Heitor estava há quase quinze minutos olhando para o mesmo relatório.

A folha permanecia aberta sobre a mesa, perfeitamente alinhada com o restante dos documentos, exatamente como ele gostava de deixar. Havia números, cronogramas, gráficos, projeções financeiras... normalmente ele teria encontrado algum erro nos primeiros dois minutos.

Naquele dia, porém, sequer sabia sobre o que aquele relatório tratava.

A caneta girava lentamente entre seus dedos, num movimento automático. De vez em quando ele parava, apoiava a ponta da caneta sobre a mesa, respirava fundo e voltava a girá-la outra vez.

Suspirou pelo nariz.

Droga.

Não conseguia se concentrar.

Levantou-se da cadeira e caminhou até a enorme janela do escritório. Lá de cima, a cidade parecia funcionar exatamente como sempre. Pessoas entrando e saindo da Monteiro Inc., caminhões descarregando materiais na obra ao lado, carros atravessando a avenida sem imaginar que, trinta e nove andares acima, o dono daquela empresa estava completamente incapaz de pensar em concreto, aço ou dinheiro.

Tudo o que sua cabeça conseguia fazer era voltar para a mesma conversa.

Pela centésima vez.

Ele e Helena nem estavam brigados.

Isso era o pior.

Tinham feito as pazes.

Ou, pelo menos, tentado.

Na madrugada anterior, ela o acordou bem devagar. Heitor ainda lembrava da sensação dos dedos dela fazendo carinho em seus cabelos enquanto pedia desculpas baixinho, quase como se tivesse medo de acordar Humberto no moisés ao lado. Ela explicou novamente por que decidiu procurar Viviane, contou sobre a conversa, sobre o bebê, sobre tudo o que sentiu ao ver o vídeo do Augusto. Ele também pediu desculpas pela forma como reagiu. Abraçaram-se. Conversaram durante muito tempo. Depois acabaram dormindo um agarrado ao outro, como quase sempre acontecia.

Naquela manhã, antes de sair para a empresa, Helena ainda o acompanhou até a porta. Arrumou a gravata dele do jeito que só ela fazia, reclamou de um fio de cabelo que insistia em ficar fora do lugar, deu dois selinhos demorados e sorriu daquele jeitinho que sempre desmontava qualquer resistência que ele tentasse criar.

Ela ainda estava na porta quando ele entrou no carro.

Quem olhasse aquela cena juraria que estava tudo bem.

Mas não estava.

Porque bastava fechar os olhos para a mesma sensação voltar.

Aquela maldita sensação de que alguma coisa tinha se quebrado.

Não era por causa da conversa com Viviane. Ele nunca diria que gostou da ideia, mas entendia perfeitamente por que Helena tinha ido procurá-la. Aquela mulher enxergava pessoas onde todo o resto do mundo enxergava problemas. Helena conseguia olhar para alguém completamente destruído e ainda procurar alguma coisa boa ali dentro.

Ele admirava isso. Sempre admirou.

O problema era outro.

Ela foi e ainda tinha levado Humberto. E não contou para ele.

Nem antes e nem depois.

Ele só descobrira no dia seguinte, durante uma conversa completamente comum, quando Helena comentou aquilo com a maior naturalidade do mundo.

"Pois é, fiquei surpresa em ver como a Viviane está, muito abatida. Ela pareceu mais feliz quando viu o Humbertinho."

Heitor lembrava exatamente do instante em que ouviu aquela frase.

Lembrava da sensação do estômago afundando. Do sangue parecendo subir de uma vez. Do coração acelerando muito mais pelo susto do que pela raiva.

Depois de tudo o que Antônio fez, depois da invasão na maternidade, depois da Ana Alice, depois do hospital e depois da promessa que fizeram um ao outro.

"Nunca mais vamos esconder esse tipo de coisa."

Foi Helena quem propôs aquela promessa. E, mesmo sem perceber, tinha sido a primeira a quebrá-la.

“Eu estava com o Oséias.”

A justificativa dela ainda ecoava em sua cabeça.

Como se isso resolvesse alguma coisa.

Na verdade, só piorara.

Porque Oséias também não o avisou.

O homem que ele escolheu justamente para proteger Helena e Humberto sabia onde eles estavam... e, ainda assim, ninguém achou importante comunicar aquilo ao noivo e pai da criança.

Heitor apoiou as duas mãos sobre o parapeito da janela e abaixou a cabeça.

A verdade era que ele nem sabia mais por que estava tão chateado.

Talvez fosse porque, durante algumas horas, Helena e Humberto estiveram em um lugar que ele jamais imaginaria procurá-los caso alguma coisa acontecesse. E esse pensamento fazia seu peito apertar.

Sem querer, sua memória voltou para o hospital.

Helena correndo desesperada pelos corredores, os olhos vermelhos, a voz falhando ao chamá-lo e o abraço que ela lhe deu quando finalmente o encontrou.

