O CEO que Eu Paguei
58 Cabos Invisíveis
Helena passou o dia como quem sobrevive puxando ar por aparelhos invisíveis. Um passo de cada vez. Um relatório de cada vez. Um olhar torto por vez.
Hugo e Júlia não desgrudaram. Revezavam-se entre mandar memes por e-mail interno, roubar bombons da copa, ou cutucar sutilmente quem ousasse cochichar demais.
Mas nada realmente distraía Helena. Ela estava anestesiada. Como se cada parte do corpo operasse por conta própria, ligada por cabos finíssimos, quase rompendo.
Ela olhou pela terceira vez naquele intervalo de dez minutos para a parede de vidro que separava a área deles da sala da diretoria. A mesa de Heitor… ainda vazia.
O lugar onde ele costumava jogar a pasta de couro, apoiar os braços e passar os dedos pelo queixo enquanto pensava... estava deserto. O ar-condicionado ainda deixava os papéis dançando levemente, mas Heitor não apareceu lá. O dia inteiro.
Em vez disso, gestores da Monteiro Inc. entravam e saíam da sala de reuniões com cara de que estavam enfrentando um furacão disfarçado de homem. Hugo até arriscou comentar que a cidade devia estar em alerta vermelho e ninguém tinha percebido.
Quando o relógio marcou dezoito e trinta, Helena se levantou em silêncio. Pegou a bolsa com movimentos metódicos, como se o fim do expediente fosse sua linha de chegada emocional.
Mas, antes que pudesse dar o primeiro passo...
— Helena. — Clara apareceu no campo de visão, com o tom exato entre chefe e... alguma coisa estranhamente gentil. — A gente vai sair hoje.
— Hoje? — Helena piscou. — Clara… é segunda-feira.
— Exato. Segunda. Dia perfeito pra lavar a alma com álcool e fritura. — respondeu, sem alterar a expressão.
— Mas eu…
— Vai. — cortou Clara, chamando Hugo e Júlia com o olhar. — Todo mundo. Preciso que a gente converse, sem badge de crachá.
— Eu topo! — disse Júlia, já animada.
— Eu mais ainda. — disse Hugo, girando nos calcanhares.
Ana Alice surgiu da copiadora como se tivesse um radar.
— Eu vou também.
Clara respirou fundo, vencida.
— Tudo bem, Ana. Vamos todos.
Meia hora depois, estavam todos acomodados num bar de esquina com cara de lugar onde universitários vão pra beber e contar segredos que nunca deveriam sair dali.
Clara pediu uma latinha. Todos seguiram o exemplo. Uma porção de batatas rústicas e iscas de frango chegaram rápido. As luzes eram amareladas, o cheiro era de gordura e cerveja. Perfeito.
Helena estava quieta, ainda processando o dia.
Até que Clara, depois de virar um gole da lata, a olhou com os olhos semicerrados de quem estava ali como mulher, não como chefe:
— Agora, desembucha.
Helena arregalou um pouco os olhos.
— O quê?
— Como foi que você conseguiu aquele homem?
Júlia e Hugo olharam uma pra outra com sorrisos aliviados.
— Graças a Deus. — murmurou Júlia. — Eu achando que a Clara ia vir armada.
— A Clara tá apaixonada pela fofoca. — respondeu Hugo.
Clara não riu. Só manteve o olhar em Helena, mas dessa vez com um sorriso no canto da boca.
— Vai. Fala. Porque, sinceramente… até eu, vendo aquele homem na reunião hoje, pensei: Helena deve ter dado uma bela chave de coxa nele, porque sem cabimento.
Ana Alice bufou.
— Até parece. Rico assim sempre acha que o dinheiro é o afrodisíaco.
— E você? Já pegou algum rico pra saber? — disparou Júlia, pegando uma batata.
— Eu já vi o que tinha que ver, obrigada. — Ana Alice respondeu, cruzando os braços. — Ele só tá com a Helena porque gosta de mulher mandona.
Helena ergueu uma sobrancelha.
— Mandona?
— Ué. Olha o teu tom de voz. Tu vive falando com a gente como se estivesse corrigindo um relatório.
Hugo riu alto.
— Ana Alice, você fala como se ser mandona fosse defeito. Se for isso que conquista homem assim… vou virar coach da dominação feminina.
Clara voltou o foco.
— Mas falando sério, Helena. Ele tá de quatro. E olha que eu já vi gente importante naquela sala de reunião, mas o jeito como ele falava…
Ela parou. Parecia buscar as palavras certas. Por fim, falou mais devagar:
— Era como se o resto do mundo não importasse. Como se só existissem duas coisas na cabeça dele: proteger você… e desafiar qualquer um que ousasse abrir a boca pra te julgar.
Silêncio.
Clara tomou mais um gole e completou, mais baixo:
— Foi... lindo. De verdade.
Helena sentiu os olhos arderem. Não pelo álcool. Mas pela forma inesperada como estava sendo acolhida.
— Eu não pedi isso tudo. — ela murmurou, mexendo o copo de gelo.
— Ninguém pede. — respondeu Clara. — Mas às vezes... a gente precisa.
Ana Alice torceu os lábios.
— Eu ainda acho tudo isso um exagero. Mas... — suspirou — se ele realmente ficar com você, Helena, bom… parabéns.
— Obrigada. — Helena respondeu, seca.
— É. Mas também... cuidado. Porque homem assim, quando cansa, larga. E se você for só a fase rebelde dele…
Clara ergueu a mão, sem nem levantar a voz:
— Ana.
— O quê? Tô sendo realista.
— Não. Tá sendo amarga. E isso não combina com cerveja gelada. Nem com mulheres incríveis.
Ana Alice mordeu a língua.
Helena riu baixo. Era um riso contido, mas carregado de alívio. Pela primeira vez desde cedo, o nó na garganta começava a afrouxar.
— Eu ainda não sei o que vai ser. — ela disse, olhando para o copo. — Mas… com ele, tudo parece mais intenso. Mais real. Como se eu fosse vista de verdade. Como se... eu importasse.
Júlia apertou a mão dela.
— E você importa. Muito mais do que imagina.
Clara ergueu a latinha.
— Então vamos brindar.
— Ao quê? — perguntou Hugo.
— Ao caos. — disse Clara, com um sorrisinho irônico. — Mas um caos que vale a pena.
Eles brindaram, riram, comeram e falaram de tudo que não podiam dizer no escritório.
E ali, entre batatas fritas e confissões embriagadas, Helena sentiu algo que não sentia há muito tempo: leveza.
Meia hora depois, estavam todos sentados num boteco com cheiro de fritura velha e cerveja gelada — exatamente o tipo de lugar onde fofoca rende mais do que qualquer reunião de alinhamento.
As mesas estavam grudadas, os copos suando, e Clara — que em qualquer outro contexto jamais seria vista num bar daqueles — já tinha aberto a primeira latinha sem nem amassar o blazer.
Clara apontou diretamente pra Helena.
— E então? Vai continuar com essa cara de paisagem ou vai contar logo?
— Contar o quê? — Helena fingiu, como se a pergunta não tivesse endereço.
— Como é que você foi parar no colo do CEO.
Helena quase engasgou com o próprio ar. Júlia riu alto, Hugo bateu palminha de animação.
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