O CEO que Eu Paguei

140 Ciúmes? Nunca!


O almoço havia sido leve, exatamente como Heitor planejou — e, pela primeira vez em dias, Helena não sentiu repulsa da comida, talvez finalmente ela estivesse se acostumando com o tempero carioca. Ele a observava com satisfação, feliz por vê-la comer bem. Depois, caminharam de mãos dadas pelo calçadão, o vento suave brincando com os fios soltos do cabelo dela. Heitor, animado, contou que a sede da Monteiro Inc. era ali perto.

Não demorou até que o prédio surgisse diante deles — e Helena parou por um instante, como se precisasse de fôlego.

Quarenta andares erguiam-se em concreto escuro e vidro espelhado, refletindo o céu e diminuindo os prédios ao redor como se fossem meras sombras. Colunas de granito bruto sustentavam a entrada, e acima dela, gravado em alto-relevo, o brasão dos Monteiro: severo, imponente, eterno. Logo abaixo, em latim, o lema que parecia pulsar em cada pedra daquele edifício:

Ex fundamento, imperium.

Helena leu em silêncio, um arrepio percorrendo sua pele, não sabia o que significava, mas pesava. A Fort Group, parecia uma criança perto daquilo. E a filial onde trabalhava — que achava ser a construção mais incrível — agora parecia quase provinciana diante do peso daquela sede.

Quando Heitor avançou, as portas de vidro se abriram automaticamente. Helena seguiu ao lado dele, engolindo em seco.

O saguão a envolveu de imediato. Mármore negro polido refletia seus passos como espelhos, o teto alto abafava qualquer som, impondo um silêncio que mais lembrava uma ordem do que um acaso. As obras de arte originais nas paredes não estavam ali para decorar — mas para afirmar poder, para declarar domínio. A recepção retangular no centro parecia um altar moderno, erguido em homenagem ao império dos Monteiro.

Funcionários ajustaram a postura assim que notaram Heitor, alguns abaixaram discretamente os olhos. Ali dentro, não havia espaço para a pressa caótica das ruas, nem para as incertezas da cidade. O mundo ali obedecia a outra lei.

A lei dele.

Helena sentiu o peito encher de algo contraditório: orgulho, por andar ao lado de Heitor; e um frio discreto na boca do estômago, ao perceber a grandiosidade daquilo que ele carregava.

Mesmo assim, Heitor não soltou a mão dela. Caminhava como sempre caminhara dentro da Monteiro Inc.: seguro, dono do espaço, sabendo que cada mármore negro e cada vidro espelhado tinha sido erguido em homenagem ao seu sobrenome. Mas, dessa vez, o passo tinha outra cadência. Ele não apenas atravessava o saguão, ele puxava Helena junto. Igual.

Ela sentia os olhares por rabo de olho. Os funcionários interrompiam conversas, endireitavam a postura, murmuravam discretamente. E cada olhar parecia dizer a mesma coisa: ela é a mulher que conseguiu o cobiçado diretor.

Helena sentiu o calor subir ao rosto. Vergonha de ser quem era, de estar ali exposta, como se todos os olhos pesassem nela. Mas Heitor seguia animado, quase orgulhoso demais para perceber o desconforto dela. Queria mostrar tudo, cada detalhe, como um adolescente mostrando seu quarto para a namorada.

Pararam na recepção. A secretária-geral ergueu os olhos com surpresa e, ao reconhecer Heitor, abriu um sorriso profissional.

— Preciso de um crachá para ela. — ele disse, sem titubear, o tom firme. — Helena Ribeiro Campos. Acesso total.

Helena piscou, surpresa, mas não teve tempo de reagir. A secretária digitou rápido, e em segundos entregava o cartão branco com o brasão da empresa gravado em alto-relevo.

— Seja bem-vinda, senhorita Helena. — disse com um sorriso quase cúmplice.

