O CEO que Eu Paguei
12 Bastidores
— Gente… — começou Clara, ainda com a boca meio aberta — o que foi isso?
— Isso, no caso, é o novo diretor. — completou Júlia, abanando o rosto. — Clara, pode pedir meu desligamento imediato. Já vou deixar meu currículo na recepção da Monteiro Inc.
— Eu ainda tô processando o que aconteceu — murmurou Ana Alice, passando os dedos pelas próprias bochechas, como se tentasse sentir onde tinha encostado no Heitor. — Vocês viram o jeito que ele me olhou? E o jeito que me abraçou? Eu nunca senti isso antes, sério.
— Também, com a roupa que você tá usando, né? — soltou Hugo, rindo, sentado de qualquer jeito na cadeira. — Que homem que não olha?
Ana Alice ergueu o queixo.
— Ah, para, Hugo. Isso aqui é moda. É atitude. E, sinceramente, não sou só um rostinho bonito. Ele percebeu que eu sou diferente. Ele gostou de mim.
— Ele gostou de muita coisa hoje, pelo visto — murmurou Júlia, se levantando e puxando uma cadeira pra junto do computador de Hugo. — Vem cá, vamos procurar o Instagram dele. Aposto que tem um perfil escondido cheio de foto de terno e legenda tipo “liderança se constrói com propósito”.
— Eu quero ver são as fotos de sunga, só para checar um trenzinho. — Clara disse com um sorriso malicioso.
— Trenzinho? Eu vi foi um trenzão! — Júlia disse fazendo o tamanho exagerado com as mãos.
— Achei! — disse Hugo, depois de uns segundos. — Tem dois. Um é @heitor.monteiroinc — aquele todo montado, cheio de palestra, camisa social, #networking. E o outro é @hm.monteiro… nossa.
Júlia se inclinou, arregalando os olhos.
— Gente, o pessoal precisa vir ver isso agora. Vem, Clara. Vem, Ana Alice. Olha essas fotos.
As mulheres da equipe praticamente se aglomeraram ao redor do monitor. Em poucos segundos, a sala virou um festival de gritinhos, comentários abafados e zooms indiscretos.
— Olha esse braço! — apontou Clara.
— Achei a foto de sunga! — Hugo sorriu vitorioso como se fosse dinheiro na rua.
— Calma aí anaconda. — sussurrou Júlia, rindo alto. — Gente… é trenzão, isso sim.
— Se mole é assim, imagina duro… — soltou Hugo, com as mãos levantadas num gesto de rendição.
Clara se engasgou com a própria risada. Júlia deu um tapa no ombro dele.
— Você não presta!
— Ué, só tô falando o que vocês tão pensando. A calça social não mente.
— Agora você é sensitiva, Hugo? Vou ter que voltar pra academia e treinar agachamento. — Júlia fala insinuando com a mão e boca um boquete.
— Eu sou mais treinado nisso Jú, deixa comigo — Hugo fala insinuando um boquete perfeito e todas caem na risada.
Ana Alice ajeitou o cabelo, tentando manter a pose.
— Eu acho que vocês tão passando dos limites. Ele foi muito atencioso comigo. E não é só físico. Foi diferente. Talvez ele esteja à procura de alguém como eu… madura, com visão de empresa.
— Madura? — repetiu Júlia, arqueando uma sobrancelha. — Ana, você foi a única que não usou o uniforme hoje, veio com esse conjunto que é praticamente um body e agora tá achando que vai ser escolhida como a esposa do CEO?
Ana Alice cruzou os braços.
— Você tem inveja, só isso.
— Inveja não — disse Hugo, sorrindo, os olhos voltando para Helena, que seguia imóvel na própria mesa, os olhos fixos na tela. — Mas… eu acho que quem vai ganhar o título de esposa troféu ali é a Lêlê.
O comentário caiu como um estalo.
Ana Alice se virou na hora, ofendida.
— O quê?! Ah, não! Ele só foi educado! Isso aí é inveja disfarçada. E a Helena nem é o tipo dele. Eu sou muito mais o padrão Monteiro. Influência, imagem, presença. Quer comparar nossos Instas?
Júlia já ria de novo, aproveitando o circo.
— Ah claro, porque "padrão Monteiro" é sinônimo de roupa de puta e maquiagem pesada. Cuidado em que rua você passa Ana, podem te oferecer uns cinquentas.
— Se for na Av Marechal acho que consegue uns duzentos — Hugo completa rindo.
Mas ninguém esperava que Helena reagisse. Ela nunca participava dessas brincadeiras, no máximo ria.
A mulher que não havia se mexido desde a saída de Heitor de repente levantou a cabeça, o olhar duro como pedra.
— Já deu, né?
O silêncio caiu na sala.
— Eu não sei que tipo de novela vocês acham que tão assistindo, mas não existe nada entre mim e esse homem. E nem vai existir. Nun-qui-nha! — ela enfatiza.
As palavras saíram cortantes, firmes, mas carregadas de tensão.
“Eu tenho contas pra pagar, uma avó que depende de mim, e esse emprego foi a primeira coisa decente que consegui em anos de esforço. Plano de saúde completo e comida na geladeira. Eu nunca iria arriscar tudo isso por um… gostoso? Na verdade eu já estou com tudo isso em risco”
Ela aparentava estar indignada de verdade.
