O CEO que Eu Paguei
265 De outro ponto de vista - Parte I
No fim da década de 1930, Geraldo Fortenelle recebeu a notícia que mudaria para sempre a vida de sua família, embora, naquele dia, tudo o que ele conseguisse enxergar fosse uma tragédia.
Trabalhava havia anos na manutenção industrial de uma fábrica. Conhecia aquelas máquinas melhor do que conhecia muita gente, sabia identificar um defeito pelo ruído diferente de um motor, reconhecia uma instalação malfeita antes mesmo de abrir um painel e tinha adquirido, ao longo dos anos, uma fama discreta entre os colegas de ser o homem a quem chamavam quando ninguém mais sabia o que fazer. Geraldo não considerava aquilo talento. Tinha feito um curso técnico em eletromecânica, trabalhava desde muito jovem e acreditava simplesmente que, se uma pessoa era paga para fazer alguma coisa, deveria fazê-la direito.
Nada disso importou quando a fábrica anunciou um grande corte de funcionários.
Seu nome estava na lista.
Geraldo saiu carregando seus pertences sem saber exatamente como contaria aquilo em casa. Não era um rapaz sozinho que podia passar alguns meses procurando emprego e comendo na casa dos pais. Tinha uma esposa e seis filhos ainda pequenos. Havia comida para comprar, roupas que já passavam de um irmão para outro, aluguel, escola, sapatos que pareciam durar cada vez menos nos pés dos meninos e uma quantidade de despesas que não desapareceria só porque o salário dele havia desaparecido.
Naquela noite, demorou mais do que o normal para chegar em casa.
Zilda percebeu alguma coisa antes mesmo que o marido falasse. Conhecia Geraldo havia tempo suficiente para reconhecer o silêncio dele, e aquele não era o silêncio cansado de quem voltava depois de horas entre máquinas. Sentou-se com ele depois que os meninos foram acomodados e ouviu tudo sem interromper. Geraldo falou das demissões, do dinheiro que ainda receberia, de quanto tempo talvez conseguissem se manter e da necessidade de encontrar outra fábrica o quanto antes.
Zilda deixou que ele terminasse.
Depois disse que pegaria mais algumas faxinas.
Geraldo recusou quase imediatamente.
Ela já fazia trabalhos quando conseguia, ajudava no orçamento da casa e tinha seis crianças para criar. Ele não queria vê-la acumulando ainda mais serviço porque havia perdido o emprego.
— E você vai fazer o quê enquanto não chamam? — Zilda perguntou.
Geraldo não sabia.
No dia seguinte, começou a procurar trabalho.
Também começou a fazer alguns bicos.
No início, eram coisas pequenas. Um antigo colega conhecia alguém cuja oficina estava com um motor apresentando defeito. Outro precisava revisar uma instalação. Um conhecido tinha ouvido falar que Geraldo entendia de manutenção e perguntou se ele poderia dar uma olhada numa máquina que parava toda semana. Geraldo aceitava porque precisava do dinheiro e continuava deixando seu nome em fábricas enquanto esperava que alguma delas o contratasse.
Só que havia uma característica em Geraldo que tornava aqueles serviços diferentes.
Ele detestava fazer a mesma coisa duas vezes.
Se um motor apresentava o mesmo defeito pela segunda vez, não aceitava simplesmente trocar a peça novamente e ir embora. Queria saber por que aquilo estava acontecendo. Se encontrava um circuito sobrecarregado, não corrigia apenas o ponto que havia queimado; percorria a instalação inteira. Se uma máquina parava com frequência, perguntava quando tinha parado antes, o que havia sido trocado, quanto tempo durara o reparo anterior e se outra máquina do mesmo setor apresentava comportamento semelhante.
Geraldo anotava tudo.
Tinha cadernos cheios de datas, esquemas, medições e observações escritas numa letra firme e pequena. Identificava circuitos. Marcava equipamentos. Criava rotinas de inspeção. Recomendava substituir peças antes que elas chegassem ao limite, em uma época em que muita empresa ainda preferia esperar uma máquina parar para então chamar alguém.
