O CEO que Eu Paguei
277 De outro ponto de vista - Parte Final
Antônio passou o restante da tarde trabalhando, pelo menos tecnicamente. Respondeu e-mails, participou de duas reuniões, aprovou documentos, revisou uma apresentação que precisaria ser enviada na manhã seguinte e chegou a corrigir pessoalmente uma inconsistência num relatório que provavelmente poderia ter sido devolvida para outra pessoa resolver. Se alguém entrasse em sua sala, encontraria exatamente o homem de sempre: concentrado, objetivo, quase irritantemente capaz de alternar entre assuntos diferentes sem perder o fio. Só Antônio sabia que, entre uma página e outra, Helena aparecia. Surgia quando ele parava de digitar por alguns segundos. Quando alguém demorava a responder numa reunião. Quando seus olhos escapavam do monitor. Voltava primeiro como imagem, depois como voz, depois numa resposta que ela havia dado, e invariavelmente terminava naquela conversa da tarde em que, contra toda a prudência que costumava ter com a própria intimidade, Antônio falara mais de si do que pretendia. Isso era o que mais o incomodava. Não o fato de Helena ser bonita. Beleza nunca fora escassa na vida dele. Nem o fato de ela ser difícil, porque também conhecera mulheres difíceis. Era aquela sensação muito específica de ter sido ouvido e, pior, de ter gostado de ser ouvido por ela. Antônio não conseguia decidir se estava satisfeito ou irritado consigo mesmo.
Viviane percebeu que havia alguma coisa errada antes mesmo de vê-lo pessoalmente. Mandou uma mensagem pouco depois das seis perguntando se ele já estava indo para casa. Antônio olhou o relógio e respondeu que ainda estava na empresa. A resposta dela veio quase imediatamente: “Então vamos ao clube.” Não houve explicação. Não precisava. Faziam aquilo havia anos. O clube de hipismo ficava suficientemente perto para que nenhum dos dois tratasse a ida como evento, e os cavalos da família mantidos ali transformavam a decisão numa extensão natural da rotina. Quando o dia tinha sido longo demais, quando precisavam conversar sem paredes de escritório por perto ou simplesmente quando Viviane queria o filho por uma hora sem telefone, assessores e reuniões, iam montar.
Encontraram-se pouco depois das seis e vinte. Antônio ainda estava de terno quando chegou e Viviane já tinha trocado os sapatos altos por botas, embora continuasse usando parte da roupa social sob o casaco. Ela o olhou de cima a baixo assim que ele apareceu.
— Você está com uma cara estranha.
Antônio soltou uma risada.
— Boa noite para você também.
— Estou falando sério.
— Eu também. Boa noite, mãe.
Viviane estreitou os olhos, mas não insistiu ainda. Conhecia o filho bem demais para desperdiçar pergunta antes da hora certa. Foram trocar de roupa, passaram pelas cocheiras e cumprimentaram os tratadores pelo nome. Antônio demorou alguns minutos com o próprio cavalo, conferindo uma das patas quase por hábito antes de montar. Viviane observou à distância. Aquilo também dizia alguma coisa. Antônio normalmente chegava ao clube e o corpo desacelerava. Naquela noite, parecia fisicamente ali e mentalmente em algum outro lugar.
Começaram devagar, quase só caminhando pela pista iluminada. A noite já tinha caído e as luzes altas desenhavam sombras alongadas sobre a areia. Havia poucos associados naquele horário, alguns treinadores terminando atividades e tratadores circulando entre os estábulos. Viviane gostava daquele momento porque o silêncio não exigia ser preenchido. Cavalo não tinha urgência. Antônio também parecia gostar disso. Os dois podiam conversar sem precisar ficar olhando diretamente um para o outro, o que às vezes tornava certas coisas mais fáceis de dizer.
Viviane contou primeiro sobre o próprio dia. Falou de uma reunião cansativa com um cliente que insistia em renegociar condições já fechadas, reclamou de um diretor que tinha levado quinze minutos para explicar uma coisa que cabia em três frases e comentou o avanço da revisão que estava acompanhando. Antônio respondeu normalmente, fez duas perguntas pertinentes, sugeriu uma maneira de reestruturar determinada conversa com o cliente e, durante alguns minutos, Viviane quase acreditou que tinha imaginado a distração.
Então perguntou:
— E o projeto?
Antônio olhou para a frente.
— Deu certo.
— Só isso?
— Foi bem.
Viviane deixou o cavalo avançar um pouco antes de olhá-lo de lado.
— Você passou semanas falando desse projeto.
— E agora ele está andando.
— Antônio.
— Mãe.
O tom dele não era defensivo. Isso chamou ainda mais a atenção dela.
Viviane sorriu.
— Está escondendo alguma coisa.
— Não estou.
— Está.
— Não estou.
— Conheço você desde antes de você conhecer a si mesmo.
Antônio riu.
— Essa frase não faz sentido.
— Fez o suficiente para você desviar.
Ele balançou a cabeça e continuou olhando para a pista.
Viviane esperou.
Foi talvez um minuto depois que Antônio falou, aparentemente porque decidira que poderia entregar uma parte sem entregar o resto.
— Conheci uma mulher.
Viviane virou o rosto tão rápido que o próprio cavalo reagiu à mudança mínima de peso.
— Ah!
Antônio imediatamente se arrependeu do tom satisfeito da mãe.
— Não faça isso.
— Eu não fiz nada.
— Fez “ah”.
— Foi uma sílaba.
— Conheço esse “ah”.
Viviane tentou conter o sorriso.
Não conseguiu.
Antônio raramente começava uma conversa daquela maneira. Mulheres apareciam na vida dele, claro. Viviane conhecera namoradas, ouvira nomes, histórias, separações e até algumas confissões. Mas quase sempre eram informações oferecidas depois que as coisas já existiam. Antônio nunca parecia precisar falar de uma mulher porque tinha acabado de conhecê-la.
— E quem é?
— Uma mulher.
Viviane soltou uma gargalhada.
— Excelente. Isso esclareceu muito.
— Era a intenção.
— Nome?
— Não.
— Você não sabe?
Antônio ficou em silêncio por meio segundo.
Viviane percebeu.
— Sabe sim.
— É claro que sei.
— E não vai me dizer.
— Não.
Ela virou o rosto para ele novamente.
— Por quê?
Antônio pensou antes de responder.
— Porque você vai começar a investigar.
Viviane quase se ofendeu.
— Eu?
— Você.
— Antônio, eu tenho uma empresa para administrar.
— Exatamente. Isso nunca impediu você de saber tudo da minha vida.
— Sua vida me interessa.
— Esse é o problema.
Viviane riu novamente e decidiu não forçar o nome. Se pressionasse demais, Antônio simplesmente fecharia a porta.
— Bonita?
A pergunta foi casual.
A reação dele não foi.
Antônio sorriu. Foi um sorriso pequeno no início, quase involuntário, e Viviane percebeu imediatamente.
— Muito — ele respondeu.
Aquela única palavra disse mais do que deveria.
— Muito?
— Muito.
Viviane sentiu alguma coisa quente no peito.
Continuaram caminhando.
