O CEO que Eu Paguei
176 Aposta
Isaac saiu do banheiro com a toalha enrolada na cintura, o cabelo ainda pingando.
Assim que cruzou o quarto, parou seco.
— Jonas. — disse, cerrando os dentes. — Eu já falei pra você não entrar no meu quarto sem permissão.
Jonas estava reclinado na cadeira de massagem, de olhos fechados, só de calça de moletom e o sorriso mais relaxado do mundo.
— Eu sou o irmão mais velho, maninho. — respondeu preguiçosamente. — Você não tem direitos sobre mim, só deveres.
— O único dever que eu tenho — Isaac respondeu, pegando a toalha de rosto — é te expulsar daqui antes que estrague o couro dessa cadeira.
Jonas abriu um olho, ofendido.
— Tô só sem camisa, não sou um porco. Eu sei das coisas.
— Você não sabe o que é limite. — resmungou Isaac, passando a toalha no cabelo. Depois ligou o secador, soprando o barulho quente no ar.
Jonas esperou um pouco, impaciente, até o som cessar.
— Você não sabe o que eu descobri. — disse, com aquele tom conspiratório.
— Nem quero. — respondeu Isaac, seco. — Ao invés de pagar de detetive, você podia ter ido pro hospital apoiar a Helena.
Jonas virou o rosto, de maneira teatral.
— Eu fui fazer algo útil, tá? Porque desde que o Heitor foi pro quarto, a Helena não sai mais de lá. — levantou a sobrancelha. — E é por isso que você tá aqui em casa, não é?
Isaac franziu o cenho, mas não respondeu. O silêncio foi resposta suficiente.
Jonas sorriu, vitorioso. Irritar Isaac era seu segundo hobbie favorito.
— Viu? As mulheres são assim, mano. Elas usam a gente e depois descartam feito lixo.
Isaac se virou, encarando ele com firmeza.
— Helena é namorada do Heitor, gênio. É óbvio que ela vai ficar com ele.
— É verdade. — Jonas admitiu, com um aceno displicente. — Mas quando foi que o meu irmãozinho cresceu tanto e parou de ser um chorão?
Isaac bufou, abriu a gaveta e tirou uma cueca.
— O chorão sempre foi você.
Jonas arregalou os olhos quando Isaac deixou a toalha cair pra se trocar.
— Puta merda, Isaac! — disse, tampando o rosto. — Que falta de respeito é essa? ninguém quer ver essa bunda murcha branca logo cedo!
Isaac vestiu a cueca sem se abalar.
— Eu não te convidei pra entrar, problema é seu.
Jonas bufou, levantando-se da cadeira de massagem.
— Tá, tá. Mas escuta aqui, você quer saber ou não do que eu descobri?
— Não. — respondeu Isaac, calmo, pegando o short e vestindo.
Jonas cruzou os braços, ofendido.
— Que isso, cara? Eu venho trazer informação de ouro e você me ignora?
— Jonas, você é o tipo de pessoa que traz “informação de ouro” e depois explode o prédio junto. — retrucou Isaac, amarrando o cordão do short. — Então não, eu realmente não quero saber.
Jonas o seguiu até o armário, insistente.
— Mas é sério, isso muda tudo! Você nem vai levar a palavra do seu irmão em consideração?
Isaac fechou a porta do armário, o olhar frio.
— A palavra do meu irmão nunca vem sozinha. Vem com confusão, com drama, e às vezes com problemas para mim.
Jonas abriu um sorriso debochado.
— Aí é que tá, meu caro… dessa vez vem só com caos controlado.
Isaac suspirou, apoiando as mãos na cintura.
— E lá vamos nós. — murmurou. — Tá bom, fala logo antes que eu me arrependa.
Jonas sorriu largo, sentindo o ego inflar.
— Então se prepara, porque o seu mano aqui virou herói de bastidores.
Isaac levantou uma sobrancelha, desconfiado e se sentou na cama.
— Isso nunca termina bem.
