O CEO que Eu Paguei

40 Café com Carisma (e Vergonha)


— Helena, pelo amor de Deus, vai tirar essa roupa! — disparou Dona Olívia, já apontando para o corredor. — Essa roupa me envergonha! Parece roupa de dormir fora de casa?

Helena virou o rosto, bufando. Estava ainda tonta do beijo que Heitor acabara de lhe dar na porta. Mal teve tempo de respirar, agora já estava debaixo do tribunal matinal.

— Vai, menina! E toma um banho gelado pra ver se volta pro eixo! — a avó completou.

— Já entendi, vó.

Mas antes de Helena sair da sala, o olhar dela cruzou com o de Heitor. E aí foi que tudo piorou.

Ele estava no sofá, com a perna cruzada como se fosse um lorde inglês numa reunião de negócios. E os sinais da noite anterior... estavam por todo o corpo.

A gola da camisa amassada e manchada com batom vermelho. Os arranhões nos braços dele pareciam rascunhos de guerra. Até o pescoço tinha um chupão mal disfarçado.

Helena parou, petrificada.

— Ai, meu Deus... — sussurrou, quase sem ar.

Dona Olívia olhou desconfiada, mas antes que percebesse, Heitor — m4ldito, cínico, criminosamente sorridente — inclinou levemente o rosto e, com a voz mais descarada e controlada do planeta, murmurou:

— Vai logo tirar essa perversidade de roupa, Helena. Não tá vendo que tá desonrando a senhora sua avó?

Helena quase voou no pescoço dele. Mas a única coisa que conseguiu fazer foi apertar os olhos, bufar com ódio e sumir pelo corredor com passos duros e dentes cerrados.

Já no banheiro, trancou a porta, apoiou as mãos na pia e ficou olhando para o espelho.

O reflexo devolveu a imagem de uma mulher toda bagunçada: batom borrado, cabelo rebelado, marcas vermelhas no colo, no pescoço... e quando abaixou o olhar, viu os seios cheios de mordidas e a barriga com sinais das mãos dele.

— Ele me chupou como se fosse a última refeição da vida — murmurou para si mesma, indignada… e completamente corada.

Mas o pior é que, apesar da vergonha… ela sorriu.

Porque cada marca no corpo dela contava uma história da noite anterior. Uma história proibida, errada, quente, confusa — e inesquecível.

Abriu o chuveiro, tomou banho tentando esfriar o corpo e a cabeça. Escolheu uma roupa confortável e discreta: short jeans largo, camiseta branca de algodão e os cabelos presos num coque bagunçado.

Quando voltou à sala, enxugando o rosto com a toalha, parou na porta da cozinha.

A cena que viu a desarmou por completo.

Heitor estava sentado à mesa, todo compenetrado, conversando com Dona Olívia. E não era aquele papo besta de puxar saco, não. Era conversa de verdade. Sobre cozinha, sobre os hábitos de criação de cachorros de porte médio, sobre o mercado de hortaliças orgânicas.

— ...mas se a senhora plantar hortelã na sombra, ela não aguenta. O segredo é o sol da manhã, bem cedinho, aí ela cresce forte e o aroma fica mais acentuado. — disse Heitor, mexendo calmamente na caneca de café.

— Olha, menino... você entende mesmo! — Dona Olívia respondeu, encantada. — E ainda conhece sobre os cachorros! Sabe que eu tive um vira-lata que só comia arroz com fígado?

— Totó é refinado, né? Já percebi. Vou trazer um petisco que ele vai gostar.

— Traz mesmo! E olha, vê se ensina essa neta minha a cultivar alguma coisa além de raiva nos outros.

Helena estreitou os olhos.

Heitor virou o rosto naquela hora. Ajeitou a gola da camisa — ainda suja de batom — e deu um sorrisinho lento ao vê-la.

— Olha ela aí… a fugitiva da moda.

— Cala a boca, Heitor.

— Mas continua linda, tá? — completou, antes de beber mais um gole de café como se estivesse no quintal da própria avó.

Helena cruzou os braços e ficou observando os dois conversando com afinidade absurda. Dona Olívia rindo. Heitor todo enturmado.

E então, como um soco discreto no peito, ela percebeu:

Elas eram parecidas.

Ela e a avó. Teimosas. Língua afiada. Duras com quem não confiam. Cautelosas. Ranzinzas.

E, no fundo… doidas por carinho, quando esse carinho vem certo.

Helena encostou no batente da porta, observando em silêncio. Aquele homem cínico, provocador, estrategista… estava ali, sentado, falando sobre folhas e raízes e ração para cachorros.

E o pior?

