O CEO que Eu Paguei

108 A Rotina com Sabor de Despedida


Tomaram banho juntos. Mais do que isso — fizeram amor de novo como quem quer guardar na pele o calor do outro, Helena não abriu mão da camisinha agora, mesmo com Heitor argumentando que tinham acabado de fazer sem. Heitor foi lento e intenso. Beijava cada parte do corpo dela como se não fosse ter outra chance por dias. E Helena... Helena gemeu o nome dele com a voz baixa, colada nele, sentindo cada palavra que ele dizia no ouvido dela como uma promessa.

Quando saíram do banho, ela se arrumou para o trabalho. Calça de alfaiataria bege claro, uma camisa branca com os botões levemente abertos no colo, um cinto fino e o cabelo solto com as ondas domadas.

Heitor, de calça preta e camisa social azul-marinho dobrada nos antebraços, parecia um pecado pronto pra ser cometido outra vez.

— Vira um pouco, amor. — ele pediu com o celular em mãos.

— Você vai fazer o quê? — ela cruzou os braços, desconfiada.

— Só documentar esse evento raro que é você me dando o prazer de te ver pronta antes do horário.

— Idiota. — Mas virou. E posou.

Ele tirou várias fotos. Uma deles juntos, uma dela se maquiando no espelho. Outra da mão dela com o anel de compromisso.

Postou nos stories:

"Dama linda, dia lindo. Tô pronto pra sofrer de saudade em 3, 2, 1..."

No carro, ele segurava a mão dela o tempo inteiro. Colocou um pagodinho leve no fundo, só pra relaxar a tensão que já batia.

Quando chegaram no prédio, ela tentou sair primeiro, mas ele deu a volta e abriu a porta pra ela.

— Para, Heitor... — ela murmurou, rindo, sem jeito com os olhares curiosos.

— Vai ter que se acostumar. A mulher mais f0da que eu já conheci merece tratamento de rainha.

— Ai, você é muito exibido...

— E você é muito minha. Agora vambora, que o mundo precisa ver esse casal milionário de energia e sarcasmo.

No trabalho, mesmo cada um em sua sala, eles não paravam de trocar mensagens no Teams.

Heitor Monteiro: "Finge que tá digitando aí com essa mãozinha enquanto pensa em mim sem roupa."

Helena Ribeiro Campos: "Cuidado. Vou mandar você se concentrar no seu job igual eu falo com os estagiários."

Heitor Monteiro: "Pode me dar bronca... desde que depois você sente no meu colo e me explica com calma o que eu fiz de errado."

Ela revirava os olhos e sorria. Boba. Estava boba por ele.

Na hora do almoço, ele mandou outra mensagem:

Heitor Monteiro: "Partiu um último almoço juntos antes de eu ir?"

Helena encontrou com ele na porta do prédio. Foram até um restaurante mais reservado, charmoso. Conversaram, riram, se provocaram. Era tudo tão natural entre eles, como se os dois tivessem aprendido a respirar no mesmo ritmo.

Na saída, Heitor segurou a mão dela e tirou a chave do próprio bolso.

— Essa aqui é a da casa. Já deixei tudo preparado. Os nomes da Dona Olivia e o seu estão cadastrados na portaria. A Cidinha já tá ciente. Vocês só precisam aparecer.

Helena olhou para ele.

— Você pensou em tudo...

— Eu sempre penso em você.

— Vai dar tudo certo no Rio?

Heitor respirou fundo, um pouco mais sério agora.

— Vai. Porque você vai comigo. E porque é o certo. Mesmo se tiver gente que vá torcer o nariz.

Ela assentiu.

— Você cuida da gente, né?

Ele a encarou com ternura.

— Mais do que de mim mesmo, Helê.

Helena segurava o guardanapo entre os dedos, distraída, tentando não demonstrar a ansiedade que já apertava o peito. O almoço tinha sido leve, mas o sabor das últimas garfadas estava coberto por algo mais amargo: despedida.

— Vai querer sobremesa, amor? — Heitor perguntou, recostado na cadeira, com os olhos fixos nela.

— Tô de boa... — ela respondeu, fingindo um sorriso. — Se eu comer mais, vou precisar ser empacotada pra viagem.

Ele riu, aquele riso quente que sempre fazia o mundo parecer mais leve.

Foi então que o garçom apareceu, seguido por um motoboy uniformizado, equilibrando um buquê enorme de rosas vermelhas, uma sacola preta da Kopenhagen e uma caixa dourada com laço vinho.

Helena arregalou os olhos.

— Senhorita Helena Ribeiro Campos? — o motoboy perguntou.

Heitor se levantou e pegou tudo com um sorriso tranquilo. Voltou para a mesa, entregando para ela com a voz mais macia e quente do mundo:

— Isso aqui é pra você lembrar que, mesmo longe, eu sou seu. Todo seu.

Helena segurou o buquê como se fosse de cristal. O perfume doce das rosas invadiu o ar. Dentro da sacola, além dos bombons de chocolate ao leite em forma de rosa, havia um copo térmico vermelho com a inscrição “Você me aquece”.

— Heitor... — ela murmurou, com a voz embargada. — Eu nunca ganhei um buquê na vida...

— Agora ganhou. E vai ganhar muitos mais. — ele disse, sem tirar os olhos dela. — Porque eu adoro o seu rostinho... Os olhos castanhos que brilham quando você sorri, essas sardinhas espalhadas no nariz e nas bochechas... sua boca carnuda maravilhosa, o nariz fofo,arrebitado... o cabelo, que não é cacheado, nem liso, mas é como as ondas do mar... Não tem nada igual.

Helena ficou sem palavras. Sorriu, com os olhos já cheios. Ele tirou o celular e tirou uma foto dela segurando as flores.

