O CEO que Eu Paguei

278 Cinco Mulheres e um Humberto


O dia das entrevistas finalmente chegou, e Helena praticamente não dormiu.

Heitor sabia disso porque acordara mais de uma vez durante a noite e, em todas elas, encontrara a noiva acordada. Numa, Helena estava deitada de costas para ele, olhando para o teto. Em outra, mexia no celular com o brilho quase no mínimo. Quando ele perguntou o que estava fazendo, ela respondeu apenas que estava lendo. Heitor nem quis saber o quê. Depois descobriu que, durante a semana anterior, Helena havia consumido praticamente todo tipo de história envolvendo babás que a internet conseguia oferecer. Começara inocentemente com filmes infantis, passara por comédias, dramas e, em algum momento inexplicável, chegara aos de terror.

Na opinião de Heitor, aquilo tinha sido uma péssima estratégia de preparação.

Na opinião de Helena, era importante conhecer todas as possibilidades.

— Você assistiu a um filme em que a babá tenta matar a família — ele lembrara na noite anterior.

— Exatamente.

— Em que isso ajuda?

— A ficar atenta.

— A quê? Se ela chegar aqui com uma faca?

Helena mandara que ele parasse de fazer piada.

Naquela manhã, porém, Heitor teve bom senso suficiente para não tocar novamente no assunto. Helena já estava ansiosa por conta própria e, para piorar, parecia particularmente incomodada com a tranquilidade dele. Heitor estava calmo porque, para ele, aquilo era um processo seletivo. Um processo seletivo extremamente importante, obviamente, porque a pessoa escolhida entraria em sua casa e ajudaria a cuidar de seu filho, mas ainda assim havia critérios, referências, perguntas e etapas. Não precisavam decidir nada naquele dia e, se nenhuma das cinco mulheres parecesse adequada, procurariam outras.

Tinham acabado optando por concentrar as entrevistas no mesmo dia. Entre uma candidata e outra, Heitor trabalharia de casa. O projeto da nova filial estava a todo vapor e vinha consumindo boa parte de seus dias; naquela semana, mais de uma vez chegara em casa e seguira direto para o escritório da mansão porque ainda tinha reunião. Por isso, achara mais simples bloquear aquele dia fora da sede. Participaria das entrevistas e, nos intervalos, responderia o que precisasse pelo celular e pelo notebook.

Helena, por sua vez, preparara-se como se estivesse prestes a contratar a futura presidente da Monteiro Inc.

Celina havia lhe dado tantas orientações que ela as organizara, imprimira algumas cópias e entregara uma a Heitor naquela manhã. Ele recebeu as folhas sem reclamar e leu tudo com atenção, apoiado na bancada enquanto tomava café.

A principal recomendação de Celina era simples: não entrevistar primeiro com o coração.

Referências e antecedentes já haviam sido verificados antes de qualquer candidata chegar até eles. Agora precisavam conhecer experiência profissional, disponibilidade de horários, conhecimento de primeiros socorros, rotina nas famílias anteriores, idade das crianças de quem haviam cuidado, responsabilidades que assumiam e, principalmente, os motivos pelos quais cada vínculo havia terminado. Primeiro viriam as informações. A simpatia entraria depois.

Celina também fora bastante direta sobre um dos medos de Helena.

— Você não está procurando uma amiga — dissera. — Nem uma segunda mãe para o Humberto. Está contratando uma profissional para ajudar vocês.

Helena fizera uma careta imediatamente ao ouvir segunda mãe.

Celina levantara a mão antes mesmo que ela protestasse.

— Foi justamente por isso que eu falei. Para você parar de pensar assim.

Heitor sorriu sozinho quando chegou àquela anotação.

— Minha mãe te conhece mesmo.

— Não começa.

Ele continuou lendo.

Helena havia acrescentado algumas observações próprias e, quando Heitor terminou, ela ainda fez questão de explicar todo o processo outra vez.

— Primeiro a gente conversa sozinho com ela. O Humberto fica lá em cima.

— Certo.

— Se a gente se sentir confortável, pede para trazerem ele.

— Certo.

— Mas ninguém vai pegar ele imediatamente.

— Certo.

Helena estreitou os olhos.

— Você está prestando atenção?

Heitor levantou as folhas.

— Li tudo.

— Então para de responder só “certo”.

Ele segurou o sorriso.

— Pode continuar.

Helena respirou fundo.

— Ninguém tem obrigação de pegar o Humberto. Não quero esses testes ridículos de internet também. Nada de entregar ele para a pessoa e ver o que ela faz, nada de sair escondido do cômodo, nada de deixar ele chorar para avaliar reação...

— Concordo.

Dessa vez o tom dele fez Helena relaxar um pouco.

— Primeiro a gente observa como ela fala com ele. Como se aproxima. Se respeita o espaço dele.

— Perfeito.

— E se eu não gostar de alguma coisa...

— Você pergunta.

Helena olhou para ele.

— E se você não gostar?

— Eu também pergunto.

— Heitor...

— O quê?

— Dependendo do que for, não pergunta na hora. Se eu ficar desconfortável, eu te falo depois. Não quero que você constranja a mulher.

Heitor ergueu as sobrancelhas.

— Eu não vou constranger ninguém.

Helena apenas o encarou.

— Que foi?

— Você sabe como você é entrevistando gente.

— Eu sou excelente entrevistando gente.

— Você faz uma pergunta e fica olhando para a pessoa em silêncio até ela começar a confessar coisas que você nem perguntou.

Heitor riu.

— Técnica.

— Intimidação.

— Experiência.

Helena balançou a cabeça.

— Se acontecer alguma coisa que me deixe desconfortável, eu só vou olhar para você.

— Beleza.

Ela ficou alguns segundos em silêncio.

— E você vai entender?

Heitor finalmente largou as folhas sobre a bancada e olhou para ela como se tivesse acabado de ouvir uma ofensa pessoal.

— Helena, por favor. Eu sou um superentendedor de você.

Ela começou a sorrir.

— Um quê?

— Superentendedor. Tenho um dicionário interno da Helena. Completo. Atualizado diariamente.

— Ah, tem?

— Tenho. Cara de brava, cara de “quero ir embora”, cara de “se você abrir a boca eu te mato”, cara de “não gostei dessa mulher”...

— Essa última nem existe ainda.

— Quando existir, eu vou reconhecer.

Helena finalmente riu, e Heitor sentiu que pelo menos parte da tensão tinha cedido.

Aproximou-se dela.

— Relaxa um pouco, amor. A gente tá junto nisso.

— Você fala como se fosse fácil.

— Pra mim entrevista é fácil. Dependendo do cargo, a última etapa passa por mim. Já entrevistei gente pra caralho.

— Nenhuma para cuidar do seu filho.

Aquilo era verdade.

Heitor assentiu.

— Nenhuma. Por isso você vai estar comigo.

A resposta fez Helena ficar quieta.

Ele passou as mãos pela cintura dela e só então reparou melhor em como estava vestida. Helena escolhera tons claros, e Heitor gostava especialmente deles nela. Havia um contraste bonito com sua pele que sempre chamava sua atenção.

— Aliás, você tá linda.

Helena estreitou os olhos, percebendo a mudança de assunto.

— Heitor...

— Tô falando sério. Esses tons claros ficam lindos em você.

— Para de tentar me distrair.

Ela empurrou seu peito, mas Heitor nem saiu do lugar. Em vez disso, segurou sua cintura e a puxou de volta.

— Não tô te distraindo.

— Tá sim.

— Tô acalmando a entrevistadora.

— Me solta.

— Não.

Helena tentou esconder o sorriso e Heitor se inclinou, beijando-a antes que ela inventasse outra preocupação. Ela ainda manteve as mãos contra seu peito por um instante, mas logo relaxou e correspondeu. Quando se afastaram, Heitor deixou a testa encostada na dela.

— Escuta. A gente não é obrigado a escolher ninguém hoje.

Helena suspirou.

— Eu sei.

— Se você não gostar das cinco, procura mais cinco. Se não gostar dessas, procura outras. Não tem prêmio pra quem contratar babá mais rápido.

Ela passou os braços ao redor dele.

— Você está muito tranquilo.

— Alguém precisa estar.

— Isso está me irritando um pouco.

Heitor riu e apertou Helena contra si.

— Eu percebi.

Ela levantou o rosto e lhe deu outro beijo, dessa vez por iniciativa própria.

Heitor sorriu contra seus lábios.

— Melhorou?

— Um pouquinho.

— Excelente. Até a quinta entrevista eu resolvo.

— Convencido.

— Superentendedor.

Helena riu baixinho e voltou a abraçá-lo.

Heitor passou a mão por suas costas, deixando-a ficar ali pelo tempo que quisesse.

A primeira candidata ainda nem tinha chegado.

Não havia motivo nenhum para Helena decidir o futuro inteiro naquela manhã.

Por enquanto, eles só precisavam conhecer cinco mulheres.

O resto fariam juntos.

Vera foi a primeira.

