O CEO que Eu Paguei

163 Abrigo no Caos


O corpo de Helena estava úmido, suava bastante. Ela segurava com forçao próprio corpo, como se pudessem mantê-la ancorada no presente. Mas o coração não obedecia — batia tão rápido que parecia gritar dentro do peito.

Mesmo com as palavras firmes e o tom protetor de Paulo, o medo não cedia.

O que Heitor pensaria dela?

Será que acreditaria naquelas mentiras espalhadas pela internet?

A ideia de que ele pudesse acordar e duvidar do amor dela a corroía por dentro.

Helena baixou o olhar e apertou o próprio joelho, buscando firmeza em si mesma. O toque de Paulo veio logo em seguida — uma mão quente, firme, repousando sobre a dela. Ela ergueu os olhos, e encontrou aquele sorriso calmo e reconfortante que ele sempre parecia ter, mesmo em meio ao caos.

— Vai ficar tudo bem. — disse ele, em voz baixa, como quem faz uma promessa.

O silêncio no carro foi quebrado quando o segurança, ao lado do motorista, falou em tom tenso:

— Senhor, o hospital está cheio de repórteres.

Paulo franziu o cenho e se inclinou levemente para frente.

Helena fez o mesmo — e, assim que o carro virou a esquina, a visão a atingiu em cheio.

Câmeras.

Microfones.

Gritos.

Luzes piscando sem parar.

A entrada do Copa Star estava tomada por jornalistas e curiosos.

Era como se uma celebridade tivesse saindo do local — ou pior, como se o caos da internet tivesse se materializado ali, na frente dela.

Helena engoliu seco.

As pernas pareceram perder um pouco da força.

Paulo analisou a cena em silêncio, o olhar frio e calculista de quem já viveu mil crises antes. Em segundos, tomou uma decisão.

— Dê a volta no quarteirão. — ordenou. — Vamos transferi-la para o outro carro. Ela entra pela ala de acesso restrito.

O motorista assentiu imediatamente, e o comboio fez o retorno.

Quando o carro parou, Paulo se virou para Helena.

Ela ainda estava pálida, os olhos brilhando de nervosismo.

Ele estendeu a mão e segurou a dela com firmeza.

— Não se preocupe, filha. — disse com voz baixa, quase num sussurro paternal. — Eu vou chamar a atenção da imprensa. Enquanto isso, você entra no hospital por outra rota. Tudo bem?

Ela hesitou por um instante, o lábio inferior trêmulo, e depois assentiu em silêncio.

— Ótimo. — respondeu ele, com um leve sorriso.

Paulo fez um gesto para o segurança.

— A leve ao outro carro. E garanta que ela entre sem ser vista.

— Entendido, senhor. — respondeu o homem.

Helena respirou fundo e abriu a porta. O ar noturno do Rio era quente, abafado, e parecia pulsar com a energia caótica dos flashes à distância. Ela desceu com cuidado, ainda tonta de tudo que estava acontecendo.

Antes de entrar no outro veículo, olhou para Paulo.

Ele ainda estava parado ao lado do carro, o semblante sereno, mas os olhos carregavam algo mais — uma mistura de raiva, proteção e... afeto.

— Por que o senhor está sendo tão gentil comigo? — perguntou, a voz embargada. — A gente nem se conhece direito...

Paulo soltou um pequeno riso, aquele tipo de riso que parecia conter tristeza e ternura ao mesmo tempo.

— Eu já te respondi, Helena. — disse com calma. — Porque você é... como uma filha pra mim.

Ela ficou sem palavras.

Ele apertou a mão dela com leveza e, por um instante, o olhar deles se cruzou — o dela, confuso e agradecido; o dele, cheio de uma emoção silenciosa e contida.

— Vá na frente. — disse ele, soltando devagar a mão dela. — Eu chego logo depois.

Helena assentiu, engolindo em seco, e entrou no outro carro.

Poucos minutos depois, os veículos se separaram.

O carro de Paulo seguiu pela via principal e estacionou a poucos metros da entrada principal do hospital.

Assim que desceu, os flashes explodiram.

— Governador Paulo Medeiros! — gritaram vários repórteres. — É verdade que o senhor veio visitar Heitor Monteiro? Qual sua relação com a família Monteiro?

— O senhor confirma o envolvimento da Fort Group no caso?

— Há comentários de que a namorada do Monteiro está com o senhor, governador! Isso procede?

