O CEO que Eu Paguei
266 De outro ponto de vista - Parte II
Viviane era a filha do meio de Alcides Fortenelle.
Ele e Ivone tiveram três meninas: Marlene, a mais velha, Viviane e Elza, a caçula. Entre os seis filhos de Geraldo e Zilda, Alcides foi o único que não teve um único menino, circunstância que durante muito tempo rendeu brincadeiras dos irmãos, mas nunca qualquer espécie de desapontamento.
Na verdade, aconteceu quase o contrário.
As três meninas de Alcides se tornaram uma espécie de patrimônio afetivo da família inteira.
Os tios tinham filhos homens em quantidade suficiente para encher quintais, corredores e mesas de almoço, de modo que Marlene, Viviane e Elza ocupavam um lugar muito particular. Eram as meninas.
E as meninas eram tratadas como meninas em absolutamente tudo.
Recebiam vestidos antes mesmo de precisar deles, fitas, bonecas, luvas pequenas demais para durar uma estação, sapatos que Zilda considerava um desperdício porque os pés cresciam rápido demais e caixas de doces que Ivone precisava esconder para que não desaparecessem no mesmo dia.
Domingos raramente voltava de viagem sem alguma coisa para as sobrinhas.
Getúlio trazia lembranças de cidades diferentes.
Jurandir, que gostava de coisas bonitas quase tanto quanto gostava de não trabalhar, tinha uma habilidade particular para escolher presentes caros e completamente desnecessários.
Severino era menos imaginativo, mas compensava com qualidade: se comprava um brinquedo, era o melhor; se escolhia um casaco, durava até a menina perder o tamanho.
Juninho descobriu cedo que podia comprar o amor das sobrinhas por algumas horas com balas e chocolates e não via qualquer motivo para deixar de explorar o método.
Viviane adorava tudo aquilo.
Gostava particularmente de sapatos que combinassem com o laço preso no cabelo. Tinha opiniões muito firmes sobre tons de azul, preferia laços grandes e considerava determinados vestidos inferiores aos outros porque suas saias não abriam o suficiente quando ela girava.
Esse era um critério importante.
Quando ganhava um vestido novo, o teste vinha antes de qualquer outra coisa. Viviane abria os braços, prendia a respiração e rodava. Se a saia se abria ao redor das pernas, sorria imediatamente. Se não abria, ainda podia gostar do vestido, mas nunca da mesma maneira.
Marlene achava aquilo infantil.
Elza imitava.
Ivone fingia impaciência.
— Vocês vão cair.
Viviane continuava girando. Às vezes caía e depois levantava rindo.
A infância dela foi assim: cheia.
Cheia de gente, de vozes, de parentes e de uma certeza absoluta de que era amada.
Os Fortenelle se reuniam por qualquer motivo. Domingo, aniversário, feriado, volta de viagem, almoço que começara pequeno e terminara com três irmãos aparecendo sem convite. As crianças circulavam entre adultos que não precisavam perguntar de quem eram os filhos porque todos conheciam todos.
Viviane tinha tantos primos que, quando era pequena, às vezes se confundia sobre qual deles pertencia a qual tio.
Os primos nunca esqueciam quem era ela.
Ela era Vivi.
Era comum um dos meninos passar correndo e ouvir um adulto gritar que tomasse cuidado com as meninas.
— Olha a Vivi!
— Não empurra sua prima!
— Mais devagar perto das meninas!
Viviane nem sempre entendia por quê.
Às vezes estava correndo mais depressa do que eles. Mas havia uma convicção coletiva de que Marlene, Viviane e Elza deveriam ser protegidas de pequenos perigos que pareciam perfeitamente aceitáveis para os meninos.
Quando os primos subiam em árvore, Viviane queria subir também. Certa vez conseguiu colocar um pé num galho baixo antes de Severino perceber.
— Ei, ei, ei. — ele a retirou dali pela cintura com a facilidade de quem pegava uma boneca.
— Eu estava subindo!
— Eu vi mesmo.
— Eles estão também, tio.
Severino olhou para os meninos mais acima.
— Eles são uns animais.
Viviane apontou.
— Então eu quero ser.
Severino riu.
— Não. Você é uma mocinha.
Disse aquilo beijando-lhe a testa antes de colocá-la novamente no chão.
Viviane não ficou ofendida. Só olhou para a árvore por mais alguns segundos.
No dia seguinte, já tinha esquecido.
Quando queria correr descalça pelo jardim, Ivone chamava:
— Vivi, o sapato.
— Está apertando!
— Então vamos trocar. Mas não fica assim.
Quando sentava no chão com as pernas abertas demais sob o vestido, Zilda apenas tocava de leve seu joelho.
— Fecha as perninhas, meu amor.
Viviane fechava.
Quando falava alto demais à mesa:
— Mais baixo, Vivi.
Quando atravessava uma sala correndo:
— Devagar, menina.
Quando tentava carregar alguma coisa pesada:
— Deixa seu primo fazer isso.
Quando queria se juntar a uma brincadeira mais bruta:
— Vai acabar rasgando o vestido.
Quase sempre havia uma justificativa prática.
O vestido.
O sapato.
O cabelo.
O risco de cair.
A ideia de que ela podia se machucar.
Viviane cresceu sem entender aquilo como limitação.
Para ela, era cuidado.
E era, de fato.
Só que era um cuidado distribuído de maneira diferente.
Os meninos podiam voltar com joelhos ralados e camisas sujas.
As meninas precisavam chegar ao almoço com o laço ainda no cabelo.
Ivone e Zilda faziam questão de ensiná-las a sentar direito, cumprimentar adultos, usar os talheres corretos, receber visitas, conversar sem interromper, manter a postura e tratar empregados com educação.
Nada disso era apresentado como castigo. E sim, formação.
— Uma menina deve saber entrar em qualquer lugar — Zilda costumava dizer.
E Viviane gostava da ideia.
Gostava quando Ivone dizia que estava elegante.
Gostava de ouvir que parecia uma mocinha.
Gostava especialmente quando algum tio exagerava e a chamava de princesa.
Ela acreditava.
Em muitos sentidos, era mesmo.
A família inteira parecia empenhada em provar isso.
Foi justamente por crescer tão segura nesse lugar que Viviane nunca viu qualquer contradição imediata quando começou a descobrir que certas portas pertenciam aos homens.
Ela simplesmente supunha que ainda era pequena.
A facilidade com números também apareceu cedo.
A princípio, como mais uma graça daquela menina tão arrumada.
Viviane gostava de contar.
Contava degraus, botões, cadeiras, pétalas desenhadas na louça, pessoas à mesa e quantos pedaços de bolo ainda restavam depois que Domingos repetia.
Aos cinco anos, Zilda estava arrumando uma mesa para um almoço quando Viviane ficou observando.
— Quantas pessoas vêm?
— Vinte e quatro.
Viviane começou a percorrer os lugares.
— Tem vinte e dois pratos.
Zilda continuou mexendo nos talheres.
— Tem não.
— Tem.
— Você contou?
Viviane assentiu.
Zilda contou.
Havia vinte e dois.
Chamou Geraldo como se a neta tivesse acabado de fazer alguma demonstração extraordinária.
— Essa menina contou tudo antes de mim.
Geraldo sorriu e puxou Viviane para perto.
— Inteligente igual ao avô.
Ela abriu um sorriso enorme.
Ser inteligente igual ao avô parecia uma coisa muito boa.
Depois Zilda entregou-lhe dois guardanapos.
— Então leva esses dois para a mesa e deixa tudo bonito.
Viviane levou.
Ninguém achou estranho que a mesma habilidade pudesse ser utilizada para conferir uma conta e, imediatamente depois, para arrumar uma mesa.
Na cabeça deles, as duas coisas combinavam perfeitamente.
Quando Ivone começou a organizar um aniversário, Viviane ficou por perto enquanto a mãe distribuía cartões com os nomes dos convidados.
— Quantos cabem em cada mesa?
— Oito.
Viviane começou a separar. Depois de alguns minutos, levantou a cabeça.
— Vai faltar uma mesa.
Ivone nem olhou.
— Não vai.
— Vai.
— Por quê?
— Porque tem trinta e seis.
Ivone parou, contou. Havia trinta e seis convidados.
— E quantas mesas precisamos?
Viviane respondeu quase imediatamente.
— Cinco. Mas vai sobrar lugar.
Ivone olhou para a filha com aquela expressão satisfeita que Viviane conhecia bem.
— Minha menina é muito esperta.
Chamou Alcides.
Ele apareceu, ouviu a história e fez algumas contas de propósito para testar.
Viviane acertou.
Alcides a colocou no colo e beijou sua bochecha.
— Vai administrar uma casa melhor que sua mãe.
Ivone deu-lhe um tapa leve no braço.
— Muito engraçado.
Viviane riu junto.
Ninguém naquela sala pensou: ela pode administrar uma empresa.
Nem Alcides.
Era uma menina inteligente.
Uma menina que faria tudo muito bem.
Uma futura mulher capaz.
E isso, para eles, significava uma vida muito específica.