Ele já tinha sentido exatamente o que era não saber onde a pessoa que você ama estava. Ele já tinha vivido aquele desespero. Era justamente por isso que ele acreditava que ela entenderia.

Mas, quando tentou explicar, tudo saiu errado.

"Você está sendo controlador."

A frase ainda doía.

Porque não era aquilo que ele queria ser.

Nunca.

Ele conhecia homens controladores. Homens que decidiam a roupa da esposa. Com quem ela podia conversar. Onde podia ir. Que amigos podia ter.

Ele desprezava esse tipo de homem.

E, desde que Helena entrou em sua vida, fazia um esforço consciente para jamais ultrapassar essa linha.

Nunca a proibiu de nada e nunca iria.

Nunca.

Só queria saber onde ela estava.

Principalmente agora. Principalmente depois de tudo. Principalmente quando o filho deles estava junto.

Heitor passou as mãos pelo rosto devagar e soltou outro suspiro cansado.

Era esse pensamento que não o deixava trabalhar.

Nem dormir.

Nem respirar direito.

Porque, desde que Helena e Humberto entraram em sua vida, havia descoberto uma verdade inconveniente: Não tinha medo da própria morte. Tinha medo da deles.

Heitor pegou o celular que estava no bolso e o girou entre os dedos. A tela continuava apagada. Bastava desbloqueá-la, abrir a conversa com Helena e mandar uma simples mensagem.

"Como você está?"

Era fácil.

Ou ligar. Ou inventar qualquer desculpa idiota para ouvir a voz dela.

Ele fechou os olhos por um instante e apoiou a cabeça na cadeira.

Droga.

Queria explicar melhor o próprio lado. Queria que Helena entendesse que aquilo nunca tinha sido sobre controlar a vida dela. Nunca seria. O problema era outro. Era o medo. Era o desespero de imaginar que alguma coisa pudesse acontecer com ela e com Humberto sem que ele sequer soubesse onde procurar.

Só que trazer aquele assunto de volta seria como arrancar uma ferida que ainda estava tentando cicatrizar.

Mesmo assim...

Ainda doía e era justamente isso que o incomodava.

O toque agudo do telefone sobre a mesa interrompeu seus pensamentos.

Heitor demorou alguns segundos para atender. Estava tão mergulhado na própria cabeça que quase deixou a ligação cair.

Pegou o aparelho.

— Sim?

— Senhor Monteiro, estou ligando para lembrar da visita à obra do Edifício Horizonte Empresarial. — A voz educada de Verônica soou do outro lado da linha. — O carro já está à disposição quando o senhor desejar sair.

Heitor ergueu o pulso automaticamente e olhou o relógio.

Vinte minutos.

Passou os dedos pelas têmporas, massageando-as devagar.

Nem tinha percebido o tempo passar.

— Eu já estava finalizando por aqui para descer. — mentiu com naturalidade.

Seu olhar voltou, quase sem querer, para o celular pessoal sobre a mesa.

— Chegou alguma coisa para mim?

— Alguma correspondência específica?

— Não... — respondeu com um meio sorriso que só ele entendia. — Foi só curiosidade.

Verônica pareceu estranhar, mas não comentou.

— Então nos encontramos na volta. Até mais, senhor.

— Até mais.

Assim que desligou, Heitor continuou olhando para o celular por mais alguns segundos.

Parte dele ainda esperava encontrar alguma mensagem de Helena. Um áudio. Uma foto do Humberto. Qualquer coisa.

Deu um meio sorriso sozinho.

Conhecia a mulher que tinha em casa.

Helena demonstrava amor cozinhando, organizando a gravata dele, escolhendo suas camisas, fazendo carinho em seus cabelos enquanto ele dormia. Mensagens românticas durante o expediente definitivamente não faziam parte do repertório dela.

Guardou o celular no bolso do paletó e finalmente se levantou.

Já tinha perdido tempo demais.

Ao sair da sala, encontrou Verônica organizando alguns documentos sobre a mesa da recepção.

— Senhor Monteiro.

Ele parou e voltou o rosto para ela.

— Depois da visita, o senhor retorna para o escritório ou podemos considerar a agenda encerrada?

Heitor pensou por um instante.

— Eu volto. — ajeitou discretamente o punho da camisa. — A obra não deve tomar muito tempo, mas não marque mais nenhuma reunião para hoje.

Verônica fez uma rápida anotação.

— Pode deixar.

Ele apenas assentiu e seguiu pelo corredor.

O elevador chegou quase imediatamente. Enquanto descia, observou o reflexo no espelho das portas metálicas. Estava com uma aparência cansada. Dormiu pouco. Pensou demais.

Quando as portas se abriram no térreo, encontrou a empresa ainda decorada com parte dos enfeites do Dia dos Pais. Algumas crianças haviam deixado desenhos espalhados pelo hall, e um funcionário ainda retirava balões azuis presos às colunas.

Um sorriso involuntário surgiu em seus lábios.

