— Gente… — começou Clara, ainda com a boca meio aberta — o que foi isso?

— Isso, no caso, é o novo diretor. — completou Júlia, abanando o rosto. — Clara, pode pedir meu desligamento imediato. Já vou deixar meu currículo na recepção da Monteiro Inc.

— Eu ainda tô processando o que aconteceu — murmurou Ana Alice, passando os dedos pelas próprias bochechas, como se tentasse sentir onde tinha encostado no Heitor. — Vocês viram o jeito que ele me olhou? E o jeito que me abraçou? Eu nunca senti isso antes, sério.

— Também, com a roupa que você tá usando, né? — soltou Hugo, rindo, sentado de qualquer jeito na cadeira. — Que homem que não olha?

Ana Alice ergueu o queixo.

— Ah, para, Hugo. Isso aqui é moda. É atitude. E, sinceramente, não sou só um rostinho bonito. Ele percebeu que eu sou diferente. Ele gostou de mim.

— Ele gostou de muita coisa hoje, pelo visto — murmurou Júlia, se levantando e puxando uma cadeira pra junto do computador de Hugo. — Vem cá, vamos procurar o Instagram dele. Aposto que tem um perfil escondido cheio de foto de terno e legenda tipo “liderança se constrói com propósito”.

— Eu quero ver são as fotos de sunga, só para checar um trenzinho. — Clara disse com um sorriso malicioso.

— Trenzinho? Eu vi foi um trenzão! — Júlia disse fazendo o tamanho exagerado com as mãos.

— Achei! — disse Hugo, depois de uns segundos. — Tem dois. Um é @heitor.monteiroinc — aquele todo montado, cheio de palestra, camisa social, #networking. E o outro é @hm.monteiro… nossa.

Júlia se inclinou, arregalando os olhos.

— Gente, o pessoal precisa vir ver isso agora. Vem, Clara. Vem, Ana Alice. Olha essas fotos.

As mulheres da equipe praticamente se aglomeraram ao redor do monitor. Em poucos segundos, a sala virou um festival de gritinhos, comentários abafados e zooms indiscretos.

— Olha esse braço! — apontou Clara.

— Achei a foto de sunga! — Hugo sorriu vitorioso como se fosse dinheiro na rua.

— Calma aí anaconda. — sussurrou Júlia, rindo alto. — Gente… é trenzão, isso sim.

— Se mole é assim, imagina duro… — soltou Hugo, com as mãos levantadas num gesto de rendição.

Clara se engasgou com a própria risada. Júlia deu um tapa no ombro dele.

— Você não presta!

— Ué, só tô falando o que vocês tão pensando. A calça social não mente.

— Agora você é sensitiva, Hugo? Vou ter que voltar pra academia e treinar agachamento. — Júlia fala insinuando com a mão e boca um boquete.

— Eu sou mais treinado nisso Jú, deixa comigo — Hugo fala insinuando um boquete perfeito e todas caem na risada.

Ana Alice ajeitou o cabelo, tentando manter a pose.

— Eu acho que vocês tão passando dos limites. Ele foi muito atencioso comigo. E não é só físico. Foi diferente. Talvez ele esteja à procura de alguém como eu… madura, com visão de empresa.

— Madura? — repetiu Júlia, arqueando uma sobrancelha. — Ana, você foi a única que não usou o uniforme hoje, veio com esse conjunto que é praticamente um body e agora tá achando que vai ser escolhida como a esposa do CEO?

Ana Alice cruzou os braços.

— Você tem inveja, só isso.

— Inveja não — disse Hugo, sorrindo, os olhos voltando para Helena, que seguia imóvel na própria mesa, os olhos fixos na tela. — Mas… eu acho que quem vai ganhar o título de esposa troféu ali é a Lêlê.

O comentário caiu como um estalo.

Ana Alice se virou na hora, ofendida.

— O quê?! Ah, não! Ele só foi educado! Isso aí é inveja disfarçada. E a Helena nem é o tipo dele. Eu sou muito mais o padrão Monteiro. Influência, imagem, presença. Quer comparar nossos Instas?

Júlia já ria de novo, aproveitando o circo.

— Ah claro, porque "padrão Monteiro" é sinônimo de roupa de puta e maquiagem pesada. Cuidado em que rua você passa Ana, podem te oferecer uns cinquentas.

— Se for na Av Marechal acho que consegue uns duzentos — Hugo completa rindo.

Mas ninguém esperava que Helena reagisse. Ela nunca participava dessas brincadeiras, no máximo ria.

A mulher que não havia se mexido desde a saída de Heitor de repente levantou a cabeça, o olhar duro como pedra.

— Já deu, né?

O silêncio caiu na sala.

— Eu não sei que tipo de novela vocês acham que tão assistindo, mas não existe nada entre mim e esse homem. E nem vai existir. Nun-qui-nha! — ela enfatiza.

As palavras saíram cortantes, firmes, mas carregadas de tensão.

“Eu tenho contas pra pagar, uma avó que depende de mim, e esse emprego foi a primeira coisa decente que consegui em anos de esforço. Plano de saúde completo e comida na geladeira. Eu nunca iria arriscar tudo isso por um… gostoso? Na verdade eu já estou com tudo isso em risco”

Ela aparentava estar indignada de verdade.

