O CEO que Eu Paguei

14 Corpo Acordado


Helena acordou com o coração acelerado. Mas não era sonho — era puro incômodo. A calcinha estava molhada. De novo. Não por um toque, não por um sonho, mas porque o corpo dela não teve descanso nem dormindo.

Levantou com pressa. Correu pro banho com uma fúria silenciosa, como se pudesse esfregar o que sentia e mandar pelo ralo.

Trocou a calcinha. De novo. Ajeitou o sutiã, mesmo com os seios sensíveis demais pra qualquer contato.

Tentou se maquiar com a frieza de quem está no controle… mas era mentira.

O cheiro do café na cozinha fez seus ombros tensionarem — porque foi como se sentisse o perfume dele no corredor, outra vez, colado nela.

“Você vai sonhar com meu sotaque dentro de você.”

A voz dele invadiu seus pensamentos.

Helena rangeu os dentes.

O pior não era ele ter dito aquilo.

Era ele ter tido razão.

Vestiu a calça preta de alfaiataria com caimento impecável, aquela que valorizava as pernas sem querer parecer que queria. A blusa cinza de manga três quartos era sóbria, justa nos braços e no corpo, com tecido leve que acompanhava os movimentos com discrição. Ela não estava ali pra charme. Mas, no espelho, parecia absurdamente apresentável. Corpo marcado o suficiente pra lembrar que era mulher — e uma mulher que o corpo insistia em trair.

Quando chegou à sala da Plano & Forma, a primeira coisa que notou foi a ausência.

Nada na sala estava no lugar. Nem as divisórias. Nem o som de digitação.

Nem mesmo a mesa dela.

Hugo estava com um outro rapaz da equipe desmontando a última estação.

— Ué… cadê todo mundo?

— Mudança, minha flor — respondeu Hugo, já suando com uma caixa na mão. — Doutor Heitor solicitou a realocação da nossa equipe.

— Como assim...?

— A justificativa é que ele quer a gente mais próximo. Pra “melhor coordenação dos fluxos internos”. Palavras dele pra Clara.

Helena fechou os olhos por um instante.

Coordenar. Fluxos. Próximo.

Quase riu. Quase praguejou.

Suspirou e foi pegar as coisas da sua antiga mesa.

Na caixa dela havia:

*Um porta-retrato dela com os avós no casamento de uma prima. Na época ela tinha 22 anos.

*Um copo rosa térmico de inox com cheiro de café que havia ganhado de Hugo no último aniversário.

* Um hidratante da Boticário para as mãos.

* Um clips com formato de gatinho que tinha ganhado da Júlia.

* E, no fundo da gaveta, um pequeno broche com a imagem de Nossa Senhora — presente do avô.

Tudo ali era Helena. Principalmente no cuidado que ela recebia dos outros, mesmo sem querer e admitir.

Com a caixa nos braços, foi conduzida até o novo setor no andar acima.

Ao entrar na sala nova, quase esqueceu de respirar.

Era ampla, com teto alto e um ar-condicionado moderno.

Mesas com divisórias translúcidas, painéis de vidro no fundo e uma parede inteira ocupada por uma janela panorâmica com vista para a cidade.

As estações estavam dispostas em um padrão curioso — blocos de dois e três, com algumas mesas isoladas, sem nenhum critério visível.

Helena franziu a testa.

— Por que essa disposição esquisita?

Clara, já instalada com seu café com leite, respondeu:

— Foi parte da solicitação. A planta veio com a configuração exata de posições.

— É… acho que tem uma lógica que só o gênio lá de cima entende — comentou Júlia. — Uns ficaram em dupla, outros em trio. E você…

Júlia apontou.

A mesa de Helena estava em em um canto. Nada ao lado. Nada atrás. Só ela, posicionada em frente a uma parede de vidro… e bem alinhada com a sala da diretoria.

As portas duplas de vidro espelhado estavam abertas. Heitor estava lá dentro. Sentado, blazer azul escuro, colarinho impecável, olhos no computador.

Mas ele a viu.

Helena travou com a caixa no colo.

Ele olhou. Sem pressa. Sem sorrisos.

A olhou por inteiro.

Dos ombros tensos à blusa ajustada, ao cabelo preso com firmeza demais.

Ela queimou. Literalmente.

O rosto ardeu. O peito apertou.

E mesmo sem querer, ela cruzou os braços sobre os seios, que pulsaram como se estivessem expostos.

Ele, então, voltou os olhos para o monitor.

Helena engoliu seco e foi até sua mesa, batendo a caixa ali com firmeza.

— Acho que a gente podia reorganizar isso aqui — disse. — Essa disposição não faz sentido.

— Helena… — começou Clara. — Eu tentei. Mas a gente só conseguiu montar assim seguindo o desenho que veio com a requisição.

— E convenhamos — disse Júlia, com um sorrisinho enviesado. — Você foi privilegiada com a visão, viu?

Helena não respondeu.

Abaixou a cabeça e começou ali em pé a organizar suas coisas, ignorando a parede de vidro a sua frente.

O resto do dia passou… normal.

Normal demais.

Helena trabalhava, revisando planilhas, conferindo os fluxos do projeto de melhoria, respondendo e-mails. Tudo como deveria ser.

Mas o corpo dela estava em guerra com a rotina.

E o pior era... ele.

Heitor estava na sala de diretoria. Vidro escuro, portas abertas.

Ela o via de canto de olho, e jurava que uma hora ou outra ele iria lançar um olhar torto, uma provocação, qualquer coisa…

Mas não.

