a filha passar pelo corredor acompanhada de três pessoas da área de tecnologia, falando enquanto caminhava. Viviane não o viu. Estava com uma pasta debaixo do braço, fazendo alguma pergunta e ouvindo a resposta de um rapaz que parecia desesperadamente empenhado em acompanhá-la.
Alcides quase foi embora.
Olhou para a filha.
Pensou que Lindenberg podia estar errado.
Quis que estivesse.
Esperou mais.
Foi para outro andar, conversou com Severino por telefone sobre coisa nenhuma, tomou um café que não queria e, quando julgou que tempo suficiente tinha passado, voltou para a área executiva.
A secretária de Gregório se levantou assim que o viu.
— Doutor Alcides.
— Boa tarde.
Ele continuou andando.
Ela hesitou.
— O doutor Gregório está ocupado.
Alcides não diminuiu o passo.
— Eu espero dentro.
— Senhor… — ela se levantou depressa. — Talvez seja melhor eu avisar.
Alcides parou.
Olhou para ela. Foi apenas um olhar.
A mulher baixou os olhos.
Aquilo respondeu uma pergunta que ele ainda não havia feito.
— Não precisa.
Continuou.
Aquela empresa ainda era dele em todos os sentidos que importavam naquele corredor. Ninguém que trabalhara ali durante décadas ousaria colocar-se fisicamente diante de Alcides Fortenelle.
A porta do gabinete de Gregório não estava completamente fechada.
Havia uma fresta.
Alcides aproximou-se e, por uma fração de segundo, pensou que deveria bater.
Não bateu.
Empurrou.
O que viu foi suficiente.
Gregório estava em pé, próximo à lateral da mesa. Uma mulher estava diante dele, tão próxima que não existia qualquer interpretação profissional possível. A mão de Gregório estava na cintura dela.
Eles se beijavam.
Alcides parou.
Não houve imediatamente raiva.
Veio primeiro uma espécie de vazio tão grande que tudo pareceu ficar silencioso.
A mulher abriu os olhos antes de Gregório.
Viu Alcides. Reconheceu-o. O rosto perdeu a cor. Ela se afastou tão depressa que quase bateu na mesa.
Gregório virou. Quando viu o sogro, a expressão mudou de uma forma que Alcides jamais esqueceria. Não era surpresa por uma visita. Era medo de ter sido descoberto.
— Senhor...
Alcides não olhou para ele.
Olhou para a mulher.
— Saia.
Ela ficou imóvel.
— Doutor Alcides, eu...
Ele ergueu os olhos.
— Saia!
Não gritou. Não precisou.
A mulher pegou a bolsa com mãos trêmulas, passou por ele sem conseguir levantar o rosto e saiu quase correndo.
A porta fechou.
Ficaram os dois.
Gregório respirou fundo.
Alcides olhou para o homem diante dele e, durante alguns segundos, foi assombrado por muitas versões da mesma pessoa.
O rapaz que Severino apresentara.
O jovem bonito que olhava para Viviane como se ela fosse a única mulher de uma festa inteira.
O homem que pedira a mão da filha.
Aquele que ouvira, sem hesitar, que os filhos do casamento carregariam Fortenelle.
O genro que Alcides levara para a empresa.
O sucessor que escolhera.
O pai de Antônio.
O homem que quase morrera e que aquela família inteira ajudara a salvar.
Gregório abriu a boca.
— Eu posso explicar.
Foi essa frase. Talvez, se tivesse permanecido calado, Alcides ainda conseguisse se controlar.
Mas eu posso explicar significava que existia uma explicação possível para o que acabara de ver.
Alcides atravessou a distância entre os dois antes que Gregório terminasse de respirar.
O primeiro soco atingiu seu rosto.
Gregório não esperava.
A cabeça virou com o impacto e seu corpo bateu contra a lateral da mesa, derrubando alguns papéis. Por um instante ficou tão atordoado pela agressão quanto pelo fato de ela ter vindo daquele homem.
— Senhor...
Alcides acertou-o outra vez.
Dessa vez Gregório conseguiu levantar os braços, mas o golpe ainda o desequilibrou. Uma cadeira caiu atrás dele.
— Alcides, para!
Foi a primeira vez que usou o nome.
Não funcionou.
Alcides agarrou-o pela frente da camisa e o empurrou contra a parede.
Os olhos verdes que Viviane herdara do pai estavam irreconhecíveis. Gregório já o vira preocupado e severo. Nunca assim. A pele do rosto parecia queimar e os olhos estavam tão avermelhados que, por um instante, pareciam realmente tomados por fogo.
— Eu confiei minha filha a você. — a voz saiu baixa.
Isso assustou Gregório mais do que um grito.
— Eu sei.
Alcides bateu nele novamente.
— Não fala que sabe!
O soco atingiu Gregório antes que ele conseguisse se proteger completamente. Sentiu gosto de sangue na boca.
Levantou os braços.
Não revidou.
Poderia.
Era mais jovem, fisicamente mais forte e já havia recuperado boa parte do corpo depois do tratamento. Bastaria empurrar Alcides com força suficiente para afastá-lo.
Não fez.
Era o pai de Viviane.
O homem que o recebera dentro daquela família.
O homem que lhe dera trabalho quando ainda era apenas genro.
O homem que o escolhera para comandar o patrimônio construído pelo próprio pai.
Se Gregório levantasse a mão contra ele, sabia que poderia destruir qualquer possibilidade de retorno.
— Para, por favor.
Alcides não ouviu.
— Eu pus você aqui! — outro golpe. — Eu te trouxe para dentro da minha família!
Gregório conseguiu segurar seus pulsos.
— Senhor, me escuta.
A expressão de Alcides mudou ao sentir as mãos dele contendo seus braços.
— Solta!
— O senhor vai se machucar.
Foi a pior coisa que poderia dizer. Alcides puxou um braço com violência, libertou-se e acertou Gregório outra vez.
— Eu vou me machucar?
Gregório recuou.
— Eu não quis dizer...
— Minha filha dorme com você! — Alcides avançou novamente. — Minha filha criou seu filho com você!
Gregório conseguiu bloquear o próximo soco, mas Alcides o empurrou contra a mesa.
— Ela cuidou de você quando você estava morrendo!
A frase fez Gregório parar de se defender por uma fração de segundo.
Alcides viu.