Antônio começou falando da aparência de maneira vaga, porque não queria dar à mãe material suficiente para reconhecer ninguém. Disse apenas que era o tipo de mulher que chamava atenção e que, por algum motivo, parecia ainda mais bonita quando estava irritada.
— Irritada com você?
— Quase sempre.
Viviane riu.
— Já gostei dela.
— Você gostaria.
— Por quê?
Antônio demorou para responder.
— Porque ela não facilita.
Viviane ergueu uma sobrancelha.
— Isso é elogio?
— No caso dela, é.
Então vieram as histórias.
Não completas. Nunca completas.
Antônio contava um pedaço, retirava exatamente o detalhe que permitiria localizar a situação, mudava o cenário, escondia profissão, apagava nomes. Viviane percebia e se divertia com aquilo. Era quase um jogo. O filho queria falar e ao mesmo tempo preservar aquela mulher dentro de uma espécie de espaço secreto que ainda não estava pronto para dividir.
Ele falou que ela tinha respostas rápidas. Que não parecia impressionada com ele. Que tinha dito coisas que normalmente fariam Antônio perder o interesse, mas que nele produziram exatamente o efeito contrário.
Contou, rindo, que ela conseguia olhá-lo como se Antônio Fortenelle fosse apenas um homem inconveniente falando demais.
— Talvez você estivesse falando demais.
— Eu estava.
Viviane olhou para ele. Antônio reconheceu com naturalidade.
— Muito mais do que normalmente falo.
Aquilo chamou sua atenção.
— Por quê?
— Não sei.
A resposta veio sincera demais.
Trocaram a caminhada por um trote leve. Mesmo assim, Antônio continuou falando.
Falou sobre a contradição que percebia nela, aquela dureza aparente escondendo alguma coisa muito mais delicada. Sobre o fato de ela parecer perfeitamente capaz de cortá-lo em duas frases e, ainda assim, ter momentos em que alguma vulnerabilidade aparecia antes que conseguisse esconder.
Viviane não perguntou como ele sabia tanto de uma mulher que acabara de conhecer.
Antônio contou e contou mais.
Em determinado momento, percebeu que estava descrevendo uma conversa inteira e parou.
— Estou falando demais.
Viviane sorriu.
— Há aproximadamente vinte minutos.
— Você poderia ter avisado.
— Eu estou adorando.
Antônio lançou-lhe um olhar.
— É por isso que não conto nada.
— Você está contando tudo.
— Não estou contando nada importante.
Essa frase fez Viviane rir.
Porque era verdade.
Ele falava sem parar e, mesmo assim, ela ainda não sabia nome, idade, profissão, onde se conheceram ou se aquela mulher sequer morava no Rio.
Sabia apenas como Antônio a enxergava. E talvez isso fosse muito mais revelador.
Quando chegaram à outra extremidade da pista, Viviane perguntou, quase displicente:
— E ela gosta de você?
Antônio ficou em silêncio.
Viviane percebeu a diferença. Se fosse qualquer outra mulher, ele provavelmente teria uma resposta pronta.
— Não sei.
— Você não sabe?
— Ela diz que não.
— Isso parece uma informação bastante clara.
Antônio soltou uma risada.
— Não desse jeito.
Viviane não gostou completamente da resposta, mas não havia nada de agressivo ou ressentido no tom dele. Era quase divertido. Antônio parecia mais intrigado do que convencido.
— Então respeite o que ela diz.
— Eu respeito.
— Antônio.
— Respeito mesmo.
Ele respirou fundo.
— Eu só não acho que ela me odeie tanto quanto tenta parecer.
Viviane sorriu.
— Isso já é uma conclusão bem diferente de “ela gosta de mim”.
— Eu sei.
Aquilo a tranquilizou. Um pouco.
Continuaram.
Antônio falou então de inteligência. E foi nesse momento que Viviane percebeu que não era apenas desejo.
A voz dele mudava. Não muito.
Mas ela conhecia cada pequena alteração. Quando Antônio falava de beleza, havia humor. Quando falava do temperamento daquela mulher, havia diversão. Quando começou a falar da cabeça dela, surgiu admiração.
Disse que ela observava muito. Que não era uma pessoa que repetia simplesmente aquilo que aprendera. Que parecia construir a própria lógica. Que tinha uma capacidade irritante de entender rapidamente onde ele queria chegar e escolher deliberadamente outra direção.
— Você gosta disso.
— Muito.
— Por quê?
Antônio pensou.
— Porque é raro.
Viviane olhou para ele.
O filho estava olhando para a pista à frente, mas sorria. Não aquele sorriso satisfeito de quando fechava um negócio.Era mais leve, mais jovem. Por alguns segundos, Viviane enxergou o menino que voltava para casa empolgado porque tinha descoberto alguma coisa nova e precisava contar a ela.
Aquilo apertou seu coração.
Não comentou.
Antônio continuou. Falou que aquela mulher não fazia ideia do efeito que tinha. Que isso talvez fosse uma das coisas mais interessantes. Não parecia tentar ser encantadora. Não parecia querer agradá-lo. Talvez nem gostasse particularmente dele. Mas Antônio queria ouvi-la. Queria ver o que ela responderia. Queria descobrir o que havia sob as camadas.
Viviane ouviu aquela frase com atenção.
— Você está interessado.
Antônio deu de ombros.
— Estou curioso.
Viviane sorriu.
— Curioso.
— Muito.
— Você nunca fala quarenta minutos sobre curiosidade.
Antônio olhou o relógio no pulso, surpreso.
— Quarenta?
— Quase.
Ele riu.
— Mentira.
— Estamos aqui há quarenta e três minutos e você falou dela em pelo menos trinta e cinco.
Antônio ficou alguns segundos calado.
Viviane esperou que aquilo finalmente o constrangesse.
Não aconteceu.
Ele apenas sorriu de novo.
— Então talvez ela seja interessante.
Viviane teve vontade de abraçá-lo.
Naturalmente, não fez.
Retornaram às cocheiras pouco depois. Entregaram os cavalos aos tratadores, ficaram mais alguns minutos acompanhando os cuidados e foram para os vestiários. Viviane tomou banho, trocou a roupa de montaria por um vestido simples que mantinha no armário do clube e prendeu o cabelo ainda úmido. Quando chegou ao restaurante, Antônio já estava lá, novamente impecável, embora mais relaxado, sem gravata e com os primeiros botões da camisa abertos.
Ela sentou.
— Então.
Antônio ergueu os olhos do cardápio.
— Então o quê?
— Continue.
Ele riu.
— Você gostou mesmo do papo.
— Paramos no fato de ela ser interessante.
— Não há muito mais.
Havia.
Viviane descobriu nos quarenta minutos seguintes.
Antônio falou enquanto escolhiam vinho. Falou enquanto esperavam a entrada. Falou entre uma coisa que Viviane contava e outra. Às vezes passavam dez minutos discutindo trabalho e, sem qualquer transição razoável, ele voltava à mulher.
— Ela disse uma coisa hoje...
Viviane quase ria sempre que começava assim.
— A mulher misteriosa.
— Exatamente.
— Ainda sem nome.
— Principalmente sem nome.
Antônio contou que ela tinha uma forma específica de franzir o nariz quando estava irritada.
