O CEO que Eu Paguei
156 A cicatriz que nunca fecha
Helena caminhava devagar, a brisa quente misturada ao ar salgado do mar fazia cócegas no nariz. Ainda sentia aqueles enjoos insistentes que a perseguiam, mas, para sua sorte, não passaram de leves desconfortos — nada que resultasse em correr para um banheiro. Talvez fosse um bom sinal. Talvez até o bebê tivesse animado com a ideia de sorvete.
Quando chegou à sorveteria, parou por um instante diante da fachada envidraçada. Em letras douradas, reluzia: “Gelateria artesanal de Milão”. O lugar exalava luxo até na escolha da tipografia. Lá dentro, o ar fresco e perfumado se misturava ao som baixo de música instrumental e ao burburinho discreto dos clientes.
Entrou, e logo foi atingida pelo espetáculo visual. Balcões impecavelmente iluminados exibiam sabores que mais pareciam obras de arte: pistache da Sicília com pequenos fragmentos esmeralda, limão da Costa Amalfitana brilhando como se tivesse sido recém-espremido, gianduia reluzindo com sedução achocolatada, lavanda com mel exalando um perfume delicado e quase poético.
Na fila, Helena notava os olhares curiosos de algumas pessoas. O vestido fresco, os cabelos soltos, a postura elegante — havia nela uma mistura de simplicidade e refinamento que sempre chamava atenção. Mas, dessa vez, não se importou. Não estava ali para corresponder a expectativas, mas sim para se dar um presente.
Quando chegou a sua vez, pediu com a naturalidade de quem tinha direito a todos os prazeres do mundo:
— Uma taça de pistache da Sicília, limão da Costa Amalfitana, gianduia… e lavanda com mel, por favor.
A atendente arqueou uma sobrancelha, surpresa pela ousadia da escolha múltipla, mas serviu com um sorriso. O valor? Exorbitante, quase ofensivo. Mas Helena deslizou o cartão black sem pestanejar. O pai do meu bebê pode se orgulhar — esse é um capricho nosso.
Sentou-se em uma mesa próxima à janela, a taça reluzente diante dela. Pegou a primeira colherada: pistache. O sabor era intenso, puro e sofisticado. Fechou os olhos. É isso. Um pedaço da Sicília, só para mim. Depois, veio o limão — ácido, fresco, cortante, mas com uma suavidade que limpava a boca. A cada colherada, os ombros relaxavam mais, como se cada sabor fosse um abraço.
E então o gianduia. Rico, denso, quase erótico na textura que se desfazia na língua. Um pecado aceitável. Helena riu sozinha. Por fim, a lavanda com mel. Um sabor delicado, inesperado, que a fez suspirar. Era doce na medida, floral e suave, como se estivesse bebendo o cheiro de um campo ao entardecer.
Terminou a primeira taça e não pensou duas vezes: pediu outra. Na segunda, não havia mais pressa nem cerimônia. Saboreou lentamente, mesmo sentindo os olhares ainda mais curiosos dos outros clientes. Estava ali, grávida, os olhos marejando de alegria boba, devorando duas taças luxuosas de sorvete como se fossem a salvação do mundo.
Pegou o celular, tirou uma foto da taça e mandou junto a uma mensagem para Heitor “Estou na sorveteria nova tomando sorvete com o nosso bebê. Só faltou você.”, depois para Celina “Fiquei com vontade de comer esse sorvete, ai vim, é pertinho de casa. Não se preocupe.” e para o sogro “Vi as fotos da gelateria no Instagram, eram tão bonitas que tive que vir aqui. O senhor tem ótimo gosto!”
Era isso que queria para o bebê: momentos simples que pareciam milagres.
Helena estava terminando a segunda taça, satisfeita, quando um arrepio desconfortável percorreu sua nuca. O tipo de sensação que não se explica, apenas se sente. De relance, percebeu: na mesa ao lado, um homem a observava.
Braço inteiro coberto por tatuagens que subiam até o ombro, bigode fino, olhar cheio de intenção. Ele não disfarçava. Pelo contrário — sustentava o olhar com um sorrisinho torto, irritante, como quem tinha prazer em incomodar.
