O CEO que Eu Paguei
215 Até o Fim, Com Você
Assim que chegaram no andar deles, foram recebidos por uma equipe médica, visivelmente tensa. Uma das enfermeiras se aproximou com uma cadeira de rodas.
— Por favor, senhor Heitor, precisamos que a senhora Helena seja colocada aqui.
— Não. Eu vou levá-la. — Heitor disse, com a voz firme e fria como aço.
A enfermeira chefe tentou interceder, adotando um tom calmo:
— Entendo o seu receio, senhor. Mas precisamos avaliá-la com urgência. O senhor pode acompanhá-la, é claro…
— Você não entende merda nenhuma. — Heitor cortou, a fúria escorrendo pelas palavras. — Eu não vou confiar minha família a vocês. Nunca mais.
Helena, nos braços dele, apertou o pescoço do noivo, como se quisesse dizer: não me solta, não agora.
— Enquanto vocês estão aí, de papinho, minha noiva está sangrando. Me digam imediatamente para onde devíamos estar.
A equipe trocou olhares rápidos e se moveu. Sem questionar mais nada, apenas pedindo que os seguissem.
— Não vou te deixar sozinha de novo, Helena. — Heitor murmurou. Mas ela não soube dizer se ele dizia aquilo para ela… ou para si mesmo.
Ele a carregou até o quarto com o corpo firme e os olhos em chamas. Helena, em contrapartida, só tinha um pensamento ecoando: o Humberto. Onde estava o bebê?
Na porta do quarto, dois seguranças armados.
Assim que entraram, a equipe pediu gentilmente que Jonas esperasse do lado de fora. Helena olhou em volta, aflita, e seu coração congelou.
Não viu o filho.
O medo subiu como um nó preso na garganta. As lágrimas escorriam sem freio.
— Cadê o meu filho? — ela perguntou, num fio de voz.
— Mas que porra! Cadê o nosso filho?! — Heitor esbravejou, avançando um passo à frente.
Uma enfermeira da equipe neonatal, surgiu ao fundo com um semblante calmo.
— Mamãe e papai, o Humberto está vindo. Estava na sala segura, passando por uma avaliação neonatal completa. É um protocolo de emergência.
— Eu quero o meu filho aqui AGORA! — Heitor rosnou, a veia do pescoço pulsando como nunca.
Helena sentiu tudo girar. O ar ficou ralo. As mãos escorregaram pelos ombros de Heitor.
— Hei…tor… — ela disse, fraca.
Os olhos dele se arregalaram. Ele a deitou com cuidado na cama.
— Vai ficar tudo bem, amor. Eu tô aqui. — dizia enquanto acariciava o rosto dela, tentando manter a calma que já não existia.
A equipe médica se aproximou e iniciou os exames. Colocaram acesso na mão dela, começaram a falar entre si, medir, anotar… mas Helena só via vultos. Estava nervosa. Confusa. Queria o Heitor por perto, queria seus olhos. Onde ele estava?
Ela o procurou até encontrá-lo, ao lado, no telefone. A voz dele estava baixa, mas firme, e o rosto tenso.
— Amor… — ela chamou, fraca.
Na hora, ele desligou.
— O que foi, Helê?
— Pode ficar mais perto?
— Claro, não vou sair daqui. — Ele se aproximou e segurou sua mão.
Os olhos dela pesavam. As palavras escapavam como nuvem. Os medicamentos faziam efeito, e ela não lutou. Apenas fechou os olhos.
E então, tudo mudou.
Estava na casa da vó.
O chão de cimento queimado, as janelas antigas, o som distante de rádio AM. E ali, vindo na direção dela, com o rabo abanando feito bandeira em dia de jogo, estava ele.
— Tótó? — ela sussurrou, surpresa. Os olhos marejaram.
Ela se abaixou e abriu os braços, sorrindo.
— Hey! Garoto, vem cá!
Mas, como sempre, o caramelo teimoso passou direto… todo empolgado.
— Sério isso? — ela disse, rindo e limpando as lágrimas.
Quando se virou, o coração parou.