Quando os primos demonstravam facilidade com números, os adultos faziam comentários diferentes.
— Esse vai dar para negócio.
— Está puxando o avô.
— Daqui a pouco está trabalhando com o pai.
Com Viviane, diziam:
— Essa não vai deixar ninguém passar a perna nela.
Ou:
— Vai cuidar muito bem da casa.
Ou ainda:
— O marido dessa vai precisar andar na linha.
Todos riam.
Viviane também.
A diferença ainda era invisível para ela.
Aos seis anos, começou piano.
Gostou desde o início.
Não porque fosse uma criança extraordinariamente apaixonada por música, embora apreciasse tocar, mas porque percebeu rapidamente os padrões. Gostava da repetição, da divisão dos tempos, das sequências. Aprendia depressa e se irritava quando errava a mesma passagem duas vezes.
A professora comentou com Ivone que a menina tinha uma noção muito boa de ritmo.
Ivone ficou orgulhosa.
— Eu sabia que ela teria jeito.
Naquela mesma semana, Viviane tentou sentar ao lado de Alcides enquanto ele revisava alguns documentos.
Ele estava na sala de casa com papéis espalhados sobre a mesa. Ela se aproximou ainda com o vestido da aula de piano e ficou olhando.
— O que é isso?
— Trabalho do papai.
— Eu sei. Que tipo trabalho?
Alcides sorriu.
— Conta.
Isso chamou a atenção dela.
— Posso ver?
— Não tem nada interessante aí.
— Têm números.
— Você já fez sua lição?
— Já!
— Então vai brincar.
Viviane permaneceu.
Alcides ergueu os olhos.
Ela sorria para ele.
— Só um pouquinho, papai.
Ele suspirou, puxou uma cadeira e deixou que ela se sentasse.
Viviane passou alguns minutos olhando sem entender quase nada.
Até apontar para duas colunas.
— Esse aqui é maior.
— É.
— Então por que esse aqui embaixo ficou igual?
Alcides olhou, conferiu. Havia copiado um valor errado.
Não era um grande erro, nem algo que passaria por uma revisão completa. Mas Viviane tinha percebido antes dele.
Alcides riu.
— Olha só.
Chamou Ivone e ela veio.
— O que aconteceu?
— A Vivi achou um erro meu.
Ivone arregalou os olhos, orgulhosa.
— Minha filha?
— Ela mesma.
Ivone beijou a cabeça da menina.
— Esperta demais.
Depois olhou para o vestido.
— E você está com isso todo amassado. Levanta daí.
Viviane olhou para a própria saia.
Realmente estava.
Levantou e Ivone alisou o tecido com as mãos.
— Assim.
E a levou para outra sala.
Alcides voltou aos documentos.
A família guardou a história do erro por algum tempo.
Geraldo soube.
Os tios souberam.
No almoço seguinte, Domingos fez questão de perguntar se Alcides já estava contratando a filha.
Todos riram.
Alcides respondeu:
— Primeiro ela aprende a tabuada inteira.
Viviane, muito séria, respondeu que já sabia quase toda.
Domingos levantou as sobrancelhas.
— Então estamos perdidos.
Era sempre assim.
Eles admiravam e desviavam.
Sem perceber que estavam desviando.
Quando Viviane se interessava pelo assunto dos homens, a resposta normalmente vinha acompanhada de carinho suficiente para não parecer uma negativa.
Nas reuniões de família, gostava de ficar perto da sala onde o pai e os tios conversavam sobre a Fort Group.
Não entendia contratos, obras, fornecedores ou bancos, mas adorava as histórias.
Getúlio falava das cidades para onde viajara.
Severino reclamava de alguma instalação.
Domingos contava uma negociação como se fosse uma aventura.
Jurandir reclamava de algum cliente difícil.
Juninho quase sempre tentava descobrir se a conversa podia esperar até segunda-feira.
Viviane sentava numa poltrona e escutava.
Às vezes segurando uma boneca. Outras vezes tentando fazer uma fita no cabelo da boneca combinar com o próprio laço.
Alcides acabava percebendo.
— Vivi.
Ela levantava a cabeça.
— Vai com sua mãe.
— Eu estou ouvindo as histórinhas, papai.
— Eu sei.
— Então posso ficar?
Alcides sorria.
— Conversa de homem é chata.
— Eu não acho não.
Essa resposta costumava fazer os tios rirem.
— Está vendo? — Getúlio dizia. — Alguém nessa casa me valoriza.
Alcides levantava, ia até a filha e lhe dava um beijo na testa.
— Vai brincar um pouco, meu amor.
Viviane perguntava:
— Por quê?
— Porque sim.
Às vezes ele elaborava.
— Porque isso é trabalho.
Outras:
— Porque são assuntos de adulto.
Mas os primos um pouco mais velhos começavam a aparecer em algumas dessas conversas e Viviane notava.
Não como acusação, como curiosidade.
— O Roberto pode ficar.
— Roberto está aprendendo umas coisas com o pai.
— Eu posso aprender.
Alcides sorria com uma ternura quase comovente.
— Você tem coisa muito melhor para aprender agora.
E talvez apontasse para Ivone.
— Sua mãe está esperando você para a aula.
Francês.
Piano.
Bordado durante uma fase curta em que Viviane não demonstrou talento algum.
Dança.
Etiqueta.
Leitura.
Tudo de excelente qualidade. Tudo cuidadosamente escolhido. Tudo pago sem qualquer economia.
A família jamais economizou na educação das meninas.
Só escolhia qual educação considerava importante para elas.
Quando Viviane reclamou que não gostava de bordar, Zilda tentou convencê-la.
— Uma moça precisa saber fazer essas coisas.
— Por quê?
Zilda riu.
— Porque precisa.
— O tio Severino sabe?
— Seu tio Severino não é moça.
A resposta era tão simples que Viviane aceitou.
Tentou mais algumas aulas.
Continuou ruim.
Ivone finalmente desistiu, para alívio de todos.
Não era necessário que uma Fortenelle bordasse bem.
Havia limites até para tradição.
Aos sete anos, Viviane começou a gostar de jogos de cartas. No início, deixavam que ela se sentasse por alguns minutos porque achavam divertido. Logo descobriram que ela prestava atenção nas cartas que já tinham aparecido.
Jurandir foi o primeiro a desconfiar.
— Essa menina está contando.
Viviane olhou para ele.
— Não estou contando!
— Então como sabia?
— Porque aquela já tinha saído.
Domingos gargalhou.
— Ela está lembrando.
— Dá na mesma.
— Não dá. Ela só é mais esperta que você.
Jurandir perdeu para ela naquela rodada.
Viviane juntou as fichas com um sorriso de triunfo.
Zilda apareceu pouco depois e viu a neta no meio dos homens.
— Vocês estão ensinando jogo para essa menina?
— Ela está ensinando a gente — Domingos respondeu.
Zilda lançou um olhar para os filhos. Depois para Viviane.
— Chega por hoje.
Viviane fez uma pequena careta.
— Mas eu estou ganhando.
— Melhor ainda. Sai enquanto está na frente.
Os homens riram. Zilda estendeu a mão e Viviane a segurou.
— Vem ajudar sua avó.
Foi com ela conferir sobremesas, guardanapos e arranjos.
Viviane gostava disso também.
Era essa a peculiaridade.
Ela não sofria por ser retirada de uma coisa e levada para outra.
Gostava das duas.
Gostava de acompanhar Zilda, gostava de escolher flores, gostava de aprender como receber convidados e gostava de saber qual vestido usaria numa festa. Mas queria voltar para a mesa dos homens depois e quase sempre voltava.
Aos oito anos, começou a perguntar mais frequentemente sobre a Fort Group.
Não porque quisesse uma carreira.
Viviane nem sabia exatamente o que uma carreira significava.
A Fort Group era apenas parte da família.
Era como a casa dos avós, os almoços ou o sobrenome.
Todos falavam dela.
Então Viviane queria vê-la.
Quando um primo contou que acompanharia Severino numa visita a uma fábrica, ela perguntou:
— Eu posso ir também?
Alcides olhou para a filha. Ela estava usando um vestido claro, meias brancas e sapatos novos.
— Numa fábrica?
— É.
— Para quê?
— Para conhecer.
Alcides riu.
— Aquilo é cheio de poeira e barulho.
— Eu não ligo.
— Vai estragar esse sapato bonito.
Viviane olhou para os pés. Aquilo era, de fato, um argumento forte.
Gostava dos sapatos.
— Posso colocar outro.
Os tios riram.
Alcides acariciou sua cabeça.
— Quando você for maior.
Viviane aceitou.
Guardou a promessa sem perceber que Alcides talvez nem a tivesse considerado uma promessa.
No ano seguinte, perguntou novamente.
Dessa vez, tinha colocado sapatos antigos antes de fazer o pedido.
Alcides olhou para os pés dela e começou a rir.
— O que foi isso?
— Agora pode sujar.
Ele a puxou para perto.
— Você é bem espertinha.
— Então eu posso?
— Hoje não.
— Quando?
— Outro dia.
Viviane fez uma pequena careta.
Alcides beijou-lhe a testa.