Para ele, não havia nada de extraordinário naquilo. Era apenas organização.
— Se vai fazer, faça para não precisar fazer de novo — repetia.
A frase começou como uma irritação particular de Geraldo e acabou atravessando gerações.
O problema foi que os bicos começaram a se multiplicar.
O dono da oficina indicou Geraldo para outra pessoa. A fábrica em que ele havia resolvido uma falha recorrente comentou seu trabalho com um fornecedor. Um pequeno empresário o contratou para uma instalação e, meses depois, chamou-o de volta para cuidar de uma ampliação. Quando finalmente uma indústria entrou em contato oferecendo um emprego formal, Geraldo descobriu, para sua própria surpresa, que já tinha trabalho demais para aceitar.
Ainda assim, levou alguns dias para recusar.
Foi Zilda quem percebeu primeiro.
Ela estava à mesa da cozinha, separando recibos e tentando entender quanto tinham recebido naquele mês, quando levantou os olhos para o marido.
— Geraldo, você não está mais fazendo bico.
Ele franziu a testa.
— Claro que estou.
— Não. Você está trabalhando por conta própria.
Geraldo achou a distinção irrelevante, Zilda não.
Na semana seguinte, foi ela quem perguntou por que ele não abria uma empresa.
Geraldo riu. Não tinha sonhado em ser empresário. Muito menos em ficar rico. Queria um emprego estável, uma casa decente, comida suficiente e a certeza de que os seis filhos poderiam crescer sem conhecer a preocupação que ele sentira naquela noite em que fora demitido. Queria que Zilda não precisasse aceitar toda faxina que aparecesse. Queria dormir sabendo que no mês seguinte haveria dinheiro entrando.
Uma empresa parecia exatamente o oposto de tranquilidade, mas Zilda insistiu e, depois de fazer contas durante semanas, Geraldo cedeu.
Nascia a Fortenelle Instalações & Manutenções.
Não havia sede imponente, recepção elegante ou plano de expansão. Havia Geraldo, algumas ferramentas, poucos funcionários e uma quantidade crescente de clientes. Zilda ajudava como podia, especialmente com dinheiro, cobranças e papéis, enquanto o marido passava os dias nas instalações e muitas noites preparando orçamento na mesa de casa.
O crescimento veio numa velocidade que nenhum dos dois havia previsto.
Geraldo não aceitava serviço malfeito nem quando o erro não era dele. Os primeiros funcionários descobriram rapidamente que trabalhar com Fortenelle significava ouvir muitas vezes que uma instalação não precisava apenas funcionar naquele dia; precisava continuar funcionando quando eles não estivessem mais ali.
Ele ensinava sua maneira de trabalhar com uma rigidez que às vezes irritava.
Mapear antes de mexer.
Entender antes de trocar.
Prevenir antes de quebrar.
Registrar tudo.
E nunca voltar para corrigir aquilo que deveria ter sido bem-feito na primeira vez.
Entre os funcionários, aquilo acabou ganhando um nome meio sério, meio brincalhão:
o método Fortenelle.
Geraldo achava exagero.
Não era método nenhum.
Era fazer direito.
Quatro anos depois, Zilda novamente percebeu alguma coisa antes do marido.
Estavam ricos.
Não milionários de revista, não donos de um império, mas ricos de uma maneira que teria parecido absurda para o casal naquela primeira noite após a demissão. Havia dinheiro acumulado. Contratos grandes. Funcionários demais para Geraldo conhecer pessoalmente a rotina de todos. Clientes que ele jamais imaginara atender.
Zilda mostrou os números ao marido. Geraldo refez as contas.
— Isso está certo?
— Está.
Ele ficou olhando para os papéis por alguns segundos.
Talvez aquela tenha sido a primeira vez em que Geraldo Fortenelle percebeu que havia criado alguma coisa maior do que o plano inicial de colocar comida na mesa.