Ele tava mesmo interessado.

Heitor parecia em casa.

Ali, sentado à mesa da cozinha, puxando conversa sobre temperos, ração de cachorro e colheita de hortelã como se fosse um filho da terra. Ele sorria bonito, elogiava o café, falava com calma — e com aquele sotaque carioca que conseguia fazer até um sermão parecer elogio.

Helena observava de canto.

Ele era bom naquilo.

Muito bom.

Em ler as pessoas. Em agradar. Em encontrar o tom certo pra cada conversa. Ele falava com Dona Olívia como se a conhecesse há anos. E o mais irritante? Funcionava. A velha estava caidinha. Tentava manter a postura dura, mas já estava encantada com o charme canalha travestido de gentileza.

Helena bufou em silêncio.

Ela sabia o que estava por trás daquela cara de bom moço. Sabia o que aquelas mãos grandes faziam quando estavam longe da xícara de café. Sabia o que tinha por baixo daquela camisa — aliás, as marcas ainda estavam na pele dela.

Mas ela não podia negar: era bom ver ele assim.

Bonito, carismático, com aquele olhar de quem é perigoso e gentil ao mesmo tempo. Inferno, ele era lindo até lavando uma louça se quisesse.

— Vai ficar aí parada? — Dona Olívia chamou. — Vem me ajudar com o arroz.

Helena foi até a cozinha, puxando o cabelo pro alto, pronta pra pegar a colher, quando uma mão quente tocou de leve seu braço.

— Deixa, Helena — disse Heitor, com aquela voz baixa e controlada que fazia o sangue dela subir. — Pode sentar. Eu ajudo.

Ela o olhou com desconfiança, sobrancelha arqueada.

— Você?

— Eu. Sou um homem moderno — respondeu, com um sorriso suave que quase colava uma auréola na cabeça dele.

— Vai colocar sal no arroz doce — resmungou Helena, tentando pegar a colher assim mesmo.

Ele segurou o cabo da colher e olhou pra ela com firmeza, mas com aquele sorriso que só ele sabia usar.

— Pode confiar. Eu coloco bem... do jeitinho certo.

Dona Olívia fingiu que não ouviu, mas o canto da boca dela tremia com um sorrisinho contido.

Helena, por sua vez, bufou de novo, cruzou os braços e saiu da cozinha com o orgulho em combustão lenta.

Ao longo do preparo, Heitor não perdeu o personagem. Gentil. Educado. Um lorde na roça. Mas quando Dona Olívia virava de costas, ele soltava aqueles olhares furtivos pra Helena. Intencionalmente demorados. Como se cada lembrança da noite anterior passasse por dentro dos olhos dele.

E ela sabia. Sabia o que ele tava pensando. Porque o corpo dela lembrava de cada centímetro daquelas mãos.

Finalmente o almoço ficou pronto. A mesa posta. O cheiro do feijão quente no ar. Dona Olívia ajeitou os pratos, mas antes que pudesse se servir, Heitor puxou a travessa com elegância e disse:

— Deixa que eu coloco pra senhora, Dona Olívia. A senhora merece um banquete.

— Não sou nenhuma inválida, menino! — ela resmungou, meio desconfiada.

— Eu sei. Mas deixa eu fazer essa — ele respondeu com um sorriso que amolecia qualquer muralha.

Ela aceitou. E quando ele colocou o arroz no prato dela com delicadeza, ela soltou um leve:

— Hm... tá bem soltinho, viu?

Helena viu tudo da cadeira oposta, revirando os olhos como se estivesse assistindo a uma novela que já sabia o final.

Foi então que Heitor pegou o prato dela.

— E da senhorita... eu mesmo coloco também.

Helena levantou na hora.

— Nem vem — disse, firme. — Eu coloco o meu.

Arrancou o prato da mão dele, quase tropeçando na própria raiva. E foi até o fogão.

Mas ele aproveitou o movimento. Se aproximou devagar. Rente.

Inclinou o rosto ao lado do dela e, com a voz mais baixa e quente que conseguiu, sussurrou no ouvido dela:

— Eu coloco muito bem, lembra? Igual coloquei em você ontem à noite.

Helena congelou.

O prato quase caiu da mão.

— Você é um... — ela começou, sem conseguir completar.

Ele já estava sorrindo, voltando pro lugar dele, todo certinho. O bom moço da casa.

Ela voltou pra mesa com o prato cheio… de raiva.

Mas, no fundo, ela sabia. O problema era esse. Heitor não só colocava direito. Ele colocava como se soubesse onde doía, onde apertava, onde era dela.

E isso... isso sim era perigoso.