— Ela ficou ao seu lado quando você não conseguia ficar em pé! — outro golpe atingiu o ombro. — Enquanto todo mundo achava que você podia morrer, aquela menina estava enlouquecendo tentando manter você vivo!
Gregório fechou os olhos.
— Eu sei.
— CALA A BOCA! — Alcides o agarrou novamente pela camisa. — Você sabe onde eu estava quando ela nasceu?
Gregório respirava com dificuldade.
Não respondeu.
— Do lado de fora esperando alguém me dizer que minhas duas meninas estavam bem. — a voz de Alcides começou a falhar, mas a raiva não diminuiu. — Eu passei a vida inteira cuidando dela.
Gregório tentou afastar suas mãos.
— Eu amo a Viviane.
Foi um erro ainda maior.
Alcides explodiu.
— NÃO FALA QUE AMA MINHA FILHA!
O grito atravessou a porta.
Alguém do lado de fora provavelmente ouviu.
Alcides não se importou.
— Você não põe outra mulher dentro da empresa dela e fala de amor para mim!
Gregório levou outro soco, recuou e bateu contra um móvel.
Dessa vez caiu sobre um joelho.
Alcides foi atrás.
— Levanta.
Gregório o olhou.
— Senhor...
— LEVANTA!
Gregório levantou porque percebeu que continuar no chão talvez piorasse.
Alcides avançou outra vez.
Gregório segurou os dois braços dele.
— BASTA! — foi a primeira vez que aumentou a voz.
Alcides ficou imóvel apenas pelo choque. Gregório respirava pesado, a boca ferida, o rosto começando a inchar.
— Eu não vou bater no senhor.
— Que nobre.
— Eu errei.
— Errou?
Alcides soltou uma risada sem qualquer humor.
— Você chama isso de erro?
— Eu fiz uma coisa imperdoável.
— Fez.
Gregório apertou os olhos.
— Eu sei.
— Quantas?
A pergunta veio repentinamente.
Gregório abriu os olhos.
— O quê?
— Quantas mulheres?
Silêncio.
Alcides percebeu. A fúria ganhou outra forma.
— Não é a primeira.
Gregório não respondeu.
— Quantas?
— Alcides...
— QUANTAS?
Gregório desviou o rosto.
Foi suficiente.
Alcides avançou novamente, e dessa vez Gregório mal conseguiu proteger o próprio rosto antes de sentir os golpes. Não havia técnica naquilo. Não era uma luta. Era um homem mais velho tomado por uma raiva tão absoluta que batia onde conseguia atingir. Gregório tentou segurá-lo pelos braços, afastá-lo, controlar a distância, mas Alcides parecia não sentir cansaço.
— Seu desgraçado! — outro golpe. — Eu coloquei você dentro da minha casa. — outro. — Você sentou na minha mesa. — outro. — Pegou minha filha pela mão na minha frente. —a voz já estava quebrada. — Ela te amava.
Gregório finalmente conseguiu afastá-lo alguns passos.
— Ela ainda me ama.
O silêncio que veio depois foi terrível.
Alcides olhou para ele.
Gregório soube instantaneamente que deveria ter ficado calado.
— É isso que você usa?
— Não.
— É por isso que faz isso?
— Não foi isso que eu quis dizer.
— Porque sabe que ela ama você?
Gregório balançou a cabeça.
— Não.
— Então você acha que pode fazer qualquer coisa e voltar para casa porque minha filha ama você?
— Não!
Alcides avançou.
Gregório segurou seus braços novamente.
Dessa vez não soltou.
— Para!
— Me larga!
— O senhor vai me matar desse jeito!
Alcides ficou muito perto do rosto dele.
Os olhos verdes pareciam realmente vermelhos.
— EU VOU MATAR VOCÊ!
Gregório congelou.
Não foi uma figura de linguagem.
Naquele momento, Alcides acreditava.
— SE VOCÊ DESTRUIR MINHA FILHA, EU MATO VOCÊ. EU ENTERRO VOCÊ E DEPOIS RESOLVO O RESTO!
Gregório sentiu pela primeira vez um medo real daquele homem.
Não porque acreditasse que Alcides fosse um assassino.
Justamente porque sabia que não era.
Se um homem como aquele estava olhando para ele daquela maneira, alguma coisa tinha sido rompida num nível que talvez jamais pudesse ser consertado.
Viviane estava do outro lado do prédio quando ouviu que alguma coisa havia acontecido no andar executivo. No início, não deu importância. Estava havia quase duas horas com a equipe de tecnologia, acompanhando uma apresentação sobre novos sistemas e tentando entender até onde determinadas soluções que começavam a aparecer no mercado poderiam ser adaptadas para a Fort Group. Era justamente aquele tipo de reunião em que perdia a noção do tempo: perguntava, voltava uma tela, pedia para explicarem novamente, queria saber custo, capacidade, integração, o que existia fora do Brasil e o que ainda era inviável ali. Só percebeu que havia algo realmente errado quando uma funcionária entrou na sala com o rosto alterado e pediu, quase sem saber como formular, que ela fosse até o andar de cima.
— Aconteceu alguma coisa?
A mulher hesitou.
— É seu pai!
Viviane levantou imediatamente.
— Meu pai está aqui?
Alcides quase nunca ia à empresa.
Aquilo por si só já seria estranho.
Saiu acompanhada por duas pessoas da equipe, mas acelerou quando chegou ao corredor principal e percebeu uma movimentação incomum. Quanto mais se aproximava da área executiva, mais gente encontrava parada, olhando para a mesma direção. Não eram funcionários trabalhando. Eram pessoas que tinham interrompido o que faziam porque alguma coisa estava acontecendo.
Então ouviu o grito.
A voz era de Alcides.
Viviane parou por um segundo.
Não porque não reconhecesse. Justamente porque reconheceu. Nunca tinha ouvido o pai gritar daquele jeito.
— Saiam daqui — disse, passando pelo primeiro grupo.
Algumas pessoas se afastaram imediatamente.
Outras demoraram.
Viviane empurrou o caminho entre elas, o coração já acelerado, e chegou à porta do gabinete de Gregório.
A cena que encontrou do outro lado pareceu tão incompatível com tudo que conhecia que, por um instante, seu corpo simplesmente não reagiu.
Alcides estava em cima de Gregório.
Seu pai.
O homem que nunca machucava uma mosca.
O homem que passara a vida inteira resolvendo brigas entre irmãos, apaziguando discussões, negociando problemas e ficando constrangido até quando alguém elevava demais a voz à mesa.