Lá estava ele.
Zé.
Seu avô.
O homem que a criou. Que cuidou. Que foi pai quando não havia mais ninguém.
Tótó se esfregava nas pernas dele, e Helena correu sem pensar.
Se atirou no abraço dele como se quisesse voltar para dentro do peito que tantas vezes foi casa.
Ela chorava como criança. Um choro velho, engasgado, de saudade, de dor, de alívio.
Zé a acolheu com aquele mesmo jeito de sempre.
— Que isso, menina? Foi no trabalho é? O que deu no ocê? — perguntou com a voz grossa, o sotaque carregado e o amor transbordando.
Ela só balançou a cabeça, apertando ainda mais.
— Tá tudo bem. — ele disse, passando a mão na cabeça dela. — Eu não queria ter demorado tanto assim na plantação. Sentiu saudades?
Ela fez que sim. Soluçava.
Tótó lambeu o pé dela e ela riu no meio do choro.
— Eu demoro, mas volto. Ocê sabe disso, uai!
— Demorou muito dessa vez… — ela disse, com a voz pequena.
— Ajuda eu da próxima então. Tá de folga?
— Acho que não…
Ele limpou os olhos dela com o dorso da mão calejada.
— Então larga lá o supermercado. Vamo comprar um chapéu grande pro ocê lá no Vicente. O sol tá de lascar esses dias.
Ela riu e encostou a cabeça no peito dele. Aquele cheiro de suor e terra. O cheiro do passado.
Ele pegou na mão dela.
— Que trem é esse aqui? — perguntou, apontando para o anel brilhante no dedo dela.
Helena tirou a aliança e a virou entre os dedos, leu a inscrição gravada por dentro:
"Sempre vai ser você. Nessa vida, em todas que já vivi e nas que viverei. – Sempre seu, Heitor."
Ela sorriu, com os olhos marejados.
— É meu anel de noivado.
Zé ficou sério.
— Como o Rafael te pediu em casamento sem minha autorização?
Helena riu.
— Não foi o Rafael, vô.
— Como não? É seu namorado.
— Faz tempo que não é mais. Eu tô noiva do Heitor Monteiro.
O nome saiu com um calor diferente. Era doce e forte como café novo.
— Eu não conheço esse não… Quando isso tudo aconteceu? Eu só estive fora por umas horas.
Ela deu de ombros, ainda confusa com o tempo e o espaço.
— Aconteceu, vô. E eu sou feliz. Ele é um idiota… mas é o idiota que eu amo. Meu noivo. Meu futuro marido. O pai do meu filho.
Zé congelou.
— Filho?!
Ela colocou o anel de volta. E o abraçou com força.
— Te amo, vô. Mas eu não posso ficar. Minha família me espera.
Ele olhou para ela com carinho e assentiu com a cabeça.
— Então vai, minha menina. Vai ser feliz.
E o mundo começou a girar. A imagem do avô se desfez devagar, como se fosse feita de vento.
Helena despertou em sobressalto.
Por um instante, ainda sentia o cheiro do avô — terra e suor. Um cheiro que nunca a abandonou. O coração se contraiu com violência, como se alguém o apertasse com as mãos.
Ela devia ter ficado mais com ele.
Devia.
Desde a morte do avô, Helena nunca tinha sonhado com ele. Nunca. Mesmo desejando tanto revê‑lo, mesmo pedindo em silêncio antes de dormir. E agora… agora ele aparecia, tão real que doía acordar.
As lágrimas vieram sem aviso, pesadas, silenciosas. Ela devia ter ficado. Devia ter ouvido mais, perguntado mais, aproveitado cada minuto.
Piscou algumas vezes, tentando se situar.
Estava na maternidade, no quarto.
Seus olhos deslizaram pelo ambiente até encontrarem uma figura de costas, parada junto à janela.
Heitor.
Helena levou as mãos ao rosto imediatamente, limpando as lágrimas com pressa, quase em pânico. Não queria que ele a visse assim. Não agora. Não depois de tudo. Inspirou fundo, segurou o ar nos pulmões, e soltou devagar, tentando se recompor.