Aquele evento foi maravilhoso e principalmente o domingo dele.

Lembrou-se de Humberto gargalhando enquanto tentava puxar sua barba, das mãozinhas batendo em seu rosto para acordá-lo, do café da manhã preparado por Helena e da emoção ao abrir os presentes.

Só de pensar no filho, seu peito aquecia.

O Dia das Crianças prometia ser ainda mais divertido.

Humberto já estaria maior, mais curioso, provavelmente engatinhando pela empresa inteira.

Aquele pensamento foi suficiente para aliviar um pouco o peso que carregava desde a manhã.

Seguiu direto para o estacionamento, um andar abaixo do térreo. O ronco grave do carro ecoou assim que ligou o motor e, poucos minutos depois, deixou a garagem da Monteiro Inc., seguindo em direção ao Horizonte Empresarial.

O trabalho continuava. Mas sua cabeça, ele já sabia, continuaria voltando para casa até o fim do dia.

Heitor chegou ao edifício em menos de meia hora, fora do horário previsto, mas era uma margem de atraso tolerável. A estrutura principal já estava pronta e boa parte do acabamento também. A fachada de vidro refletia o céu do Rio de Janeiro, e dezenas de profissionais ainda circulavam pela obra, cada um concentrado na própria tarefa.

A visita não estava na agenda de ninguém. Na verdade, era exatamente assim que ele preferia.

Se avisasse antes, encontraria corredores limpos, capacetes alinhados e chefes preocupados demais em impressioná-lo. Gostava de ver a empresa funcionando como realmente funcionava.

Estacionou a SUV, desligou o motor e retirou os óculos escuros. Ficou alguns segundos olhando para eles antes de colocá-los no console central.

Helena.

Ela havia comentado que tinha deixado a receita de um em uma loja dois dias atrás. Só de imaginar aqueles cachos volumosos caindo pelos ombros e os óculos delicados em seu rosto, um sorriso escapou sem autorização.

Ela provavelmente ficaria linda.

Como sempre.

Balançou a cabeça, rindo sozinho.

— Concentra, Heitor.

Saiu do carro, fechou a porta e caminhou em direção ao acesso principal da obra.

Nem precisou entrar para ouvir alguns funcionários conversando próximos a um monte de blocos.

— Tu ficou sabendo do Marciel? — perguntou um deles enquanto limpava as mãos na calça.

— Não. Que que teve?

— Rodou.

— Tá de sacanagem...

— Tô falando sério. Ontem mesmo mandaram ele embora.

O outro assoviou baixo.

— Caralho... achei que aquele maluco tava garantido. Trabalhava direitinho.

— Aqui não tem garantido, não, parceiro. O Ícaro escolhe quem vai embora, manda o nome pro RH e acabou. Os cara nem pensa duas vez.

— Aí é foda... desse jeito ninguém fica tranquilo pra trabalhar.

O primeiro deu de ombros.

— Eu já tô fazendo entrevista na +Rio Construções. Se aparecer coisa melhor, eu meto o pé.

Heitor diminuiu o passo. A conversa fez seu semblante mudar discretamente.

Ícaro era coordenador de operações. Desde quando um coordenador decidia sozinho quem seria demitido?

Aquilo definitivamente merecia atenção.

Ele se aproximou dos dois trabalhadores.

— Boa tarde, senhores.

Os dois levantaram a cabeça ao mesmo tempo.

— Opa! Boa tarde, chefe. Tá procurando alguém?

— Estou procurando o engenheiro responsável pela obra. Ele está por aqui?

Um dos pedreiros apontou para cima.

— O Givaldo? Tá lá no décimo sexto, conferindo umas parada. Se quiser, chamo ele no rádio.

— Se puder, agradeço.

O rapaz pegou o rádio preso ao cinto, mas antes perguntou:

— Qual é o nome do senhor?

Heitor respondeu com naturalidade.

— Heitor Monteiro.

O homem apenas assentiu.

— Beleza.

Levou o rádio até a boca.

— Givaldo, Givaldo... tem um senhor Heitor Monteiro aqui querendo falar contigo na entrada. Câmbio.

Alguns segundos depois veio a resposta chiada.

— Tô descendo.

— Pronto, meu patrão. Já tá vindo.

— Obrigado.

— Nada.

Os dois voltaram a conversar entre si como se absolutamente nada tivesse acontecido.

Heitor precisou desviar o rosto para esconder o sorriso.

Era oficial. Ninguém mais sabia quem eram os donos da empresa.

Anos atrás aquilo seria impossível. Hoje, principalmente nas obras das grandes capitais, boa parte dos funcionários jamais tinha visto uma fotografia dele ou de Renato e principalmente de Afonso. Para muitos, "Monteiro" era apenas o nome estampado nas placas dos empreendimentos.

E, pensando bem...

Helena também não fazia ideia de quem ele era quando o conheceu.

Sorriu ao lembrar daquela fase.