— Acho que o envolvimento com o Monteiro pode manchar sua campanha para a presidência?

Paulo ajustou o paletó, ergueu o queixo e sorriu. Um sorriso diplomático, carismático, seguro — o tipo que desarma e domina ao mesmo tempo.

— Boa noite, pessoal. — disse com voz clara, grave e serena. — Vim visitar um amigo da família. E aproveito para pedir respeito à privacidade dos envolvidos. Hoje não é dia de política, é dia de humanidade.

Os flashes continuaram, mas os repórteres recuaram levemente — ele sabia como controlá-los, sem precisar levantar a voz.

E, como quem conduz uma dança, Paulo se aproximou de alguns, apertou mãos, cumprimentou, posou para fotos rápidas, mantendo o controle absoluto da cena.

Do outro lado da rua, o carro de Helena parou discretamente junto à entrada lateral.

Ela saiu, os olhos ainda marejados, mas parou por um instante antes de entrar.

Lá longe, entre as câmeras e a multidão, viu Paulo.

Ele sorria, acenava, respondia educadamente às perguntas, irradiando calma e autoridade.

Por um instante, Helena pensou em como ele parecia inabalável.

Enquanto ela tremia por dentro, ele enfrentava o mundo lá fora — e, de alguma forma, ela sentiu que podia confiar.

Inspirou fundo e sussurrou para si mesma:

— Força, Helena. Você precisa ser forte por ele.

E, com o coração apertado, entrou no hospital.

O hall do hospital parecia uma extensão de outro mundo. Mármore claro, luzes indiretas e aquele silêncio forçado, quase arrogante, que só lugares da elite conseguiam ter.

Mas Helena já estava cansada de luxo. Nos últimos dias, tudo que era “impressionante” tinha deixado de importar. Ela só queria Heitor.

Mesmo assim, sentia os olhares sobre si.

Alguns curiosos, outros abertamente julgadores.

Respirou fundo, endireitou a postura e seguiu em frente.

Estava a poucos passos da recepção quando dois seguranças enormes se colocaram à frente.

— Boa noite, senhora.

Ela parou, olhou para eles com calma forçada.

— Boa noite — respondeu, tentando passar.

Eles bloquearam o caminho de novo, se posicionando de modo quase ofensivo.

— Podemos ajudar? — o tom era de quem já supõe que não vai precisar.

— Sim — respondeu, firme. — Vim visitar um paciente.

Os dois se entreolharam. Um deles arqueou a sobrancelha.

— A entrada dos funcionários é por trás.

— Tem certeza de que está no lugar certo?

Helena sentiu o rosto pesar.

— Estou. — respondeu entre dentes. — Heitor Monteiro está aqui, não está?

Uma das recepcionistas se aproximou.

— Senhora, este é um hospital voltado para pacientes de alto padrão.

Helena piscou, incrédula.

— E o que isso tem a ver com o que perguntei? — retrucou, a voz começando a tremer de irritação. — Eu vim ver o Heitor! Em que quarto ele está?

A mulher soltou um risinho debochado.

— E a senhora seria o quê dele?

— Sou a namorada. Me chamo Helena.

O trio se olhou e sorriu entre si, aquele riso disfarçado que fere mais do que palavras.

— Lamento, mas só familiares diretos, pais, cônjuge e filhos. Namorada não está na lista.

Helena cerrou os punhos.

— Escuta aqui. — o tom dela ficou firme e frio. — Eu não tenho tempo pra esse teatro. Me passa o quarto onde ele está ou eu vou fazer uma queixa formal.

Um dos seguranças deu uma risada curta.

A recepcionista balançou a cabeça negativamente.

— Tirem essa senhora daqui. — disse, com voz carregada de desprezo. — Ela está sujando o hospital.

Helena sentiu as mãos fortes a segurarem pelos braços.

— ME SOLTA! — gritou, tentando se desvencilhar.

E então, a voz.

Grave, firme, cortante:

— Eu acho melhor tirarem a mão dela. Agora. Enquanto eu ainda estou de bom humor.

Helena virou-se rápido.

Reconheceu a voz antes mesmo de ver o rosto.

— Jonas... — sussurrou, aliviada.

Ele estava ali, com uma blusa do Fluminense, um calção e um tênis, mas sua expressão estava diferente. Era gélida e os olhos faiscando de raiva.

