A semana de Helena começou com um peso no estômago — literalmente. A náusea veio como uma onda logo cedo, forte, implacável, e o remédio que a doutora havia prescrito parecia não surtir efeito algum. Mal conseguia ficar de pé sem sentir o mundo girar.

Heitor, impaciente com a fragilidade dela, decretou de imediato: home office. Helena protestou, irritada com a imposição, mas no fundo sabia que ele tinha razão. Seria impossível enfrentar reuniões e demandas no novo cargo passando o dia dobrada sobre o banheiro, vomitando sem trégua. E, se havia uma vantagem em ser namorada do CEO, era essa: ninguém ousaria contestar.

O problema é que Heitor também queria ficar de home office — colado nela. Foi preciso convencê-lo com palavras que ainda ecoavam do almoço de domingo. Helena lembrou do que Renato havia dito ao filho:

"Com uma criança a caminho, Heitor, você vai ter que expandir nossos negócios. Pressionar a concretização dos projetos e encontrar novos clientes em potencial."

E também devolveu ao namorado as próprias palavras dele:

"Quero que o nosso bebê cresça em uma casa grande, como eu cresci."

Ele a olhou contrariado, mas acabou cedendo. Saiu para o escritório com determinação nos olhos. Helena, mesmo exausta, não deixou de sentir orgulho dele.

O celular, porém, não lhe dava descanso. Notificações pipocavam sem parar. Celina, a sogra de temperamento firme, agora era a mais preocupada, enviando mensagens a cada hora: “Está conseguindo comer?”, “Quer que eu mande sopa?”, “Quer vir descansar na mansão?”. Quando Helena demorava a responder, vinha a ligação.

Era sufocante — e, ao mesmo tempo, reconfortante. Heitor também não parava de perguntar como ela estava, e até Renato, que nunca antes havia mandado mensagem, apareceu no WhatsApp: “Precisa de alguma coisa? Tem vontade de comer algo específico? Abriu uma nova gelateria, Gelateria artesanal de Milão. Posso passar lá e comprar gelato para vocês”.

Helena suspirou, ajeitando-se no sofá com uma almofada no colo. Sentia-se cercada por cuidados que nunca conheceu em casa. Passou a mão devagar sobre a barriga ainda inexistente, os olhos marejando sem que percebesse.

Não era só o bebê que ganhara uma família.

Ela também havia ganhado

Deitada no sofá, a almofada apoiando as costas, Helena segurava o celular entre as mãos. O brilho da tela refletia no rosto cansado. Pensava na avó. Já havia ensaiado tantas vezes como contaria a novidade… mas só de imaginar a reação dela, o peito se apertava. Dona Olívia sempre foi sua fortaleza, mas também uma voz dura quando precisava. Helena temia ouvir de novo que estava repetindo os erros da mãe. Aquele peso era maior do que qualquer enjoo.

Mas as notificações não vinham só de Celina e Heitor. No topo da tela, um número chamava atenção: 13 mensagens não lidas. Todas de Lorena Medeiros.

Helena rolou as notificações e suspirou. Não entendia a insistência daquela mulher. Quase sempre eram mensagens banais, perguntas sem importância, tentativas de puxar conversa que iam se acumulando ao longo do dia. Aquilo já começava a irritá-la. O dedo pairou sobre a tela, tentada a bloquear… mas parou. Por respeito a Heitor. Afinal, Lorena era esposa do padrinho dele. Ele já havia dito que não achava saudável esse contato, e talvez tivesse razão.

Mesmo assim, a imagem da mulher voltava à mente. O jeito como digitava nervosa, as mensagens apagadas às pressas, a carência explícita até nas palavras. Uma parte de Helena sentia raiva — principalmente pelo nome que carregava, trazendo memórias que doíam como cicatrizes abertas. Lorena. O simples som já a deixava amarga. Mas outra parte, quase contra a própria vontade, sentia pena. E se ela fosse mesmo uma mulher solitária, cercada de homens, sem ninguém com quem dividir confidências femininas?