Ela havia literalmente arrastado o dono da Monteiro Inc. para um hotel, brigado com ele, dado ordens, discutido, chamado de convencido... tudo isso sem desconfiar nem por um segundo de quem ele era.

Talvez fosse exatamente por isso que aquela lembrança ainda o divertisse tanto.

No fim das contas, percebeu que as pessoas simplesmente trabalhavam, viviam suas vidas e raramente prestavam atenção nos rostos da alta diretoria, principalmente quando se tratava de alguém de outra filial.

E, sinceramente...

Ele até gostava que fosse assim. Afinal, era justamente por isso que conseguia visitar uma obra como qualquer outro homem, ouvir conversas que jamais ouviria se chegasse anunciado como o presidente da empresa.

Era uma pena que aquele programa Chefe Secreto tivesse acabado. Sempre achou interessante a ideia de ver como as pessoas realmente trabalhavam quando não sabiam quem estava observando. Talvez, se um dia tivesse tempo, até fizesse algo parecido dentro da Monteiro Inc.

Sorriu sozinho com o pensamento.

Não demorou muito para um homem aparecer saindo de dentro do edifício. Caminhava rápido, desviando de pilhas de material com a facilidade de quem conhecia cada metro daquela obra. Vestia o capacete branco de engenheiro, um colete refletivo já marcado pelo uso diário e carregava uma prancheta debaixo do braço.

Assim que se aproximou, estendeu a mão.

— Opa! O senhor que pediu pra falar comigo?

— Fui eu mesmo. Tudo certo?

— Tudo certo. — O homem sorriu. — Givaldo. Sou o engenheiro responsável pela obra. Em que posso ajudar?

Heitor apertou sua mão com firmeza e fez um gesto discreto para os lados.

— Gostaria de conhecer a obra. Aproveitar para conversar um pouco com você.

O engenheiro assentiu, mas logo seu semblante ficou um pouco mais sério.

— Claro, sem problema nenhum. Só que, por política da empresa, preciso registrar a entrada de qualquer visitante. O senhor tá representando algum cliente? Investidor... alguma fiscalização?

Heitor levou a mão ao bolso interno do paletó.

— Estou, sim. Um instante.

Retirou uma carteira de couro preta e a abriu apenas o suficiente para exibir o crachá corporativo.

O olhar de Givaldo desceu automaticamente.

HEITOR MONTEIRO

CEO

Por um breve instante, o engenheiro simplesmente parou de respirar.

Piscou várias vezes.

Como se estivesse tentando entender se realmente havia lido aquilo direito.

Ergueu lentamente os olhos para o homem à sua frente, comparando o rosto com a fotografia do crachá.

— Senhor... Monteiro?

Heitor fechou a carteira com tranquilidade e guardou-a novamente.

— Imagino que você não estivesse me esperando.

Givaldo soltou uma risada completamente sem graça e passou a mão na nuca.

— Rapaz... nem de longe. Desculpa aí, doutor. Eu realmente não fazia ideia de quem o senhor era.

— Ainda bem.

A resposta fez o engenheiro franzir a testa.

Heitor sorriu.

— Quando ninguém sabe quem eu sou, consigo enxergar a empresa de verdade.

Aquilo pareceu aliviar um pouco a tensão de Givaldo, que acabou sorrindo também.

— Então o senhor escolheu o pior jeito possível de visitar uma obra. O pessoal fala o que vem na cabeça.

— É justamente por isso que eu gosto de vir sem avisar.

Os dois trocaram um sorriso rápido.

— Vamos? — perguntou Heitor, olhando para o prédio já quase concluído. — Quero conhecer tudo.

— Claro. Vem comigo.

Givaldo assumiu a dianteira e os dois seguiram para o interior da obra. Enquanto caminhavam pelos corredores ainda tomados pelo cheiro de concreto fresco, tinta e madeira recém-cortada, o engenheiro ia explicando cada etapa do projeto. Mostrava os apartamentos-modelo, falava sobre os acabamentos, o cronograma de entrega e os pequenos ajustes que ainda seriam feitos antes da vistoria final.

Nos primeiros minutos, insistia em chamar Heitor de "doutor" a cada frase. Era visível o esforço para parecer impecável diante do CEO da empresa. Mas Heitor fazia questão de responder de maneira simples, interrompia para fazer perguntas técnicas, comentava detalhes da execução e, aos poucos, a tensão foi desaparecendo. Logo a conversa já parecia a de dois profissionais debatendo uma obra, e não a de um funcionário tentando impressionar o dono da empresa.

Foi então que Heitor parou no meio do corredor.

Olhou para o próprio corpo, depois para o ambiente ao redor e soltou uma risada abafada.

— Givaldo...

O engenheiro virou imediatamente.

— Pois não, doutor?

Heitor abriu os braços, mostrando o paletó.

— Eu quero muito continuar essa visita, mas tem um pequeno problema.

— Qual?

— Eu tô completamente sem equipamento de proteção.

Por um segundo, Givaldo apenas encarou o CEO.