— Não escutaram? — disse, avançando um passo. — Eu mandei soltarem minha cunhada. Agora.

A recepcionista arregalou os olhos.

— Sua... cunhada? Esse tipo de mulher?

O olhar de Jonas queimou.

Ele se aproximou devagar, cada passo dele era ameaçador.

— O que você quer dizer com isso? — perguntou num tom tão calmo que dava medo.

Um dos seguranças se colocou entre eles.

— Senhor, devo acompanhá-lo até a saída.

Jonas inclinou a cabeça, incrédulo com tamanha ousadia.

— Meu caro... ou vocês saem da minha frente agora, ou esse vai ser o último emprego que vocês vão ter na vida.

E antes que o outro reagisse, dois seguranças de terno escuro apareceram atrás de Jonas.

— Anda. — ele disse, sem erguer a voz. — Solta a minha cunhada.

— Quem você acha que é? — o segurança que ainda segurava Helena retrucou.

— Sou Jonas Medeiros. — ele respondeu, devagar, saboreando cada sílaba. — Filho do governador Paulo Medeiros.

O ar saiu da sala.

A recepcionista empalideceu.

— Me... me perdoe, senhor. Eu não reconheci o senhor.

Jonas virou o rosto lentamente para ela, o olhar frio.

— E mesmo que reconhecesse, não mudaria o que fez.

Fez um gesto para os seguranças que o acompanhavam.

— Tirem esses dois de perto dela.

Os homens agiram rápido, empurrando os outros dois para longe com autoridade.

— Segurança do Poder Executivo. — disseram alto, para que todos no saguão ouvissem. — Vocês acabaram de agir contra o Estado.

Os seguranças do hospital recuaram, pálidos.

Helena, finalmente livre, mal conseguia respirar.

Jonas a segurou pelos ombros, olhando-a de cima a baixo.

— Você tá bem?

Ela balançou a cabeça negativamente, os olhos marejados.

Jonas suspirou, puxando-a para um abraço rápido.

— Pronto. — murmurou. — Tô aqui, tá ok? Tô aqui.

Helena se escondeu no peito dele, tentando conter as lágrimas.

Jonas olhou para a outra recepcionista e apontou com o queixo.

— Você. — disse.

Ela se assustou.

— E-eu?

— É. Você mesma. — a voz dele era autoritária. — Anota o nome desses três aí. Agora.

A mulher começou a escrever com as mãos trêmulas.

Os outros tentaram se explicar, mas os seguranças de Jonas bloquearam a passagem, sérios e impassíveis.

— Rápido, caralho. Não tenho a noite toda. — ela terminou e entregou com as mãos trêmulas.

Jonas pegou o papel assim que ela terminou, enfiou no bolso e se virou de volta para a recepção.

— Agora, me diz: onde está Heitor Monteiro?

— E-ele está na UTI... — respondeu a recepcionista, hesitante. — Saiu há pouco tempo da cirurgia.

Jonas assentiu.

— Bom. Finalmente uma resposta decente. — olhou de lado para Helena. — Vamos, cunhadinha.

— E os pais dele? — Helena perguntou, com a voz trêmula.

A recepcionista engoliu seco.

— Estão no quarto anexo.

Jonas apertou de leve a mão de Helena.

— Então é pra lá que a gente vai.

E, sem olhar pra trás, a conduziu pelo corredor de mármore, sob o olhar assustado e envergonhado de todos. Os seguranças dele ainda barravam os três.

Atrás deles, a recepcionista só conseguiu sussurrar:

— Meu Deus... o governador vai nos matar.

Os dois caminhavam pelos corredores brancos e silenciosos, de mãos dadas.

Helena ainda tremia um pouco, o coração acelerado, tentando não tropeçar nas próprias pernas. O toque de Jonas era firme, seguro — um contraste com o caos dentro dela.

Quando se afastaram o suficiente dos olhares curiosos e do burburinho do hall, ele soltou um suspiro e afrouxou o passo.

— Como você veio parar aqui, Jonas? — ela perguntou, a voz embargada.

Ele deu um meio sorriso cansado.

— Li no Instagram.

Helena parou por um instante. O rosto dela perdeu a cor, e o peso da vergonha a fez baixar a cabeça.

— O que... o que você leu? — perguntou baixinho.

— Um monte de merda. — respondeu sem hesitar, o tom firme, seco. — Só isso.

Ela sentiu o estômago se revirar.