Heitor ouviu o movimento e se virou.
Tinha Humberto nos braços.
O sorriso que se abriu no rosto dele era espontâneo e puro, o sorriso de um homem completamente rendido por sua mulher.
— Olha só quem resolveu acordar o Humbertinho… a mamãe — disse, olhando para o bebê enquanto se aproximava.
Mas quando ergueu o olhar para Helena, o sorriso morreu.
Os olhos inchados. O rosto ainda úmido. A expressão cansada, quebrada.
— Amor… — ele se aproximou rápido demais. — Você tá sentindo alguma coisa?
O olhar dele a percorria inteiro, atento, preocupado demais para disfarçar.
— Não… — Helena respondeu baixo. — Só tô feliz em ver vocês.
Ela não conseguiu sustentá‑lo nos olhos. Baixou o olhar direto para o bebê, como se ali estivesse o único lugar seguro.
— Posso segurar ele?
— Claro, amor — Heitor respondeu na mesma hora. — Ele é seu.
Quando Humberto passou para seus braços, algo em Helena se reorganizou por dentro. Mesmo em meio ao caos, o mundo ainda girava em torno daquele pequeno corpo quente.
— Oi, meu filho… — sussurrou, lutando para não chorar. — Eu disse que não ia demorar.
Beijou a testa dele com cuidado.
E então a lembrança veio cruel e invasiva.
Os lábios de Antônio.
O beijo.
O nojo.
O estômago se revirou, o peito ardeu. Como podia tocar o filho depois daquilo? Como podia encarar Heitor depois daquilo? Inclinou o corpo, protegendo Humberto, escondendo o rosto no cabelo macio dele, respirando fundo o cheiro do filho — tentando apagar qualquer vestígio do que não deveria ter acontecido.
— Helê… — a voz de Heitor veio baixa, controlada. — Ele tá bem. Trouxeram rapidinho. A polícia tá aqui, querem conversar com a gente… depois disso vamos ser transferidos pra outro hospital.
Enquanto falava, a mão dele subiu até o ombro de Helena.
Os dedos tocaram os roxos.
Helena se enrijeceu no mesmo instante.
Sentiu nojo de si mesma.
Como se o corpo não lhe pertencesse mais.
Afastou‑se do toque quase sem perceber.
— Amor? — a voz de Heitor saiu diferente, ferida. — Me desculpa… eu não devia ter saído do quarto aquela hora. Nunca imaginei que algo assim pudesse acontecer. A culpa foi minha…
A voz dele vacilou, apesar do esforço evidente para se manter firme.
— Eu devia estar aqui.
Helena lembrou da ameaça de Antônio. Do risco real de perder Heitor. Um frio percorreu sua espinha.
Ainda bem que ele não estava ali.
— Eu não queria que você estivesse aqui — disse, sem coragem de encará‑lo.
A respiração de Heitor falhou.
— Eu não sou fraco, Helena — ele respondeu, a voz se reorganizando à força. — Sei que naquele confronto eu levei a pior… mas eu sou totalmente capaz de proteger a minha família.
— Você é inconsequente — ela retrucou, a voz tremendo entre raiva e medo. — Sempre foi. Você não é o Superman. Você já brigou com ele uma vez e ficou mais de um mês hospitalizado, desacordado por dias! E agora pula na frente de um homem armado?
Ela respirou fundo, sentindo o peito queimar.
— O que você tem na cabeça? Se quer abandonar essa família, existem jeitos muito mais simples.
As palavras doeram nela antes mesmo de chegarem até ele.
— Eu nunca quis abandonar essa família — Heitor respondeu, incrédulo. — Nunca. Nem você, nem o nosso filho. Tudo que eu fiz foi por vocês.
Ele fez uma pausa curta, dolorida.
— Você não consegue nem me olhar nos olhos?
Não.
Helena não conseguia.
Já era difícil demais carregar tudo o que tinha acontecido. Não suportaria ver nos olhos dele a culpa que sentia, a vergonha, a sensação suja que não era dela — mas que parecia colada à sua pele.