Aquele homem estava espancando seu marido.
Gregório já tinha o rosto marcado. Um dos olhos começava a inchar, o lábio estava aberto e havia sangue descendo do nariz, manchando a camisa clara e parte do colarinho. Tentava proteger a cabeça e afastar Alcides sem revidar, mas o pai de Viviane parecia não sentir a idade, o cansaço ou qualquer limite.
— EU VOU MATAR VOCÊ!
Viviane sentiu o sangue gelar.
— PAI!
Alcides nem pareceu ouvi-la.
Acertou Gregório novamente.
Viviane correu.
Agarrou o braço do pai.
— PARA!
Alcides tentou se soltar.
— Sai, Viviane!
— Pai, para!
— Eu só vou parar quando esse desgraçado estiver morto!
Viviane nunca tinha visto aqueles olhos.
Herdara deles a cor verde, mas naquele momento pareciam outra coisa. Vermelhos nas bordas, molhados pela raiva, quase febris. Alcides respirava tão rápido que o peito subia e descia sob a camisa. Havia sangue de Gregório nos nós de seus dedos.
Viviane sentiu medo.
Do próprio pai.
Aquilo a assustou mais do que conseguiu compreender.
Tentou segurá-lo novamente, mas Alcides era mais forte naquele instante do que ela imaginara. Soltou-se e avançou.
Viviane não teve tempo para pensar.
Entrou no meio.
Colocou-se diante de Gregório.
Alcides já estava com o punho levantado.
Parou.
Foi imediato.
Não porque tivesse recuperado o controle.
Não porque Gregório finalmente conseguira contê-lo.
Porque a filha estava na frente.
Viviane estava chorando.
— Chega.
Alcides ficou imóvel. A mão ainda fechada.
Viviane olhava para ele de um jeito que nunca havia olhado antes. Assustada.
— Pai, chega.
O punho desceu lentamente.
Alcides respirava pesado.
— Sai da frente, Viviane.
Ela balançou a cabeça.
— Não.
— Sai.
— Não.
A palavra pareceu feri-lo.
Não era apenas a recusa. Era a compreensão súbita do que estava acontecendo.
Viviane estava protegendo Gregório dele.
O homem que acabara de descobrir traindo a própria filha estava atrás dela, ferido, enquanto aquela menina que Alcides passara a vida inteira tentando proteger se colocava como barreira.
A raiva não desapareceu.
Mas ganhou dor.
— O que aconteceu? — Viviane perguntou.
Alcides olhou para Gregório. Depois para ela.
Por alguns segundos pareceu incapaz de falar.
Viviane virou-se. Viu o marido direito pela primeira vez.
Gregório estava encostado à mesa, respirando com dificuldade. Havia sangue na camisa, no canto da boca e abaixo do nariz. O rosto já começava a ficar roxo em alguns pontos. Nunca o tinha visto daquele jeito.
— Gregório?
Ele não respondeu.
Viviane sentiu um medo diferente.
Não precisava ainda ouvir.
Alguma coisa na expressão dele já lhe dizia.
Havia vergonha.
Não indignação.
Não perplexidade.
Vergonha.
Viviane olhou ao redor.
Um objeto feminino sobre a mesa. Pequeno. Um brinco deixado na pressa.
Não precisava daquilo.
O corpo de Gregório já tinha respondido.
— Gregório — repetiu.
Silêncio.
Então Alcides falou.
— Eu peguei seu marido com uma funcionária.
A frase entrou na sala devagar.
Viviane ficou imóvel.
Não foi exatamente surpresa.
Foi pior.
Foi confirmação.
Todas aquelas coisas que decidira não enxergar depois do detetive.
Os atrasos.
Os olhares.
As mulheres que pareciam saber alguma coisa.
As viagens.
A sensação que ela mesma vinha reprimindo porque Gregório conseguira convencê-la de que estava desconfiando demais.
De repente, estavam todas ali.
Não era loucura.
Nunca tinha sido.
Alcides percebeu o rosto da filha mudar.
E percebeu outra coisa.
— Você sabia?
Viviane levantou os olhos.
— Não.
A resposta demorou um segundo além do necessário.
Alcides conhecia a filha desde o primeiro dia de sua vida.
— Você sabia.
— Não sabia.
— Viviane.
Ela fechou os olhos.
— Eu desconfiava.
Foi como acertá-lo de um modo que Gregório não conseguira.
Alcides olhou para ela, atônito.
— Há quanto tempo?
Viviane não respondeu.
— Há quanto tempo você está desconfiando disso?
— Pai...
— Você sabia que ele estava fazendo isso e não falou comigo?
— Eu não sabia.
— Você desconfiava.
— É diferente.
— NÃO PARA MIM!
Viviane recuou um pouco.
Alcides viu.
Abaixou imediatamente a voz, mas a raiva continuava no rosto.
— Pegue suas coisas.
Viviane piscou.
— O quê?
— Suas coisas.
— Pai...
— Você vem comigo.
Ela ficou olhando para ele. Alcides falou como se aquilo fosse a única solução possível.
— Agora.
— Não.
Talvez ele realmente não tenha entendido.
— Viviane.
— Eu não vou embora assim.
O pai olhou para ela como se a filha tivesse acabado de enlouquecer.
— Assim como?
Viviane não conseguiu explicar. Alcides apontou para Gregório sem sequer olhar para ele.
— Esse homem está dormindo com mulheres que trabalham para a SUA família.
Cada palavra parecia escolhida para fazê-la compreender.
— Dentro da empresa que seu avô construiu.
Viviane apertou os lábios.
— Eu vou resolver isso.
Alcides ficou em silêncio.
— Com meu marido.
Ele soltou uma risada curta, incrédula.
— Não existe nada para resolver.
— Existe.
— O quê?
Viviane não sabia.
O casamento.
A vida.
Antônio.
Tudo aquilo que havia existido antes.
— Isso é entre nós.
Alcides olhou para a filha durante alguns segundos. Quando falou novamente, já não havia apenas raiva. Havia desespero.
— Você não precisa suportar homem nenhum, Viviane.
Ela sentiu os olhos encherem.
— Eu sei.
— Sabe?
Ele abriu os braços.
— Você tem casa. Tem dinheiro.Tem eu. Tem sua mãe. Tem suas irmãs. Tem cinco tios que arrancariam esse homem daqui agora se você pedisse. Tem uma família inteira. Você não depende dele para nada.