Depois arregalou os olhos.

— Caraca... é mesmo! — levou a mão à testa. — Me desculpa. Eu fiquei tão nervoso que esqueci completamente.

Heitor deu uma risada.

— Relaxa, mano. Acontece. Vamos ali pegar um capacete antes que o pessoal da Segurança me expulse da minha própria obra.

Os dois seguiram até a sala onde ficavam os equipamentos de proteção. Um técnico entregou o colete refletivo, o capacete e pediu que aguardasse enquanto buscava uma botina.

Assim que segurou o capacete nas mãos, Heitor sorriu sozinho.

A lembrança veio instantaneamente de outra obra, outro capacete e principalmente de uma pessoa completamente irritada com ele.

Quase conseguia ouvir a voz de Helena.

"Segurança em primeiro lugar."

Ela dizia aquilo com uma seriedade quase engraçada. Vestia a calça cáqui impossível de se esquecer, botas de segurança, colete refletivo e os cachos presos de qualquer jeito debaixo do capacete. Tentava parecer totalmente profissional, mas bastava ele provocá-la um pouco para suas bochechas ficarem vermelhas.

Sorriu ao lembrar.

Naquele dia, ela tinha fechado o fecho do capacete dele, entre as pernas dele, com uma desculpinha barata que ele não tinha feito direito.

Hoje tinha certeza de que ela sabia muito bem que ele era perfeitamente capaz de prender o próprio capacete.

Ela só queria uma desculpa para tocá-lo.

E, se fosse completamente honesto consigo mesmo...

Ele também tinha inventado várias desculpas para permanecer perto dela naquela visita.

— Seu número de calçado? — perguntou o funcionário da segurança.

Heitor voltou ao presente.

— Quarenta e quatro.

Enquanto o homem se afastava para buscar a botina, outra lembrança arrancou um sorriso dele.

Helena parada exatamente como aquele funcionário, de costas para ele, consultando a caixa em cima da caminhonete.

Ela estava tão concentrada no trabalho que nem percebia o quanto era bonita. Naquele dia ainda não eram um casal, nem namorados, ela nem tinha coragem de admitir a química absurda que existia entre os dois. Mas ela já ocupava espaço demais na cabeça dele.

E, pelo visto… Continuava ocupando.

Heitor passou a mão pelo bolso do paletó, sentindo o celular.

Suspirou.

Chega.

Orgulho tinha limite.

Assim que terminasse aquela visita, ligaria para Helena.

Não para discutir. Não para voltar ao assunto.

Só queria ouvir a voz dela.

Enquanto caminhavam pelos últimos andares da obra, Heitor passou a fazer perguntas que, para qualquer pessoa, pareciam apenas curiosidade de quem gostava de acompanhar o trabalho de perto. Na verdade, eram perguntas cuidadosamente escolhidas.

— Há quanto tempo você está nessa obra?

— Duas semanas.

Heitor voltou os olhos para ele.

— Só isso?

— Sim. Entrei na empresa faz duas semanas também.

Aquilo chamou sua atenção imediatamente.

— Você já assumiu como responsável por uma obra desse porte?

Givaldo deu um sorriso sem graça.

— Foi um voto de confiança da empresa. Eu estava em outra construtora antes.

Heitor apenas assentiu.

Continuou caminhando em silêncio por alguns metros antes de fazer outra pergunta.

— E o restante da equipe?

— Quase todo mundo é novo também.

— Quase todo mundo?

— É...

Givaldo coçou discretamente a barba.

— A maioria entrou junto comigo.

Aquilo definitivamente não era normal.

Uma obra daquele tamanho, em fase final, costumava ter uma equipe experiente. Trocar praticamente todo o quadro operacional às vésperas da entrega era uma decisão extremamente arriscada.

Heitor manteve a expressão neutra.

— E as demissões? Sabe por que aconteceram?

O engenheiro balançou a cabeça quase imediatamente.

— Não faço ideia.

A resposta veio rápida demais.

Heitor não deu importância. Era natural que um funcionário recém-contratado realmente não soubesse o histórico da equipe.

Continuou andando.

— Quando eu cheguei, ouvi dois pedreiros comentando que um deles está fazendo processo seletivo na +Rio Construções.

— Tá acontecendo bastante.

— É?

— Sim. — Givaldo deu de ombros. — A Monteiro continua sendo uma empresa excelente. Sempre ouvi falar muito bem daqui. Mas o pessoal comenta bastante da +Rio.

— Em que sentido?

O engenheiro demorou um segundo antes de responder.

— Pelo que escuto dos funcionários... qualidade de vida.

Heitor franziu a testa.

— Qualidade de vida?

— É… — Givaldo escolhia cada palavra com cuidado. — Pelo menos é o que eles dizem.

Heitor ficou genuinamente intrigado.

— Estranho. O nosso quadro operacional trabalha em escala quatro por três justamente para melhorar a qualidade de vida. Sempre foi um dos diferenciais da empresa.