Ela ouviu a respiração pesada dele.
— Acho que eu entendi o recado — disse, a voz magoada. — Vou falar com o policial… e com o advogado.
Ele apertou o botão da enfermeira, mas não saiu até que ela chegasse.
— Pode acompanhar a minha noiva, por favor? — pediu, contido. — Eu já volto.
— Claro, senhor Heitor.
Helena acompanhou com o olhar a silhueta dele se afastando. Viu apenas de relance o quanto o rosto dele estava ferido — não fisicamente, mas de um jeito muito mais profundo.
Não era culpa de Heitor.
Era dela.
Ela devia ter escutado desde o início. Não devia ter aceitado trabalhar com Antônio. Não devia ter ignorado os alertas. Antônio só estava tão convicto porque, sem querer, ela permitiu que ele criasse uma fantasia.
Uma fantasia sobre sentimentos que nunca existiram.
E agora, todos estavam pagando o preço.
— Helena, como você está se sentindo? — a enfermeira perguntou.
Helena demorou alguns segundos para responder. Quando finalmente ergueu o olhar, parecia que cada movimento custava esforço demais.
— Fraca.
A palavra saiu simples, honesta. Não havia energia para mais do que isso.
— Você perdeu uma quantidade considerável de sangue — explicou a enfermeira com calma. — Ainda está sentindo os efeitos do pós‑parto. Dois pontos se romperam, mas já refizemos a sutura. Aplicamos pomada nos hematomas e medicação para dor na veia. Pode ficar tranquila, nada disso interfere na amamentação.
Helena soltou o ar devagar, como se estivesse prendendo a respiração há horas.
— E o Heitor? — perguntou quase de imediato. — Vocês cuidaram dele?
— Fizemos um check‑up rápido — respondeu a enfermeira. — Apenas hematomas leves.
O sangue subiu no rosto de Helena.
— Não é verdade. — Ela se endireitou um pouco, ignorando a dor. — Ele pisou em vidro na sala. Os pés dele estavam machucados, sangrando. Pode pedir para alguém checar, por favor?
A enfermeira pareceu confusa.
— Ele não relatou nada… mas posso verificar novamente.
— Não precisam perguntar — Helena insistiu, a voz mais firme do que se sentia. — Vocês não viram as pegadas de sangue no chão? Aquilo não era meu sangue. Era dele. Pergunta pro Jonas… meu irmão. Ele viu.
— Vou tentar conversar com ele — disse a enfermeira com cuidado. — Mas não podemos obrigá‑lo a aceitar atendimento.
Helena virou o rosto, frustrada. Conhecia Heitor. Sabia que ele jamais reclamaria de dor naquele momento.
Antes que pudesse dizer qualquer outra coisa, Humberto começou a chorar.
O choro veio forte, urgente, rasgando o silêncio do quarto.
— Ei, meu amor… — Helena murmurou, inclinando‑se com dificuldade. — O que foi, filhinho?
Observou a boquinha pequena formar um biquinho antes de o choro aumentar ainda mais.
Checou a fralda. Estava limpa. Ofereceu o peito. Ele não quis.
O coração de Helena apertou.
— Ele tá quente… — disse, a voz embargada.
A enfermeira se aproximou, tocou o bebê com cuidado, pressionando suavemente a barriguinha.
— Está um pouco rígida. Provavelmente cólica.
Helena sentiu os olhos arderem.
— Vou preparar a banheirinha com água morna e fazer uma massagem — explicou a enfermeira. — Vai ajudar. Vou fazer aqui mesmo no quarto.
Helena assentiu, mas por dentro se sentia despedaçada.
O filho chorava nos braços de outra pessoa.
Ela estava fraca demais para levantá‑lo.
E Heitor não estava ali.
Quando a enfermeira levou Humberto até a banheira, Helena apenas observou, com o coração partido.
Uma péssima mãe.
Uma péssima noiva.
Levou a mão ao lábio e sentiu a náusea subir. O medo veio junto — pesado, sufocante. Heitor jamais a perdoaria se soubesse. Jamais.