— Vai com sua mãe, Vivi.
Ela foi, não houve revolta. Só uma sensação vaga de que crescer demorava muito mais do que deveria.
A fotografia aconteceu por volta dos nove anos.
A família estava reunida e alguém decidiu registrar Geraldo com os filhos e netos.
Primeiro chamaram os seis irmãos.
Depois os meninos começaram a ser colocados ao redor.
Viviane percebeu e correu na direção deles.
— Eu também.
Alcides segurou a filha pela mão.
— Agora não, Vivi.
— Por quê?
— Essa é a foto dos homens.
Ela olhou para o avô, para os tios, para os primos e depois para o pai.
— Mas eu também sou uma Fortenelle.
Alcides sorriu imediatamente.
— Claro que é.
— Então eu fico.
Houve algumas risadas carinhosas.
Alguém disse:
— Essa menina...
Alcides se abaixou até ficar na altura dela.
— Essa é dos homens Fortenelle. Depois fazemos uma com as mulheres.
Viviane pensou.
— Por quê?
Ele demorou um instante. Não havia uma grande teoria por trás daquilo. Era simplesmente assim.
— Porque fica bonito separado.
Foi a melhor explicação que encontrou.
Viviane olhou mais uma vez para o grupo.
— Ah.
Aceitou.
Pouco depois estava ao lado de Ivone, Zilda, Marlene, Elza, tias e primas numa segunda fotografia.
Zilda ajeitou seu laço antes do retrato.
Ivone alisou sua saia.
Viviane sorriu.
Não passou o restante do dia pensando na primeira fotografia.
Era criança.
Correu para brincar assim que permitiram.
Muitos anos depois, talvez lembrasse daquela cena de maneira diferente.
Naquele dia, não.
Aos nove e dez anos, sua facilidade matemática já era conhecida por toda a família.
Ivone passou a entregar-lhe pequenas contas como brincadeira.
— Confere isso para mim.
Viviane conferia.
Zilda pedia ajuda para calcular quantidades de uma festa.
— Se vierem quarenta pessoas e eu fizer isso aqui...
Viviane pensava e respondia.
Alcides inventava problemas no jantar.
— Se seu tio comprar cinquenta peças por esse preço e vender por esse outro...
Viviane começava a calcular.
Domingos interrompia:
— Não ensina margem para criança.
— Por quê?
— Porque daqui a pouco ela começa a cobrar os presentes que eu trago.
Viviane ria.
Geraldo gostava de testá-la.
Principalmente porque havia alguma coisa familiar naquele modo como a menina olhava para um problema e parecia desconfortável enquanto a conta não fechava.
— Quanto deu?
Ela respondia.
Ele perguntava:
— Tem certeza?
Viviane fazia novamente.
— Tenho.
— Então não muda a resposta só porque alguém perguntou duas vezes.
Essa frase ela guardou.
Havia muitas coisas que Geraldo dizia que Viviane guardava.
Ele gostava daquela neta.
Todos gostavam.
E, justamente porque gostavam, queriam o melhor para ela.
Na cabeça deles, o melhor era evidente.
Uma boa escola, idiomas, cultura, música, boas maneiras, viagens, um casamento excelente no futuro, uma casa bonita e filhos.
Liberdade suficiente para jamais depender de alguém financeiramente, porque uma Fortenelle teria sempre a própria família por trás.
Ninguém desejava diminuí-la.
Eles queriam elevá-la.
Só que a elevavam sobre um pedestal muito específico.
Quando Viviane era delicada, elogiavam.
Quando se comportava como esperavam, alguém dizia:
— Que mocinha linda.
Quando aparecia suja depois de correr com os primos:
— Vivi!
Ela parava.
Ivone olhava o vestido.
— O que você fez?
— A gente estava brincando.
— Olha seu joelho.
— Não aconteceu nada…
— Não estou falando do joelho. Olha a sua roupa!
Viviane olhava e estava horrível.
Ivone suspirava, mas não ficava verdadeiramente brava.
— Vem cá. — limpava seu rosto e arrumava o cabelo. — Você não precisa virar um moleque para brincar com eles.
Viviane respondia com sinceridade:
— Eu não virei.
Ivone acabava rindo.
— Vai trocar de roupa.
Em outra ocasião, Viviane tentou ajudar dois primos a carregar uma caixa.
Um tio apareceu.
— Deixa isso.
— Eu consigo.
— Eu sei que consegue.
A resposta a surpreendeu. Ele tirou a caixa de suas mãos.
— Mas não precisa.
E chamou um dos meninos.
Viviane observou.
A lógica novamente não era perfeita.
Mas havia tanta ternura no gesto que não lhe ocorria discutir.
Essas pequenas correções foram moldando a maneira como ela ocupava os espaços.
Sem proibições brutais, sem gritos e sem alguém dizendo que mulheres eram inferiores.
Tudo vinha na forma de cuidado.
— Deixa que eles fazem.
— Não suja seu vestido.
— Isso não é coisa para menina.
— Senta direito.
— Fala mais baixo.
— Vai com sua mãe.
— Você é uma mocinha.
E depois vinha um beijo, um presente, um elogio, uma mão na cabeça, um pai que faria qualquer coisa por ela, tios que atravessariam a cidade se Ivone dissesse que uma das meninas estava doente, um avô que se gabava da inteligência da neta, uma avó que guardava doces para ela e primos que jamais permitiriam que alguém mexesse com Vivi.
Por isso, aos dez anos, Viviane não tinha qualquer razão para se considerar menos amada do que os meninos.
Ela não era.
Talvez fosse até mais mimada.
O que ela ainda não tinha idade para perceber era que amor e expectativa não eram a mesma coisa.
A família a amava sem medida.
Mas, quando olhava para os primos, enxergava futuros engenheiros, empresários, homens da Fort Group, sucessores possíveis de cada braço da família.
Quando olhava para Viviane, enxergava uma mulher brilhante que um dia seria uma esposa extraordinária, uma anfitriã impecável, administraria uma casa com perfeição e faria qualquer homem muito feliz.
A habilidade com números cabia dentro dessa imagem.
A curiosidade cabia.
A inteligência cabia.
Desde que permanecessem ali.
Viviane ainda não sabia disso.
Para ela, a questão continuava muito mais simples. Gostava de seu vestido. Gostava dos sapatos combinando. Gostava de piano. Gostava de ficar com a mãe e com as irmãs e gostava de ouvir os homens falarem sobre a Fort Group.
Então continuava fazendo exatamente aquilo que fizera desde pequena.
Alcides a encontrava perto da porta.
— Vivi?
— Oi.
— O que você está fazendo aí?
— Nada.
— Está ouvindo?
Ela sorria.
— Só um pouquinho.
Ele balançava a cabeça, divertido.
Às vezes mandava que fosse brincar.
Às vezes deixava.
E Viviane nunca pensava que queria estar no lugar dos homens.
Nem queria deixar de ser a menina que todos tratavam como princesa.
Ela só acreditava, com a certeza tranquila de uma criança profundamente amada, que um dia seria grande o bastante para usar o vestido que quisesse, manter o laço no cabelo e ainda assim poder sentar naquela sala até o fim da conversa.
Zilda morreu quando Viviane tinha onze anos.
Foi a primeira grande perda da família Fortenelle.
Até então, Viviane conhecia a morte apenas como uma palavra dita em missas, comentários baixos entre adultos e histórias sobre pessoas que tinham existido antes dela. Zilda não era distante assim. Zilda estava em tudo.
Estava nos almoços de domingo, nas sobremesas escondidas antes que Domingos aparecesse na cozinha, nas mãos que ajeitavam os laços das netas, nas pequenas correções à mesa e na maneira como conseguia organizar uma casa cheia de filhos, noras, netos e visitas sem jamais parecer que estava fazendo esforço algum.
Quando Zilda morreu, a ausência ficou espalhada pela casa.
Geraldo pareceu envelhecer de repente.
Os seis filhos, que já tinham suas próprias famílias e vidas, passaram a aparecer com ainda mais frequência. As noras se revezavam para não deixá-lo sozinho por muito tempo. Os netos enchiam a casa. Os almoços continuaram acontecendo, mesmo que durante meses houvesse uma cadeira que ninguém parecia disposto a ocupar.
A tristeza não afastou os Fortenelle.
Aproximou ainda mais.
Era assim que aquela família sabia lidar com quase tudo: ficando perto.
Viviane sentia falta da avó de maneiras pequenas. Às vezes arrumava a saia ao sentar-se e lembrava imediatamente de Zilda. Via uma mesa sendo preparada e começava a contar os lugares. Escolhia um vestido e imaginava se a avó teria gostado.
Mas, então ela cresceu e cresceu bonita. Muito bonita.
O cabelo, que quando criança costumava estar preso por fitas e laços enormes, tornou-se naturalmente claro, de um loiro que Ivone fazia questão de manter sempre bem cuidado. Os olhos eram verdes, vivos, muito claros quando a luz batia de determinada maneira. Viviane era alta, esguia e tinha uma delicadeza de traços que chamava atenção mesmo quando ainda era adolescente.