A família mudou de casa. Os filhos foram matriculados em escolas melhores.
Começaram a existir férias, viagens e pequenos luxos que antes precisavam ser cuidadosamente escolhidos. A mesa que sempre tivera comida passou a ter comida boa, aos domingos especialmente, quando Zilda fazia questão de reunir todos. Vieram roupas melhores, carros, clubes e, com os anos, uma vida que os meninos rapidamente passaram a considerar normal.
Geraldo, por outro lado, demorou bastante para se acostumar. Continuava implicando com preços. Continuava perguntando se determinadas compras eram realmente necessárias.
Zilda certa vez ouviu o marido reclamar do valor de uma cadeira e precisou lembrá-lo de que ele poderia comprar cem delas sem perceber no extrato.
— Não é porque pode que precisa pagar esse absurdo — respondeu.
Era difícil discutir com Geraldo sobre dinheiro. Para ele, riqueza nunca teve muito a ver com ostentação. Dinheiro era uma coisa muito mais simples.
Dinheiro fazia uma família dormir tranquila e nisso a empresa havia cumprido exatamente aquilo que prometera.
O crescimento, entretanto, criou outro problema: Geraldo já não entendia parte da própria empresa.
Era excelente tecnicamente. Sabia entrar numa instalação, conversar com uma equipe e compreender rapidamente o que estava acontecendo. Mas agora havia contratos complexos, financiamentos, questões tributárias, bancos, dezenas de fornecedores e uma estrutura administrativa que crescia quase tão rápido quanto a operacional.
Pela primeira vez desde que começara a trabalhar, Geraldo voltou a estudar porque precisava, não porque alguém exigira.
Fez cursos. Procurou gente mais qualificada. Contratou contadores e engenheiros. Sentou-se diante de assuntos que não dominava e fez aquilo que sempre fizera diante de uma máquina desconhecida: perguntou até entender.
Enquanto isso, os seis meninos cresceram e Geraldo descobriu outra surpresa.
Nenhum deles queria ser igual ao pai.
Severino, o mais velho, era o mais sério e tradicional dos irmãos. Gostava do chão industrial, das máquinas, do cheiro de oficina e da parte mais técnica do negócio, e acabou se especializando justamente em instalações industriais e eletromecânica. Tinha paciência para desmontar sistemas inteiros e uma satisfação quase infantil em vê-los funcionando novamente. Fora da empresa, possuía uma paixão que consumia parte considerável de seu tempo e, para desespero inicial de Zilda, bastante dinheiro: carros antigos. Comprava automóveis praticamente abandonados, levava-os para restauração e passava meses acompanhando cada detalhe antes de vendê-los, normalmente jurando que aquele seria o último e aparecendo pouco tempo depois com outra carcaça.
Alcides, o segundo, era diferente. Não gostava de oficina. Não gostava de ficar olhando motor. Não tinha o menor interesse em passar horas discutindo a melhor maneira de instalar determinado equipamento. Se havia três irmãos em volta de uma máquina aberta, Alcides provavelmente estava em outro cômodo tentando descobrir por que a nota fiscal não batia com o pedido ou por que dois clientes tinham recebido informações diferentes.
Era, desde pequeno, o filho a quem todos recorriam quando havia algum problema.
Severino brigava com Getúlio, chamavam Alcides.
Um irmão devia alguma coisa ao outro, Alcides fazia as contas.
Zilda precisava organizar alguma questão da casa, ele ajudava.
Quando cresceu, foi ficando cada vez mais próximo do escritório principal, cuidando de contratos, administração, bancos, contas e, principalmente, das confusões que os negócios dos irmãos criavam uns para os outros.
Getúlio tinha curiosidade por tudo que parecia novo. Gostava de viajar, conhecer cidades, ouvir histórias e mexer em equipamentos que ninguém da família entendia. Foi naturalmente atraído pelo desenvolvimento das comunicações e acabou se especializando em telefonia e telecomunicações, começando por centrais, cabeamentos e sistemas internos para empresas. Era capaz de voltar de uma viagem falando durante o almoço inteiro sobre alguma novidade que havia visto e tentar convencer os irmãos de que aquilo chegaria ao Brasil mais cedo ou mais tarde.