As palavras dela saíram trêmulas, quase num sussurro:

— Você acha que é verdade? Eu e o Fortenelle?

Jonas bufou, desviando o olhar por um momento, incrédulo.

— Claro que não. — respondeu, firme. — Eu vi como você olha pro Heitor.

Helena apertou os dedos dele, tentando conter as lágrimas.

— Mas... aquele dia... — ela começou, hesitante.

Jonas virou o rosto pra ela, com aquele sorriso de canto, cheio de ironia e ternura ao mesmo tempo.

— Eu cheguei na hora certa. — disse, dando de ombros. — Você ainda não percebeu, Helena? Eu sempre chego no momento certo.

Ela deixou escapar um riso fraco, nervoso, e balançou a cabeça.

— Eu amo o Heitor... — disse, com a voz falhando no meio da frase.

— Eu sei. — ele respondeu, simples, sem precisar pensar.

Fez uma pausa e acrescentou, num tom mais baixo, quase um lembrete:

— E, como EU disse, você tá grávida dele.

Helena o olhou, surpresa por ele tocar no assunto com tanta naturalidade.

— Estou... — confirmou, engolindo em seco. — Estou sim.

Jonas parou. Virou-se totalmente pra ela.

Os olhos dele, sempre carregados de sarcasmo, estavam sérios agora.

— O pouco que te conheço, — disse — sei que você nunca trairia o meu irmão.

Ela ficou em silêncio.

Aquelas palavras, simples, atravessaram o peito dela com força.

Era confiança.

Helena sentiu as lágrimas virem, mas dessa vez não de dor, e sim de alívio.

Jonas pousou uma das mãos no ombro dela, num gesto sincero, sem segundas intenções.

— Eu sei que você tá machucada, — ele completou. — Mas fica firme, tá? Ele vai sair dessa. E quando acordar, o Heitor vai te olhar do mesmo jeito de sempre. Como se o mundo inteiro fosse você.

Helena respirou fundo, tentando se recompor.

— Obrigada, Jonas... — murmurou, com um sorriso fraco.

Ele deu um tapinha leve na mão dela.

— Não me agradece ainda, cunhadinha. Eu ainda vou fazer um escândalo aqui dentro.

Ela riu baixinho enquanto ele a puxava.

Jonas parou de repente no meio do corredor, ainda de mãos dadas com ela, e franziu o cenho como quem tenta lembrar de algo.

— O que foi? — Helena perguntou, arqueando a sobrancelha.

Ele coçou a nuca, o olhar perdido, e soltou um sorrisinho sem graça.

— Onde fica o quarto em anexo, hein? — perguntou, meio rindo.

Helena piscou, surpresa, e depois soltou uma risada que escapou quase como um soluço.

Depois de tudo o que tinha vivido naquela noite, rir parecia impossível — mas Jonas conseguia.

— Você é um idiota mesmo. — ela respondeu, balançando a cabeça, o riso misturado com o alívio.

— Me dá um desconto. — ele ergueu as mãos, teatral. — Eu sou bonito, mas não sou onisciente.

Helena abriu um sorriso de verdade pela primeira vez desde quando recebeu o buquê.

Jonas retribuiu o sorriso, satisfeito.

Mas o momento leve durou pouco — o celular dele começou a vibrar no bolso.

Ele tirou o aparelho e atendeu sem nem olhar a tela.

— Fala, feioso! — disse com o tom despreocupado de sempre.

Do outro lado da linha, a voz de Isaac soou apressada, confusa:

— Feioso é o cacete, Jonas! Onde você tá, cara? Tá uma loucura aqui fora!

Jonas deu uma risada.

— Já tô dentro, tu é muito lerdo.

Helena ergueu o olhar pra ele, curiosa, tentando ouvir a conversa.

— Você tá com ela? — perguntou Isaac do outro lado, mais sério. — Com a Helena?

Jonas olhou pra ela e respondeu, sem hesitar:

— Tô. E ela tá bem, antes que pergunte.

Houve uma pausa do outro lado, o som de um suspiro aliviado.

— Graças a Deus. O pai tá surtando, a imprensa tá uma bagunça ali na porta.

— Eu sei, eu sei. — Jonas interrompeu, impaciente. — Relaxa. Tudo sob controle.

Helena arregalou um pouco os olhos.

— Paulo já tá aqui no hospital também? — ela perguntou, baixinho.

Jonas assentiu com um meio sorriso e colocou a mão no microfone do celular.

