O CEO que Eu Paguei

268 De outro ponto de vista - Parte IV


Nada mudou na essência dos Fortenelle. O dinheiro aumentava, as empresas se transformavam, os filhos cresciam, casavam e começavam a formar suas próprias famílias, mas qualquer motivo continuava servindo para reuni-los. Um aniversário era suficiente, uma volta de viagem também; às vezes bastava alguém decidir que fazia tempo demais desde o último almoço, ainda que esse “tempo demais” significasse pouco mais de uma semana. Marlene se casou, depois Elza, e os casamentos foram recebidos com o mesmo exagero afetuoso que acompanhava tudo naquela família. A cada novo genro, novas piadas surgiam sobre a dificuldade de sobreviver à quantidade de Fortenelle que vinha junto com uma única esposa. Gregório, a essa altura, já havia deixado de ser tratado como visitante havia muito tempo. Severino discutia negócios com ele, Getúlio gostava de ouvir suas ideias sobre expansão, Domingos implicava com sua obsessão por custos, Jurandir reclamava que o cunhado transformava qualquer conversa inocente em oportunidade para falar de crescimento, e Juninho continuava achando que Gregório trabalhava mais do que qualquer ser humano razoável deveria trabalhar. Nem todos gostavam da maneira como ele administrava, mas gostavam dele. E, sobretudo, gostavam de Viviane, o que fazia com que desejassem sinceramente que o casamento dos dois desse certo.

Quando Alcides decidiu que já havia permanecido tempo demais na presidência da Fort Group, a escolha seguinte pareceu quase natural. Gregório trabalhara muito, conhecia cada vez melhor as empresas, tinha formação adequada e, principalmente, demonstrava uma vontade de comandar que nenhum Fortenelle parecia possuir. Alcides reuniu os irmãos, esperando ao menos alguma discussão, mas encontrou algo muito próximo de alívio. Severino não queria a cadeira, Getúlio gostava de seus próprios projetos, Jurandir considerava a simples possibilidade uma ameaça à qualidade de vida, Domingos preferia negociar a administrar o conjunto inteiro e Juninho afirmou, com absoluta seriedade, que não havia construído uma vida confortável para começar a participar de reunião todos os dias. Os filhos deles não eram muito diferentes. Haviam crescido ainda mais confortáveis que os pais e demonstravam interesse suficiente para assumir seus próprios negócios ou posições, mas nenhum parecia disposto a carregar o grupo inteiro nas costas. Em algum momento daquela conversa, alguém chegou a dizer, entre risos, que talvez tivessem cometido um erro ao ter tantos meninos; se tivessem tido filhas, quem sabe algum marido aparecesse disposto a assumir aquilo por eles. Alcides riu mais do que todos, talvez porque o comentário carregasse uma ironia que ninguém ali parecia perceber completamente.

Gregório tornou-se diretor da Fort Group, e Alcides recebeu a mudança como um homem libertado de uma obrigação que cumprira bem, mas nunca amara. Não demorou muito para desaparecer da empresa quase por completo. Pegou Ivone, organizou uma viagem que os dois adiavam havia anos e embarcou num cruzeiro que deveria durar alguns meses e acabou se estendendo por quase seis. De tempos em tempos mandava notícias, fotografias e recomendações que ninguém havia pedido, enquanto os irmãos continuavam tocando seus braços do grupo e Gregório assumia cada vez mais o centro de tudo. Viviane ficou genuinamente feliz por ele. Sabia o quanto o marido queria aquela oportunidade e ainda se lembrava da euforia com que voltava para casa nos primeiros meses, contando economias, contratos renegociados e oportunidades que acreditava que os Fortenelle haviam ignorado por comodismo. Gregório pensava grande. Era diferente deles. Para os Fortenelle, uma empresa boa era aquela que sustentava muitas famílias, crescia o suficiente e permitia que seus proprietários continuassem vivendo bem. Gregório queria saber até onde ela poderia chegar.

Por algum tempo, essa diferença pareceu uma vantagem. Depois, começou a cobrar um preço. Na tentativa de reduzir custos, Gregório mexeu em estruturas que existiam havia décadas, trocou fornecedores tradicionais, reduziu equipes e pressionou negociações até o limite. Algumas decisões funcionaram magnificamente; outras, não. A qualidade de determinados equipamentos caiu, obras começaram a demandar correções que antes eram raras, clientes antigos passaram a reclamar e economias feitas de um lado reapareciam como problemas do outro. A Fort Group continuava grande, continuava rica e muito longe de qualquer colapso, mas os números já não tinham a beleza que Gregório prometera. O mais difícil era que os Fortenelle jamais considerariam reduzir drasticamente a vida que levavam para compensar uma administração pior. Para eles, aquilo inverteria toda a lógica de Geraldo. Trabalhavam justamente para viver daquela maneira. Não pretendiam vender casas, cortar viagens ou diminuir confortos porque o grupo começara a render menos. Gregório, portanto, passou a sentir a pressão aumentar conforme descobria que mudar o alicerce de uma empresa era muito mais fácil do que reconstruí-lo quando alguma coisa não funcionava.

Viviane percebia que o marido estava mais tenso, mas durante algum tempo atribuiu tudo ao trabalho. Gregório chegava cada vez mais tarde, carregava preocupações para dentro de casa e começou a tossir com frequência. No início era uma tosse seca, irritante, que ele dispensava com um gole d’água e alguma reclamação sobre ar-condicionado. Depois vieram o cansaço e uma perda de peso lenta o bastante para que ele mesmo fingisse não perceber. Os ternos começaram a assentar de maneira diferente. O rosto bonito ficou mais fino. Algumas noites, Gregório chegava em casa e parecia não ter energia nem para brincar com Antônio por muito tempo, embora fizesse esforço quando o menino corria em sua direção. Viviane insistia para que procurasse um médico, e ele respondia sempre da mesma maneira: estava trabalhando demais, dormindo pouco, precisava apenas descansar. Se ela pressionava, Gregório ria, beijava sua testa e dizia que era um homem saudável, como se masculinidade tivesse alguma capacidade particular de afastar doença.

O que Viviane não dizia era que outra mudança a machucava de uma forma mais íntima. O desejo de Gregório por ela parecia ter desaparecido junto com o peso que perdia. O homem que antes a procurava com facilidade, que fazia questão de tocá-la quando passava, que parecia incapaz de permanecer muito tempo perto da esposa sem encontrar algum pretexto para aproximá-la, começou a adormecer exausto, recusar carícias com um beijo cansado ou dizer que deixariam para outro dia. Nas poucas vezes em que tentavam, algumas eram ainda piores, porque Gregório não conseguia manter o próprio membro respondendo como antes. Ele ficava irritado, virava de costas e culpava o trabalho. Viviane fingia acreditar. Depois permanecia acordada olhando para o teto.

A primeira conclusão dela não foi doença.

Foi ela mesma.

Viviane jamais contou aquilo para ninguém. Sentia vergonha até de pensar. Talvez tivesse mudado depois da gravidez. Talvez não fosse mais tão bonita. Talvez Gregório ainda a amasse, mas simplesmente não a desejasse da mesma maneira. Encontrava-se diante do espelho examinando o próprio corpo com uma crueldade que não aplicaria a nenhuma outra mulher. Procurava diferenças na cintura, nos seios, no rosto, imaginava se estava se arrumando menos, se passara a falar demais de contratos, se se tornara menos feminina depois que começara a trabalhar diariamente na Fort Group. Em algumas noites escolhia com mais cuidado o que vestir, soltava o cabelo do jeito que sabia que Gregório gostava e esperava que ele percebesse. Quando ele chegava exausto, beijava-lhe a testa e dizia que precisava dormir, Viviane sorria como se não tivesse esperado nada.

Aquilo doía.

Não porque duvidasse completamente do amor dele. Gregório ainda era carinhoso. Ainda a abraçava, ainda lhe trazia alguma coisa quando via algo que lembrava dela, ainda sorria daquele jeito que podia fazê-la esquecer durante alguns minutos o incômodo acumulado. Mas Viviane conhecia a diferença entre carinho e desejo, e começava a sentir falta de ser olhada pelo marido como fora desde a primeira noite em que Severino os apresentara.

Gregório não percebia metade da insegurança que estava criando. Para ele, o problema era o próprio corpo, o cansaço, a pressão na Fort Group, uma fase que passaria assim que conseguisse dormir melhor e resolver alguns dos problemas da empresa. Admitir qualquer outra possibilidade seria aceitar uma vulnerabilidade que o incomodava profundamente. Quando Viviane perguntava se estava tudo bem entre os dois, ele parecia genuinamente confuso.

— Claro que está.

— Você quase não me procura mais.

Gregório passava a mão pelo rosto.

— Vivi, eu estou cansado.

Ela assentia.

— Eu sei.

— Não tem nada a ver com você.

Viviane queria acreditar.

Quase sempre acreditava durante algumas horas.

Então voltava a olhar para si mesma.

Antônio, felizmente, não percebia nada daquela mudança silenciosa entre os pais. Aos dois anos, seu mundo era simples demais para conter problemas de diretoria, medo de doença ou inseguranças conjugais. Era uma criança alegre, cercada por uma quantidade absurda de adultos dispostos a entretê-lo. Tinha aprendido que bastava aparecer num almoço dos Fortenelle para alguma pessoa pegá-lo no colo, outra oferecer alguma coisa proibida e uma terceira repreender a segunda. Corria pela casa dos avós, dos tios e dos pais como se todas lhe pertencessem, pronunciava nomes pela metade e recebia aplausos por feitos tão banais quanto conseguir subir sozinho num sofá.

Viviane era completamente encantada pelo filho. Antônio tinha crescido ainda mais parecido com Gregório: loiro claríssimo, pele clara, olhos que chamavam atenção e um sorriso fácil que aparecia sempre que alguém fazia qualquer esforço mínimo para agradá-lo. Continuava gordinho, com aquelas bochechas que Viviane não resistia a beijar até que ele se contorcesse, rindo e tentando empurrar o rosto da mãe.

— Mamãe! — reclamava entre gargalhadas.

A palavra era capaz de desmontá-la.

Viviane o agarrava outra vez.

— Fala de novo.

— Mamãe!

Mais beijos.

Antônio gritava, ria e tentava escapar.

Não havia sombra alguma naquele menino. Nenhuma amargura. Nenhuma rivalidade.

Era apenas uma criança muito amada que esperava que o mundo respondesse quando sorria porque, até aquele momento, sempre respondera.