Jonas piscou, com a confiança de quem tinha acabado de se meter em algo enorme.
— Dessa vez termina, irmãozinho. E vai ser histórico.
Isaac ainda estava sentado na cama, o cabelo meio bagunçado do secador, quando Jonas levantou o celular e balançou no ar, com um sorriso de quem acabara de salvar o mundo.
— Olha isso, maninho. A matéria que EU corrigi. Já viralizou. — ele disse, inflando o peito. — “Helena Campos: força, lealdade e o amor que virou alvo.” Tá vendo? Um clássico instantâneo.
Isaac o olhou por cima do ombro, desconfiado.
— Você? Corrigiu? — pegou o celular da mão do irmão.
Leu em silêncio por alguns segundos e… riu.
— É mentira. Você não tem capacidade pra escrever uma vírgula sem errar o sujeito.
Jonas bufou, ofendido.
— Eu posso não ser um Shakespeare, mas sou o autor do século. Foi eu, cara! O herói do dia! O defensor da honra da Helena.
Isaac continuava rindo, balançando a cabeça.
— Olha, quem quer que tenha escrito isso merece um prêmio. Finalmente alguém publicou algo decente sobre a Helena.
Jonas cruzou os braços, irritado.
— Eu que escrevi! — insistiu. — É por isso que o Homem de Ferro faz questão que todo mundo saiba que ele é o Tony Stark. Do que adianta salvar o mundo sem os holofotes, me diz?
Isaac puxou o próprio celular da escrivaninha.
Jonas arqueou a sobrancelha.
— O que você tá fazendo?
— Compartilhando a matéria. — respondeu Isaac. — E pedindo pros meus amigos fazerem o mesmo.
Jonas abriu um sorrisinho satisfeito.
— Fico feliz que o meu trabalho tá sendo reconhecido. — deu uma piscada. — Mas, calma… tem mais.
Ele se sentou ao lado do irmão, animado, deslizando o dedo na tela.
— Descobri que a Redação Brasil Livre tá trabalhando contra a Helena. Tem um cara sinistro lá, passando informação pro Fortenelle. Aquele mesmo da entrevista ridícula.
Isaac parou de rir, o rosto ficando sério.
— Como você conseguiu isso?
Jonas exibiu o sorriso convencido de sempre.
— Eu tenho os meus métodos. — disse, satisfeito.
Isaac pegou o celular do irmão e começou a rolar a tela, lendo em silêncio.
— “GhostScan”? — leu em voz alta. — Esse é o nome do detetive virtual que contrataram?
— Aham. — confirmou Jonas, empolgado. — O cara é brabo. Eu nem sei se tudo é verdade, mas ele mandou um monte de coisa.
Isaac continuou lendo, franzindo o cenho.
— “Lorena Ribeiro”… — repetiu, e de repente abriu um sorrisinho divertido. — Que coincidência. A mãe da Helena tem o mesmo nome da nossa. Sempre soube que tínhamos muito em comum.
Jonas não perdeu o timing.
— Pois é. E segundo o cara, a mãe dela era da roça, tinha 15 anos quando engravidou. O gambé não perdeu tempo. — soltou, rindo.
Isaac riu junto, empurrando o ombro do irmão.
— Cala a boca, seu burro.
Mas continuou lendo, curioso.
— Depois que a Helena nasceu, a mãe fugiu da cidade. Sumiu. O nome Lorena Ribeiro é comum, então não acharam mais nada.
Jonas fez cara de mistério.
— Sinistro, né? Podia até ser a nossa mãe.
Isaac virou o rosto devagar.
— Como assim?
Jonas estendeu as mãos, teatralmente.
— Pensa comigo: se a nossa mãe tivesse engravidado da Helena nessa idade… dava tempo de conhecer o pai depois.
Isaac caiu na risada.
— Impossível. A mamãe nunca comentou nada, e se a gente tivesse uma irmã perdida, a família toda saberia.