— Pois é...

Givaldo respondeu com um sorriso educado, mas dessa vez demorou um pouco mais para continuar.

Parecia procurar a resposta certa. Ou talvez a resposta mais segura.

— Acho que... depende muito da percepção de cada um.

Heitor assentiu, convencido de que o engenheiro apenas não conhecia a empresa o suficiente para aprofundar aquele assunto.

Antes que pudesse fazer outra pergunta, o celular em seu bolso começou a vibrar.

Ele o retirou da calça e olhou a tela.

Número desconhecido.

DDD do Rio de Janeiro.

— Me dá só um minuto?

— Claro, doutor.

Heitor afastou-se alguns passos, procurando um lugar mais silencioso entre os corredores da obra, e deslizou o dedo sobre a tela para atender a ligação.

— Alô?

— Alô, é o senhor Heitor Monteiro?

Heitor franziu levemente a testa. A voz masculina era desconhecida.

— Sim. Com quem eu falo?

— Senhor Heitor, aqui é da Central de Telemensagens. Gostaria de pedir apenas alguns minutos da sua atenção. Permita que, por um instante, o seu coração fale mais alto do que a razão. Esta mensagem foi enviada por uma pessoa que ama o senhor profundamente.

Por alguns segundos, Heitor apenas ficou parado.

Telemensagem?

Piscou algumas vezes, tentando entender se aquilo era alguma brincadeira.

Olhou discretamente para Givaldo, que conversava com um mestre de obras alguns metros à atrás, completamente alheio à ligação.

Um sorriso curioso surgiu em seus lábios.

— Ah... tudo bem. Pode passar.

Logo os primeiros acordes de Love by Grace, de Lara Fabian, preencheram o silêncio. Heitor conhecia aquela música. Seu cenho chegou a franzir de leve, confuso com a escolha, até que o volume diminuiu e uma voz feminina, suave e bem articulada, começou a narrar a mensagem.

"Meu amor...

Dizem que o verdadeiro amor não é aquele que nunca enfrenta tempestades, mas aquele que encontra forças para caminhar de mãos dadas depois delas.

Se eu pudesse voltar no tempo, apagaria cada palavra que fez você sofrer. Mas, como não posso mudar o ontem, quero dedicar todo o meu amanhã a fazer você feliz.

Você é o meu porto seguro, o meu melhor sorriso, a minha paz depois de um dia difícil. É a pessoa com quem eu sonho acordar todas as manhãs e dividir cada conquista, cada abraço e cada silêncio.

Não existe um futuro que faça sentido para mim sem a sua presença. Não existe vitória que eu queira comemorar sem você ao meu lado.

Sei que nos machucamos. Sei que erramos. Mas também sei que o amor que sinto por você é muito maior do que qualquer desentendimento.

Hoje eu não peço apenas o seu perdão. Peço a oportunidade de continuar escrevendo a nossa história, porque acredito que os capítulos mais bonitos ainda estão por vir.

Se um dia você duvidar do que sinto, olhe para o meu coração. Nele existe um único nome, uma única escolha e um único amor: você.

Eu amo você com toda a força da minha alma. E, se você me permitir, quero passar o resto da minha vida provando isso."

Durante toda a mensagem, Heitor permaneceu completamente imóvel.

O sorriso que surgiu por curiosidade desapareceu aos poucos, dando lugar a uma expressão que misturava surpresa, vergonha e uma felicidade genuína.

Passou a mão pela nuca.

Olhou para o chão.

Depois para o céu.

Em seguida para os operários ao longe, certificando-se de que ninguém estava prestando atenção nele.

Sentia o rosto esquentar.

Não fazia ideia de onde enfiar a cara.

A música voltou a ganhar volume por alguns segundos, até diminuir novamente.

A voz masculina retornou.

— Heitor, antes de encerrarmos, feche os olhos por um instante. Lembre-se do dia em que os caminhos de vocês se cruzaram. Do primeiro sorriso, do primeiro toque, das promessas que fizeram e dos sonhos que começaram a construir juntos.

Heitor obedeceu sem perceber. Imagens de Helena passaram pela sua cabeça numa velocidade absurda.

Ela brigando com ele.

Ela rindo.

Ela toda séria usando capacete numa obra.

Ela contando que estava grávida.

Ela dormindo no hospital por ele.

Ela aceitando o pedido de noivado.

Ela dormindo com Humberto nos braços.

Ela preparando café para ele naquela mesma manhã de Dia dos Pais.

— Agora lembre-se de uma coisa muito importante: nada disso deixou de existir.

A voz fez uma breve pausa.

— "Eu amo você e sempre vou amar." — o homem fez outra breve pausa dramática — Esta mensagem foi enviada, com todo carinho, pela sua noiva... Helena.

Heitor abriu os olhos devagar.

Por um instante, simplesmente esqueceu onde estava.

Sentia o peito quente. O coração batia forte demais. Passou a mão pelo rosto, completamente sem reação.