Helena franziu o rosto, tentando se concentrar no sorvete. Ignora, Helena. Só ignora. Mas a cada colherada dela, parecia que ele fazia questão de encarar mais. Até que, em um gesto lento e debochado, pegou a colher da própria taça, passou a língua de forma provocativa e não tirou os olhos dela enquanto fazia isso.
Um calafrio de repulsa percorreu sua espinha. O estômago embrulhou, não apenas pelo enjoo da gravidez, mas pela sensação invasiva. Guardou a compostura, pegou a bolsa, levantou-se com firmeza e caminhou em direção à saída.
O coração acelerava. Não vou estragar meu dia com esse tipo de gente.
Mas, antes que pudesse alcançar a porta, ouviu o arrastar da cadeira atrás dela. O som metálico do pé da cadeira contra o chão ecoou, e logo os passos pesados dele a seguiram.
Helena apertou o passo, o ar mais quente da rua batendo em seu rosto quando atravessou a porta. A claridade a cegou por um segundo, mas ela só pensava em se afastar dali.
— Ei, princesa. — a voz grave e rouca dele soou logo atrás, chamando por ela.
Helena fechou os olhos por um instante, engolindo seco. E continuou a andar, ignorando.
O sol batia forte na calçada, mas Helena sentiu um arrepio frio quando uma mão pesada agarrou a dela.
— Que isso, princesa… — a voz dele soou grave, arrastada, carregada de marra.
Helena se virou bruscamente, o coração disparando. O homem das tatuagens estava ali, perto demais. O aperto da mão dele era firme, quase dolorido.
— Me solta. — disse, a voz vacilante, puxando a mão com força.
Ele riu baixo, o sorriso torto abrindo ainda mais.
— Calma, pô. Só quero trocar uma ideia.
Ela puxou de novo, conseguindo soltar a mão, e deu dois passos para trás. Mas ele também avançou dois passos, como um predador que acompanha a presa.
Helena sentiu o estômago revirar. A lembrança do dia em que conheceu Jonas veio à mente — mas aquilo não tinha nada de parecido. Esse homem… esse homem era perigoso.
— Eu não tenho nada pra falar com você. — respondeu firme, tentando soar confiante.
— Ih, qual é… tá de caô. — ele inclinou a cabeça, olhando-a de cima a baixo sem pudor. — Uma preta gostosa dessas andando sozinha… quem não ia querer trocar uma ideia?
O nojo subiu pela garganta dela.
— Eu tenho namorado. — disse, a voz firme, embora por dentro tremesse.
Ele deu uma gargalhada debochada, se aproximando mais uma vez.
— Namorado? — repetiu, entortando a boca. — Então traz ele. A gente divide, ele assiste.
Helena gelou inteira. O coração batia forte, como se quisesse fugir de dentro do peito. Mas quando deu dois passos para trás, trombou contra algo sólido. Um corpo.
Ela engoliu seco, o pavor aumentando, até sentir uma mão firme segurar seu braço com segurança.
Virou-se devagar, os olhos arregalados.
Antônio Fortenelle estava ali. Elegante, vestido uma polo, um calção, um chinelo e um boné, todos da cor branca. O rosto sério, a presença tão imponente que parecia mudar o ar ao redor. O coração de Helena pulou no peito — alívio e irritação se misturando.
Ela mal conseguiu respirar.
O olhar de Antônio passou dela para o homem tatuado, e naquele instante Helena percebeu: o clima havia mudado.
Helena ainda respirava rápido, mas antes que pudesse reagir, Antônio a puxou com naturalidade para o peito dele, como se fosse a coisa mais óbvia do mundo. O braço dele se fechou ao redor dela, firme, protetor e possessivo.
Ele não olhou para ela uma única vez. Seus olhos verdes — cortados pela cicatriz profunda que marcava o rosto como uma assinatura cruel do destino — estavam fixos no homem tatuado.
— Tá incomodando a minha mulher? — perguntou baixo, a voz arrastada, sem pressa, carregada de um sarcasmo quase preguiçoso.