Helena agradeceu, tímida. Mas antes que pudesse se recolher, Heitor completou:

— É a minha namorada. — falou alto, com a naturalidade de quem falava sobre o óbvio.

A frase atravessou o saguão. A recepcionista sorriu ainda mais, desejando felicidades, enquanto os olhares que rondavam ao redor não escondiam a curiosidade. Helena quis se encolher, mas Heitor apertou sua mão e a puxou pelo detector de segurança, como quem dizia: ergue a cabeça, isso aqui também é seu.

Nos corredores, Helena notava: os funcionários da Monteiro Inc. eram diferentes dos da filial. Cada um em seu setor, focados, elegantes, a postura impecável. Um exército corporativo que respirava resultados. E ainda assim, a cada passo de Heitor, era como se todos dobrassem um pouco a espinha. Ele não precisava ordenar. Nasceu dono.

— Tá vendo? — disse ele, enquanto ela observava tudo com olhos curiosos. — Aqui é o coração da Monteiro. O resto só bate porque esse prédio respira.

Ela riu, sacudindo a cabeça.

— Modesto como sempre.

— Não é modéstia, Helê. — Ele parou diante de uma divisória de vidro e a puxou para perto. — É verdade. E agora, você tá comigo. Querendo ou não, você também é parte disso.

O olhar dele tinha aquela intensidade típica, meio debochada, meio séria. E Helena não soube se queria rir ou se esconder.

Eles atravessaram mais alguns setores, Heitor a apresentando com o mesmo orgulho de antes. “Essa aqui é a Helena, minha namorada.” O título se repetia, e cada vez que ele dizia, ela sentia o peso mudar. Já não parecia apenas a mulher ao lado dele. Parecia que ele a posicionava ao nível dele.

Já era tarde quando Heitor parou e a olhou com um sorriso quase conspirador.

— Tá com fome?

— Um pouco. — ela admitiu.

— Ótimo. Hoje tem lanche da tarde em todos os andares da Monteiro.

Ela arqueou a sobrancelha, desconfiada.

— Foi por minha causa, não foi?

Ele abriu um sorriso largo, malandro, aquele que deixava qualquer resistência dela frágil.

— Coincidência. — disse, fingindo inocência. — Só coincidência.

E, mesmo sabendo que ele estava mentindo descaradamente, Helena não conseguiu segurar a risada.

O lounge do andar executivo estava impecável. Mesas de mármore branco refletiam a luz difusa em bandejas de prata ostentavam quitutes delicados.

Helena entrou de mãos dadas com Heitor e, de imediato, percebeu. O ar mudou. Funcionários interromperam a conversa, fingiram voltar ao assunto, mas os olhos acompanhavam cada passo dela. Havia cochichos. Sussurros que corriam pelas bordas do ambiente, como se um segredo tivesse acabado de atravessar a porta.

"É ela."

"A namorada dele."

"A Helena."

Os olhares não eram de curiosidade simples. Eram avaliativos, medidores. Alguns a encaravam com respeito, outros com um certo distanciamento. Mas em comum havia algo: não a viam como uma de “baixo”. Para eles, Helena agora pertencia a outro círculo.

Ela se sentiu corar. Nunca havia estado em um lugar onde não precisasse provar nada com palavras ou relatórios — onde a simples presença ao lado de alguém mudasse o peso da sua existência. Sempre foi a analista aplicada, a funcionária do interior que conquistava espaço por saber mais, por trabalhar mais. Agora, de repente, era vista como parte de um mundo que nunca imaginou tocar: o mundo dos poderosos.

Heitor, por outro lado, parecia se divertir com isso. Cumprimentava um e outro, apresentava Helena com naturalidade escancarada:

— Essa aqui é a Helena, minha namorada. — repetia, como se fosse música que ele não cansava de tocar.

E cada vez que dizia, os sussurros cresciam.

Uma funcionária mais jovem, elegante no tailleur cinza, sorriu tímida para Helena ao servir café:

— É um prazer conhecê-la. — disse, quase cerimoniosa.