Jurandir era provavelmente o filho menos parecido com Geraldo quando o assunto era trabalho.
Jurandir gostava mesmo era de viver. Gostava de hotéis bons, cidades bonitas, restaurantes, viagens e qualquer atividade que pudesse começar depois das dez da manhã. Tinha um talento impressionante para desaparecer exatamente quando alguém mencionava expediente no sábado. Como até Geraldo entendia que precisava fazer alguma coisa, Jurandir acabou encontrando um setor que combinava com aquilo que conhecia melhor do que gostaria de admitir: edifícios. Especializou-se em infraestrutura predial e sistemas, acompanhando instalações elétricas de grandes prédios, iluminação, sistemas internos, segurança e manutenção.
Os irmãos jamais perderam a oportunidade de dizer que Jurandir escolhera prédios porque gostava demais de hotel.
Ele nunca negou.
Domingos era o brincalhão. Não chegava a lugar nenhum de mãos vazias. Voltava de viagem com presentes para os irmãos, para as cunhadas, para os sobrinhos, às vezes até para funcionários. Conversava com qualquer pessoa e possuía uma facilidade natural para negociar. Foi ele quem olhou para a enorme quantidade de cabos, componentes, painéis e equipamentos que as empresas da família compravam e perguntou por que continuavam enriquecendo fornecedores quando poderiam participar daquele negócio.
Começou pequeno. Depois passou a representar fabricantes. Em seguida, distribuir e criou o braço de equipamentos e distribuição.
O caçula recebeu o mesmo nome do pai e, justamente para evitar que metade da família virasse a cabeça toda vez que alguém gritasse Geraldo, passou a ser chamado desde menino de Juninho.
Geraldo Júnior era o mais tranquilo de todos. Gostava de barcos com uma paixão que o pai nunca compreendeu inteiramente e considerava o horário de ir embora a melhor invenção da jornada de trabalho. Não era preguiçoso; simplesmente não via mérito algum em permanecer no escritório quando o serviço já estava terminado. Interessou-se por energia e geração, especialmente sistemas de emergência, geradores e tudo aquilo que fazia uma instalação continuar funcionando quando a fonte principal falhava.
Com o tempo, aquilo que tinha começado como uma única empresa tornou-se uma família inteira de negócios e talvez o mais curioso fosse que nunca se instalou entre os irmãos a competição que Geraldo via em outras famílias empresárias.
Severino não se incomodava se Getúlio fechava um contrato enorme.
Getúlio não queria a empresa de Domingos.
Jurandir definitivamente não queria a responsabilidade de ninguém.
Juninho queria terminar o expediente no horário.
E Alcides queria apenas que todos parassem de entregar documentos atrasados.
Cada um se casou, teve filhos, construiu a própria casa e criou uma vida ao redor daquela riqueza inesperada que Geraldo havia começado tentando apenas garantir que ninguém passasse fome.
Os Fortenelle gostavam uns dos outros.
De verdade.
Havia discussões, implicâncias, irmãos que se entendiam melhor que outros e personalidades que às vezes colidiam, mas existia uma certeza básica entre eles: quando um precisava, os demais apareciam.
Emprestavam funcionários.
Dividiam fornecedores.
Indicavam clientes.
Emprestavam dinheiro sem transformar tudo em disputa de poder.
Quando Jurandir resolveu comprar uma propriedade muito maior do que deveria e, algum tempo depois, descobriu que não conseguiria arcar com todas as parcelas sem comprometer o próprio negócio, esperou semanas antes de contar aos irmãos.
Devia ter imaginado que ouviria sermão.
Ouviu.
Durante quase uma hora.
Severino perguntou três vezes como alguém podia comprar uma propriedade sem fazer aquelas contas antes. Domingos gargalhou até Zilda mandar que parasse. Juninho quis saber se pelo menos havia um lago onde pudesse colocar barco.