Isso, naturalmente, não passou despercebido.
Para a família, Viviane continuava sendo Vivi.
Para os rapazes, começava a ser outra coisa.
Aos treze, quatorze anos, os primeiros olhares demorados já apareciam nas festas. Aos quinze, começaram os convites, bilhetes, flores e rapazes inventando razões para se aproximar.
Os homens da família percebiam tudo e raramente gostavam.
Alcides era educado.
Severino, menos.
Domingos achava divertido até algum rapaz se aproximar demais.
Juninho geralmente fingia não estar prestando atenção e depois sabia exatamente quem tinha falado com a sobrinha.
Jurandir, que conhecia bastante aquele tipo de rapaz porque havia sido um deles, talvez fosse justamente o pior.
— Esse aí, não.
Viviane já tinha ouvido essa frase mais de uma vez.
— Ele nem fez nada.
— Ainda.
— Tio…
— Estou só observando.
— Está encarando.
— Observando de forma firme.
Ela bufava, não se sentia presa. Na verdade, achava graça na maior parte do tempo.
Sabia que era protegida. Sabia também que os tios exageravam.
E havia certa segurança reconfortante na ideia de que qualquer rapaz que se aproximasse dela sabia, antes mesmo de dizer boa noite, que existiam pai, avô, cinco tios e uma quantidade absurda de primos observando de algum lugar.
No aniversário de quinze anos de Viviane, isso ficou especialmente evidente.
A família organizou uma festa grande.
Ivone passou semanas envolvida nos detalhes. O vestido foi escolhido com cuidado, e Viviane participou de tudo com entusiasmo. Gostava da preparação, das flores, da música e, principalmente, da expectativa de usar uma roupa feita especialmente para ela.
Naquela noite, estava radiante.
Dançou com o pai.
Dançou com Geraldo.
Dançou com alguns tios e primos.
E em determinado momento um rapaz de sua turma criou coragem suficiente para convidá-la.
Viviane aceitou.
Era um garoto educado, bem vestido e visivelmente nervoso.
Para ela, foi apenas uma dança.
Para os Fortenelle, aparentemente, foi um evento de segurança nacional.
Quando Viviane olhou por cima do ombro do rapaz, encontrou Alcides observando.
Mais ao fundo, Severino também.
Domingos conversava com alguém, mas os olhos estavam na pista.
Jurandir tinha parado de beber.
Juninho fingia prestar atenção em outra coisa com competência muito ruim.
Viviane quase começou a rir no meio da música.
— O que foi? — o rapaz perguntou.
— Nada.
— Fiz alguma coisa?
— Não, está perfeito.
Ela olhou novamente para a família.
— Só não chega muito perto.
O rapaz empalideceu.
Viviane mordeu o lábio para não rir.
Depois da dança, voltou para perto das irmãs.
Domingos apareceu alguns minutos depois.
— Quem é?
— Um menino da minha sala.
— Nome?
— Para quê?
— Curiosidade.
Jurandir surgiu ao lado.
— Família?
Viviane virou os olhos verdes para os dois.
— Vocês estão exagerando.
— Estamos interessados na sua vida — Domingos respondeu.
— Não estão, não.
— Claro que estamos.
— Vocês querem assustar ele.
Jurandir sorriu.
— Também.
Viviane saiu antes que começassem. Não havia qualquer revolta naquilo.
Era a dinâmica da família.
Ela era amada, muito. Talvez até demais.
E os homens Fortenelle tinham dificuldade em aceitar que a menina que durante anos haviam carregado no colo estava começando a ser vista por outros homens como mulher.
Viviane, por outro lado, gostava daquela nova fase.
Gostava de sair com as amigas. Gostava de passear com Marlene e Elza. Gostava de festas, cafés, cinemas e encontros sociais.
Tênis tornou-se um dos seus passatempos preferidos.
Jogava com as irmãs e amigas, normalmente em clubes frequentados pelas famílias daquele círculo. Gostava da competição leve, da roupa impecável, do exercício e dos comentários depois da partida.
Não era uma menina que passava a adolescência trancada estudando números.
Viviane tinha vida social, ria. Namorava pouco, mas tinha pretendentes. Recebia flores. Era convidada para festas. Tinha amigas. Viajava com a família. Gostava de roupas e continuava sabendo exatamente quando um sapato combinava ou não com determinada bolsa.
Era perfeitamente possível encontrar Viviane numa quadra de tênis durante a tarde, numa festa à noite e, no dia seguinte, inclinada sobre uma mesa tentando entender por que uma conta não fechava.
Essa última parte nunca desapareceu.
Ao contrário.
À medida que crescia, sua facilidade com números ficava cada vez mais evidente.
Ivone começou a confiar à filha tarefas maiores dentro da administração da casa.
Viviane ajudava com despesas, pagamentos, compras, organização dos empregados, planejamento de viagens e festas. Tinha uma facilidade impressionante para guardar valores e perceber quando alguma coisa destoava.
E ela gostava. Gostava mesmo.
Não enxergava administrar uma residência como trabalho menor.
Achava interessante fazer tudo funcionar.
Se havia um evento para cinquenta pessoas, queria saber quanto seria necessário comprar.
Se determinado fornecedor aumentava o preço, percebia.
Se uma despesa aparecia duas vezes, encontrava.
Se uma viagem envolvia diversas reservas, conseguia organizar tudo com uma facilidade que impressionava Ivone.
Certa vez, durante um almoço, a mãe comentou orgulhosa que Viviane havia encontrado um erro nas contas da casa e economizado uma quantia considerável.
Alcides sorriu para a filha.
— Essa menina nunca vai precisar trabalhar na vida. — Para Alcides, era um elogio enorme.
Geraldo também sorriu. Para um homem que começara a vida preocupado com a possibilidade de não alimentar seis filhos, poucas conquistas pareciam maiores do que poder afirmar que uma neta jamais teria de trabalhar para sobreviver.
Viviane tinha uns quatorze anos.
Levantou os olhos.
— Mas eu quero trabalhar.
A mesa reagiu com sorrisos.
Ivone perguntou:
— Quer?
— Quero.
— Vai ser professora? — alguém arriscou.
Marlene já demonstrava interesse pelo magistério, e aquilo fazia bastante sentido para todos.
Viviane balançou a cabeça.
— Não.
Alcides estava divertido.
— Então vai trabalhar com o quê?
Ela respondeu naturalmente:
— Na Fort Group.
Alguns riram. Geraldo olhou para ela com carinho.
— Na Fort Group?
— É.
— Fazendo o quê?
Viviane ainda não tinha resposta precisa.
— Não sei. Conta, talvez.
Domingos riu.
— Temos contador para isso, Vivi.
— Então faço outra coisa.
— Qual?
Ela deu de ombros.
— Eu aprendo.
Geraldo abriu um sorriso. Chamou a neta para perto e beijou sua testa.
— Você pode aprender o que quiser.
A conversa mudou.
Viviane não esqueceu.
A família, sim.
Nos anos seguintes, sua educação continuou sendo planejada de acordo com aquilo que todos consideravam ideal para uma jovem Fortenelle.
Marlene seguiu para o magistério, para orgulho de Ivone.
A formação das meninas era importante.
Mulheres cultas eram motivo de prestígio.
Os Fortenelle não queriam filhas e sobrinhas sem estudo. Muito pelo contrário. Queriam mulheres capazes de conversar, ler, viajar, receber pessoas e circular pelos melhores ambientes sem depender intelectualmente de ninguém.
Letras parecia uma excelente formação.
História também.
Psicologia era considerada moderna e respeitável.
O magistério tinha uma tradição particularmente boa.
Se alguma delas preferisse não trabalhar depois, ninguém se incomodaria.
Se quisesse trabalhar, também estaria tudo bem.
Desde que fosse uma vida que a família entendesse como apropriada.
Quando Viviane começou a terminar o ensino médio, Ivone estava bastante convencida de que a filha provavelmente seguiria caminho semelhante ao de Marlene.
Viviane a surpreendeu numa reunião de família.
Tinha dezessete anos.
Havia crescido ainda mais bonita, e os pretendentes também haviam aumentado. Flores chegavam. Convites apareciam. Em festas, Alcides já aprendera a identificar rapidamente os rapazes que estavam ali mais interessados em sua filha do que na própria comemoração.
A família achava perfeitamente provável que Viviane estudasse por alguns anos, talvez viajasse, eventualmente se casasse com um bom rapaz e tivesse uma vida tão confortável quanto aquela em que crescera.
Viviane tinha outros planos.
Alguém perguntou, sem dar grande importância:
— E você, Vivi? Já decidiu o que vai fazer?
Ela respondeu animada:
— Ciências Econômicas.
O silêncio foi curto.
Alcides virou-se para ela.
— Economia?
— É.
Geraldo ergueu as sobrancelhas.
— Para quê?
Viviane sorriu.
— Para estudar.
Domingos soltou uma risada.
— Essa parte nós entendemos.
Geraldo continuou olhando para a neta.
— Para que uma menina bonita como você quer ficar estudando essas coisas?