Helena apoiou o celular no peito, fechou os olhos e suspirou.

No fundo, era isso que a deixava mais confusa: os sentimentos misturados. A mágoa pelo nome, a irritação pela insistência, a culpa por pensar em bloquear, e a compaixão de quem sabia o que era sentir falta de alguém.

Helena ia arremessar o celular no canto do sofá quando a tela se acendeu com uma ligação. O nome brilhou diante dos olhos dela: Lorena Medeiros.

Um frio súbito percorreu o estômago, tão intenso que a fez enrijecer. Havia algo errado naquela sensação. Ainda sem entender, atendeu.

— Alô? — a própria voz saiu frágil e baixa.

— Alô, Helena… — respondeu a outra, e bastou ouvir o timbre para um arrepio lhe subir pela espinha.

Helena fechou os olhos com força, os dentes travados.

— Está ocupada? — continuou Lorena, suave, quase hesitante. — Desculpe incomodar… é que eu precisava muito falar com você.

O coração de Helena disparou, descompassado. Ela sabia que nunca havia encontrado aquela mulher, mas então por que a voz dela parecia tão íntima? Tão próxima? Como se sempre estivesse ali?.

As lágrimas surgiram antes que ela percebesse, queimando nos olhos, deslizando pelas bochechas. Tocou uma com a ponta do dedo, observando a umidade como se fosse uma prova de que não estava enlouquecendo.

— Helena?… — a voz de Lorena veio de novo, atenta. — Você está aí?

Helena engoliu em seco, tentando sufocar aquela onda que a dominava. Só podem ser os malditos hormônios, tentou se convencer.

— Ah, sim. Estou sim. — respondeu, ajeitando a voz, tentando se recompor.

Do outro lado da linha, ela ouviu um suspiro leve, como se fosse acompanhado de um sorriso invisível. E esse simples som bastou para que aquela sensação de familiaridade esmagadora voltasse a invadi-la, preenchendo cada espaço vazio de seu peito.

— Fico feliz que atendeu. — a voz vinha macia, sorridente. — Eu sei que já mando muitas mensagens, mas às vezes escrever não parece suficiente. Eu… senti vontade de te ouvir.

Helena fechou os olhos. Vontade de me ouvir? Os dedos se contraíram contra a almofada, como se buscassem uma âncora. Mas o coração batia descompassado, reconhecendo algo que a mente não sabia nomear.

— É… que estou um pouco cansada. — disse depressa, numa tentativa de encerrar ali. — Mas está tudo bem.

Do outro lado, um suspiro baixo, cheio de palavras guardadas.

— Não quero ser invasiva, mas… Helena, você me passa uma paz. Uma coisa boa. Quando converso com você, sinto que não estou sozinha.

A garganta apertou. Helena mordeu o lábio, e de repente as lágrimas já escorriam sem permissão. Que diabos está acontecendo comigo?

— Você parece mesmo cansada… — Lorena prosseguiu, agora com uma ternura quase maternal. — Descansa, meu bem. Não precisa falar muito. Só queria que soubesse que pode contar comigo, pra qualquer coisa. Qualquer coisa mesmo.

Helena respirou fundo, tentando controlar a voz.

— Obrigada… — murmurou, limpando o rosto com a mão livre.

— Não tem de quê. — Lorena respondeu de imediato, calorosa. — Você é especial, sabia?

Aquilo soava estranho demais. Que tipo de conversa era aquela? Helena fechou os olhos com força.

— Eu… vou descansar um pouco. Depois a gente se fala. — disse, quase num sussurro.

— Claro. — Lorena respondeu com compreensão, mas havia uma sombra de melancolia em seu tom. — Bom dia, Helena. Se cuida.

A ligação se encerrou. Mas o silêncio que se instalou parecia mais barulhento que qualquer voz. Helena ficou parada, o celular ainda na mão, até levar a outra à barriga, como se buscasse no bebê um ponto de realidade.