Aos cinquenta e dois anos, tinha quase três décadas de experiência como babá e dois vínculos profissionais que, somados, chegavam perto de dezessete anos. Não demorou para Helena perceber que a segurança daquela mulher não vinha dos cursos que apareciam no currículo, embora houvesse vários, mas da quantidade de vezes que provavelmente já precisara resolver exatamente os problemas sobre os quais eles perguntavam. Vera já tinha cuidado de bebê que não dormia, que não comia, que mordia, que prendia a respiração de raiva; acompanhara crianças até a escola, atravessara fases difíceis e permanecera tempo suficiente em algumas casas para chegar à adolescência. Respondia sem pressa e sem a preocupação de encontrar a resposta mais bonita.

— A senhora prefere trabalhar com bebês? — Helena perguntou.

— Prefiro.

— Por quê?

Vera pensou antes de responder.

— Porque eles não mentem.

Helena ergueu as sobrancelhas.

— Criança mente?

— Depois de certa idade? — Vera sorriu. — Nossa Senhora.

Helena riu, e percebeu Heitor abaixar os olhos para a folha para esconder o próprio sorriso. Ele estava diferente do Heitor que, minutos antes, brincara com ela na cozinha. Não distante; apenas concentrado. A postura parecia naturalmente mais séria, a caneta permanecia entre os dedos e, sempre que uma resposta lhe interessava, ele deixava a candidata terminar antes de fazer outra pergunta. Helena já o tinha visto trabalhar o suficiente para reconhecer aquele lado dele. Era o Heitor CEO, só que, de vez em quando, a mão dele tocava discretamente seu joelho ou os olhos encontravam os dela, lembrando-a de que estavam fazendo aquilo juntos.

Vera continuou:

— Bebê não. Se está com fome, reclama. Se está cansado, reclama. Se está assustado, reclama. O problema é a gente descobrir qual reclamação é qual.

Helena gostou da resposta.

Gostou menos quando chegaram ao assunto do sono. Não porque Vera tivesse ideias absurdas; pelo contrário. Ela acreditava em rotina, não gostava de televisão perto de bebê, achava algumas técnicas modernas rígidas demais e não era favorável a deixar uma criança pequena chorando sozinha. Ainda assim, quando Helena perguntou se seguiria uma orientação dos pais mesmo que discordasse, Vera inclinou um pouco a cabeça.

— Depende.

— De quê?

— De quanto tempo ele está chorando, por quê, qual a idade. Tem diferença entre uma criança reclamar porque não quer dormir e um bebê se desesperar sozinho.

Heitor entrou na conversa.

— E quem decide onde está essa diferença?

Vera virou-se para ele, um pouco mais cuidadosa.

— Os pais.

Heitor não disse nada, e Helena quase sorriu. Conhecia aquele silêncio. Não era uma armadilha; ele simplesmente não completava a resposta pelos outros.

Vera também percebeu.

— Mas, se vocês me perguntarem minha opinião, eu vou dar. — continuou ela.

— E se eu não perguntar?

— Aí depende se eu acho que é só uma escolha diferente da minha ou se existe algum risco.

Heitor apoiou a caneta sobre a folha.

— Me dá um exemplo.

Vera contou sobre uma família para quem trabalhara anos antes. O bebê dormia melhor de bruços e os pais haviam insistido para que ela o colocasse daquela maneira. Vera se recusara.

— A mãe ficou brava comigo.

— E você fez o quê? — Heitor perguntou.

— Continuei não colocando.

— Mesmo sabendo que podia perder o emprego?

— Podia.

— E faria de novo?

— Faria.

Helena olhou para Heitor e encontrou o olhar dele por um instante. Não precisaram dizer nada. Ela sabia que aquela resposta tinha contado muitos pontos com ele.

O celular sobre a mesa acendeu antes que Heitor pudesse fazer a próxima pergunta. Helena viu o nome de alguém surgir na tela, mas ele nem pegou o aparelho. Apertou o botão lateral para silenciá-lo e voltou a atenção para Vera.

Aquilo aconteceu novamente alguns minutos depois.

Heitor não comentou.

Helena também não.

Quando trouxeram Humberto, qualquer tentativa de manter a entrevista completamente formal terminou. O menino entrou no colo de uma das funcionárias com uma expressão muito séria, olhando ao redor como se tivesse sido convocado para uma reunião cuja pauta não lhe fora informada. Então viu Helena.

O rosto inteiro se transformou.

— Meu amor!

Helena abriu os braços e Humberto imediatamente começou a mexer pernas e braços, sorrindo tão grande que ela também sorriu antes mesmo de pegá-lo.

— Esse aí sabe quem manda — Vera comentou.

— Sabe — Helena respondeu, ajeitando-o no colo. — E é ele.

Humberto soltou um gritinho, satisfeito por ter se tornado assunto.

— Ah, é conversador também.

Ele respondeu.

Vera olhou seriamente para ele.

— Entendi tudo.

Humberto ficou encarando-a por alguns segundos e então sorriu.

Helena conhecia o filho. Aquilo não significava aprovação definitiva de ninguém; Humberto distribuía simpatia com uma facilidade quase ofensiva. Ainda assim, gostou de ver que Vera não tentou conquistá-lo fazendo festa. Conversou com ele de onde estava e esperou até Helena perguntar se queria pegá-lo.

Foi quando a experiência dela realmente apareceu.

Vera recebeu Humberto com uma naturalidade impressionante. Não ficou reajustando o corpo dele nem procurando onde apoiar a cabeça ou as costas; simplesmente sabia como segurá-lo. Humberto, que não tinha qualquer respeito por currículos, imediatamente se interessou por um botão de sua blusa.

— Esse não.

Vera afastou a mãozinha.

Humberto tentou novamente.

— Não adianta.

Tentou uma terceira vez.

— Você é insistente.

A boca dele se entortou.

Helena conhecia aquela cara.

— Agora ele vai reclamar.

— Vai?

E foi exatamente o que fez. Primeiro veio um som baixo. Depois outro. Vera ofereceu o dedo, tentou mudar o foco, mas Humberto não queria substitutos. Queria o botão. Quando percebeu que realmente não teria, começou a reclamar com mais vontade e arqueou o corpo.

Helena abriu os braços quase sem pensar.

Vera ainda tentou acomodá-lo.

— Calma, rapaz.

Foram talvez dois segundos.

Pouquíssimo.

Mesmo assim, Helena sentiu o incômodo surgir. Antes que precisasse dizer qualquer coisa, Humberto virou o rosto, encontrou-a e estendeu os dois braços com tanta clareza que não havia o que interpretar.

Dessa vez Vera o devolveu imediatamente.

— Ele sabe muito bem o que quer.

— Sabe — Helena respondeu, trazendo o filho contra o peito.

— Só toma cuidado para ele não descobrir cedo demais que é só pedir que a mamãe resolve.

Era uma frase comum. Talvez até sensata para uma criança maior.

Helena não gostou.

Sentiu Humberto acomodar o rosto perto de seu peito e, quando abriu a boca para responder, Heitor falou primeiro.

— Aos cinco meses eu prefiro que ele descubra exatamente isso.

Não houve grosseria. Heitor nem mudou de posição. O braço continuava apoiado atrás de Helena no sofá e o tom foi perfeitamente educado, mas não deixou espaço para dúvida.

Vera olhou para ele, depois para Helena.

— Justo.

A entrevista seguiu normalmente. Vera continuou sendo uma candidata forte, experiente e segura, e Helena ainda via muitas qualidades nela. Mas também sabia que Heitor tinha sentido o mesmo desconforto que ela.

Helena entendeu que aquilo seria mais difícil do que escolher quem tinha o melhor currículo.

Patrícia chegou pouco depois e parecia ter sido desenhada especificamente para tranquilizar a parte mais racional de Heitor.

Tinha trinta e nove anos, formação técnica em enfermagem, oito anos de maternidade, dois deles em UTI neonatal, experiência em atendimento domiciliar e, depois, anos trabalhando exclusivamente com famílias. Era discreta, segura e claramente acostumada a casas como aquela; não demonstrou qualquer deslumbramento com a propriedade, com os funcionários entrando e saindo ou com o sobrenome Monteiro.

Helena percebeu rapidamente que ela e Heitor faziam perguntas diferentes.

— Como você percebe que alguma coisa está errada? — Helena perguntou.

Patrícia falou sobre alterações de comportamento, temperatura, respiração, alimentação e sono.

Quando terminou, Heitor perguntou:

— E o que você faz primeiro?

Patrícia respondeu em ordem.

Helena virou discretamente o rosto para ele.

Claro. Ela queria saber se a mulher perceberia Humberto. Heitor queria saber o que ela faria depois de perceber.

Nenhum dos dois estava perguntando a coisa errada.

— Qual foi a situação mais séria que você já enfrentou sozinha com uma criança? — Heitor perguntou.

Aquela não estava na lista.

Patrícia contou sobre uma convulsão febril. Não dramatizou, não tentou transformar a história numa demonstração de heroísmo. Explicou o que fizera, o que evitara fazer, quando chamara atendimento e em que momento avisara os pais.

