O CEO que Eu Paguei
52 Assinaram juntos. Mas não o mesmo papel
Notas iniciais
Heitor passava a mão devagar pelas costas dela, a ponta dos dedos traçando desenhos invisíveis enquanto olhava para o rosto de Helena. Ela estava com os olhos quase fechados, as bochechas ainda coradas. Foi então que ele perguntou, num tom calmo, quase íntimo demais:
— Como foi o seu dia?
Helena soltou uma risada baixa, sem abrir os olhos.
— Que pergunta besta, Heitor...
Ele a encarou por alguns segundos. Os olhos azuis, tão intensos mesmo na pouca luz da sala, estavam fixos nela. E, quando ele falou, foi como se nem ele tivesse se preparado para aquilo:
— Eu só queria saber se o mundo te tratou bem enquanto eu não estava lá pra fazer isso.
O silêncio caiu na sala como uma pedra na água.
Helena abriu os olhos devagar, encarando ele. O coração deu um tropeço, um nó na garganta. Mas antes que ela pudesse responder, Heitor coçou a nuca, olhou pro teto e murmurou:
— Foi mal. Falei merda.
— Não precisa se desculpar — ela disse, baixinho, quase com vergonha. — Foi... bonito.
Ele sorriu de canto, como se ainda não soubesse lidar com esse tipo de vulnerabilidade. Helena se aconchegou mais no peito dele e falou:
— Meu dia foi bom, mas... senti falta de você no escritório.
— Até daquele cara irritante que fica te provocando?
— Principalmente dele.
Heitor riu e passou a mão no cabelo dela.
— Fico feliz em saber que sou insuportável e querido ao mesmo tempo.
Ela deu um soquinho leve no ombro dele. Depois ficou em silêncio por alguns instantes, como quem pondera se deve falar ou não.
— Alguém gravou a gente na boate.
Heitor parou de acariciar por um segundo.
— Que parte?
— A hora que você brigou com o Fábio.
Ele arqueou a sobrancelha.
— Me manda esse vídeo depois. Quero ver de novo a cara daquele palhaço depois que eu acabei com ele. Ninguém encosta na minha mulher.
— Para, Heitor — ela falou, rolando os olhos, mas o coração apertou um pouquinho com aquele "minha mulher".
Ela respirou fundo.
— Eu tô falando sério. Muita gente viu. Gente da empresa. O vídeo tá rodando por aí. E...
Ele voltou a encará-la, atento.
— E?
— E isso é difícil pra mim. Eu me esforcei tanto pra ser reconhecida pelo meu trabalho, sabe? Mesmo sendo de uma terceirizada, eu me sentia vista e valorizada. Não quero virar piada ou ser só mais um boato de bastidor. — ela acariciou o peitoral dele — Eu quero continuar me sentindo valorizada.
Heitor ficou em silêncio por um momento, sério, os olhos abaixados como se digerisse cada palavra. Depois, falou devagar:
— Se isso é importante pra você... então eu vou tomar uma atitude.
Ela o olhou, surpresa.
— Que tipo de atitude?
— Não sei — ele coçou a barba. — Nunca fiz isso antes. Mas se é o que você quer... eu faço. Porque eu só quero ver você feliz.
Helena sorriu de canto, emocionada, e deitou de novo sobre o peito dele.
— É muito importante pra mim...
— Eu devia ter pensado mais nos seus sentimentos — ele falou, num tom firme. — Sou homem feito, maduro. Mas com você, às vezes, eu fico meio cego. É tudo tão intenso.
— Você pensou, do seu jeito. Mas agora eu preciso que você pense do meu jeito.
Heitor ficou em silêncio. O coração dele acelerou, mas a mente foi por outro caminho. Ele não estava pensando mais no vídeo, ou nos rumores. Ele já tinha ido além.
Ele então a olhou sério, ainda com a mão nas costas dela, o corpo relaxado mas o olhar atento.
— Então... se eu fizer isso — começou ele, a voz baixa, mas firme — você vai segurar a barra comigo?
Helena franziu o cenho.
— Claro que vou — respondeu, achando estranho o peso da pergunta, mas sem hesitar. — É só a gente ser discreto. Evitar dar motivo.
Heitor assentiu devagar, como se estivesse confirmando uma decisão interna.
— Não é só evitar, Helena. É entender o tamanho disso. Saber lidar com o que vem junto.
Ela o olhou nos olhos e respondeu convicta, acreditando que estavam falando sobre esconder o envolvimento dos dois:
— Eu sei lidar, Heitor. Não sou criança. Só preciso que você me ajude. Que não torne isso mais difícil.
Ele passou o polegar devagar pela lateral da cintura dela, sem tirar os olhos dos dela.
— Nunca vou deixar você passar por fofocas. Mas tem coisa que... eu não consigo esconder.
Ela interpretou como um risco de ele não conseguir disfarçar as coisas no escritório. E soltou um pequeno suspiro.
— Se você puder... só até tudo se acalmar. Eu agradeço.
Heitor soltou um riso baixo, olhando para a boca dela.
— Então tá. É assim que você quer?
Helena assentiu com um leve sorriso.
— Exatamente assim.
E ali, naquela troca de olhares e palavras ambíguas, os dois acharam que estavam em sintonia.
Mas não estavam.
Ele achava que ia assumir ela pro mundo.
Ela achava que ele ia guardar segredo.
E nenhum dos dois percebeu que estavam, sem saber, assinando dois pactos diferentes com as mesmas palavras.
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