Viviane parou com o garfo no ar.
— Você reparou no nariz dela.
Ele percebeu tarde demais.
— É expressivo.
— Aham...
— Mãe.
— Continue.
Falou das mãos.
Parou antes de dizer muito.
Viviane percebeu.
— O que tem as mãos?
— Nada.
— Antônio.
— São pequenas.
Viviane sorriu.
— E?
Ele bebeu vinho.
— Nada.
A mãe deixou passar.
Mas guardou.
Aquilo estava ficando cada vez mais interessante.
Nunca tinha visto Antônio falar assim de ninguém.
Mesmo quando tivera relacionamentos sérios, havia sempre alguma distância na maneira como narrava. Gostava de uma mulher, respeitava, sentia atração, podia até sofrer quando terminava, mas raramente parecia deslumbrado.
Naquela noite, estava.
Era a palavra.
Deslumbrado.
E o mais bonito era que ele ainda não sabia.
Antônio acreditava estar descrevendo uma curiosidade excepcional.
Viviane enxergava outra coisa.
Ele falava dela como alguém que tinha descoberto um objeto novo de estudo e não percebia que cada descrição revelava muito mais sobre ele do que sobre a desconhecida.
— Ela trabalha? — Viviane perguntou em algum momento.
Antônio a encarou.
— Não vou responder.
— Então trabalha.
— Todo mundo trabalha.
— Não todo mundo.
— Ela trabalha.
— Com o quê?
— Boa tentativa.
Viviane sorriu.
— Estudou o quê?
— Mãe.
— Onde mora?
— Não.
— Idade?
— Não.
— Família?
— Não sei.
Viviane percebeu a primeira informação verdadeiramente involuntária.
— Então você ainda não investigou tudo.
Antônio ficou quieto.
O sorriso dela aumentou.
— Investigou alguma coisa.
— Eu odeio conversar com você.
— Mentira.
— Profundamente.
— Descobriu o nome depois de conhecer.
Antônio não respondeu.
— Antônio Fortenelle.
Ele levou a taça à boca.
— Próximo assunto.
Viviane quase bateu palmas de satisfação.
— Você foi atrás.
— Não vou alimentar isso.
— Foi.
— Mãe!
— Meu Deus, você foi.
Antônio soltou uma risada e passou a mão pelos cabelos.
A expressão era quase de vergonha.
Isso, mais do que qualquer outra coisa, encantou Viviane.
— O que ela fez com você?
— Nada.
A resposta veio imediatamente. E era, de algum modo, a coisa mais verdadeira que ele havia dito.
Viviane parou.
Antônio também pareceu ouvir o próprio pensamento.
Nada.
Aquela mulher ainda não tinha feito nada. Não lhe dera um relacionamento. Não lhe prometera nada. Não havia construído uma história com ele. E mesmo assim estava presente naquela mesa sem estar ali.
Antônio baixou os olhos para o vinho.
— Esse é o problema.
Viviane sentiu o coração aquecer.
— Talvez não seja um problema.
Antônio sorriu.
— Para você, tudo que pode resultar em netos é oportunidade.
— Eu nem falei em netos.
— Ainda.
— Você me conhece bem.
Ele riu.
E então, por alguns minutos, deixou o assunto descansar.
Viviane falou das irmãs, de uma viagem que precisava organizar, de uma reunião na semana seguinte. Antônio acompanhou. Respondeu. Fez comentários.
Cinco minutos depois:
— Ela gosta de goiaba.
Viviane largou os talheres.
— Antônio.
— O quê?
— Você acabou de interromper uma história sobre sua tia para me informar a fruta favorita dessa mulher.
Ele percebeu.
Ficou alguns segundos sério.
Depois começou a rir.
Viviane riu junto.
— Isso está pior do que eu pensei.
— Não está acontecendo nada.
— Eu sei.
— Nada.
— Eu ouvi.
— Nem sei por que estou falando tanto.
Viviane sabia.
Mas não lhe diria.
Talvez porque tivesse medo de assustar aquilo antes que crescesse. Talvez porque, depois de tantos anos vendo Antônio controlar cada sentimento antes mesmo de permiti-lo existir, fosse quase precioso assistir a alguma coisa escapar.
Não sabia quem era a mulher. Não sabia se era solteira. Não sabia se combinava com ele. Não sabia sequer se gostava dele.
E, como mãe, deveria ter todas essas preocupações.
Teria.
Depois.
Naquela noite, queria apenas observar.
O filho parecia feliz.
Não a felicidade satisfeita de uma meta atingida.
Era uma inquietação boa.
Uma expectativa.
Antônio olhava o telefone às vezes e fingia que não estava verificando alguma coisa específica. Quando nenhuma mensagem parecia ser aquela que esperava, colocava o aparelho novamente sobre a mesa sem comentar.
Viviane percebeu todas as vezes.
Não perguntou.
Depois do jantar, Antônio insistiu em levá-la até a mansão embora ela tivesse motorista. Foram no carro dele. Viviane sentou ao lado e pensou que, finalmente, a conversa mudaria.
Durou menos de três minutos.
— Ela me acha arrogante.
Viviane virou o rosto lentamente.
— Ainda estamos falando dela?
— Não sei por que ela acha isso.
— Tenho algumas teorias.
— Não pedi.
— Você é arrogante.
— Sou confiante.
— Você é meu filho. Posso amar você e reconhecer fatos.
Antônio sorriu.
— Acho que ela também confunde.
Viviane riu.
O trajeto inteiro seguiu assim.
Pequenas histórias.
Pedaços.
Impressões.
Nada que permitisse identificar aquela mulher e tudo que permitisse perceber o que estava acontecendo com Antônio.
Quando entraram na propriedade, Viviane já tinha desistido de arrancar nome.
Antônio estacionou e os dois ficaram ainda alguns minutos no carro, porque ele estava terminando mais uma história sobre uma discussão que tivera com ela — novamente sem explicar onde, quando ou sobre o quê.
Viviane apenas escutou.
Quando finalmente entraram, Antônio pegou o telefone.
Olhou a tela.
Viviane viu o sorriso desaparecer só um pouco.
— Ela não respondeu?
Ele levantou os olhos rapidamente.
— Quem?
— Boa noite, Antônio.
Ela beijou o rosto dele antes que pudesse protestar e seguiu em direção à escada.
— Mãe.
Viviane parou.
Virou.
Antônio estava no meio do hall, com o paletó no braço e uma expressão que parecia dividida entre constrangimento e diversão.
— Não inventa história.
Viviane sorriu.
— Eu não sei nem o nome dela. Como vou inventar?
— Eu conheço você.
— E eu conheço você.
Antônio ficou olhando para ela.
Viviane suavizou o sorriso.
— Faz muito tempo que não vejo você falar assim de alguém. Na verdade, eu nunca vi você falar assim de alguém.
O rosto dele mudou.
Só um pouco.
A defesa veio imediatamente.
— Eu não estou apaixonado.
Viviane quase respondeu que ele tinha sido o primeiro a usar a palavra.
Não respondeu.
— Eu não disse que está.
— Está pensando.
— Estou pensando que gostei de ver você assim.
Antônio pareceu não saber o que fazer com aquela frase.
Viviane não deu tempo.
