O CEO que Eu Paguei

267 De outro ponto de vista - Parte III


Quando conheceu Gregório, Viviane já trabalhava como professora de Matemática em uma das escolas mais prestigiadas do Rio de Janeiro.

A decisão provocara uma última tentativa de Alcides de convencê-la de que não havia necessidade alguma de se prender a horários.

— Você acabou de se formar — disse ele certa vez. — Viaja um pouco. Vai para a Europa com suas amigas. Aprende alguma coisa nova. Arruma outro hobby.

Viviane riu.

— Meu trabalho não é uma prisão, pai.

— Eu sei. Mas você não precisa trabalhar.

— Eu sei.

Era uma resposta que Alcides já estava cansado de ouvir.

Viviane sabia que não precisava.

Essa era precisamente a parte que continuava confundindo o pai.

Se quisesse passar seis meses na França, poderia. Se quisesse jogar tênis quatro vezes por semana, aprender outro idioma, frequentar exposições ou simplesmente aproveitar a vida confortável que a família tinha construído, ninguém faria objeção.

Mas Viviane queria dar aula.

E, dessa vez, foram os próprios irmãos de Alcides que ficaram do lado dela.

— Deixa a menina trabalhar — Severino disse.

— Numa escola daquela? — Domingos reforçou. — Eu contaria para todo mundo.

Jurandir foi ainda mais enfático.

Talvez justamente porque fosse o Fortenelle que menos compreendia a necessidade de trabalhar quando não havia necessidade de trabalhar.

— Alcides, ela é professora de Matemática numa das melhores escolas do Rio. Isso é ótimo.

Alcides olhou para o irmão.

— Você passa metade do ano tentando diminuir seu próprio expediente.

— Exatamente. Por isso sei reconhecer quando alguém gosta do que faz.

Não havia argumento contra aquilo.

E, no fundo, Alcides também estava orgulhoso.

Muito.

Os Fortenelle todos estavam.

Viviane não era apenas a menina bonita de Alcides, nem apenas a sobrinha dos olhos verdes que durante anos fora tratada como pequena princesa pela família. Era formada, professora, independente por escolha e excelente naquilo que fazia.

Alcides contava onde a filha trabalhava com um orgulho que contradizia completamente todas as vezes em que insistira que ela não precisava trabalhar.

Domingos fazia questão de chamá-la de professora quando queria provocá-la.

Jurandir afirmava que sempre soubera que ela teria uma profissão importante, mentira que ninguém se dava ao trabalho de contestar.

E Viviane adorava ensinar.

Gostava particularmente daquele momento em que um aluno passava vários minutos olhando para uma questão como se estivesse diante de alguma coisa impossível e, depois de uma explicação diferente, finalmente entendia.

A mudança no rosto era imediata.

— Ah!

Viviane sorria.

— Viu?

Às vezes, o que ela mais gostava não era da resposta certa.

Era daquele instante.

Ela tinha paciência para explicar novamente, mas pouca paciência para ouvir alguém dizer que não era capaz.

— Não diga que você não sabe matemática.

— Mas eu não sei, professora.

— Ainda.

Era a palavra que fazia diferença.

Ainda.

A sala de aula lhe fazia bem.

As crianças e adolescentes também despertavam nela uma vontade que começara a crescer depois do noivado.

Ter filhos.

Viviane sempre imaginara que teria uma família. Na casa dos Fortenelle, crianças nunca haviam sido uma abstração distante. Estavam por toda parte. Primos, irmãos, sobrinhos, filhos de amigos. Uma casa grande e silenciosa parecia muito mais estranha para ela do que uma cheia de gente.

Depois que se apaixonou por Gregório, a imagem ganhou detalhes.

Às vezes olhava para o noivo e pensava que seus filhos seriam lindos.

Era impossível não pensar.

Gregório Borborema era o tipo de homem que fazia pessoas olharem duas vezes.

Talvez três.

O cabelo loiro ondulado parecia permanecer arrumado mesmo quando ele não fazia esforço algum para isso, e o bronzeado constante lhe dava aquele aspecto de quem tinha acabado de voltar de algum fim de semana no mar. Os olhos verdes eram mais escuros que os de Viviane e ficavam particularmente bonitos quando ele sorria.

E Gregório sorria muito.

Era uma das coisas de que ela mais gostava nele.

Não apenas porque ficava ainda mais bonito, embora ficasse, mas porque havia algo fácil naquele sorriso. Uma segurança descontraída que fazia parecer que qualquer ambiente ficava um pouco mais leve quando ele chegava.

Viviane sabia perfeitamente que outras mulheres o achavam bonito.

Não precisava que ninguém lhe dissesse.

Via.

Na escola, especialmente.

Gregório criou o hábito de buscá-la depois das aulas.

No começo aparecia ocasionalmente.

Depois começou a aparecer quase todos os dias em que conseguia organizar seus compromissos.

Viviane sabia aproximadamente o horário em que ele chegaria e, embora jamais admitisse, nos últimos minutos da última aula frequentemente olhava para o relógio.

Então vinha o som dos alunos guardando material.

Ela despedia-se.

Organizava os próprios papéis.

E saía.

Gregório costumava estar próximo à entrada, encostado no carro, usando terno quando vinha diretamente do trabalho ou roupas mais leves quando havia passado antes em casa.

Quase sempre havia alguma coisa nas mãos.

Flores. Uma vez chocolates. Outra vez um pequeno livro que tinha visto e lembrara dela.

Viviane começou a dizer que ele estava estragando-a. Gregório respondia que não via qualquer problema nisso.

O detalhe mais divertido eram as alunas.

Nos dias em que Gregório chegava um pouco antes, bastava alguém vê-lo pela janela para a notícia percorrer a sala. Viviane percebia imediatamente. Cabeças começavam a se inclinar discretamente. Alguma menina encontrava uma razão absurda para levantar. Outra olhava pela janela. Viviane continuava escrevendo no quadro fingindo que não notava nada.

Certa tarde, Gregório apareceu alguns minutos antes do fim da aula.

Quando Viviane terminou a explicação e virou-se novamente para a turma, descobriu pelo menos quatro alunas olhando em direção à janela.

Ela apoiou o giz.

— Algum problema lá fora?

Quatro rostos voltaram imediatamente para a frente.

— Não, professora.

Viviane precisou morder a parte interna da bochecha para não rir. Dez minutos depois, saiu do prédio e encontrou Gregório esperando. Ele abriu um sorriso assim que a viu.

Viviane se aproximou, aceitou as flores e beijou sua bochecha.

Só quando entraram no carro comentou:

— Você precisa parar de vir me buscar aqui.

Gregório olhou para ela, sinceramente confuso.

— Por quê?

Viviane colocou as flores sobre o colo.

— Minhas alunas não prestaram atenção nos últimos dez minutos.

Gregório ficou alguns segundos em silêncio. Depois ajeitou-se no banco, visivelmente satisfeito consigo mesmo.

— Não vejo relação.

Viviane riu.

— Claro que não.

— Talvez a aula estivesse pouco interessante.

Ela virou lentamente o rosto.

— Quer repetir?

Gregório percebeu o perigo.

— Sua aula é excelente.

— Foi o que pensei.

Ele sorriu.

E Viviane, apesar de toda a vontade de continuar provocando-o, acabou olhando por tempo demais.

Ainda acontecia.

Às vezes Gregório fazia alguma coisa perfeitamente comum e ela simplesmente pensava que aquele homem era absurdamente bonito.

Ele percebeu.

— O quê?

— Nada.

— Você está olhando.

— Posso olhar para meu noivo.

Gregório aproximou-se.

— Pode continuar.

Ela empurrou seu rosto para longe, rindo. Gregório beijou a palma da mão que o afastava antes de ligar o carro.

Era ridículo o quanto estavam apaixonados e todo mundo sabia.

O casamento aconteceu pouco tempo depois.

Foi grande.

Talvez maior do que Viviane inicialmente tivesse imaginado, porque ela era a primeira das três filhas de Alcides a se casar e os Fortenelle transformaram a ocasião quase numa celebração de família inteira.

Não economizaram em absolutamente nada.

Ivone acompanhou cada detalhe. Marlene e Elza participaram de tudo. Os tios discutiram coisas sobre as quais não tinham qualquer autoridade e deram opiniões que ninguém havia pedido.

Jurandir conhecia alguém para flores.

Domingos conhecia alguém para bebidas.

Getúlio sugeriu mudanças na iluminação depois de tudo já estar definido.