Heitor interrompeu apenas uma vez.

— Você chamou a emergência antes dos pais?

— Sim.

— Por quê?

Patrícia pareceu até estranhar.

— Porque a criança era minha prioridade naquele momento.

Helena olhou para Heitor.

Ele permaneceu sério, mas ela viu o pequeno movimento de sua cabeça antes de fazer a próxima anotação.

O celular vibrou outra vez sobre a mesa. Dessa vez, duas vezes seguidas.

Heitor olhou a tela. Helena também. Ele apertou o botão lateral e virou o aparelho com a tela para baixo.

Por um segundo, Helena sentiu vontade de perguntar se precisava atender. Não perguntou. Conhecia a resposta que receberia: se precisasse, ele atenderia.

Ainda assim, aquilo ficou em algum lugar de sua cabeça.

Humberto chegou durante uma conversa sobre alergias e imediatamente mudou o ambiente. Assim que viu Helena, abriu um sorriso e começou a balançar as pernas no colo da funcionária.

— Ele faz isso toda vez que te vê? — Patrícia perguntou.

Helena recebeu o filho.

— Quase sempre.

— Interessante.

Helena franziu a testa.

Interessante?

Não bonito, não fofo. Interessante…

— Por quê?

Patrícia sorriu.

— Ele te reconhece de muito longe. E faz questão de você saber.

Como se tivesse entendido que falavam dele, Humberto soltou um berro feliz.

Patrícia olhou para ele.

— Exatamente.

Helena riu. Aquilo a fez gostar um pouco mais dela.

Mais tarde, quando Patrícia o pegou, Humberto ficou encarando seu rosto com aquela concentração exagerada que às vezes assumia diante de pessoas novas.

— Eu sei que você está me analisando — Patrícia disse.

Ele levou a mão à boca.

— Sem comentários?

Humberto sorriu e Patrícia finalmente sorriu de verdade.

Por alguns minutos, tudo correu perfeitamente bem, até Humberto cuspir leite na camisa dela.

— Meu Deus, desculpa — Helena começou, levantando-se.

Patrícia já estava com uma fraldinha na mão.

— Não tem problema.

E o que chamou a atenção de Helena não foi apenas a rapidez. Patrícia limpou Humberto primeiro. Conferiu a boca dele, o queixo, a roupinha. Só depois olhou para a própria camisa.

Helena viu Heitor acompanhar exatamente a mesma sequência.

— Ele faz isso bastante? — Patrícia perguntou.

— Menos agora.

— Pareceu normal.

E acabou.

Sem cara ruim, sem comentário sobre a roupa, sem transformar uma golfada de bebê num evento.

Humberto, completamente indiferente ao prejuízo que causara, encontrou Helena do outro lado e começou a conversar com ela. Fez um som; Helena respondeu. Ele fez outro; ela respondeu novamente.

— Ele está chamando sua atenção — Patrícia observou.

— Ele faz isso.

Humberto aumentou o volume.

Helena olhou.

O sorriso triunfante apareceu imediatamente.

Patrícia riu.

— É. Faz mesmo.

Mas não tentou recuperar a atenção dele.

Continuou segurando Humberto com naturalidade enquanto ele mantinha aquela conversa particular com a mãe, olhando ocasionalmente para Patrícia e voltando para Helena sempre que queria. E foi justamente isso que Helena mais gostou. Humberto estava confortável no colo de outra pessoa sem precisar deixar de procurá-la.

Talvez fosse exatamente aquilo que ela teria de aprender.

Não desaparecer para que outra pessoa entrasse. Continuar ali enquanto Humberto descobria que podia gostar de outras pessoas também.

Denise desmontou a estrutura da entrevista antes da metade.

Não porque fosse informal. Aos quarenta e cinco anos, tinha experiência suficiente para saber perfeitamente onde estava e com quem falava. Só possuía um jeito de responder que fazia as perguntas de Helena deixarem de parecer uma lista.

Quando Helena perguntou por que havia saído de uma família depois de tantos anos, terminou ouvindo a história de um menino de dez anos que começara a se esconder da babá quando os amigos iam à casa porque tinha vergonha de ainda precisar dela.

— Fiquei ofendida — Denise confessou.

Helena sorriu.

— Com uma criança de dez anos?

— Muito.

— Você falou para ele?

— Claro que não. Fui chorar no banheiro como uma profissional.

Helena riu, e dessa vez Heitor não conseguiu esconder completamente o sorriso.

— E depois? — ele perguntou.

— Depois percebi que ele estava certo. A função tinha acabado antes de eu aceitar que tinha acabado.

Heitor se interessou.

— Isso acontece muito?

Denise pensou antes de responder.

— Babá se apega. Quem disser que passa dez anos ajudando a criar uma criança e vai embora como quem troca de emprego está mentindo.

A frase acertou Helena justamente onde ela não queria. Denise pareceu perceber, porque continuou antes que Helena precisasse perguntar:

— Mas apego não dá direito.

— Direito a quê?

— A achar que a criança é sua. A competir com pai e mãe. A ficar numa casa onde já não precisam de você.

Helena ficou olhando para ela.

Não parecia uma resposta preparada para tranquilizá-la. Havia alguma coisa desconfortavelmente sincera ali.

Heitor também percebeu.

— Você já errou nisso?

— Já.

— Com esse menino?

— Com ele.

— Como?

Denise respirou antes de responder.

— Comecei a opinar onde ninguém tinha pedido minha opinião. Escola, atividade, horário... Eu conhecia ele desde bebê e comecei a achar que isso me dava um lugar que não era meu.

— E quem te falou? — Heitor perguntou.

— A mãe.

— Você ficou com raiva?

— Fiquei.

Helena se surpreendeu.

— Dela?

— Na hora, sim.

— E depois?

Denise deu um sorriso pequeno.

— Depois percebi que ela estava certa.

Aquilo Helena gostou.

Não porque Denise tivesse errado. Gostou porque ela não tentara apagar o erro do próprio passado para parecer a candidata perfeita diante deles.

Quando Humberto apareceu, Denise também não fez festa. Sorriu para ele de onde estava.

Humberto sorriu de volta.

— Ah. Você é simpático.

Ele respondeu com um som.

— Muito simpático.

Outro som.

— Entendi.

Humberto abriu aquele riso enorme, quase sem som, que deixava a boca redonda e fazia o corpo inteiro participar.

Denise riu junto e Helena sentiu.

Aquela coisinha pequena, irracional e absolutamente ridícula.

Ciúme.

Sabia que o filho era extrovertido. Humberto sorria para gente no consultório pediátrico, para funcionário, para qualquer pessoa que lhe desse atenção suficiente. Ainda assim, quando Denise o pegou e ele agarrou seus dedos, investigou seu colar e pareceu perfeitamente satisfeito, Helena precisou conversar consigo mesma.

Era bom. Era exatamente o que ela queria.

Então Humberto percebeu que ela estava falando com Heitor em vez de olhar para ele.

Gritou.

Helena virou imediatamente.

O sorriso veio.

Denise olhou para ele e começou a rir.

— Você fez isso só para ela olhar.

— Fez mesmo.

Helena voltou a falar com Heitor.

Não passaram trinta segundos.

Outro grito.

Ela olhou.

Outro sorriso.

— Meu Deus — Denise murmurou.

Humberto se agitou inteiro, encantado com a própria capacidade de comandar a mãe à distância.

— Você é terrível — Helena disse.

Tentou ignorar a terceira tentativa.

Humberto aumentou o volume, quase indignado.

— Humberto!

Ele começou a rir.

Heitor soltou uma risada ao lado dela.

— Ele tá treinando você.

— Não ajuda.

— Eu não fiz nada.

— Você está rindo.

— Porque é engraçado.

Helena lançou um olhar para o noivo e viu o celular dele acender novamente sobre a mesa. Por um instante, Heitor nem percebeu. Estava olhando para Humberto. Quando a vibração começou, ele pegou o aparelho, leu alguma coisa rapidamente e silenciou outra vez antes de apoiar o braço atrás de Helena no sofá.

O gesto foi tão habitual que Denise provavelmente nem notou.

Helena notou.

Notava tudo aquilo havia dias.

Mas Humberto decidiu naquele instante que brincar de chamar a mãe já não era suficiente e estendeu os braços para ela.

Não chorou. Não demonstrou medo. Só queria voltar.

Helena o recebeu e ele encostou o rosto em seu peito por poucos segundos, como se precisasse conferir fisicamente que ela continuava ali. Depois levantou a cabeça, encontrou Denise e sorriu para ela novamente.

Helena sentiu o peito apertar.

Ele ainda gostava de Denise.

Só precisava da mãe primeiro.

Denise pareceu entender exatamente o que tinha acontecido, porque não fez nenhum comentário sobre apego, independência ou manha. Apenas retomou a conversa de onde haviam parado.

Helena guardou aquilo também.

Adriana era a candidata que Celina provavelmente escolheria antes mesmo de terminar o café.