— Durma bem, meu filho.
— Boa noite.
Ela começou a subir.
— Mãe.
Virou novamente.
— O quê?
Antônio hesitou.
— Nada.
Viviane continuou subindo com um sorriso.
Naquela noite, deitada, ainda pensou na mulher sem nome.
Não imaginou rosto.
Não tentou adivinhar profissão.
Não abriu computador para investigar, embora Antônio provavelmente acreditasse que ela faria exatamente isso.
Pensou apenas no filho. No sorriso dele enquanto falava. Na maneira como lembrava detalhes insignificantes. Na vergonha quase juvenil quando percebeu que tinha ido atrás do nome. Na quantidade absurda de vezes que retomara o assunto depois de jurar que não havia nada acontecendo.
Viviane sorriu no escuro.
Gostou. Gostou mais do que deveria.
Não porque soubesse quem era a mulher.
Não sabia.
Não porque já estivesse imaginando casamento, família ou netos — embora, se fosse inteiramente sincera consigo mesma, uma pequena parte maternal fosse perfeitamente capaz de correr muitos quilômetros à frente.
Gostou porque Antônio, pela primeira vez em muito tempo, parecia ter encontrado alguma coisa que não cabia perfeitamente sob controle. E Viviane conhecia o filho bem o suficiente para saber que isso era raro.
Viviane precisou fazer muito pouco na manhã seguinte para que Antônio voltasse ao assunto. Na verdade, quando entraram juntos no carro que os levaria à Fort Group, ela decidiu deliberadamente não perguntar pela mulher misteriosa. Cumprimentou o motorista, acomodou-se no banco traseiro ao lado do filho, abriu a pasta com alguns documentos que pretendia revisar no caminho e comentou apenas que ele parecia ter dormido pouco. Foi suficiente. Antônio respondeu que tinha dormido perfeitamente, Viviane fez um som desacreditado sem sequer levantar os olhos do papel e, menos de dois minutos depois, ele já estava dizendo que talvez tivesse exagerado ao afirmar na noite anterior que a tal mulher era tão difícil de compreender. Viviane baixou lentamente uma página para esconder o sorriso. Antônio não percebeu. Ou fingiu não perceber. Passou a explicar que ela era, na verdade, bastante fácil de compreender em determinadas coisas e quase impossível em outras, que possuía aquela irritante tendência de dizer uma coisa enquanto a expressão revelava outra, que provavelmente achava Antônio insuportável, embora ele já não estivesse convencido de que o achasse tão insuportável assim.
Viviane ouviu por alguns minutos antes de perguntar, com uma inocência cuidadosamente fabricada, se ele por acaso tinha conseguido dormir pensando nisso. Antônio respondeu que não estava pensando em nada. A mãe olhou para ele por cima dos óculos.
— Claro.
Foi tudo. Antônio passou os próximos quinze minutos tentando demonstrar que não estava pensando em nada falando exatamente sobre a pessoa em quem não estava pensando.
Aquilo divertia Viviane profundamente. Não apenas porque era raro ver o filho desorganizado daquela maneira, mas porque Antônio parecia genuinamente desconhecer a própria transparência. Na noite anterior, passara quase todo o tempo no clube descrevendo uma mulher cujo nome se recusara a revelar. Agora retomava detalhes como se a conversa simplesmente tivesse sido interrompida pelo sono. Falou que ela era teimosa. Depois corrigiu: determinada. Disse que tinha uma tendência a presumir coisas ruins a respeito dele. Dois minutos depois admitiu que provavelmente havia fornecido material suficiente para algumas dessas presunções. Comentou que ela gostava de uma fruta específica e então, ao perceber o sorriso da mãe, exigiu que Viviane parasse de interpretar tudo. Viviane mal se continha.
Em algum momento ela chegou seriamente a cogitar telefonar para alguém e mandar descobrir quem era aquela criatura. Não porque desconfiasse da mulher; nem sabia quem era para desconfiar. Era simples curiosidade materna. Antônio sempre fora reservado sobre aquilo que realmente sentia, e agora aparecia uma desconhecida capaz de fazê-lo falar durante uma noite inteira, recomeçar às sete e pouco da manhã e ainda achar que estava preservando algum mistério. Viviane considerou mentalmente quantas pessoas seriam necessárias para descobrir a identidade dela com as poucas pistas que Antônio deixara escapar e desistiu quase imediatamente. Não por ética. Porque seria mais divertido arrancar a informação do próprio filho.
Tentou montar o quebra-cabeça sozinha. Talvez tivesse conhecido a mulher na França. Não parecia; algumas frases de Antônio sugeriam algo muito recente. Belo Horizonte? A convenção seria uma possibilidade. Fazenda em Minas? Viviane franziu o cenho só de imaginar. Campinas também entrava na lista, embora Antônio falasse daquela viagem quase exclusivamente em termos profissionais. Rio, talvez. Aeroporto. Algum jantar. Um contato apresentado por amigos. As possibilidades eram muitas e Antônio percebia perguntas indiretas com rapidez irritante.
Sempre que Viviane tentava cercá-lo, ele fechava a porta com um sorriso e mudava o assunto. Não contava nome, profissão, idade, lugar onde haviam se conhecido ou praticamente qualquer informação que permitisse encontrá-la no mundo real. Em compensação, dizia coisas absolutamente inúteis para uma investigação: ela franzia o nariz quando estava irritada; tinha mãos pequenas; respondia rápido; era muito inteligente; parecia delicada até abrir a boca; havia alguma coisa em seu jeito que o fazia querer provocar apenas para ver o que responderia. Viviane concluiu que o filho tinha conseguido a proeza de contar tudo e nada ao mesmo tempo.
Quando o carro parou diante da Fort Group, os dois se separaram como faziam quase todos os dias. Antônio tinha compromissos próprios; Viviane também. Não era mais CEO havia algum tempo, mas continuava sendo uma presença estrutural na empresa, o tipo de pessoa cuja agenda nunca ficava verdadeiramente vazia porque décadas de história não desapareciam com a mudança de um título. Caminhou pelos corredores recebendo cumprimentos, parou para conversar brevemente com uma gerente de uma unidade, respondeu uma dúvida de jurídico e entrou na própria sala com uma pilha de assuntos que rapidamente afastou Antônio e sua mulher misteriosa da cabeça.
Era fácil para Viviane esquecer o tempo dentro da Fort Group.
Ainda sentia orgulho ao andar por aqueles corredores.
Não pelo luxo. Nunca tinha sido isso.
Gostava de olhar para a empresa e reconhecer marcas de decisões tomadas quando quase ninguém concordava com ela. Havia mulheres em áreas que, décadas antes, sequer as entrevistariam. Mulheres em engenharia, riscos, auditoria, tecnologia, operações e finanças. Pessoas de origens diferentes dividindo mesas e decisões sem aquela homogeneidade sufocante que existira quando Viviane começara. Pretos em posições que antigamente homens como seus tios, sem maldade consciente, provavelmente teriam preenchido apenas com conhecidos de conhecidos. Pessoas vindas de universidades públicas, particulares, do interior, de bairros ricos e de famílias que jamais imaginariam ter alguém dentro de um grande grupo empresarial. Não era uma empresa perfeita. Viviane sabia melhor do que qualquer pessoa onde ainda falhavam. Os sócios continuavam homens, e provavelmente ainda continuariam durante algum tempo. Algumas áreas tinham mudado mais rapidamente do que outras. Preconceito não desaparecia porque uma presidente assinava políticas de diversidade e exigia recrutamento melhor. Mas a Fort Group era incomparavelmente mais plural do que a empresa em que ela entrara décadas antes, e Viviane tinha orgulho disso.