Jonas ergueu as sobrancelhas.
— É, talvez… mas vai dizer que não é uma boa teoria?
— Não é. — respondeu Isaac, firme. — Para de teoria da conspiração.
Jonas fingiu concordar, mas notou o jeito como o irmão coçava o queixo, pensativo.
E foi aí que ele resolveu se divertir.
— Pensa bem, cara. A gente nunca conheceu a família da mamãe. — provocou. — E se ela tivesse fugido de Minas pra recomeçar no Rio?
Isaac respirou fundo, visivelmente incomodado.
— Eles expulsaram ela de casa, Jonas. Eu não quero contato com gente assim.
— Tá, mas ela era empregada, lembra? — insistiu. — Sem berço herdado, sem sobrenome pomposo. Imagina se ela fugiu e recomeçou tudo aqui.
Isaac ficou quieto. O olhar perdido por um instante.
— Seria impossível. — disse, num tom mais baixo. — A mamãe nunca abandonaria uma criança.
Jonas apoiou o cotovelo no joelho, todo fingindo seriedade.
— Vai ver ela era pobre demais e planejava buscar a criança depois.
— Então por que não buscou? — rebateu Isaac, confuso.
Jonas deu de ombros.
— Vergonha do pai. Vai saber.
Isaac bufou, mas a risada saiu forçada.
— Aí sua história cai, gênio. O papai nunca viraria as costas pra ninguém.
Jonas percebeu que estava perdendo terreno.
— Só tem um jeito de saber. — disse, dramático. — Ver o documento da mamãe. Descobrir onde ela nasceu.
Isaac engoliu seco, desconfortável. Jonas sabia que só tinha um jeito de levar essa histórinha para frente e plantar uma dúvida mortal no irmão.
Jonas abriu um sorriso provocador e estendeu a mão.
— Bora fazer uma aposta?
Isaac cruzou os braços.
— Lá vem.
Jonas, fingindo seriedade:
— Se eu estiver errado, eu confesso pra mamãe que fui eu quem quebrou o vaso da esposa do diplomata britânico.
Isaac arregalou os olhos.
— Você… admitiria isso?
Jonas deu um meio sorriso.
— Claro. Mas não vai precisar. Porque eu tô certo. Helena é a nossa irmã perdida.
O silêncio caiu pesado. Isaac o encarava, tentando entender até onde ia a piada. Jonas parecia sério demais.
Isaac sabia que o irmão jamais confessaria aquilo — não sem ter certeza absoluta de algo.
Mas… e se?
Jonas percebeu a dúvida e saboreou o momento.
— E aí, topa ou vai amarelar?
Isaac respirou fundo, tentando manter a calma.
O orgulho e a lógica brigavam dentro dele.
Não teria como Jonas estar certo, mas ele queria muito que Jonas confessasse sobre o vaso, a mãe deles ficaria uma fera.
Ele tinha que fingir que caiu nessa e apostar algo irresistível para Jonas.
Então sorriu de canto e estendeu a mão.
— Beleza. Se eu perder, eu digo publicamente que você é o irmão mais bonito e brilhante da família.
Jonas arregalou os olhos, depois riu alto.
— Você? Dizendo isso? Eu até quero ver.
— Não se preocupe. — Isaac respondeu, firme. — Isso nunca vai acontecer.
Jonas sorriu de orelha a orelha, satisfeito.
— Então fechou.
— Fechou. — Isaac confirmou, apertando a mão do irmão.
Jonas se levantou, confiante.
— A caixa secreta da mamãe tá no quarto dela. Ela guarda tudo lá.
— Como é que você sabe disso? — perguntou Isaac, desconfiado.
Jonas deu aquele sorriso maroto.
— Quando eu era moleque, adorava mexer nas coisas dela. Um dia eu achei e ela ficou muito brava.
Ela não apenas ficou brava, repreendeu Jonas severamente, mas mesmo assim, ele voltou lá para mexer na caixa novamente, porém a mãe tinha colocado uma tranca. E aí que estava sua vitória, a caixa estaria trancada e ele não poderia ser desmentido.