Helena pensou nisso quase imediatamente.

Aos quarenta e sete anos, falava inglês fluentemente, mantinha os cursos de primeiros socorros atualizados e tinha passagens longas por três famílias de altíssimo padrão. Estava acostumada a viagens internacionais, casas com equipes domésticas numerosas, seguranças, motoristas, governantas, assessores e rotinas em que privacidade não era uma preferência, mas uma exigência.

Ela sabia entrar numa casa como aquela.

Sabia tanto que foi a primeira a perguntar sobre fotografias antes mesmo que Helena chegasse ao assunto.

— Existe alguma restrição específica?

— Nenhuma fotografia dele pode sair desta casa sem autorização nossa — Heitor respondeu.

— Mesmo para familiares?

— Mesmo.

— Redes sociais?

— Não.

Adriana assentiu.

— E os outros funcionários podem fotografar?

Heitor olhou para ela com mais atenção.

— Por quê?

— Porque proibir a babá e permitir que motorista, funcionária ou qualquer outra pessoa fotografe não cria um protocolo. Cria uma exceção para a babá.

Helena virou discretamente para Heitor.

Ele já estava olhando para ela.

Parecia realmente boa. Não precisaram dizer.

Adriana continuou perguntando quem teria autorização para buscar Humberto, quem poderia tomar decisões caso os dois estivessem indisponíveis, como funcionava a segurança para saídas e se havia algum procedimento específico para viagens.

Era muito profissional.

Talvez profissional até demais para o gosto inicial de Helena.

Então Humberto entrou irritado.

Não chorando. Pior. Naquele humor em que nenhuma posição parecia boa, nenhum brinquedo servia e qualquer pequena inconveniência era recebida como uma afronta pessoal.

Helena o pegou e ele se acomodou imediatamente, embora continuasse resmungando contra seu peito.

Adriana observou por alguns segundos.

— Ele está cansado?

— Provavelmente.

— Podemos deixar o contato para outro momento.

Helena se surpreendeu.

— Não tem problema.

— Para mim, não. — Adriana indicou Humberto com um pequeno movimento. — Para ele talvez tenha.

Aquilo Helena gostou, gostou muito mesmo.

Esperaram alguns minutos. Humberto melhorou o suficiente para voltar a se interessar pelo ambiente e, quando Helena ofereceu, Adriana o recebeu.

Ele ficou olhando para ela, estava bem sério.

Adriana falou baixo.

Nada.

Humberto olhou para Helena, voltou para Adriana e permaneceu desconfiado.

Helena teve vontade de rir.

— Ainda não fui aprovada? — Adriana perguntou a ele.

Humberto continuou encarando-a.

— Tudo bem. Temos tempo.

Foi só quando ele conseguiu agarrar o cabelo preso dela que alguma satisfação apareceu. Adriana soltou os dedos do bebê um por um, sem puxar a cabeça para trás.

— Esse você conseguiu.

Humberto fez uma expressão estranha.

A boca começou a virar.

Adriana percebeu antes mesmo do primeiro protesto e olhou para Helena.

— Acho que ele quer voltar.

Não insistiu. Não tentou mais uma posição, um brinquedo ou uma distração.

Simplesmente devolveu.

Helena não encontrou nada para criticar.

Ainda assim, havia alguma coisa em Adriana que ela não conseguia abraçar completamente.

A sensação ficou mais clara quando falaram das famílias anteriores. Adriana contou com naturalidade sobre viagens, hotéis e temporadas em que permanecia praticamente o dia inteiro responsável pelas crianças porque os pais tinham compromissos.

Helena não gostou da imagem.

Antes que perguntasse qualquer coisa, Heitor falou:

— E você gostava desse arranjo?

— Fazia parte da função.

— Não foi o que eu perguntei. — o tom continuava educado. — Você gostava?

Adriana pensou.

— Na época, sim.

— E hoje?

— Hoje eu estabeleceria melhor os horários.

— Por quê?

— Porque demorei para perceber que estava disponível o tempo inteiro.

Heitor assentiu, e Helena gostou da resposta também.

O ponto realmente delicado veio depois, quando Adriana explicou que, após alguns anos em uma das casas, os pais praticamente já não precisavam orientá-la. Ela organizava a agenda das crianças, médicos, atividades, viagens, roupas, material escolar e parte da alimentação.

— Os pais preferiam assim.

Heitor, que estava com o celular na mão havia alguns segundos, colocou-o sobre a mesa.

— E você?

— Também.

Helena olhou para ele.

Dessa vez não precisou interpretar gesto nenhum. Conhecia Heitor, conhecia o pai que ele era e, principalmente, sabia o quanto ele fazia questão de participar da vida de Humberto apesar da quantidade absurda de trabalho que carregava. Ele podia chegar tarde e ainda assim ter tempo para filho. Podia estar numa reunião e perguntar depois se Humberto havia dormido. Podia passar o dia inteiro na empresa e querer dar banho nele à noite.

Heitor não procurava alguém para administrar a infância do filho.

Procurava alguém que os ajudasse a vivê-la.

— Se trabalhasse conosco — ele perguntou — você esperaria ter essa mesma autonomia?

Adriana não se abalou.

— Só se vocês quisessem.

— Eu não quero.

A resposta foi simples.

Helena virou o rosto para ele.

Heitor continuou:

— Quero alguém capaz de tomar uma decisão quando eu ou a Helena não estivermos disponíveis. Isso é importante. Mas médico, escola, viagem, rotina... nós queremos participar.

Adriana assentiu sem demonstrar incômodo.

— Então é assim que eu trabalharia.

Era uma boa resposta. Talvez até a resposta certa.

Ainda assim, Helena percebeu que ali existia uma diferença de encaixe, não necessariamente um defeito. Adriana poderia ser perfeita para uma família que desejasse exatamente a autonomia que ela sabia oferecer.

Talvez não fosse o que eles queriam.

Quando Adriana foi embora, Helena esperou a porta se fechar e virou-se para Heitor.

Ele já estava recolhendo as folhas.

— Você não gostou.

— Gostei de muita coisa.

— Mas?

O celular dele começou a vibrar.

Heitor olhou a tela e soltou o ar pelo nariz.

— Só um momento amor, esse aqui é importante. — dessa vez atendeu. — Fala.

E saiu da sala.

Helena ficou olhando por alguns segundos para o lugar onde ele desaparecera.

Lívia foi a única candidata que Helena precisou começar entrevistando sozinha.

A ligação que Heitor atendera não terminou rapidamente como ele imaginara. Faltavam cinco minutos para o horário quando ele reapareceu apenas para pegar o notebook e avisar que era o engenheiro responsável pela nova filial.

— Vou resolver isso e volto.

Helena olhou para ele.

— Vai demorar?

— Vou fazer o impossível para que não seja.

Heitor inclinou-se, beijou o topo de sua cabeça e apertou de leve seu ombro antes de sair novamente.

Lívia chegou no horário. Uma funcionária a recebeu, ofereceu água e café e a conduziu até a sala onde as demais entrevistas tinham acontecido. Helena ainda esperou dois minutos por Heitor. Depois três.

No quarto, decidiu começar.

Lívia era a mais nova das cinco, com trinta e um anos, e Helena precisara olhar duas vezes para aquela informação quando recebera o currículo. Não porque considerasse trinta e um anos pouco para o trabalho, mas porque, pela primeira vez naquele dia, sentia que entrevistava alguém de uma geração muito próxima da sua.

Tinha formação em Pedagogia, especialização em desenvolvimento infantil, inglês, primeiros socorros e experiência com famílias de alto padrão, embora uma trajetória menor que a das outras candidatas.

E era bonita.

Helena percebeu imediatamente.

O que foi irritante.

Cabelo castanho comprido preso num rabo baixo, pele clara, roupa discreta e muito bem escolhida. Nada sensual, nada inadequado, absolutamente nada que justificasse o pensamento seguinte.

“Ainda bem que Heitor não está aqui.”

Helena quase se irritou consigo mesma.

Que pensamento idiota.

Começou a entrevista.

E gostou de Lívia.

O que, de alguma forma, piorou a situação.

Ela respondia bem sem parecer ter decorado respostas. Quando Helena perguntou como lidaria com o fato de Humberto ser muito ligado a ela, Lívia não começou a falar sobre independência, formação de vínculo ou técnicas de adaptação.

— Isso te preocupa?

Helena foi pega desprevenida.

— Um pouco.

— Por quê?

Por um instante, Helena teve a estranha sensação de que os papéis haviam se invertido.

— Porque ele nunca ficou muito tempo sem mim.

Lívia assentiu.

— Então eu não começaria tentando fazer ele ficar muito tempo sem você.

Simples assim.

Helena mexeu nos papéis.

— Você acha ruim ele ser muito apegado?

— Com cinco meses? Não.

Alguma coisa nos ombros de Helena relaxou.

Foi nesse momento que Heitor voltou.