— Tá. — disse. — Mas agora ele tá resolvendo o circo lá fora.

Do outro lado da linha, Isaac parecia ainda mais nervoso.

— Cara, isso vai virar guerra. Os Fortenelle já soltaram nota, e a mídia tá pintando o Heitor de psicopata. O pai tá muito bolado.

Jonas suspirou, desviando o olhar para Helena, que o observava atentamente.

O sorriso dele desapareceu.

— Então é bom que a gente comece a virar essa narrativa rápido. — respondeu sério. — Eu te ligo depois, tá?

— Jonas…

Ele desligou antes que o irmão terminasse.

Helena o olhava, aflita.

— O que foi?

Jonas respirou fundo, passando a mão pelos cabelos.

— Nada que eu não resolva. — respondeu, tentando aliviar o peso. — Vamos ver o Heitor primeiro, depois eu resolvo a briga lá fora.

E com um gesto firme da cabeça, retomou o passo pelo corredor, a mão dela de volta na dele — como se, mesmo sem perceber, estivesse guiando os dois através do caos.

Os corredores pareciam intermináveis — brancos, frios, sem janelas, como se o hospital inteiro tivesse sido projetado para que ninguém soubesse onde estava.

Helena e Jonas caminhavam lado a lado, de mãos dadas, perguntando a cada funcionário que passava. Os olhares que recebiam variavam entre desconfiados e abertamente julgadores — como se estivessem tentando invadir um lugar que não lhes pertencia.

— Cara, esse hospital é um labirinto — murmurou Jonas, olhando pros dois lados do corredor.

Helena não respondeu. Estava tensa demais, com os dedos entrelaçados aos dele buscando forças.

Foi então que viraram a esquina e viram Paulo Medeiros e Isaac conversando com um homem de jaleco branco.

— Porra, Jonas! Onde você tava, caralho? — explodiu Isaac, aliviado e irritado ao mesmo tempo.

Jonas riu, levantando as mãos num gesto teatral.

— Isaac! Você demorou demais, cara.

Isaac atravessou o corredor em passos largos, empurrou o irmão e abraçou Helena sem pensar.

— Não se preocupa, tá? A gente vai resolver tudo. Tá tudo bem.

Helena se deixou abraçar. Ela não era do tipo de se abalar facilmente — sempre racional, sempre firme. Mas naquele momento… talvez fosse a gravidez, talvez fosse o medo, talvez os dois.

Ela simplesmente precisava de um abraço.

Paulo observava a cena, o alívio nítido em seu semblante.

— Parece que encontramos os fujões, — disse com um meio sorriso cansado, virando-se para o homem de jaleco. — Meus filhos, Jonas e Helena.

Helena levantou o olhar, confusa.

Jonas arqueou as sobrancelhas e olhou para o irmão, igualmente perdido.

— Meus o quê? — Isaac sussurrou de lado, mas o pai fingiu não ouvir.

O médico sorriu, sem perceber o desconforto no ar.

— É um prazer conhecer seus filhos, governador. Dá pra ver que são muito unidos.

Jonas pigarreou, tentando se recompor.

— E o senhor seria...?

— Doutor Eduardo Salles, diretor clínico. — respondeu o médico, apertando a prancheta contra o peito.

Helena, enxugando as lágrimas com as costas da mão, se aproximou dele com o olhar firme.

— Você sabe onde o Heitor está?

O médico hesitou. Olhou para Paulo, buscando permissão.

Paulo fez um leve aceno de cabeça.

Eduardo pigarreou.

— A cirurgia durou três horas e dez minutos, e foi um sucesso.

Helena respirou fundo, levando a mão ao peito.

— Graças a Deus... — murmurou, a voz trêmula. — Mas... por que demorou tanto?

O médico voltou a olhar para o governador antes de responder.

— Heitor tem sangue AB negativo. É um tipo raro. Recebe de qualquer grupo, mas o sangue precisa ter o fator negativo. Tivemos que acionar o Hemorio, e tanto o pai quanto o avô dele doaram sangue.

— Ele perdeu muito sangue? — Helena perguntou, o tom aflito.

— Bastante... mas está tudo bem agora. — respondeu o médico, sereno.

— E eu posso vê-lo?

— No momento não. — explicou. — Ele está sedado e em observação. O risco de infecção ainda é alto.

Jonas cruzou os braços, impaciente.