Depois os cinco completaram o dinheiro que faltava.
Jurandir pagou cada um ao longo dos anos.
Ninguém jamais voltou a mencionar o assunto, exceto quando precisava de uma boa piada num almoço.
Foi talvez essa confiança excessiva que transformou os negócios numa bagunça monumental.
Um mesmo cliente contratava Severino para uma instalação industrial, comprava equipamentos de Domingos, precisava da telefonia de Getúlio e recebia uma solução energética de Juninho. Às vezes chegavam quatro propostas diferentes com o sobrenome Fortenelle. Havia empresas contratando umas às outras, equipes compartilhadas, despesas cruzadas e uma quantidade crescente de dinheiro circulando entre companhias pertencentes às mesmas seis pessoas.
Alcides foi o primeiro a perder a paciência.
Passou semanas tentando fechar informações e descobriu que, dependendo de quem perguntasse, a família tinha números diferentes para a mesma operação.
Chamou os irmãos.
— A gente precisa organizar isso.
O assunto rendeu discussão, café, almoço, mais discussão e, como quase tudo entre os Fortenelle, algumas piadas no meio.
No final, a solução pareceu óbvia.
As empresas continuariam com suas especializações, mas passariam a funcionar sob uma mesma estrutura. Administração, finanças, jurídico e boa parte dos contratos seriam centralizados. Os diferentes negócios deixariam de aparecer para o mercado como meia dúzia de Fortenelle independentes disputando o mesmo cliente.
Nascia a Fort Group.
Para os irmãos, a melhor parte foi perceber que grande parte do trabalho administrativo que todos detestavam ficaria concentrada num único lugar.
Para Alcides, aquilo significou ainda mais trabalho.
Para Geraldo, significou finalmente compreender que a pequena empresa criada depois de uma demissão havia ultrapassado tudo que conseguira imaginar.
Ele já estava envelhecendo.
Ainda gostava de visitar operações, ainda implicava com instalação malfeita e continuava dizendo que ninguém precisava inventar nome bonito para o método de simplesmente fazer as coisas direito. Mas sabia que o grupo agora precisava de alguém capaz de lidar com contratos, bancos, executivos e problemas administrativos muito mais complexos do que aqueles que o haviam levado a abrir a primeira empresa.
Estava na hora de um dos filhos assumir.
Geraldo marcou uma reunião com os seis.
Era raro vê-los todos naquela sala por um motivo realmente sério. Quando se reuniam, normalmente era para almoço, aniversário, alguma viagem ou simplesmente porque um deles tinha aparecido na casa do outro e, em poucas horas, metade da família acabava chegando também.
Naquela tarde, no entanto, Geraldo sentou-se diante dos seis filhos e explicou, com a tranquilidade de quem já havia pensado bastante no assunto, que estava na hora de começar a deixar o comando da Fort Group.
O silêncio que recebeu teria sido mais adequado ao anúncio de uma doença.
Severino baixou os olhos para a mesa.
Alcides, que conhecia o pai bem demais e já desconfiara do rumo daquela conversa desde que fora chamado, começou a se afundar discretamente na cadeira.
Getúlio ajeitou a postura e olhou de um irmão para o outro.
Jurandir assumiu a expressão de um homem que acabara de ouvir uma sentença de morte.
Domingos parecia esperar que alguém tivesse uma ideia brilhante.
Juninho nem tentou esconder o desconforto.
Geraldo observou os seis.
— Então?
Ninguém respondeu.
Foi Getúlio quem decidiu romper o silêncio.
— Mas deixar por quê?
Geraldo franziu a testa.
— Porque estou ficando velho.
Jurandir soltou uma risada curta.
— Velho onde?
— Jurandir...
— Estou falando sério, pai. O senhor está muito bem.
Severino concordou quase imediatamente.
— Está mesmo.
— Muito bem — reforçou Domingos.
Juninho, percebendo uma possibilidade de adiar aquela conversa por alguns anos, endireitou-se na cadeira.