Entrou guardando o celular no bolso, e Helena soube pela expressão dele que a ligação não tinha sido simples. Ainda assim, antes de qualquer outra coisa, ele passou atrás do sofá, inclinou-se e deu um beijo no topo da cabeça dela.

— Desculpa a demora.

O gesto foi tão automático que Helena só percebeu depois que Lívia certamente tinha visto.

Ela se levantou quando Heitor se aproximou.

— Heitor Monteiro.

— Lívia Ramos.

Apertaram as mãos.

Normal. Absolutamente normal.

Helena observou mesmo assim e imediatamente se sentiu ridícula.

Heitor sentou-se ao lado dela, deixando o braço apoiado atrás de Helena no encosto do sofá, e pegou a cópia do currículo.

— Vocês começaram há quanto tempo?

— Uns dez minutos.

— Você se importa se a gente voltar um pouco? — perguntou ele a Lívia. — Desculpa fazer você repetir.

— Claro que não.

Lívia resumiu novamente sua trajetória, e Helena, que já conhecia as respostas, acabou prestando mais atenção em Heitor. Ele estava sério e atento como estivera com todas as outras. Fez algumas anotações, pediu esclarecimentos e não demonstrou qualquer interesse que não fosse profissional.

O que era óbvio.

Helena sabia disso.

Ainda assim, ela percebeu que Lívia tinha olhos bonitos.

Meu Deus.

— Você tem menos experiência com bebês pequenos do que as outras candidatas — Heitor disse direto.

Lívia não se ofendeu.

— Imagino que sim.

— Isso te preocupa?

— Sim.

A resposta fez os dois olharem para ela.

— Por quê? — Heitor perguntou.

— Porque seria irresponsável dizer que vinte anos de experiência não fazem diferença.

Helena gostou.

Heitor continuou:

— Então por que deveríamos escolher você no lugar de alguém com vinte anos?

Lívia demorou um pouco para responder.

— Eu não sei se deveriam.

Heitor levantou discretamente as sobrancelhas.

— Não?

— Não conheço as outras candidatas. Posso dizer por que acho que consigo fazer o trabalho. Não consigo dizer que sou melhor do que uma pessoa que nunca conheci.

Helena viu o pequeno assentimento de Heitor.

Ele gostou e uma parte completamente irracional dela pensou: claro que gostou.

Quase quis se dar um tapa.

Heitor não tinha feito absolutamente nada.

Lívia, muito menos.

— Então me diz por que acha que consegue — ele pediu.

— Porque sei cuidar de bebê. Sei trabalhar dentro da rotina de uma família sem tentar transformar tudo na minha rotina. E porque sei aprender uma criança.

— Aprender?

— Nenhum curso vai me ensinar o Humberto. Vai me ensinar o que esperar de uma criança de cinco meses. Ele, não.

Heitor olhou para Helena. Foi rápido, provavelmente involuntário, mas bastou. Helena entendeu perfeitamente.

“Você conhece ele.”, pensou. E aquele ciúme idiota perdeu força no mesmo instante.

Quando trouxeram Humberto, ele estava num de seus melhores humores. Bastou enxergar Helena para começar a se mexer inteiro no colo da funcionária.

— Você estava aprontando?

Humberto abriu um sorriso enorme.

Lívia observou.

— Ele sorri com o corpo inteiro.

Helena olhou para o filho e riu porque era exatamente aquilo. Quando Humberto ficava feliz, a boca sozinha não dava conta. As pernas chutavam, os braços se mexiam, o tronco inteiro parecia querer participar da alegria.

Lívia só se aproximou quando Helena ofereceu.

— Quer pegar?

— Quero.

Humberto foi tranquilamente. Estudou o rosto dela, recebeu algumas palavras e respondeu com sons, satisfeito com a nova interlocutora.

A pequena pontada de ciúme apareceu de novo. Mais fraca dessa vez.

Talvez Helena já estivesse cansada de descobrir quantas emoções contraditórias cabiam dentro dela em um único dia.

Então Humberto percebeu Heitor.

O pai estava um pouco mais afastado, terminando uma anotação.

Humberto fez um som.

Heitor não ouviu.

Fez outro, mais alto.

Heitor levantou os olhos.

O sorriso apareceu imediatamente.

Lívia acompanhou a troca.

— Ah.

Heitor voltou à folha.

Humberto chamou outra vez.

Dessa vez Helena começou a rir.

— Agora é com você.

Heitor largou a caneta.

— O que foi, moleque?

Humberto se agitou inteiro.

Heitor se inclinou e ofereceu um dedo, que o filho agarrou imediatamente. Brincou alguns segundos com a mãozinha dele, falou alguma coisa baixa que Helena não ouviu e então se recostou novamente.

Aparentemente, Humberto considerou a quantidade de atenção satisfatória.

Por aproximadamente vinte segundos. Depois Helena começou a conversar com Lívia e ele decidiu que agora era a vez dela.

— Você quer atenção de todo mundo hoje?

Humberto bateu as mãos na barriga.

— Acho que sim — Lívia respondeu, rindo.

A entrevista continuou até Humberto simplesmente cansar.

Era sempre impressionante. Não havia transição. Num segundo estava sorrindo; no seguinte, a boca virou e Helena reconheceu imediatamente o início do desastre.

— Ih.

Lívia olhou para ele.

— Acabou?

— Acabou.

Humberto começou a reclamar. Lívia apenas o acomodou melhor, sem insistência. Não funcionou. A reclamação aumentou e Helena abriu os braços.

Assim que viu a mãe, Humberto quase chorou e estendeu os dois bracinhos.

— Vai — Lívia disse, entregando-o imediatamente.

No instante em que voltou para Helena, o protesto diminuiu. Humberto enterrou o rosto no pescoço dela e continuou reclamando baixinho, como se precisasse relatar em detalhes tudo o que sofrera durante aqueles terríveis segundos.

Helena beijou sua cabeça.

— Eu sei, meu amor. Foi horrível.

Heitor olhou para os dois.

— Quinze minutos com outra pessoa.

— Um trauma. — brincou Helena.

— Não sei como vai superar.

Helena lançou um olhar para ele enquanto Humberto resmungava mais alguma coisa em seu pescoço.

— Seu pai não respeita seu sofrimento.

Heitor sorriu.

Lívia também, mas não tentou entrar na brincadeira íntima dos três. Esperou.

E Helena percebeu. Percebeu também outra coisa que a deixou simultaneamente aliviada e irritada consigo mesma: desde que Heitor entrara naquela sala, Lívia não olhara para ele uma única vez além do necessário para responder às perguntas.

Todo aquele pequeno ciúme tinha existido exclusivamente dentro da cabeça de Helena.

Ótimo.

Maravilhoso.

Ela realmente precisava parar de assistir a filmes antes de decisões importantes.

Quando a Lívia foi embora, Helena descobriu que estava exausta.

Não fisicamente. Passara boa parte do dia sentada, conversando, fazendo perguntas, oferecendo café e água, ouvindo histórias que às vezes atravessavam dez, quinze anos da vida de outra família. Ainda assim, tinha a sensação de ter feito alguma coisa muito mais difícil. Talvez porque não tivesse apenas escutado respostas. Passara horas observando mãos, vozes, silêncios, expressões, maneiras diferentes de se aproximar de Humberto e, principalmente, tentando imaginar aquelas cinco mulheres dentro da vida deles.

Heitor fechou a porta depois de se despedir e voltou para a sala olhando o celular. A expressão havia mudado antes mesmo que ele chegasse perto dela.

— Amor, vou precisar entrar numa reunião.

Helena soltou o ar.

— Agora?

— Agora. — Ele olhou o horário. — Me dá uns quinze minutos? Vinte, no máximo.

— Vai. Eu vou dar banho no Humberto.

Heitor guardou o celular no bolso, mas, em vez de simplesmente sair, aproximou-se dela. Passou uma mão por sua cintura, inclinou o rosto e a beijou demoradamente. Helena correspondeu, sentindo a tensão daquele dia ceder um pouco, até Humberto, preso entre os dois no colo dela, emitir um protesto indignado.

Heitor afastou a boca da dela e olhou para baixo.

— Você tem algum problema com seu pai beijar sua mãe?

Humberto respondeu com outro resmungo.

— Tem, aparentemente — Helena disse.

— Complicado né.

Heitor beijou a bochecha redonda do filho, fazendo Humberto virar o rosto, e só então começou a se afastar.

— Vou fazer o possível pra acabar rápido.

— Vai trabalhar, Monteiro.

Já na porta, Heitor olhou para os dois outra vez.

— Amo vocês.

Helena sorriu. Pegou a mãozinha de Humberto e começou a balançá-la no ar.

— A gente também ama você. Dá tchau pro papai.

Heitor abriu um sorriso imediatamente.

— Tchau, moleque.

Humberto apenas olhou.

— Muito educado — Helena comentou.

— Puxou a mãe.

— Vai trabalhar, Heitor.

Ele riu e finalmente saiu.