Alcides fez questão de transformar o aniversário de dois anos do neto numa comemoração que ninguém consideraria razoável para uma criança que provavelmente não lembraria de nada depois. O tema foi O Pequeno Príncipe, e Antônio passou boa parte da festa vestido como o personagem, correndo entre os convidados com uma pequena coroa que insistia em segurar sobre a cabeça porque ela caía sempre que aumentava a velocidade. Viviane tentava arrumá-la e ele imediatamente saía correndo outra vez.

A casa estava cheia.

Severino apareceu cedo e passou parte da tarde carregando o sobrinho-neto de um lado para outro. Domingos trouxe presentes demais e foi acusado de tentar comprar a preferência da criança. Jurandir reclamou do calor, da quantidade de gente e da existência de crianças pegajosas até Antônio esticar os braços para ele, quando imediatamente mudou de opinião. Juninho apareceu com alguma coisa relacionada a barcos que a criança só poderia usar muitos anos depois, alegando que planejamento nunca era cedo demais.

Getúlio, por sua vez, decidiu que uma festa de dois anos não precisava apenas de decoração.

Precisava de um circo.

Quando Viviane soube, já havia artistas, palhaços e até um elefante incluído em algum plano que ninguém teve coragem de cancelar.

— Tio, ele tem dois anos!

Getúlio pareceu não compreender a objeção.

— Exatamente. Vai adorar.

Antônio, de fato, adorou.

Olhou para o elefante com a boca aberta durante tanto tempo que Domingos disse que aquela provavelmente seria a primeira lembrança permanente da vida do menino.

Gregório chegou mais tarde do que Viviane gostaria, mas chegou carregando uma caixa tão grande que Antônio parou imediatamente o que estava fazendo. O pai colocou o embrulho no chão e chamou o filho.

— Vem cá, campeão.

Antônio correu.

Tentou puxar a fita e não conseguiu. Gregório se abaixou ao lado dele, tossiu discretamente para o lado e ajudou. Quando a caixa finalmente foi aberta, revelou uma Baby Moto da Bandeirante.

Antônio soltou um grito tão alto que várias pessoas começaram a rir.

— Minha!

— Sua — Gregório confirmou.

O menino tentou subir antes mesmo de entender como aquilo funcionava. Gregório o segurou pela cintura, Viviane se aproximou para evitar uma queda e, por alguns minutos, os três ficaram ali cercados por familiares enquanto Antônio apertava tudo que encontrava e ria.

Viviane olhou para o marido. Gregório estava mais magro. Ela percebeu mesmo naquele momento. Mas o sorriso dele era o mesmo. E Antônio estava tão feliz que Viviane permitiu a si mesma simplesmente guardar a imagem de toda a família reunida.

Os presentes foram tantos que demoraram quase três dias para abrir tudo. Algumas caixas ficaram empilhadas numa sala, e Antônio passou a considerar aquilo uma extensão da brincadeira. Viviane encontrou brinquedos que nem lembrava quem havia dado, roupas que provavelmente não serviriam quando chegasse a estação certa e pelo menos três presentes praticamente iguais porque ninguém na família tinha qualquer habilidade de comunicação quando se tratava de comprar coisas para crianças.

Ela estava feliz.

Apesar da preocupação com Gregório.

Apesar dos problemas na Fort Group.

Apesar das noites em que se perguntava se o marido ainda a desejava.

Antônio era uma fonte tão pura de alegria que fazia tudo parecer administrável.

Até Gregório começou a piorar mais depressa.

A tosse deixou de ser eventual.

Havia noites em que acordava tossindo. Em outras, suava tanto que precisava trocar a camisa antes de voltar para a cama. A perda de peso já não podia ser atribuída apenas ao corte do terno. Viviane passou a insistir diariamente para que fosse ao médico, e a resposta continuava sendo uma combinação irritante de cansaço, teimosia e orgulho.

Foi necessário algo quase banal para finalmente fazê-lo ceder.

Gregório tinha uma reunião importante naquela manhã e começou o dia tossindo de uma maneira particularmente persistente. Um dos executivos com quem se encontraria comentou que aquilo já durava tempo demais. Depois outro. Finalmente, talvez mais para encerrar as recomendações do que por preocupação real, Gregório marcou uma consulta. Disse a Viviane pelo telefone que faria apenas um exame simples, provavelmente uma radiografia do tórax, e que depois teria o prazer de mostrar a ela que estivera exagerando durante meses.

Viviane respondeu que ficaria muito feliz em estar errada.

Esperou uma ligação depois.

Não veio.

No fim da tarde, telefonou para a sala dele e descobriu que Gregório não havia voltado.

Tentou encontrá-lo.

Nada.

Quando ele finalmente ligou, a voz estava estranha.

Não abatida exatamente.

Controlada.

— Vivi, onde você está?

Ela estava na empresa.

— Aqui. Por quê? — houve uma pausa. — Quero conversar com você.

O coração de Viviane acelerou sem que ela soubesse ainda por quê.

— Sobre o exame?

— É.

— Gregório, o que aconteceu?

— Não por telefone.

Viviane levantou-se antes mesmo de a conversa terminar.

Encontraram-se em casa, num cômodo afastado onde sabiam que ninguém entraria. A babá estava com Antônio. Gregório esperava por ela sentado, os cotovelos apoiados nos joelhos e as mãos juntas. Ainda usava a roupa do trabalho, mas a gravata estava solta e, pela primeira vez desde que o conhecia, Viviane teve a impressão de que o marido não sabia como começar uma frase.

Ela fechou a porta.

— Me fala.

Gregório levantou os olhos.

Viviane conhecia aquele homem. Conhecia seus sorrisos. Conhecia a irritação. O entusiasmo. A arrogância ocasional. O charme usado quando queria convencê-la.

Nunca tinha visto aquele olhar.

— Gregório…

Ele respirou fundo.

— Apareceu uma coisa no exame.

Viviane não se sentou.

— Que coisa?

— Eles fizeram outros exames.

Ela já conseguia ouvir o próprio coração.

— E?

Gregório levantou-se. Talvez porque não suportasse continuar sentado enquanto dizia aquilo.

— É câncer.

A palavra entrou na sala e pareceu retirar todo o restante do ar.

Viviane ficou olhando para ele.

Não compreendeu imediatamente.

Ou compreendeu e recusou.

— Não.

Gregório se aproximou.

— Vivi...

— Não.

Era a única palavra que conseguia produzir.

Gregório tentou segurar seus braços e ela deixou, mais por não saber o que fazer com o próprio corpo do que por qualquer decisão. De repente, tudo que havia observado nos últimos meses se organizou de maneira brutal: o peso, a tosse, o cansaço, as noites suadas, a falta de desejo, o corpo que não respondia.

Não era ela.

O pensamento apareceu no meio do horror e provocou uma culpa imediata por sequer existir.

Não era ela.

Era câncer.

Viviane sentiu as pernas enfraquecerem.

Gregório a segurou.

— Ei.

Ela olhou para ele e, naquele instante, não viu o diretor da Fort Group, nem o homem bonito que mulheres ainda observavam quando passava, nem o marido charmoso que conquistara sua família inteira.

Viu o pai do filho dela.

O homem com quem planejara envelhecer.

O homem com quem ainda pretendia ter Clarisse e talvez mais quatro crianças que nunca haviam conseguido decidir.

E ouviu a palavra novamente dentro da cabeça.

Câncer.

— Você vai morrer?

Gregório reagiu imediatamente.

— Não.

A firmeza pareceu quase uma ordem.

Viviane começou a chorar.

— Gregório...

— Não. Olha para mim.

Ele segurou o rosto dela.

— O médico disse que tem tratamento.

— Mas é câncer.

— Eu sei.

A voz dele falhou pela primeira vez. Só um pouco. Gregório respirou e continuou.

— É um linfoma. Hodgkin. Eles disseram que responde a tratamento. Vão tratar de forma agressiva, mas tem tratamento.

Viviane tentava ouvir.

As palavras chegavam partidas.

Linfoma.

Tratamento.

Agressivo.

Quimioterapia.

Gregório.

Antônio.

— Quanto tempo?

— Ainda vão organizar tudo.

— E se não funcionar?

— Vai funcionar.

— Você não sabe.

— Vai funcionar.

Ele disse com a convicção de um homem acostumado a transformar decisão em resultado.

Viviane chorava abertamente agora.

Gregório puxou-a contra o peito.

— Nada vai mudar.

A frase era impossível.

Os dois sabiam.

Ainda assim, ele repetiu.

— Está me ouvindo? Nada vai mudar. Eu vou tratar, vou melhorar e isso acaba.

Viviane apertou a camisa dele entre os dedos.

— E o Antônio?

Gregório fechou os olhos.

Aquilo pareceu finalmente atingi-lo num lugar que todo o restante não havia alcançado.

— Eu vou ver meu filho crescer.

Ela chorou ainda mais.

— Você promete?

Gregório a abraçou com força.

— Prometo.

Viviane encostou o rosto no peito dele, tentando acreditar que promessas tinham algum poder sobre células, exames ou médicos. Gregório beijou seus cabelos e continuou falando sobre tratamento, sobre médicos bons, sobre possibilidades, sobre como haviam descoberto e como fariam tudo o que fosse necessário.

Ele dizia que seria agressivo.

Que talvez ficasse doente durante algum tempo.

Que provavelmente precisaria reduzir o trabalho.

Mas falava como se estivessem discutindo mais um problema da Fort, alguma crise suficientemente complicada para exigir esforço, organização e tempo.

Viviane queria acreditar naquela lógica.

Queria desesperadamente.

Do outro lado da casa, Antônio começou a rir de alguma coisa que a babá havia feito.

O som atravessou o corredor.

Viviane fechou os olhos.

Poucas horas antes, seu maior medo tinha sido que Gregório não a desejasse mais.

Agora daria qualquer coisa para que aquele fosse novamente o maior problema de sua vida.

Gregório começou o tratamento poucos dias depois, e a primeira exigência que fez a Viviane não veio dos médicos, mas dele próprio.

Não queria que ninguém soubesse.

Viviane ficou olhando para o marido quando ouviu aquilo, sem compreender como ele imaginava que seria possível esconder uma doença daquela gravidade da família com quem almoçavam praticamente toda semana, dos irmãos de Alcides que apareciam sem avisar, dos funcionários que o viam diariamente na Fort Group e, principalmente, de uma mãe como Ivone, que ainda conseguia perceber quando uma das filhas estava preocupada apenas pela maneira como atendia ao telefone. Gregório insistiu. Não queria pena, não queria gente perguntando como estava, não queria transformar a própria doença em assunto dos almoços dos Fortenelle e, sobretudo, não queria que a empresa soubesse. Tinha acabado de assumir o comando da Fort Group. Os resultados já não eram aqueles que desejara, havia pressão por todos os lados e, na cabeça dele, anunciar que estava com câncer seria o mesmo que se declarar incapaz justamente quando precisava provar que tinha condições de resolver os problemas que criara.

