O CEO que Eu Paguei
164 O Primeiro Olhar
Rio de Janeiro, 1996.
O salão do Hotel Copacabana Palace estava tomado de vozes, flashes e taças erguidas. Políticos, empresários, jornalistas — todos pareciam girar ao redor de Paulo Medeiros.
Ele sorria com a naturalidade de quem já nascera para aquilo. A gravata perfeitamente ajustada, o terno impecável, o olhar firme e cordial.
A imprensa o adorava. O partido o respeitava.
Aos trinta anos, Paulo era o rosto da nova geração política: preparado, ético e articulado. Secretário do Planejamento Estadual e prestes a lançar sua candidatura a vereador. Um homem que parecia ter tudo sob controle.
E, de fato, tinha.
Ou quase tudo.
Havia um espaço dentro dele que o trabalho não preenchia mais.
Aquela noite de discursos e elogios deixava uma sensação incômoda — como se cada aplauso ecoasse num salão interno vazio.
Quando os brindes cessavam e as luzes diminuíam, ele se via sozinho em casa, o paletó pendurado, o som distante do relógio marcando a ausência de uma vida que não chegava.
Paulo sempre acreditou que o amor viria na hora certa, mas o tempo estava passando.
Talvez fosse culpa da política, ou talvez dele mesmo — exigente demais, contido demais e racional demais. Nenhuma mulher o prendia por inteiro.
Elas eram belas, inteligentes e admiráveis… mas nenhuma despertava aquela paz silenciosa que ele via nos casais de verdade.
E depois da festa de aniversário do seu afilhado — o pequeno Heitor, que fizera dez anos naquele mês —, algo dentro dele se moveu.
Ver o garoto apagando as velas, cercado pelos pais, o fez perceber o que lhe faltava.
Família. Lar. Talvez o riso de uma mulher, talvez o barulho de passos pequenos correndo por uma casa.
Foi então que, ao subir os degraus que levavam ao mezanino, ele a viu.
No topo da escada, uma jovem garçonete observava o salão com uma firmeza quase desconcertante.
Nada naquele olhar combinava com a timidez esperada de alguém em serviço — havia curiosidade, cálculo, e um lampejo de ambição crua.
Os olhos dela percorriam o salão até pararem em um ponto específico.
Paulo seguiu o olhar: o herdeiro da rede farmacêutica nacional, um rapaz bonito, arrogante e cercado de bajuladores.
Ele sorriu de canto.
— Ah, então é por isso — murmurou consigo mesmo, com ironia.
Por um instante, o observador que vivia dentro dele — o político, o estrategista — se lembrou do rapaz que fora.
Recordou-se das festas de juventude, das moças que o olhavam da mesma forma, e do quanto a vida parecia simples quando bastava ser notado.
Riu baixinho da lembrança, ajeitou o paletó e desceu de volta à multidão.
Cumprimentou aliados, trocou apertos de mão e ouviu promessas que não pretendia cobrar.
Quando avistou o prefeito conversando com outro secretário, decidiu se aproximar.
Foi nesse instante que o destino resolveu brincar com ele.
Uma bandeja surgiu entre os convidados — taças alinhadas da mais alta classe — e, atrás dela, a mesma jovem da escada.
Um homem mais velho, distraído com a conversa, esbarrou nela.
As taças tilintaram, e o champanhe voou em um arco dourado, respingando na camisa impecável de Paulo.
Por reflexo, ele segurou uma das taças antes que caísse.
Olhou para baixo — e encontrou o olhar cor de mel que o fitava de volta.
— Não se preocupe. — disse com calma, abrindo um sorriso breve. — Acho que ficou até melhor assim. — brincou apontando para a mancha em sua camisa.
A garçonete, porém, não sorriu.
Olhou para a própria roupa, agora manchada, e fez uma careta irritada.
Tirou um lenço do bolso e começou a limpar o tecido com vigor.
— Que ótimo! — murmurou, sem sequer olhar para ele. — Demorei um tempão pra comprar essa roupa de qualidade, e agora está toda estragada. Por sua culpa.
Paulo piscou, surpreso.
Não estava acostumado àquilo — ninguém falava com ele daquele jeito.
E, mais do que a ousadia, o divertiu o fato de ela estar genuinamente brava.
— Normalmente — disse, com um tom leve e curioso — as pessoas pedem desculpas antes de me culpar.
Ela levantou o rosto e o encarou com firmeza.
— Normalmente você não deve estragar roupas caras.
O sorriso dele se alargou.
Havia algo encantador naquela insolência.
Ela parecia não saber — ou não se importar — com quem estava falando.
E quando ela colocou a mão na cintura, impaciente, e perguntou:
— Como vamos resolver isso, hein? Eu não tenho uma segunda troca.
Paulo a olhou em silêncio por um instante.
Os olhos dela, aquele tom de mel que se tornava dourado sob as luzes do salão, tinham mais vida do que todo o evento reunido.
Pela primeira vez em meses, ele sentiu algo diferente: curiosidade.