Helena permaneceu alguns segundos na sala depois que ele desapareceu, olhando para as folhas espalhadas sobre a mesa. Tinha muito em que pensar. Vera, Patrícia, Denise, Adriana e Lívia. Cinco mulheres muito diferentes e, para seu desespero, nenhuma que pudesse simplesmente riscar da lista e esquecer.

Humberto começou a puxar seu cabelo.

Helena desviou os olhos dos papéis.

— E você não ajudou em nada.

O bebê sorriu.

— Gostou de todo mundo, né? Muito fácil ser você.

Levou-o para cima para o banho e, talvez porque tivesse passado o dia inteiro avaliando babás, não conseguiu impedir a própria cabeça de continuar trabalhando. Enquanto tirava a roupinha de Humberto, imaginou Vera fazendo aquilo. Depois Patrícia. Denise. Adriana. Lívia. Quando colocou o filho na água e ele imediatamente começou a bater as pernas, espalhando água para fora da banheira, tentou imaginar com qual delas se sentiria mais confortável vendo aquela cena sem estar presente.

A resposta veio depressa.

Nenhuma.

Helena fez uma careta para si mesma.

“Ótimo. Muito útil.”

— Sua mãe está indo muito bem nesse processo — murmurou.

Humberto bateu a mão na água.

— Obrigada pelo apoio.

Ao menos ele havia colaborado com os horários. Helena organizara todas as entrevistas para que não coincidissem com os cochilos e as mamadas mais longas, mas, quando terminou o banho, percebeu que o limite social do filho finalmente tinha sido atingido. Humberto começou a reclamar enquanto ela colocava a roupa, esfregou o rosto algumas vezes e recusou até uma tentativa de brincadeira.

— Ah, agora acabou, né?

A boca virou.

— Eu sei. Foi um dia muito difícil. Cinco mulheres te achando lindo. Uma vida sofrida.

Levou-o para a sala de televisão e escolheu qualquer reality show que encontrou passando. Não queria assistir de verdade; precisava apenas de alguma coisa fazendo barulho enquanto sua cabeça desacelerava. Acomodou-se no sofá, apoiou bem as costas, baixou a alça da blusa e trouxe Humberto atravessado para seus braços.

Ele pegou o peito imediatamente.

Helena soltou o ar.

Talvez tivesse sido aquele o primeiro momento de silêncio verdadeiro do dia.

Ficou olhando para o filho enquanto ele mamava, sentindo o corpinho ainda quente do banho contra o seu. O cabelo preto estava macio, cheirando a bebê recém-banhado, e os olhos começaram a pesar muito antes que ele terminasse. Helena passou os dedos devagar por sua cabeça.

E lá vieram as cinco mulheres outra vez.

Quem estaria fazendo aquilo dali a algumas semanas?

Não amamentá-lo no peito, obviamente, mas colocá-lo para dormir. Dar banho. Trocar uma roupa. Perceber que aquele resmungo significava sono e que outro significava irritação. Descobrir que ele gostava de chamar atenção com gritinhos e sorria no segundo em que conseguia. Saber quando insistir e quando simplesmente devolvê-lo para ela.

Helena não sabia.

Ouviu passos e levantou os olhos.

Heitor apareceu na porta da sala ainda com a mesma roupa formal que usara durante as entrevistas, celular em uma das mãos. Por um instante, estava sério. Não irritado, exatamente, mas com aquela expressão fechada que Helena conhecia dos dias mais complicados na empresa.

Então os olhos dele encontraram os dela.

Heitor sorriu.

A transformação foi tão imediata que Helena também sorriu.

Ele guardou o celular no bolso e olhou para Humberto mamando quase dormindo.

— Depois dele é minha vez?

Helena revirou os olhos.

— Heitor, para.

— Só perguntei.

— Não invente moda, Monteiro.

Ele riu e já ia se sentar ao lado dela quando reparou na mesa de centro.

— Cadê nossas anotações?

Helena acompanhou seu olhar.

— Ué. Não sei. Achei que você tinha pegado.

— Deixei na outra sala. Já volto.

— Amor, senta um pouco.

— Vou buscar e sento. É rapidinho.

Ele desapareceu novamente.

Helena olhou para Humberto.

— Seu pai não sabe ficar parado.

Humberto já não mamava de verdade havia alguns minutos. Fazia aquelas sucções lentas e preguiçosas, separadas por pausas cada vez maiores, com os olhos completamente fechados e uma das mãos espalmada sobre o seio dela.

Dormindo e mamando.

Ou mamando e dormindo.

Helena nunca sabia qual dos dois.

Quando Heitor voltou com as folhas, ela olhou distraidamente para o relógio na parede e só então percebeu que o expediente dele ainda nem tinha terminado.

Aquilo explicava a roupa.

Explicava o celular.

Explicava também por que provavelmente, depois do jantar, ela acabaria indo buscá-lo outra vez no escritório para mandar que fosse dormir.

Heitor colocou as folhas sobre a mesa e sentou-se ao lado dela. Antes de dizer qualquer coisa, inclinou-se e deu um beijo em seu ombro.

— Você tá bem?

— Tô.

— E aí? Como foi?

Helena soltou uma risada cansada.

— Exaustivo. Muito mais difícil do que eu imaginava. Ainda bem que sua mãe escolheu só cinco, porque, se fossem dez, eu teria fugido na sexta.

Heitor sorriu.

— Eu já entrevistei gente pra cargo de diretoria que deu menos trabalho.

— Sério?

— Muito. — Ele se acomodou melhor ao lado dela. — Diretor é mais fácil. Se eu contratar errado, eventualmente demito. Isso aqui é alguém entrando na nossa casa e ficando com o nosso filho.

Enquanto falava, Heitor encontrou o pezinho de Humberto e começou a apertar distraidamente os dedos por cima da meia branca.

— Quando fui escolher o seu segurança particular também foi uma merda — continuou. — Lembro das entrevistas até hoje. Até chegar no Oséias...

Humberto puxou a perna.

Heitor esperou dois segundos.

Pegou o pezinho outra vez.

Helena olhou para ele.

— Você vai acordar ele.

— Não vou.

Humberto tornou a puxar o pé.

Heitor segurou novamente.

— Heitor!

— Ele nem tá percebendo, Helê, relaxa.

Como se tivesse esperado a deixa, Humberto interrompeu a sucção. Ainda de olhos fechados, franziu o rosto numa expressão profundamente ofendida e esticou a perna com força.

Helena ergueu as sobrancelhas.

— Não está?

Heitor soltou o pé.

— Sensível demais.

— Você que não para de mexer nele.

— Tô fazendo carinho no meu filho.

— Seu filho quer dormir.

Heitor observou Humberto por alguns segundos.

— Acho que a bateria social dele descarregou. Também passou o dia inteiro sendo exibido pra cinco mulheres estranhas.

Helena virou o rosto para ele.

— Eu não exibi nosso filho.

— Não, claro que não.

— Heitor!

— Você não exibiu. — Ele tentou manter a seriedade. — O problema é que ele é tão lindo que acaba chamando atenção sozinho.

Helena tentou não rir.

— Para vai.

— É verdade. Eu mesmo queria ter pegado ele várias vezes hoje.

— Eu percebi.

— Só não peguei porque vi você se segurando também. Aí achei que não devia ser eu a quebrar o clima de pais sérios e não babões.

Helena olhou para ele, surpresa e divertida.

— Você estava se segurando?

— Pra caralho. Principalmente quando ele começou com aqueles gritinhos pra chamar a gente. Queria pegar e falar: “vem cá com seu pai que acabou essa palhaçada de entrevista”.

Helena riu baixo para não acordar Humberto.

— Ainda bem que não fez isso.

— Eu fui extremamente profissional hoje.

— Estou muito orgulhosa.

— Obrigado.

A boca de Humberto havia parado outra vez. Helena tocou delicadamente seu queixo, esperando que ele soltasse sozinho.

Nada.

Heitor observou.

— Me dá ele. Vou colocar no bercinho.

Helena ajeitou a blusa antes de entregar o filho.

Heitor o recebeu com uma delicadeza que sempre fazia alguma coisa dentro dela amolecer. Talvez nunca deixasse de gostar de vê-los juntos. Humberto parecia ainda menor nos braços do pai, completamente entregue ao sono enquanto Heitor o acomodava contra o peito.

Helena ficou olhando.

Heitor beijou a testa do filho.

— Vamos dormir, moleque. Seu expediente acabou.

Falava tão baixo que a voz mal atravessava a sala.

Foi até o berço portátil que mantinham ali para aqueles cochilos, abaixou Humberto devagar e ainda permaneceu curvado por alguns segundos para ter certeza de que ele não acordaria. Pegou a mantinha, ajeitou-a, deixou a fraldinha de boca por perto e colocou a chupeta ao alcance. Depois passou a mão pelos cabelos pretos do filho, fazendo um carinho leve.

Helena percebeu que estava sorrindo.

Talvez aquele fosse justamente o problema de escolher uma babá.

Ela amava aquilo.

Amava cuidar de Humberto. Amava ver Heitor cuidando dele. Amava a intimidade pequena da família que tinham construído, as coisas que ninguém de fora via: o banho, o sono, os resmungos, Heitor perturbando o filho até quase acordá-lo, os dois discutindo em sussurros por causa disso.