Juninho só queria saber que horas terminaria.

Severino, responsável por ter apresentado os dois, passou semanas dizendo que merecia algum reconhecimento formal.

— Você quer o quê? Uma placa? — Viviane perguntou.

— No mínimo.

Gregório entrou na brincadeira.

— Podemos colocar na entrada: “casamento realizado graças a Severino Fortenelle”.

Severino considerou.

— Não seria ruim.

No dia, Viviane estava deslumbrante.

Gregório também.

Quando ele a viu entrando, toda a segurança que sempre carregava pareceu desaparecer por alguns segundos, exatamente como acontecera na primeira vez em que Severino os apresentara.

Viviane percebeu.

E sorriu.

Gregório passou boa parte da cerimônia olhando para ela como se o restante da igreja tivesse deixado de existir.

Mas ninguém chorou mais do que Alcides. Tentou manter-se composto e falhou. Ivone lhe entregou um lenço.

Domingos percebeu e começou a sorrir até Alcides lançar um olhar que prometia consequências.

Ainda assim, quando entregou a filha a Gregório, segurou a mão dele por um instante a mais.

Não precisou dizer nada.

Gregório entendeu.

Naquela época, Alcides confiava nele. Talvez não existisse elogio maior vindo de um pai que passara a vida inteira protegendo as filhas.

Depois do casamento, Gregório tornou-se presença definitiva na família.

Não apenas marido de Viviane. Um dos Fortenelle, ainda que carregasse Borborema no nome.

Participava dos almoços. Viajava com eles. Era incluído nas brincadeiras. Recebia presentes de Domingos. Ouvia Juninho falar de barcos. Discutia com Severino. Jurandir já não analisava cada movimento dele perto da sobrinha.

Até Alcides tinha começado a procurá-lo para conversar sobre assuntos que nada tinham a ver com Viviane.

Por isso, quando Alcides o chamou para trabalhar formalmente na Fort Group, ninguém considerou estranho.

Gregório entrou como vice-diretor, próximo da administração central e, consequentemente, de Alcides.

Viviane ficou encantada.

Talvez mais do que Gregório.

— Você vai trabalhar com meu pai.

— Parece que sim.

— E com meus tios.

— Essa parte me preocupa um pouco.

Viviane bateu em seu braço.

— Eles gostam de você.

— Isso não significa que seja fácil trabalhar com seis Fortenelle.

— Agora são cinco no dia a dia.

— Melhorou muito.

Ela sorriu e o abraçou.

Para Viviane, havia alguma coisa quase perfeita naquela nova fase.

O marido que amava entrando na empresa que amava.

Ela ainda ensinava.

Gregório trabalharia com Alcides.

Aos poucos, talvez ela também encontrasse alguma maneira de se aproximar.

Parecia que as partes de sua vida começavam a se juntar.

Gregório entrou na Fort Group com uma mentalidade bastante diferente daquela que predominava na família.

Não era uma diferença que inicialmente provocasse conflitos.

Era quase estimulante.

Os Fortenelle eram bons empresários. Tinham construído patrimônio, organizado empresas, desenvolvido setores diferentes e mantido o grupo saudável por décadas.

Mas não tinham fome.

Não da maneira como Gregório tinha.

Para Severino, uma empresa saudável, lucrativa e capaz de continuar sustentando a família era uma excelente empresa.

Para Jurandir, se a empresa permitia trabalhar e ainda passar boas temporadas viajando, melhor ainda.

Juninho jamais acreditaria que um aumento de lucro justificava perder um fim de semana no barco.

Domingos gostava de vender, negociar e ganhar dinheiro, mas não perdia sono pensando em crescimento.

Alcides era responsável e cuidadoso.

Protegia a Fort Group.

Gregório queria expandi-la.

Nas primeiras semanas, observou mais do que falou.

Aquilo agradou Alcides.

Gregório não chegou anunciando que sabia mais do que pessoas que estavam na empresa havia décadas.

Conversou com funcionários. Pediu relatórios. Visitou operações. Sentou-se com Severino. Perguntou a Domingos sobre fornecedores. Acompanhou contratos. Tentou entender por que determinadas decisões eram tomadas daquele jeito e trabalhava muito. Muito mesmo.

Gregório chegava cedo e saía tarde.

Levava papéis para casa.

Viviane algumas vezes o encontrava na mesa depois do jantar, gravata afrouxada, mangas dobradas, cercado de documentos.

E precisava fazer esforço para não se distrair com a aparência do marido antes de perguntar o que ele estava fazendo.

— Você ainda não terminou?

Gregório levantava os olhos.

— Olha isso aqui.

Viviane se aproximava.

— Isso o quê?

— Quanto a Fort Group está pagando por esses equipamentos.

Explicava. Mostrava números. Comparava valores. Falava empolgado.

Gregório havia percebido rapidamente que determinadas empresas do grupo compravam equipamentos de fornecedores tradicionais havia tantos anos que ninguém parava mais para questionar os preços.

Não havia corrupção.

Nem incompetência.

Havia hábito.

E relações antigas.

Os Fortenelle gostavam de trabalhar com gente em quem confiavam.

Gregório respeitava isso.

Mas fazia contas.

— Esse fornecedor é quinze por cento mais barato.

Viviane olhava os papéis.

— A qualidade?

— Praticamente igual.

— Severino aprovou?

— Vai testar.

Gregório sorria.

— Se funcionar, olha o que economizamos num ano.

Viviane fazia as contas. Os números eram grandes.

Gregório ficava eufórico.

Ela adorava vê-lo assim. Havia brilho nos olhos dele quando falava de negócio. Não era apenas dinheiro. Era a sensação de encontrar uma possibilidade que ninguém havia visto.

Pouco tempo depois, os testes deram certo.

A Fort Group mudou parte dos fornecedores. Economizou uma quantia significativa. Gregório encontrou outras despesas. Contratos que poderiam ser renegociados.

Estruturas duplicadas entre braços que haviam sido empresas independentes antes da formação do grupo.

Serviços que eram contratados separadamente e poderiam ser centralizados.

Alguns cargos que já não tinham função real depois das mudanças administrativas.

Os cortes foram feitos.

Sem grandes dramas.

Com cuidado maior do que Gregório inicialmente consideraria necessário, porque os Fortenelle tinham uma relação muito específica com funcionários antigos.

Quando sugeriu encerrar determinada posição, Alcides perguntou:

— Há quanto tempo ele está conosco?

Gregório consultou.

— Vinte e dois anos.

— Então não manda embora desse jeito.

— A função não existe mais.

— Eu sei.

Alcides pensou.

— Vê onde podemos colocar.

Gregório tentou argumentar sobre custo.

Severino concordou com Alcides.

Domingos também.

Gregório acabou cedendo.

Encontraram outro setor.

Viviane ouviu a história em casa e sorriu.

— Está aprendendo.

Gregório levantou uma sobrancelha.

— A gastar dinheiro?

— A trabalhar com os Fortenelle.

Ele riu.

Gregório não considerava aquilo necessariamente eficiente, mas começava a compreender.

Para aquela família, a Fort Group não existia apenas para produzir resultado.

Havia gente ali que trabalhara com Geraldo.

Filhos de antigos funcionários.

Famílias inteiras ligadas ao grupo havia anos.

Os Fortenelle podiam cortar gasto.

Só não gostavam de cortar gente se houvesse outra saída.

Gregório era mais frio nesse ponto. Mais empresarial. E talvez fosse justamente por isso que sua presença funcionasse tão bem naquele momento.

Ele pressionava.

Os Fortenelle seguravam.

Ele queria crescer.

Eles lembravam que não era preciso destruir tudo para crescer.

Nos primeiros três meses, Gregório já havia mudado bastante coisa.

Os resultados apareceram.

Alcides estava impressionado.

— O rapaz é bom — comentou certa vez com Severino.

Severino parecia muito satisfeito consigo mesmo.

— Eu que apresentei.

— Você vai falar isso até morrer?

— Provavelmente.

Gregório ganhou espaço. Não apenas porque era marido de Viviane. Porque entregava.

Isso era importante para ele. Não queria ser visto apenas como o genro de Alcides. Queria mostrar que merecia aquela posição. E, naquela fase, fazia exatamente isso.

Os irmãos começaram a procurá-lo para ouvir opinião. Alcides passou a incluí-lo em decisões maiores. Severino discutia custos industriais com ele. Domingos brigava quando Gregório tentava mexer demais nos fornecedores e depois admitia quando o genro estava certo. Juninho dizia que aquele homem trabalhava demais. Jurandir perguntava repetidamente se crescimento justificava tantas reuniões.

