O CEO que Eu Paguei

82 Como Se Nada Tivesse Acontecido


Heitor sentiu o peso da toalha nos ombros e ouviu a voz de Helena atrás dele.

— Tá frio aqui fora…

O corpo dele travou.

Por dentro, a vontade era de virar e olhar nos olhos dela.

Perguntar se ela estava ali por ele ou por culpa.

Mas não era o momento.

O mundo não era justo.

E ele já tinha aprendido a viver com isso.

Então, vestiu o papel de sempre.

O homem que segura tudo com um sorriso debochado.

— Pensei que tu tinha me deixado no relento mesmo — murmurou, com aquele tom carregado de ironia suave.

Ela não respondeu.

Aquilo doeu mais do que se tivesse gritado.

Ele virou, o rosto calmo, o olhar treinado para parecer leve.

— Depois do trato que eu te dei hoje, tu queria o quê? Que eu dormisse direto? Precisei até de um ar.

Helena continuava séria. Mas os olhos dela entregavam tudo.

Ainda assim, rebateu com o jeitinho dela:

— Você fala demais, Monteiro.

Heitor riu com o canto da boca e pegou o iogurte da mão dela sem pedir.

— Tive que contemplar até a natureza pra realinhar os sentimentos — disse, e antes que ela reagisse, encostou a embalagem gelada no braço nu dela.

— Ei! — Helena pulou para o lado, empurrando ele. — Você é idiota?

— Um idiota apaixonante — rebateu, abrindo um sorriso e já indo em direção às escadas.— Bora, mulher. Amanhã tem expediente.

Eles subiram juntos, e Heitor voltou a ser o de sempre.

Provocando.

Rindo.

Se escondendo.

— Você ainda tá mancando, confessa.

— Tô é com raiva de ter subido essa escada contigo — ela respondeu, cruzando os braços.

— Vai vendo, amanhã tu que vai querer que eu te leve no colo de novo. Na próxima, te deixo sem água.

Heitor gargalhou.

Era isso. O ritmo dos dois.

Doía menos assim.

Ao chegar no andar de cima, ele abriu a porta do closet.

— Tem roupa aqui de tudo quanto é tamanho. Fica à vontade. Tão tudo nova, porque deixaram pra quando alguém viesse visitar.

Mentira.

Cada peça ali tinha sido escolhida pra ela.

Pra Helena se sentir em casa.

Mesmo quando ainda não dizia que queria estar.

Ela olhou com calma. Tocou uma ou duas. A expressão dela suavizou.

Heitor se encostou no batente da porta, deixando ela à vontade.

Conversaram um pouco. Ela comentou de um short, ele disse que combinava com a bunda dela.

Mas não foi além.

Nenhuma provocação enquanto ela se trocava.

Nenhuma brincadeira.

Nenhuma armadilha.

Ele voltou pro quarto, pegou uma samba-canção preta e vestiu sem cerimônia.

Helena, já pronta, resolveu provocá-lo:

— E aí, cadê seu fogo, Monteiro?

Heitor caiu na cama com um gemido teatral.

— Tu me arregaçou hoje, mulher. Preciso dormir. Ou amanhã não acordo nem pra trabalhar, quanto mais pra aguentar você me revirando de novo.

— Fresco.

— Exausto.

Ela sorriu e deitou ao lado dele.

Nenhum dos dois disse mais nada.

Mas estavam ali.

Juntos.

No silêncio confortável que resta quando os dois sabem que ainda tem muito pra acontecer — mas essa noite, pelo menos… ninguém foi embora.

Heitor ficou um tempo observando o teto, os olhos fixos, o coração apertado.

O quarto estava escuro, o ar levemente frio, mas ele ainda sentia o calor do corpo dela do lado.

Então Helena se virou, e como se nada tivesse acontecido, deitou no peito dele.

Ele não entendeu.

Não sabia por quê.

Ela não tinha dado nenhum sinal de que queria mais.

Mas ali estava. Deitada nele. Como se pertencesse.

E aquilo… doeu.

Doía muito ela encostar assim.

Doía porque ele queria aquilo mais do que tudo.

Mas saber que talvez fosse só por impulso — ou arrependimento — doía mais.

Mesmo assim, ele não se mexeu.

Porque se era pra aguentar, ele aguentaria.

Por ela.

O despertador tocou.