Helena retribuiu com educação, mas notou o jeito que a moça baixou os olhos logo depois, como se estivesse diante de alguém de patente superior.

Na mesa ao lado, dois gerentes murmuravam entre si, e Helena conseguiu ouvir um pedaço:

— Ele nunca apresentou nenhuma antes…

— Pois é. Essa é diferente.

O estômago dela apertou. Um misto de orgulho e desconforto. Não queria ser só “a namorada do diretor Monteiro”. Queria ser reconhecida por quem era, pelo que conquistara. Mas, por ora, percebeu que não importava. Para eles, ela não era uma analista. Era parte do alto escalão.

Heitor, percebendo a tensão nos olhos dela, inclinou-se perto do ouvido dela e falou baixo, mas firme, como quem dita uma ordem que não admite discussão:

— Anda de cabeça erguida, Helê. Aqui dentro, tu não é menor que ninguém. Tu é a dona.

Helena ainda tentava se acostumar com os olhares que a cercavam quando ouviu uma voz familiar ecoar pelo lounge.

— LÊLÊEEEE! — Hugo atravessou o espaço com passos largos, espalhafatosos, chamando a atenção de todos. De terno azul-royal bem ajustado e uma gravata vermelha impossível de ignorar, ele abriu os braços no meio do andar executivo, como se estivesse em uma passarela. — Mulher, você tá uma visão! Eu tinha que ver com meus próprios olhos: a mais nova “dona” da Monteiro Inc. Minha amiga pessoal.

O abraço dele foi tão apertado e tão genuíno que o peso de todos aqueles olhares pareceu se dissolver por um instante.

Logo atrás vinha Júlia, com o mesmo sorriso largo e irreverente de sempre, equilibrando o crachá no dedo como se fosse uma ficha de cassino.

— Garota, você tá chique demais pro nosso grupo! — disse, dando dois beijos no rosto de Helena. — A gente piscou e você saiu do interior direto pro trono da elite carioca.

— Nem começa… — Helena riu, meio envergonhada, mas feliz de revê-los.

Ana Alice veio por último, andando devagar, os saltos estalando no mármore preto. Ela ajeitou a saia lápis e olhou Helena de cima a baixo antes de sorrir com aquele ar enjoado.

— Pois é, né? Uns precisam ralar dez anos pra ter uma chance de pisar num andar desses… e outros… — ela ergueu a sobrancelha, mal disfarçando a ironia — dão sorte no amor.

O comentário cortou o ar. Hugo revirou os olhos imediatamente e bateu palmas, dramático:

— Ai, pronto. Já veio a Ana Alice Alicear logo cedo.

Júlia deu uma gargalhada, passando o braço pelo ombro de Helena:

— Relaxa, amiga. Essa é a forma dela dizer “você tá maravilhosa e eu tô morrendo de inveja”.

Ana Alice sorriu curto, nada simpática.

— Não é inveja, todo mundo sabe que a Helena que sempre me invejou Estou apenas apresentando os fatos. Aqui é outro nível, né?

Helena respirou fundo. Ela já conhecia aquele tom da colega — sempre pronta pra diminuir os outros.

— Continua insuportável como sempre. — bufou Helena.

— E você continua ignorante como sempre. Pelo menos isso não mudou. — Alice sorriu, satisfeita com a troca.

Mas logo o foco mudou. Helena olhou para Hugo.

— Meu Deus, Hugo… você tá… impecável. — Helena deixou escapar.

Hugo girou sobre os calcanhares, exibindo o look como se estivesse numa passarela.

— Amore, eu vim no visual que a Monteiro Inc. merece. — piscou um olho e se aproximou, inclinando-se para sussurrar. — Inclusive, já reparei que o analista de tesouraria do 14º andar é uma delicinha.

Helena quase engasgou com a risada, mas antes que respondesse, Júlia a puxou pelo braço com energia.

— E aí, Helê, me conta: como tá a vida no Rio? Já foi na praia? Já pegou sol? Já tá se divertindo?