O sujeito soltou uma risada nervosa, tentando manter a pose.
— Relaxa, chefia… só tava trocando uma ideia com ela.
— “Trocar uma ideia”. — Antônio repetiu, inclinando levemente a cabeça, como se saboreasse as palavras. — Estranho… porque daqui, pareceu mais um jegue latindo do que uma conversa.
O sorriso do outro morreu.
Antônio não se moveu um centímetro. Continuou parado, ereto, com aquela calma gelada que era ainda mais assustadora do que um ataque de fúria. Helena, colada contra o peito dele, sentia cada músculo do próprio corpo em tensão — mas nele, não havia nada além de controle absoluto.
— Vai cuidar da sua vida, parceiro. — o homem resmungou, dando meio passo à frente para se impor.
Foi quando Helena percebeu. O olhar de Antônio mudou. Os verdes claríssimos estreitaram, e a cicatriz pareceu ainda mais marcada, como se desenhasse o rosto para um papel de vilão. Não havia força física naquela presença — mas o jeito como observava, como se já tivesse medido, pesado e condenado o sujeito em silêncio, fez o ar entre eles gelar.
— Você vai dar mais um passo — Antônio disse baixo, quase num sussurro carregado de ironia — e eu vou te mostrar a diferença entre cachorro de rua e dono de jaula.
O silêncio pesou. O cara tentou manter a marra, mas engoliu em seco. O sorriso falso tremeu nos lábios dele, e os olhos vacilaram por um instante.
Antônio arqueou uma sobrancelha, o canto da boca erguendo-se num meio sorriso cruel.
— Isso. Faz o que sabe. Corre.
O homem deu dois passos para trás, ainda tentando salvar a própria dignidade. Murmurou algo inaudível e se afastou, desaparecendo entre as mesas da sorveteria.
Helena, sem perceber, segurava a camisa de Antônio com força. Quando finalmente respirou, ergueu os olhos para ele.
E foi só então que Antônio olhou para ela.
Não havia ironia nem sarcasmo naquele instante. Apenas a intensidade quase sufocante de alguém que parecia enxergar fundo demais.
Antonio a virou de leve pelos ombros, inclinando a cabeça para observá-la.
— Tá bem? — perguntou, a voz baixa, mas com aquela sobrancelha arqueada que misturava deboche e curiosidade.
Helena tentou responder, mas apenas fez que não com a cabeça e sentiu o estômago revirou de novo.
Sem aviso, ela vomitou direto contra a polo branca dele.
O tempo pareceu congelar.
Helena arregalou os olhos, horrorizada, antes de girar o corpo e vomitar o restante na calçada, em uma segunda onda tão violenta que a deixou de joelhos, apoiada nas próprias pernas. O corpo tremia, a garganta ardia, e o rosto queimava em vergonha.
Quando conseguiu respirar, olhou para o lado… e lá estava ele. Antônio Fortenelle. De pé, imóvel, com o tronco manchado de cima a baixo nos tons dos sorvetes, como se carregasse um quadro grotesco.
— Antonio… meu Deus… desculpa! — ela tapou a boca com a mão, as lágrimas já misturando com o suor. — Eu sinto muito, eu… eu não sei o que dizer…
Ele a observava em silêncio, o olhar verde frio, a cicatriz destacando ainda mais a expressão blasé. Apenas suspirou, demoradamente, como quem aceitava um destino inevitável.
Enquanto Helena balbuciava mais desculpas, ele tirou o boné e, sem aviso, encaixou na cabeça dela.
— Segura pra mim.
Ela piscou, confusa, segurando o boné largo demais para sua cabeça.
Ele virou levemente de lado, sacudiu o excesso que escorria da barra da camisa, depois puxou a polo por cima da cabeça, revelando a pele clara, o corpo magro e o peito definido, marcado por vergões discretos. Enrolou o tecido manchado com calma e jogou dentro de uma lixeira próxima.
Helena se encolheu ainda mais, o coração batendo acelerado. E uma leve cólica a atingindo.
— Antonio… me perdoa, por favor.
Ele voltou a encará-la, um meio sorriso torto nos lábios.