— O senhor aguenta mais uns dez.
Geraldo olhou para ele.
— Dez?
Juninho pensou.
— Quinze, se cuidar da alimentação.
Domingos mordeu o lábio para não rir.
— Vocês estão tentando me manter trabalhando até morrer?
— Ninguém falou em morrer — respondeu Getúlio. — Estamos falando que não existe urgência.
— Nenhuma — Jurandir confirmou rapidamente.
Alcides continuava calado, procurando tornar-se cada vez menor na cadeira.
Geraldo conhecia todos aqueles homens desde que cabiam em seus braços. Sabia perfeitamente o que estava acontecendo.
— Eu tenho seis filhos.
A frase produziu outro silêncio.
— Seis homens adultos.
Domingos olhou para Severino. Severino fingiu não perceber.
— E nenhum de vocês quer essa cadeira?
Dessa vez, ninguém teve sequer a delicadeza de fingir que precisava pensar.
Jurandir balançou a cabeça.
Juninho fez o mesmo.
Getúlio abriu as mãos.
Severino respirou fundo.
Domingos foi o primeiro a criar coragem para responder em voz alta.
— Pai... não leva para o lado pessoal.
Jurandir começou a rir.
— Cala a boca — Severino murmurou, embora também estivesse sorrindo.
— Ué, alguém precisava falar.
Geraldo os encarou com uma incredulidade que foi desaparecendo lentamente.
Passara décadas construindo aquilo. Vira uma pequena empresa de instalações e manutenção se transformar num conjunto de negócios que empregava centenas de pessoas, atravessava estados e sustentava não apenas os filhos, mas uma quantidade crescente de famílias. Sempre imaginara, talvez por puro hábito, que chegaria o momento em que precisaria decidir qual deles teria o privilégio de ocupar seu lugar.
Descobria agora que, para os seis, aquilo parecia muito mais uma obrigação da qual tentavam escapar.
E não era porque não amassem a Fort.
Amavam.
Cada um construíra parte dela. Severino passara anos desenvolvendo o braço industrial. Getúlio havia feito crescer as telecomunicações. Jurandir transformara a infraestrutura predial num negócio próprio. Domingos criara uma operação de distribuição que já vendia até para concorrentes. Juninho fizera o setor de energia crescer. Alcides conhecia números, contratos e problemas de todas aquelas empresas quase tão bem quanto os próprios irmãos.
Nenhum queria vender sua parte.
Nenhum queria abandonar o negócio.
Nenhum desejava ver a Fort nas mãos de estranhos.
Só não queriam entregar a própria vida inteira a ela.
Os Fortenelle gostavam de dinheiro, sem qualquer vergonha disso.
Gostavam das casas que haviam comprado, das viagens, dos clubes, dos restaurantes, dos carros que Severino restaurava e dos barcos que Juninho insistia em adquirir. Gostavam de levar as mulheres para passar temporadas fora, de ver os filhos crescendo sem preocupação e de sentar todos juntos aos domingos diante de uma mesa tão cheia que Zilda continuava cozinhando como se os seis ainda fossem meninos famintos chegando da escola.
Mas, acima de tudo, os Fortenelle gostavam de viver bem e de viver em paz.
O trabalho deveria garantir aquela vida.
Não engoli-la.
— Eu posso continuar algum tempo — Geraldo admitiu.
Seis rostos se iluminaram.
Ele ergueu a mão antes que comemorassem.
— Algum tempo.
A animação desapareceu.
— Mas alguém precisa começar a assumir cada vez mais coisa. Eu não quero esperar ficar incapaz para descobrir quem vai fazer isso.
— Não precisa ser um só — sugeriu Severino.
— Excelente ideia — Jurandir respondeu imediatamente.
— Dá para dividir — Getúlio acrescentou.
— A gente já divide tudo — disse Juninho.
Alcides finalmente falou, ainda profundamente desconfiado daquela conversa.
— Dividir comando não é a mesma coisa que dividir operação.