Viviane tentou argumentar. Disse que a família poderia ajudar, que ela não sabia como fariam aquilo sozinhos, que Antônio tinha apenas dois anos e que alguém perceberia. Gregório segurou suas mãos e pediu apenas um pouco de tempo. Falava com uma convicção que misturava medo e orgulho. O tratamento seria agressivo, mas os médicos tinham deixado claro que havia possibilidade real de cura. Ele queria começar, entender como o corpo reagiria e, quando estivesse melhor, talvez contassem. Não precisava preocupar todo mundo antes da hora.

Viviane cedeu.

Foi a primeira de muitas coisas que faria porque amava Gregório demais para acrescentar mais um peso ao que ele já carregava.

Nas primeiras semanas, ainda foi possível fingir.

Gregório diminuía discretamente a agenda nos dias de tratamento. Viviane inventava compromissos. Quando alguém perguntava por que ele havia saído mais cedo, havia sempre uma consulta, um assunto particular, algum encontro externo. O nome Borborema ainda abria portas suficientes para que poucos questionassem sua ausência, e o cargo de diretor permitia organizar a própria rotina sem explicar cada hora. Viviane acompanhava quase todas as sessões. Às vezes deixava Antônio com a babá, outras com Ivone, dizendo apenas que tinha compromissos com Gregório. Sentava-se ao lado do marido e segurava sua mão enquanto substâncias de nomes que mal conseguia pronunciar entravam no corpo dele.

Foi numa dessas consultas que um médico falou sobre fertilidade.

Viviane não estava preparada.

Até aquele momento, toda conversa tinha girado em torno de sobrevivência, resposta ao tratamento, exames, efeitos colaterais, infecções, queda de cabelo, náuseas e uma quantidade de riscos que já lhe parecia grande demais. Quando o médico explicou que o tratamento necessário poderia comprometer seriamente a fertilidade de Gregório e que existia a possibilidade de aquilo ser permanente, Viviane sentiu a mão do marido endurecer dentro da sua.

Gregório não perguntou nada.

Foi ela quem perguntou.

— Permanente como?

O médico explicou com cuidado. Não era uma certeza absoluta, mas o risco era considerável, principalmente com o esquema agressivo que planejavam usar. Se quisessem preservar alguma possibilidade futura, existiam alternativas que precisavam ser discutidas antes de avançar.

Viviane olhou para Gregório.

Ele continuava encarando o médico.

Por um instante, foi como se o câncer tivesse finalmente encontrado a parte dele que ainda não havia conseguido atingir.

Gregório sempre falara de filhos no plural. Desde o namoro. Antônio nunca havia sido imaginado como filho único. Era o primeiro. Depois viria Clarisse. Talvez outro menino. Talvez outra menina. Haveria barulho pela casa, brinquedos demais, crianças brigando por alguma coisa e Viviane dizendo que ele tinha pedido aquela quantidade.

De repente, existia a possibilidade de Antônio ser o único.

No caminho para casa, Gregório permaneceu em silêncio.

Viviane tentou tocar sua mão.

Ele deixou.

Só não disse nada.

Ela sabia que estava sofrendo, mas não encontrou uma forma de consolá-lo que não parecesse cruel. Não podia dizer que já tinham Antônio como se aquilo anulasse o direito de lamentar os filhos que ainda desejavam. Não podia dizer que tudo ficaria bem porque, pela primeira vez, não tinha certeza.

Quando chegaram, Antônio veio correndo.

Gregório se abaixou por reflexo, e o menino se jogou nos braços dele.

— Papai!

A palavra pareceu fazer alguma coisa com Gregório.

Ele abraçou o filho com força.

Viviane ficou parada a poucos passos, observando.

Antônio reclamou porque o pai apertava demais, depois começou a rir quando Gregório beijou seu rosto. Não sabia o que tinha sido discutido algumas horas antes. Não sabia que, numa sala de consultório, médicos haviam acabado de transformar irmãos ainda inexistentes numa possibilidade que talvez nunca se realizasse.

Só sabia que o pai tinha chegado.

Naquela noite, depois que Antônio dormiu, Gregório finalmente falou.

— Talvez ele seja o único.

Viviane estava deitada ao lado dele.

Virou o rosto.

— Talvez.

Gregório ficou olhando para o teto.

— Eu queria mais.

— Eu também.

Ele engoliu em seco.

Viviane aproximou-se e colocou a cabeça em seu ombro.

— Mas eu quero você vivo.

Gregório fechou os olhos.

Ela percebeu que ele lutava para não chorar.

— Então a gente resolve uma coisa de cada vez — continuou. — Primeiro você melhora.

Ele virou o rosto e beijou sua testa.

Viviane permaneceu ali, abraçada ao marido, fingindo para os dois que conseguia dividir o futuro em problemas pequenos o suficiente para serem resolvidos.

Não conseguia.

Nos meses seguintes, o tratamento começou a retirar de Gregório tudo aquilo que fazia sua doença parecer escondível.

Primeiro veio o mal-estar. Não o cansaço comum que ele vinha usando como justificativa havia meses, mas uma exaustão que algumas vezes mal lhe permitia atravessar a casa sem precisar sentar. Depois as náuseas. Havia dias em que Viviane preparava ou mandava preparar tudo que ele costumava gostar e Gregório não conseguia sequer suportar o cheiro. Em outros, tentava comer para tranquilizá-la e acabava correndo para o banheiro pouco depois.

Viviane aprendeu horários de medicamentos, sinais de febre que exigiam telefonar para o médico, quais alimentos ele tolerava melhor e como reconhecer a expressão que antecedia uma onda de náusea. Aprendeu a ajudá-lo sem fazer parecer que estava ajudando. Gregório odiava sentir-se dependente. Ela começou a deixar água ao alcance sem oferecer, roupas separadas sem comentar, toalhas limpas no banheiro antes que ele precisasse pedir.

E então vieram os cabelos.

A primeira vez que Viviane encontrou fios loiros demais no travesseiro, ficou parada olhando para eles.

Gregório percebeu.

Passou a mão pela cabeça e alguns outros ficaram entre seus dedos.

— Bom — tentou brincar. — Pelo menos agora seu tio Jurandir não pode dizer que meu cabelo é melhor que o dele.

Viviane sorriu porque sabia que ele precisava que sorrisse.

Mais tarde, chorou no banheiro.

Gregório sempre tivera cabelos bonitos. Era uma coisa boba diante de um câncer, e justamente por isso a perda parecia tão violenta. Era visível. Concreta. Não podia ser explicada por excesso de trabalho ou uma noite mal dormida.

Quando começou a cair em quantidade maior, Gregório decidiu raspar.

Viviane ficou com ele.

Passou a mão pela cabeça do marido depois que terminaram e tentou enxergar o mesmo homem.

Enxergava.

Ainda eram os mesmos olhos verdes.

A mesma boca.

O mesmo jeito de sorrir.

Mas o rosto estava mais magro e sem os cabelos parecia ainda mais evidente que Gregório estava doente.

Ele observou o próprio reflexo por bastante tempo.

— Estou horrível.

Viviane aproximou-se por trás e passou os braços em torno dele.

— Continua bonito.

Gregório soltou uma risada sem humor.

— Você é minha mulher. Não vale.

— Então pergunta para as minhas antigas alunas.

Ele finalmente riu.

Foi uma vitória pequena.

Viviane passou a colecionar vitórias pequenas.

Gregório conseguir jantar.

Uma semana em que os exames apareciam melhores.

Antônio fazer o pai rir.

Uma noite inteira sem febre.

Uma manhã em que ele acordava disposto.

Qualquer coisa servia.

O segredo, porém, tornou-se insustentável.

Viviane estava quase enlouquecendo.

Era a única pessoa que sabia tudo. Os médicos falavam com ela porque Gregório algumas vezes estava cansado demais para absorver as informações. Ele descarregava nela o medo que não admitia diante de mais ninguém. A Fort Group continuava exigindo dele decisões que já não tinha energia para tomar. Antônio exigia da mãe aquilo que qualquer criança de dois anos exigiria: presença, brincadeira e segurança. E Viviane ainda tentava trabalhar.

Dormia pouco.

Algumas noites acordava para verificar Gregório e, ao voltar para a cama, encontrava-se pensando na empresa. Outras levantava porque Antônio chorava. Havia madrugadas em que os dois precisavam dela quase ao mesmo tempo.

Mesmo assim, recusava-se a deixar que o filho percebesse alguma coisa.

Antônio continuava sendo uma criança feliz.

Viviane fazia questão.

O pai podia estar no hospital pela manhã e, se Antônio perguntasse, estava “no médico”. Quando Gregório passava o dia mal, Viviane mantinha o menino em outros cômodos, levava-o para a casa da mãe ou inventava uma tarde com os primos. Se o filho entrava no quarto e encontrava o pai deitado, Gregório abria os braços e dizia que só estava cansado.

Antônio aceitava.

Às vezes subia na cama e deitava ao lado dele.

Falava coisas que só crianças daquela idade compreendiam inteiramente, mostrava brinquedos, contava histórias sem começo nem fim e, por alguns minutos, Gregório parecia esquecer tudo.

Viviane os observava da porta.

E sofria em silêncio.

O momento em que deixou de ser possível esconder aconteceu depois de uma piora mais séria.

Gregório passou mal na Fort Group.

Não chegou a desmaiar, mas precisou sentar no meio de uma reunião e não conseguiu voltar para casa sozinho. Quando Viviane chegou para buscá-lo, encontrou dois executivos, Severino e Getúlio esperando no corredor.

Severino olhou para o sobrinho por casamento. Depois para Viviane.

— O que está acontecendo?

Ela tentou responder.

Não conseguiu.

Gregório também não.

Foi ele quem finalmente disse:

— Chama todo mundo.

Viviane fechou os olhos por um segundo. Sabia o que aquilo significava.

Naquela noite, os Fortenelle se reuniram. Não houve comida demais. Não houve piada. Não houve criança correndo no meio dos adultos.

Viviane sentou-se ao lado de Gregório e segurou a mão dele enquanto o marido contou.

Câncer.

Linfoma.

Tratamento.

Quimioterapia.

Meses escondendo.

A reação da família foi exatamente o que Gregório tentara evitar e, ao mesmo tempo, tudo aquilo de que Viviane precisava.

Ivone começou a chorar.