Não pela moça da camisa manchada, mas pela mulher que o enfrentava.
— Acho que vamos ter que dar um jeito juntos. — disse, com um brilho discreto no olhar.
A mulher franziu o nariz, bufando com impaciência.
Tomou a taça da mão dele sem cerimônia e a colocou de volta na bandeja.
— Anda, vem comigo. — disse, já se afastando com passos decididos.
Paulo sorriu. Aquela era, sem dúvida, a primeira vez que alguém lhe dava uma ordem daquela forma em um evento político.
Curioso, seguiu-a.
Havia algo nela que destoava completamente do ambiente: a forma como andava, como não parecia pedir permissão para existir ali.
Passaram pelos corredores laterais até os balcões de serviço.
Ao chegarem, ela largou a bandeja no carrinho com um movimento brusco. As taças tilintaram, algumas trincando com o impacto.
O restante do champanhe escorreu em um filete dourado sobre o mármore.
Paulo ergueu uma sobrancelha, observando a cena com aquele meio sorriso controlado de quem se diverte com o inesperado.
— Você deveria ser mais delicada. — comentou.
Ela se virou de súbito, os olhos faiscando.
— O que você disse?
— Que esse é o seu trabalho. — respondeu, tranquilo. — Não devia realizá-lo com um pouco mais de delicadeza?
Ela riu alto, um riso debochado, sem pudor.
— E você sabe muito sobre isso, não é? Alguém sabe que você está aqui?
Ele inclinou levemente a cabeça, confuso.
— Como assim?
Sem esperar resposta, ela começou a desabotoar a camisa apressadamente.
Paulo, instintivamente, se virou de costas.
— Desculpe, eu não vi nada. — disse, de imediato.
— Sei que nunca viu uma mulher assim antes. — provocou ela, com ironia. — Dá pra ver pela sua postura, pela aparência… e pela falta de aliança.
Ele respirou fundo, tentando entender onde queria chegar.
— E o que tem de errado com a minha aparência? — perguntou, com calma.
— Você tem cara de bonzinho. — respondeu ela, com desdém. — Daqueles que todo mundo passa a perna.
Paulo encarou o teto, e respondeu em um tom reflexivo.
— Eu não me considero um homem bom. Sou só… um homem.
O som de tecido sendo esfregado era alto — ela tentava limpar a mancha na camisa com força, resmungando entre os dentes.
— Isso não me importa. — disse, impaciente. — Você veio com quem?
— Vim sozinho. — respondeu, sincero.
Ela riu, sarcástica.
— Eu quis dizer… quem te trouxe pra cá? É criado de qual deles?
Ele parou.
Por um instante, a pergunta o desarmou completamente.
— Eu pareço ser criado de alguém?
— Parece. — respondeu sem pensar. — Meio burro.
Paulo soltou um riso breve, sem se ofender.
Sentiu o rosto esquentar, não de vergonha, mas de diversão.
Era inacreditável — ele, o homem mais polido do salão, estava sendo insultado por uma garçonete… e gostando.
Ela continuava brava, cuspindo palavras afiadas, e ele apenas ouvia.
Naquele instante, Paulo Medeiros percebeu que não estava diante de uma moça qualquer.
Sem dizer mais nada, ele tirou o talão de cheques do bolso, assinou rapidamente e destacou uma folha.
— Com licença. — disse se virando e aproximando-se.
Tirou o próprio paletó e, com naturalidade, colocou-o sobre os ombros dela. Lutou contra os próprios olhos para não observar as costas nuas dela.
— Acho que vai precisar mais do que eu esta noite.
Ela arregalou os olhos, surpresa.
— O que está fazendo?
— Preciso voltar. — respondeu, ajeitando o paletó sobre ela. — Mas adorei nossa conversa.
Colocou o cheque no bolso do paletó.
— Acredito que esse valor cubra os danos que causei. Me perdoe pelo transtorno.
— Eu nunca cobraria nada de alguém mais lascado do que eu. — respondeu, seca. — Pode levar esse cheque.
Paulo sorriu.
— Qual o seu nome, se me permite saber, senhorita?
Ela hesitou, o encarando com desafio.
— Lorena.
— Lorena. — repetiu, como quem grava o nome na memória. — Quem sabe nos encontramos por aí novamente.
E, com a mesma serenidade com que chegou, Paulo se virou e caminhou de volta ao salão.
O som dos aplausos e das conversas o engoliu novamente — mas algo dentro dele havia mudado.
Pela primeira vez em muito tempo, um olhar o perseguia.
E não era o de um eleitor.
O salão já se esvaziava.
As risadas se dissipavam nos corredores do Copacabana Palace, misturadas ao som distante de taças sendo recolhidas.
Paulo ajeitou o paletó, despediu-se dos últimos colegas e seguiu pelo hall em busca de mais uma tortilha — talvez para enganar o estômago, talvez só para adiar o silêncio que o aguardava em casa.
Afrouxou a gravata. O rosto estava cansado, o corpo também.