Talvez por isso sempre reparasse quando encontrava mulheres novas.
Não como peças de estatística.
Como possibilidade.
Sabia o que significava entrar numa empresa grande e descobrir que ninguém naquela sala tinha um rosto parecido com o seu. Sabia como era precisar demonstrar conhecimento antes mesmo de poder ser considerada alguém com conhecimento. Por isso gostava de observar mulheres jovens crescendo ali. Algumas ficavam. Outras passavam e seguiam carreira em outro lugar. Tudo bem. Nunca acreditara que desenvolver alguém desse à empresa direito de possuir aquela pessoa.
No fim da manhã, saiu da sala para pegar café e acabou passando pela copa.
Foi ali que viu Helena.
Naquele momento, para Viviane, era apenas uma jovem que nunca tinha visto.
Talvez fosse justamente por não saber nada que a primeira impressão tenha sido tão limpa.
A moça estava junto ao filtro, distraída com uma garrafa de água, e havia alguma coisa nela que chamou atenção antes mesmo de Viviane identificar o quê. Não era apenas beleza, embora fosse muito bonita. Era postura. Parecia alguém tentando ocupar pouco espaço fisicamente e, ao mesmo tempo, incapaz de diminuir a própria presença. Quando Viviane pediu licença para entrar, recebeu uma resposta educada, mas não subserviente. Aquilo agradou de imediato.
Preparou um cappuccino e iniciou uma conversa sem qualquer objetivo específico.
Descobriu logo que era nova naquele ambiente.
A jovem tinha conduzido um treinamento naquela manhã e falava sobre isso com aquele tipo particular de entusiasmo que Viviane sempre reconhecia: não o entusiasmo treinado de quem queria parecer apaixonado pelo trabalho, mas o de alguém que ainda estava sentindo prazer por ter feito alguma coisa bem.
Viviane gostou.
Perguntou mais.
A moça respondia bem.
Não tentava impressionar.
Não parecia saber quem Viviane era, o que tornou tudo ainda melhor.
Havia uma liberdade rara em conversar com alguém que não ajustava postura depois de ouvir o sobrenome Fortenelle.
Viviane ouviu sobre riscos, processos, equipes, resistência à mudança. A jovem falava com uma espécie de energia concentrada. Não usava palavras difíceis para parecer técnica. Falava como alguém que realmente compreendia o que fazia e, mais importante para Viviane, parecia enxergar finalidade por trás da burocracia. Controle não era simplesmente uma planilha. Risco não era um relatório produzido para conselho. Existia consequência real quando um processo falhava.
Aquilo despertou interesse profissional.
E alguma coisa mais simples.
O santo bateu.
Viviane acreditava nessas coisas apesar de toda a racionalidade com que administrara empresas durante a vida. Havia pessoas que levavam meses para se tornar agradáveis e outras que, nos primeiros dez minutos, produziam uma familiaridade difícil de explicar. Aquela jovem era assim.
Viviane percebeu que gostava dela.
Gostou ainda mais quando apareceu humor.
Uma resposta sobre conhecer os defeitos do prédio a fez sorrir. Outra sobre ser teimosa revelou um traço que Viviane imediatamente reinterpretou como persistência. Não havia arrogância na moça, mas havia confiança suficiente para não se curvar. Era uma combinação de que Viviane sempre gostara.
Por alguns instantes, pensou em quantas mulheres como aquela gostaria de ter encontrado quando era mais jovem.
Talvez por isso tenha se apresentado apenas no final.
— Viviane.
A jovem respondeu:
— Helena.
O nome ficou.
Helena.
Viviane repetiu mentalmente uma vez. Bonito nome.
Conversaram ainda alguns minutos e, quando se despediu, Viviane já tinha certeza de que queria encontrá-la de novo. Não sabia exatamente em qual área trabalhava. Não perguntou quem era o gestor. Não quis transformar uma conversa agradável numa entrevista improvisada.
Só saiu da copa pensando que a Fort Group tinha acertado naquela contratação.
Não percebeu a ironia.
Voltou à própria sala e retomou os documentos.
Pouco tempo depois, a boa impressão sobre Helena foi engolida por números que simplesmente não fechavam.
Viviane leu uma vez.
Depois outra.
Abriu uma planilha.
Comparou datas.
O problema não era necessariamente erro.
Era atraso.
Alguns relatórios ainda precisavam passar por compliance antes do fechamento do dia seguinte, e a situação estava apertada demais para o gosto dela. Antônio dizia desde sempre que funcionava bem sob pressão. Viviane dizia desde sempre que deixar trabalho importante encostar no prazo não era funcionar bem sob pressão; era criar pressão por irresponsabilidade.
Reuniu os documentos.
Ligou para a sala dele.
Nada.
Mandou mensagem.
Nenhuma resposta imediata.
Levantou.
Iria encontrá-lo.
Caminhou pelo corredor ainda lendo enquanto avançava, revisando mentalmente quais partes precisavam ser corrigidas e em qual ordem. Estava irritada o suficiente para esquecer completamente a mulher misteriosa do carro, Helena da copa e qualquer assunto que não envolvesse os papéis em suas mãos.
Ouviu a voz de Antônio antes de vê-lo.
Não prestou atenção nas palavras.
Continuou andando.
— Antônio, esses relatórios não estão fechando. — a frase saiu antes mesmo de erguer os olhos.
Antônio respondeu alguma coisa sobre já ter visto e estar sob controle.
Viviane folheou outra página.
“Sob controle.”
Ela respondeu com a secura habitual, lembrando que controle não era sinônimo de atraso, e só então levantou o rosto.
Viu Helena.
A irritação desapareceu quase instantaneamente.
— Helena. — o sorriso veio genuíno.
A moça sorriu de volta.
Viviane sentiu novamente aquela satisfação boba de reencontrar alguém de quem tinha gostado algumas horas antes.
Foi só depois que percebeu Antônio. Não simplesmente a presença dele. O jeito como estava olhando.
Viviane conhecia aquele rosto desde o instante em que nascera.
Conhecia o sorriso profissional. O divertido. O arrogante. O satisfeito depois de fechar um negócio. O que usava quando queria alguma coisa. O que escondia quando estava magoado.
Aquele era diferente.
Mas familiar demais à noite anterior.
Viviane olhou para Antônio, depois para Helena e voltou para Antônio.
O filho pareceu genuinamente surpreso ao descobrir que as duas se conheciam.
Aquilo afastou uma hipótese e criou outra.
Ele não tinha planejado aquele encontro.
Helena também não.
Viviane sentiu alguma coisa começar a se encaixar, mas ainda não sabia exatamente o quê.
Antônio fez as apresentações formais.