Seria ótimo deixar Isaac perturbado, sem saber se era verdade ou não, ainda mais porque ele não ia ter as caras de perguntar a mãe.
Eles saíram do quarto. O corredor silencioso da mansão dos Medeiros ecoava os passos dos dois.
Isaac ainda estava dividido entre rir e socar o irmão. Mas, ele tinha que se segurar para a sua vitória.
— Onde a mamãe tá agora? — perguntou.
— No spa com uma amiga. — respondeu Jonas, casual. — A gente tem tempo pra provar que eu tô certo.
Isaac revirou os olhos, resmungando:
— Você é um puto.
Jonas apenas sorriu, satisfeito.
— De luxo. Mas você me ama. E logo vai me dar razão.
E seguiu em direção ao quarto da mãe, já planejando como ia fazer o irmão perder o juízo antes mesmo de perder a aposta.
O quarto dos pais estava em silêncio absoluto, perfumado com o cheiro suave de lavanda.
Jonas entrou primeiro, com aquele andar confiante de quem achava que controlava o jogo.
Isaac veio logo atrás, de braços cruzados, o olhar desconfiado.
— Tem certeza que quer continuar com essa palhaçada? — ele perguntou, cético, mas curioso.
— Confiança é tudo, irmãozinho. — respondeu Jonas, piscando. — Presta atenção e aprende como se faz história.
Ele atravessou o quarto e seguiu até o quarto do closet, seguiu pelo corredor e se abaixou diante das prateleiras mais baixas.
Sabia exatamente onde procurar.
A caixa de madeira escura com fecho dourado — o cofre das lembranças da mãe.
Quando puxou, o coração dele parou.
A tampa estava sem o cadeado, esse estava apoiado ao lado.
Jonas congelou, os olhos arregalados. “Droga…”
Isaac arqueou uma sobrancelha, notando a mudança de expressão.
— O que foi? Cadê toda aquela confiança?
Jonas respirou fundo, tentando recuperar o controle da situação.
— Acho que é melhor a gente não confirmar nada, sabe? — disse rápido, levantando-se. — As coisas podem ficar… estranhas depois disso.
Isaac abriu um sorriso vitorioso.
— Eu sabia que era mentira. Já posso ver a mamãe brava com você. Brava como nunca esteve.
— Isaac, sério, não mexe…
Mas Isaac já estava passando por ele.
Quando esticou a mão pra pegar a caixa, Jonas foi mais rápido, agarrou e disparou pelo closet.
— Ei! — gritou Isaac, correndo atrás.
Os dois trombaram nas roupas penduradas, quase derrubaram um espelho. Jonas era mais forte, mas Isaac tinha vantagem na altura, conseguiu alcançar a caixa e puxou com força.
Jonas soltou um palavrão quando o irmão escapou com ela.
— Isaac! — bradou, furioso.
Isaac saiu rindo, correndo pelo quarto.
— Aposta é aposta, Jonas! E adivinha só quem vai contar pra mamãe sobre o vaso do diplomata?
— Para com isso, caramba! — Jonas bateu na porta do banheiro quando Isaac entrou e trancou. — Abre essa droga, Isaac!
Do outro lado, dava pra ouvir o som abafado da risada.
— Relaxa, cara! Eu só vou dar uma olhadinha!
— Isaac! — Jonas socou a porta. — Isso não é brincadeira!
Silêncio por um instante.
Depois, o som suave da tampa sendo levantada.
Isaac estava com um sorriso largo no rosto, pronto pra debochar.
Mas o sorriso foi morrendo aos poucos.
Dentro da caixa, havia envelopes envelhecidos, fotos antigas e pequenos objetos que cheiravam a tempo e segredo.
Ele pegou uma fotografia e congelou.
A mulher da imagem, de cabelos escuros, sorriso tímido, sardas no nariz e nas maçãs do rosto, olhos cor de mel — era a cópia exata da Helena.