Helena sorriu, tentando manter a compostura.

— Tô bem… mas trabalhando muito.

Júlia ergueu uma sobrancelha e estreitou os olhos, fingindo analisar a amiga da cabeça aos pés.

— Trabalhando muito na cama, né? Porque olha esse cabelo, olha essa pele! Tá brilhando, mulher! Só pode ser porque tá tomando muito… leite.

Helena arregalou os olhos, corando até as orelhas.

— Júlia! — protestou, incrédula.

Hugo caiu na risada, batendo palmas.

— Eu não falei? A ranzinzinha tá certinha!

Helena suspirou, levando a mão à testa.

— Vocês dois são uma vergonha.

— E você continua sendo a quase certinha mais divertida que eu conheço. — Hugo completou, dando um beijo estalado no rosto dela.

Júlia gargalhava alto, Alice revira os olhos e Helena, mesmo emburrada, não conseguiu segurar o sorriso.

Helena ainda estava vermelha, tentando se defender das provocações dos amigos, quando uma sombra se projetou atrás deles.

— Tomando muito o quê? — a voz grave e bem-humorada de Heitor cortou a conversa.

Os três se calaram na hora. Júlia quase engasgou, Hugo mordeu o lábio para não rir e Alice levantou uma sobrancelha com ar de “tá vendo?”.

Helena virou-se devagar, os olhos arregalados.

— Nada… absolutamente nada. — falou rápido, tentando disfarçar.

Heitor arqueou uma sobrancelha, curioso. Depois olhou para o grupo, mas o sorriso que deu foi aberto, fácil, de quem não se deixava intimidar.

— Já percebi que vocês estão cuidando bem dela. — disse, a voz leve, mas o olhar firme. — E isso eu agradeço.

Hugo não resistiu. Se adiantou, apertou a mão de Heitor e disse:

— A gente cuida, sim, mas olha… você tá deixando essa mulher brilhando, viu? Parabéns.

Helena quase quis desaparecer no chão.

— Hugo! — sussurrou, num tom de aviso.

Mas Heitor riu, orgulhoso, puxando Helena pela cintura e a encaixando junto ao peito.

— É porque ela é minha dona, Hugo. Eu só sigo o que ela manda.

Helena corou ainda mais, sentindo os olhares sobre si. Júlia abriu um sorriso cúmplice, Hugo suspirou dramático e Ana Alice, de braços cruzados, resmungou:

— É… parece que até a ranzinza achou alguém pra aturar ela.

Heitor virou-se para Alice, firme mas educado.

— Não é aturar, é ter sorte. — beijou o topo da cabeça de Helena e completou, olhando para os três. — E eu sei muito bem a sorte que eu tenho.

Helena se escondeu no peito dele, sem conseguir segurar o sorriso.

Heitor entrelaçou os dedos nos dela e perguntou com a voz baixa, quase íntima, mas que todos ouviram:

— Quer subir pra conhecer minha sala… ou prefere ficar mais um pouco com eles?

Helena levantou os olhos e viu o brilho maroto neles. O jeito que ele falava, como se estivesse oferecendo o mundo inteiro, a desmontava. Respirou fundo, tentando resistir, mas não conseguiu.

— Pessoal… eu vou lá. — disse, meio sem jeito, sorrindo. — A gente se fala depois.

Hugo fingiu colocar a mão no peito.

— Mais uma vez abandonados… já estamos acostumados, não é, Júlia?

— Totalmente. — Júlia fez drama, jogando os braços para o alto. — A gente sempre perde pra esse príncipe aí.

Helena revirou os olhos, segurando o riso.

— Sem drama, por favor.

Heitor, no entanto, não deixou passar. Apertou a cintura dela contra si e falou com a boca cheia de satisfação, sem o menor pudor:

— Lamento, galera… mas eu sou a prioridade dela.