— E quando a gente vai poder vê-lo?

— Entre doze e vinte e quatro horas. Depende da resposta dele.

Helena arregalou os olhos.

— Ele vai ficar sozinho esse tempo todo?

— Nossa equipe é extremamente capacitada, senhora. Ele está sendo monitorado.

— E os pais dele? Estão com ele?

— Não. Eles estão em um quarto VIP anexo, aguardando liberação.

Isaac se adiantou:

— Podemos ir até eles, então?

— Infelizmente não. — respondeu o médico. — Apenas parentes de primeiro grau e cônjuges.

Paulo respirou fundo, cruzando as mãos nas costas.

— Helena é namorada do Heitor. E está grávida de um filho dele.

O médico arregalou os olhos e depois sorriu de leve.

— Parabéns, senhorita. Mas, mesmo assim, não posso autorizar.

— Não há nada que possa fazer? — Paulo insistiu, num tom calmo mas cortante. — Os dois moram juntos, são praticamente uma família.

O médico hesitou, desconfortável.

— Após a visita dos pais, se eles a autorizarem como companheira, ela poderá entrar.

Helena desviou o olhar, o peito apertado.

Era como se estivessem arrancando dela o direito de estar ao lado dele.

— E onde eu posso ficar enquanto espero? — perguntou, tentando conter o choro.

O médico coçou a cabeça.

— Bom... o governador e seus filhos são acionistas do hospital. Acho que conseguimos um quarto para vocês. Mas devo lembrar: é perigoso a senhora permanecer aqui, grávida. A imunidade está baixa.

Isaac e Jonas se entreolharam.

— Talvez possamos levá-la pra casa e esperar notícias. — sugeriu Isaac.

— É claro que não! — Helena reagiu na hora, a voz trêmula. — Eu vou ficar. Só saio daqui quando ele sair também.

— Helena... não ajuda nada você estar aqui. — disse Jonas, tentando manter o tom racional. — Você pode pegar alguma infecção, ou passar mal.

Ela ergueu o queixo, os olhos marejados, mas decididos.

— Ele é a pessoa mais importante da minha vida. Eu não posso abandoná-lo.

As palavras dela ficaram suspensas no ar.

Até Paulo se surpreendeu — a força, o amor, o desespero contidos naquela frase eram tão sinceros que o deixaram em silêncio por um momento.

Por fim, ele respirou fundo e se aproximou.

— Filha, você não vai abandoná-lo. Vai cuidar do bebê de vocês. Heitor ficaria arrasado se soubesse que você se arriscou por ele.

Eduardo aproveitou a deixa.

— Eu atualizarei o senhor, governador, sobre qualquer mudança no estado dele.

Paulo assentiu, mas olhava para Helena, atento.

— Vamos para casa? — perguntou, estendendo a mão para ela.

Helena hesitou. O nó na garganta era quase físico.

— Eu entendo a preocupação de vocês... — disse com calma.

Os três homens pareceram relaxar por um segundo — até ela continuar:

— ...mas eu tenho que ficar. Heitor é a minha família. E mesmo que, perante a sociedade, eu precise de autorização pra isso, eu quero estar aqui por ele.

O silêncio que se seguiu foi denso.

Paulo suspirou, um sorriso rendido no rosto.

— Bom... acho que vamos precisar de um quarto, então.

Jonas cruzou os braços e apontou pra mochila que ela carregava.

— Nessa mochila tem alguma coisa pro Heitor? Se tiver, aproveito e troco essa roupa antes que morra sufocado.

Isaac pegou o celular.

— Vou avisar a mamãe que a gente vai dormir fora.

Helena piscou, surpresa.

— Vocês vão ficar aqui comigo?

Jonas deu de ombros.

— Claro, né? Você não tá em condições de ficar sozinha.

— E não podemos deixá-la aqui. — completou Paulo, sério.

Helena suspirou, emocionada.

— Eu agradeço. Mas será que é uma boa ideia...

— Claro que é. — interrompeu Isaac, sorrindo. — Somos família.

O médico, percebendo que havia perdido a batalha, apenas acenou com a cabeça.

— Certo... vou providenciar um quarto privativo para vocês.

Enquanto ele se afastava para dar as ordens, Helena olhou para os três homens à sua frente, era como se eles realmente fossem parte da sua família.

