O CEO que Eu Paguei

152 Agora Somos Três


Heitor estava tão eufórico que Helena achou melhor não arriscar: chamaram o motorista e seguiram para a clínica. No carro, ele não conseguia esconder o sorriso que tomava conta do rosto. Olhava pela janela, depois para ela, depois para o próprio reflexo no vidro e ria sozinho, incrédulo e feliz.

Às vezes passava a mão pelo rosto, como se quisesse checar se estava acordado mesmo, e quando os olhos azuis encontravam os dela, brilhando daquele jeito apaixonado, Helena corava toda.

A clínica não ficava longe, era ali mesmo no Leblon. A fachada era elegante, moderna, com letras douradas sobre mármore branco e os nomes de quatro médicos especialistas gravados ao lado da entrada. Por dentro, o ambiente transmitia calma: decoração clean, sofás aconchegantes em tons claros, quadros abstratos, e lustres circulares que lançavam uma luz suave.

Na recepção, foram recebidos por uma secretária sorridente que se levantou imediatamente ao vê-los.

— Oi, Helena! — disse, apertando a mão dela com simpatia, e em seguida a puxando para um abraço caloroso. — Seja bem-vinda à nossa clínica.

Helena sorriu sem jeito, mas retribuiu o abraço. A secretária então olhou para Heitor, que estava de mãos dadas com Helena, e abriu um sorriso ainda maior:

— E seja muito bem-vindo também o senhor seu marido.

Se Helena achava que o semblante dele não poderia se iluminar mais, estava enganada. O rosto de Heitor brilhou como se tivesse ouvido a melhor música do mundo. Ele apertou a mão da secretária com firmeza e respondeu, encantado:

— Muito obrigado.

Helena revirou os olhos, mas o canto da boca denunciava um sorriso tímido. “Marido”, até parece.

— A doutora já está vindo atender vocês. Fiquem à vontade — indicou uma pequena área com mesinhas baixas, jarros de suco natural e uma bandeja cheia de biscoitinhos amanteigados. — Temos água, sucos naturais e alguns lanchinhos. Querem algo?

— Vou aceitar só um pouquinho — disse Helena, já seguindo até a mesa.

Os biscoitinhos estavam macios, desmanchando na boca, e antes que percebesse já havia comido três. Heitor, ao lado, abriu uma garrafa de vidro com água e a observou com uma expressão divertida.

— Isso mesmo, amor. Come bastante. Quero que o nosso bebê venha bem forte.

Helena engasgou com um riso nervoso, corando até a raiz dos cabelos.

— Cala a boca, Monteiro. — pegou mais um biscoitinho e mordeu com raiva fingida. — Estou só experimentando.

Ele sorriu largo, encostando-se na cadeira, absolutamente encantado com a cena.

— Quando será que fizemos o bebê? Será que foi aquela vez na casa da sua avó? — Heitor provocou, o sorriso malicioso iluminando o rosto.

Helena arregalou os olhos, escandalizada.

— Claro que não! — desviou o olhar, mordendo o lábio. — Acho que… foi antes de você viajar.

Ele riu, satisfeito.

— Aquela vez foi sensacional mesmo. Um presente de despedida e um presente de nova vida. Tu é incrível, Helê.

Ela o empurrou de leve, tentando disfarçar o rubor nas bochechas.

— Idiota.

Foi nesse instante que a doutora apareceu. Era uma mulher baixa e franzina, mas com um sorriso tão doce e acolhedor que parecia iluminar o corredor. Tinha um ar delicado, quase frágil, que fez Helena até temer abraçá-la com força.

— É um grande prazer te conhecer, Helena. Seja muito bem-vinda! — disse, apertando-a num abraço caloroso.

— Obrigada… — Helena respondeu, um pouco surpresa pela simpatia.

A médica estendeu a mão para Heitor.

— O senhor é o parceiro dela?

— Isso mesmo. Heitor Monteiro. — ele respondeu firme, mas com aquele olhar apaixonado que não desgrudava de Helena.