O tom dele era tão seguro, tão cheio de orgulho, que fez Hugo soltar uma gargalhada, Júlia bater palmas e até Ana Alice bufar baixinho.

Helena mordeu os lábios, tentando esconder o sorriso, mas a verdade era simples: naquele momento, só queria mesmo subir com ele.

O elevador começou a subir devagar, as luzes brancas refletindo nos vidros espelhados. Helena ajeitou a bolsa no ombro, tentando parecer calma, mas o coração acelerava sem pedir licença. O silêncio ali dentro tinha outro peso, como se o mundo inteiro tivesse ficado para fora.

Heitor não tirava os olhos dela. O azul intenso a mirava com aquela mistura de ternura e posse. Ele deu um passo à frente, encurtando a distância até que a respiração quente dele tocasse o rosto dela.

— Você não tem ideia de como eu gosto de andar assim com você… — disse num sussurro rouco, o sorriso de canto revelando um orgulho quase adolescente, mas que nele soava imponente.

Helena engoliu em seco.

— Assim como? — perguntou, fingindo inocência, mas já sabendo a resposta.

Heitor ergueu a mão e deixou os dedos roçarem de leve no queixo dela, subindo devagar até a linha da mandíbula. A ponta dos dedos era firme, mas o toque, delicado, como se a pele dela fosse algo que ele quisesse decorar.

— Como se fosse minha. — murmurou. — Porque você é.

Helena mordeu o lábio inferior, sem conseguir esconder o arrepio que a percorreu. Ele se aproximou mais, inclinando-se até a boca quase roçar na dela. Não a beijou. Apenas deixou a proximidade torturante se prolongar, o hálito quente misturado, os olhares presos um no outro.

— Heitor… — ela sussurrou, mas a voz saiu fraca.

Ele sorriu pequeno, satisfeito, e encostou a testa na dela, respirando fundo como quem precisava daquele contato para não enlouquecer.

— Eu te amo, Helê. — disse baixinho, sincero, firme, quase um juramento.

Aquelas três palavrinhas tinham um poder absurdo sobre ela. Sempre a deixavam com o coração quentinho.

Heitor segurava firme a mão dela quando o elevador finalmente parou. Antes que as portas se abrissem por completo, ele puxou Helena para perto e roubou um beijo demorado, daqueles que não têm pressa de acabar. O toque era intenso, mas cheio de carinho — a respiração de ambos se misturou, e o tempo pareceu parar.

As portas começaram a se fechar de novo, e Heitor, rindo baixinho, soltou a mão dela apenas para esticar o braço e segurar a porta.

— Quase ficamos presos, Helê. — disse, ainda sorrindo, cúmplice, com aquele brilho divertido nos olhos.

Eles saíram de mãos dadas, e logo Helena percebeu a diferença: o andar inteiro exalava luxo. O carpete era grosso, num tom escuro que abafava os passos. As paredes revestidas de madeira nobre, quadros assinados, luzes estrategicamente posicionadas, e bem no centro do corredor principal, uma placa enorme em dourado: DIRETORIA.

Era como se todo aquele espaço existisse apenas para reafirmar poder.

— Bem-vinda ao meu andar. — Heitor disse orgulhoso, como quem mostra o próprio reino.

Helena mal teve tempo de responder quando uma mulher surgiu de trás de uma mesa de recepção elegante. Alta, ruiva, óculos de armação delicada, sorriso largo e confiante. O detalhe impossível de ignorar: os seios fartos que mesmo que a camisa não fosse justa, puxavam o olhar alheio.

Helena arqueou uma sobrancelha, automática.

— Hele, essa é a Verônica. Minha secretária. — Heitor apresentou, animado. — E essa é a Helena, minha namorada.

Verônica se aproximou com elegância e ofereceu a mão.

— É uma honra te conhecer, Helena.

Helena apertou a mão dela, mantendo um sorriso educado.

— A honra é minha.

Heitor parecia ainda mais entusiasmado. Puxou Helena pela mão novamente.

