Heitor dormiu tarde, mas a ansiedade o tirou da cama cedo. Abriu os olhos e, no segundo seguinte, o pensamento era o mesmo desde que conheceu Helena: ela.

Se levantou com o corpo cansado, mas o espírito aceso.

Tomou um banho frio, barba feita, cabelo penteado. Escolheu a camisa de linho vermelho escuro com os botões em madeira — a que destacava o tom de pele e o olhar azulado. Vestiu a calça social preta feita sob medida, sapatos italianos impecáveis e finalizou com o relógio mais caro que trouxe na viagem — discreto, mas impossível de ignorar. Se perfumou. Não o de sempre. Hoje era o dia. Um cheiro mais amadeirado, mais forte. Marcante.

Antes de sair, abriu o navegador no celular. Pesquisou joalherias na cidade. Passou em todas. Nenhuma servia.

“Nada contra elas, mas Helena merece peso. O tipo de presente que faz a cidade inteira comentar.”

Decidiu: no sábado, levaria Helena para Uberlândia. Já tinha visto uma loja conceituada. Deixou escapar um sorriso idiota. “Vai ser engraçado ver ela provando os brincos, depois os colares, tentando disfarçar que gostou só porque não queria parecer deslumbrada.”

“Essa mulher vai me matar.”

Passou na padaria nova que tinha gostado. Pediu dez pães de queijo quentinhos, um copo grande de suco natural de laranja e um Kinder Bueno. A moça embalou tudo. Ele pagou e agradeceu com aquele charme automático.

Seguiu para a empresa com o vidro do carro fechado, mas o coração escancarado. Helena tinha pedido a ele algo simples, com um olhar que desmontava qualquer um. E Heitor… Heitor estava perdido. Completamente. Só não dizia em voz alta porque ainda doía reconhecer isso.

“Fudeu.”

Pensou, encostando a cabeça no banco antes de sair do carro.

“Justo eu... Que sempre me controlei pra não sentir demais. Agora? Agora eu tô pensando em aliança. Em casa. Em avó. E em colar no pescoço.”

Respirou fundo. “Concentra, Heitor.”

“Aqui se faz, aqui se paga. Eu nunca brinquei com o coração de ninguém, nunca quis me envolver, todas sabiam. Mas, eu sei que elas tinham esperança.”

Ele abriu a foto de Helena no WhatsApp, coração bateu mais forte.

— Porque isso Deus? Será que é justo eu passar por isso? — ele murmurou para si mesmo indignado — Tô lascado. Acho que tô apaixonado.

Entrou no prédio com a postura de sempre — impecável, sério, imponente. Mas por dentro... ele fervia.

Assim que pisou no andar da Plano & Forma, Gaspar já veio ao seu encontro.

— Doutor Heitor, bom dia! Sobre a reunião, eu só queria alinhar...

Heitor olhou o relógio.

— Vai começar em três minutos, Gaspar. A gente fala enquanto caminha.

Gaspar andava do lado, meio trotando atrás dele, ansioso.

— É que, só pra garantir, seria bom eu saber qual a pauta exata. Porque se envolver...

— Gaspar — Heitor nem olhou pra ele. — Você tá aqui pra reforçar o que eu disser. Relaxa. Vai ser tranquilo.

Gaspar fez que sim, mas o rosto dizia o contrário.

A porta da Plano estava aberta. Clara já de pé.

— Estou indo pra sala de reunião. — disse ela, com um sorrisinho contido.

Heitor acenou em aprovação.

E então viu.

Helena.

O mundo inteiro dele parou.

Cabelo preso num coque despretensioso, mas com mechas soltas que emolduravam o rosto como se fossem planejadas. Um vestido preto até abaixo do joelho, justo no corpo certo, nas curvas que ele conhecia tão bem. Nos lábios, batom suave. E no pescoço... mesmo com maquiagem, ainda dava pra ver as marcas. Marcas que ele tinha deixado.

“Essa mulher é um perigo.”

O coração dele começou a bater mais devagar — e mais forte. Gaspar ainda falava, mas era como um ruído distante. Heitor nem escutava. Só via ela.

Foi direto à mesa dela. Colocou o copo de suco na frente. Depois o saco de papel com os pães de queijo. Por fim, o Kinder Bueno.

Helena franziu o cenho.

Ele jogou a sacola no lixo ao lado. E antes que ela sequer abrisse a boca para perguntar o que era aquilo, Heitor virou o rosto dela com delicadeza e beijou sua boca.

Um beijo rápido. Mas inteiro.

Helena congelou. O cérebro dela não conseguiu processar em tempo real. A sala parou.

Gaspar travou uma palavra no meio.

Clara derrubou uma caneta.

Um outro funcionário do canto quase deixou cair o copo de café.

Heitor se afastou, natural. Como se tivesse apenas cumprimentado alguém com um aperto de mão.

— Vamos, gente. A reunião é agora. Clara, Gaspar, vocês vêm comigo.

Eles assentiram como robôs mal programados.

Heitor caminhou até a porta da sala de reunião sem olhar para trás.

Mas por dentro?

Por dentro ele ria.

Porque agora não tinha mais volta.

Heitor sentou-se à cabeceira da sala como quem já nasceu naquela cadeira. O terno bem ajustado, a camisa de linho vermelho escuro contrastando com o brilho sóbrio do relógio. O olhar tranquilo. A coluna ereta. O corpo relaxado, mas carregado de intenção.

Clara tentava, sem muito sucesso, conectar o HDMI no notebook. Gaspar estava calado, como se soubesse que qualquer palavra fora do tom poderia custar caro.

— A equipe da Plano vai entrar via Teams, como o senhor pediu — disse Clara, meio sem fôlego, enquanto ajeitava o fio.

— Ótimo. Seja ágil. Tenho pressa. — A voz de Heitor saiu firme, mas sem elevação.

O telão acendeu. Apareceu o rosto de Eduardo Moreira — coordenador da Plano & Forma, responsável direto pelo contrato com a Monteiro Inc.

— Bom dia, pessoal! — cumprimentou com aquele tom animado demais, típico de quem tenta manter o clima leve em reuniões formais.

— Bom dia, Dudu. — Heitor respondeu sem sequer olhar o telão, apoiando um dos braços na mesa, os dedos batendo levemente. O apelido usado de propósito. Desestabilizador. Colocava o outro no lugar certo da hierarquia: abaixo dele.

— Olha só, quanto tempo, hein? — Eduardo tentou rir. Clara e Gaspar ficaram imóveis.

Heitor levantou o olhar devagar, só então encarando a tela.

— Chamei essa reunião para evitar mal-entendidos. Acho melhor sermos claros agora do que lidarmos com especulação e fofoca depois.

O silêncio foi imediato. Eduardo pareceu confuso.

— Claro... estamos aqui pra isso. A equipe tem entregado os cronogramas, os ajustes do projeto seguem — começou a listar. Heitor o cortou com uma piscadela suave dos olhos e um pequeno levantar de mão.

— O trabalho da Plano tem sido bom. Tenho minhas observações sobre processos, mas isso fica para outra hora. O que quero comunicar hoje é mais… pessoal. E institucional ao mesmo tempo.

Eduardo franziu o cenho.

— Certo…

Heitor entrelaçou os dedos sobre a mesa, como quem ia ditar uma sentença.

— Estou me relacionando com uma funcionária da Plano & Forma.

O silêncio caiu como uma bomba.

Clara travou o notebook.

Gaspar desviou o olhar.

Eduardo piscou algumas vezes.

— Perdão? — soltou, rindo sem graça. — Pode repetir, por gentileza?