— Perdoar? — deu uma risada curta, quase sem humor. — Você fez de propósito.
— É claro que não! — ela rebateu, corando até a raiz dos cabelos.
Algumas pessoas passavam na rua, cochichando, algumas rindo discretamente. Dois rapazes pararam um pouco mais longe, filmando a cena com o celular. Helena queria desaparecer.
Antonio notou, mas não pareceu se importar. Passou a mão pelo ombro dela e a puxou com firmeza.
— Vamos sair daqui.
— Eu… eu moro para lá. — Helena apontou, sem coragem de encará-lo.
Ele soltou um suspiro teatral, o olhar pesado.
— Você acabou de arruinar meu conjunto da Brunello Cucinelli. — disse, como se falasse de uma tragédia. — O mínimo que eu mereço agora é assistência.
Se inclinou, o olhar fixo nela, o tom carregado de ironia.
— Ou vai me dizer que não acha justo?
Helena levou a mão ao nariz, tentando disfarçar a careta. O cheiro azedo que vinha dele era sufocante.
— Meu Deus… — murmurou baixo, dando um passo atrás.
Antonio arqueou a sobrancelha, ofendido, e antes que ela conseguisse se afastar de vez, segurou firme o braço dela, colando o corpo contra o dela.
— Eu estou assim por sua causa, Helena. — disse devagar, a voz baixa e irônica. — Agora você aguenta. É o seu castigo.
— Antonio, não! — ela se debateu, a vergonha se misturando com a náusea.
— Devia ter pensado nisso quando vomitou em mim violentamente depois de eu te ajudar. — completou, sem soltar o braço dela.
Ele parou diante de uma farmácia, apontando para a placa de proibido.
— Não posso entrar sem camisa. — ergueu o queixo com aquela pose de arrogância natural. — Vai ter que entrar lá por mim. Compra álcool e algumas gazes.
Enfiou o cartão dele na mão dela. Helena suspirou fundo, sem energia para brigar. Aquilo realmente era culpa dela. Entrou rápido, comprou o que pediu e voltou.
— Aqui está… desculpa mesmo. — estendeu a sacola, pronta para se livrar da situação.
Quando virou de costas, sentiu a voz dele atrás.
— Opa, opa… onde pensa que vai?
Ela se virou, já impaciente.
— Para minha casa.
Antonio ergueu os braços, exibindo o tronco úmido.
— Não vai me ajudar com isso?
— Não entendi.
Ele sorriu de canto, como se se divertisse com a ingenuidade dela.
— Então vou explicar. Vai me ajudar a me limpar.
Helena riu, incrédula.
— De jeito nenhum.
— Mas a culpa foi sua.
— Foda-se, Antonio. Eu já pedi desculpas, já comprei o que você pediu. Chega. — ela virou as costas de novo, começando a caminhar.
— Espera. — ele chamou, a voz baixa mas firme.
Ela parou, respirou fundo, e se virou.
— Então vai ter que esperar eu acabar de me limpar… e depois comprar uma camisa pra mim.
— Compra sozinho.
Ele suspirou com teatralidade, como quem já sabia a resposta.
— Adoraria. Mas nenhuma loja dessa região vai me vender algo nesse estado. — abriu os braços, mostrando o tronco nu. — Fora que você está vulnerável aqui. Se eu não estivesse, sabe-se lá o que teria acontecido há pouco.
Helena apertou os olhos, lutando contra a lembrança do homem da sorveteria.
— Eu agradeço a ajuda, e peço desculpas pelo que fiz.
Ele inclinou a cabeça.
— Então me ajuda. Eu não queria estar nessa situação.
Helena bufou.
— Eu vou esperar você se limpar, mas não vou tocar em você.
— Tudo bem. — respondeu rápido, como se a tivesse vencido em um jogo de paciência.
Foram até um banco vazio na calçada. Antonio entregou a sacola para ela, com naturalidade.
— Abre o álcool e molha a gaze pra mim.
Ela fez, relutante, e passou a gaze para ele.