Primeiro apresentou Viviane com aquele exagero respeitoso que sempre usava quando queria lembrar aos outros do peso da mãe dentro da Fort Group. Depois apresentou Helena.
Analista-chefe.
Criadora do projeto de Controles Internos.
Responsável pela implantação.
Viviane olhou para a jovem novamente.
“Então era ela.”
A profissional de quem Antônio falara tanto nas últimas semanas. A cabeça por trás daquele projeto que o tinha feito alterar agenda, permanecer em Campinas e insistir numa contratação presencial no Rio.
Isso, por si só, explicava parte do interesse dele.
Parte.
Viviane sentiu orgulho da própria primeira impressão. Tinha gostado de Helena sem currículo, cargo ou contexto. Agora descobria que a moça também era a profissional brilhante que despertara a atenção técnica do filho.
Excelente!
Convidou-a para almoçar quase imediatamente. Queria falar do projeto. Queria conhecê-la mais.
E então Antônio se adiantou. Helena já iria almoçar com ele.
Viviane virou lentamente o rosto para o filho.
Ali alguma coisa finalmente fez barulho dentro da cabeça.
Não certeza. Ainda não.
Mas barulho.
Antônio estava interessado demais. Rápido demais.
Na noite anterior tinha passado horas falando de uma mulher. Na manhã daquele mesmo dia passara o trajeto inteiro retomando o assunto.
Agora estava ali, praticamente marcando território sobre um almoço com uma funcionária terceirizada que, por coincidência, era bonita, inteligente, respondona e exatamente o tipo de pessoa que Viviane conseguia imaginar despertando nele aquela espécie de fascínio.
“Não.”
Seria coincidência demais.
Viviane quase sorriu.
Antes que pudesse testar a ideia, Helena recusou o convite.
Tinha outro compromisso.
Com Heitor da Monteiro Inc.
O nome do rival entrou na conversa e a mente empresarial de Viviane assumiu antes que qualquer curiosidade materna tivesse tempo de se desenvolver.
Helena ainda prestava serviço para a Monteiro.
A reação foi imediata.
Como Antônio tinha permitido aquilo? Por que não havia exclusividade? Um projeto daquela importância, conduzido por alguém daquela qualidade, circulando simultaneamente entre empresas concorrentes?
Viviane voltou-se para o filho e o repreendeu sem cerimônia.
Antônio se defendeu depressa demais.
Disse que não achava correto obrigar ninguém.
Viviane ficou olhando.
“Obrigar?”
Desde quando Antônio transformava cláusula comercial em questão filosófica sobre liberdade individual?
Mais uma peça.
Helena interveio antes que Viviane aprofundasse. Com calma. Sem se intimidar. Disse que era perfeitamente capaz de conduzir ambos os trabalhos e que a Fort não seria prejudicada.
Viviane estudou o rosto dela enquanto falava.
Qualquer outra pessoa talvez tivesse interpretado aquilo como insolência.
Viviane gostou ainda mais.
Não porque a resposta lhe desse razão contratual. Não dava. Mas porque Helena sustentava o que dizia. Não pediu desculpas por ser boa o suficiente para ter dois clientes. Não recuou diante do sobrenome. Não tentou agradar a antiga CEO da empresa.
Viviane acabou sorrindo.
A discussão sobre exclusividade poderia ficar para depois.
Despediu-se de Helena com carinho espontâneo e, ao afastar-se, virou-se para Antônio.
Agora queria almoço.
Com o filho, sozinho.
— Você vai almoçar comigo.
A expressão de Antônio confirmou mais do que qualquer resposta.
Contrariedade.
Ele queria ficar.
Queria Helena.
Viviane observou enquanto ele se despedia dela, tentando esconder a frustração sob o sorriso habitual.
Só quando começaram a caminhar pelo corredor foi que a ideia voltou inteira.
A mulher misteriosa.
Viviane diminuiu um pouco o passo.
Olhou de lado para o filho.
Antônio caminhava em silêncio, claramente incomodado por ter seus planos de almoço destruídos.
Ela pensou no carro naquela manhã e em tudo que Antônio tinha falado.
Viviane quase parou no meio do corredor.
“Meu Deus!”
Não tinha certeza ainda.
Mas começava a suspeitar.
E, se estivesse certa, Antônio Fortenelle tinha passado horas descrevendo para a própria mãe justamente a mulher que Viviane acabara de conhecer e gostar espontaneamente sem fazer a menor ideia de quem era.
Aquilo era quase bom demais.
Viviane não disse nada.
Ainda.
Apertou os documentos contra o peito e continuou andando ao lado dele com a expressão mais neutra que conseguiu fabricar.
Teria o almoço inteiro.
E Antônio nunca fora tão bom em esconder alguma coisa da mãe quando Viviane já sabia qual pergunta precisava fazer.
Viviane saiu do almoço com Antônio numa disposição que há muito tempo não sentia por causa da vida amorosa do filho. Tentara manter alguma dignidade enquanto ele falava de Helena, fizera perguntas sensatas, lembrara mais de uma vez a si mesma que conhecia aquela moça havia poucas horas e que Antônio, por mais encantado que estivesse, também a conhecia havia pouquíssimo tempo, mas nada disso impediu que uma alegria quase juvenil se instalasse nela. Helena parecia uma boa mulher, e talvez essa fosse justamente a parte que mais a animava. Viviane tinha gostado dela antes de descobrir qualquer relação com Antônio, antes de saber que era a profissional cuja contratação o filho defendera com tanta insistência, antes de perceber que aquela era a mesma mulher misteriosa sobre quem ele falara durante quase toda a noite anterior. Tinham se encontrado por acaso na copa, duas mulheres sem contexto suficiente para moldar a primeira impressão, e o santo simplesmente batera.
Helena era educada sem ser servil, inteligente sem precisar exibir inteligência a cada frase, tinha uma segurança que Viviane reconhecia de longe e, sobretudo, parecia gostar do que fazia. Depois viera a confirmação de que não era apenas impressão: era a autora do projeto que havia conseguido chamar a atenção de Antônio em Campinas, uma profissional que sustentara perguntas difíceis, que tinha chegado à Fort Group por mérito e que aparentemente ainda nem percebia o tamanho da possibilidade que existia diante dela. Viviane conhecia talento. Passara décadas encontrando pessoas capazes em lugares onde outros procuravam apenas currículos bonitos, e havia alguma coisa em Helena que lhe dizia que aquela moça, se tivesse oportunidade e direção, poderia ir muito longe. Isso já seria suficiente para que quisesse mantê-la por perto profissionalmente. O fato de Antônio olhar para ela como se tivesse encontrado a única pessoa interessante numa sala cheia apenas tornava tudo mais tentador.
Só havia uma pedra que Viviane não conseguia tirar do sapato: Heitor Monteiro. Tentou afastar o incômodo assim que ele apareceu, dizendo a si mesma que aquilo era absurdo. Antônio e Heitor eram homens feitos, não os adolescentes que um dia tinham transformado rivalidade em violência e obrigado duas famílias inteiras a recolher os pedaços depois. Helena também era adulta, perfeitamente capaz de decidir com quem queria estar, e aquela escolha deveria encerrar o assunto. Se ela amasse Heitor e quisesse permanecer com ele, Antônio teria de respeitar. Se um dia deixasse de amá-lo e olhasse para Antônio de outra maneira, Heitor teria de fazer o mesmo. Era assim que pessoas maduras deveriam funcionar, e Viviane quase conseguiu se convencer de que bastava confiar nisso, mas o sobrenome Monteiro nunca chegava sozinho à memória.