O quarto VIP era amplo e silencioso — um espaço que cheirava a luxo e limpeza. As cortinas eram de linho claro, os móveis em tons neutros e elegantes, e no centro havia uma cama de solteiro, um sofá espaçoso e uma poltrona reclinável perto da janela.

Helena entrou devagar, segurando a mochila com as coisas de Heitor e olhando ao redor. O silêncio pesava.

— Eu... — ela começou, hesitante — eu não me sinto muito confortável em ficar aqui sozinha com vocês três, me desculpem.

Os três homens se entreolharam — o mesmo olhar, o mesmo ar de “não era a nossa intenção”.

Paulo deu um meio sorriso cansado, o olhar gentil.

Isaac coçou a nuca, envergonhado.

Jonas fez uma careta divertida do tipo “deixa só dessa vez”.

Helena sorriu baixinho, sem querer. Eram mesmo pai e filhos — até nas expressões.

Por um momento, se pegou pensando se o bebê dela herdaria o sorriso de Heitor, ou aquele mesmo jeitinho meio malandro que ele tinha.

Enquanto ela tentava esconder a mochila — já que Jonas parecia decidido a vestir qualquer coisa que pertencesse a Heitor —, Isaac ligou a TV e colocou Round 6.

— Que os jogos começem. — comentou ele, se jogando no sofá.

Helena riu, aliviada pelo clima leve.

Os quatro ficaram assistindo por um tempo.

Ela na poltrona, encolhida, e os três homens dividindo o sofá.

Eles se provocavam o tempo todo — Isaac fazia piadas, Jonas retrucava com ironias afiadas, e Paulo às vezes intervinha com aquele tom de autoridade disfarçada de paciência.

Era o tipo de interação que aquecia o peito dela.

Natural.

Família.

Helena observava em silêncio — o jeito como eles riam juntos, como se entendiam sem precisar falar. E, por um instante, pensou em Heitor. Em como seria ver o bebê deles crescendo em meio a esse tipo de harmonia, rindo junto, sentindo segurança. Ela, ele e a pequena Heloísa ou … ela precisava pensar em um nome de menino com a letra H, a ideia de Heitor Júnior não era ruim, mas não era bem o que ele queria.

O tempo passou devagar.

Paulo acabou pegando no sono no sofá, a cabeça recostada no ombro do filho, a respiração calma.

Jonas saiu dizendo que ia comprar refrigerante e “latinhas para aliviar o trauma coletivo”.

Isaac ficou quieto, vidrado na TV, o brilho colorido refletindo nos olhos atentos.

Helena olhou em volta. O quarto parecia grande demais para o que ela sentia dentro do peito — uma mistura de medo, saudade e... estranhamente, conforto.

Ela se levantou devagar da poltrona, caminhou até o sofá.

Paulo dormia profundamente, Isaac nem percebeu que ela se aproximara.

Por um instante, ela só ficou ali, olhando para eles, com aquela sensação estranha de pertencer.

Mas o pensamento a atravessou como uma lâmina — Antônio.

O escândalo, as mentiras, as manchetes.

A dor voltou como um soco no peito.

Não queria gerar mais mal-entendidos, não queria dar margem para ninguém dizer que ela estava próxima demais de outro homem.

Com um suspiro, voltou à poltrona e se sentou, o olhar perdido na janela.

Passou a mão pela barriga com cuidado — o pequeno movimento era quase um pedido de perdão.

Ela só queria que Heitor estivesse ali.

Isaac desviou o olhar da TV e a observou em silêncio por alguns segundos.

— Tá tudo bem, Helena? — perguntou, a voz calma.

Ela olhou pra ele e forçou um sorriso.

— Tá sim... eu só queria esticar a perna um pouco.

Isaac assentiu, entendendo mais do que ela dizia.

— Se precisar de alguma coisa, é só falar, tá? — respondeu gentilmente.

Helena fez que sim e voltou o olhar para a janela.

Lá fora, as luzes do hospital piscavam como estrelas distantes.

E, pela primeira vez naquela noite, ela permitiu que o cansaço a vencesse — o corpo relaxando devagar, o coração ainda apertado, mas com um fio de esperança de que, quando o sol nascesse, Heitor abriria os olhos.

Helena acordou sobressaltada.

O coração batia acelerado, e por um momento ela não soube onde estava.

A penumbra do quarto VIP era quebrada apenas pela luz azulada que vinha do corredor — e pelo som baixo do ar-condicionado, constante, como uma respiração.