Gregório ria.

Gostava deles. Talvez até gostasse daquela ausência de disputa.

Na família Borborema, estava acostumado a outros ritmos. Entre os Fortenelle, percebia uma riqueza enorme tratada quase com naturalidade.

Ninguém parecia desesperado para provar que tinha mais. Aquilo o fascinava e, algumas vezes, o irritava.

— Eles podem fazer a Fort Group ficar duas vezes maior — dizia em casa.

Viviane estava sentada diante dele, ouvindo.

— Talvez eles não queiram.

Gregório parecia genuinamente incapaz de compreender.

— Por quê?

Viviane riu.

— Porque meu tio Jurandir acha três reuniões na mesma semana uma agressão aos direitos humanos.

Gregório começou a rir.

— Eu estou falando sério.

— Eu também.

Ele se aproximou.

— Mas você entende o que eu estou dizendo.

Viviane entendia. Talvez melhor do que os tios. Quando Gregório falava sobre expansão, novos contratos, eficiência ou áreas que poderiam crescer, alguma coisa dentro dela se acendia.

Ela fazia perguntas.

Muitas.

Às vezes encontrava problemas nas contas que ele levava para casa. Outras vezes sugeria uma forma diferente de organizar números.

Gregório percebeu rapidamente que conversar com Viviane sobre trabalho era muito mais interessante do que simplesmente contar como fora o dia.

A vida dos dois parecia muito boa, talvez boa demais. Tinham uma casa bonita. Dinheiro. Famílias próximas. Um casamento recente cheio de carinho. Viviane continuava trabalhando numa profissão que amava. Gregório estava crescendo dentro da Fort e voltava para casa quase todos os dias com alguma novidade.

A única coisa que começava a incomodar Viviane era outra.

Três meses de casamento haviam passado e ela não estava grávida.

No início, não prestou atenção.

Seria absurdo.

Três meses não eram nada. Sabia disso racionalmente. Mas racionalidade nem sempre ajudava quando começavam as comparações.

Duas amigas que tinham se casado em épocas próximas estavam grávidas. Uma praticamente desde a lua de mel. A outra descobrira poucas semanas depois.

Ivone também começava a fazer comentários.

Não cruéis.

Nem mesmo cobranças diretas.

Era entusiasmo.

— Você anda dando aula demais.

Viviane olhou para a mãe.

— O que uma coisa tem a ver com a outra?

Ivone deu de ombros.

— Você vive cansada.

— Não vivo.

— Podia diminuir algumas turmas.

— Mãe.

— Eu só quero meus netos.

Viviane riu.

— Você já fala como se eles estivessem atrasados.

— Estão.

— Faz três meses.

— Isso é tempo demais.

Viviane soltava o ar com força. Mas, depois, sozinha, pensava.

Três meses.

Será que trabalhava demais? Será que o cansaço interferia? Será que havia alguma coisa errada?

As perguntas eram irracionais, e justamente por isso difíceis de afastar.

A entrada de Gregório na Fort Group mudou a rotina dos dois mais depressa do que Viviane esperava.

Nos primeiros meses de casamento, ela se acostumara a esperar pelo fim das aulas quase com a mesma ansiedade das alunas. Sabia aproximadamente a hora em que Gregório apareceria e, nos dias em que via o carro dele do outro lado da rua, tinha dificuldade para não sorrir antes mesmo de se despedir da turma. Às vezes havia flores. Outras vezes ele simplesmente a esperava encostado no carro, bonito demais para alguém que não parecia fazer esforço algum para isso, com os cabelos loiros ondulados um pouco desalinhados pelo vento e aquele sorriso que continuava tendo sobre Viviane um efeito irritantemente semelhante ao da primeira vez em que Severino os apresentara.

Só que a Fort Group começou a ocupar cada vez mais espaço.

Gregório chegava cedo e, conforme Alcides lhe entregava responsabilidades maiores, saía cada vez mais tarde. Algumas noites, Viviane já estava em casa havia horas quando escutava a porta. Ele entrava cansado, afrouxando a gravata, ainda pensando em fornecedor, contrato ou em alguma economia que descobrira naquele dia.

Viviane sentia falta dele na porta da escola.

Não fazia drama. Sabia que Gregório estava feliz e, mais do que isso, sentia orgulho. Ele chegava em casa animado, falava da empresa durante o jantar e algumas vezes levava documentos para a sala, onde continuava trabalhando até tarde. Havia encontrado na Fort Group alguma coisa que realmente o estimulava. Viviane gostava de vê-lo assim.

Mesmo que, vez ou outra, ao deixar o colégio e encontrar apenas o motorista ou precisar voltar sozinha, sentisse uma pequena saudade do homem encostado no carro provocando suspiros adolescentes pelas janelas.

Foi numa dessas semanas particularmente cheias que Gregório chegou em casa com uma expressão tão abatida que Viviane soube imediatamente que alguma coisa tinha acontecido.

Ela estava sentada na sala com um livro aberto quando ouviu a porta. Levantou os olhos e encontrou o marido entrando sem o sorriso habitual, os ombros tensos e uma pasta cheia de papéis debaixo do braço.

— O que aconteceu?

Gregório soltou a pasta sobre uma mesa.

— Minha secretária pediu demissão.

Viviane esperou.

— E?

Ele olhou para ela como se a gravidade da situação fosse evidente.

— E minha vida acabou.

Viviane começou a rir.

— Gregório.

— Estou falando sério.

Ele tirou o paletó, jogou-o sobre o encosto de uma poltrona e passou a mão pelos cabelos.

— Eu não sei onde está metade das coisas. Tenho três reuniões amanhã e não faço ideia de qual é primeiro. Hoje quase mandei o Severino para uma reunião com um fornecedor que era minha.

— Como você não sabe sua própria agenda?

— Porque eu não cuido da minha própria agenda.

A resposta veio com uma indignação tão sincera que Viviane riu outra vez.

Gregório lançou-lhe um olhar.

— Pode rir. Amanhã eu tenho que começar a entrevistar gente e nem sei onde vou encaixar as entrevistas.

Ela fechou o livro.

— Seu drama é realmente comovente.

— Obrigado pelo apoio da minha esposa.

Viviane ainda sorria quando teve a ideia. Veio tão depressa que ela falou antes de pensar.

— Eu posso ir trabalhar com você.

Gregório parou.

— O quê?

— Eu posso ser sua secretária.

O silêncio durou apenas alguns segundos.

Viviane estava pensando na Fort Group.

Gregório, não exatamente.

Ele olhou para a mulher à sua frente e a ideia se organizou em sua cabeça de uma maneira muito diferente da que provavelmente deveria.

Viviane na empresa.

Viviane trabalhando na recepção de sua sala.

Viviane organizando seus compromissos, entrando no gabinete várias vezes por dia, cuidando das coisas dele, esperando por ele entre uma reunião e outra. Sua esposa, não uma funcionária qualquer. Aquela mulher linda, loira, de olhos verdes, sempre impecável, ali ao alcance dos olhos durante praticamente todo o expediente.

Gregório levou a mão ao queixo.

Quanto mais pensava, mais a ideia lhe agradava.

Talvez mais do que deveria.

Havia alguma coisa deliciosamente masculina na fantasia. Sua própria mulher trabalhando diretamente para ele, organizando sua vida, cuidando para que nada lhe escapasse. Gregório jamais diria aquilo daquela forma para Viviane. Sabia perfeitamente como soaria.

Mas pensou e gostou.

Muito.

— Na verdade...

Viviane se inclinou um pouco para a frente.

— O quê?

O sorriso começou a voltar ao rosto dele.

— Isso é uma excelente ideia.

Os olhos dela se iluminaram imediatamente.

— Você acha?

— Claro que acho.

Gregório já parecia muito menos arrasado do que cinco minutos antes.

— Ninguém me entende como você. Você é organizada, entende número, sabe exatamente quando eu estou esquecendo alguma coisa e ainda vamos passar o dia inteiro juntos.

A última parte lhe agradava especialmente.

Viviane sentiu uma alegria tão rápida que precisou conter o sorriso.

— Eu podia ajudar até você encontrar outra pessoa.

— Por que encontrar outra pessoa?

Ela piscou.

— Gregório...

— Estou falando sério. Você pode começar amanhã.

— Amanhã?

— Quanto mais rápido, melhor.

Viviane quase riu de nervoso.

A Fort Group.