O silêncio agora era constrangedor.
Helena olhou em volta. Estavam todos parados, encarando-a com os olhos arregalados.
Então ela se recostou na cadeira de novo, bufando, os braços cruzados. A respiração ainda estava irregular.
— Nunca teria nada com ele. Nunca. E se alguém aqui pensa o contrário… sinto muito.
Por um segundo, ninguém soube o que dizer.
Hugo coçou a nuca. Júlia se remexeu. Ana Alice fez uma careta e voltou pra própria mesa.
Helena encarava a tela.
Mas não via nada.
Por dentro, a mente era só caos. O que ele estava fazendo ali? O que aquele maldito sorriso queria dizer? Ele ia expor ela? Ele ia rir dela? Ela iria perder o emprego?
E, pior…
Por que parte dela ainda queria sentir aquele perfume mais uma vez? Aquele corpo cada vez mais próximo.
Júlia girava lentamente a cadeira de um lado para o outro, olhando para Helena como quem analisava um caso perdido.
— Só uma pergunta sincera… você tá bem? Tipo, de verdade?
Helena nem respondeu.
— Porque, assim — continuou Clara, apoiando o queixo nas mãos — o cara é lindo, gostoso, rico, com aquele sotaque que parece que tá derretendo na nuca da gente… e você tá aí fingindo que nada aconteceu? Que nem reparou?
— Não reparei mesmo — respondeu Helena seca, os olhos ainda presos à tela. — Ele não é meu tipo.
Hugo deu uma gargalhada.
— Ah, claro. O diretor quarentão, com aquela pegada de "já comi o mundo e agora quero brincar de casinha", não é o tipo dela. Imagina se fosse.
— Exatamente. — Helena cruzou os braços. — Faz mais sentido ele ficar com a Ana Alice mesmo. São parecidos. Ela se produz toda, adora chamar atenção, e claramente quer isso. Que ele olhe pra ela.
Ana Alice, que até então estava tentando não se meter de novo, abriu um sorriso triunfante.
— Finalmente você falou alguma coisa sensata. — Ana Alice fez um coração com a mão em direção a Helena — Agiu como uma verdadeira fada sensata agora, Heleninha.
Júlia suspirou alto e revirou os olhos.
— Cala a boca, piricrente.
— Gente, deixa a dona ranzinza pra lá — disse Hugo, já voltando o rosto pro monitor com as fotos do @hm.monteiro. — Ela quer continuar vivendo a vida CLTzinha dela. A gente vai aqui contemplar aquele homem como ele merece.
— Pois é — emendou Clara, rindo. — Se Helena não quer, a gente faz até uma fila. Eu topo ser a número dois. Ou três. Ou... o que tiver.
— Gente! — protestou Helena, levantando os olhos, incrédula. — Vocês tão malucos?
— Malucos, não — disse Júlia. — Realistas. E sinceros. Eu ao contrário de você, não me importo de fazer academia às 14h de uma quarta-feira. Você tem noção disso? Academia no horário nobre é um estilo de vida.
— E sem crachá! — riu Hugo. — Nunca mais bater ponto. Imagina só, vivendo de bebidas caras e dando a bunda todo dia para o diretor.
— Ele tem cara de gostar de blogueirinha — insistiu Helena. — Sinceramente, gente assim me dá preguiça. Ele tem cara de problema. E eu não tenho tempo pra lidar com homem problema. E vocês também não viu?
— Tá bom, Helena. — disse Clara, debochada. — Mas só porque você não quer lidar, não significa que a gente não queira.
— Já que tá todo mundo inspirado… — sugeriu Hugo, se endireitando na cadeira — vamos montar o top 5 de quem o Sr. Monteiro escolheria. Pode até ser um top 3 com menção honrosa.
Júlia já levantou a mão.
— Eu voto em mim.
— Voto em mim também — disse Clara, sorrindo.
— Eu voto em mim, claro, pois eu sei que serei eu — Ana Alice quase interrompeu, batendo o salto no chão.
— Meu voto é secreto — disse Hugo, dando uma piscadinha. — Mas pode começar com um Hu e terminar com go.
— Ai, gente, para! — reclamou Helena, já massageando a própria testa.
Mas ninguém parou.
— A gente pode fazer uma votação oficial — disse Júlia, abrindo uma aba no Excel. — Cada um bota seu nome, as vantagens, os diferenciais…
— Se tiver critério por bunda, eu subo no ranking! — disse Clara, rebolando na cadeira e fazendo todos rirem.
— E se for por olhar assassino e cara de quem vai te xingar enquanto transa… aí a Helena ganha — soltou Hugo, sem a menor cerimônia.
Helena ergueu o rosto devagar.
— Você quer morrer hoje?
Hugo deu um beijo estalado no ar.
— Já morri no olhar daquele homem, querida.
Todos riram. Até Helena deixou escapar um sorrisinho — rápido, contido, traiçoeiro. Bufou, virou-se pra tela e fingiu que estava no controle.
Mas por dentro…
Estava tudo fora do lugar.
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