Antonio começou a esfregar o corpo com uma calma irritante, demorando-se em cada parte. Helena virou o rosto para não olhar, mas a cada minuto que passava parecia que ele estava apenas arrastando a cena.
— O que tá fazendo? — ela perguntou, impaciente.
— Me limpando.
— Até um animal faria isso mais rápido.
Ele riu de leve, sem olhar para ela.
— Bom, para a minha sorte eu não sou um animal.
Continuou esfregando, concentrado, mas sempre demorando no mesmo ponto. Helena estava quase arrancando a gaze da mão dele quando a lembrança das palavras de Heitor lhe atravessou a mente: “carta branca… Verônica”. O estômago dela gelou. Nunca. Passaria dias ali esperando, se fosse preciso.
Ela começou a apressá-lo, brigando como se estivesse lidando com uma criança birrenta. Ele resmungava, mas acabou acelerando.
— Parece que o cheiro ainda está em mim. — ele disse, cheirando o próprio ombro e fazendo uma careta blasé.
— Por que você não vai pra sua casa tomar banho logo? — Helena rebateu.
— Não quero chegar como um mendigo lá.
— Tá mais pra corredor de rua.
— De chinelo? Não viaja.
Ele se levantou, ajeitando o short e passando a mão pelos cabelos loiros curtos.
— Vem. Vamos em uma loja.
Helena passou a mão no rosto, exausta.
— Que situação eu fui me meter…
Chegaram diante da loja. Na entrada, uma placa clara: “Proibida a entrada sem camisa.” Pelo visto, era algo comum ali. Antônio parou na porta e cruzou os braços, como se já tivesse planejado aquilo desde o início.
— Compra uma roupa lá pra mim.
Helena bufou.
— Qual você quer, hein?
Ele ergueu uma sobrancelha.
— Fica ao seu critério.
— Tá, tá… — murmurou, ajeitando o boné que só então percebeu estar em sua cabeça. O coração gelou. Tirou-o rapidamente e estendeu para ele. — Toma.
Antonio a encarou, depois o boné.
— Fica com ele. Combinou mais com você.
— Não. Pega logo. — ela balançou o boné, impaciente.
Ele suspirou, rendeu-se e pegou, mas o sorriso de canto permanecia nos lábios.
Helena entrou na loja sozinha. O ar-condicionado gelado a envolveu, e uma atendente sorridente se aproximou oferecendo ajuda.
— Prefiro escolher sozinha, obrigada. — disse firme.
Percorreu os cabides, olhando uma peça atrás da outra. Branco, azul-marinho, listrado… suspirava a cada blusa que passava em suas mãos. Que situação ridícula… escolher roupa para Antônio Fortenelle. O bebê dentro dela parecia rir da ironia.
Parou diante de uma polo preta. Vai combinar com ele, pensou, irritada com a própria conclusão. Revirou os olhos, pagou no caixa e saiu.
Quando estava voltando, parou na porta ao ver uma cena que a fez ferver por dentro. Uma das atendentes falava com Antônio, toda solícita:
— É um prazer tê-lo aqui, senhor Fortenelle. Posso buscar algo para o senhor? Por favor, fique à vontade para entrar.
Antonio ergueu a mão, negando.
— Não. Gosto de respeitar as regras. Além disso, minha namorada está comprando para mim.
A atendente sorriu.
— Muito bonita a sua namorada. É um homem de sorte.
Ele curvou os lábios, seguro.
— Eu sei.
Helena sentiu o sangue subir. Raiva pura. Jogou a sacola contra o peito dele.
— Tá fazendo hora com a minha cara?!
Antonio a olhou, confuso.
— Do que tá falando? Eu sou a vítima aqui.
— Você é um arrogante, mimado e…
Ela não terminou. Uma onda violenta de náusea a atingiu. Correu para a lateral da loja e se curvou, vomitando de novo. Nada mais restava em seu estômago, mas o corpo insistia em procurar.
Antonio vestiu rapidamente a blusa nova e, para a surpresa dela, correu até onde estava, agachando-se ao seu lado. Segurou o cabelo dela com firmeza, mas o tom era diferente agora.
— Você tá bem? — a voz soava genuinamente preocupada.