Ele não olhou para ela. Nenhuma vez.

E isso deveria ser um alívio.

Era isso que ela queria, não era?

Não.

Ela se sentia irritada.

Como se tivesse levado um fora sem nem ter se declarado.

"Que ótimo. Ele enjoou do joguinho rápido."

"Mais um homem que só queria brincar de poder."

Helena apertava a caneta com força.

Toda vez que achava que estava no controle, o jogo mudava.

Ela tentou ignorar, mas os olhos voltavam. Sempre.

Para ele.

O paletó azul marinho perfeitamente ajustado nos ombros largos.

A camisa branca agora com dois botões abertos, só o suficiente pra sugerir uma pele firme por baixo. O tórax largo que melhorava o caimento de qualquer roupa

O relógio caro no pulso esquerdo.

O cabelo com o corte Textured Crop Fade bem alinhado com o meio baixo levemente para trás.

A expressão de CEO que não tolera erro.

Um rosto sério, imponente. Com traços esculpidos — e a barba mais marcada do que no dia anterior.

Ele digitava.

Atendia ligações.

Assinava.

Coordenava.

Entravam pessoas na sala. Ele sorria educadamente, cumprimentava com a cabeça.

Um leve levantar de canto de boca, nada demais. Mas aquilo parecia… perigoso demais para ser só charme.

Helena não sabia por que estava tão atenta ao fluxo de entrada e saída da sala dele.

Por que seus olhos ficavam indo até lá como se esperassem algo.

Talvez ele tivesse se cansado.

Talvez fosse isso.

Talvez ela tivesse sido só mais uma piada para a cabeça dele bater e seguir.

Ela sentiu a garganta apertar.

Fez uma expressão séria, contida — mas os olhos diziam tudo.

Não era mágoa. Era… raiva de si mesma.

“É isso que você queria, não é? Distância. Frieza. Seriedade.”

Então Clara se levantou.

Bateu de leve na própria mesa:

— Tô indo entregar os relatórios na sala do diretor.

— Hm — respondeu Helena, tentando parecer indiferente.

Mas quando Clara entrou… Helena ficou atenta.

Viu os dois conversando, ela em pé, ele sentado, depois ela se sentando à frente dele.

Ele sorriu para alguma coisa que ela disse — um sorriso rápido, contido, profissional.

E mesmo assim… algo incomodou.

Talvez fosse o fato de que ele sorria.

Mas não para ela.

Um tempo depois, Clara voltou.

Helena continuou realizando os seus afazeres do dia, até que ouviu seu nome.

— Helena? — Clara a chamou, colocando a cabeça por cima da divisória. — Ele pediu pra você ir lá. Assinar os papéis do projeto da Ana Alice.

— Ele quem?

— O doutor Heitor. Mandou no Teams. Disse que terminou de revisar e imprimiu as permissões novas. Falta só a parte da gestão de riscos.

Helena se levantou com calma, mas por dentro tudo se contraía.

Olhou rapidamente no vidro da sala antes — como quem não quer se arrumar, mas quer ter certeza de que está apresentável.

Blusa justa. Sutiã marcando. A calça agora parecia apertada demais.

E o sutil brilho do batom que ela nem lembrava que havia passado.

Entrou.

A sala estava perfumada com café da Nescafé próxima a janela e couro caro.

As janelas deixavam a luz laranja do fim de tarde entrar como se fosse palco.

Heitor estava sentado, paletó pendurado na cadeira, mangas da camisa arregaçadas até os antebraços fortes, relógio brilhando na luz.

Os seus olhos azuis se deslizavam pelas linhas do contrato.

Rosto sério. Profissional.

Como se o dia tivesse sido inteiro dele — e ela fosse só mais uma assinatura.

Sem dizer nada, ele levantou o queixo e apontou para a cadeira diante da mesa:

— Senta. — ele disse como quem ordenava — Mas cruza as pernas. Não quero que a vista me distraia.

Helena piscou. Uma vez. Duas.

Mas não cedeu o olhar.

— Eu não sabia que você ditava postura agora também — respondeu, sentando, mas sem cruzar as pernas.

Ele sorriu. Pequeno.

— Dito tudo o que acontece nessa empresa, Helena. Inclusive onde você senta, e como.

Ela respirou fundo, tentando não tremer.

Ele fingiu que voltava a ler os papéis.

Mas os olhos azuis escuros dele subiram.

Lentos.

Indecentes.

Do leve decote da blusa até a curva do pescoço, passando por cada pedaço de pele visível como se estivesse marcando território.

— Esse batom é novo? — perguntou.

— Não.

— Combina com você.

— Você não precisa comentar minha boca, Heitor.

— Não preciso, mas eu quero.

Ele assinou o último papel com calma, empurrou em direção a ela.

Helena pegou a caneta. Assinou. Rápida. Firme.

Quando estava se levantando, pronta para sair dali e se proteger de mais uma provocação, ele falou sem levantar os olhos:

— Aliás… a calcinha de hoje… — ele pausa a fala — Está mais seca? Ou continua molhada como ontem?

Helena parou.

O sangue subiu para o rosto como uma labareda.

Ela girou nos calcanhares, encarou ele com os olhos afiados como navalhas.

Não disse uma palavra.

Mas a raiva no olhar dizia: “Você é um desgraçado.”

E mesmo assim…

Ela não negou.

Saiu da sala com o que restava da dignidade.

O salto batendo forte no piso.

E o coração…

Molhado. Latejando. Confuso.