Ela realmente estaria na Fort Group!

Não entrando para visitar o pai, não aparecendo num almoço, não perguntando sobre algum papel que Gregório levara para casa.

Trabalhando.

— Eu preciso falar com meu pai.

Gregório fez um gesto com a mão.

— Não precisa.

— Claro que preciso.

— Vivi, eu sou vice-diretor. A secretária é minha. Eu contrato quem eu quiser.

Ela ficou olhando para ele.

Gregório abriu aquele sorriso bonito e confiante que tantas vezes bastava para convencê-la de coisas que ainda nem haviam sido totalmente explicadas.

— Está contratada.

Viviane começou a rir.

— Você não pode simplesmente me contratar sentado na nossa sala.

— Acabei de fazer.

— Eu tenho emprego.

— Então se demite.

— Gregório!

Ele se aproximou e segurou suas mãos.

— Você não quer?

A pergunta bastou para que a brincadeira diminuísse.

Viviane queria.

Mais do que deveria admitir.

Queria desde menina.

Só que havia alunos.

Uma escola que confiava nela.

Uma turma esperando pela professora na manhã seguinte.

— Eu preciso conversar com a direção. Posso terminar a semana.

Gregório fez uma careta.

— Uma semana?

— São poucos dias.

— Minha agenda não sobrevive poucos dias.

— Sobreviveu até hoje.

— Por milagre.

Viviane sorriu.

— Eu vou conversar amanhã.

Gregório beijou sua testa.

— Você está salvando minha vida.

Ela encostou o rosto no peito dele e, enquanto Gregório ainda pensava principalmente no alívio de resolver o caos da própria rotina e, em algum lugar menos respeitável de sua cabeça, na satisfação de ter Viviane trabalhando diante de sua sala, ela sentia o coração acelerar por um motivo completamente diferente.

Finalmente.

A Fort Group.

Na manhã seguinte, comunicar sua saída foi muito mais difícil do que Viviane imaginara.

O diretor da escola inicialmente acreditou que se tratasse de uma decisão planejada havia algum tempo. Quando percebeu que Viviane pretendia sair quase imediatamente, ficou genuinamente surpresendido.

— Mas aconteceu alguma coisa?

— Não.

— Algum problema conosco?

— Nenhum.

Ela gostava daquela escola.

Essa era justamente a parte dolorosa.

Explicou que surgira uma oportunidade na empresa de sua família, que o marido precisava dela e que gostaria de experimentar aquele novo caminho.

O diretor ouviu em silêncio.

Depois perguntou:

— Você tem certeza?

Viviane tinha.

Ou acreditava ter.

Ele não tentou impedi-la, mas pediu que pensasse.

Disse que uma professora como ela não era fácil de substituir, muito menos no meio do período. Propôs diminuir turmas. Licença. Algumas semanas para organizar tudo.

Viviane quase aceitou mais tempo.

Então pensou em Gregório esperando por ela e na Fort Group a poucos quilômetros dali.

Na possibilidade que havia esperado durante tantos anos.

Seu coração venceu a prudência.

Permaneceu apenas o suficiente para se despedir adequadamente dos alunos.

Essa foi a parte que a fez chorar.

As crianças e adolescentes reagiram com uma mistura de surpresa, tristeza e protesto. Alguns perguntaram se ela voltaria. Outros quiseram saber por que estava indo embora. Uma menina começou a chorar antes mesmo de Viviane terminar de explicar e arrastou metade da sala com ela.

Recebeu cartões. Bilhetes escritos depressa. Pequenos presentes improvisados. Uma aluna lhe entregou uma carta dobrada várias vezes e pediu que só lesse depois de ir embora.

Viviane leu no carro.

Chorou de novo.

Quando finalmente deixou a escola, o diretor acompanhou-a até a saída.

— As portas continuam abertas para você.

Viviane agradeceu.

— Eu sei.

— E não precisa ter vergonha de voltar se descobrir que sente falta disso.

Ela sorriu.

— Acho que vou sentir de qualquer maneira.

Ele apertou sua mão.

Naquela tarde, porém, tristeza e culpa dividiram espaço com uma alegria que Viviane mal conseguia controlar. Ela voltou para casa, trocou de roupa e passou tempo demais diante do armário. Vestiu-se como imaginava que uma mulher deveria se vestir para trabalhar na Fort Group.

Só percebeu que estava nervosa quando chegou ao edifício. O coração batia rápido. Viviane ficou alguns segundos dentro do carro olhando para a entrada.

Quantas vezes imaginara aquilo? Quando tinha oito anos? Dez? Dezessete? Quantas vezes pedira para acompanhar o pai? Quantas vezes ouvira que depois, outro dia, quando fosse maior?

Agora era maior.

Casada.

Formada.

E estava indo trabalhar ali.

Viviane desceu do carro sorrindo. Não conseguia evitar.

Na recepção, identificou-se.

— Viviane Fortenelle.

O sobrenome Fortenelle resolveu quase tudo antes que precisasse explicar. Ainda assim, informou que começaria a trabalhar com o vice-diretor.

Foi liberada.

A cada andar que subia, ficava mais animada.

Gregório a esperava.

Quando bateu à porta e entrou, encontrou o marido atrás de uma mesa enorme, cercado pelos papéis que provavelmente explicavam o desespero da noite anterior.

Ele levantou os olhos e sorriu.

— Finalmente!

Viviane entrou.

Gregório se levantou e veio até ela. Primeiro beijou sua bochecha. Depois se afastou um pouco para olhá-la.

Viviane tinha escolhido uma roupa particularmente séria. Elegante, bonita, mas mais conservadora do que costumava usar no dia a dia.

Gregório inclinou a cabeça.

— Você não precisava vir tão comportada.

Ela ficou vermelha imediatamente. Ele riu.

— Estou só dizendo.

Viviane passou por ele tentando esconder o sorriso.

— Vai me mostrar onde eu trabalho ou vai ficar falando da minha roupa?

— Posso fazer os dois.

A recepção particular do gabinete era ampla, com uma mesa, telefone, arquivo e acesso direto à sala de Gregório. Ele mostrou tudo com entusiasmo quase infantil.

Explicou o básico do telefone. A agenda. Os contatos mais importantes. Os documentos que podiam entrar sem autorização. Os que deveriam esperar. Quais pessoas nunca deveriam ficar esperando. Quais podiam.

Viviane prestou atenção em tudo. Sentou-se. Passou os dedos discretamente sobre a mesa. Era uma coisa simples, uma mesa, um telefone e papéis. Mas pertencia à Fort Group.

Ela sorriu para si mesma.

Começou a atender. Anotou recados. Organizou alguns horários. Fez perguntas quando precisava. E rapidamente percebeu que a agenda de Gregório realmente era um desastre.

De onde estava sentada, conseguia enxergar mais adiante a entrada da área da diretoria.

Alcides ainda não sabia.

A ideia deixava Viviane nervosa e, ao mesmo tempo, divertida.

Imaginava o pai aparecendo, parando diante dela e finalmente percebendo que, depois de tantos anos, a filha tinha conseguido entrar.

Talvez reclamasse.

Provavelmente reclamaria.

Depois aceitaria.

Viviane tinha certeza.

Ela estava conferindo alguns papéis quando ouviu passos.

Levantou os olhos.

Juninho vinha pelo corredor acompanhado de um rapaz mais jovem, falando alguma coisa sobre uma operação. Passou pela recepção, deu dois passos e então parou.

Voltou.

Olhou para Viviane.

Piscou.

— Vivi?

Ela abriu um sorriso.

— Oi, tio.

Juninho olhou para a mesa. Depois para a porta de Gregório. Depois novamente para ela.

— O que você está fazendo aí?

Viviane ficou ainda mais satisfeita.

— Agora somos colegas de trabalho.

Juninho não respondeu.

— Sou secretária do Gregório.

A mudança no rosto do tio foi tão rápida que o sorriso de Viviane desapareceu.

Juninho empalideceu. Os lábios perderam cor junto com o restante do rosto.

Ele levou uma das mãos para o lado e acabou se apoiando no rapaz que estava com ele.

— Tio?

Juninho piscou algumas vezes.

— Um minuto.

— Você está bem?

— Um minuto, Vivi.

Virou-se e caminhou em direção à diretoria.

Entrou sem bater.

Viviane ficou olhando.

Nunca tinha visto Juninho daquele jeito.

Juninho raramente se irritava com qualquer coisa. Se havia opção entre discutir e ir embora para cuidar de um barco, escolhia o barco.