Alcides ficou tão imóvel que por alguns segundos Viviane não soube se havia compreendido.

Domingos perdeu completamente a capacidade de fazer graça.

Juninho baixou os olhos.

Getúlio fez perguntas práticas, talvez porque fosse a única maneira de lidar com o choque: qual médico, qual hospital, qual tratamento, o que precisavam fazer.

Severino ficou furioso.

Não com a doença.

Com Gregório.

— Há quanto tempo vocês sabem?

Gregório respondeu.

Severino virou-se para Viviane.

— E você estava segurando isso sozinha?

Ela tentou defender o marido.

— Foi uma decisão nossa.

Severino conhecia a sobrinha o suficiente para saber que aquilo não era inteiramente verdade.

Não discutiu.

Atravessou a sala e abraçou Viviane.

Foi nesse instante que ela finalmente chorou na frente de alguém.

Não como chorava escondida no banheiro.

Não como chorara nos braços de Gregório na noite do diagnóstico.

Desabou.

O corpo inteiro.

Meses de medo vieram de uma vez.

Ivone se juntou.

Depois Marlene.

Elza.

Em pouco tempo, Viviane estava cercada por aquela família enorme da qual Gregório tentara protegê-los da preocupação. E, pela primeira vez desde o diagnóstico, não precisava ser a única pessoa forte da sala.

A decisão sobre a Fort foi tomada sem grande discussão.

Gregório precisava se afastar.

Ele tentou argumentar.

Alcides não deixou.

— Você vai tratar.

— Eu consigo continuar algumas coisas.

— Não.

— Alcides...

— A empresa estava aqui antes de você e vai estar aqui quando você voltar.

Gregório ficou em silêncio.

A frase era para tranquilizá-lo.

Mesmo assim, Viviane sentiu a mão dele endurecer.

Voltar.

Tudo passou a ser organizado em torno dessa palavra.

Gregório se afastaria até melhorar.

Alguém assumiria até ele voltar.

A vida ficaria suspensa até ele voltar.

Não havia, naquele momento, qualquer ideia de substituição definitiva.

Nem Viviane pensava nisso.

Muito menos Gregório.

O problema apareceu na manhã seguinte.

Quem assumiria a Fort Group?

Alcides havia acabado de abandonar a rotina que passara anos tentando deixar. Severino não queria. Getúlio tinha seu braço e nenhuma vontade de assumir o conjunto. Jurandir parecia quase ofendido por alguém considerar a possibilidade. Domingos tinha capacidade comercial, mas não o perfil administrativo. Juninho rejeitou antes mesmo que terminassem de perguntar.

Os filhos deles não eram diferentes.

Todos tinham patrimônio, posições, negócios, famílias e liberdade demais para sentir a urgência que Geraldo sentira quando começara tudo aquilo.

Ninguém precisava da presidência.

E ninguém queria herdar, ainda que temporariamente, uma holding que começava a demonstrar problemas justamente no momento em que seu diretor enfrentava um câncer.

A reunião aconteceu sem Viviane.

Isso, anos depois, ainda lhe pareceria curioso.

Seis homens discutindo quem deveria assumir uma empresa e decidindo que a melhor pessoa era uma mulher que não estava na sala.

Foi Alcides quem disse primeiro.

— A Vivi conhece mais a operação que qualquer um de nós agora.

Severino não respondeu de imediato.

Getúlio concordou devagar.

Domingos lembrou que ela acompanhara contratos de diferentes braços durante anos.

Juninho, que certa vez quase perdera a cor ao encontrá-la como secretária de Gregório, foi o mais hesitante.

— Diretora?

Alcides balançou a cabeça.

— Não precisa chamar assim.

A diferença no nome pareceu tornar a ideia menos absurda.

— Ela só toca as coisas até o Gregório voltar.

Até Gregório voltar.

Era uma solução de emergência.

Não uma revolução.

Não a escolha de uma sucessora.

Não um reconhecimento de que Viviane talvez fosse a melhor pessoa para comandar a Fort Group.

Era apenas a filha de Alcides, já inserida nos contratos, nos números e nas operações, mantendo o lugar aquecido para o marido enquanto ele tratava uma doença grave.

Quando a chamaram, Viviane demorou a compreender.

Estava sentada diante do pai e dos tios, imaginando que discutiriam alguma coisa sobre Gregório, quando Alcides explicou.

— Queremos que você fique responsável por tocar a empresa por enquanto.

Viviane ficou olhando para ele.

— Eu?

— Temporariamente.

A palavra veio depressa.

— Claro.

Alcides continuou:

— Você conhece os contratos, conhece os números, o Gregório te mostrava praticamente tudo e você já circula por várias áreas. Não precisa mudar nada grande. Só manter as coisas andando.

Viviane olhou de um tio para outro.

Nenhum parecia estar fazendo brincadeira.

Seu coração deveria ter acelerado pela oportunidade.

Não acelerou.

A primeira coisa que pensou foi em Gregório.

— Eu preciso falar com ele.

Juninho pareceu não entender.

— Sobre o quê?

— Sobre isso.

— Vivi, ele está afastado.

— Exatamente.

Alcides entendeu.

Viviane jamais aceitaria a posição se acreditasse que aquilo machucaria o marido.

Não depois de tudo.

Encontrou Gregório naquela noite.

Ele estava cansado, mas acordado.

Viviane sentou-se ao lado dele na cama e contou.

— Meu pai quer que eu assuma enquanto você estiver tratando.

Gregório olhou para ela. Por alguns segundos, não disse nada.

Viviane sentiu o estômago apertar.

— Eu posso dizer não.

— Por quê?

— Porque é seu cargo.

— Vivi.

— Eu não quero que você pense...

— Pense o quê?

Ela demorou.

— Que estão aproveitando que você está doente.

Gregório soltou o ar e virou o rosto.

Viviane imediatamente se arrependeu. Talvez tivesse colocado a ideia onde ela ainda não existia.

Mas ele voltou a olhar para ela.

— Você quer?

— Não importa.

— Claro que importa.

— Eu quero que você melhore.

— Isso não responde.

Viviane ficou em silêncio.

Gregório conhecia a esposa.

Conhecia aquela menina que quis Economia, aceitou Matemática, largou uma escola excelente para sentar diante de uma mesa de secretária porque a mesa ficava dentro da Fort Group. Conhecia a mulher que lia contratos enquanto amamentava Antônio e que passava noites fazendo perguntas sobre números que não eram responsabilidade dela.

Ele sabia a resposta.

— Aceita.

Viviane arregalou ligeiramente os olhos.

— Gregório...

— Aceita.

— Tem certeza?

— Você conhece aquilo melhor do que metade das pessoas que estão se oferecendo para ajudar.

Ela quase riu.

Ninguém estava se oferecendo.

Talvez Gregório também soubesse disso.

Ele segurou a mão dela.

— E eu prefiro que seja você.

Aquilo decidiu.

Viviane inclinou-se e beijou o marido.

— Só até você voltar.

Gregório sorriu.

— Só até eu voltar.

Nenhum dos dois percebeu naquele momento quanto aquela frase definiria os meses seguintes.

Viviane assumiu a Fort Group sem jamais acreditar realmente que estava assumindo.

Na cabeça dela, estava apenas segurando.

Era quase uma extensão do que fazia em casa desde o início do tratamento: manter as coisas funcionando enquanto Gregório não podia.

Só que a Fort Group era infinitamente maior do que uma casa.

Na primeira semana, descobriu isso de maneiras que nenhum relatório poderia explicar.

Entrou numa reunião acompanhada do diretor financeiro e de dois homens do jurídico. O fornecedor levantou-se quando eles chegaram, cumprimentou Viviane educadamente e perguntou:

— O doutor Gregório não vem?

Ela já estava acostumada à pergunta.

— O senhor Gregório está afastado por motivos de saúde. Eu vou conduzir a negociação.

O homem assentiu.

Depois virou-se para o diretor financeiro.

— Como eu estava dizendo...

Viviane demorou alguns segundos para perceber.

Fez uma pergunta.

O fornecedor respondeu ao homem sentado ao lado dela.

Ela perguntou novamente.

Ele tornou a responder olhando para ele.

Viviane saiu daquela reunião confusa.

Não ofendida.

Confusa.

Talvez estivesse nervoso.

Talvez ainda não soubesse que ela estava respondendo pela empresa.

Na reunião seguinte aconteceu algo parecido.

Um engenheiro chegou, cumprimentou Viviane e perguntou se ela poderia avisar quando o responsável estivesse disponível.

— Sou eu.

Houve um pequeno intervalo.

— Ah.

Viviane quase achou graça.

Outra vez, entrou numa sala acompanhada de um executivo e alguém lhe entregou uma pasta antes de perguntar se poderia providenciar café.

Ela olhou para a pasta.

Depois para o homem.

— Posso pedir para alguém providenciar.

E sentou-se à cabeceira.

O executivo que estava com ela tossiu para esconder uma risada.

Viviane também achou engraçado.

Naquela época, ainda achava.

O problema foi continuar acontecendo.

Reuniões em que perguntas dela eram respondidas a homens.

Bancos que mandavam documentos endereçados a Alcides mesmo depois de terem sido informados de que Viviane estava conduzindo a empresa.

Clientes que ligavam pedindo para falar com “o responsável”.

— Sou eu.

Pausa.

— Certo... mas eu precisava falar sobre um contrato maior.

— Continua sendo comigo.

Havia ainda as situações menos sutis.

Homens que faziam comentários sobre sua aparência antes de discutir negócio.

Os que brincavam que reuniões com a Fort Group tinham ficado mais bonitas.

Um fornecedor que perguntou, sorrindo, se Gregório não ficava com ciúmes de deixá-la cercada de homens o dia inteiro.

Viviane sorriu educadamente.

Terminou a reunião.

Foi ao banheiro.

Trancou a porta.

E chorou.

Não contou a ninguém.

Lavou o rosto, retocou a maquiagem, respirou até os olhos deixarem de parecer vermelhos e voltou para a sala como se nada tivesse acontecido.

Ela já tinha preocupações suficientes.

Não colocaria mais aquela sobre Alcides.

Não contaria para os tios, porque sabia exatamente o que fariam: começariam a aparecer em todas as reuniões e então ninguém jamais saberia se a respeitava porque era responsável pela empresa ou porque Severino estava sentado ao lado.

Gregório estava lutando contra um câncer.

Definitivamente não ouviria aquilo.

Então Viviane guardava.

E voltava no dia seguinte.

A Fort Group, enquanto isso, piorava.