Viviane chorava em silêncio.
— Eu sei.
— Então por quê?
Ela olhou para Gregório.
Ele continuava quieto.
Humilhado.
Ferido.
E ainda assim, quando Viviane o olhou, não viu apenas aquele homem de agora.
— Porque eu amo ele.
Alcides fechou os olhos. Talvez nenhuma coisa dita naquela sala o tivesse enfurecido tanto. Quando tornou a abri-los, encarou Gregório.
— Você ouviu?
Gregório não respondeu.
— Olha o que ela está fazendo por você.
Viviane tentou interromper.
— Pai...
— Não! — Alcides olhou novamente para a filha. — Ele não merece você.
— Eu não estou dizendo que merece.
— Isso não é uma fase.
A frase a atingiu diretamente.
Viviane balançou a cabeça.
— Você não sabe.
— Sei o que acabei de ver.
— Gregório passou por muita coisa.
Alcides ficou imóvel.
Ela continuou, quase implorando para que o pai entendesse aquilo que vinha usando para explicar o marido a si mesma havia anos.
— Você sabe como ele voltou depois da doença. Ele quase morreu. Perdeu tudo que conhecia. O corpo, o trabalho, a… — parou antes de mencionar o que era íntimo demais. — Ele não voltou igual.
Alcides ouviu e respondeu sem hesitar.
— Câncer não ensina homem a trair a mulher.
Viviane fechou a boca. A frase foi brutal justamente porque era simples.
— Doença não fez isso. — ele apontou para Gregório. — Ele fez.
Gregório baixou os olhos.
Viviane chorou.
Alcides continuou:
— Não usa o câncer dele para dar desculpa pelo que ele está fazendo com você. Você cuidou dele quando ele teve câncer. Não saiu dormindo com homem porque estava cansada. Não humilhou ele porque estava com medo. Você ficou.
Viviane não respondeu.
Gregório também não.
O silêncio pareceu finalmente maior do que a raiva.
Alcides respirou fundo e olhou para o genro.
— Vai embora.
Gregório ergueu os olhos.
— Alcides...
— Não fala meu nome.
Gregório fechou a boca.
— Sai daqui.
Viviane virou-se.
— Pai...
— Ele vai sair antes que eu esqueça que você está na sala.
Gregório ficou alguns segundos parado. Depois se afastou da mesa.
O movimento pareceu doloroso.
Endireitou a camisa destruída sem qualquer resultado, passou a mão no nariz e viu o sangue nos dedos. Quando atravessou a sala, precisou passar perto de Viviane.
Os dois se olharam.
Ela ainda chorava.
Gregório parecia querer dizer alguma coisa.
Não disse.
Saiu diante de todos os funcionários que ainda permaneciam no corredor.
Foi talvez uma das maiores humilhações da vida dele.
O vice-presidente da Fort Group atravessando a própria empresa com o rosto inchado, a camisa manchada de sangue e dezenas de pessoas sabendo, mesmo que ninguém tivesse ainda todos os detalhes, que Alcides Fortenelle tinha acabado de espancá-lo dentro de seu gabinete.
Viviane fechou os olhos.
Alcides aproximou-se.
— Vamos para casa.
Dessa vez ela não discutiu.
Alcides a levou.
A notícia chegou à família antes deles.
Os Fortenelle nunca foram bons em manter informação dentro de um único núcleo, principalmente quando se tratava de uma das filhas de Alcides. Quando chegaram ao sítio, Ivone já sabia que alguma coisa grave tinha acontecido. Pouco depois chegaram Marlene e Elza. Em seguida Severino. Depois Getúlio. Jurandir. Domingos. Juninho.
Os cinco irmãos de Alcides.
Alguns primos apareceram também.
A casa encheu.
Não como nos domingos felizes.
Não havia comida espalhada pela mesa, crianças correndo ou Domingos tentando fazer piadas.
Havia homens com os rostos fechados.
Os Fortenelle não eram violentos. Nenhum deles tinha sido criado assim. Geraldo fora exigente, mas nunca ensinara os filhos a resolver problema com os punhos. Aqueles homens podiam discutir, reclamar, provocar uns aos outros e passar horas debatendo uma decisão empresarial, mas violência física não fazia parte daquela família.
Só que Viviane não era apenas sobrinha.
Para aqueles cinco homens, as três filhas de Alcides tinham crescido quase como filhas deles também.
Viviane especialmente estivera em todos os lugares.
A menina dos laços combinando com os sapatos, perguntando quando poderia acompanhar os homens à empresa, agora estava sentada diante deles dizendo que o marido vinha se envolvendo com outras mulheres.
A reação foi visceral.
Severino queria saber nomes.
Getúlio perguntou havia quanto tempo.
Domingos deixou de falar completamente.
Jurandir, que normalmente fazia piada até nos momentos mais inadequados, parecia incapaz de encontrar uma.
Juninho andava de um lado para outro.
E então veio a pergunta que Viviane temia.
— Tem mais alguma coisa?
Foi Severino.
Ela levantou os olhos.
— Como assim?
Ele olhou diretamente para ela.
— Além das mulheres.
Viviane sentiu o corpo ficar rígido.
A resposta deveria ter sido simples.
Não era.
Pensou nas noites. Nos braços segurados. Nos pedidos para parar que nem sempre eram ouvidos. Na maneira como algumas relações tinham se transformado em coisas que ela suportava em silêncio. Pensou no medo que vinha sentindo sem querer chamar de medo.
Mas ainda não existiam tapas. Não existiam socos. Não havia marcas que pudesse mostrar. E Viviane ainda não conseguia nomear aquilo.
— Não.
Severino continuou olhando.
— Tem certeza?
— Tenho.
Alcides estava perto. Viviane não conseguiu olhar para ele.
— Ele nunca fez mais nada?
— Não.
Foi a mentira que protegeria Gregório durante anos.
Os homens trocaram olhares.
Então decidiram que queriam falar com ele.
Viviane se levantou imediatamente.
— Não.
— Vivi — começou Getúlio.
— Não.
Ela olhou para o pai. Depois para os tios.
— Vocês não vão encostar nele.
Ninguém respondeu.
— Eu quero ouvir.
Severino passou a mão pelo rosto.
— Ninguém vai matar o Gregório.
— Meu pai quase matou hoje.
Alcides abaixou os olhos.
Era verdade.
Viviane começou a chorar novamente.
— Eu não vou deixar ele entrar aqui para vocês fazerem a mesma coisa.