Nunca.

Nunca, em toda a sua vida, imaginaria Helena enviando uma telemensagem.

Justamente ela.

Ela tinha saído completamente da própria zona de conforto por causa dele. Isso, para Heitor, valia mais do que qualquer declaração.

— Senhor Heitor? — a voz masculina chamou novamente. — Gostou da mensagem?

Ele soltou uma pequena risada, ainda tentando processar tudo aquilo.

— Gostei... — respondeu com a voz um pouco embargada. — Gostei muito.

Abaixou a cabeça, sorrindo sozinho.

— Foi... foi a Helena mesmo que mandou?

O atendente riu do outro lado.

— Foi sim, senhor. Ela fez questão de confirmar cada detalhe da mensagem. Escutou várias até escolher essa.

Heitor fechou os olhos por um segundo. Aquilo só deixava tudo ainda mais especial.

— Obrigado.

— Nós que agradecemos. Tenha um excelente dia.

— Você também... muito obrigado.

A ligação terminou.

Heitor permaneceu alguns segundos olhando para a tela apagada do celular.

Depois soltou uma risada baixa, completamente desacreditada.

— Essa mulher...

Passou a mão pelos cabelos, ainda tentando diminuir o calor que sentia no rosto.

Seu coração parecia não caber mais dentro do peito.

Naquele exato instante, o celular vibrou novamente. Dessa vez, não era uma ligação. Era o toque que ele havia escolhido exclusivamente para as mensagens de Helena.

O sorriso voltou imediatamente ao seu rosto. Nem esperou um segundo. Abriu a conversa na mesma hora.


Helena ❤️💍💞:

“Heitor...

Eu esperei a telemensagem terminar porque queria que você lesse isso depois.

Desde a nossa conversa, eu não consigo parar de pensar em tudo o que aconteceu.

Hoje eu consigo enxergar com muito mais clareza onde eu errei.

Quando eu contei sobre a Viviane, eu falei como se tivesse sido apenas uma conversa qualquer. Eu disse que conversei com ela, quando o certo teria sido dizer que fui até a casa dela com o Humberto.

Mas nem isso foi o meu maior erro.

O meu maior erro foi não ter te contado antes de ir.

Era o nosso combinado.

Era uma promessa que nós fizemos um ao outro... e eu fui justamente a primeira a quebrá-la.

Não existe desculpa.

Naquele momento eu estava tão aflita para tentar resolver aquela situação, tão preocupada em fazer a coisa certa, que simplesmente fui. Nem pensei em te mandar uma mensagem. Hoje eu percebo que isso não diminui em nada o que eu fiz.

Você tinha razão quando disse que não era sobre a Viviane.

Era sobre você não saber onde estavam a mulher que você ama e o seu filho.

Eu fiquei imaginando como teria sido se fosse ao contrário. Se você tivesse saído com o Humberto para algum lugar sem me avisar. Acho que eu também ficaria desesperada.

Eu entendi.

E queria que você soubesse que eu sinto muito.

Não porque eu quero que esse assunto acabe logo, mas porque eu realmente reconheço o quanto te machuquei.

A última coisa que eu quero neste mundo é ser a pessoa que tira a sua paz.

Eu amo você.

E odeio ver você triste.

Odeio pensar que você passou o dia carregando esse peso no coração por causa de uma atitude minha.

Você é o homem da minha vida, o amor da minha vida e o pai mais maravilhoso que o Humberto poderia ter.

Eu tenho muito orgulho da família que estamos construindo. E prometo que nunca mais vou colocar essa confiança em risco.

Obrigada por me ouvir.

Obrigada por sempre tentar entender o meu lado, mesmo quando eu erro.

E... obrigada por nunca desistir de nós.

Eu não paro de pensar em você.

Nunca.

Eu te amo mais do que consigo explicar. ❤️”


Heitor não pensou duas vezes e já começou a escrever.

Heitor:

"Helena...

Que porra foi essa?

😂❤️

Eu tô rindo sozinho igual um idiota no meio da obra.

Sério.

Tu tinha que ver a minha cara agora.

O cara da telemensagem perguntou se eu gostei…

Gostei?

Meu amor...

Eu tô até agora sem acreditar que VOCÊ fez uma telemensagem.

Quem faz isso em 2026?

VOCÊ! Helena Ribeiro Campos.

E eu caí todo apaixonado que nem um patinho. “

Ele parou de digitar e olhou para frente.

Alguns pedreiros passavam conversando e Givaldo aguardava respeitosamente alguns metros adiante.

Heitor passou a mão no rosto. Ainda estava quente. Sorriu de novo e voltou para o celular.

"Na hora que começou a tocar Lara Fabian eu pensei: Pronto… Me meteram num trote.

Aí começou a mensagem...

Helê...

Caralho...

Eu fiquei sem reação. Não sabia pra onde olhar. Tava torcendo pra ninguém perceber que eu tava todo derretido aqui.