As mudanças feitas nos anos anteriores começavam a mostrar problemas mais profundos. Alguns contratos tinham margens pequenas demais. Estruturas haviam sido cortadas sem que processos fossem redesenhados. Empresas diferentes do grupo faziam trabalhos semelhantes sem compartilhar informação. Certos fornecedores mais baratos haviam gerado economia na compra e prejuízo na manutenção. Um braço faturava bem enquanto outro consumia caixa numa velocidade que ninguém parecia ter consolidado de verdade.

Viviane começou a levar os livros contábeis para casa.

Era quase sempre tarde quando conseguia estudá-los.

Antônio dormia primeiro.

Gregório, por causa do tratamento, muitas vezes dormia pouco depois.

Só então a casa ficava silenciosa.

Viviane sentava-se à mesa.

Abrindo livros. Relatórios. Contratos. Anotações.

Em algumas noites, estava tão cansada que os números começavam a perder forma diante de seus olhos.

Levantava.

Lavava o rosto.

Voltava.

Não tinha formação em Administração.

Não tinha estudado Economia como desejara.

Não era engenheira.

Não conhecia todas as operações.

Mas sabia fazer uma coisa extraordinariamente bem.

Encontrar padrões.

A matemática que Alcides usara anos antes para afastá-la do mundo empresarial começava a se transformar justamente na ferramenta que a fazia enxergar a Fort Group de uma maneira que ninguém enxergava.

Viviane começou a perceber que os problemas não estavam isolados.

Eram relações.

Uma decisão em uma empresa aparecia meses depois como custo em outra.

Um contrato que parecia lucrativo não era tão bom quando incluíam despesas que estavam escondidas em outro braço.

Áreas diferentes pagavam por serviços semelhantes.

Relatórios chegavam em formatos incompatíveis.

A Fort Group tinha crescido demais para continuar sendo administrada como seis negócios de irmãos que se telefonavam quando precisavam resolver alguma coisa.

Viviane começou a perguntar.

No início, quase irritava as pessoas.

— Por que fazemos assim?

— Sempre foi assim.

Ela odiava essa resposta.

— Eu sei. Quero saber por quê.

Às vezes havia motivo.

Outras vezes ninguém sabia.

Nesses casos, Viviane começava a mudar.

Pouco.

Um relatório padronizado.

Depois outro.

Custos que antes apareciam separados começaram a ser consolidados.

Contratos antigos foram revistos. Alguns renegociados. Outros encerrados. Funções administrativas duplicadas foram reunidas.

Viviane não entendia de alguma coisa? Chamava quem entendia.

Sentava.

Perguntava.

Tomava nota.

Perguntava de novo.

Nunca sentiu vergonha de não saber.

Sentia vergonha de continuar sem saber depois que alguém explicava.

Em casa, Antônio começou a reconhecer os livros da mãe.

Era pequeno demais para compreender qualquer coisa, mas sabia que aqueles volumes grandes sobre a mesa pertenciam a ela.

Uma noite, Viviane estava lendo quando ouviu os passos curtos pelo corredor.

Antônio apareceu sonolento, abraçado a um brinquedo.

— O que você está fazendo acordado?

Ele estendeu os braços.

Viviane puxou o filho para o colo.

Antônio apoiou a cabeça em seu peito e olhou para o livro aberto.

— Livro da mamãe.

Ela sorriu.

— É.

Ele tocou a página.

— Tem número.

Viviane beijou seus cabelos claríssimos.

— Tem muito número.

Antônio ficou olhando por alguns segundos.

Depois perdeu completamente o interesse, acomodou-se contra ela e começou a adormecer.

Viviane permaneceu imóvel. O livro continuava aberto diante dos dois. Por alguns minutos, os números podiam esperar.

Era nessa época que começou a perceber outra diferença.

Quando Gregório trabalhava até tarde, ninguém perguntava quem estava com Antônio.

Quando Gregório viajava, era trabalho.

Quando saía cedo e voltava depois que o filho dormia, era um homem responsável cuidando da empresa da família.

Com Viviane, sempre aparecia alguém.

— Vivi, você precisa ficar até essa hora?

— E o Antônio?

— Ele ainda é tão pequeno.

— Não sente que está perdendo coisas?

Muitas vezes eram pessoas da própria família.

Sem maldade.

Ivone principalmente.

Viviane respondia com calma.

Dizia que Antônio estava com a babá, com a avó, com as tias, com o próprio pai quando Gregório estava bem. Explicava que acompanhava consultas, refeições, noites, primeiros passos, palavras, febres e tudo que importava.

Mas, depois, ficava pensando.

Ninguém tinha perguntado a Gregório:

E o Antônio?

Aquilo começou a incomodá-la.

Não como teoria.

Não como causa.

Só como uma pequena pedra dentro do sapato.

Outra apareceu quando ela foi firme numa negociação e ouviu, mais tarde, que era uma mulher difícil.

Gregório havia feito exigências muito mais duras e era chamado de excelente negociador.

Outra, quando fez muitas perguntas técnicas e um homem comentou que talvez ainda estivesse insegura demais para a posição.

Se não perguntasse e decidisse depressa, diziam que precisava ter cuidado para não agir por impulso.

Viviane começou a notar.

Uma coisa aqui.

Outra ali.

Cem pequenas diferenças.

Não se tornou outra pessoa por isso.

Não passou a entrar em salas preparada para travar uma guerra entre homens e mulheres.

Continuava usando as roupas de que gostava, os cabelos impecavelmente cuidados, saltos, joias discretas e perfumes que faziam parte dela muito antes da Fort Group. Não queria parecer um homem para ser levada a sério. Também não queria ser tratada como decoração por parecer mulher.

Então continuava.

O que realmente a assustava era a empresa.

Ela precisava encontrar uma forma de estabilizar a Fort Group antes que Gregório voltasse.

Essa era ainda a meta.

Todas as mudanças tinham prazo emocional.

Até Gregório voltar.

Quando ele melhorasse, encontraria a empresa organizada.

Quando voltasse, não precisaria apagar incêndios.

Quando voltasse, Viviane entregaria tudo.

E voltaria para os contratos.

Talvez até para uma rotina mais leve.

Era isso que pensava.

Foi durante essa busca por eficiência que a tecnologia apareceu primeiro como uma curiosidade.

Computadores ainda pareciam, para muita gente dentro da Fort Group, máquinas caras demais para funções que funcionários já executavam. Algumas áreas começavam a usar processamento de dados, bancos investiam em automação, telecomunicações mudavam rapidamente e Getúlio trazia novidades com frequência, mas ninguém ainda enxergava aquilo como o centro futuro do grupo.

Viviane também não.

Na primeira vez em que viu uma demonstração mais completa de um sistema empresarial, fez perguntas básicas o suficiente para que um dos homens presentes respondesse com paciência condescendente.

Ela percebeu.

Não gostou.

Perguntou mais.

Queria saber quanto tempo levava para consolidar dados.

Quantas pessoas eram necessárias.

Se operações diferentes poderiam compartilhar informações.

Como estoques eram atualizados.

Se contratos poderiam ser catalogados.

Quanto custava.

Qual seria o retorno.

O homem começou a responder com menos condescendência.

Viviane saiu dali com uma ideia simples.

Aquilo poderia resolver vários problemas da Fort Group.

Comprou livros.

Fez cursos.

Conversou com engenheiros.

Pediu para Getúlio explicar telecomunicações que ela só conhecia superficialmente.

Falou com Severino sobre automação industrial.

Perguntou a Domingos sobre equipamentos.

Visitou empresas.

Foi a demonstrações.

Em casa, continuava estudando.

Antônio às vezes subia em seu colo enquanto ela lia e apontava para diagramas sem compreender nada.

— Livro da mamãe?

— Livro da mamãe.

Gregório, quando tinha energia, observava.

A doença havia levado seus cabelos, parte de seu peso e uma quantidade enorme de sua força, mas ainda havia dias bons. Neles, Viviane sentava ao lado dele e contava o que estava fazendo.

— Quero começar pela própria Fort Group.

Gregório ouvia.

— Computador em departamento?

— Mais do que isso. Quero os números das empresas conversando.

— Você sabe quanto isso custa?

— Sei.

Ele sorria.

— Claro que sabe.

Viviane mostrava as contas. Gregório discutia. Às vezes discordava. Outras se surpreendia. E, naquele momento, ainda existia orgulho.

— Você está ficando boa nisso.

Viviane levantava os olhos.

— Ficando?

Gregório ria.

— Muito boa.

Ela sorria.

Ainda eram marido e mulher.

Ainda estavam do mesmo lado.

Ainda existia um futuro em que Gregório venceria o câncer, voltaria à Fort Group e encontraria uma empresa diferente daquela que deixara.

Viviane acreditava nisso com a mesma intensidade com que acreditara, anos antes, que teria muitos filhos.

Por isso trabalhava.

Por isso suportava as reuniões.

Por isso chorava escondida e depois voltava com a maquiagem retocada.

Por isso estudava até tarde, com Antônio dormindo no colo e Gregório debilitado no quarto ao lado.

Não estava construindo uma carreira.

Não era assim que enxergava.

Estava salvando aquilo que pertencia à família enquanto salvavam seu marido.

A ironia — que Viviane ainda não tinha como perceber — era que, naquele esforço desesperado para simplesmente manter o lugar de Gregório intacto até que ele pudesse voltar, ela começava a construir uma Fort Group que já não caberia mais no lugar de onde ele havia saído.

Foram dois anos.

Mais tarde, quando tentava se lembrar daquele período, Viviane tinha dificuldade em separar um mês do outro. Tudo parecia pertencer a um tempo longo e cansado em que os dias se sucediam sem realmente terminar. Durante dois anos ela acompanhou tratamentos, ouviu médicos, decorou nomes de medicamentos, aprendeu a reconhecer febres perigosas, efeitos colaterais e pequenas alterações no rosto de Gregório antes mesmo que ele dissesse que não estava bem. Durante os mesmos dois anos criou Antônio, ainda tão pequeno que não conseguia compreender por que o pai desaparecia tantas vezes, nem por que em alguns dias não podia pular sobre ele como fazia antes. E, enquanto tentava manter os dois homens da sua vida inteiros, Viviane continuava entrando todas as manhãs na Fort Group e tomando decisões por uma empresa que parecia exigir dela exatamente aquilo que já não tinha para dar: mais tempo, mais atenção, mais força.

Não ficou mais fácil.

Essa talvez tivesse sido a maior mentira que disseram a ela no início.