Permitir que alguém entrasse em parte daquela rotina ainda parecia enorme.

Heitor voltou para o sofá e, dessa vez, não foi para o outro canto. Sentou-se junto dela, passou um braço por seus ombros e a puxou contra si.

Helena foi sem resistência.

Encostou o corpo no dele e sentiu o calor do abraço, o cheiro conhecido, a mão de Heitor deslizando devagar por seu braço. Ele beijou sua têmpora e depois virou o rosto dela para lhe dar um beijo de verdade, calmo e sem pressa. Helena correspondeu e, quando se afastaram, continuou encostada nele.

Por alguns segundos, nenhum dos dois falou.

Na televisão, alguém discutia por alguma coisa que Helena não tinha acompanhado. Humberto dormia a poucos metros. O celular de Heitor estava novamente sobre a mesa, silencioso por enquanto, e as cinco fichas das candidatas esperavam ao lado.

Heitor entrelaçou os dedos nos dela.

— Agora me fala.

Helena virou o rosto.

— O quê?

Ele indicou as folhas com um movimento do queixo e depois voltou a olhar para ela.

— O que você achou delas?








Helena olhou para as cinco fichas sobre a mesa, ainda encostada em Heitor. A pergunta parecia simples até precisar ser respondida. Durante as entrevistas, tivera opiniões o tempo inteiro; gostara de uma resposta, estranhara outra, sentira-se confortável com determinada candidata e, minutos depois, encontrara alguma coisa que a fazia pensar novamente. Agora precisava juntar tudo aquilo e imaginar uma daquelas mulheres voltando no dia seguinte, depois no outro, entrando na casa deles todos os dias e participando de uma rotina que, até então, pertencia quase inteiramente a ela e Heitor.

— Eu gostei de mais pessoas do que queria.

Heitor riu baixo.

— Isso é ruim?

— É. Seria muito mais fácil se quatro fossem péssimas.

— Minha mãe não ia mandar quatro babás péssimas pra cá.

— Eu sei. Esse foi o erro.

Ele sorriu e pegou as folhas, separando-as sobre a própria perna.

— Então vamos fazer ao contrário. Tem alguém que você não escolheria?

Helena pensou.

— Acho que a Adriana.

— Também não quero a Adriana.

A rapidez da resposta fez Helena virar o rosto.

— Você não gostou mesmo dela, né?

— Gostei dela. Não quero contratar.

— É diferente?

— Muito. — Heitor pegou a ficha de Adriana e olhou algumas das próprias anotações. — Ela é excelente. Experiente, organizada, sabe trabalhar com segurança, sabe lidar com funcionário, viagem, exposição... não tenho dúvida nenhuma de que ela daria conta.

— Eu também não.

— Só não acho que ela combine com a gente.

Helena entendeu imediatamente aonde ele queria chegar.

— Por causa daquela família?

— Principalmente.

Heitor colocou a folha sobre a mesa.

— Não acho errado o que ela fazia. Se os pais queriam alguém organizando médico, roupa, atividade, viagem e escola, problema deles. Provavelmente era exatamente por isso que pagavam uma profissional como ela.

Helena assentiu. Aquilo também era importante para ela. Adriana não tinha ultrapassado limites escondida dos pais; recebera aquela autonomia.

— Mas você não quer isso.

— Não. E acho que você quer menos ainda.

— Não quero mesmo.

Helena olhou para Humberto dormindo no bercinho. Só de imaginar outra pessoa sabendo primeiro quando marcar o pediatra ou organizando a rotina do filho sem consultá-la, sentia alguma resistência surgir.

— Eu quero ajuda — disse. — Não quero descobrir o que meu filho vai fazer durante a semana porque alguém colocou na agenda.

— Exatamente.

— Mas ela disse que trabalharia do nosso jeito.

— Eu acredito nela.

Helena tornou a olhar para ele.

Heitor deu de ombros.

— Só acho que tem outras que já trabalham mais perto do nosso jeito sem precisar se adaptar tanto. Pra que começar tentando encaixar alguém se temos outras opções?

Fazia sentido.

Helena pegou a ficha de Adriana e colocou de lado.

Agora eram quatro.

Heitor observou o movimento e então puxou outra folha.

— Podemos tirar a Vera também.

Helena franziu a testa.

— A Vera?

— Uhum.

— Por quê?

Aquilo realmente a surpreendeu. Vera tinha sido uma das mais experientes e Helena lembrava perfeitamente de Heitor gostando de várias respostas dela, principalmente da história do bebê que os pais queriam colocar para dormir de bruços.

— Você gostou dela.

— Eu gostei.

— Então por que quer tirar?

Heitor olhou para ela como se a resposta fosse bastante óbvia.

— Porque você não ficou confortável com ela.

Helena demorou um instante.

— Fiquei, sim.

— Helê…

— Fiquei.

— Quando o Humberto quis voltar pra você, você pediu ele.

— Eu estendi os braços.

— Exatamente!

Helena abriu a boca e tornou a fechar. Heitor a conhecia bem demais.

— Ela demorou dois segundos.

— Eu sei.

— Dois segundos, Heitor!

— Não tô dizendo que ela fez uma coisa absurda.

Ele falava com calma, ainda com o braço ao redor dos ombros dela. Não parecia estar tentando convencê-la de que Vera fizera algo grave;, era justamente o contrário.

— Ela tentou acalmar ele. Faz sentido. É o trabalho dela.

— Então?

— Então que você não gostou.

Helena baixou os olhos para a ficha.

— Talvez eu tenha que aprender a lidar com isso também. Se toda vez que o Humberto fizer um barulhinho eu...

— Não foi um barulhinho.

Ela olhou para ele.

— Ele olhou pra você e pediu colo. Você abriu os braços. Ela viu.

Helena permaneceu quieta.

Heitor continuou:

— E eu não tô falando que ela deveria jogar o moleque no seu colo no primeiro resmungo. Se fosse isso, a gente nem precisava contratar ninguém. Mas naquele momento você queria ele de volta.

— Ela devolveu.

— Depois de tentar mais uma vez.

Helena mexeu na borda do papel.

— Não acho justo eliminar uma profissional com quase trinta anos de experiência por causa de dois segundos.

— Eu não tô eliminando por dois segundos. — a mão de Heitor fez um carinho distraído em seu braço. — Tô eliminando porque você sentiu alguma coisa e passou o resto da entrevista tentando fingir que não sentiu.

Helena ficou olhando para ele.

— Eu não estava fingindo…

Heitor levantou as sobrancelhas.

— Tá bom.

— Não faz essa cara.

— Não fiz nada.

— Fez sim.

Ele segurou o sorriso.

Helena voltou a olhar para Vera.

— Ela é muito boa.

— É.

— Experiente.

— E muito.

— Eu gostei de ela não ter obedecido aqueles pais quando achou que o bebê estava em risco.

— Eu também. Bastante.

— E ela foi boa com o Humberto.

— Foi.

Aquilo tornava mais difícil simplesmente colocar a folha de lado.

Heitor pareceu entender.

— Helê, a gente não tá dizendo que ela é uma babá ruim. Eu indicaria essa mulher tranquilamente pra alguém pelo que vi hoje. Mas não estamos fazendo um ranking das melhores babás do Rio. Estamos escolhendo uma pra nossa família.

Helena levantou os olhos.

— E a ideia disso tudo é deixar nós dois confortáveis. Principalmente você.

— Por que principalmente eu?

— Porque é você que vai passar pela adaptação com ela. É você que tá voltando pro trabalho depois de ficar esses meses todos com o Humberto. Sou eu que saio de casa todo dia e deixo vocês dois aqui. Pra mim a mudança vai ser muito menor.

Helena não tinha pensado daquela maneira.

Heitor beijou de leve sua têmpora.

— Se já na primeira vez que ela segurou nosso filho você teve que engolir a vontade de pegar ele de volta pra não parecer exagerada, eu não vejo por que a gente precisa insistir. Tem outras três que você não sentiu isso.

Helena ficou mais alguns segundos olhando para a ficha.

— Você realmente não se importa de tirar ela?

— Não.

— Mesmo tendo gostado?

— Gostei de cinco coisas nela e não gostei de uma. Essa uma importa mais pra gente.

Aquilo finalmente a fez colocar a ficha de Vera sobre a de Adriana.

Agora tinham ficado só três. Patrícia, Denise e Lívia. Helena encarou os nomes.

— Agora ficou difícil.

— Ficou mesmo.

Heitor puxou as três folhas restantes para o meio.

Helena pegou primeiro a de Denise.

— Eu gostei muito dela.

— Eu sei.

— Como sabe?

— Dicionário interno da Helena.

Ela soltou uma risada.

— Para vai.

— Você praticamente adotou a mulher.

— Não adotei.

— Quase.

Helena deu uma cotovelada leve nele e tornou a olhar para a ficha.