Ivone abraçou a filha.
— Calma.
— Não quero que machuquem ele.
A frase produziu a mesma dor que produzira em Alcides na empresa. Depois de tudo, ela ainda estava preocupada com Gregório.
Domingos foi o primeiro a responder.
— Ninguém vai encostar nele.
Viviane olhou.
— Promete.
— Prometo.
Ela passou os olhos pelos outros.
— Todos.
Um por um, os tios concordaram.
Severino foi o último.
— Eu não vou bater nele.
Alcides ficou em silêncio.
Viviane encarou o pai.
— Pai.
Ele respirou fundo.
— Não vou bater nele de novo.
Aquilo bastou.
Mandaram buscar Gregório.
Quando ele chegou, o rosto estava ainda pior do que algumas horas antes. O inchaço havia aumentado, havia um curativo pequeno sobre o nariz e o lábio continuava cortado.
Viviane sentiu o estômago revirar ao vê-lo.
Ainda era capaz de sentir pena.
Isso a confundia profundamente.
Os homens foram para uma sala.
Só eles.
Viviane ficou do lado de fora com Ivone, Marlene e Elza.
No início ouviu apenas vozes. Depois gritos.
Não conseguia distinguir tudo.
Às vezes reconhecia Severino. Outras, Alcides. Em determinado momento ouviu Gregório elevar a voz.
Viviane levantou imediatamente.
— Eles prometeram.
Ivone segurou sua mão.
— Vivi...
— Eles prometeram que não iam bater nele.
— Não estão.
— Como você sabe?
Ivone não sabia.
Viviane começou a andar. Queria abrir a porta.
Marlene a impediu.
— Deixa eles conversarem.
— Isso não é conversa.
Os gritos aumentaram. Viviane começou a chorar novamente. Ivone a abraçou. Ela se deixou cair contra a mãe como não fazia havia anos.
— Eu não sei o que fazer.
Foi a primeira vez que disse aquilo em voz alta.
Ivone acariciou seus cabelos.
— Você não precisa decidir tudo hoje.
— Eu amo ele.
— Eu sei.
— E eu odeio o que ele fez.
— Eu sei.
Viviane fechou os olhos.
— Antônio… — o nome do filho carregava uma dor própria. — Eu não quero destruir a vida dele.
Ivone segurou o rosto da filha.
— Você não fez isso.
Viviane tentou acreditar. A conversa dentro da sala durou muito. Quando finalmente a porta abriu, todos se levantaram. Os primeiros a sair foram os tios. Nenhum parecia satisfeito. Severino estava vermelho. Getúlio mantinha a mandíbula rígida. Domingos não olhava para ninguém. Jurandir passou direto. Juninho permaneceu perto da porta. Alcides saiu por último antes de Gregório.
Ninguém o havia tocado.
Viviane percebeu isso imediatamente. Os ferimentos eram os mesmos que o pai provocara horas antes.
Gregório apareceu no vão e parecia destruído.
Não fisicamente apenas.
O homem que sempre tivera uma postura segura, que sabia entrar numa sala e ocupá-la, estava curvado, os olhos vermelhos, chorando de uma maneira que Viviane nunca tinha visto.
Ele procurou por ela.
Quando a encontrou, caminhou alguns passos.
Então caiu de joelhos.
Viviane ficou imóvel.
— Gregório...
Ele começou a chorar mais. Não havia elegância. Não havia controle. Soluçava.
— Me perdoa.
Viviane sentiu as pernas fraquejarem.
— Levanta.
— Eu estraguei tudo.
— Gregório, levanta.
— Eu nunca mais faço isso.
Ela fechou os olhos. Já tinha ouvido uma versão daquela promessa antes.
— Nunca mais. — Gregório ergueu o rosto machucado. — Eu não piso mais naquela empresa se você não quiser.
Viviane abriu os olhos.
— A empresa não é o problema.
— Eu saio da Fort Group.
— Gregório...
— Nunca mais olho para outra mulher.
Severino virou o rosto. Alcides permaneceu imóvel.
Gregório continuou.
— Eu juro.
Viviane chorava.
— Não jura.
— Eu juro pelo Antônio.
A frase fez alguma coisa nela.
— Não põe nosso filho nisso.
Gregório abaixou a cabeça.
— Desculpa.
Ela ficou olhando para ele.
Aquela era talvez a parte mais cruel de amar alguém que também era capaz de feri-la: Gregório não parecia um monstro naquele momento.
Parecia o marido dela. O homem machucado. O pai de Antônio. O homem que quase morrera. A pessoa com quem dividira boa parte da vida adulta.
Viviane queria odiá-lo.
Teria sido muito mais simples.
Em vez disso, sentia raiva, humilhação, tristeza, pena, amor e uma vontade desesperada de voltar algumas horas no tempo, para quando ainda não sabia.
Gregório estendeu a mão.
Viviane olhou. Demorou. Depois segurou.
A expressão de Alcides mudou.
Ela viu.
O pai não disse nada.
Viviane ajudou Gregório a levantar.
Não houve aplauso. Não houve reconciliação bonita. Ninguém naquela sala acreditou que o problema estava resolvido. Mas, naquela noite, Viviane decidiu permanecer casada.
Perdoou Gregório outra vez.
Não porque acreditasse que aquilo que ele fizera fosse pequeno. Não porque achasse que merecia menos. Não porque dependesse dele.
Perdoou porque ainda amava o homem que existia entre as traições, porque tinha um filho de sete anos que adorava o pai, porque havia atravessado um câncer segurando a mão dele e porque ainda insistia em acreditar que a pior versão de Gregório era uma versão temporária.
Alcides observou a filha sair ao lado do marido e sentiu uma impotência que dinheiro, sobrenome e décadas de experiência não conseguiam resolver.
Ele podia proteger Viviane de quase qualquer pessoa no mundo.
Só não podia protegê-la de um homem que ela ainda escolhia amar.