Não havia crueldade. A pergunta vinha de uma incompreensão real. Para Geraldo, a inteligência de Viviane era evidente. A beleza também. A segurança financeira já estava garantida. Então por que escolher justamente uma formação ligada ao mundo pesado que ele conhecia tão bem?
Viviane respondeu:
— Porque eu gosto.
Alcides ainda parecia achar graça.
— E depois?
— Quero trabalhar na Fort Group.
A expressão dele mudou.
Não para raiva e sim para surpresa.
Aquela possibilidade simplesmente não havia sido considerada.
— De novo isso?
Viviane franziu a testa.
— Não é “de novo”. Eu nunca mudei de ideia.
— Você tinha quatorze anos.
— E agora tenho dezessete.
Ivone olhou para a filha com atenção.
— Vivi, você não precisa trabalhar daquele jeito.
— Eu sei.
Era exatamente esse ponto que ninguém compreendia.
Viviane sabia que não precisava. Sabia que teria patrimônio. Sabia que poderia casar, viajar, ter filhos, administrar sua própria casa, participar de instituições culturais e nunca se preocupar com sustento.
Não estava pedindo uma profissão por necessidade.
Queria uma.
Alcides começou devagar.
— Você pode estudar o que quiser.
Viviane sorriu.
— Ótimo. Economia.
Ele soltou uma risada curta.
— Não foi exatamente isso que eu quis dizer.
— Então eu não posso estudar o que quiser.
Domingos disfarçou o sorriso.
A discussão se prolongou por semanas.
Ninguém tentou convencer Viviane de que era incapaz.
Ao contrário.
Todos sabiam que provavelmente seria ótima.
Isso parecia pior.
Porque, se fosse ótima, talvez realmente quisesse levar aquela ideia adiante.
Letras apareceu primeiro.
Ivone falou sobre literatura, idiomas e a possibilidade de passar temporadas estudando na França.
— Você gosta tanto de francês.
— Eu amo francês, é tão romântico.
— Poderia estudar Letras.
— Não quero estudar Letras.
— História?
— Não.
— Psicologia?
— Não.
Viviane recusava todas com calma.
— Eu quero Economia.
Geraldo tentou.
— Você pode aprender sobre Economia sem fazer faculdade disso.
— Mas eu quero fazer a faculdade.
— Para quê?
— Para aprender.
— E depois?
— Fort Group.
Sempre voltava ali.
Em determinada noite, Alcides perdeu um pouco da paciência.
— Vivi, você é excelente com números. Isso não significa que precisa fazer Economia.
Ela olhou para o pai.
— Então significa o quê?
— Significa que é uma qualidade sua.
— Só?
Ele hesitou.
Ivone tentou ajudar.
— Você usa isso tão bem aqui em casa.
Viviane não se ofendeu.
— Eu gosto de fazer as contas daqui.
— Então.
— Mas eu posso gostar disso e gostar da empresa.
Talvez essa fosse uma das primeiras vezes em que ela começou a perceber que a família parecia enxergar aquelas coisas como caminhos separados.
Para Viviane, não eram.
Gostava de organizar uma recepção. Gostava de escolher vestidos. Gostava de jogar tênis com as amigas. Gostava quando um rapaz bonito a convidava para dançar. E gostava de números.
Nenhuma dessas coisas anulava a outra.
A família, entretanto, parecia tentar montar seu futuro escolhendo apenas algumas partes dela.
Viviane chegou a sugerir Administração.
— Então faço Administração.
Jurandir, que ouvira boa parte da discussão, cometeu o erro de perguntar:
— Administração para quê?
Viviane respondeu:
— Para administrar.
— O quê?
— A empresa.
Domingos começou a rir antes mesmo de Jurandir perceber que havia ajudado a sobrinha.
— Eu devia ter ficado quieto.
— Devia — Alcides confirmou.
Geraldo também conversou com ela. Talvez fosse justamente ele quem menos conseguisse compreender.
— Você pode viajar.
— Eu quero viajar.
— Pode casar.
— Talvez eu case.
— Ter seus filhos.
— Também quero.
— Então para que vai se meter naquele meio?
Viviane franziu a testa.
— Uma coisa não impede a outra.
Alcides tinha outro medo.
Conhecia o ambiente empresarial.
Sabia quantas vezes era a única mesa inteira de homens numa reunião.
Sabia como eram tratados determinados assuntos.
Sabia os comentários que ouvia.
A ideia de colocar a filha naquele mundo lhe dava genuína preocupação.
— Economia é um curso cheio de homem, Vivi.
— Eu sei.
— Você não sabe como é.
— Então eu descubro.
— Não precisa descobrir.
Ela pensou por alguns segundos. Depois encontrou uma solução.
— O Roberto está fazendo Economia.
Roberto era um primo.
Alcides imediatamente desconfiou.
— E daí?
— Eu posso estudar onde ele estuda.
— Não.
— Ele fica de olho em mim.
Alcides arregalou os olhos.
Alguém na sala riu.
Viviane continuou:
— O senhor não vai precisar se preocupar.
— Você acha que o problema é eu não ter alguém para vigiar você?
— Um pouco.
— Não é.
— Então qual é?
Alcides passou a mão pelo cabelo. Esse se tornou um gesto frequente nos meses seguintes. Porque essa era a pior pergunta da filha.
Qual era exatamente o problema?
Ele não achava que ela fosse burra.
Não achava que não conseguiria.
Não achava errado que mulheres estudassem.
Não pretendia obrigá-la a casar.
Só não queria vê-la naquele ambiente.
Era uma versão adulta de tudo que fizera desde a infância.
Quando Viviane tentava subir numa árvore, alguém a tirava.
Quando carregava uma caixa, alguém tomava de suas mãos.
Quando queria entrar numa fábrica, diziam para esperar crescer.
Agora ela tinha crescido.
E Alcides descobria que não conseguia mais simplesmente colocá-la no chão e dizer que aquilo não era para ela.
Pediu ajuda aos irmãos.
Isso só piorou a quantidade de opiniões.
Getúlio gostava de Letras.
Jurandir sugeriu História.
Domingos escolheu Psicologia sem conseguir explicar exatamente o motivo.
Juninho, que considerava qualquer trabalho excessivamente cansativo, achava que Viviane deveria escolher alguma coisa que permitisse trabalhar pouco.
Severino foi o primeiro a apresentar uma alternativa que realmente fez a sobrinha parar.
— Matemática.
Viviane olhou para ele.
— O quê?
— Você gosta de números.
— Gosto sim.
— Então estuda Matemática.
Alcides virou-se para o irmão.
Severino deu de ombros.
— É melhor do que ficar oferecendo coisa que ela não quer.
A ideia começou a crescer.
Uma licenciatura em Matemática.
Formação séria.
Difícil.
Respeitável.
Perfeitamente compatível com o talento de Viviane.
Se quisesse trabalhar, poderia ensinar.
Marlene seguiria pelo magistério; Viviane poderia fazer algo igualmente respeitado, mas numa área completamente diferente.
A família se animou.
— Você vai estudar os números muito mais profundamente — Alcides argumentou.
Viviane percebeu imediatamente que o pai estava vendendo a ideia com entusiasmo demais.
— Vocês estão tentando me tirar da Economia.
— Estamos tentando encontrar uma coisa de que você goste.
— Eu gosto de Economia.
— Você gosta de matemática.
— Também.
— Então!
Ela desconfiava.
Mas, pela primeira vez, não detestava a alternativa.
Matemática era realmente fascinante para ela.
Olhou currículos.
Conversou com professores.
Começou a se interessar por coisas que ainda não havia estudado.
Enquanto isso, a família fazia campanha.
Domingos dizia que em breve ela poderia conferir todas as contas dele.
Jurandir argumentava que professora de Matemática era uma profissão muito elegante, embora não soubesse exatamente por que.
Geraldo gostou bastante.
— Professora de Matemática.
Falava aquilo com orgulho.
Viviane corrigia:
— Eu ainda não disse que vou ser professora.
— Mas pode ser.
Ivone também gostou da ideia.
Alcides, principalmente, gostou.
Depois de meses de conversas que estavam deixando os cabelos dele cada vez mais maltratados pelas próprias mãos, Viviane finalmente cedeu.
— Está bem.
Alcides demorou para reagir.
— Está bem o quê?
— Eu faço Matemática.
Ivone sorriu.
Alcides respirou como se tivesse acabado de resolver um problema empresarial enorme.
— Você vai gostar.
Viviane apontou um dedo para ele.
— Eu não prometi ser professora.
O sorriso dele diminuiu.
— Vivi...
— Só prometi fazer Matemática.
Domingos riu.
— Aceita. Antes que ela volte para Economia.
Alcides aceitou.
A família saiu daquela longa negociação satisfeita.
A filha inteligente de Alcides teria formação universitária.
Estudaria uma área difícil, respeitada e perfeitamente adequada ao talento que demonstrara desde menina.
Poderia ensinar se quisesse.
Poderia não trabalhar se preferisse.
Continuaria viajando, jogando tênis, frequentando festas, recebendo pretendentes e tendo diante de si exatamente o tipo de vida confortável e culta que todos desejavam para ela.