Cinco cabeças se viraram para ele.
Alcides percebeu o erro no instante em que terminou a frase.
Geraldo também.
— Exatamente.
Alcides fechou os olhos por um segundo.
Domingos começou a sorrir.
— Não olha para mim assim — Alcides avisou ao pai.
— Assim como?
— Desse jeito.
— Eu só estou olhando.
— Acho que o senhor está é escolhendo.
Jurandir soltou uma gargalhada.
Juninho virou o rosto, já rindo também.
Severino levou a mão à boca para esconder o sorriso.
Geraldo tentou manter a expressão séria.
— Você acabou de explicar por que não dá para seis pessoas comandarem ao mesmo tempo.
— Eu expliquei porque alguém precisava explicar.
— E você administra o escritório central.
— Porque vocês me empurraram para lá — Alcides respondeu, apontando para os irmãos. — Enquanto cada um fazia o que gostava, alguém precisava impedir essa família de falir por desorganização.
— E fez um ótimo trabalho — Getúlio observou.
Alcides estreitou os olhos.
— Não começa.
— Estou apenas reconhecendo seu talento.
— Você nunca reconheceu meu talento desse jeito.
— Talvez eu tenha amadurecido.
Domingos já ria abertamente.
Alcides olhou para Severino, procurando alguma ajuda.
O irmão mais velho evitou seu olhar com uma concentração repentina sobre a madeira da mesa.
— Severino.
— O quê?
— Você é o mais velho.
— E?
— É o filho mais velho.
— Sei disso.
— Além disso é tradicional, responsável e gosta dessas coisas.
— Eu gosto é da fábrica.
— Ótimo. A Fort tem fábricas.
Severino finalmente o encarou.
— Eu gosto de estar dentro delas. Não sentado aqui discutindo com banco.
Domingos bateu de leve na mesa.
— Justo.
— Ninguém pediu sua opinião — Alcides respondeu.
— Você está nervoso.
— Estou cercado de covardes.
Juninho deu de ombros.
— Eu tenho um barco.
— O que isso tem a ver?
— Tudo. O CEO não pode sair às duas numa sexta-feira porque o vento está bom.
Jurandir apontou para o irmão caçula.
— Finalmente alguém falou uma coisa sensata.
— Você não pode usar a palavra sensata para justificar não trabalhar — Alcides retrucou.
— Posso e acabei de fazer.
Geraldo assistia àquela discussão com os braços cruzados. Talvez devesse estar frustrado. Em vez disso, estava quase divertido. Havia criado seis homens diferentes, todos competentes à própria maneira, todos suficientemente seguros de seus lugares para não desejarem o lugar do irmão. Nenhum parecia enxergar a presidência como troféu, prova de superioridade ou confirmação de que o pai o amava mais.
Queriam apenas continuar sendo irmãos. No fim, seus olhos voltaram para Alcides. Dessa vez, Alcides percebeu imediatamente.
Domingos começou a rir outra vez.
Juninho acompanhou.
Getúlio apoiou as costas na cadeira, satisfeito demais para esconder.
Severino baixou a cabeça.
Jurandir tinha a expressão de quem acabara de receber a notícia de que sua execução havia sido cancelada.
Alcides olhou lentamente para os cinco.
— Vocês são uns desgraçados.
— Nós te amamos — Domingos respondeu.
— Principalmente agora — acrescentou Jurandir.
Até Geraldo riu.
E foi assim, no meio das brincadeiras de seis irmãos que fariam qualquer coisa uns pelos outros, desde que esse “qualquer coisa” não incluísse assumir voluntariamente a presidência da Fort Group, que Alcides Fortenelle começou a perceber que provavelmente acabaria ocupando justamente o único posto que nenhum deles queria.
Não porque fosse o mais ambicioso.
Muito menos porque desejasse mandar nos irmãos.
Mas porque, desde menino, toda vez que os Fortenelle transformavam alguma coisa numa confusão, era Alcides quem acabava colocando ordem.
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