Não parecida. Idêntica.
E aquela não era ninguém e ninguém que a mãe dele.
O coração de Isaac deu um pulo dentro do peito.
As mãos dele tremiam enquanto revirava a caixa, procurando explicações.
Encontrou uma carteira de identidade antiga, já amarelada. Leu as informações da mãe e estava lá“natural de Minas Gerais.”
A respiração dele ficou pesada.
Isaac mexeu mais.
Fotos e mais fotos.
Sua mãe, mais jovem, de uniforme escolar, o mesmo olhar que ele via em Jonas e o mesmo de Helena .
Cada imagem parecia confundir o cérebro — como se duas pessoas existissem no mesmo rosto, com poucos detalhes de diferença.
Então algo chamou sua atenção: uma fotografia rasgada ao meio, dobrada. Na parte inteira viu sua mãe, adolescente, sorrindo, com o cabelo preso num rabo de cavalo, segurando uma latinha de Fanta, parecia que ela estava abraçando alguém e um braço grande passava pela cintura dela.
Com cuidado, ele desdobrou a segunda metade.
Ao lado dela, um homem alto, moreno da cor da Helena, com um óculos de aviador pendurado na gola da camisa.
O sangue de Isaac gelou.
Ele deixou a foto escorregar um pouco entre os dedos e puxou o último item no fundo da caixa: uma pulseirinha de maternidade antiga, a fita já amarelada.
As letras desbotadas ainda eram legíveis:
LORENA RIBEIRO
RN: HELENA RIBEIRO CAMPOS
07.01.96
SEXO: FEMININO
Registro: RN- 070195-0018
O ar saiu dos pulmões dele devagar.
O banheiro pareceu encolher.
Do outro lado da porta, Jonas batia com impaciência.
— Isaac! Abre logo isso, cara!
Isaac continuava parado, olhando pra pulseirinha entre os dedos, o coração disparado.
O som da voz do irmão parecia distante, abafado.
Pela primeira vez em muito tempo, Isaac não sabia se Jonas tinha se esforçado muito na brincadeira… ou se, de algum jeito, tinha acabado de dizer a verdade.
Jonas estava do outro lado da porta, batendo e resmungando, o tom cada vez mais desesperado.
— Isaac! Abre essa porcaria logo! Eu juro que vou te matar se contar pra mamãe do vaso! Ela vai te enterrar comigo.
Nada. Silêncio.
— Mano, fala alguma coisa! Eu tô falando sério, eu…
A porta se abriu de repente.
Isaac apareceu parado no batente, o olhar escuro, respirando pesado. O rosto dele estava pálido, e o jeito como segurava a caixa nas mãos fez Jonas recuar um passo.
— Como você inventou isso, Jonas? — a voz dele era tensa, quase um rosnado. — Como?
— Inventei o quê? — Jonas piscou, confuso.
Isaac ergueu a pulseirinha de maternidade. A fitinha amarelada tremia entre os dedos dele.
Jonas arregalou os olhos, e o sorriso foi se abrindo devagar, largo e triunfante.
— EU DISSE! — gritou, com euforia. — Eu disse que eu tô sempre certo! Eu tô certo, Isaac! Vai ter que admitir, seu cético de mer—
O sorriso congelou.
Ele piscou.
— Pera aí. Eu tô certo? … Como assim eu tô certo?
Isaac não respondeu.
Jonas pegou a pulseirinha, leu o nome com as letras desbotadas e prendeu a respiração.
— Puta merda… — murmurou. — A Helena é realmente nossa irmã.
Jonas piscou algumas vezes, sem reação. A boca se abriu, fechou, abriu de novo.
— Irmã… tipo… irmã de verdade? — ele murmurou, apontando pra pulseirinha.
— Mesma mãe. — Isaac confirmou, um sorriso pequeno escapando. — Cara… a Helena é nossa irmã.