Viviane também estava satisfeita.
Não completamente.
Mas o bastante.
Gostava de Matemática.
Queria aprender.
E não via qualquer razão para considerar aquela decisão definitiva sobre o resto de sua vida.
A família tinha conseguido mudar o curso que ela faria.
Não a vontade que carregava desde menina.
Viviane ainda queria a Fort Group e talvez fosse justamente essa a parte que os Fortenelle continuavam sem compreender.
Ela não queria entrar na empresa porque rejeitava a vida que haviam preparado para ela.
Viviane gostava daquela vida.
Gostava dos vestidos, das viagens, dos clubes, do tênis, das amigas e da atenção que recebia.
Gostava até dos pretendentes, embora a quantidade de homens Fortenelle fiscalizando cada aproximação tornasse qualquer romance um pouco mais complicado.
Não queria abrir mão de nada disso.
Queria apenas mais uma coisa.
Queria poder entrar na sala onde o pai e os tios conversavam sobre a Fort e, pela primeira vez, não ouvir que depois alguém explicaria.
Queria ficar até o fim.
Na metade do curso, Viviane perdeu Geraldo.
O golpe foi quase tão duro quanto havia sido a morte de Zilda.
Talvez pior de uma maneira diferente, porque aos onze anos ela ainda era uma menina e tinha aprendido a sentir a ausência da avó aos poucos, conforme os dias passavam e Zilda não aparecia nos lugares onde sempre estivera. Com Geraldo, Viviane já era velha o bastante para compreender exatamente tudo aquilo que perderia junto com ele.
Não haveria o avô na formatura.
Ele não conheceria o homem com quem ela se casaria.
Não seguraria seus filhos no colo.
Não estaria numa mesa de domingo, já muito velho, contando aos bisnetos pela centésima vez como perdera o emprego e acabara criando uma empresa porque Zilda tinha lhe dito que os bicos já eram um negócio.
Essa última parte doía particularmente.
Viviane queria que Geraldo conhecesse seus futuros filhos.
Nem sabia quem seriam, nem quando viriam, mas havia crescido numa família em que as gerações pareciam se sobrepor umas às outras de maneira natural. Avós conheciam netos, tios conheciam sobrinhos, crianças entravam e saíam das casas como se todas fossem extensões da própria.
Parecia errado imaginar filhos que não conheceriam Geraldo.
No enterro, os seis irmãos ficaram juntos.
Já não havia Zilda.
Agora também não havia Geraldo.
E, pela primeira vez, eram eles os mais velhos.
A percepção foi difícil para todos.
Severino chorou escondido durante parte da cerimônia. Domingos, normalmente incapaz de passar tempo demais sem fazer alguma brincadeira, permaneceu quieto. Juninho parecia não saber o que fazer com as próprias mãos. Jurandir abraçou os irmãos mais do que costumava. Alcides recebeu pessoas, agradeceu condolências, resolveu tudo o que precisava ser resolvido e só desabou quando estava com a família.
Viviane ficou perto do pai.
A morte de Geraldo poderia ter aberto espaço para disputas, ressentimentos ou velhas contas entre seis homens que agora controlavam uma fortuna considerável.
Não abriu.
Os Fortenelle fizeram o que sempre faziam.
Ficaram mais próximos.
A empresa continuou.
Os almoços continuaram.
As piadas voltaram devagar.
E Geraldo permaneceu presente nas frases repetidas pelos filhos, nos métodos da Fort Group, nos hábitos estranhos que todos haviam herdado e até na mania de reclamar de preços que já não faziam diferença alguma para nenhum deles.
Viviane concluiu a universidade alguns anos depois.
A formatura foi uma festa. Uma festa de verdade.
Não uma comemoração discreta preparada apenas porque era esperado que a família aparecesse.
Os Fortenelle estavam genuinamente orgulhosos.
Alcides falara tanto sobre a filha nos meses anteriores que Domingos chegou a perguntar se ele pretendia mandar imprimir o diploma também nos cartões de visita.
Ivone chorou.
Marlene abraçou a irmã com tanta força que quase desfez seu penteado.
Elza, que surpreendera a família escolhendo História, anunciou que esperava festa igualmente grande quando chegasse a sua vez.
— Se você terminar — Domingos provocou.
Elza ameaçou acertá-lo com a bolsa.
Viviane riu.
Quando recebeu o diploma, procurou por um instante dois rostos que não estavam ali.
Zilda e Geraldo.
Sentiu o aperto.
Mas logo encontrou Alcides.
O pai tinha os olhos brilhando e aquilo bastou para que ela sorrisse novamente.
A menina que tivera de ser convencida a abandonar Economia estava formada em Matemática.
A família comemorou como se sempre tivesse sido exatamente aquele o plano e Viviane também estava feliz.
Gostara do curso. Muito.
Descobrira coisas nos números que nem imaginava existirem, aprendera a raciocinar de maneiras diferentes e saíra da universidade ainda mais fascinada por estruturas, lógica e padrões do que entrara.
Só não havia esquecido a empresa.
Mas, naquela época, havia outras coisas ocupando a vida de Viviane.
Ela era jovem.
Bonita de uma maneira que se tornara difícil ignorar.
Os cabelos loiros, os olhos verdes e a elegância aprendida desde menina atraíam olhares em praticamente todo lugar que frequentava. Viviane continuava jogando tênis, saía com as irmãs e as amigas, frequentava clubes, festas, jantares e eventos para os quais os Fortenelle eram convidados muito mais por amizade do que por qualquer cálculo social.
Essa era outra particularidade da família.
Os Fortenelle conheciam muita gente.
Só não pensavam nisso como rede de influência.
Um banqueiro era convidado porque Severino gostava dele.
Um empresário aparecia para jantar porque Getúlio havia viajado com ele.
Um advogado frequentava a casa porque estudara com alguém da família.
Um político podia aparecer numa festa e passar a noite inteira conversando sobre futebol sem que nenhum Fortenelle pensasse em qual favor poderia pedir no futuro.
Amigo era amigo.
Negócio era negócio.
As duas coisas às vezes se encontravam, naturalmente, mas a família não cultivava pessoas como ativos.
Foi numa dessas festas que Severino chamou a sobrinha.
— Vivi, venha cá. Quero apresentar alguém.
Ela estava conversando com uma amiga e virou-se ainda sorrindo.
Então viu o homem ao lado do tio e parou.
Não de maneira evidente o bastante para constrangê-la, mas o corpo pareceu levar um instante a mais do que deveria para obedecer.
Gregório Borborema era muito bonito.
Não apenas bonito no sentido comum que Viviane já havia aprendido a reconhecer nos muitos rapazes que a haviam cortejado.
Havia alguma coisa nele.
Era alto, tinha ombros largos, pele bronzeada de quem parecia passar bastante tempo ao sol e cabelos loiros naturalmente ondulados, um pouco mais compridos do que Alcides provavelmente consideraria ideal. Os olhos também eram verdes, mas não como os de Viviane. Os dela eram mais claros; os de Gregório tinham um tom profundo, quase mudando conforme a luz.
Ele estava sorrindo para alguma coisa que Severino dizia quando a viu.
O sorriso desapareceu, por um segundo apenas. Os olhos se abriram um pouco mais, e aquela segurança descontraída que parecia fazer parte natural dele simplesmente falhou.
Viviane sentiu as bochechas esquentarem.
Severino, completamente alheio ou fingindo estar alheio ao que acabara de acontecer, fez a apresentação.
— Gregório Borborema. Minha sobrinha, Viviane Fortenelle.
Gregório olhou para ela como se precisasse lembrar que existiam palavras.
Depois recuperou o sorriso e foi pior.
Viviane nunca tinha visto um homem sorrir daquele jeito. Não era um sorriso treinado ou excessivamente sedutor. Havia calor nele. Uma facilidade. Como se Gregório estivesse genuinamente satisfeito por encontrá-la ali.
— Muito prazer.
Ele estendeu a mão.
Viviane colocou a sua na dele.
— O prazer é meu.
Gregório demorou uma fração de segundo além do necessário para soltá-la. Não foi o bastante para ser indelicado. Foi o bastante para que os dois percebessem.
Severino percebeu também. Mas, pela primeira vez em muitos anos, o tio que costumava afastar pretendentes da sobrinha não pareceu particularmente preocupado.
Gostava de Gregório. Tinha conhecido o rapaz por causa de negócios. Gregório era formado em Economia e prestava serviços para uma fornecedora que trabalhava com uma das empresas de Severino. Sabia conversar sobre números sem tornar o assunto insuportável, tinha boa formação, era trabalhador e, mais importante para Severino, não parecia um rapaz vazio tentando viver de aparência e sobrenome.
O pai de Gregório era um advogado muito requisitado no Rio de Janeiro. Os Borborema tinham dinheiro, boa educação e uma vida confortável, mas não carregavam o peso empresarial ou social dos Fortenelle.
Gregório jamais parecera incomodado com isso.
Naquela noite, parecia muito mais interessado em Viviane do que em qualquer sobrenome.
Severino se afastou depois de alguns minutos.