— Muito encantada em conhecer os dois. Eu sou a doutora Ana Flávia. Venham comigo.

Heitor e Helena se entreolharam cúmplices, sorrindo como quem dividia um segredo precioso, e seguiram juntos.

A sala de atendimento era elegante, decorada em tons claros, com detalhes sutis de dourado. Havia uma calma confortável no ambiente. Sentaram-se lado a lado.

— Então, Helena, o que te traz aqui hoje? — perguntou Ana Flávia, abrindo a ficha.

Helena soltou o ar, tímida, mas com um sorriso emocionado.

— Eu acabei de descobrir que estou grávida.

— Meus parabéns para vocês dois! — disse a médica, sorrindo. — E dá pra ver pela cara do pai que a felicidade está transbordando.

Heitor apertava a mão de Helena sobre a perna dele, o peito cheio de orgulho.

— E como viu, doutora! — respondeu, quase rindo de tão emocionado.

— E como foi a suspeita? Seu ciclo atrasou?

Helena ajeitou-se na cadeira.

— Meu ciclo é muito reguladinho. No mês passado atrasou um pouquinho, mas nada fora do normal. Só que esse mês… desceu antes da hora. Saiu só um pouquinho de sangue, bem clarinho. Aí começaram as cólicas, mudanças de apetite, enjoos com cheiros que eu nunca tive problema… e de uns dias pra cá, um enjoo horrível. Quando vomito, parece que até meus órgãos querem sair. — suspirou. — E um cansaço… como se um trator tivesse passado por cima de mim.

A doutora anotava com atenção, balançando a cabeça de forma compreensiva.

— Entendi. E quando foi exatamente a sua última menstruação?

— Há pouco mais de um mês. No início da semana eu tive um sangramento, porém não acho que seja de menstruação. Mas eu acredito que tenha acontecido semana passada, sabe? A concepção, no caso.

Heitor entrou na conversa, orgulhoso de participar.

— Helena é super organizada com os ciclos. Quando ela marca que está no período infértil, às vezes a gente… dispensa os cuidados.

Ana Flávia sorriu com naturalidade.

— Entendi. Bom, o sangramento que você relatou pode ter sido o de implantação. É bem comum ser confundido com uma menstruação.

Ela se levantou, foi até um armário e pegou um saquinho com uma roupa de exame.

— Pode ir até o banheiro, Helena. Coloque essa bata com a abertura para frente, por favor.

Helena assentiu e saiu, deixando Heitor a sós com a médica.

Ele ajeitou-se na cadeira, ansioso.

— Eu também notei que os seios dela estão mais inchados… e o humor dela anda oscilando mais.

Ana Flávia sorriu satisfeita.

— Excelente observação, pai. Maridos atentos geralmente percebem antes de todo mundo. E sim, são sintomas típicos do aumento hormonal.

O orgulho iluminou o rosto dele, como se tivesse acertado a resposta de uma prova difícil.

— Mas os enjoos dela… são muito fortes. Ela está sofrendo bastante.

— Isso é muito comum no primeiro trimestre — explicou com calma. — Vou receitar vitaminas importantes para a formação do bebê, e podemos ajustar a dieta para reduzir os desconfortos. Além disso, posso indicar um antiemético leve para controlar os enjoos. Nada que vá prejudicar vocês dois.

Heitor suspirou, aliviado.

— Obrigado, doutora. Eu só quero que ela fique bem. E o bebê também.

Helena voltou do banheiro com a bata branca amarrada na frente, os cabelos soltos caindo sobre os ombros. Estava corada, desconfortável, como se estivesse se expondo demais.

Heitor, sentado ao lado da maca, a olhou e abriu um sorriso apaixonado.

— Até assim, você tá linda, Helê… — disse baixinho, como se fosse um segredo só deles.

Ela bufou, virando o rosto.

— Cala a boca, Monteiro. — mas os lábios não conseguiram segurar o pequeno sorriso nervoso.