A dor no peito se intensificou, constante, quase física.
Ela tinha destruído a melhor coisa que já havia construído: a família.
Era para aquele ser um dos momentos mais felizes da vida deles. O nascimento do filho. O começo de tudo.
Depois do banho morno, Humberto foi vestido e colocado no moisés ao lado da cama.
Helena ficou olhando para ele como se estivesse tentando memorizar cada detalhe, como se aquilo pudesse compensar tudo o que sentia.
A médica entrou, fez alguns exames básicos. Ana Flávia tentou puxar conversa, mas Helena não estava aberta. Não tinha espaço emocional para aquilo.
Então ouviram a batida na porta.
Heitor entrou.
— Desculpem a demora — disse, o olhar indo direto para Helena. Ela desviou. — A delegada e uma psicóloga estão aqui pra conversar com você. Não se esforce. Vou ficar na porta, qualquer coisa me chama, tá?
— Certo — respondeu seca.
— Está tudo bem por aqui?
— Sim — respondeu Ana Flávia. — A pressão da Helena está boa, e o Humberto também está bem.
— Senhor Heitor — a enfermeira interveio. — O senhor está sentindo alguma dor? Algum incômodo que não examinamos?
— Não. Estou ótimo — respondeu, frio.
— E os cortes nos seus pés? — Helena perguntou, finalmente erguendo o olhar para ele.
Heitor a encarou por um segundo longo demais.
— Ah… então agora eu mereço seu olhar? — disse, magoado, aproximando‑se. — Não se preocupa comigo. Eu tô ótimo.
— Eu vi os machucados — Helena insistiu. — Você devia deixar elas fazerem um curativo.
O maxilar dele se contraiu.
— Você acha que eu sou um bosta, né? Um fraco que não consegue ficar em pé pra proteger a própria família. Mas eu vou te provar que tá errada.
A médica e a enfermeira trocaram olhares, sem saber se deveriam sair.
— Eu acho você imprudente e inconsequente! — Helena rebateu, erguendo o rosto.
— Eu sou seu homem — Heitor respondeu, a voz firme, contida. — E sou o pai do seu filho. A minha vida não vale nada em comparação à de vocês, se for preciso sacrificá‑la por vocês, eu faço. Isso não me faz burro. Me faz alguém que ama mais do que a própria vida.
As palavras atingiram Helena em cheio.
Ela não conseguiu responder.
— Você disse que me amava — continuou ele, confuso, ferido. — Disse olhando a morte de frente. Então por que tá me tratando assim? Eu perdi o seu respeito como homem?
Ele respirou fundo.
— Você é o meu amor. Não lembra? “Sempre vai ser você, nessa vida, em todas que já vivi e nas que viverei.” Eu te amo, Helena.
Ela começou a chorar. Cobriu o rosto com as mãos, tentando conter algo que não tinha mais controle.
— Nos deixem — Heitor pediu.
Ouviu‑se a porta se fechar.
Ele se sentou ao lado da cama.
— Helê… eu te amo. Você é a minha maior preciosidade. Você passou por coisas demais hoje. Mas eu sou seu homem, seu companheiro, seu noivo. Eu tô aqui. Sempre. Não só quando tudo é bonito, mesmo eu tentando fazer com que seja sempre.
Ele segurou a mão dela, a outra subiu devagar para a coxa.
— Eu sei que você tá sofrendo. E eu quero te ajudar. Só… não me maltrata. Não me afasta. Eu tô com você até o fim.
Helena se desfez.
Abraçou‑o com força, como se fosse cair se soltasse.
— Me desculpa, Heitor… me desculpa mesmo — chorou. — Você me odeia?
Ele a apertou mais.
— Nunca, amor. Nunca. Isso nem existe dentro de mim.
Ela respirou fundo, o pânico crescendo.
— Eu vou te contar… — disse, a voz tremendo. — Mas promete que não vai deixar de me amar.
Heitor a acolheu ainda mais, beijou o topo da cabeça dela, apoiando o queixo ali.
— Nunca, Helena. Isso não é uma possibilidade.