Gregório ficou.
A conversa começou com educação. Depois deixou de parecer educação muito rapidamente.
— Seu tio fala muito de você.
Viviane ergueu uma sobrancelha.
— Fala?
— Agora estou começando a achar que não falou o suficiente.
Ela riu e Gregório pareceu ainda mais satisfeito.
— Isso costuma funcionar?
— O quê?
— Falar esse tipo de coisa.
Ele levou a mão ao peito, fingindo ofensa.
— Eu estou sendo sincero.
— Pior ainda.
Gregório riu.
Era fácil conversar com ele.
Talvez essa tenha sido a primeira coisa que Viviane percebeu depois da beleza.
Gregório não precisava ocupar a conversa inteira para ser interessante. Perguntava coisas e ouvia as respostas. Fazia graça sem tentar ser o centro da sala. Sabia passar de um assunto leve para outro sério sem transformar aquilo numa demonstração de inteligência.
Quando perguntou o que ela havia estudado, Viviane respondeu:
— Matemática.
Gregório pareceu genuinamente interessado.
— Matemática?
— Por que essa cara?
— Eu esperava qualquer coisa, menos Matemática.
Viviane já conhecia aquela reação.
— Porque sou mulher?
Gregório quase se atrapalhou.
— Não.
Ela ficou olhando. Ele abriu um sorriso culpado.
— Talvez um pouco.
Viviane riu.
— Pelo menos é honesto.
— E você gosta?
— Muito.
— Então fez a escolha certa.
A resposta foi tão simples que Viviane ficou um instante em silêncio. Ele não perguntou o que uma mulher faria com Matemática.
Não sugeriu que ela deveria ensinar. Não falou de marido, filhos ou casa.
Perguntou se ela gostava.
Isso bastou.
Mais tarde, Gregório contou que estudara Economia.
Viviane imediatamente se interessou.
— Eu queria fazer Economia.
— E não fez por quê?
Ela olhou na direção de Alcides.
Gregório seguiu seu olhar.
— Ah.
Viviane começou a rir.
— Você entendeu rápido.
— Seu pai parece um homem muito gentil.
— É.
— E muito protetor.
— Também.
— Estou começando a achar que deveria estar mais longe de você.
Ela olhou novamente para o pai.
Alcides conversava com alguém do outro lado da sala. Mas olhava para eles.
— Ele está me observando?
— Desde que você chegou.
— Seu tio me apresentou.
— Isso não significa que meu pai aprovou.
Gregório riu.
— Ótimo.
— Ótimo?
— Eu gosto de desafios.
Viviane deveria ter achado pretensioso.
Em vez disso, sorriu.
Quando a festa terminou, Gregório encontrou Severino antes de ir embora.
Tentou parecer casual.
Não conseguiu.
— Sua sobrinha está comprometida?
Severino virou lentamente o rosto para ele.
Gregório sustentou o olhar.
— Estou fazendo uma pergunta perfeitamente respeitosa.
— Sei.
— Está?
— Não.
Gregório sorriu.
Severino apontou um dedo.
— Mas não se anima demais.
— Tarde demais.
Severino quase riu.
Foi assim que começou.
Nos dias seguintes, Gregório encontrou razões perfeitamente plausíveis para falar com Severino mais vezes do que o necessário.
Depois pediu autorização para telefonar para Viviane.
Severino respondeu que autorização ele teria de pedir a Alcides.
Gregório pediu.
E Alcides, que já havia ouvido comentários positivos suficientes sobre o rapaz, autorizou.
O primeiro telefonema durou muito mais do que qualquer um dos dois havia planejado.
O segundo também.
Vieram convites. Passeios. Jantares. Tardes no clube. Partidas de tênis que Gregório alegou saber jogar muito melhor do que realmente sabia.
Viviane descobriu isso na primeira vez em que o levou à quadra.
— Você disse que jogava.
— Eu jogo.
— Isso não é jogar.
— Estou aquecendo.
Ela mandou a bola no canto.
Gregório correu tarde demais.
Viviane riu.
— Quer parar?
Ele apoiou as mãos nos joelhos.
— Jamais.
— Por quê?
Gregório levantou o rosto.
— Porque você está se divertindo.
Era difícil não se apaixonar por ele e Gregório parecia ter se apaixonado antes. Muito antes.
Os amigos perceberam. A família dele percebeu. Os Fortenelle perceberam.
Gregório era um dos solteiros mais comentados daquele círculo. Viviane descobriu, para sua surpresa, que várias mulheres sabiam exatamente quem ele era antes que ela dissesse o nome.
Tinha até aparecido em comerciais de televisão alguns anos antes.
Um deles, de automóveis da Fiat.
Viviane só descobriu porque uma amiga comentou.
— Aquele Gregório?
— Que Gregório?
— O do comercial.
Viviane achou que fosse brincadeira.
Não era.
Quando perguntou a ele, Gregório ficou constrangido de uma maneira que ela considerou especialmente divertida.
— Você fez comercial de carro?
— Uma vez.
— Mais de uma.
— Talvez.
— Meu Deus...
— Eu era jovem.
Viviane riu durante vários minutos.
— Você ainda é jovem.
— Então eu era inconsequente.
Ele tinha sido convidado porque era fotogênico, conhecia alguém da publicidade e o dinheiro parecera bom. Nada daquilo tinha se transformado numa carreira, embora tivesse contribuído bastante para a fama de Gregório como um dos homens bonitos da cidade.
Viviane passou dias chamando-o de artista. Gregório ameaçou parar de contar histórias da juventude.
Não parou.
Ele gostava quando ela ria. Gostava de praticamente tudo nela. Do jeito como Viviane franzia a testa quando discordava. Da maneira como organizava coisas sem perceber. Dos olhos verdes que ficavam mais claros quando estava ao sol. Do fato de ser extremamente elegante e, ao mesmo tempo, competitiva o bastante para comemorar cada ponto numa partida de tênis. Da facilidade com números. Do carinho com as irmãs. Da maneira como falava dos pais e dos tios. E, especialmente, gostava da maneira como Viviane parecia profundamente confortável em ser quem era.
Gregório começou a aparecer cada vez mais nos almoços.
No início, como convidado. Depois, ninguém mais precisava convidá-lo formalmente.
Ivone gostou dele quase de imediato.
Gregório jamais entrava na casa sem cumprimentá-la primeiro. Lembrava pequenas coisas que ela havia comentado. Levava flores sem transformar aquilo num espetáculo. Conversava com Marlene e Elza sem tratá-las apenas como obstáculos até Viviane.
Com os homens da família, também se encaixou.
Falava de negócios com Severino.
Ouvia Getúlio falar de telecomunicações.
Entendia as piadas de Domingos.
Conseguia conversar com Juninho sobre barcos mesmo sabendo pouco.
Até Jurandir, desconfiado por profissão de qualquer homem bonito demais que se aproximasse da sobrinha, acabou cedendo.
Alcides demorou mais.
Não porque desgostasse dele.
Porque era Alcides.
Gregório sabia disso e nunca tentou acelerar. Era respeitoso. Não fingia intimidade. Chegava no horário. Trazia Viviane de volta no horário combinado. Quando atrasava, telefonava. E, principalmente, olhava para a filha de Alcides de uma maneira que um pai reconhecia.
Gregório estava completamente apaixonado por ela. Não era difícil perceber.
Quando Viviane entrava num ambiente, ele olhava. Quando ela falava, prestava atenção. Quando ria, Gregório sorria antes mesmo de saber do que se tratava.
Alcides acabou gostando dele.
Talvez porque o rapaz não parecesse intimidado pela inteligência da filha.
Gregório gostava dela.
Quando Viviane discordava de alguma coisa sobre Economia, ele discutia. Não fazia concessão só porque queria agradá-la. E quando ela estava certa, admitia.
Isso virou uma das brincadeiras dos dois.
— Pode falar.
— O quê?
— Que eu estava certa.
— Não sei do que está falando.
Viviane sorria.
— Eu estava certa.
Ele a puxava pela cintura.
— Talvez, ainda não decedi.
E beijava sua testa, depois a ponta do nariz, até que ela começasse a rir e esquecesse a discussão.
O interesse de Gregório pelos negócios da família também aconteceu de maneira natural.
Numa tarde, Alcides e Severino discutiam alguma questão da Fort Group quando Gregório fez uma pergunta.
Depois outra.
Alcides respondeu.
A conversa se aprofundou.
Gregório conhecia Economia, entendia empresas e demonstrava uma curiosidade sincera pelo modo como os vários braços do grupo haviam sido organizados.
No fim daquela conversa, Severino comentou:
— Você leva jeito.
Gregório sorriu.
— Gosto disso.
Alcides pareceu imediatamente interessado.
— Já pensou em trabalhar com grupo industrial?
— Já.
— Devia pensar mais.
Viviane estava perto.
Ouviu.
E ficou feliz.
Não sentiu que Gregório estava entrando num lugar que deveria ser dela.
Naquele momento, a ideia parecia quase perfeita.
O homem que amava gostava da empresa que ela amava. Talvez pudessem fazer aquilo juntos.