— Vem, vou te mostrar minha sala.

Helena assentiu, mas por dentro já sentia o humor azedar. Não era nada com a sala ou com Heitor, mas a forma natural como aquela secretária linda e sorridente fazia parte do espaço dele. Era inevitável: uma pontada de ciúme queimava no fundo do peito.

Heitor abriu a porta.

— Aqui, Helê. Minha sala. — disse, quase solene, puxando-a para dentro.

Helena entrou devagar, os olhos percorrendo o espaço. O escritório era imponente, digno de um diretor da Monteiro Inc. — janelas enormes que iam do teto ao chão, revelando a cidade como se fosse parte da decoração; móveis de madeira maciça; uma mesa larga de vidro escuro, impecavelmente organizada; duas poltronas de couro diante dela; prateleiras repletas de livros e pastas; e, no canto, uma pequena adega de vinhos e bebidas raras. Uma segunda sala privada de reunião. Cada detalhe parecia escolhido para impressionar, e impressionava.

— O que achou? — Heitor perguntou, ansioso pela reação dela, como se a opinião de Helena fosse a única que importava.

— É… bonita. — respondeu, tentando soar natural, mas a voz saiu mais curta do que gostaria.

Heitor riu baixo, aproximando-se por trás dela, enlaçando a cintura.

— Só “bonita”? Você tá muito crítica hoje. Essa sala é o cérebro da Monteiro Inc., amor. — murmurou no ouvido dela, beijando de leve o pescoço.

Helena se encolheu, não por falta de desejo, mas porque a cena da secretária ruiva ainda queimava na mente. O sorriso, os seios em evidência, o jeito natural de se aproximar dele… “É a secretária dele. Trabalham juntos o tempo todo”, pensou, e o azedume veio como uma onda.

Heitor, alheio ao turbilhão interno dela, apontou para a mesa.

— Senta ali na minha cadeira. Quero te ver no meu lugar.

— Não precisa, Heitor. — Helena balançou a cabeça, mas ele insistiu, divertido.

— Claro que precisa. — Ele puxou-a com delicadeza até a cadeira imponente e a fez sentar. Ficou em pé ao lado, as mãos nos ombros dela. — Tá vendo? Combina com você. — disse, orgulhoso, olhando para Helena como se ela fosse a verdadeira dona daquele espaço.

Ela desviou o olhar para a cidade além do vidro, tentando disfarçar o incômodo. Por dentro, um nó apertava o estômago. Estava orgulhosa dele, claro que estava. Mas a presença daquela mulher do lado de fora, tão inserida no mundo dele, a fazia se sentir uma intrusa.

Heitor inclinou-se e beijou o topo da cabeça dela, sem perceber o silêncio pesado que se instalava.

Helena ajeitou-se na cadeira dele, cruzando as pernas, o olhar passeando pela sala. Mas a pergunta que veio não tinha nada a ver com a decoração.

— E… aqui nesse andar… trabalham só vocês dois? — a voz saiu casual, mas havia um fio de tensão escondido.

Heitor apoiou-se na mesa, de frente pra ela.

— Praticamente sim. Às vezes sobe gente de outros setores, quando precisa de reunião, ou quando recebo visita. Mas, no dia a dia, sou eu e a Verônica.

Helena franziu de leve os lábios.

— Só vocês dois?

— É. — ele confirmou com naturalidade, abrindo um sorriso. — Fica tranquilo, amor. É até bom, porque rende. Aqui em cima, ninguém fica atrapalhando.

Ela desviou o olhar, fingindo observar a vista pela janela, mas insistiu:

— E vocês trabalham juntos há muito tempo?

Heitor encostou as mãos no bolso e pensou por um instante, tentando puxar da memória.

— Acho que sim… desde quando eu era gerente geral. Uns quinze anos, por aí.

— Quinze anos? — Helena repetiu, mais baixo do que pretendia, a palavra carregada de implicação.

Ele riu, achando graça no espanto dela.