Helena respirou fundo.
A vergonha pesava em seu peito como um bloco de concreto, mas mais forte do que a culpa era a necessidade de se libertar daquela dor. Precisava contar. Precisava tirar aquilo do peito, por mais difícil que fosse. Porque, como Heitor tinha dito, ele era seu parceiro. O homem dela. O companheiro de vida — nos dias bons e nos infernos também.
Ela inspirou com coragem.
— Quando o Antônio entrou no quarto… ele me empurrou na cama e tentou me beijar… — a voz dela falhou. Helena sentiu o corpo de Heitor enrijecer imediatamente. Como se cada músculo gritasse. — Eu tentei me defender… e consegui… mas ele ficou bravo. Muito bravo. E tentou alcançar o Humberto.
Ela fechou os olhos, lembrando da imagem do filho ali, vulnerável.
— Então… eu fiz a única coisa que consegui pensar. Eu o abracei. E o beijei. — a voz dela sumiu num sussurro.
Silêncio.
Helena se afastou devagar do peito de Heitor, com o coração martelando de pavor. Tinha medo do que veria em seu rosto. Medo que aquele fosse o momento em que ela perderia o homem que amava. O pai do seu filho.
Mas quando seus olhos encontraram os dele, Helena não viu repulsa. Viu dor. Viu raiva. Uma raiva tão profunda que parecia engolir tudo. E por trás dela… tristeza. Tanta tristeza.
— Aquele… desgraçado… — Heitor disse entre os dentes, a voz baixa, trêmula, carregada de ódio. — Ele tentou forçar você? Te machucou? Foi ele quem arrancou seus pontos? Os hematomas nos seus braços… foram dele?
Ele a puxou para um abraço apertado. Mas era um abraço diferente. Era proteção. Era desespero. Era amor puro.
— Amor… — ele sussurrou, com a voz falha — que inferno você viveu.
Helena fechou os olhos e apertou o abraço. Ainda doía. Mas agora, nos braços dele, a dor era dividida. E isso fazia tudo um pouco mais suportável.
— Eu disse pra ele que não podia… que tava no pós-parto. Seis semanas. Ele perguntou se podia só… ver. — ela engoliu em seco. — Eu me recusei. Ele disse que não ia me machucar. Mas quando falei… não lembro o quê… ele apertou meu braço. Forte. Depois me soltou. E... não, ele não consumou o ato. Fui eu quem o distraiu. Eu o beijei. E mais tarde… na escada… ele me beijou de novo. Contra a minha vontade. E eu… vomitei. Me senti suja. Um lixo.
Ela encolheu os ombros, como se estivesse envergonhada até dos próprios ossos.
— E eu deixei tudo chegar nesse ponto, Heitor. Eu que fui trabalhar com ele, achando que podia lidar. Que podia controlar. Mas você tinha razão. Sempre teve. Eu devia ter escutado você. Eu devia ter confiado mais em nós dois. Eu só… — ela respirou fundo, com a voz embargada — eu só quero você. Sempre foi só você.
Heitor afastou-se um pouco, segurando o rosto dela com as duas mãos, com os olhos cheios d’água.
— Olha pra mim, Helena. — a voz dele agora era firme, mas doce. — Nada disso foi culpa sua. Você não errou. Ele errou. Ele cometeu um crime. Você fez o que tinha que fazer pra proteger o nosso filho. Você foi corajosa. Você foi mãe. Você foi guerreira.
Ele roçou os polegares nas bochechas dela, enxugando as lágrimas que caíam em silêncio.
— E eu? Eu devia estar aqui. Eu devia ter te protegido. E eu juro pela vida do Humberto… isso nunca mais vai acontecer. Eu só vou deixar esse homem respirar, por agora..
— Não, Heitor… — ela disse assustada, segurando os punhos dele com força. — Eu não te quero preso. Não se põe em perigo por mim. Por favor…
Heitor suspirou e sorriu de lado, apesar do rosto tenso.
— Tá bom. Tá bom, amor. — ele assentiu, aliviando o peso das palavras. — Posso te beijar?