A parte mais difícil daquela noite não foi voltar para casa com Gregório. Não foi ajudá-lo a entrar sem que os empregados fizessem perguntas demais, nem lidar com o silêncio entre os dois durante o caminho. Foi Antônio. O menino estava acordado quando chegaram e correu em direção ao pai assim que ouviu a porta, mas parou antes de alcançá-lo. Gregório estava com o rosto inchado, manchas roxas começavam a se espalhar por uma das maçãs do rosto e havia pequenos curativos cobrindo os cortes no nariz e no lábio. Antônio ficou olhando, os olhos arregalados, sem entender como o pai que saíra inteiro de casa podia ter voltado daquele jeito. Viviane ainda procurava uma explicação quando Gregório se adiantou. Disse que tinha sofrido um pequeno acidente de carro. Nada sério. Um susto apenas. Antônio olhou imediatamente para a mãe, como fazia quando queria confirmar se uma informação difícil era verdadeira, e Viviane sentiu uma dor quase física ao assentir. Não gostava de mentir para o filho, mas dizer a uma criança de oito anos que o avô havia espancado o pai depois de encontrá-lo com outra mulher parecia uma crueldade muito maior. Então confirmou que estava tudo bem, abaixou-se diante de Antônio e repetiu que o pai tinha se machucado, mas não havia perigo. O menino ainda pareceu preocupado. Perguntou se doía, se Gregório precisava voltar para o médico e se o carro tinha ficado destruído. Gregório respondeu às perguntas com uma paciência que tornou a mentira ainda mais difícil de suportar e, quando Antônio finalmente o abraçou, fez isso com cuidado, como fazia nos anos do câncer. Gregório sentiu. Viviane também.
Mais tarde, quando Antônio já dormia, Viviane levou uma pequena caixa de primeiros socorros para o quarto e sentou-se diante do marido. Gregório estava na borda da cama, sem camisa, ainda abatido pelo que acontecera. Alcides havia batido nele com uma violência que ninguém daquela família imaginava ser capaz de existir naquele homem. Havia marcas no rosto, no ombro e nas costelas, e Gregório estremecia quando Viviane tocava determinados pontos. Ela molhou o algodão, limpou com cuidado o sangue seco perto do nariz e tentou não pensar no absurdo da situação. Algumas horas antes tinha descoberto, de maneira definitiva, que o marido continuava traindo-a. Agora estava ajoelhada diante dele tratando os ferimentos causados pelo próprio pai. Em algum lugar dentro dela havia raiva suficiente para querer deixá-lo sozinho naquela cama, mas o gesto de cuidar parecia ter sido incorporado ao corpo ao longo dos anos. Viviane havia passado tanto tempo cuidando de Gregório doente que reagia antes de decidir se ele merecia aquilo. Quando via dor, ajudava. Quando via sangue, limpava. Quando ele fechava os olhos porque o antisséptico ardia, diminuía a pressão dos dedos. O amor não desaparecia na mesma velocidade em que a confiança era destruída.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Gregório permaneceu em silêncio durante boa parte do tempo. A humilhação daquela tarde parecia ter atingido alguma coisa ainda mais profunda do que os golpes. Não era apenas ter apanhado. Era ter sido espancado dentro da Fort Group, diante de funcionários, pelo homem que o recebera naquela família e que ainda carregava, mesmo afastado da administração, uma autoridade quase ancestral naquele lugar. Era saber que gente tinha visto sua camisa ensanguentada, seu rosto destruído, Alcides expulsando-o da empresa como se fosse alguém que nunca deveria ter entrado. Depois ainda viera a reunião com os irmãos Fortenelle, seis homens encarando-o do outro lado de uma sala, dizendo em vozes diferentes a mesma coisa: que ele não merecia Viviane, que havia humilhado a família e que não teria uma segunda chance se repetisse aquilo. Gregório pedira desculpas. Chorara. Ajoelhara-se diante da esposa. Prometera. Naquele momento acreditara em algumas dessas promessas. Mas, agora, sentado diante de Viviane, enquanto ela limpava um corte provocado pelo próprio pai, a vergonha começava lentamente a procurar um lugar onde pudesse ser colocada.
— Está doendo? — Viviane perguntou ao perceber que ele contraiu o rosto.
Gregório soltou uma pequena risada amarga.
— O que você acha?
Ela parou.
— Estou tentando ajudar.
— É, eu sei.
Viviane voltou a limpar o corte. Durante alguns segundos houve apenas silêncio.
Então Gregório falou:
— Seu pai me tratou como um cachorro.
A mão dela parou outra vez.
Viviane levantou os olhos.
— Meu pai encontrou você com outra mulher.
Gregório desviou o rosto.
— Eu sei o que ele encontrou.
— Então não fala como se aquilo tivesse acontecido do nada.
— Eu não disse isso.
— Parece.
Viviane fechou o frasco que estava usando.
Gregório respirou fundo e olhou para o próprio reflexo no espelho diante da cama.
— Ele podia ter me matado.
Viviane não respondeu imediatamente porque essa parte era verdade.
Alcides realmente podia ter matado Gregório naquele estado.
E ela própria tinha sentido medo.
— Eu sei.
Gregório olhou para ela.
— E você deixou.
A frase foi tão inesperada que Viviane demorou a compreender.
— O quê?
— Você deixou ele me bater.
Ela ficou olhando para o marido.
— Eu entrei no meio de vocês.
— Depois.
— Gregório, eu nem estava lá quando começou.
— Mas estava quando continuou.
Viviane sentiu algo se mover dentro dela, uma mistura de indignação e incredulidade.
— Eu me coloquei na sua frente!
— Quando eu já estava assim.
Ele apontou para o próprio rosto.
Viviane se levantou devagar.
— Você está me culpando pelo meu pai ter batido em você?
— Não estou culpando.
— Está, sim.
— Só estou dizendo que todo mundo naquela família acha que pode fazer qualquer coisa comigo.
Ela ficou imóvel.
A conversa já não era sobre Alcides.
Viviane percebeu.
— Meu pai perdeu a cabeça porque viu você traindo a filha dele.
— E isso dá direito de quase me matar?
— Não. — ela respondeu imediatamente. — Não dá. E eu disse isso para ele.
Gregório riu sem humor.
— Claro. Depois todo mundo voltou para casa e fizeram uma reunião para decidir o que fazer comigo.
— Porque você estava dormindo com mulheres da empresa.
— EU SEI O QUE FIZ! — a voz aumentou.
Viviane recuou um passo.
Gregório percebeu, mas não se desculpou.
— Eu sei o que fiz — repetiu, agora mais baixo. — Só estou cansado de ser tratado como se fosse lixo por aquela família.
— Você não foi tratado assim antes disso.
— Não?
— Não.
— Você tem certeza?
Viviane franziu a testa.
Gregório continuou, e havia tanta mágoa real misturada à injustiça das palavras que por alguns instantes se tornou difícil separar uma coisa da outra.