Gregório também gostou da possibilidade.
E os homens Fortenelle, que haviam passado anos redirecionando Viviane cada vez que ela falava em trabalhar na Fort Group, olharam para Gregório durante uma única conversa e enxergaram imediatamente futuro.
— Você tem cabeça para isso — Alcides disse.
— Economia combina muito com o grupo — acrescentou Severino.
Getúlio, ao saber, concordou.
Domingos também.
Viviane não se ressentiu.
Ainda não.
Ela estava apaixonada demais para enxergar qualquer ironia.
Para ela, aquilo significava apenas que Gregório estaria ainda mais perto.
O namoro se tornou sério rapidamente.
Não apressado.
Sério.
Gregório começava a aparecer nos planos que Viviane fazia para meses adiante. Viviane estava nos planos dele também.
Eles falavam sobre viagens. Sobre filhos. Sobre casas. Sobre quantos filhos queriam, discussão na qual Gregório sempre aumentava o número só para provocá-la.
— Quatro.
— Dois.
— Cinco.
— Você acabou de aumentar.
— Negociação.
— Isso não é negociação.
— Três?
Viviane fingia pensar.
— Talvez.
Gregório sorria como se tivesse acabado de vencer alguma coisa enorme.
Era assim entre os dois.
Leve e carinhoso.
Gregório tinha um jeito particular de tocar Viviane como se sempre precisasse confirmar que ela estava perto: uma mão nas costas quando atravessavam uma sala, os dedos encontrando os dela sob a mesa, um beijo distraído no cabelo quando passava por trás da cadeira.
Viviane, que sempre tivera pretendentes, descobriu pela primeira vez a diferença entre gostar de ser cortejada e amar alguém.
Sentia falta dele.
Queria contar coisas a ele.
Quando alguma coisa engraçada acontecia, pensava imediatamente que precisava contar a Gregório.
Quando brigavam, porque brigavam, a raiva durava pouco, substituída pela insuportável vontade de procurá-lo.
Ele conhecia o olhar dela quando estava brava.
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Seu apoio é fundamental. Torne-se um herói!Ela conhecia o sorriso específico que ele usava quando sabia que estava errado.
Gregório aprendeu a reconhecer quando Viviane precisava conversar e quando precisava apenas que ele ficasse por perto.
Ela aprendeu que, apesar da segurança e do charme, ele também tinha inseguranças que escondia melhor do que os outros percebiam.
Um dia, depois de algum tempo de namoro, Gregório pediu para conversar com Alcides.
Sozinho.
Viviane não soube de nada até depois.
Gregório entrou no escritório preparado para aquilo com uma segurança que desapareceu um pouco quando se sentou diante do pai dela.
Alcides não facilitou.
— O que você quer conversar comigo?
Gregório respirou.
— Sobre a Viviane.
Alcides ficou imóvel. Gregório continuou. Disse que amava sua filha. Disse que pretendia cuidar dela. Disse que queria construir uma vida com ela. E então pediu a bênção de Alcides para pedi-la em casamento.
Alcides ficou alguns segundos em silêncio. Depois perguntou coisas que Gregório já imaginava que perguntaria. Trabalho. Planos. Onde pretendiam morar. Filhos. Responsabilidade.
Gregório respondeu tudo.
No final, Alcides levantou-se e estendeu a mão.
— Você tem minha bênção.
Gregório apertou a mão dele.
Alcides, porém, não soltou imediatamente.
— Mas se fizer minha filha sofrer...
Gregório sorriu.
— Eu sei. Severino já explicou.
Alcides finalmente riu.
— Ele falou?
— Duas vezes.
— Eu falo uma terceira.
— Justo.
O pedido aconteceu alguns dias depois.
E Gregório fez questão de que fosse bonito.
Conhecia Viviane o suficiente para saber que ela não gostaria de um espetáculo público diante de centenas de desconhecidos, mas também sabia que a mulher que ainda gostava de vestidos que rodavam jamais fingiria indiferença a romance.
Preparou tudo.
Flores.
Um lugar de que ela gostava.
Uma noite em que Viviane achava que fariam apenas um passeio.
Quando Gregório se ajoelhou, ela levou as duas mãos à boca antes mesmo que ele conseguisse terminar. Ele começou a falar. Provavelmente tinha ensaiado. Perdeu metade do discurso quando viu os olhos dela se encherem de lágrimas.
— Não chora ainda — pediu, rindo nervoso. — Eu nem terminei.
Viviane riu no meio do choro.
— Então continua.
Gregório segurou sua mão.
Disse que nunca tinha imaginado que conheceria alguém com quem quisesse compartilhar todas as partes da vida.
Não apenas as boas. Não apenas festas e viagens. Queria acordar ao lado dela. Queria discutir contas. Queria filhos correndo pela casa. Queria envelhecer ouvindo Viviane dizer que estava certa.
Ela riu.
Gregório também.
Então perguntou:
— Casa comigo?
Viviane respondeu antes que ele terminasse de respirar.
— Caso.
Gregório colocou o anel.
Levantou-se e Viviane o abraçou tão depressa que ele quase perdeu o equilíbrio.
Beijaram-se rindo. Durante alguns minutos, o mundo pareceu simples.
Eles estavam apaixonados.
A família gostava dele. A família dele gostava dela.
Tinham saúde, dinheiro, juventude e uma quantidade aparentemente infinita de tempo pela frente.
O noivado foi comemorado como tudo entre os Fortenelle: com gente demais, comida demais e opiniões demais.
Viviane passou boa parte da noite sorrindo. Gregório parecia incapaz de ficar muito longe dela.
Foi durante aquela comemoração que Alcides chamou o futuro genro de lado.
Gregório acompanhou-o sem preocupação.
Imaginou que ouviria algum último conselho sobre Viviane ou talvez alguma conversa patrimonial. Sabia que famílias como os Fortenelle tinham estruturas, participações e dinheiro suficiente para tornar casamento também um assunto jurídico.
Alcides fechou a porta.
— Existe uma coisa que eu quero lhe pedir.
Gregório ficou sério.
— Claro.
Alcides demorou um instante. Era uma questão que carregava havia anos.
Seus cinco irmãos tinham filhos homens.
Ele, não.
Amava Marlene, Viviane e Elza com uma intensidade que jamais o fizera desejar que alguma delas fosse diferente. Mas também crescera num tempo em que sobrenomes seguiam caminhos muito definidos.
Suas filhas se casariam. Os filhos delas levariam os nomes dos pais. E, algum dia, o ramo de Alcides Fortenelle simplesmente deixaria de existir no nome das gerações seguintes.
Aquilo o incomodava mais do que costumava admitir.
— Meus netos serão Fortenelle.
Gregório piscou. Esperava qualquer coisa menos aquilo.
— Como?
— Os filhos que você tiver com a Viviane. Quero que carreguem Fortenelle. Não apenas no meio do nome. Quero que sejam conhecidos como Fortenelle.
Gregório ficou alguns segundos olhando para ele.
Borborema era o sobrenome de seu pai. Era o sobrenome que carregara a vida inteira. Mas naquele momento a exigência pareceu pequena diante de tudo que estava ganhando.
Viviane.
A mulher por quem estava completamente apaixonado.
Além disso, Fortenelle tinha um peso que Borborema não tinha.
Era uma família conhecida. Uma empresa enorme. Um nome que abriria portas aos próprios filhos.
Gregório não precisou pensar muito.
— Claro.
Alcides pareceu aliviado.
— Tem certeza?
Gregório sorriu.
— Se isso é importante para o senhor, está resolvido.
Alcides apertou sua mão.
— É importante.
— Então serão Fortenelle.
E acabou.
Sem discussão.
Sem mágoa.
Sem qualquer sensação de sacrifício.
Gregório voltou para a festa e encontrou Viviane conversando com as irmãs.
Ela percebeu que ele se aproximava e sorriu daquele jeito que ainda conseguia fazê-lo esquecer por alguns segundos o que pretendia dizer.
— O que meu pai queria?
Gregório colocou a mão em sua cintura.
— Confirmar que eu sei no que estou me metendo.
Viviane riu.
— E sabe?
Ele olhou para ela.
— Acho que sim.
— Tem certeza?
Gregório a puxou um pouco mais para perto.
— De você, tenho.
E naquele momento era verdade.
Completamente.
Gregório Borborema não entrou na família Fortenelle planejando tomar alguma coisa.
Não escolheu Viviane pelo dinheiro.
Não aceitou o sobrenome dos futuros filhos calculando poder.
Não a conquistou escondendo quem era.
Ele era jovem, bonito, charmoso, ambicioso e profundamente apaixonado por uma mulher que o amava da mesma maneira.
Quando concordou que seus filhos seriam Fortenelle, não sentiu que estava entregando nada.
Pensou apenas naqueles filhos que os dois ainda nem tinham.
Pensou em Viviane grávida.
Pensou numa casa cheia.
Pensou na família que estavam começando.
E talvez tenha sido exatamente por isso que jamais lhe ocorreu perguntar quanto poderia pesar, algum dia, uma promessa que naquele momento parecia tão leve.
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