Viviane levantou lentamente da cadeira.

Alguns minutos depois, a porta da diretoria abriu.

Alcides saiu.

Ela nunca tinha visto o pai daquela cor.

O rosto estava vermelho.

Não a vermelhidão de calor ou constrangimento.

Raiva.

Viviane ficou imóvel.

— Pai...

Alcides respirou fundo antes de responder.

Tão fundo que ela percebeu o esforço.

— Juninho.

O irmão apareceu atrás dele.

— Leva a Vivi para a sala de reunião.

Viviane franziu a testa.

— Por quê?

— Eu vou resolver uma coisa.

— Resolver o quê?

Alcides olhou para a filha. Por um segundo, a irritação suavizou.

— Vai com seu tio, meu amor.

O “meu amor” confundiu-a ainda mais.

Juninho se aproximou. Viviane acompanhou-o porque não sabia exatamente o que mais poderia fazer. Quando entraram na sala de reunião, ela se virou imediatamente.

— O que aconteceu?

Juninho fechou a porta. Ainda estava irritado. Não assustado. Irritado. Talvez fosse a primeira vez na vida que Viviane via aquele homem genuinamente bravo.

— Você largou sua escola?

— Larguei.

— Para isso?

Ela recuou um pouco diante do tom.

— Para trabalhar aqui.

Juninho passou a mão pelo rosto.

— Vivi...

— O que foi?

Ele caminhou alguns passos pela sala, tentando claramente escolher palavras.

— Você é uma mulher de família, estudada, formada. Não é enfeite de gabinete de homem.

Viviane arregalou os olhos.

— Eu não sou enfeite.

— Então o que está fazendo sentada na porta da sala do Gregório atendendo telefone?

— Ajudando meu marido.

— Você estudou Matemática para organizar agenda de marido?

A pergunta doeu mais do que deveria.

Viviane ficou séria.

— Eu queria trabalhar na Fort Group desde menina.

— Eu sei!

— Então por que está bravo?

Juninho parou.

Olhou para ela.

Quando respondeu, o tom tinha diminuído.

— Não estou bravo com você.

— Parece.

— Estou tentando não ficar.

Viviane cruzou os braços.

— Eu posso ser secretária.

— Claro que pode.

— Então?

Juninho soltou o ar.

— A questão não é se você consegue.

Era sempre aquilo. Viviane já ouvira variações da frase a vida inteira.

— Então qual é?

Juninho demorou.

— É de mau gosto.

Ela ficou imediatamente ofendida.

— Tio!

— Não você. A situação.

— Que situação?

— Seu marido entrar aqui como vice-diretor e colocar a própria esposa do lado de fora do gabinete, servindo café, atendendo telefone e organizando a vida dele.

— Ele não me colocou. Eu me ofereci.

Juninho pareceu ainda mais perturbado.

— Pior.

— Por quê?

— Porque ele devia ter dito não.

Viviane não conseguia entender.

Na cabeça dela, Gregório havia feito exatamente o contrário de todos os outros.

Ele deixara.

A porta que o pai mantivera fechada durante anos tinha sido aberta pelo marido em uma noite.

E agora os Fortenelle estavam furiosos com ele justamente por isso.

— Eu quero ajudar.

Juninho finalmente se aproximou.

— Eu sei, Vivi. — a voz suavizou. — Todo mundo sabe.

Ela não respondeu.

— Mas não foi para isso que seu pai te deu estudo. Não foi para isso que você fez faculdade. Se quer trabalhar aqui, é outra conversa.

Viviane piscou. Antes que pudesse perguntar o que aquilo significava, a porta abriu.

Gregório entrou primeiro.

A diferença nele era assustadora.

O homem que algumas horas antes a recebera sorrindo estava abatido, sério, com a cabeça um pouco baixa.

Alcides veio atrás.

Ainda estava vermelho.

Viviane alternou o olhar entre os dois.

— O que aconteceu?

Gregório olhou para ela.

— Seu pai e eu conversamos.

Pelo estado de ambos, “conversamos” parecia uma palavra generosa.

Alcides puxou uma cadeira.

— Senta, Vivi.

Ela sentou.

Juninho permaneceu ao lado.

Gregório ocupou outra cadeira.

Por alguns segundos, ninguém falou. Alcides apoiou as mãos sobre a mesa. Quando finalmente abriu a boca, dirigiu-se à filha, não ao genro.

— Você saiu da escola hoje?

Viviane assentiu.

— Saí.

Ele fechou os olhos por um momento.

— Assim, de uma hora para outra?

— O Gregório precisava de alguém.

Alcides respirou outra vez.

Viviane percebeu que estava fazendo um esforço enorme para não permitir que a irritação destinada a Gregório caísse sobre ela.

— Vivi, você estava numa das melhores escolas do Rio.

— Eu sei.

— Era professora de Matemática.

— Eu sei.

— Gostava de lá.

Ela baixou ligeiramente os olhos.

— Gostava…

— Então por quê?

Viviane olhou para o pai.

— Porque eu sempre quis trabalhar aqui.

A resposta desmontou alguma coisa nele.

Não a raiva. Mas mudou seu rosto. Alcides passou uma mão pelo rosto, depois estendeu a outra sobre a mesa. Viviane colocou a mão na dele. Ele apertou seus dedos.

— Eu sei. — a voz estava mais baixa.

— Eu sei que quis.

Viviane esperou.

Alcides permaneceu alguns segundos olhando para as mãos dos dois. Talvez lembrasse de uma menina perguntando quando poderia ir à fábrica. Talvez da adolescente insistindo em Economia. Talvez das discussões que tivera para convencê-la a fazer Matemática. Quando levantou os olhos, parecia cansado.

— Se você quer tanto ter uma experiência na Fort Group, eu vou deixar.

Juninho virou o rosto tão rapidamente que quase pareceu ter ouvido errado.

— Alcides…

O irmão ignorou.

Viviane sentiu o coração acelerar.

— Vai?

— Vou.

O sorriso começou a aparecer no rosto dela.

— Mas não desse jeito.

Desapareceu um pouco.

— Por quê?

Alcides soltou sua mão.

— Nós vamos transferir uma das funcionárias do jurídico para a secretaria do Gregório.

Gregório não disse nada.

— E você vai ficar no setor de contratos.

Viviane piscou.

— Fazendo o quê?

— No começo? Organizando.

Juninho abriu a boca. Alcides levantou uma mão.

— Contratos, documentos importantes, conferências, arquivos. Vai aprender como as coisas funcionam. Vai responder para o setor, não para o seu marido.

Viviane ficou em silêncio.

Aquilo era... muito melhor. Tentou não demonstrar entusiasmo depressa demais.

— Posso olhar os contratos?

Alcides quase sorriu.

— Foi exatamente o que eu acabei de dizer.

— Todos?

— Calma. — Juninho ainda parecia incapaz de acreditar. — Você vai mesmo colocar ela lá?

Alcides virou-se para o irmão.

— Ela quer trabalhar na empresa desde os dezessete anos.

— Antes — Viviane corrigiu.

Os dois olharam para ela.

— Bem antes.

Alcides suspirou.

— Está vendo?

Juninho passou a mão pelo rosto. Mas a irritação começava a desaparecer. Viviane olhou novamente para o pai. Ainda havia uma coisa que não entendia.

— Mas eu continuo não entendendo por que não posso ser secretária.

Alcides ficou sério outra vez. Pensou antes de responder.

— Porque você não conhece esse ambiente.

— Então me ensina.

— Estou tentando.

Ele inclinou-se um pouco para ela.

— Secretária de diretor recebe todo tipo de homem. Fornecedor, cliente, executivo, gente que acha que uma moça sentada sozinha do lado de fora de um gabinete está ali para ser graciosa com eles.

Viviane franziu a testa.

— Eu sei me defender.

— Eu sei.

Era a mesma resposta de quando ela carregava caixas na infância.

Eu sei que consegue. Mas não precisa.

Alcides continuou:

— E eu não vou colocar minha filha nessa posição quando posso colocá-la em outra onde vão olhar primeiro para o trabalho dela.

Viviane ficou quieta. Não concordava inteiramente. Mas começava a entender.

Alcides então virou o rosto para Gregório. A temperatura da sala mudou imediatamente.

— E espero que você não faça isso outra vez.

Gregório assentiu. Não tentou argumentar.

— Eu errei.

Viviane olhou para ele. Gregório parecia verdadeiramente constrangido.

— Eu não pensei dessa forma.