— Tô… — ela se levantou devagar, respirando fundo.
Ele estreitou os olhos, avaliando.
— Nos últimos tempos na empresa, você não estava indo bem. Agora isso… aconteceu alguma coisa? Quer ir a um médico?
— Tá tudo bem, é sério. — disse, tentando encerrar.
— Não. — ele tirou o celular do bolso. — Vou chamar o médico da minha família para nos encontrar aqui. Alguma coisa de errado tem.
— Não! — ela estendeu a mão e segurou o braço dele. Hesitou, mas sabia que não conseguiria esconder mais. — É que… eu tô grávida.
Antonio parou no ar, o dedo congelado sobre a tela do celular. Lentamente, ergueu os olhos verdes para ela, arregalados.
— Não entendi. Pode repetir.
— Eu estou grávida.
O silêncio se instalou pesado entre eles.
— Você contou para o Monteiro? — ele perguntou, a voz grave, quase uma acusação.
— É claro, né? — Helena ergueu o queixo, ofendida. — Ele é o pai do meu bebê.
Os olhos de Antonio brilharam em incredulidade.
— O Monteiro… vai ser pai?
Ela assentiu, um pequeno sorriso escapando apesar de tudo.
— Vai. Estamos muito felizes.
— Ele quer isso? — a pergunta saiu seca, sem disfarce.
— Sim. E muito. — respondeu firme.
Antonio a encarava como se tentasse decifrar uma equação impossível. O olhar dele desceu lentamente até a barriga dela, ainda discreta sob a roupa leve. O silêncio dele a incomodava.
Helena estreitou os olhos, observando a expressão perplexa de Antônio. Ele não parecia apenas surpreso — parecia devastado, como se tivesse recebido a notícia da morte de alguém. O olhar verde, cortado pela cicatriz, estava perdido em um vazio estranho.
Ela respirou fundo, escolhendo as palavras com cuidado.
— Antonio… — começou, a voz baixa, mas firme. — Eu sei que existe um passado entre você e o Heitor. Sei que cada um tem a sua visão. Mas eu preciso que entenda uma coisa: ele é o homem da minha vida. Quem eu amo. É com ele que eu quero estar… e é com ele que eu vou construir a minha família.
A expressão dele se contraiu, como se tivesse ouvido aquilo em algum outro momento, de outra boca. Como se fosse condenado a reviver a mesma sentença sempre. O rosto magoado de Antônio pesava.
Helena baixou um pouco a guarda, apesar da vergonha que ainda sentia pelo episódio do vômito.
— Você… às vezes é um cara legal. — admitiu. — Devia fazer as pazes com o Heitor. Deixar essa diferença de vocês de lado. Eu estive nas duas empresas, e se fossem aliados, conquistariam muito mais juntos.
Ela parou, observando-o com atenção. Ele não se movia, apenas respirava fundo.
— O Heitor é o melhor homem que eu conheço. — completou, e a frase soou como um tiro. Helena viu nos olhos dele algo quebrar. Mas não recuou. — Se você se desculpar, tenho certeza que ele também vai. E quem sabe… no futuro… os nossos filhos podem ser amigos.
Forçou um pequeno sorriso, tentando suavizar o peso do momento.
Antônio, porém, abaixou o boné, cobrindo os olhos. O maxilar travado denunciava que algo dentro dele queimava. Sem dizer nada, puxou o celular do bolso. Digitou rapidamente, os dedos firmes, e virou-se para o lado da rua.
— Chamei um Uber pra você. — disse, a voz seca, controlada. — Você não pode ficar andando por aí sozinha.
E antes que ela respondesse, já caminhava. As mãos afundadas no bolso do calção branco. Os ombros caídos e a postura ereta, mas a silhueta carregava uma sombra pesada.
— Antônio! — Helena chamou, erguendo a voz.
Ele não se virou. Seguiu andando, cada passo dele soava como um corte no silêncio. Logo, era apenas uma silhueta se afastando, até desaparecer na esquina.
Helena suspirou, com uma sensação estranha no peito. Não sabia se o tinha ajudado… ou ferido ainda mais.
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