Trazia Heitor adolescente e o rosto ensanguentado de Antônio; trazia anos em que ela acreditara que os problemas da Fort Group estavam dentro da própria empresa, enquanto Renato Monteiro movimentava relações, bancos, fornecedores e influências sem precisar deixar impressão digital em lugar algum; trazia a sensação humilhante de descobrir tarde demais que competência, dinheiro e legalidade não protegiam ninguém de um adversário que entendia poder melhor do que você. E trazia Celina. Talvez essa lembrança fosse a mais difícil porque não vinha apenas carregada de rancor. Houvera amizade ali. Houvera confiança, conversas, risos, eventos em que as duas se procuravam no salão, uma intimidade construída antes que os filhos transformassem tudo numa fronteira. Viviane não gostava de admitir quanto havia perdido quando perdera Celina, mas também nunca conseguira esquecer que, quando precisara escolher entre a amizade e o filho ferido, não existira escolha nenhuma. O tempo havia seguido, todos haviam envelhecido, a rivalidade empresarial entre Antônio e Heitor se tornara muito mais civilizada do que fora na juventude, e talvez justamente por isso Viviane quisesse acreditar que Helena não precisava ressuscitar nada daquilo.
Essa prudência durou pouco diante da animação de Antônio. O filho tentava disfarçar, mas perguntava demais sobre o que Viviane tinha achado dela, queria saber se Helena lhe parecera competente, se a mãe havia percebido como pensava rápido, se concordava que aquela metodologia tinha potencial e se tinha gostado de conversar com ela. Antônio embrulhava cada pergunta em justificativas profissionais, e Viviane deixava porque achava quase comovente vê-lo tentando transformar deslumbramento em análise técnica.
Ele já tivera mulheres. Algumas tinham sido importantes, outras passageiras, algumas tinham entrado na mansão, conhecido Viviane, participado de jantares e festas familiares, e duas talvez tivessem chegado perto de construir alguma coisa realmente duradoura. Nunca, porém, Viviane o vira tão interessado em detalhes tão pequenos de alguém que acabara de conhecer. Antônio falava de Helena como se estivesse diante de um problema fascinante que desejava resolver e ainda não tivesse percebido que o verdadeiro problema era ter vontade de continuar olhando para ele.
Viviane começou a imaginar Helena dentro da Fort por muitos anos e precisou admitir que gostava da imagem. Não lhe daria uma carreira por causa do filho, essa possibilidade seria um insulto tanto a Helena quanto à própria história de Viviane, mas, se a jovem entregasse aquilo que já parecia capaz de entregar, haveria espaço. Muito espaço. E, trabalhando diariamente ao lado de Antônio, conheceria um homem que Heitor provavelmente jamais descrevera para ela: não apenas o rival arrogante, provocador e competitivo, mas o profissional extraordinário, o filho que ainda ligava para a mãe, o homem que podia atravessar uma reunião destruindo argumentos e poucas horas depois passar quarenta minutos massageando o focinho de um cavalo porque achava que o animal parecia inquieto.
Talvez Helena percebesse. Talvez se apaixonasse. Viviane tentou não sorrir quando esse pensamento surgiu, falhou miseravelmente e, dali para uma família inteira imaginada, precisou de pouquíssimo esforço. Os dois seriam bonitos demais juntos. Os filhos então... Viviane chegou a imaginar uma menina morena de olhos verdes correndo pela mansão, depois um menino com os cabelos loiros de Antônio e o temperamento de Helena, e teve de se repreender mentalmente. Conhecera a mulher naquela manhã e já estava distribuindo netos inexistentes pelos corredores. Era ridículo. Também era agradável. Antônio reclamaria que ela estragava as crianças e Viviane responderia, naturalmente, que avós existiam para isso.
No fim da tarde, quando voltou para casa para se arrumar para uma exposição que havia prometido prestigiar, Helena ainda apareceu algumas vezes em seus pensamentos. Viviane decidiu que a convidaria para ir ao clube naquela semana. Não precisava transformar aquilo numa operação de aproximação para Antônio; queria realmente conhecê-la melhor. Talvez Helena gostasse de cavalos. Talvez não soubesse montar e Viviane pudesse ensiná-la. Talvez Antônio aparecesse por coincidência, embora até ela soubesse que uma coincidência organizada deixava de merecer esse nome.
Sorriu diante do espelho enquanto colocava os brincos e pensou que não havia mal algum em dar ao filho uma pequena ajuda. Não podia fazer Helena gostar dele, nem pretendia. Mas podia permitir que os dois estivessem no mesmo ambiente sem a sombra permanente da empresa ou de Heitor. Se existisse alguma coisa ali, descobriria espaço sozinha. A ideia a deixou tão leve que Viviane chegou à exposição genuinamente bem-humorada, cumprimentou conhecidos, parou diante de algumas obras, aceitou uma taça e ouviu com uma expressão educada a explicação longa de um curador sobre uma instalação que continuou achando feia mesmo depois de entender o conceito. Foi apenas quando atravessou para outra área da galeria que o corpo inteiro pareceu reconhecer alguém antes que a mente formulasse o nome. Celina.
Viviane conhecia aquela postura de longe. Celina continuava impecável, com a elegância que nunca fora construída apenas por roupa cara, mas por uma vida inteira em ambientes onde todos observavam todos. Por um breve instante, Viviane considerou mudar de direção. Não por medo ou insegurança; apenas não estava com vontade de terminar uma noite agradável medindo palavras com uma mulher que conhecia antigas feridas demais. Então viu quem caminhava ao lado dela e parou. Helena. A surpresa durou pouco, porque fazia sentido. Namorada de Heitor, naturalmente teria relação com Celina, e aquilo não deveria produzir reação alguma além de uma constatação simples. Mesmo assim, produziu.
Talvez porque, até aquele instante, Helena ainda existisse na cabeça de Viviane como uma figura nova, uma mulher que entrara na Fort Group, encantara Antônio e sobre quem ela começara a imaginar possibilidades. Vê-la ao lado de Celina fazia surgir ao redor dela uma moldura Monteiro que Viviane não queria enxergar. Observou a maneira como as duas caminhavam, a familiaridade, o modo como Helena parecia ter sido incorporada ao ambiente sob a orientação experiente de Celina, e precisou lembrar a si mesma que Helena não pertencia àquela família apenas porque namorava Heitor. Não pertencia a família alguma. Era uma mulher. Só que memórias antigas nem sempre esperavam autorização da parte racional para reagir.