O rosto dele se iluminou de um jeito quase infantil. Um riso nervoso escapou.
— Isso é loucura. — ele passou a mão no cabelo. — Eu sempre senti uma conexão com ela. Agora faz sentido.
Isaac parecia feliz. Era absurdo, mas fazia sentido, Helena era o tipo de pessoa que ele admirava profundamente, e agora ela era família.
— Cara, isso é… — ele riu, incrédulo — isso é maravilhoso!
Isaac, ainda sorrindo:
— Ela é nossa irmã, Jonas! A gente tem uma irmã, cara! Uma irmã de verdade! E ela é tão maneira!
Jonas se sentou ao lado dele, a caixa entre os dois. Começou a mexer nas fotos, ainda sem acreditar.
— Porra… — ele disse, olhando uma das imagens. — A Helena é a nossa mãe. Só que de outra cor. Olhas essas fotos, são quase idênticas.
Isaac riu, um som nervoso e seco.
— É verdade. Eu sempre tive a sensação de que já a conhecia.
Passou a mão no rosto.
— Claro. Ela é a cópia escarrada da nossa mãe.
Jonas assentiu, olhando de novo a pulseirinha.
— Deve ser por isso que a mamãe anda tão curiosa sobre ela. — levantou os olhos. — Será que o pai sabe?
Isaac ficou em silêncio. E de repente o olhar dele mudou — como se algo finalmente fizesse sentido.
— É por isso… — murmurou. — É por isso que o papai tá tão sério com as mentiras sobre ela. Ele sabe.
Jonas balançou a cabeça, incrédulo.
— Não, não. Isso não faz sentido. Se ele soubesse há muito tempo, teria falado. Deve ter descoberto por agora.
Ele percebeu que Isaac estava olhando fixo pro nada e o sacudiu pelos ombros.
— Ei, cara, fica firme! Não desmaia, não!
Isaac piscou, tentando se recompor.
— É por isso que ele gosta tanto dela… — disse, atordoado. — O que é estranho, porque ele nem gosta tanto assim de você.
Jonas arregalou os olhos.
— Como é que é?
Isaac levantou o olhar, um meio sorriso.
— E agora a mais velha é a Helena, não você.
— Nem ferrando! — Jonas levantou de supetão. — Eu não vou ser o filho do meio! A data tá meio apagada, pode ser outro ano!
— Jonas… — Isaac suspirou. — Não seja burro. Ela é a mais velha, cara.
Jonas ficou imóvel por um segundo, depois exclamou alto:
— Porra! O Heitor comeu a nossa irmã!
Isaac levou as mãos ao rosto, horrorizado.
— Cara… é verdade.
— É por isso que eu sempre digo, Isaac! — Jonas gesticulava, andando de um lado pro outro. — Não dá pra chamar ninguém de “irmão” sem ser de verdade. Olha aí o resultado! Primeira oportunidade que o Heitor teve, pegou a nossa irmã!
— Jonas, pelo amor de Deus, para de falar isso! — Isaac o interrompeu, a voz sufocada entre choque e vergonha.
— Eu não posso admitir isso, Isaac! — Jonas falava alto demais, a mão nos cabelos, andando como um leão enjaulado. — O Heitor fez isso com a gente! Com a família!
— É tarde demais… — murmurou Isaac, se recostando na cama. — A Helena tá até grávida.
Jonas virou devagar, como se as palavras tivessem acabado de atingi-lo.
O rosto dele endureceu.
— Então é isso. — disse, com firmeza. — A gente vai ter que conversar de homem pra homem com o Heitor.
Isaac levantou a cabeça, alarmado.
— Jonas, não…
— Isso aqui não é bagunça! — ele gritou, pegando a caixa nas mãos como se fosse uma prova de crime. — Como ele se atreve a sacanear com a gente desse jeito?! Sacanear comigo! O cara que mais admira ele!
Jonas parou no meio do quarto com uma expressão que misturava choque, ofensa pessoal e um leve ar de drama teatral.