— Seu pai me colocou na Fort Group e depois me tirou. Seus tios sempre me olharam como o homem que casou com a sobrinha deles. Seu pai me espancou dentro da empresa e ninguém fez nada. Depois me levaram para uma sala como se eu fosse um garoto para levar sermão.
— Você quer que eu sinta pena de você hoje?
Gregório a encarou.
Viviane raramente falava daquela maneira.
— Não.
— Porque eu estou tentando entender. — ela apontou para ele. — Eu descobri hoje que você continuava me traindo. Eu descobri que não estava louca. Passei meses achando que eu tinha ultrapassado todos os limites por contratar aquele detetive, pedi desculpas para você, comecei a fingir que não via as coisas estranhas porque você me convenceu de que o problema era meu. E agora estou aqui limpando o seu sangue e ouvindo que eu deixei meu pai bater em você.
Gregório baixou os olhos. Por alguns segundos, parecia envergonhado.
— Não foi isso que eu quis dizer.
Viviane respirou profundamente.
— Então não diga.
Ele assentiu.
Ela voltou a sentar.
Terminou os curativos em silêncio.
Aquela noite não terminou numa grande discussão. Talvez tivesse sido mais fácil se terminasse. Gregório pediu desculpas outra vez antes de dormir. Viviane aceitou sem dizer que estava tudo bem, porque não estava. Deitou-se longe dele e passou muito tempo acordada, olhando para o escuro, pensando na estranha facilidade com que uma conversa sobre a traição dele quase se transformara numa conversa sobre a violência de Alcides e na culpa dela por não ter impedido tudo mais cedo. Ainda conseguia perceber o absurdo. Ainda conseguia nomear, dentro da própria cabeça, que não era responsável. Só não sabia que aquela seria uma das primeiras vezes em que Gregório tentaria deslocar para ela o peso das consequências do que fazia.
Ele nunca voltou a trabalhar na Fort Group.
No início, todos trataram a ausência como parte do acordo feito naquela sala. Gregório havia prometido afastar-se, Viviane não discutiu e ninguém na família tentou convencê-lo do contrário. O título de vice-presidente desapareceu pouco depois e, com ele, a última ligação formal que Gregório mantinha com a empresa que ocupara boa parte de sua vida adulta. Financeiramente, aquilo não o colocou em dificuldade. Tinha patrimônio, investimentos, contatos e possibilidades suficientes para trabalhar em outros projetos. Mas emocionalmente foi muito diferente. Para Gregório, a Fort Group deixava de ser apenas o lugar onde perdera a presidência. Tornou-se também o lugar de sua maior humilhação. O prédio onde fora descoberto. O corredor que atravessara ensanguentado. A empresa onde o sogro o espancara e onde a esposa continuava entrando todos os dias pela porta principal como presidente.
Em casa, ele se tornou mais amargo.
Não o tempo inteiro. Essa parte seria importante demais para Viviane esquecer. Ainda havia manhãs boas. Fins de semana em família. Momentos em que Gregório preparava alguma coisa com Antônio, levava o filho para passear, fazia Viviane rir ou aparecia com um presente que demonstrava lembrar exatamente de algo que ela dissera semanas antes. Havia noites em que se sentavam para jantar e pareciam, durante uma hora inteira, a família que haviam sido antes. Esses momentos mantinham Viviane presa à ideia de que o pior já tinha passado.
Mas as discussões começaram a ganhar outra linguagem.
Gregório passou a usar palavras que antes evitava.
Se Viviane chegava tarde, não perguntava apenas como fora o trabalho.
— A presidente resolveu aparecer.
Se ela precisava sair para um jantar empresarial:
— Vai desfilar para os seus executivos?
Quando Viviane reagia:
— Não fala comigo assim.
Gregório dava de ombros.
— Agora tudo ofende você.
Às vezes dizia que ela tinha se tornado arrogante.
Outras, que a Fort Group havia subido à cabeça.
Quando ela respondia que trabalhava demais justamente porque assumira responsabilidades que ninguém da família queria, Gregório lembrava que fora ele quem a colocara ali.
— Você não teria nem entrado naquela empresa se não fosse por mim.
Essa frase apareceu pela primeira vez numa discussão pequena.
Viviane ficou tão surpresa que nem respondeu imediatamente.
— O quê?
Gregório percebeu o impacto e, em vez de recuar, continuou.
— Foi comigo que você entrou.
— Eu entrei como sua secretária por um dia.
— Porque eu deixei.
Viviane ficou olhando para ele.
— Meu pai me colocou nos contratos.
— Depois que eu abri a porta.
Aquela era a história que Gregório começava a contar para si mesmo.
Viviane devia a ele o próprio espaço.
Se a Fort Group agora admirava Viviane, parte daquela admiração deveria pertencer a Gregório. Se ela era presidente, era porque ele, em algum momento, permitira que entrasse.
Viviane recusava-se a aceitar.
— Você me ajudou. Não fez minha carreira.
Gregório sorria de um jeito frio.
— Claro.
A palavra carregava tudo que ele não dizia.
As discussões tornaram-se frequentes o suficiente para Antônio perceber que os pais estavam passando por uma fase ruim, mas Viviane fazia esforço para nunca discutir diante do filho. Quando a voz de Gregório começava a subir e Antônio estava em casa, ela encerrava.
— Depois.
Gregório algumas vezes insistia.
Viviane olhava em direção ao corredor.
— Não com o nosso filho aqui.
Esse limite ele ainda respeitava na maior parte do tempo.
Esperava.
Mais tarde recomeçava.
E, quando estavam sozinhos, não havia necessidade de manter a voz baixa.
Foi numa dessas noites que aconteceu a primeira vez.
Não começou com algo importante.
Talvez por isso Viviane se lembrasse de cada detalhe.
Ela chegara de um jantar relacionado à Fort Group mais tarde do que havia previsto. Gregório estava acordado na sala. Antônio dormia havia horas.
— Você podia ter ligado.
Viviane tirou os sapatos.
— Eu liguei.
— Às dez.
— Porque disseram que sairíamos às dez.
— São quase meia-noite.
— A reunião se estendeu.
Gregório riu.
— Claro.
Viviane reconheceu o tom.
— Não começa.
— Eu não comecei nada.
Ela respirou fundo. Estava cansada.
— Boa noite, Gregório.
Passou por ele.
Gregório segurou seu braço.
Viviane parou.