— Esse é exatamente o problema — Alcides respondeu.

Gregório engoliu a resposta que talvez tivesse preparado. Depois olhou para Viviane.

— Desculpa.

Ela apertou os lábios. Não estava propriamente brava com ele. Ainda achava a reação de todos exagerada. Mas havia alguma coisa estranha em perceber que Gregório, tão seguro de tudo, tinha acabado de levar uma reprimenda de Alcides suficientemente séria para sair da sala de cabeça baixa.

Juninho finalmente se sentou.

— Então está resolvido?

Alcides olhou para a filha.

— Está, se ela ainda quiser ficar.

Viviane quase não deixou que terminasse.

— Quero.

O sorriso apareceu de novo.

Dessa vez, Alcides não conseguiu evitar o próprio, pequeno e cansado. Mas estava ali.

— Eu sabia.

Viviane apertou a mão dele outra vez.

— Obrigada, pai.

— Não me agradece ainda. Amanhã você vai descobrir que contrato é muito menos divertido quando tem duzentas páginas.

Ela sorriu.

— Eu gosto de número.

— Infelizmente, eu sei.

Juninho soltou uma risada curta. A tensão da sala finalmente começou a ceder. Gregório permaneceu observando Viviane. Ela estava tão feliz que quase brilhava. E, apesar da bronca, apesar de Alcides ter transformado sua ideia de secretária em alguma coisa completamente diferente, Gregório não conseguiu se arrepender inteiramente.

Tinha sido ele quem abrira a porta. Talvez não da maneira certa. Talvez nem pela razão que Viviane imaginava.

Mas abrira.

Na manhã seguinte, ela não estaria mais sentada do lado de fora de sua sala.

Estaria alguns corredores adiante, cercada de contratos que ninguém da família ainda imaginava que mudariam definitivamente o rumo de sua vida. E Viviane, naquela noite, voltou para casa sem sentir que tinha sido afastada de alguma coisa.

Pela primeira vez, sentia exatamente o contrário.

Durante toda a infância, os homens Fortenelle tinham beijado sua testa e dito que um dia ela entenderia.

Agora, finalmente, alguém tinha colocado papéis diante dela e dito:

aprenda.

Viviane pretendia aprender tudo.

Os tios de Viviane não receberam com o mesmo entusiasmo a notícia de que ela passaria a trabalhar na Fort Group. Alguns primos também demonstraram certo desconforto e Ivone, quando soube que a filha havia deixado uma das escolas mais prestigiadas do Rio de Janeiro para se enfiar entre contratos, arquivos e livros contábeis, precisou de alguns minutos antes de responder qualquer coisa que não parecesse uma crítica. Para ela, aquilo era quase incompreensível. Viviane tinha uma formação excelente, uma profissão respeitada, um marido que ganhava muito bem e uma família que jamais permitiria que lhe faltasse nada. Podia trabalhar poucas horas, viajar, jogar tênis, frequentar exposições, almoçar com as amigas, começar a planejar os filhos que dizia querer desde o noivado. Em vez disso, escolhera voluntariamente passar os dias dentro da empresa. Jurandir, que sempre parecera tão disposto a defender o trabalho da sobrinha enquanto se tratava de dar aulas, mudou de opinião quando percebeu que aquilo significava vê-la circulando diariamente pela Fort Group. Severino perguntou mais de uma vez se ela tinha certeza. Domingos tentou convencê-la de que ainda dava tempo de reconsiderar. Até Juninho, já recuperado do choque de encontrá-la sentada diante da sala de Gregório, observava-a com uma expressão desconfiada sempre que passava pelo setor de contratos.

Todos pareciam acreditar que aquela empolgação duraria pouco.

Viviane tinha sido criada numa vida confortável. Nunca precisara bater ponto, enfrentar cobrança por salário ou permanecer num emprego porque dependia dele para pagar as contas. A família imaginava que, depois de algumas semanas entre documentos, prazos e pilhas de contratos, ela começaria a sentir falta das tardes livres e das quadras de tênis. Talvez percebesse que trabalhar na empresa da família era muito menos interessante do que ouvir histórias sobre ela durante o almoço de domingo.

Aconteceu exatamente o contrário.

Viviane estava fascinada.

No início, Alcides realmente lhe deu tarefas simples. Organizar contratos. Separar documentos. Conferir datas. Identificar assinaturas pendentes. Fazer pequenas planilhas e acompanhar arquivos que precisavam passar de um setor a outro. Era trabalho que qualquer funcionário organizado poderia desempenhar, e talvez parte da família esperasse que a simplicidade da função a desanimasse. Viviane, porém, tratava cada documento como se houvesse recebido acesso a alguma coisa secreta. Lia. Perguntava. Queria saber por que determinado contrato tinha aquela cláusula, por que uma empresa pagava daquele modo, como uma compra feita por Domingos aparecia nos números de outro braço do grupo e quem decidia quanto uma obra poderia custar antes de deixar de ser vantajosa.

No começo, algumas perguntas divertiam Alcides. Depois começaram a surpreendê-lo. Viviane não se limitava a guardar papéis. Queria entender o caminho inteiro deles. Quando alguma coisa não fechava, voltava. Quando uma informação aparecia diferente em dois documentos, perguntava. Quando descobria uma estrutura nova, queria saber de onde vinha. E ficava genuinamente feliz quando finalmente entendia.

Às vezes chegava em casa ainda falando sobre alguma coisa que aprendera, e Gregório ria ao perceber que a mulher que durante anos tentara entrar na Fort Group parecia ter finalmente encontrado o lugar que imaginara desde menina. Ele continuava sendo uma de suas maiores fontes de incentivo. Nunca dizia que ela deveria voltar para casa, nunca parecia incomodado com o entusiasmo da esposa e gostava especialmente quando Viviane começava a compreender assuntos que ele também dominava. Durante o jantar, os dois acabavam discutindo contratos, despesas ou projetos enquanto Ivone, quando estava presente, lançava ao casal um olhar que deixava claro que não considerava negócios um assunto apropriado para todas as refeições.

Viviane não se importava.

Estava vivendo exatamente a vida que queria.

E, dois meses depois de entrar na Fort, descobriu que estava grávida.

A notícia transformou uma família que já não precisava de grandes pretextos para comemorar em uma verdadeira festa.

Viviane descobriu pela manhã e passou algum tempo apenas olhando para a confirmação, como se precisasse ter certeza de que não estava interpretando errado alguma coisa tão desejada. Nos meses anteriores, havia se preocupado mais do que admitira. Três meses tentando tinham parecido uma eternidade quando duas amigas engravidaram quase imediatamente depois do casamento, e ela chegara a se perguntar se trabalhava demais, se havia esperado demais, se existia alguma coisa errada que ninguém tinha descoberto.

Não existia.

Quando contou a Gregório, ele ficou imóvel por um instante.

Viviane nunca esqueceu aquela expressão.

O homem normalmente tão seguro, tão charmoso, capaz de conversar com qualquer pessoa e entrar em qualquer ambiente como se pertencesse a ele, simplesmente perdeu a fala. Os olhos verdes baixaram para o ventre da esposa, embora ainda não houvesse absolutamente nada para ver, e depois voltaram para o rosto dela.

— Tem certeza?

Viviane começou a rir.

— Tenho.

Gregório ainda pareceu precisar de alguns segundos.

— Você está grávida?

— Eu falei que sim.

— Eu sei o que você falou. Só estou...

Ele não terminou.

Puxou-a para os braços com tanta força que Viviane começou a rir contra seu peito.

Gregório a beijou várias vezes, primeiro a boca, depois a testa, as bochechas, o cabelo, como se não soubesse exatamente onde colocar toda aquela felicidade. Quando finalmente se afastou, continuava olhando para ela com uma espécie de encantamento.

— Nós vamos ter um filho!

— Vamos!

— Um filho nosso.

Viviane riu novamente.

— Normalmente é assim que funciona.

Gregório não se importou com a provocação.

Naquela noite, comprou charutos caros demais e apareceu no jantar da família com uma caixa. Gregório distribuiu-os mesmo para quem não fumava, como se aquilo fosse parte obrigatória de ser um futuro pai. Domingos tomou dois. Juninho perguntou se podia trocar o dele por alguma coisa útil. Severino abraçou Viviane com cuidado exagerado, como se ela tivesse se tornado frágil entre uma manhã e outra. Ivone chorou. Marlene chorou porque Ivone chorara. Elza afirmou que se recusava a participar daquela epidemia de lágrimas e acabou chorando também.