O silêncio agora era constrangedor.

Helena olhou em volta. Estavam todos parados, encarando-a com os olhos arregalados.

Então ela se recostou na cadeira de novo, bufando, os braços cruzados. A respiração ainda estava irregular.

— Nunca teria nada com ele. Nunca. E se alguém aqui pensa o contrário… sinto muito.

Por um segundo, ninguém soube o que dizer.

Hugo coçou a nuca. Júlia se remexeu. Ana Alice fez uma careta e voltou pra própria mesa.

Helena encarava a tela.

Mas não via nada.

Por dentro, a mente era só caos. O que ele estava fazendo ali? O que aquele maldito sorriso queria dizer? Ele ia expor ela? Ele ia rir dela? Ela iria perder o emprego?

E, pior…

Por que parte dela ainda queria sentir aquele perfume mais uma vez? Aquele corpo cada vez mais próximo.

Júlia girava lentamente a cadeira de um lado para o outro, olhando para Helena como quem analisava um caso perdido.

— Só uma pergunta sincera… você tá bem? Tipo, de verdade?

Helena nem respondeu.

— Porque, assim — continuou Clara, apoiando o queixo nas mãos — o cara é lindo, gostoso, rico, com aquele sotaque que parece que tá derretendo na nuca da gente… e você tá aí fingindo que nada aconteceu? Que nem reparou?

— Não reparei mesmo — respondeu Helena seca, os olhos ainda presos à tela. — Ele não é meu tipo.

Hugo deu uma gargalhada.

— Ah, claro. O diretor quarentão, com aquela pegada de "já comi o mundo e agora quero brincar de casinha", não é o tipo dela. Imagina se fosse.

— Exatamente. — Helena cruzou os braços. — Faz mais sentido ele ficar com a Ana Alice mesmo. São parecidos. Ela se produz toda, adora chamar atenção, e claramente quer isso. Que ele olhe pra ela.

Ana Alice, que até então estava tentando não se meter de novo, abriu um sorriso triunfante.

— Finalmente você falou alguma coisa sensata. — Ana Alice fez um coração com a mão em direção a Helena — Agiu como uma verdadeira fada sensata agora, Heleninha.

Júlia suspirou alto e revirou os olhos.

— Cala a boca, piricrente.

— Gente, deixa a dona ranzinza pra lá — disse Hugo, já voltando o rosto pro monitor com as fotos do @hm.monteiro. — Ela quer continuar vivendo a vida CLTzinha dela. A gente vai aqui contemplar aquele homem como ele merece.

— Pois é — emendou Clara, rindo. — Se Helena não quer, a gente faz até uma fila. Eu topo ser a número dois. Ou três. Ou... o que tiver.

— Gente! — protestou Helena, levantando os olhos, incrédula. — Vocês tão malucos?

— Malucos, não — disse Júlia. — Realistas. E sinceros. Eu ao contrário de você, não me importo de fazer academia às 14h de uma quarta-feira. Você tem noção disso? Academia no horário nobre é um estilo de vida.

— E sem crachá! — riu Hugo. — Nunca mais bater ponto. Imagina só, vivendo de bebidas caras e dando a bunda todo dia para o diretor.

— Ele tem cara de gostar de blogueirinha — insistiu Helena. — Sinceramente, gente assim me dá preguiça. Ele tem cara de problema. E eu não tenho tempo pra lidar com homem problema. E vocês também não viu?

— Tá bom, Helena. — disse Clara, debochada. — Mas só porque você não quer lidar, não significa que a gente não queira.

— Já que tá todo mundo inspirado… — sugeriu Hugo, se endireitando na cadeira — vamos montar o top 5 de quem o Sr. Monteiro escolheria. Pode até ser um top 3 com menção honrosa.

Júlia já levantou a mão.

— Eu voto em mim.

— Voto em mim também — disse Clara, sorrindo.

— Eu voto em mim, claro, pois eu sei que serei eu — Ana Alice quase interrompeu, batendo o salto no chão.

— Meu voto é secreto — disse Hugo, dando uma piscadinha. — Mas pode começar com um Hu e terminar com go.

— Ai, gente, para! — reclamou Helena, já massageando a própria testa.

Mas ninguém parou.

— A gente pode fazer uma votação oficial — disse Júlia, abrindo uma aba no Excel. — Cada um bota seu nome, as vantagens, os diferenciais…

— Se tiver critério por bunda, eu subo no ranking! — disse Clara, rebolando na cadeira e fazendo todos rirem.

— E se for por olhar assassino e cara de quem vai te xingar enquanto transa… aí a Helena ganha — soltou Hugo, sem a menor cerimônia.

Helena ergueu o rosto devagar.

— Você quer morrer hoje?

Hugo deu um beijo estalado no ar.

— Já morri no olhar daquele homem, querida.

Todos riram. Até Helena deixou escapar um sorrisinho — rápido, contido, traiçoeiro. Bufou, virou-se pra tela e fingiu que estava no controle.

Mas por dentro…

Estava tudo fora do lugar.