— É, Helê. Ela praticamente viu minha carreira inteira aqui dentro. É minha parceira de trabalho. — disse, no tom mais simples do mundo. Os olhos azuis fixos nos dela.

Heitor a olhou demoradamente, um canto do lábio se erguendo num sorriso lento, malicioso. Ele se afastou da mesa e cruzou os braços, observando Helena como quem já tinha entendido tudo.

— Ahhh… entendi. — disse, arrastando as palavras. — Tu tá com ciúme.

Helena virou o rosto rápido, como se tivesse sido pega no flagra.

— Tô nada, Heitor. Não inventa.

Ele riu, balançando a cabeça, se aproximando dela devagar, com aquele jeito de predador manso.

— Tá sim. Tá com ciúme da Verônica. — falou baixo, quase no ouvido dela. — E olha que a coitada nem faz nada.

Helena suspirou fundo, revirando os olhos.

— Você é insuportável quando faz isso.

— Faz o quê? — perguntou com a cara mais inocente do mundo, enquanto puxava uma mecha do cabelo dela e deixava escorrer entre os dedos. — Eu só tô aqui, na minha sala, com a mulher mais linda desse prédio inteiro, e ela tá de cara fechada… porque a secretária me dá bom dia.

— Heitor! — Helena ergueu o tom, impaciente, batendo o pé no chão. — Para de graça.

Ele riu ainda mais, claramente se divertindo com a situação. Se apoiou na mesa, inclinou o rosto bem perto do dela, os olhos brilhando de provocação.

— Helê, fala sério… tu não acha que eu ia te trocar por alguém, né? — disse, o sorriso largo agora misturado com ternura. — Tu é a dona disso aqui. — abriu os braços, indicando não só a sala, mas o prédio inteiro. — E de mim também.

Helena tentou manter a seriedade, mas os olhos dela começaram a brilhar, e a boca traiu um meio sorriso contrariado.

— Você não presta, Monteiro.

Ele a puxou de repente pela cintura, rindo baixinho.

— Não presto mesmo… mas só pra você.

Helena suspirou, se rendendo ao riso dele, mas ainda com aquela pontinha de birra que o fazia querer beijá-la até arrancar de vez qualquer sobra de dúvida.

— Helê… — Heitor se apoiou na mesa e cruzou os braços, olhando para ela com aquele brilho travesso nos olhos. — Eu e a Verônica sempre fomos extremamente profissionais. Nunca houve nada… e nunca vai haver.

Helena estreitou os olhos, os braços cruzados, encarando-o firme.

— Ela é bem encantadora, bem exótica até.

Heitor não aguentou e riu alto.

— Porra, tu tá com ciúmes mesmo.

— Cala a boca, Heitor, ou eu te esgano. — Helena resmungou, tentando manter a pose.

Ele se inclinou, o sorriso ainda maior.

— Amor, somos só colegas de trabalho. Só sei que ela é casada, porque me pediu uns dias na época do casamento. Não tenho o mínimo interesse nela.

Helena arqueou a sobrancelha, sem perder a chance:

— Você adora pegar uma funcionária.

Foi quando ele deu a volta na mesa com passos largos, e, num gesto rápido, girou a cadeira dela para encará-lo. Helena piscou surpresa, os olhos arregalados.

— Eu nunca me envolvi com funcionária nenhuma. — disse com firmeza, a voz grave. — Você não é minha funcionária. E, além disso… você que abusou de mim.

— O quê? — Helena arregalou os olhos, incrédula. — O que quer dizer, Monteiro?

Ele se abaixou, ficando na altura dela, o rosto perigosamente perto. O sorriso malicioso se abriu ainda mais.

— Você que me arrastou praquele quarto de hotel, lembra? E depois ficou me provocando.

Ela piscou rápido, como se quisesse negar, mas a lembrança coloriu o rosto dela de calor.

— E você foi! — rebateu, tentando se defender.