— Eu gostei porque ela não tentou parecer perfeita. Quando você perguntou se ela já tinha passado do limite, ela podia ter inventado qualquer coisa.

— Ou dito que nunca aconteceu.

— E ela falou que ficou com raiva da mãe.

— Eu gostei disso também.

Helena olhou para ele.

— De ela ter ficado com raiva?

— De ela ter admitido. — Heitor pegou a ficha das mãos dela por um instante. — Dez anos com uma criança. Óbvio que existe envolvimento emocional. Eu desconfiaria mais se ela dissesse que a mãe chamou a atenção dela e ela recebeu aquilo sorrindo, agradeceu pela oportunidade de crescimento e foi meditar.

Helena riu.

— Você é ridículo.

— Tô falando sério. Ela ficou puta, depois pensou e percebeu que estava errada. Isso é uma resposta humana.

Era exatamente uma das coisas que Helena tinha gostado em Denise, embora por outro motivo.

— E ela entendeu o Humberto.

— Entendeu.

— Quando ele quis voltar pra mim, ela não tentou fazer nada.

— Eu vi.

— E quando ele ficava me chamando...

— Também vi.

Helena passou o dedo pela lateral da folha.

— Ela deixou.

Heitor virou um pouco o rosto para observá-la.

— Isso foi importante pra você.

Não era uma pergunta.

Helena assentiu.

— Foi.

Porque Denise parecera confortável com a ideia de Humberto gostar dela sem precisar diminuir o espaço de Helena para isso. Talvez fosse exatamente o equilíbrio que Helena ainda não sabia explicar direito.

Heitor colocou a ficha de Denise sobre a própria perna e pegou a de Patrícia.

— Eu gostei muito dessa aqui.

Helena sorriu.

— Eu percebi.

— Ela é muito boa.

— Você quase contratou a mulher quando ela falou da convulsão.

— Quase mesmo. — ele riu. — Mas pensa. Se acontece alguma coisa com ele e a gente não tá aqui… — o humor desapareceu naturalmente de sua voz.

Helena acompanhou seu olhar até o berço.

— Ela não trava — Heitor continuou. — Não liga pra gente perguntando o que faz enquanto perde tempo. Ela chama emergência, faz o que precisa e depois avisa. Eu gosto disso.

Helena também gostava e muito.

— Ela me passa segurança.

— Pra mim também.

Helena hesitou.

— Só achei ela um pouco...

Procurou a palavra.

— Fria? — Heitor sugeriu.

— Não fria.

Patrícia não tinha sido fria. Helena lembrava de como limpara Humberto antes da própria camisa, de como percebera que ele a chamava e não tentara disputar sua atenção.

— Mais técnica, talvez.

— Ela é técnica de enfermagem.

— Eu sei, bobo. Não é isso.

Heitor sorriu.

Helena tentou explicar melhor.

— Eu ainda não sei se consigo imaginar ela aqui em casa todo dia. Com a Denise eu consigo mais.

Heitor assentiu sem contestar.

— Justo.

Aquilo era o que Helena mais gostava naquela conversa. Nenhum dos dois parecia tentando vencer. Heitor não precisava convencê-la de que segurança era mais importante; ela não precisava convencê-lo de que vínculo era. Estavam falando do mesmo filho, apenas olhando para partes diferentes da mesma escolha.

— Se eu tivesse que escolher uma hoje — Helena admitiu — acho que escolheria a Denise.

Heitor não pareceu surpreso.

— Eu escolheria a Patrícia.

— Sério?

— Se tivesse que escolher agora, sem ver nenhuma de novo? Patrícia.

Helena olhou para ele.

— Por causa da parte médica?

— Também. Mas não só. Ela não se desespera, não tenta impressionar, responde o que você pergunta. E eu gostei de como ela ficou com o Humberto sem tentar fazer ele esquecer que você estava ali.

Helena sorriu um pouco.

Ele tinha reparado.

Claro que tinha.

— Mas a Denise tá muito perto — Heitor completou.

— Por quê?

Ele pensou antes de responder.

— Porque a gente não tá contratando só alguém que sabe cuidar de bebê. Essa pessoa vai entrar aqui todo dia. Vai conhecer nossa rotina, ouvir conversa, viajar com a gente provavelmente, conviver com nossa família... e, se der certo, vai amar nosso filho.

Helena ficou quieta.

— Eu gostei de ela saber que amar uma criança não dá direito sobre ela — continuou Heitor. — Isso pra mim vale muito.

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Helena encostou um pouco mais nele.

Era curioso. Denise era sua favorita porque lhe dera segurança como mãe. Para Heitor, a mesma mulher se destacara por compreender limites.

Chegavam ao mesmo lugar por caminhos diferentes.

Restava Lívia.

Helena puxou a ficha.

— E ela?

Heitor fez uma pequena careta pensativa.

— Gostei.

— Mas?

— Menos experiência.

— Eu sabia que você ia falar isso.

— O nosso filho tem cinco meses, Helê.

— Eu sei.

— Se fosse outra função, eu olhava potencial e capacidade de aprender com muito mais peso. Aqui eu prefiro experiência comprovada.

Helena entendeu. Não concordava inteiramente, mas entendia.

— Eu gostei muito do jeito que ela falou sobre aprender o Humberto.

— Eu também.

— E ela foi a única que, quando eu falei que ele era muito apegado a mim, perguntou se isso me preocupava.

Heitor olhou para ela.

— Você gostou dela.

— Gostei.

Helena não acrescentou que também tivera ciúmes absolutamente idiotas de Lívia por alguns minutos. Aquela informação podia morrer com ela.

— Acho que ela respeitaria muito meu espaço com ele.

— Também acho.

— Então você colocaria ela em último?

— Das três? Hoje, sim.

Helena fez uma careta.

— Coitada.

Heitor riu.

— Não é campeonato.

— Parece.

— Então para de chamar de último. Ela é a terceira de cinco profissionais excelentes escolhidas pela minha mãe. Tá sofrendo muito.

Helena riu e encostou a cabeça em seu ombro.

— Pra mim é Denise, Lívia e Patrícia.

— Pra mim é Patrícia, Denise e Lívia.

Helena levantou a cabeça.

— A gente só concorda na Denise.

— Não. A gente concorda nas três.

Ele juntou as fichas.

— Só não concorda na ordem.

Helena olhou novamente para os nomes e percebeu que era verdade.

Ainda era cedo. Tinham conhecido aquelas mulheres por poucas horas, em circunstâncias completamente controladas e dentro de uma entrevista. Talvez a candidata perfeita no papel não funcionasse numa tarde comum. Talvez alguém que ainda deixava dúvidas fosse completamente diferente depois de duas horas acompanhando a rotina real de Humberto.

Heitor também pareceu chegar a alguma conclusão.

— Sabe o que a gente pode fazer?

— O quê?

— As referências já foram checadas pela agência e pela minha mãe, mas isso foi pra confirmar currículo, antecedentes, período de trabalho. A gente pode ligar pros antigos empregadores das três.

Helena se endireitou.

— Nós?

— Uhum. Aprofundar de verdade. Perguntar como elas eram dentro de casa, como lidavam quando a criança ficava doente, conflito, atraso, viagem, limite com os pais... o que eles gostavam e o que incomodava.

Helena olhou novamente para Denise, Patrícia e Lívia.

Aquilo fazia muito mais sentido do que tentar tomar uma decisão naquela noite.

— É uma ótima ideia.

Heitor pegou as folhas e começou a procurar os contatos das referências.

— Então eu ligo pra...

Helena tirou os papéis da mão dele.

— Eu ligo.

Heitor virou o rosto.

— Helê...

— Você ainda está trabalhando.

— Consigo fazer uma ligação.

— Cinco minutos atrás você estava numa reunião, seu celular não parou o dia inteiro e eu sei que, quando acabar seu expediente, você ainda vai querer voltar pro escritório.

Ele abriu a boca.

Helena estreitou os olhos.

— Vai dizer que não?

Heitor fechou a boca.

Ela sorriu, vitoriosa.

— Eu ligo.

— São três.

— Eu sei contar.

— Posso ligar pra uma.

— Heitor…

Ele a encarou por alguns segundos e finalmente levantou as mãos em rendição.

— Tá bom.

Helena juntou as três fichas.

Heitor, porém, passou o braço novamente por sua cintura e a puxou para perto antes que ela pudesse se afastar.

— Mas não agora.

— Por quê?

— Porque agora eu tenho quinze minutos antes de precisar voltar.

— E?

Ele olhou para ela como se a resposta fosse evidente.

— E eu passei o dia inteiro dividindo minha noiva com cinco babás, um bebê extremamente carente e a Monteiro Inc.

Helena começou a rir.

— Seu bebê está dormindo.

— Finalmente.

Heitor inclinou-se e a beijou.

Helena ainda segurava as fichas de Denise, Patrícia e Lívia quando acabou sorrindo contra a boca dele.

Por alguns minutos, as três poderiam esperar.

Notas finais
E qual foi a candidata a babá que vocês mais gostaram nesse primeiro contato?