Helena mordeu o lábio, tentando conter o choro. Ela queria. Queria muito. Mas…
— Eu… eu me sinto nojenta, Heitor. Eu não quero que você me toque agora. Eu preciso… eu preciso tirar isso de mim. Preciso de um banho. Preciso me limpar. — ela olhou para o próprio corpo como se estivesse manchado.
— Helena… você é a mulher mais linda que eu já vi. Mesmo agora, com os olhos inchados, com dor, depois de ter dado à luz, depois de ter passado pelo inferno. E sabe o que eu sinto quando olho pra você?
Ela balançou a cabeça, em silêncio.
— Amor. E orgulho. Muito orgulho de ser seu homem. — ele sorriu de leve, mas os olhos continuavam marejados.
— Me dá um tempo, tá? Só um banho…
— Tudo bem. Mas deixa eu fazer uma coisa antes. — ele inclinou o rosto e deu um beijo leve na testa dela. Depois, na têmpora. Depois, na pontinha do nariz. E então, encostou os lábios nos dela num selinho lento e respeitoso.
Helena sentiu. O toque. O carinho. O amor que vinha daquele beijo.
Mas quando ele começou a querer aprofundar, ela se afastou levemente.
— Eu vomitei… preciso escovar os dentes antes.
Heitor riu baixinho. Aquele riso que aquecia o peito dela desde sempre.
— Tá bom, amor. Mas só porque você prometeu que é só por isso.
Ele afagou os cabelos dela, devagar, como se a acariciar fosse sua oração silenciosa. E os olhos dele, mesmo cansados, mesmo tristes, diziam a mesma coisa desde o primeiro dia:
“Eu tô aqui. E não vou embora.”
Escutaram uma batida na porta. Duas mulheres entraram, com expressão respeitosa e gentil.
— Lamento a intromissão — disse uma delas — mas podemos conversar um pouco com a Helena?
Heitor olhou para Helena antes de responder. Ela assentiu com um leve gesto de cabeça.
— Podem sim. Entrem.
As duas se acomodaram em cadeiras próximas à cama. Helena se ajeitou, e Heitor imediatamente a envolveu com o braço, permitindo que ela apoiasse o corpo em seu peito. Os dedos dele encontraram os dela e entrelaçaram com firmeza. Helena se sentiu segura. Ele estava ali. Ela não estava sozinha.
— Meu nome é Adriele — disse a mulher mais séria. — Sou a delegada responsável pela ocorrência de hoje. E antes de qualquer coisa, Helena, quero que saiba que você não tem obrigação nenhuma de relatar nada agora. Essa escolha é sua. E quero que tenha certeza de algo: você não fez nada errado. Nada disso foi culpa sua. Você está segura agora.
A psicóloga, com olhos suaves e voz baixa, continuou:
— Seu corpo passou por muita coisa em pouco tempo. Às vezes ele reage antes da mente entender. E tudo bem. Se sentir confusa, cansada ou quiser parar, é só nos avisar. Esse momento é seu.
Helena respirou fundo. Sentia o calor da palma de Heitor firme sobre sua cintura, a respiração dele constante atrás de si. Foi essa segurança que a sustentou. E então, entre pausas, lágrimas e lembranças fragmentadas, ela contou. Não foi linear. Não foi bonito. Vieram frases quebradas, lembranças confusas, pausas longas. Vieram o medo, a vergonha, o pânico de perder o filho, a necessidade desesperada de sobreviver. Cada palavra arrancada parecia levar um pedaço dela junto. Mas ela contou. Tudo o que conseguiu lembrar.
Quando terminou, ela estava exausta. Mas ao mesmo tempo, mais leve. As duas mulheres agradeceram pelo depoimento, disseram que estariam à disposição, e deixaram o quarto com discrição.
Assim que a porta se fechou, Heitor passou os braços ao redor dela, puxando-a para um abraço silencioso.
— Você foi muito corajosa — ele disse, a voz firme, ainda que rouca. — Eu tenho tanto orgulho de você, Helê.
— A nossa família está te esperando no novo hospital. Todo mundo preocupado com você.