A aproximação aconteceu como no passado aconteciam quase todos os encontros entre Viviane e Celina depois do rompimento: elegância perfeita cobrindo uma tensão reconhecida pelas duas. Viviane cumprimentou primeiro com cortesia, mas o sorriso que ofereceu a Helena foi completamente sincero e cresceu ainda mais ao perceber a alegria espontânea da moça em revê-la. Por alguns segundos, isso bastou para neutralizar todo o restante. Helena continuava Helena, a jovem de quem Viviane gostara na copa, e não uma peça em qualquer tabuleiro. O problema foi Celina falar. Não precisou dizer nada grosseiro; jamais precisaria. Bastou apresentar Helena com aquela ênfase cuidadosa na posição de namorada do filho, mostrar o anel, mencionar Heitor e deixar o pertencimento implícito no tom.
Viviane reconheceu imediatamente a linguagem porque também a falara uma vida inteira nos círculos em que ambas cresceram. Era a forma socialmente aceitável de fincar uma pequena bandeira: ela está conosco. Isso despertou uma irritação tão rápida que, quando percebeu, Viviane já estava devolvendo. Comentou o quanto Antônio falara de Helena, o quanto a admirava profissionalmente, viu a mudança quase imperceptível na expressão de Celina e sentiu aquela satisfação antiga de quem ainda sabia exatamente onde pressionar. O pior foi reconhecer o prazer. Décadas antes, poderiam estar ali juntas observando outras pessoas e trocando comentários silenciosos; agora cada frase carregava os filhos. Antônio e Heitor não estavam na galeria, mas ocupavam o espaço inteiro entre as duas.
Viviane tentou se lembrar de tudo que pensara durante a tarde — que Helena não era prêmio, que homens adultos deveriam respeitar escolhas, que ela própria passara uma vida lutando para que mulheres fossem reconhecidas por aquilo que eram e não pelos homens aos quais estavam ligadas —, mas bastou Celina insinuar que a Fort Group, ou Antônio, cobiçava algo que já pertencia aos Monteiro para o velho instinto surgir inteiro. A palavra pertencimento atingiu Viviane num lugar que Celina provavelmente nem imaginava.
Gregório também acreditara que uma esposa pertencia ao marido. Durante anos tinha usado casamento como autorização para decidir, pressionar, vigiar e ferir. Viviane aprendera da pior maneira que amor não transformava ninguém em propriedade. Por isso quase deveria ter respondido apenas que Helena não pertencia a Heitor nem a Antônio, que faria as próprias escolhas e que as duas mães não tinham absolutamente nada a decidir naquele assunto. Essa teria sido a resposta correta. Não foi a que deu. Era Celina diante dela, havia Renato por trás de décadas de ressentimento, havia Antônio encantado por aquela jovem e havia uma parte de Viviane que já tinha imaginado netos antes mesmo de terminar a sobremesa.
Então respondeu como Fortenelle. Falou de escolhas, de vínculos que se formavam, de destinos capazes de mudar, e percebeu no mesmo instante que começava a desejar uma vitória que algumas horas antes jurara não transformar em competição. Celina lembrou o fato simples de que Helena escolhera Heitor. Viviane olhou para a jovem e soube que aquilo era verdade. Helena usava o anel dele, estava ali com a mãe dele, amava-o o suficiente para defendê-lo mesmo quando estava ferida. Essa deveria ter sido a conclusão. Em vez disso, Viviane sentiu a antiga competitividade levantar a cabeça e devolveu mais uma provocação sobre quem saberia o que o futuro reservava.
Saiu daquela conversa ainda ereta, impecável, sem oferecer a Celina a satisfação de qualquer recuo, mas já arrependida antes de atravessar metade do salão. Parou diante de uma pintura e demorou alguns segundos para perceber que não estava olhando para ela. Sentia raiva de Celina, naturalmente, mas a irritação maior começava a se voltar contra si mesma. Passara o almoço inteiro dizendo a Antônio, direta ou indiretamente, que Helena era uma pessoa e deveria escolher livremente.
Passara décadas defendendo mulheres dentro da Fort Group, criando espaço para que não fossem apenas esposas, filhas, namoradas ou extensões de homens poderosos. E bastara reencontrar Celina com Helena ao lado para que ela própria começasse a enxergar aquela moça como “a possível nora”, “a mulher que Antônio queria”, “a namorada de Heitor”, qualquer definição menos Helena. Aquilo a desagradou profundamente. Não porque deixasse de torcer pelo filho. Era mãe, não santa. Se Antônio estava realmente se apaixonando por uma mulher boa, Viviane desejaria com toda a força que fosse correspondido.
E, se algum dia Helena olhasse para ele e o escolhesse, Viviane provavelmente seria capaz de comemorar durante uma semana. Mas teria de ser escolha. Não poderia ser uma revanche contra Heitor, muito menos contra Renato ou Celina. Não poderia servir para reparar a adolescência de Antônio, a quase ruína da Fort Group ou uma amizade destruída. Helena não devia nada à história de nenhuma daquelas famílias.
Já em casa, muitas horas depois, Viviane ficou diante do espelho retirando os brincos e pensando justamente nisso. Ainda queria convidar Helena ao clube. Ainda queria conhecê-la melhor. Ainda achava que aquela jovem teria um futuro extraordinário se escolhesse permanecer na Fort Group e continuava achando bastante agradável imaginar que esse futuro poderia incluir Antônio. Também continuava imaginando netos, porque havia limites para a racionalidade de qualquer mulher e Viviane não tinha intenção alguma de fingir santidade diante de si mesma. O que mudara era apenas a consciência do terreno sobre o qual estava pisando. Conhecia os Monteiro bem demais para tratar qualquer reaproximação entre aquelas famílias como algo inocente. Conhecia Antônio ainda melhor e sabia que o filho carregava feridas antigas em lugares que nem sempre reconhecia. E conhecia a si própria o suficiente para admitir que Celina ainda conseguia arrancar dela uma versão que Viviane julgava ter deixado para trás. Pensou em ligar para Antônio e contar sobre o encontro, mas desistiu antes de pegar o telefone. Não queria alimentar a rivalidade naquela noite. Não queria ouvir uma provocação sobre Heitor ou permitir que o fato de Helena estar com Celina transformasse uma atração recente numa disputa familiar ainda maior. Deixaria quieto.
Apagou a luz e permaneceu algum tempo olhando para o teto, tentando se convencer de que provavelmente exagerava. Antônio e Heitor eram adultos agora. Tinham carreiras, responsabilidades, vidas próprias. Helena não era uma adolescente presa entre dois rapazes. Celina e Viviane também não precisavam repetir erros antigos apenas porque os filhos se interessavam pela mesma mulher. O passado não estava condenado a voltar simplesmente porque algumas pessoas se encontravam outra vez. Seria diferente. Precisava ser.
E Viviane quase conseguiu acreditar inteiramente nisso antes de dormir. O que não sabia — o que nenhum deles sabia ainda — era que guerras raramente começam quando alguém anuncia que pretende travar uma. Às vezes começam com coisas muito menores: um homem que olha demais para uma mulher, outro que percebe; uma mãe que imagina netos cedo demais; outra que coloca um anel diante dela como se fosse uma bandeira; duas antigas amigas que sabem exatamente onde a outra ainda dói. Naquela noite, Viviane acreditou que todos seriam maduros o suficiente para parar antes que aquilo crescesse. Afinal, já tinham perdido demais uma vez. O que ela ainda não compreendia era que conhecer o preço de uma guerra nunca impediu completamente alguém de entrar em outra.
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