A pulseirinha da maternidade balançava entre os dedos dele como uma bomba prestes a explodir.
— Isaac… — ele começou, com a voz grave — …me explica como é que um gambé de quinta categoria come a nossa mãe quando ela tinha quinze anos e, vinte e tantos anos depois, o “filho postiço” da casa resolve comer a nossa irmã?
Isaac levantou os olhos devagar, com aquela paciência de quem já sabia que viria confusão.
— Jonas, pelo amor de Deus… não fala assim.
— Como assim, “não fala assim”? — Jonas abriu os braços. — Você tem noção do currículo da nossa família agora? A mãe foi abusada por um policial, a filha perdida dela com o afilhado! Se isso não é um caso de novela das nove, eu não sei o que é!
Isaac esfregou o rosto.
— Cara, o Heitor não sabia.
— Ah, claro que não! — Jonas deu um passo pra trás, teatral. — Porque o Heitor é puro, o Heitor é santo, o Heitor é o homem de ouro!
Ele riu sem humor.
— O cara come na nossa casa desde os 12 anos, e agora tá literalmente… comendo dentro da família.
Ele esfregou a mão com força pelo rosto e respirou fundo.
— Então… — Jonas começou, fazendo um gesto vago com a mão. — Só pra recapitular aqui e ver se eu entendi direito: o cara que a gente chama de irmão, o Heitor, aquele mesmo que a mamãe dizia ser o “filho do coração dela”… tá pegando a Helena. A Helena que, por acaso, é nossa irmã.
Isaac fechou os olhos, suspirando.
— Meia-irmã.
— Ah, desculpa! — Jonas ergueu as mãos, indignado. — Isso muda tudo, claro! Que bom saber que é só meia!
Isaac começou a rir, balançando a cabeça.
— Jonas, pelo amor de Deus, para.
— Não dá pra parar! — Jonas apontou pra pulseirinha como se fosse prova de crime. — Isso aqui é evidência! Isso é o tipo de coisa que destrói famílias!
— Acho que o papai sabe, tá tudo bem. Eles devem ter os motivos para não nos contarem.
Jonas olhou pra ele, sem paciência.
— Isaac, o Heitor COMEU a nossa irmã. Você ainda não entendeu isso?
Isaac tentou não rir, mas não conseguiu.
— Cara, não fala assim!
— Como você quer que eu fale?! — Jonas gesticulava como um apresentador de talk show. — “Ah, ele apenas compartilhou um jantar espiritual com o DNA da nossa mãe”?
Isaac começou a gargalhar.
— Você é doente.
— Eu sou o único são aqui! — Jonas retrucou. — Pensa: o cara foi praticamente criado com a gente, mamãe fazia panqueca pra ele, chamava de filho… e agora o que ele faz? Come a irmã adotiva!
Isaac, rindo, tentou argumentar:
— Ele não é adotado. É só amigo da família.
— Ah, ótimo! — Jonas rebateu, batendo palmas. — Isso deixa tudo melhor! Vou mandar flores pro casal: “Parabéns pelo meio incesto!”
Isaac encostou na cabeceira, ainda rindo.
— Você precisa de terapia.
Jonas jogou o corpo na poltrona, bufando.
— Eu preciso é de um exorcismo depois dessa merda.
— Acho que precisa mesmo.
Os dois ficaram em silêncio por uns segundos.
Isaac respirou fundo, tentando voltar ao tom sério.
— Jonas, olha… o Heitor não é o vilão aqui.
Jonas olhou pra ele, incrédulo.
— Não é o vilão? Olha só o que ele fez! Com a MINHA irmã.
— É, mas quem tá tentando ferrar com ela são os Fortenelle. — Isaac cruzou os braços. — E se o Heitor não tivesse do lado dela, ela já tava destruída.
Jonas ficou em silêncio por um momento, coçando o queixo, como se o raciocínio começasse a fazer sentido.