— Agora sim. Essa vai pro meu novo papel de parede.

E antes que ela falasse qualquer coisa, ele se aproximou, segurou o queixo dela com delicadeza e a beijou. Um beijo que não era para impressionar. Era para marcar. Para lembrar.

Helena, meio atordoada, passou os dedos pelo rosto dele, sentindo cada traço.

— Você tem um rosto irritante de tão lindo, sabia? — ela resmungou. — Esses olhos gentis e expressivos, esse maxilar forte... esse nariz... essa boca tão bem desenhada… esse rosto masculino.

Ela afastou um pouco os cabelos dele e notou alguns poucos fios brancos.

— Quase 40 e essa pele boa de playboy. Só pode ser pacto.

Heitor sorriu, meio envergonhado, meio vaidoso.

— Vai zoar ou vai me elogiar mais?

— Os dois. Porque você é bonito de um jeito perigoso. — ela falou em tom baixo. — Seus olhos... parece que eles me veem por dentro. Me desarmam. E isso me dá um medo danado... mas, ao mesmo tempo... me dá uma paz absurda.

Ele a abraçou forte. Ela se encaixou no peito dele, como sempre. Como se aquele fosse o único lugar possível para existir. Sentiu o calor, o cheiro, o peso gostoso da presença dele. O tórax firme, os ombros largos, os braços que pareciam escudo e casa ao mesmo tempo.

Ela fechou os olhos. E sussurrou, com a voz carregada de tudo que não sabia dizer em palavras:

— Volta pra mim, tá?

Heitor apertou mais o abraço, passou a mão pelas costas dela com carinho e beijou o topo da cabeça.

— Eu vou, minha namorada. Mas cê vai me encontrar lá primeiro.

Ela assentiu. E mesmo com o peito apertado, ela sorriu.

— No Rio, então.

— No Rio. E depois... no mundo todo, se você quiser.

Ele a olhou com ternura. Depois a beijou de novo, lento. Carinhoso. Demorado. Helena fechou os olhos, tentando memorizar aquele momento. Porque sabia: por mais que a distância fosse curta — o coração dela já ia começar a gritar de saudade.

Helena sentia o mundo estreitar ao redor. As pessoas passavam pela calçada, carros buzinavam na rua ao lado, mas para ela, só existia o homem à sua frente. O homem que a fazia rir, brigar, gozar, sonhar. E agora… iria partir.

Ela segurava o buquê com uma das mãos e a sacola da Kopenhagen com a outra, mas deixou tudo sobre o banco ao lado quando viu Heitor ajeitar a mochila nos ombros. O peito dela apertou.

— Espera aí — ela disse, abrindo a bolsa grande e puxando um travesseiro de pescoço azul-marinho, ainda embalado.

Heitor arqueou a sobrancelha, divertido.

— Qual foi, vai me mimar agora?

— Cala a boca, Heitor. — Ela desembrulhou o acessório e entregou. — Você vai pegar aquele avião em cima da hora, vai dormir torto e depois reclamar que tá com dor no pescoço. Usa isso.

Heitor segurou o apoio com um sorriso surpreso. Ela continuou.

— E leva essa garrafinha. — tirou uma de alumínio da mochila, cheia de água gelada. — Não vai ficar desidratado. E não esquece de tirar o sapato no avião, senão depois pode ficar inchado.

Heitor a olhava como quem não queria piscar.

— Você tá falando como se eu fosse um bebê.

— E você é. — ela rebateu, ajeitando o colarinho da camisa dele com os dedos. — Um bebê de quase 40 anos que só anda direitinho porque tem alguém de olho.

Ele riu baixo e encostou a testa na dela. Ela aproveitou para ajeitar os cabelos dele com carinho, passando os dedos devagar. Helena sempre foi prática, direta, mas eram nesses detalhes — um travesseiro, uma garrafinha, um toque nos cabelos — que ela dizia o que nunca teve coragem de colocar em voz alta.

— Tem mais alguma recomendação, senhorita minha namorada? — ele provocou, a voz rouca.

— Tenho. — ela segurou o rosto dele com as duas mãos, os polegares acariciando suas bochechas. — Me avisa quando pousar. E não some. Mesmo que esteja cansado. Nem que seja só um “cheguei”.

Heitor assentiu devagar, os olhos cravados nos dela.

— Eu prometo.

Ela mordeu o lábio, hesitou, e então o abraçou forte. Tão forte quanto podia. Como se quisesse gravar o corpo dele em cada parte do seu.

Ele a envolveu completamente. O cheiro dela, o som da respiração, o toque quente da nuca... Tudo nele doía em querer ficar.

Mas o relógio era cruel.

— Eu tenho que ir. — ele disse, com a voz mais baixa que já usara.

Helena fechou os olhos. Ficou quieta. Não respondeu. Só assentiu, sem soltar o abraço.

— Vai me deixar sair? — ele sussurrou.

— Não quero. — ela respondeu.

E por um instante, ele pensou em desistir da viagem. Pensou em dizer que o Rio podia esperar. Que a Monteiro Inc não era tão importante quanto o que sentia por ela.

Mas ele sabia que se quisesse dar a ela o mundo, ele precisava continuar sendo o homem que constrói um império com as próprias mãos.

Ela deu um passo para trás, finalmente, mas segurou a mão dele até o último segundo.

— Se cuida. — ela disse, a voz trêmula.

— Se cuida você, Helê.

Ele se inclinou, beijou sua testa com ternura e depois a boca, em um beijo calmo e cheio de promessas silenciosas.

Quando virou de costas e se afastou, Helena sentiu a ausência dele como uma sombra arrancada. Apertou o buquê contra o peito e respirou fundo.

Nunca tinha sido tão difícil dizer “até logo”.