Mas, quando levantou o olhar, o cansaço pareceu se afastar por um instante.
Ela vinha em sua direção.
A mesma garçonete de antes.
O rosto vermelho, o olhar baixo, a camisa ainda marcada pelo champanhe.
Mas, mesmo envergonhada, havia algo altivo na forma como caminhava.
Como se o orgulho dela, ferido ou não, ainda não tivesse aprendido a se curvar.
Paulo parou e soltou um leve sorriso de canto.
Ela hesitou, mordeu o lábio, e falou sem levantar o olhar:
— Me desculpe pelo meu comportamento, senhor secretário. Eu não agi como o meu normal.
Paulo a observou em silêncio por um momento.
Mesmo tentando se encolher, ela ainda irradiava uma energia diferente — viva e impulsiva.
O tipo de presença que não passa despercebida.
Ele sorriu, gentil:
— A noite foi longa. Você deve ter trabalhado bastante. Mas, mesmo assim, parece menos cansada que eu.
Ela ergueu o queixo, séria.
— Eu não posso me dar ao luxo de parecer cansada.
— Nem eu. — respondeu ele, com um suspiro leve. — Mas já perdi o hábito de fingir.
Ele o olhou, curiosa.
— Seu jeito de falar... você não é do Rio, né?
Ela arqueou as sobrancelhas, surpreso.
— E como percebeu?
— Pelo sotaque. — ele orgulhoso pela descoberta.
— Eu... sou de Minas. Ainda estou me esforçando pra melhorar meu vocabulário. — ela respondeu, com um meio sorriso tímido.
Paulo inclinou a cabeça, com um olhar que se suavizou.
— Eu acho linda essa sua forma de falar.
Ela o encarou, desconfiada.
— Está me cantando?
Ele riu, o riso baixo e sincero.
— Não. Só estou sendo cordial.
O salão estava quase vazio agora.
As luzes refletiam no chão de mármore, o silêncio voltando a dominar o espaço.
— Quer uma carona pra casa? — perguntou ele, com naturalidade.
Lorena desviou o olhar, segurando o próprio braço.
— Eu... eu não tenho casa.
Ele se manteve calado por um segundo.
— Está sozinha aqui?
— Sim. — respondeu ela, quase num sussurro.
Paulo inspirou fundo.
— Onde você está ficando? Peço pro meu motorista parar lá.
Ela abaixou a cabeça, claramente constrangida.
— Eu cheguei faz pouco tempo. Dos trabalhos que consegui, esse era o que pagava melhor... investi o que tinha em roupas. Moro num barraquinho.
Paulo sorriu de leve.
— E por que está envergonhada? — perguntou com voz calma. — Você está crescendo honestamente.
Depois de um instante de hesitação, ele fez um gesto sutil com a cabeça.
— Vem. No caminho você me conta onde fica.
No carro, ela passou o endereço — uma área pobre, distante.
Durante o trajeto, o constrangimento inicial deu lugar a uma conversa leve.
Paulo puxava assunto sobre a cidade, e Lorena, jovem e cheia de sonhos, falava dos lugares que queria conhecer, das praias que via apenas nas revistas, dos vestidos que um dia gostaria de comprar.
Ele a ouvia, interessado.
Não pela conversa em si, mas pela forma como ela falava: com brilho, com fome de vida.
Era o tipo de ambição que ele reconhecia — diferente da política, mas igualmente poderosa.
Quando o carro parou, diante de uma rua estreita e cheia de casas improvisadas, Paulo voltou a olhá-la.
— Foi bom conversar com você, Lorena. — disse, com ternura discreta. — Desejo muito sucesso.
Ela segurou a maçaneta, mas hesitou.
Depois se virou para ele, os olhos brilhando sob a luz fraca do poste.
— Senhor... eu não tenho muito estudo, mas tenho muita força de vontade. Eu poderia trabalhar pro senhor. Posso limpar a sua casa, qualquer coisa... por favor. — a voz dela saiu trêmula, quase num pedido de socorro.
Paulo a observou por um momento.
Via naquela moça o que já vira em muitos jovens sem oportunidade — mas também algo raro: determinação sem máscara.
Talvez o destino o tivesse colocado ali por um motivo.
— Hm... tudo bem. — respondeu, após um breve silêncio.
O sorriso dela surgiu rápido, mas Paulo notou que havia algo curioso nele — não era apenas alívio, era um sorriso travesso, quase juvenil.
Ele tirou um cartão do bolso da calça e oaentregou.
— Vá lá em casa amanhã, às dez da manhã. — disse com firmeza. — Vou conseguir algo pra você.
Ela pegou o cartão com cuidado, os dedos tremendo levemente.
Os cabelos castanhos caíram sobre o rosto, e, quando levantou os olhos, o sorriso se ampliou.
— Tenho certeza que vai sim. — respondeu, com uma confiança que Paulo não soube explicar.
Enquanto ela descia do carro, ele a acompanhou com o olhar até desaparecer na penumbra das vielas.
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