— Bom dia — ele disse, a voz rouca.

— Hm... — ela resmungou, ainda no peito dele.

Ele se levantou rápido.

Pegou o celular, respirou fundo, tentando organizar os pensamentos e o caos interno.

— Onde você vai? — ela perguntou, se espreguiçando devagar.

— Me arrumar. Dona Cidinha deve já estar na cozinha fazendo o café da manhã.

— Quem é essa? — Helena franziu o cenho, acordando rápido demais pro gosto dele.

— A pessoa que cuida da casa. Pedi pra ela fazer o café pra gente.

Helena sentou na cama, emburrada.

— Eu podia fazer, não precisava disso...

— Ah claro. — Ele riu, já indo em direção ao banheiro. — Pra tu botar fogo na minha cozinha? Nem fodendo.

— Heitor, vai se ferrar.

— Só se for contigo, amor. Mas depois do que tu fez comigo ontem, acho que quem tá ferrado sou eu.

Ela jogou um travesseiro nele, ele gargalhou e fechou a porta do banheiro.

Enquanto ele se arrumava, Helena foi até o closet. As roupas estavam ali, como no dia anterior. Algumas peças novas, de diferentes tamanhos, modelos… e todas com a etiqueta da marca.

Ela escolheu uma calça de alfaiataria e uma camisa com um corte leve e elegante.

Quando apareceu na porta do quarto, ele quase perdeu o fôlego. Mas não deixou transparecer.

— Essa camisa… combina com seus olhos — ela disse, arrumando a gola dele com os dedos. — Você fica muito bonito nela.

Heitor sorriu educado, e respondeu com aquele humor dele:

— Alguém acordou diferente depois do trato que levou ontem, hein?

— Idiota.

— Você gosta.

Os dois discutiram mais um pouco.

Helena tentando arrancar alguma reação verdadeira dele.

Heitor desviando, como sempre fazia quando estava ferido demais pra se permitir sentir.

Descendo para a sala, a mesa de café estava montada com capricho.

Torradas, pães, frutas, queijos, suco.

Mas nenhuma Dona Cidinha por perto.

— É sempre assim? — ela perguntou, sentando-se.

— Nem sempre. Normalmente não tem ninguém dividindo a mesa comigo.

Helena olhou pra ele com um ar mais suave.

Heitor percebeu o olhar.

Sentiu a intensidade.

Mas desviou.

— Tá olhando demais, Helena. Vai que se apaixona de vez.

— Quem disse que eu não já tô?

Ele ficou em silêncio por um segundo a mais do que gostaria.

Depois riu e mudou o rumo da conversa.

Ela pareceu… um pouco desapontada.

Como se estivesse esperando ele fazer exatamente o que sempre fez. Mas ele não fez.

No carro, Heitor abriu a porta pra ela.

Antes de entrar, Helena se esticou na ponta dos pés e deu um selinho nele.

— Obrigada… por tudo.

Heitor sorriu torto.

— Vou ter que te dar outro chá daquele então… Tu só fica fofa assim quando tá aberta na cama.

— Você é insuportável.

— E você é minha.

Ela entrou no carro, fingindo raiva. Mas ele viu o sorriso preso no canto da boca.

Durante o trajeto, ele colocou uma música qualquer.

Nem notou o que era.

Helena tentou puxar assunto.

Comentou do tempo, do trânsito, de um e-mail que precisava mandar.

Heitor respondeu, mas as frases morriam curtas.

Secas.

Ele tava ali. Mas não tava.

Quando chegaram na Monteiro Inc., ele abriu a porta do carro pra ela.

— Você não vai subir? — ela perguntou, ajeitando a bolsa no ombro.

— Não. Tenho umas reuniões nesses dias. Vou ficar home office.

Ela franziu o cenho.

— E desde quando você faz home?

— Desde que tenho um motivo muito bom pra te ver saindo pro trabalho com essa calça apertada aí. Vai. Trabalha direitinho. Você é a responsável por nós dois agora.

Helena riu.

— Você é um safado.

— E você é a funcionária mais gostosa. Agora vai, senão eu te arrasto de volta pro carro.

Ela saiu.

Mas olhou pra trás.

Ele ainda estava ali.

Mas não era o mesmo olhar de sempre.

E Helena percebeu.

Pela primeira vez… foi ela quem ficou com vontade de ficar.