As pessoas falavam sobre adaptação como se existisse um momento em que a rotina de uma doença grave deixasse de doer. Viviane nunca encontrou esse momento. Aprendeu a funcionar, o que era diferente. Aprendeu a sair de uma consulta difícil, entrar no carro, retocar a maquiagem antes de chegar à Fort Group e passar três horas discutindo margens de contrato sem que ninguém percebesse que, pouco antes, estivera ouvindo um médico falar sobre o sangue do marido. Aprendeu a atender uma ligação da babá no meio de uma reunião, descobrir que Antônio estava com febre, encerrar o que precisava encerrar e ir para casa sem demonstrar desespero. Aprendeu a dormir quando podia, comer quando lembrava e guardar o medo para horários em que ninguém precisasse dela.

Antônio era pequeno demais para entender.

Na cabeça dele, o pai tinha uma espécie de segunda casa.

O médico.

Gregório ia para o médico, dormia no médico algumas vezes, voltava cansado do médico e havia dias em que mamãe dizia que papai precisava descansar porque tinha ido ao médico.

Antônio aceitava aquela explicação com a naturalidade com que crianças aceitam coisas que sempre fizeram parte do mundo.

— Papai está onde?

— No médico.

— De novo?

Viviane sorria.

— De novo.

Às vezes Antônio pensava um pouco e perguntava:

— Ele dorme lá?

— Às vezes.

— Tem cama?

— Tem.

A resposta parecia suficiente.

Depois corria para brincar.

Gregório, mesmo nos piores períodos, fazia um esforço quase teimoso para não desaparecer da vida do filho. Quando tinha forças, sentava no chão com ele. Quando não tinha, Antônio subia na cama e levava os brinquedos. Havia tardes em que Gregório mal conseguia manter os olhos abertos, mas escutava o menino lhe contar alguma história sem sentido sobre um carrinho, um cachorro ou alguma coisa que tinha acontecido na casa de um dos tios. Antônio não entendia por que o pai perdera os cabelos, apenas achava engraçado passar a mão sobre a cabeça lisa dele. Certa vez, colocou um chapéu de brinquedo sobre Gregório e começou a rir tanto que o pai acabou rindo junto, até a tosse interromper os dois.

Viviane estava na porta naquele dia.

Guardou a cena.

Guardava tudo.

Talvez porque parte dela tivesse medo de que precisasse lembrar depois.

Nunca dizia isso em voz alta.

Nem sequer permitia que o pensamento se completasse.

Gregório ia vencer.

Tinha que vencer.

Ele havia prometido.

E então, depois de dois anos em que esperança e medo se alternaram tantas vezes que Viviane já não confiava completamente em nenhum dos dois, veio uma consulta diferente.

Os exames estavam bons.

Não apenas melhores.

Bons.

O médico falou com calma, como todos os médicos pareciam fazer quando diziam coisas capazes de alterar completamente uma vida. Explicou os resultados, falou sobre acompanhamento, sobre controles periódicos, sobre a necessidade de continuar vigilante. Gregório ouviu tudo em silêncio, sentado ao lado de Viviane.

Ela demorou mais do que ele para compreender.

— Então?

O médico sorriu.

— O tratamento funcionou.

Viviane apertou a mão de Gregório.

— Funcionou como?

A pergunta saiu quase infantil.

O médico explicou novamente.

Remissão.

Sem evidência da doença nos exames naquele momento.

A palavra que Viviane realmente ouviu foi outra.

Venceu.

Gregório tinha vencido.

Ela começou a chorar antes mesmo de perceber.

Não foi o choro silencioso que aprendera a controlar nos últimos dois anos. Viviane levou as duas mãos ao rosto e simplesmente desabou. Gregório a puxou para perto e ela o abraçou com tanta força que por um instante pareceu esquecer que ele ainda estava fisicamente debilitado.

— Acabou — murmurou contra ele.

O médico corrigiria, se quisesse. Haveria acompanhamento, riscos, exames futuros e recuperação.

Viviane não queria ouvir nenhuma dessas palavras naquele momento.

— Acabou.

Gregório também estava chorando.

Pouco.

Tentando esconder.

Ela percebeu mesmo assim.

Quando chegaram em casa, Antônio correu para recebê-los. Já estava maior, mas ainda carregava no corpo aquela falta de coordenação adorável das crianças pequenas. Parou ao perceber que a mãe chorava.

— Mamãe?

Viviane se abaixou.

— Vem cá.

Antônio aproximou-se, desconfiado.

Ela segurou seus ombros.

— Abraça o papai.

Ele olhou para Gregório.

Depois para ela.

— Por quê?

Viviane riu no meio das lágrimas.

— Porque o papai está bom.

Antônio não compreendeu o tamanho da frase.

Mas compreendia abraço.

Correu até Gregório.

O pai abaixou-se com dificuldade e o pegou no colo.

Antônio envolveu seu pescoço.

— Papai não vai mais no médico?

Gregório fechou os olhos.

Viviane viu a emoção atravessar seu rosto.

— Vou menos.

Antônio pareceu considerar aquilo excelente.

— Então você fica aqui?

Gregório apertou o filho.

— Fico.

Viviane chorou outra vez.

Naquela noite, pela primeira vez em dois anos, permitiu-se pensar no futuro sem imediatamente imaginar um hospital.

Tudo tinha valido a pena.

As noites sem dormir.

O medo.

Os cabelos de Gregório caindo entre seus dedos.

Os dias em que ele não conseguia comer.

As semanas em que Viviane entrava na Fort Group sem saber se receberia uma ligação do hospital.

As vezes em que Antônio perguntara pelo pai.

Tudo.

Gregório estava vivo.

Agora, finalmente, as coisas voltariam ao normal.

Viviane acreditou nisso com uma ingenuidade que só perceberia muitos anos depois.

A doença tinha acabado.

Logo, a vida anterior voltaria.

Só que o corpo de Gregório ainda não estava pronto para obedecer à pressa dos dois.

Os médicos foram claros. A remissão não significava que ele pudesse sair de anos de tratamento e voltar imediatamente à rotina de quinze horas de trabalho, reuniões, viagens e pressão constante que mantivera antes do diagnóstico. Havia peso a recuperar, músculos enfraquecidos, resistência praticamente inexistente e um organismo que precisava aprender novamente a funcionar sem a agressão contínua dos medicamentos.

Gregório odiou ouvir aquilo.

Viviane, pela primeira vez, ficou do lado dos médicos sem qualquer negociação.

— Você vai descansar.

— Eu já descansei dois anos.

— Você fez quimioterapia dois anos.

— Dá na mesma.

— Não dá.

Gregório fazia uma expressão irritada.

Viviane não cedia.

Meses. Precisavam de alguns meses. E esses meses, embora nenhum dos dois percebesse de imediato, fizeram toda a diferença.

Porque enquanto Gregório reaprendia a viver fora de hospitais, os projetos que Viviane havia iniciado continuavam avançando.

A Fort Group começou a responder.

Os novos controles mostravam números que antes ficavam escondidos entre empresas diferentes. Contratos ruins foram eliminados. Outros foram renegociados. Alguns fornecedores antigos voltaram depois que os custos reais de certas substituições foram finalmente calculados. Processos administrativos começaram a ser centralizados. Pela primeira vez, executivos podiam olhar para determinadas áreas do grupo e comparar resultados utilizando os mesmos critérios.

E os primeiros investimentos em tecnologia, ainda modestos perto do que viriam a se tornar, começaram a demonstrar valor.

Informações que demoravam semanas para chegar passaram a ser consolidadas em dias. Estoques começaram a ser acompanhados com mais precisão. Algumas rotinas administrativas foram informatizadas. Getúlio se empolgou com as possibilidades para telecomunicações. Severino percebeu aplicações na área industrial. Até Domingos, inicialmente preocupado com o custo dos equipamentos, começou a enxergar oportunidade comercial.

Viviane não pretendia construir uma revolução.

Só queria deixar a casa organizada antes de Gregório voltar. Mas a casa estava ficando melhor do que antes.

Os funcionários também haviam se acostumado com ela.

Isso talvez fosse ainda mais importante que os números.

No começo, era dona Viviane porque era filha de Alcides e esposa de Gregório.

Depois começou a ser dona Viviane porque era Viviane.

As pessoas passaram a procurá-la.

Primeiro para autorização.

Depois para opinião.

Ela conhecia nomes, projetos, problemas. Sabia quem entregava, quem precisava de orientação e quem fazia uma apresentação excelente para esconder resultados medíocres. Aprendera a ouvir especialistas sem se intimidar com o fato de não possuir a formação deles, e havia se tornado particularmente boa em fazer uma pergunta simples até encontrar o ponto que alguém preferia manter complicado.

Gregório observava parte daquilo de casa.

Viviane contava.

Às vezes levava documentos.

Ele opinava.

Em alguns assuntos ainda era mais experiente que ela, e Viviane nunca teve dificuldade em reconhecer isso. Gregório continuava sendo o diretor da Fort Group em sua cabeça. Ela era a pessoa que estava conduzindo tudo até que ele pudesse voltar.

Por isso, quando finalmente os médicos permitiram que Gregório aumentasse gradualmente sua rotina, Viviane não hesitou.

Estavam em casa quando ela perguntou.

— Quando você quer reassumir?

Gregório levantou os olhos.

— Reassumir?

— A empresa.

Ele ficou alguns segundos em silêncio. Talvez esperasse uma conversa maior. Viviane não tinha uma.

— Quando você estiver pronto.

— E você?

Ela franziu a testa.

— Eu o quê?

— Você está comandando aquilo há quase dois anos.

Viviane deu de ombros.

— Porque você estava doente.

A simplicidade da resposta tocou Gregório de uma maneira que ela percebeu imediatamente.

Ele olhou para a esposa.

Durante aqueles dois anos, houvera momentos em que Gregório se perguntara, mesmo sem admitir, o que encontraria quando voltasse. A doença tinha retirado dele controle sobre quase tudo. O próprio corpo. A empresa. A capacidade de ter outros filhos. A imagem que via no espelho. Existia uma vulnerabilidade nova naquele homem que sempre se considerara capaz de conduzir a própria vida pela força da vontade.

Viviane nunca usara aquilo contra ele.

Nunca falara da Fort como se fosse sua.

Nunca insinuara que ele havia fracassado.

Nunca tratara o cargo temporário como conquista.

— Você não precisa simplesmente devolver — disse ele.

Viviane sorriu.

— Claro que preciso.

— Por quê?

Ela pareceu sinceramente surpresa.

— Porque é seu cargo.

Gregório ficou olhando para ela.

Depois estendeu a mão.

Viviane aproximou-se. Ele a puxou para perto e beijou sua testa.

— Você salvou aquilo.