Que sensação era essa?

— Deve ser só os hormônios… só isso. — murmurou, sem muita convicção.

Os olhos voltaram para a tela do celular. A foto de perfil de Lorena, o marido dela, Jonas e Isaac. Todos sorrindo. Todos com aquele ar de família perfeita. Por um segundo, apenas um segundo, Helena se pegou pensando como teria sido nascer em uma casa assim, com uma mãe que a chamava de “meu bem” e falava com tanto carinho. O pensamento a feriu. Mordeu o lábio e deixou escapar um riso cínico.

— Não, não é assim que a vida funciona… — murmurou.

Ela nunca foi de cobiçar a vida dos outros. Já tinha aprendido a se virar sozinha cedo demais. E agora tinha algo muito maior: Heitor, o bebê, Celina e Renato. Uma família de verdade.

Abriu a conversa com Celina. Seus dedos hesitaram sobre o teclado, depois deslizaram:

Helena:

“Talvez eu esteja sendo boba… mas queria dizer obrigada. 💛 O jeito como a senhora cuida de mim me faz sentir parte de verdade, como se eu já fosse da família. Para mim, você é como uma mãe.”

O coração disparou ao ver os três pontinhos surgirem. Eles apareciam, desapareciam, voltavam. Helena quase parou de respirar. Até que as mensagens vieram em sequência:


Celina Monteiro:

“Então porque demora tanto para atender as minhas ligações??”


Celina Monteiro:

“Francamente!”


Celina Monteiro:

“Sorte sua que é da família. E que eu até gosto de você.”


Celina Monteiro:

“Suas pernas estão inchadas? Posso pedir para a minha massagista ir aí.”


Helena riu baixinho, sentindo as lágrimas voltarem aos olhos, mas dessa vez eram boas. Quentes. Reconfortantes.

Se tivesse uma mãe de verdade, provavelmente seria assim: meio dura, exigente, mas presente. Uma mãe que cuidava mesmo fingindo que não se importava.

Olhou para a barriga e acariciou de leve, sorrindo.

— Acho que você deu sorte, bebê. Nós dois demos.

Passou um bom tempo na varanda, trabalhando no Power BI. Tomou a vitamina de abacate que Heitor havia feito para ela, a vista do Rio reluzia sob o sol. O celular vibrou sobre a mesa, quase deslizando. Mais uma notificação. Um sorriso se formou: Heitor? Celina? Renato? Ou… Lorena?

Com um suspiro cansado, pegou o aparelho. Um número desconhecido. A mensagem piscava simples:


Desconhecido:

Boa tarde, tudo bem?


A sobrancelha dela arqueou. Sem pensar duas vezes, clicou na foto do perfil.

Um retrato de meio rosto. Antônio Fortenelle. Ele usava um boné azul-marinho com letras amarelas, a aba sombreando parte do olhar. A imagem estava cortada de propósito, deixando apenas metade do rosto à mostra. O que não aparecia, e Helena percebeu imediatamente a ausência, era o olho esquerdo, justamente o que guardava a cicatriz que ele ganhou de Heitor.

Na foto, atrás dele, um céu azul sem nuvens, palmeiras altas recortando o horizonte e algumas construções coloridas. Ele parecia relaxado, como se estivesse em algum lugar litorâneo, vivendo uma vida despreocupada. Mas para Helena, a sensação foi tudo menos leve.

Mais um.

Ela largou o celular sobre a mesa, encarando a tela de longe, como se aquele pequeno objeto pudesse queimar sua pele.

Antônio Fortenelle.

O nome ecoava como um prenúncio.


Helena:

Boa tarde, tudo bem e com você?


Antônio:

Poderia estar melhor.


Antônio:

Estou triste e chateado.


Helena ergueu as sobrancelhas. Triste e chateado? O que ela tinha a ver com aquilo?


Helena:

Por quê?


Antônio:

Você saiu do projeto. E nem veio se despedir…


Helena respirou fundo, apoiando o queixo na mão.