Helena apenas fechou os olhos por alguns segundos. Depois de tudo o que viveram, ouvir isso dele era como um cobertor quente sobre um corpo febril.
— Heitor disse, baixo, quase como se não quisesse assustá‑la. — Mas, não precisamos os ver hoje.
Mais tarde, depois de muita insistência dela, Heitor finalmente deixou a enfermeira examinar os cortes nos pés. Ela fez curativos caprichados enquanto ele reclamava baixinho, com a expressão emburrada de um menino contrariado. Helena o observava e tentou não rir. O orgulho ferido era quase palpável. Helena não entendia totalmente aquele orgulho masculino, mas entendia o homem à sua frente.
— Você sabe que eu admiro você, né? — ela disse do nada, com ternura nos olhos. — Não só porque você é meu noivo… mas porque você salvou minha vida, Heitor. Você salvou a nossa família.
Ele parou de resmungar. Levantou os olhos para ela, surpreso. E sorriu. Um sorriso pequeno, mas verdadeiro. Era tudo o que ela queria ver.
Pouco depois, os três seguiram de ambulância para a nova maternidade. Helena estava com medo, mas Heitor, ao seu lado, não a soltava por um segundo sequer. Ele segurava sua mão com firmeza, a tranquilizava com palavras baixas no ouvido. Contou que a segurança havia sido dobrada e que Antônio estava preso. Disse que a perícia já estava em andamento e que a polícia acreditava que o supervisor do hospital também estava envolvido.
— E já está preso também. Vai responder por tudo. — ele completou.
No novo hospital, foram recebidos com cuidado. O quarto, embora não fosse tão luxuoso quanto o anterior — e Helena percebeu a irritação de Heitor por isso — ainda era bonito e confortável. A equipe de maternidade de luxo contratada por Heitor, já havia decorado o espaço com toques suaves e delicados. A decoração havia sido refeita com cuidado, diferente o bastante para não despertar lembranças ruins.
— Fizeram isso pra você — Heitor disse, olhando ao redor. — Pra que tudo fosse novo.
As pulseiras de segurança ali tinham um alcance maior, o que trouxe um pouco de alívio para ambos. Quando ela ouviu que os pais de Heitor estavam na delegacia, acompanhando os advogados, e que a indenização poderia ultrapassar oito dígitos, Helena nem soube o que sentir. Ainda mais ao saber que o Ministério Público e o CRM estavam investigando a maternidade, e que todos os responsáveis — inclusive o supervisor corrupto — estavam sendo processados.
— Não precisa se preocupar com nada — Heitor disse, sentando ao lado dela enquanto embalava Humberto nos braços. — Isso agora é com os advogados. Você só precisa focar em descansar… e curar.
Mas era difícil.
Helena ainda sentia o medo pulsando no peito. Sentia o cheiro da sala. O gosto da náusea. A dor dos roxos. A dúvida cruel dentro de si: será que algum dia voltaria a se sentir limpa?
Heitor, percebendo o silêncio dela, resolveu improvisar.
— Tudo bem se hoje a gente não receber visita. Mas então… acho que é a hora de você conhecer um talento oculto do seu noivo. — ele disse, sério, erguendo as sobrancelhas.
Helena arqueou uma sobrancelha, desconfiada.
— Medo do que vem aí.
— Teatro. — ele disse, batendo no peito com orgulho.
— Pior que o seu talento pra desenho?
— Bem pior. — ele respondeu rindo.
E então começou.
Heitor imitou personagens de filmes, criou vozes engraçadas, narrou uma versão dramatizada do nascimento de Humberto como se fosse um épico romano. Helena não sabia se ria, se chorava, ou se apenas o observava, com aquele sorriso bobo e apaixonado que parecia ter voltado.
Sim, o que viveram naquele dia não podia ser apagado. Nada daquilo seria esquecido.
Mas, de algum modo, ali estavam os três. Vivos. Juntos.
E naquela noite, pela primeira vez desde tudo acontecer, Helena acreditou em algo:
Eles iam ficar bem.
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