— Nós salvamos.

Gregório soltou uma pequena risada.

— Não. Eu quase destruí metade primeiro.

Viviane o repreendeu com o olhar.

— Não fala assim.

— É verdade.

— Você mudou muita coisa. Algumas deram errado.

— Algumas?

Ela finalmente sorriu.

— Muitas.

Gregório apertou sua cintura.

— Obrigado pela delicadeza.

Viviane beijou sua boca.

— Você voltou. Isso é o que importa.

E naquele momento era.

Organizaram a transição.

Sem disputa. Sem reunião dramática. Sem necessidade de Alcides interferir.

Gregório voltou gradualmente ao comando da Fort Group e Viviane permaneceu numa posição importante, mais próxima de estratégia, contratos e dos projetos de modernização que havia iniciado. Pela primeira vez em anos, ela acreditou ter encontrado um equilíbrio possível.

Tinha o marido de volta.

Antônio tinha o pai de volta.

Podia continuar trabalhando.

A Fort Group estava saudável novamente.

Talvez pudessem finalmente viver.

Durante algumas semanas, foi exatamente assim.

Gregório voltou ao escritório cercado de cumprimentos, abraços e uma deferência que lhe fez bem. Recuperara peso, os cabelos começavam a crescer novamente e o rosto adquiria aos poucos traços mais próximos daquele homem que Viviane conhecera. Ainda cansava mais depressa do que gostaria e os médicos continuavam impondo limites que o irritavam, mas estava ali.

Na primeira reunião grande que conduziu novamente, Gregório sentiu algo próximo da antiga segurança.

Até que um gerente disse:

— Na época da dona Viviane, nós começamos a fazer dessa forma.

Não havia provocação.

Gregório assentiu.

— Certo.

Continuou.

Dias depois, outro executivo comentou:

— Esse projeto foi autorizado pela dona Viviane. Talvez seja interessante manter a linha que ela definiu.

Gregório concordou novamente.

Depois veio um cliente.

— Viviane participará da negociação?

— Não é necessário. Eu estou conduzindo.

— Claro. É que ela acompanhou as últimas etapas.

Nada demais.

Depois um banco pediu explicitamente que Viviane participasse de uma reunião sobre uma operação iniciada durante o período em que comandara o grupo.

Outro fornecedor telefonou procurando por ela.

Um diretor, diante de uma divergência, sugeriu:

— Talvez seja melhor ouvir a Viviane. Ela conhece esse assunto desde o começo.

Ninguém estava tentando ferir Gregório.

Esse era o pior.

Não existia inimigo contra quem pudesse reagir.

As pessoas simplesmente haviam aprendido a confiar nela.

Alguns gostavam do modo como Viviane administrava.

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Outros haviam visto os números melhorarem.

Clientes que enfrentaram o período mais difícil da Fort Group associavam a recuperação ao nome dela. Bancos tinham se acostumado com sua presença. Projetos tecnológicos que inicialmente haviam causado desconfiança começavam a produzir resultados.

Então a frase começou a aparecer.

— Quando dona Viviane estava conduzindo...

Gregório ouvia.

Sorria.

Respondia profissionalmente.

E levava aquilo para casa.

No início, não dizia nada.

Talvez nem soubesse ainda que doía.

Viviane também não percebeu.

Para ela, era natural que pessoas ainda procurassem seu nome em projetos que acompanhara durante quase dois anos. Respondia quando precisava, encaminhava para Gregório quando era responsabilidade dele e jamais demonstrava qualquer intenção de continuar exercendo autoridade que já tinha devolvido.

A situação teria talvez se acomodado com o tempo.

Se Alcides não tivesse começado a observar.

Ele voltara de suas viagens muito antes, naturalmente, mas durante o tratamento de Gregório mantivera uma presença discreta na Fort Group. Ajudava quando Viviane precisava, acompanhava resultados e aparecia principalmente quando algum problema exigia o peso do antigo diretor. Agora, com Gregório de volta, começou a analisar o período anterior com uma distância que não tivera enquanto tudo acontecia.

Os números chamaram sua atenção primeiro.

Alcides gostava de números porque números eram mais confortáveis que sentimentos.

Receita recuperada.

Margens melhores.

Contratos renegociados.

Clientes que haviam permanecido.

Custos reorganizados.

Processos centralizados.

Projetos novos.

Tecnologia começando a ocupar espaço onde antes existiam apenas ideias.

Olhou para relatórios.

Depois conversou com executivos.

Falou com clientes antigos.

Ouviu Severino comentar que determinada mudança de Viviane tinha resolvido um problema industrial que existia havia anos. Getúlio falou sobre os projetos de tecnologia com um entusiasmo que Alcides não via desde os primeiros tempos das telecomunicações. Domingos admitiu que a sobrinha tinha uma capacidade irritante de encontrar desperdício sem transformar aquilo numa desculpa automática para demitir gente.

E Alcides começou a perceber uma coisa que lhe causou um desconforto profundo.

Viviane não tinha simplesmente segurado a empresa.

Tinha sido excelente.

A constatação mexeu com algo muito antigo.

Alcides lembrou da menina que encontrava erros em suas contas.

Da adolescente que dissera querer Economia.

Da jovem que insistia em trabalhar na Fort enquanto todos apresentavam outras possibilidades.

Lembrou-se de ter encontrado um marido para a filha e, quase imediatamente, ter enxergado naquele homem um futuro diretor.

Nunca fizera o mesmo exercício com Viviane.

Não porque achasse Gregório mais inteligente.

Não porque considerasse a filha incapaz.

Simplesmente não pensara.

Essa era a parte mais difícil de admitir.

A possibilidade não existira em sua cabeça.

Quando finalmente chamou os irmãos para conversar, ninguém sabia exatamente o que ele pretendia.

A reunião começou com relatórios.

O que deixou Jurandir imediatamente desconfiado.

— Se isso demorar mais de uma hora, eu tenho outro compromisso.

— Você não tem — Domingos respondeu.

— Posso arrumar.

Alcides ignorou os dois.

Mostrou resultados.

Comparou períodos.

Falou sobre os projetos.

Os irmãos começaram a entender.

Severino foi o primeiro.

— Você está falando da Vivi.

Alcides assentiu.

Juninho franziu a testa.

— O que tem ela?

Alcides respirou.

— Quero propor que ela assuma a Fort Group.

O silêncio foi quase idêntico ao que Geraldo recebera décadas antes ao anunciar que precisava de um sucessor.

Só que por razões completamente diferentes.

Getúlio olhou para Alcides.

— Assuma como o quê?

— Diretora.

— Ela já está numa diretoria — respondeu Domingos.

Alcides balançou a cabeça.

— A principal.

Jurandir endireitou-se na cadeira.

— Viviane?

A palavra não saiu com desprezo.

Saiu com surpresa.

Foi exatamente isso que irritou Alcides.

— Sim, Viviane.

Severino apoiou os braços na mesa.

— Ela fez um trabalho excelente enquanto o Gregório estava doente.

— Eu sei.

— Então?

— Não estou propondo que ela fique enquanto alguém está doente.

A frase mudou a sala.

Getúlio entendeu primeiro.

— Você quer ela no lugar do Gregório.

— Quero a pessoa que entregou os melhores resultados na cadeira principal.

Juninho parecia genuinamente desconfortável.

— Mas o Gregório acabou de voltar.

— Eu sei.

— Isso pode criar um problema no casamento deles.

— Pode.

— E o Antônio? — perguntou Jurandir. — Ele ainda é pequeno.

Alcides virou lentamente o rosto para o irmão.

Talvez em outro momento concordasse.

Naquele dia, a pergunta o incomodou.

— O que tem o Antônio?

— Ela vai ficar à frente de tudo. É uma responsabilidade enorme.

— Gregório estava à frente de tudo quando Antônio nasceu.

Ninguém respondeu.

Alcides percebeu.

Aquilo o irritou ainda mais.

Domingos tentou:

— Ninguém está dizendo que ela não consegue.

— Eu sei. Vocês estão dizendo que ela não precisa.

Silêncio.

A frase pareceu familiar demais.

Alcides passou a mão pelo rosto.

— Eu passei a vida inteira dizendo isso para ela.

Severino olhou para o irmão.

Alcides continuou.

— Quando ela quis Economia, dissemos que não precisava. Quando quis trabalhar na Fort, não precisava. Quando virou professora, eu tentei mandar ela viajar porque não precisava trabalhar. Quando entrou aqui, colocamos ela para organizar papel porque não precisava de responsabilidade.

Juninho pareceu desconfortável.

— Nós estávamos protegendo a Vivi.

— Eu sei.

Alcides não disse aquilo com raiva.

Talvez fosse justamente o que tornasse a conversa diferente.

— Eu também estava.

Abriu um dos relatórios.

— Mas olhem isso.

Começou pelos números.

Não apelou para o fato de Viviane ser filha.

Não falou sobre justiça.

Falou sobre resultado.

Mostrou o que acontecera com a Fort Group nos anos anteriores e o que acontecera durante a gestão temporária dela. Falou dos contratos recuperados, dos custos reorganizados, dos clientes, dos projetos de tecnologia, da profissionalização das áreas administrativas e do fato de Viviane ter mantido tudo aquilo enquanto acompanhava o marido num tratamento de câncer e criava um filho pequeno.

No final, fechou o relatório.

— Se qualquer homem sentado nesta mesa tivesse esses resultados, nós estaríamos discutindo quanto pagar para não perder ele para outra empresa.

Ninguém interrompeu.

Alcides olhou para os irmãos.

— Como é a Viviane, estamos discutindo se ela tem filho pequeno.

A frase ficou na sala.

Severino foi o primeiro a baixar os olhos.

Talvez porque se lembrasse da menina que quis subir em árvore e ele retirara pela cintura, dizendo que não era coisa para uma mocinha.

Getúlio mexeu num papel.

Domingos ficou sério.

Juninho, ainda relutante, perguntou:

— Ela quer?

Alcides respondeu:

— Não sei.

Aquilo surpreendeu todos.

— Você não falou com ela? — perguntou Jurandir.

— Não.

— Está propondo colocar sua filha à frente do grupo e nem sabe se ela quer?

Alcides olhou para ele.

— Durante toda a vida dela nós decidimos o que achávamos que ela queria antes de perguntar. Dessa vez, primeiro eu quero saber se vocês reconhecem o que ela fez.

A votação não foi imediata.

Houve discussão.

Preocupações legítimas.

Questões sobre Gregório.

Sobre governança.

Sobre a reação dos executivos.

Sobre o casamento.

Mas, no final, os números eram difíceis demais para ignorar.