A doutora Ana Flávia ajustou o travesseiro atrás da cabeça de Helena.

— Pronta, mãe? Como está no início, vamos precisar fazer o ultrassom transvaginal. Ele mostra melhor os detalhes. Tudo bem?

Helena apenas assentiu, o estômago embrulhado. Sentia como se estivesse prestes a ouvir um veredito que poderia mudar toda sua vida. Estava com medo do que veria.

O aparelho ligou, e logo a tela mostrou um borrão acinzentado, cheio de formas que para Helena não faziam sentido. Ela apertou forte a mão de Heitor.

— Não tô vendo nada… — murmurou, a voz embargada.

— Aqui… — disse a médica, paciente. — Esse círculo escuro é o saco gestacional. A primeira casinha do bebê.

Heitor prendeu a respiração, os olhos brilhando.

— A casinha dele… — repetiu, encantado, como se tivesse diante de um milagre.

Helena, no entanto, sentiu o peito apertar. Olhava a tela, mas para ela ainda era só um borrão sem forma.

— Tem certeza que isso… é mesmo um bebê? — a voz saiu pequena, quase implorando por uma negação.

Ana Flávia sorriu de leve.

— Esse pontinho mais claro é o embrião. Está no tamanho certo, com sete semanas.

— Sete semanas?! — Heitor soltou, surpreso e radiante. — Então já tem mais de um mês que a gente é pai e mãe?

Ele riu, encantado, mas Helena apenas o encarava, incrédula, com o coração disparado.

— E essa bolinha brilhante dentro é a vesícula vitelínica. Ela é quem alimenta o embrião nesse comecinho.

Helena levou a mão livre ao rosto, incrédula.

— Parece tão pequeno…

— E é mesmo — a doutora sorriu. — O tamanho de um grãozinho de arroz. Mas está exatamente como esperamos.

— Se já tem mais de um mês, porque eu só senti os sintomas agora?

— Muitas mulheres só percebem nesse período, quando os hormônios ficam bem mais altos.

Heitor respirava fundo, tentando conter a emoção.

— Dá pra saber o sexo? — perguntou com o entusiasmo. — Eu vou amar do mesmo jeito, mas… eu tô curioso.

— Ainda é cedo. — Ana Flávia riu. — Talvez com oito semanas dê algum palpite, mas o ideal é esperar até a 16ª. Ou, se preferirem, podemos fazer o exame de sexagem fetal já com 10 semanas.

— Nós queremos, né amor? — ele virou para Helena, os olhos marejados de expectativa.— Podemos fazer um chá revelação, vai ser ótimo.

Ela apenas assentiu, ainda em choque, sem desgrudar os olhos da tela. Para ela, parecia apenas um borrão. O medo a corroía.

— Doutora… isso é mesmo um bebê? — sua voz saiu pequena. — Não parece nada, só um monte de manchas…

A médica sorriu paciente, marcando a imagem com uma seta.

— Esse aqui é o embrião. Está bonitinho, do jeito que precisa estar.

Heitor se inclinou, apontando.

— Olha, Helê! Ali, a cabecinha… dá pra ver certinho!

Helena apertou os olhos, até que a médica mostrou com clareza.

— Aqui. Viu agora?

— Eu vi… — ela sussurrou. — Ele tá mesmo dentro de mim?

A médica não respondeu de imediato. Apenas ajustou o aparelho, e então, de repente, um pontinho começou a piscar na tela.

— Aqui está o coração. — disse com ternura. — Vamos ouvir?

A médica ajustou o som, e a sala foi preenchida pelo ritmo forte, rápido, urgente:

tum-tum-tum-tum-tum-tum.

Heitor levou a mão à boca, as lágrimas jorrando imediatamente.

— Meu Deus… — ele soluçou, rindo e chorando ao mesmo tempo. — Tá ouvindo, Helê? É o coraçãozinho dele! Nosso filho!