Helena:

Ah, desculpe... Aconteceu tudo tão rápido.


Antônio:

😞


Helena soltou um riso curto.


Helena:

Que drama, hein?


Antônio:

Não é drama. É só que…


Antônio:

Gostava da sua presença.


Helena balançou a cabeça, descrente. O homem que comandava uma das maiores corporações do país realmente estava agindo como um adolescente magoado?


Helena:

Soube que vão colocar a Ana Alice para conduzir o projeto. Vai gostar bem mais dela, acredite.


Antônio:

Eu duvido, viu…


Ela revirou os olhos. Era pré-requisito para ser CEO ser tão dramático assim? Deixou o celular de lado, abriu o TikTok e começou a ver vídeos sobre gravidez.

Não demorou. O aparelho vibrou outra vez.


Antônio:

Acho que seria de bom tom nos encontrarmos e encerrar esse ciclo.


Helena soltou uma risada irônica, digitando rápido:


Helena:

Já está encerrado, Antônio 👋


Antônio:

Por favor…


Helena:

Melhor não, viu.


Silêncio por alguns segundos. Ela quase voltou ao TikTok quando nova mensagem surgiu.


Antônio:

Minha mãe vai estar junto, só queremos nos despedir.


Helena suspirou fundo. Viviane... No meio de tudo, realmente não havia se despedido da mulher que acreditou nela desde o início. Um aperto veio no peito. Talvez devesse ao menos mandar uma mensagem de agradecimento.


Helena:

Vou mandar uma mensagem para ela.


Helena:

Adeus, Antônio.


Sem hesitar, bloqueou o contato. Olhou a tela por alguns instantes, o coração ainda acelerado. Não queria chatear Heitor. E, no fundo, sabia que aquele ciclo já estava mais que encerrado.

Olhou para o horizonte. O céu azul intenso parecia se estender para sempre, com o brilho do sol carioca refletindo nos prédios e no mar ao fundo. Por um instante, riu sozinha. Como eu vim parar aqui?

Era quase engraçado pensar que tudo havia começado por um impulso tolo — a solidão, o desejo simples de sexo. E no entanto, daquele “engano” tinha nascido o maior acerto da sua vida.

Se não tivesse pedido folga naquele dia… se não tivesse se esbarrado com ele… estaria agora prestando contas à Fort Group, talvez correndo pelos corredores frios do escritório de Antônio Fortenelle. Será que Viviane a teria notado do mesmo jeito? Será que Antônio teria se interessado por ela?

Massageou as têmporas, balançando a cabeça. Por maior que fosse a loucura do pensamento, algo dentro dela gritava a resposta: não. Não havia caminho em que ela acabasse com outro homem. Era como se sua vida tivesse sido inevitavelmente escrita para cruzar com a de Heitor. Era ele. Sempre seria ele.

Suspirou fundo, abrindo o calendário menstrual no celular. Sete semanas. Voltou no tempo com os olhos: onde estavam sete semanas atrás? A memória veio nítida, a carona depois da filial, ela provocando, ele com aquele olhar safado, e o inevitável que veio depois.

Soltou um riso nervoso. Pelo aplicativo, era um dia “infértil”. Bem que dizem para não confiar em tabelinha. A ironia a fez corar: o bebê tinha sido concebido no banco de trás do carro. Quase uma piada, se não fosse a coisa mais séria do mundo.

O calor do Rio castigava, mesmo com a roupa fresca. Helena passou a mão na testa, lembrando das palavras de Renato sobre uma gelateria famosa. Abriu o notebook, digitou o nome, e logo surgiram fotos coloridas de taças fartas, sabores artesanais, mesas charmosas. Só de olhar, a boca encheu de água.

— Eu realmente preciso disso. — murmurou, apoiando o queixo na mão.

O lugar não era longe. Uma escapadinha rápida. Nada demais. Fechou o computador, escolheu uma roupa leve, ajeitou os cabelos e pegou a bolsa.