— Tá… — disse por fim. — Mas ainda é esquisito, Isaac. É tipo… ver o Heitor e a Helena juntos é como ver um dos Vingadores namorando a própria sidekick.
Isaac deu uma risada curta.
— Jonas, você precisa parar de pensar nisso.
— Eu tô tentando! — Jonas jogou as mãos pro alto. — Mas toda vez que olho pra ele, só consigo lembrar que o “irmão mais velho modelo” engravidou a nossa irmã.
Ele se inclinou pra frente, falando num tom conspiratório.
— E o pior é que o desgraçado ainda deve ser bom nisso.
Isaac arregalou os olhos.
— Como é que você sabe disso?!
Jonas piscou.
— A gente já saiu em encontros duplos, a minha garota sempre queria ir para o quarto que ele tava com a outra.
Isaac soltou uma gargalhada e jogou uma almofada nele.
— Você é um pau no cu mesmo.
Jonas desviou, rindo também.
— Só se for no seu cu, seu mané. Mas pelo menos eu não tô fingindo que tá tudo normal.
Isaac respirou fundo, se controlando.
— Olha… eu também achei bizarro. Mas se tem alguém que eu confio pra cuidar da Helena, é o Heitor. Ele é o único que não tá tentando usá-la pra nada.
Jonas ficou quieto por um instante. O sarcasmo dele deu lugar a um resmungo mais baixo.
— É… eu sei.
Ele ajeitou o cabelo, tentando disfarçar o desconforto.
— Só que dói, sabe? A gente confiava nele. Ele era o cara que eu queria ser. E agora é o cara que… tá com a minha irmã. Isso mexe com o ego de qualquer um.
Isaac sorriu de lado.
— Você tá com ciúmes, Jonas? Agora não é mais o Medeiros favorito do Heitor.
— Eu? Com ciúmes? — Jonas fez um gesto indignado. — Claro que não! Eu só tô tentando entender como é que o mundo virou essa palhaçada.
Ele apontou pro irmão.
— E se ele machucar ela, Isaac…
— Ele não vai.
— Eu sei. — Jonas suspirou, olhando pro teto. — Mas se machucar, eu quebro a cara dele mesmo assim. Porque é o que irmãos fazem.
Isaac deu uma risada curta, sincera.
— Aí sim, é o Jonas que eu conheço.
Jonas abriu um meio sorriso convencido.
— O único, o original.
Isaac levantou da cama, batendo no ombro dele.
— Agora vamos guardar essa caixa antes que a mamãe descubra que a gente tava fuçando nas coisas dela.
Jonas olhou pra caixa, depois pra pulseirinha.
— É… melhor.
Ele fez uma pausa, depois completou com aquele tom debochado:
— Mas vou te dizer uma coisa… o Heitor vai me ouvir.
Isaac começou a rir de novo.
— Você é terrível.
— Não. — Jonas ajeitou o cabelo, convencido. — Eu sou inesquecível. E, aparentemente, irmão de todo mundo agora.
Os dois ficaram em silêncio por alguns segundos, até Jonas murmurar:
— Mas… o Heitor é um bom cara, né?
Isaac assentiu.
— É.
Jonas suspirou alto.
— Merda. Isso deixa tudo pior.
Isaac riu.
— Por quê?
Jonas olhou pra ele, sério.
— Porque agora a gente vai ter que aceitar que o cara que a gente chamava de irmão virou nosso cunhado.
Isaac deu um risinho.
— E pai da nossa sobrinha.
Jonas fechou os olhos, respirando fundo.
— Ah, ótimo. Família Medeiros-Monteiro. Parece nome de firma de advocacia.
Isaac gargalhou.
— Bem-vindo ao Brasil, irmão.
Jonas bufou, mas acabou rindo também.
— Jonas, você não acha que a gente se desviou do grande Q da questão dessa história?
— É claro que não! — ele abre um sorriso largo — O grande Q da questão é que eu sou o irmão mais bonito e brilhante da família. E você vai ter que admitir isso.
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