Alcides abraçou a filha por muito tempo.

Aquilo era diferente.

Viviane percebeu.

Para o pai, aquele bebê era também o primeiro filho dela, a primeira nova geração que viria daquele ramo da família que durante tanto tempo ele temera ver desaparecer. Gregório havia prometido que os filhos seriam Fortenelle, e Alcides jamais esquecera.

A gravidez transformou Viviane, que já era mimada pela família, numa espécie de patrimônio coletivo que todos pareciam obrigados a fiscalizar.

Se levantava alguma coisa um pouco mais pesada, alguém tirava de suas mãos. Se demorava para sentar, Ivone aparecia com uma cadeira. Se dizia que estava cansada, metade da família queria mandá-la para casa. Se espirrava, havia alguém perguntando se tinha falado com o médico.

Viviane reclamava. E secretamente adorava quase tudo.

A cada mês, a curiosidade sobre o bebê aumentava. Naquela época, não havia a facilidade moderna de descobrir cedo e com absoluta naturalidade o sexo de uma criança, então a família recorria a tudo o que estivesse disponível entre ciência, palpite e superstição.

Viviane fez praticamente todas as mandingas que lhe ensinaram.

Formato da barriga.

Vontade de doce ou salgado.

Uma corrente balançando sobre a mão.

Perguntas de tias.

Cálculos de pessoas que juravam saber determinar o sexo do bebê com base na idade da mãe e no mês da concepção.

A maioria dizia menino.

Gregório passou a afirmar que era menino com tanta confiança que Viviane começou a acusá-lo de manipular os resultados.

— Você está escolhendo só as que dizem menino.

— Estou escolhendo as confiáveis.

— Nenhuma delas é confiável.

— Então por que você fez todas?

Viviane não respondia.

Se fosse menino, já estava decidido.

Antônio.

Se fosse menina, Clarisse.

À noite, os dois às vezes ficavam deitados falando dos filhos que ainda viriam depois daquele.

Porque nenhum dos dois imaginava que haveria apenas um.

O primeiro seria Antônio ou Clarisse. Depois viriam outros. Talvez dois. Talvez três. Gregório continuava aumentando o número conforme a conversa, e Viviane continuava o incentivando. Era uma brincadeira antiga entre eles, mas agora havia um bebê real crescendo dentro dela, e a fantasia começava a ganhar quartos, nomes, viagens e pequenas discussões sobre quem seria mais severo.

Viviane tinha uma esperança particular.

Queria que o bebê fosse bonito como o pai.

Dizia aquilo sem qualquer vergonha.

Gregório era um homem muito bonito e sabia disso. A ideia de que o filho pudesse nascer com o cabelo loiro ondulado dele, aqueles olhos verdes e o mesmo sorriso lhe parecia quase irresistível.

— Se puxar você, vai ficar lindo também — Gregório dizia.

Viviane sorria.

— Mas eu quero que pareça com você.

— Você vai se arrepender quando tiver dois iguais a mim dentro de casa.

— Eu dou conta.

Na Fort Group, a gravidez criou outra discussão.

Viviane não queria parar.

Alcides flexibilizou horários antes mesmo que ela pedisse, e isso a deixou ao mesmo tempo agradecida e constrangida. Ela sabia que qualquer outra funcionária não teria necessariamente o mesmo privilégio. Por isso evitava utilizá-lo quando não precisava. Comparecia. Cumpria o que assumia. Levava trabalho para casa apenas quando o corpo realmente começava a pedir descanso.

Quando Alcides percebia, mandava que fosse embora.

— Pai, eu estou bem.

— E eu estou mandando você para casa.

— Ainda tenho duas coisas para terminar.

— Amanhã continua.

Viviane olhava para ele.

— Você não faria isso com o Gregório.

— Gregório não está grávido.

Era impossível discutir com aquela lógica.

Aos poucos, no entanto, Alcides começou a dar-lhe acesso a coisas mais importantes.

Primeiro documentos de contratos em andamento. Depois relatórios. Até que, certa tarde, chamou a filha e colocou alguns livros contábeis diante dela.

Viviane olhou para os livros. Depois para o pai.

— Posso?

Alcides percebeu o entusiasmo e quase se arrependeu de ter feito parecer uma grande concessão.

— Pode olhar.

Viviane abriu o primeiro.

Aquilo, para ela, pareceu uma nova porta.

Os números contavam histórias que os contratos não mostravam. Custos. Margens. Pagamentos. Despesas. Movimentações entre diferentes braços da Fort. Pela primeira vez, começou a enxergar o grupo não apenas como um conjunto de empresas, mas como um organismo inteiro.

Isso a estimulou ainda mais a continuar.

A barriga crescia. O conhecimento também.

Viviane sentia que vivia duas vidas que tentavam ocupar o mesmo corpo.

Durante parte do dia, era a mulher que descobria cada vez mais sobre a Fort Group. Na outra, era uma futura mãe completamente encantada com o bebê que se mexia dentro dela. Algumas vezes estava lendo um contrato quando Antônio, porque cada vez tinha mais certeza de que seria Antônio, começava a chutar. Ela parava, colocava a mão sobre a barriga e esquecia o documento por alguns segundos.

A empresa podia esperar.

Aquele movimento, não.

Quando o bebê nasceu, era realmente um menino. E chorou com uma força que fez Gregório começar a rir no meio da emoção.

Viviane estava exausta, ainda tentando compreender que aquilo finalmente havia acontecido, quando viu o marido receber o filho.

Ela não foi a primeira pessoa a segurá-lo.

Gregório foi.

Viviane observou de longe.

Nunca esqueceria aquela imagem.

Gregório, ainda com o rosto tomado pela emoção, segurando um bebê minúsculo que parecia profundamente indignado com o mundo e chorava com toda a força dos pulmões. O marido olhava para ele como se nunca tivesse visto nada parecido.

Depois levou o filho até o vidro.

Do outro lado, provavelmente havia uma quantidade indecente de Fortenelle esperando.

Viviane conseguia imaginar.

Seu pai.

A mãe.

Os tios.

As irmãs.

Todos disputando espaço para ver a primeira criança.

Quando Antônio finalmente foi colocado em seus braços, Viviane sentiu uma emoção que nenhuma preparação tinha conseguido antecipar.

Olhou para o rosto pequeno.

Para as mãos.

Para os olhos ainda apertados.

Para aquela pele rosada e para os poucos fios claríssimos na cabeça.

Era lindo.

Não apenas porque era seu filho.

Era realmente um bebê bonito.

Saudável.

Forte.

Perfeito aos olhos dela.

— Antônio — murmurou.

Gregório estava ao lado.

— Antônio Fortenelle.

Viviane levantou os olhos para o marido.

Ele sorriu.

Naquele momento, o sobrenome não parecia carregar peso algum. Era apenas o nome do filho dos dois.

Nos primeiros meses, Viviane acreditou que conseguiria se afastar completamente da Fort Group.

Não conseguiu.

Não porque alguém exigisse.

Ninguém exigia.

Na verdade, praticamente todos esperavam que ela simplesmente não voltasse.

Ivone considerava natural que a filha agora se ocupasse do bebê. Alguns tios presumiam que aquela experiência empresarial havia terminado ali. Alcides não dizia nada, mas evitava mandar qualquer documento.

Viviane começou a pedir.

— Me manda aquele contrato.

— Vivi...

— Eu só vou ler.

— Você acabou de ter um filho.

— Eu sei. Eu estava presente.

Alcides resmungava.

Depois mandava.

Então era possível encontrar Viviane em casa, Antônio mamando em seus braços enquanto um contrato permanecia aberto sobre uma almofada ao lado. Quando o bebê dormia, ela fazia anotações. Depois enviava os documentos novamente para a empresa.

Gregório trazia novidades todas as noites.

Sentava perto dela, pegava o filho no colo e falava sobre o que acontecera na empresa enquanto Viviane perguntava detalhes.

Às vezes Antônio dormia sobre o peito do pai enquanto os dois discutiam algum contrato em voz baixa.

Era uma vida estranhamente completa.

Antônio crescia. E ficava cada vez mais bonito.

Tão bonito que, antes mesmo de conseguir sentar sozinho direito, acabou aparecendo numa campanha de uma loja infantil. Uma conhecida viu o bebê, comentou com alguém, e pouco tempo depois o rosto redondo de Antônio estava num outdoor vestindo roupa de criança como se tivesse alguma consciência do que significava publicidade.

Viviane ria toda vez que passava por um.