Helena arregalou os olhos, o choque atravessando o corpo dela. O som ecoava, tão real, tão intenso. Sentiu as lágrimas arderem nos olhos, a garganta fechar. Ali, não havia como negar. Não era borrão, não era dúvida. Era vida. Uma vida dentro dela. Era real mesmo.

Tapou a boca com as duas mãos, deixando o choro escapar. O medo se misturou a um alívio doloroso, quase sufocante.

— Então… é de verdade… eu tô mesmo grávida… — sussurrou, quase sem voz.

Heitor segurou a mão dela com força, inclinando-se até encostar a testa na dela, o sorriso mais largo da sua vida.

— Claro que tá, amor. Nós estamos. — ele riu entre soluços.

Helena fechou os olhos, chorando junto, finalmente permitindo-se acreditar. O coraçãozinho acelerado do bebê seguia batendo alto no monitor, embalando aquele instante em que ela e Heitor entenderam, de verdade, que não eram mais dois.

Agora eram três.

Ana Flávia desligou o monitor, ainda com aquele sorriso tranquilo que parecia abraçar os dois. Puxou uma prancheta e começou a escrever.

— Helena, vou passar uma lista de exames laboratoriais importantes: hemograma completo, glicemia, hormônios da tireoide, sorologias, vitamina D, entre outros. É o protocolo inicial para acompanhar sua saúde e a do bebê.

Helena assentiu, ainda com os olhos marejados.

— Tudo bem… eu faço.

— Também vou prescrever vitaminas pré-natais, ácido fólico, ferro e ômega-3. — ela escreveu cada nome com calma, destacando a importância. — E, pelo que seu parceiro contou sobre os enjoos, vou deixar um antiemético seguro, que pode ajudar bastante.

Helena respirou fundo, olhando para Heitor, como se buscasse coragem.

— Doutora, eu tive um pequeno sangramento… não muito, mas foi estranho.

Ana Flávia levantou os olhos, atenta.

— Isso pode acontecer, principalmente até a oitava semana. Geralmente é a placenta se fixando. É algo comum, mas precisa de acompanhamento. — anotou mais algumas orientações e então destacou um número em letras grandes. — Este é meu celular pessoal. — arrancou a folha da receita e entregou nas mãos de Helena. — Qualquer sangramento, dor forte, dúvida ou insegurança, me ligue ou mande mensagem. Não importa a hora.

Helena ficou surpresa.

— Tem certeza, doutora?

— Absoluta. Vocês são pais de primeira viagem, sei como é assustador. Quero que se sintam seguros. Vou acompanhar essa gestação junto de vocês.

Heitor pegou a folha junto de Helena, firme, guardando com cuidado.

— Pode deixar. Eu vou tomar conta dela.

Ana Flávia sorriu.

— O primeiro trimestre é o mais frágil. Então: nada de estresse, nada de esforços exagerados. O corpo dela está trabalhando dobrado.

— Vou blindar ela de tudo isso — Heitor respondeu sem hesitar, a voz grave e convicta.

A conversa seguiu por mais de quarenta minutos. Perguntaram sobre alimentação, exercícios, viagens, sexo, até sobre quando poderiam contar a novidade à família. A médica respondeu cada dúvida com paciência, como se tivesse todo o tempo do mundo para eles.

Quando finalmente se levantaram, Helena segurava uma pastinha com receitas e pedidos de exames, e Heitor carregava a pasta dos ultrassons e um pen drive com a cópia do exame junto com as batidas do coração do bebê. A primeira foto do filho dele, estava radiante.

Na saída, Ana Flávia se despediu com um abraço carinhoso em Helena e um aperto de mão firme em Heitor.

— Cuide bem dela. O bebê já sente tudo.

Helena engoliu em seco, apertando a mão de Heitor. Ele a puxou de leve pela cintura, e os dois atravessaram a recepção lado a lado. O brilho nos olhos dele era tão intenso que parecia iluminar o ambiente.