O conselho aprovou.

Viviane não sabia de nada.

Alcides chamou a filha ao antigo escritório dele.

Ela entrou imaginando algum problema administrativo.

— Você queria falar comigo?

— Queria.

Ele indicou a cadeira.

Viviane sentou.

Alcides ficou alguns segundos olhando para ela.

Por alguma razão, naquele momento não enxergava a mulher elegante diante dele.

Via uma menina com um laço enorme perguntando se podia ficar mais um pouco na sala onde os homens conversavam.

— O conselho votou hoje.

Viviane imediatamente pensou em Gregório.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não.

— Então votou o quê?

Alcides respirou.

— A presidência da Fort Group.

Viviane relaxou.

— Vão confirmar o Gregório?

— Não.

Ela franziu a testa.

— Então quem?

Alcides sentiu algo apertar dentro do peito.

— Você.

Viviane ficou imóvel.

Não havia muitas situações em que ela não tivesse alguma resposta.

Aquela foi uma delas.

— Eu?

— Você.

Ela soltou uma pequena risada, mais por incredulidade do que humor.

— Pai...

— Estou falando sério.

— Não.

— Sim.

— Mas o Gregório voltou.

— Eu sei.

Viviane levantou-se.

— Ele é o diretor.

— Era.

Ela olhou para o pai como se ele tivesse acabado de dizer alguma coisa terrível.

— Vocês tiraram ele?

— Nós votamos pela pessoa que acreditamos que deve comandar a Fort Group.

— Sem falar comigo?

— Eu estou falando agora.

— E sem falar com ele?

Alcides suspirou.

— Isso é uma decisão do conselho, Vivi.

Ela começou a andar pela sala.

— Não posso fazer isso.

— Pode.

— Não quero humilhar meu marido.

— Ninguém está humilhando o Gregório.

Viviane parou.

— Como você acha que ele vai se sentir?

Alcides ficou em silêncio.

Ela tinha razão.

Não havia resposta simples.

Viviane passou a mão pelos cabelos.

— Eu não pedi isso.

— Eu sei.

— Eu devolvi o cargo para ele.

— Eu sei.

— Então por quê?

Alcides olhou para a filha.

Talvez aquela fosse a parte mais difícil.

— Porque você é melhor.

Viviane congelou.

Não havia orgulho na voz dele.

Nem provocação.

Era uma constatação.

— Pai...

— Eu olhei os números.

Ela abriu a boca.

Alcides continuou.

— Falei com clientes. Funcionários. Bancos. Seus tios. Vi os projetos que você começou.

Viviane sentiu os olhos arderem.

— Gregório estava doente.

— Isso não diminui o que você fez.

— Eu estava só...

Ela parou.

Só mantendo.

Só esperando.

Só até Gregório voltar.

A frase que repetira durante dois anos de repente parecia pequena demais.

Alcides levantou-se.

Aproximou-se da filha.

Por alguns segundos, não disse nada.

Depois sorriu de um jeito triste.

— Eu devia ter percebido antes.

Viviane franziu a testa.

— Percebido o quê?

Alcides sentiu a garganta apertar.

— Que você sempre estava tentando entrar.

Ela não conseguiu responder.

O pai continuou, olhando para ela como se enxergasse ao mesmo tempo todas as idades que Viviane já tivera.

— Desde menina.

Viviane tentou sorrir.

Não conseguiu.

Alcides tocou seu rosto.

— Você não queria derrubar a porta, Vivi. Só ficava voltando para perguntar se já podia entrar.

Foi isso que a fez chorar.

Não a presidência.

Não o título.

Aquilo.

Viviane abraçou o pai.

Alcides a segurou com força. Durante alguns minutos, nenhum dos dois falou. Quando se afastaram, Viviane limpou as lágrimas.

— Eu preciso falar com o Gregório.

Alcides assentiu.

— Eu sei.

Ela encontrou o marido naquela noite. Esperou Antônio dormir. Não queria aquela conversa perto do filho. Gregório estava na sala lendo quando Viviane sentou diante dele.

Ele percebeu imediatamente.

— O que aconteceu?

Viviane demorou.

— Meu pai me chamou hoje.

Gregório fechou o livro.

— Para quê?

Ela respirou.

— O conselho votou.

Alguma coisa na expressão dele mudou.

Talvez soubesse antes mesmo de ouvir.

— Votou o quê?

— Querem que eu assuma a Fort Group.

Silêncio.

Viviane sentiu o coração bater mais depressa.

— Como diretora principal.

Gregório ficou olhando para ela.

Ela tentou preencher o silêncio.

— Eu não aceitei.

— Por quê?

A pergunta a surpreendeu.

— Porque eu precisava falar com você.

Gregório recostou-se.

Por um instante, Viviane viu alguma coisa passar pelo rosto dele.

Dor.

Talvez orgulho ferido.

Talvez apenas a compreensão brutal de que aquela possibilidade existia.

Ele havia voltado do câncer.

Recuperado o corpo.

Voltado à empresa.

E agora a cadeira não era mais automaticamente sua.

Gregório ficou alguns segundos em silêncio.

Depois perguntou:

— Você quer?

A mesma pergunta que fizera quando os tios pediram que ela assumisse temporariamente.

Viviane sentiu os olhos se encherem.

— Não quero tirar isso de você.

— Não foi o que eu perguntei.

Ela olhou para ele.

Gregório insistiu:

— Você quer?

Viviane demorou muito para responder.

— Quero.

A palavra quase não saiu.

Gregório baixou os olhos.

Viviane sentiu o estômago afundar.

— Gregório...

Ele levantou a mão.

— Me dá um minuto.

Ela ficou quieta.

Ele respirou fundo. Depois levantou os olhos novamente.

— Você salvou a empresa.

Viviane balançou a cabeça.

— Não começa...

— Salvou.

— Nós...

— Vivi.

Ela parou.

Gregório sorriu. Não completamente feliz. Mas sincero.

— Aceita.

Viviane sentiu alguma coisa se romper dentro dela.

— Tem certeza?

Gregório levantou-se. Foi até ela. Segurou suas mãos.

— Eu estaria mentindo se dissesse que não dói.

Viviane começou a chorar.

— Então eu não...

— Não.

Ele apertou seus dedos.

— Você não vai dizer não por minha causa.

— Mas...

— Eu voltei de um câncer. Acho que consigo sobreviver ao fato de minha mulher ser melhor administradora do que eu.

Viviane riu chorando.

Gregório também.

Puxou-a para os braços.

Ela o abraçou.

— Eu não quero que você pense que eu estava esperando isso.

— Eu sei.

— Nunca quis tomar sua cadeira.

— Eu sei.

— Eu teria devolvido tudo.

— Você devolveu.

Viviane fechou os olhos.

Gregório beijou seus cabelos.

— Aceita.

Ela permaneceu abraçada a ele.

Naquele momento, Gregório realmente acreditava que conseguiria lidar com aquilo.

Amava Viviane.

Tinha orgulho dela.

Sabia o que ela fizera enquanto ele estava doente e, talvez mais importante, sabia que a esposa jamais tinha usado sua fraqueza para tomar qualquer coisa.

Foi ele quem a incentivou.

Foi ele quem disse para aceitar.

Foi ele quem, alguns dias depois, ficou ao lado de Viviane quando anunciaram formalmente que ela assumiria o comando da Fort Group.

E talvez essa fosse uma das lembranças que mais doeria entre os dois anos depois.

Porque o ressentimento não nasceu naquele dia.

Naquele dia, Gregório ainda conseguiu olhar para a esposa e sentir orgulho.

O ressentimento cresceu depois, em pequenas doses, quando o mundo começou a reorganizar os dois.

Antes, ele era Gregório Borborema, diretor da Fort Group, e Viviane era sua esposa.

Agora os convites chegavam para Viviane Fortenelle, presidente da Fort Group.

Em eventos, pessoas atravessavam salas para falar com ela.

Executivos queriam alguns minutos de sua agenda.

Bancos procuravam Viviane.

Clientes pediam Viviane.

Jornalistas interessados nos novos projetos queriam ouvir Viviane.

E Gregório estava ao lado.

Ainda importante.

Ainda rico.

Ainda respeitado.

Mas, pela primeira vez, começou a ouvir uma definição que não tinha escolhido.

O marido de Viviane Fortenelle.

No início, sorria.

Depois passou a corrigir algumas pessoas.

Mais tarde parou de corrigir.

A divisão tecnológica crescia.

Os projetos que Viviane iniciara durante a doença começaram a deixar de parecer experimentos e ganhar tamanho suficiente para mudar a identidade do grupo. Ela investia em processamento de dados, integração de sistemas, automação e novas soluções para clientes que já contratavam os braços tradicionais da Fort Group. A empresa começava a adquirir outra aparência, e junto com ela crescia a reputação de Viviane como a pessoa que havia enxergado aquilo antes dos outros.

Gregório assistia.

O homem que antes entrava numa sala e naturalmente atraía todos os olhares descobria uma sensação nova.

Ser o segundo nome.

Aquilo, sozinho, talvez nunca tivesse destruído nada.

Mas Gregório não era mais o mesmo homem que entrara na Fort Group anos antes.

O câncer havia deixado coisas que os exames não mostravam.

Ele passara dois anos dependente.

Doente.

Sem cabelos.

Sem força.

Precisando que Viviane o acompanhasse a consultas, ajudasse-o em dias em que mal conseguia levantar e administrasse a empresa que ele deveria comandar.

O tratamento também levara a possibilidade de ter os outros filhos que imaginara.

Seu único filho carregava Fortenelle.

A empresa era Fortenelle.

A esposa agora comandava a Fortenelle.

E, aos poucos, Gregório começaria a sentir que tudo ao redor dele tinha um nome diferente do seu.

Mas isso viria depois.

Naquele primeiro dia, quando Viviane sentou na cadeira principal da Fort Group, não havia guerra entre marido e mulher.

Ela ainda entrou no escritório carregando a culpa de quem não tinha certeza se merecia estar feliz.

Gregório ainda apareceu mais tarde, apoiou as mãos sobre seus ombros e perguntou:

— E então, dona presidente?

Viviane olhou para ele.

— Parece errado.

— Por quê?

— Porque parece.

Gregório inclinou-se e beijou sua testa.

— Vai acostumar.

Ela segurou a mão dele.

— Nós vamos ficar bem?

Gregório sorriu.

— Claro que vamos.

Viviane acreditou.

Tinha acreditado nele quando prometera vencer o câncer.

Gregório cumprira aquela promessa.

Não havia razão, naquele momento, para imaginar que essa seria muito mais difícil.