Olhou para a mão dele.
— Me solta.
Ele não soltou.
— Eu estou falando com você.
— E eu estou dizendo que não quero discutir agora.
— Você nunca quer discutir quando não é conveniente.
Viviane tentou puxar o braço. Os dedos dele apertaram.
— Está machucando.
Gregório a soltou.
Ela esfregou o local.
— O que está acontecendo com você?
— Comigo?
— Sim.
— Nada.
— Você está cada vez mais agressivo.
A palavra atingiu. Gregório se levantou.
— Agressivo?
— Sim.
— Seu pai quase me matou e eu sou agressivo?
Viviane sentiu cansaço antes mesmo de raiva.
— Nós já falamos disso.
— Você falou.
— Você traiu.
— Lá vem você.
— Você quer falar do meu pai? Eu vou falar do motivo pelo qual ele estava naquela sala.
Gregório aproximou-se.
— Você adora isso, não é?
Viviane franziu a testa.
— Adoro o quê?
— Me lembrar.
— Você acha que eu gosto de lembrar que meu marido me trai?
— Gosta de jogar na minha cara.
— Gregório, você fez isso.
— E você me perdoou.
Viviane ficou em silêncio.
— Ou não?
— Perdoar não apaga.
— Então para de fingir que perdoou.
Ela sentiu a raiva finalmente vencer o cansaço.
— Talvez eu devesse mesmo ter ido embora naquele dia.
A frase saiu.
Gregório mudou. Foi pequeno, mas imediato.
— O quê?
Viviane também percebeu o peso do que tinha dito. Ainda assim não retirou.
— Talvez meu pai tivesse razão.
Gregório ficou alguns segundos olhando para ela.
— Você não vai embora.
Não soou como pergunta. Viviane sentiu algo gelado no peito.
— Não fala assim.
— Assim como?
— Como se decidisse por mim.
Gregório deu um passo.
— Você não vai separar meu filho de mim.
— Eu não falei do Antônio.
— É sempre sobre ele!
— Eu estou falando do nosso casamento.
— Você não vai destruir nossa família porque seu pai encheu sua cabeça.
Viviane riu de incredulidade.
— Meu pai?
— Desde aquele dia.
— Você está ouvindo o que está dizendo?
— Estou.
— Então ouve melhor. — Viviane apontou para ele. — Meu pai não colocou mulher nenhuma na sua cama. Meu pai não mentiu para mim durante meses. Meu pai não fez eu achar que estava ficando louca.
Gregório agarrou seu braço novamente. Mais forte.
Viviane tentou se soltar.
— Me larga!
— Para de falar dele como se fosse santo.
— Me solta.
— Seu pai me humilhou.
— GREGÓRIO, SOLTA.
Ele a empurrou, foi rápido.
Viviane não esperava. O corpo bateu contra a lateral de um móvel e ela precisou colocar a mão para não cair.
O silêncio que veio depois pareceu preencher a casa inteira.
Gregório ficou imóvel. Viviane também.
Ela olhou para ele.
Não reconheceu imediatamente o que tinha acontecido. Não porque fosse difícil compreender um empurrão. Porque seu marido nunca tinha feito aquilo.
Gregório tinha colocado as duas mãos nela e a empurrado com força.
— Vivi...
Ela levantou a mão.
— Não.
Gregório ficou branco.
— Eu não...
Viviane se afastou.
— Não chega perto. — a voz dela tremia.
Aquilo pareceu acordá-lo completamente.
— Eu não quis fazer isso.
Ela olhou para o braço onde os dedos dele tinham deixado marcas avermelhadas.
— Mas fez.
Gregório levou as mãos à cabeça.
— Meu Deus. — começou a andar de um lado para o outro. — Meu Deus, Vivi, eu...
Ela continuava perto do móvel.
Gregório aproximou-se um passo.
Viviane recuou.
Ele parou imediatamente. A expressão desmoronou.
— Eu nunca faria isso com você.
Viviane olhou para ele.
— Acabou de fazer.
Gregório começou a chorar. Não alto. Mas lágrimas surgiram.
— Eu perdi a cabeça.
Viviane permaneceu em silêncio.
— Foi uma vez. Eu juro que nunca mais.
Viviane fechou os olhos. Gregório não tentou tocá-la.
— Me desculpa.
Ela não respondeu.
— Por favor.
O silêncio durou muito.
Viviane finalmente olhou para ele. Gregório parecia aterrorizado com o próprio gesto. Naquela noite, era possível acreditar que estava. Talvez estivesse mesmo.
É isso que tornava as coisas tão perigosas. Ele não parecia satisfeito por tê-la machucado.
Parecia horrorizado.
E Viviane precisava desesperadamente acreditar que horror significava impossibilidade de repetição.
— Você nunca mais põe a mão em mim desse jeito.
A voz saiu baixa.
Gregório assentiu imediatamente.
— Nunca.
— Nunca.
— Eu prometo.
Viviane o olhou durante muito tempo. Depois foi para o quarto. Trancou a porta. Gregório dormiu em outro cômodo.
Na manhã seguinte havia um roxo pequeno perto de seu braço.
Viviane vestiu uma blusa que o cobria. Nem percebeu o significado do gesto.
Disse a si mesma que não queria perguntas.
Que Antônio não precisava ver. Que a mãe perceberia. Que os tios transformariam aquilo numa guerra.
Não estava escondendo Gregório. Estava apenas evitando um problema maior por causa de uma coisa que nunca mais aconteceria.
Foi assim que pensou.
Uma vez.
Gregório perdera o controle uma vez.
Não era um homem que batia na esposa.
Não podia ser.
Viviane conhecia homens assim pelas histórias de outras mulheres, por notícias, por comentários que ouvira ao longo da vida.
Gregório não era um deles.
Gregório era seu marido.
Era o pai de Antônio.
Era o homem que quase morrera e voltara diferente.
Ele precisava de ajuda.
Precisava de tempo.
Precisava se reencontrar.
Viviane ainda acreditava que existia algum caminho capaz de levá-lo de volta ao homem por quem se apaixonara.
Por isso, quando Ivone perguntou naquele fim de semana por que a filha estava usando mangas compridas num dia tão quente, Viviane sorriu e respondeu que simplesmente gostara daquela blusa.
E Gregório, sentado do outro lado da sala, ouviu.
Não disse nada.
Mas aprendeu uma coisa que Viviane ainda não sabia que estava ensinando.
Ela esconderia.
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