Piscou algumas vezes, tentando entender.

Estava deitada na cama, coberta até a cintura.

Não lembrava de ter deitado ali.

Virou o rosto devagar e viu Jonas e Isaac dormindo no sofá — Isaac estava esticado, com os pés para fora, o lençol enrolado no corpo; Jonas, sentado, pendendo para o lado, a cabeça quase caindo, coberto com uma manta que claramente não era dele.

Por um instante, Helena ficou observando a cena.

Aquela confusão silenciosa, tão estranhamente familiar, deu a ela uma sensação de aconchego — e culpa ao mesmo tempo.

Então, ouviu a porta se abrir devagar.

Paulo entrou em silêncio, o blazer pendurado no braço. Quando viu que ela estava acordada, parou e sorriu.

Fechou a porta com cuidado e se aproximou.

— Te acordei? — a voz dele saiu baixa, gentil.

— Não... eu só acordei. — respondeu, ajeitando-se na cama.

Ele franziu levemente o cenho.

— Está sentindo algo? Alguma dor, enjoo?

Helena balançou a cabeça, um pouco envergonhada.

— Não... só um pouco de fome.

O sorriso dele aumentou, discreto.

— Ah, isso é ótimo. — pegou o celular do bolso. — Quer pedir alguma coisa? Ou acha melhor irmos até a praça de alimentação do hospital?

Ela hesitou, depois assentiu.

— Podemos ir até lá. Quero sair um pouco daqui.

— Claro. — disse, oferecendo a mão para ajudá-la a levantar.

Caminharam juntos pelos corredores silenciosos. Era madrugada e se ouvia apenas o som distante de passos e o leve zumbido das luzes frias.

Helena abraçava os próprios braços, mais por nervosismo do que por frio.

Paulo caminhava ao lado, sempre respeitoso.

Quando chegaram à praça de alimentação, o ambiente estava quase deserto. Um segurança ao fundo, um funcionário limpando as mesas, e o aroma persistente de café forte.

Paulo guiou Helena até uma mesa longe da janela.

— O que vai querer? — perguntou, parando diante do balcão.

— Qualquer coisa doce. Um chocolate quente talvez. — respondeu, sorrindo de leve.

Enquanto ele fazia o pedido, Helena olhou em volta. O hospital parecia tão grande, tão cheio de vida — e mesmo assim, ela se sentia sozinha ali.

A saudade apertou.

Ela apoiou o queixo na mão, olhando para o vazio.

Quando Paulo voltou com uma bandeja — dois chocolates e salgados —, ele percebeu o olhar dela.

Se sentou em frente, inclinando-se um pouco.

— Está com saudade do Heitor, não é?

Helena respirou fundo, esboçando um sorriso pequeno.

— Sim. Acostumei a dormir com ele. Até antes de vir pro Rio, a gente já estava junto o tempo todo.

O olhar dela ficou distante.

— Sinto falta dele... do jeito que ele me abraça, do jeito que fala, das manias dele. Até da implicância.

Paulo riu baixo.

— Isso é amor, minha filha. — tomou um gole do café, os olhos brandos. — Como vocês se conheceram?

Helena ficou vermelha na hora.

— Ah... foi meio atrapalhado. — gaguejou. — Eu o confundi com outra pessoa. E depois disso, a gente acabou se encontrando na empresa.

— Confundiu? — ele arqueou a sobrancelha, divertido. — Essa eu quero ouvir.

Ela riu, encabulada.

— Prefiro não contar os detalhes... mas foi caótico. E, de algum jeito, tudo deu certo no final.

Paulo riu junto — aquele riso leve, carregado de lembranças.

Por um instante, o olhar dele ficou distante também.

— Essas confusões... às vezes são o destino se divertindo, sabia? — disse, nostálgico. — Foi assim comigo e com a Lorena. Ela me odiou na primeira vez, o olhar raivoso dela daquele dia… quem diria que eu me apaixonaria por ele.

Helena riu, encantada com a leveza dele.

— E olha só onde vocês chegaram.

Paulo olhou para o copo nas mãos, o sorriso abrandando.

— É... olha só.

Por um instante, o silêncio voltou.

Mas era um silêncio sereno.

Dois corações pensando em pessoas que amavam — um pai lembrando do passado, uma mulher esperando pelo futuro.

E entre os dois, o mesmo desejo: que a vida, apesar de toda dor, ainda soubesse seguir seu caminho.