O bebê era gorducho, sorridente e tão loiro que de longe parecia não ter sobrancelhas.

Os olhos ainda estavam mudando, mas o rosto lembrava Gregório o suficiente para satisfazer completamente a mãe.

— Eu falei — Viviane dizia.

— Falou o quê?

— Que ia ser igual a você.

Gregório olhava para o filho.

— Coitado.

Viviane lhe dava um tapa leve.

Antônio era uma criança fácil de amar.

Ria muito.

Gostava de colo.

Esticava os braços quando via os pais.

Viviane descobriu que era capaz de passar longos minutos simplesmente olhando para o filho dormir e considerar aquilo um uso perfeitamente razoável do próprio tempo.

Tinha certeza de uma coisa.

Faria qualquer coisa por aquele menino.

Quando Antônio já estava um pouco maior, Viviane contratou uma babá.

A decisão foi difícil.

Não porque desconfiasse da mulher. Escolheu alguém com excelentes referências, experiente e paciente. Passou dias observando a maneira como ela segurava Antônio, como conversava com ele, como reagia quando chorava.

Ainda assim, na primeira manhã em que realmente saiu de casa para voltar à Fort Group, precisou fazer esforço para não desistir na porta.

Beijou Antônio tantas vezes que a babá acabou sorrindo.

— Dona Viviane, pode ir tranquila.

Ela assentiu.

Não estava tranquila.

No carro, sentiu os olhos arderem.

Segurou.

Quando entrou na empresa, já parecia perfeitamente composta.

Não queria que ninguém visse que tinha chorado quase todo o caminho.

Isso só daria munição. E deu mesmo sem lágrimas.

— O que você está fazendo aqui? — perguntou Jurandir.

— Trabalhando.

— Você tem um bebê em casa.

— Eu sei onde deixei meu filho, tio.

Domingos disse que ela podia voltar quando Antônio estivesse maior.

Severino perguntou se tinha certeza.

Juninho parecia sinceramente incapaz de entender por que alguém trocaria algumas horas com um bebê por um escritório.

Ivone, quando soube, foi ainda pior.

— Ele é tão pequeno.

Viviane sentia culpa.

Muita.

Talvez por isso os comentários a atingissem.

Mas Gregório nunca fazia aquele tipo de pergunta.

Ele era o único.

Quando Viviane dizia que voltaria à empresa, ele perguntava a que horas.

Quando estava preocupada com Antônio, tranquilizava-a.

Quando precisava sair mais cedo, não fazia piada.

E quando alguém insinuava que talvez fosse melhor que ficasse em casa, Gregório dizia simplesmente:

— Ela sabe o que quer fazer.

Isso dava forças a Viviane.

Não porque precisasse da autorização do marido.

Mas porque era bom saber que, dentro da própria casa, não teria de defender a decisão todos os dias.

Gregório também era um bom pai.

Talvez não tivesse a mesma atenção minuciosa de Viviane, mas amava Antônio de maneira evidente. Brincava com ele, colocava-o sobre os ombros quando ficou maior, chegava do trabalho e procurava o filho antes mesmo de tirar o paletó.

Antônio aprendeu cedo a reconhecer o som da chegada do pai.

Quando começou a andar, corria daquela maneira instável e apressada de crianças pequenas em direção a Gregório, que se abaixava para recebê-lo.

Viviane adorava assistir.

A maternidade não diminuiu sua vontade de trabalhar. Também não diminuiu o quanto queria estar com o filho. Foi aprendendo a construir a vida entre os dois.

E os Fortenelle, apesar de todas as opiniões, ajudaram. Porque, para aquela família, a prioridade sempre seria família. Se Antônio adoecia, ninguém esperava Viviane na empresa. Se havia consulta, saía. Se o filho tinha alguma conquista pequena que para o resto do mundo seria irrelevante, Viviane estava lá.

O primeiro passo.

As primeiras palavras.

A primeira vez que conseguiu comer sozinho e transformou a mesa inteira numa sujeira.

Viviane guardava tudo.

O trabalho poderia esperar por algumas horas.

Antônio não seria bebê duas vezes.

À noite, quando estava cansada demais, bastava entrar no quarto dele.

Às vezes encontrava o menino dormindo de barriga para cima, os braços abertos, o cabelo tão claro espalhado sobre o travesseiro. Outras vezes ele ainda estava acordado e esticava os braços quando a via.

Aquilo recarregava alguma coisa dentro dela.

Podia ter passado o dia inteiro discutindo contrato, ouvindo opiniões de homens que ainda não sabiam exatamente o que fazer com uma mulher naquele espaço ou tentando provar que não estava ali apenas porque era filha de Alcides.

Antônio sorria e tudo diminuía.

Aos poucos, Viviane também estava ficando cada vez mais dentro da Fort Group.

Já não apenas organizava. Começava a compreender.

Gregório mostrava números.

Ela percebia inconsistências.

Severino, uma vez ou outra, mandava um documento diretamente para ela.

Nada havia acontecido de maneira oficial.

Nenhum cargo grandioso.

Nenhum anúncio.

Mas, lentamente, Viviane deixava de ser apenas a filha de Alcides experimentando trabalhar na empresa.

As pessoas começavam a perceber que ela era boa.

Muito boa.

E sua vida parecia finalmente completa.

Um marido que amava.

Um filho saudável.

A família perto.

A Fort.

Viviane ainda imaginava mais crianças.

Antônio não ficaria sozinho.

Ela e Gregório ainda teriam aquela casa cheia que haviam planejado.

Talvez Clarisse viesse depois.

Talvez outro menino.

Talvez Gregório conseguisse seus sete filhos, todos homens, afinal.

Só que, depois do primeiro aniversário de Antônio, alguma coisa começou a mudar.

Gregório estava sempre cansado.

No começo, ninguém deu importância.

Ele trabalhava muito.

A Fort Group havia crescido sob sua influência, e Gregório parecia incapaz de descansar enquanto houvesse alguma coisa para melhorar. Chegava tarde, acordava cedo e passava dias inteiros entre reuniões, fornecedores e viagens.

Depois começou a reclamar de indisposição.

Uma gripe que demorava demais.

Cansaço.

Uma tosse seca que aparecia e desaparecia.

Alguns dias em que parecia abatido sem razão.

Viviane começou a observar.

— Você precisa ir ao médico.

Gregório nem levantou os olhos dos papéis.

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— Estou bem.

— Não está.

— Estou cansado.

— Você está cansado há semanas.

— Porque estou trabalhando há semanas.

Viviane aproximou-se.

— Greg...

Ele finalmente a olhou.

— Vivi, eu estou bem.

— Então vai ao médico e deixa ele dizer isso.

Gregório sorriu, como se ela estivesse exagerando.

— Eu sou um homem saudável.

— Homens saudáveis também vão ao médico.

— Homem só vai ao médico quando precisa.

Viviane cruzou os braços.

— E quem decide quando precisa?

Gregório abriu aquele sorriso charmoso que, durante anos, tinha resolvido muitas discussões entre os dois.

— Eu.

Normalmente Viviane teria rido.

Dessa vez, não.

Havia alguma coisa na aparência dele que a incomodava.

Nada específico o bastante para justificar medo.

Ainda.

Gregório continuava bonito. Continuava bronzeado quando conseguia ir à praia, continuava usando os ternos perfeitamente e ainda era capaz de entrar numa sala e atrair olhares sem fazer qualquer esforço.

Mas Viviane conhecia o rosto do marido melhor do que qualquer pessoa. E começava a perceber pequenas mudanças.

Um pouco mais pálido em certos dias.

Olheiras.

Cansaço que não desaparecia depois de uma noite de sono.

Aquela tosse.

— Só faz uma consulta — pediu novamente.

Gregório beijou sua testa.

— Quando eu tiver tempo.

Viviane olhou para ele.

— Você nunca vai ter tempo.

Ele sorriu.

— Então está resolvido.

E saiu para trabalhar.

Viviane ficou observando-o ir embora com uma irritação que ainda não era medo.

Não havia motivo para imaginar que alguma coisa verdadeiramente grave estivesse acontecendo.

Gregório era jovem.

Forte.

Saudável.

Tinham um filho de pouco mais de um ano, uma vida inteira pela frente e ainda muitos outros bebês planejados para os anos seguintes.

Naquele momento, para Viviane, a doença do marido era apenas mais uma coisa que precisava convencê-lo a levar a sério.

Ela ainda não sabia que, muito em breve, toda aquela vida cuidadosamente construída seria colocada em suspenso.