— Claro, né? — Heitor riu baixo, aproximando-se ainda mais, o hálito quente roçando a pele dela. — Olha pra você, Helê. Que homem em sã consciência ia recusar quando uma gostosa dessas resolve arrastar ele pra um quarto?

O coração dela disparou, mas antes que pudesse responder, ele completou, a voz grave e séria agora:

— Ainda bem que o homem foi eu. E vai ser eu… pelo resto da vida.

Helena revirou os olhos, tentando disfarçar o sorriso que ameaçava aparecer.

— Você é insuportável.

Ele sorriu, satisfeito, e beijou a ponta do nariz dela de surpresa.

— Apaixonado por você. Não se preocupa, limites existem pra serem respeitados.

Endireitou a postura, ajeitando a gravata, como se o assunto estivesse encerrado. Mas então arqueou uma sobrancelha e soltou, cheio de charme:

— Sabe, na verdade… acho que vou chamar a Verônica pra tomar uma vitamina sozinha comigo.

Helena ficou vermelha na hora.

— Você não ouse.

Ele fingiu inocência.

— Por quê não? Tu faz na outra empresa. Por que não posso também?

— Porque eu nunca fiz nada! — ela rebateu, a voz mais alta que o normal.

Heitor riu baixo, se encostando na mesa de um jeito despreocupado, quase provocador demais.

— Eu também não vou fazer nada. Só socializar.

Ela ficou até verde de raiva, o olhar faiscando. Ele, por sua vez, adorava vê-la daquele jeito — linda, brava, só dele.

Heitor deixou escapar aquele sorriso largo e sacana.

— Talvez eu até te deixe aqui e saia no mesmo carro com ela. Me parece uma excelente ideia.

— Heitor Monteiro, eu vou te esfolar vivo! — Helena estourou, bufando, tentando empurrá-lo para longe.

Ele segurou o encosto da cadeira, se inclinando até quase tocar o nariz no dela. O tom dele veio baixo, mas cada palavra carregada de algo que ela não esperava ouvir:

— Sabe o que é, Helena? Tudo que você fizer com o Fortenelle… a partir de hoje, me dá carta branca pra fazer igual com a Verônica.

Os olhos dela se arregalaram, incrédulos.

— Seu canalha! Você quer fazer alguma coisa com ela!

Heitor riu, mas não era riso leve. Era riso amargo, de quem lembra o que sentiu.

— Eu não, amor. Nunca. Mas você entende agora? — ele abaixou o tom, a voz firme, cheia de um ciúme que queimava. — Entende como é ver você com outro cara? Te ver sorrindo, trocando olhares, confiando?

Helena tentou falar, mas ele passou o dedo devagar pelo queixo dela, obrigando-a a encarar seus olhos.

— Eu só tô te mostrando um pouquinho de como foi comigo. Só um pouquinho, pra você entender.

Heitor suspirou, relaxando um pouco a postura, mas sem se afastar.

— Eu nunca me prestaria a isso. Nunca trairia a sua confiança, nunca desrespeitaria o que a gente tem. Você é minha vida. Mas eu quero que saiba, Helena: quando você se aproxima desse cara, quando abre espaço, eu sangro por dentro. — Ele engoliu seco. — Eu não sou feito pra dividir você.

O silêncio caiu entre eles, só a respiração acelerada dela preenchendo a sala.

Helena, ainda furiosa, ainda ciumenta, mas agora tocada pelo peso do que ouviu, murmurou:

— Você é insuportável…

Heitor sorriu de novo, mas dessa vez foi um sorriso mais leve, quase triste.

— Sou. Mas sou o insuportável que te ama até a última gota de sangue.

Helena não sabia se queria matá-lo ou se jogar nos braços dele. Talvez as duas coisas. O que mais importava é que não deixaria espaço nem para que Heitor insinuasse algo novamente. Ela não via maldade no que havia feito com Fontenelle, mas pensar na mesma situação entre Heitor e outra mulher, a deixava enlouquecida de raiva.