Tu quase fez o dono da Monteiro Inc. chorar no meio da obra.

Isso não se faz.

😂”

Ele riu sozinho outra vez.

"Ou melhor… Faz de novo!

Porque eu amei. Amei mesmo.

Acho que foi a coisa mais bonita que alguém já fez por mim. Não pela telemensagem. Mas porque foi você.

Eu sei que você ficou morrendo de vergonha. Eu sei que ensaiou mil vezes antes de mandar. E é justamente por isso que valeu tanto. Porque quando você faz uma coisa dessa...

Eu sei que é de verdade."

Ele respirou fundo. Agora digitava mais devagar.

"Depois eu li a sua mensagem. E aí eu sorri de outro jeito. Porque você entendeu.

Era só isso que eu queria. Eu nunca fiquei chateado porque você foi ver a Viviane.

Nunca.

Você podia conversar com quem quisesse. O que acabou comigo foi imaginar vocês dois por aí… E eu sem saber.

Porque quando você desapareceu aquele dia no hospital… Eu achei que tinha perdido você e acho que um pedaço de mim nunca esqueceu aquilo.

Quando você escreveu que entendeu isso...

Parece que tirou um peso do meu peito. Na mesma hora.”

Ele ficou olhando para a conversa. Sorrindo.Digitou mais uma vez.

"Agora deixa eu te contar um negócio. Eu tô igual um adolescente.

Não consigo parar de sorrir.

Já passei a mão na cara umas dez vezes tentando voltar ao normal. O engenheiro deve tá achando que eu enlouqueci.

😂

Se eu pudesse...

Entrava no carro agora. Largava essa visita pela metade.

Ia pra casa só pra te dar um beijo e depois voltava pra obra.

Só que acho que isso pega mal pro CEO.

😂😂

Helê… Obrigado.

Obrigado por me escolher de novo. Porque foi isso que eu senti lendo tudo isso.

Você me escolheu outra vez. E eu escolheria você de novo… Mil vezes. Todo santo dia.

Eu amo você pra caralho. E tô com uma saudade absurda.

Nem acabou o expediente e eu já tô doido pra ir embora.

❤️"


Heitor permaneceu alguns segundos parado, olhando para a última mensagem enviada. O sorriso simplesmente se recusava a ir embora. Sentia o peito aquecido e o coração batendo num ritmo completamente diferente do de alguns minutos antes.

Como aquela mulher conseguia fazer aquilo com ele?

Guardou o celular no bolso da calça e soltou uma risada baixa, balançando a cabeça.

— Meu Deus...

Se continuasse daquele jeito, não conseguiria inspecionar mais nada. Na verdade, mal conseguia pensar. Tudo o que queria era entrar no carro, voltar para casa e abraçar Helena.

Levou as duas mãos ao rosto e começou a massagear as bochechas.

— Vamos, Heitor... para de sorrir.

Inspirou fundo e soltou o ar devagar. Tentou assumir uma expressão séria.

Não deu certo.

Sorriu outra vez.

— Caralho...

Precisou repetir o processo mais duas vezes até finalmente conseguir recuperar um mínimo de compostura. Endireitou o paletó, ajeitou o capacete e caminhou na direção de Givaldo.

O engenheiro o observou se aproximar e imediatamente percebeu que havia alguma coisa diferente.

Franziu a testa.

— Doutor Heitor... tá tudo bem?

— Tá. — respondeu rapidamente. — Tá tudo certo.

Givaldo inclinou um pouco a cabeça.

— Tem certeza?

Heitor fez que sim.

— Tenho.

O engenheiro continuou olhando para ele por mais alguns segundos antes de soltar:

— O senhor tá vermelho igual um pimentão.

Pronto.

O pouco de dignidade que Heitor ainda tentava preservar foi embora. Sentiu o rosto esquentar de novo e pigarreou discretamente.

— É... aconteceu uma situação aí.

— Situação boa ou situação ruim?

Heitor respirou fundo.

— Depende do ponto de vista.

— Ih… — Givaldo coçou a nuca. — Deu problema na empresa?

Heitor pensou por um instante. Depois resolveu aproveitar o mal-entendido. Franziu o cenho, cruzou os braços e respondeu num tom sério:

— Um pouquinho.

O engenheiro pareceu ficar genuinamente preocupado.

— Caramba… — olhou rapidamente para a obra ao redor, como se tentasse descobrir o que havia dado errado. — É muito grave?

Heitor fez um esforço enorme para não rir.

— Grave não... mas eu preciso resolver.

— Então acho melhor a gente parar por aqui mesmo.

— Acho também.

Givaldo soltou o ar, aliviado por não ter feito nenhuma besteira durante a visita.

— Doutor... se eu falei alguma coisa que não devia...

Heitor levantou a mão, interrompendo-o.

— Relaxa. Não tem absolutamente nada a ver com você.

— Tem certeza?

— Tenho.

O engenheiro sorriu, agora bem mais tranquilo.

— Ufa... já tava achando que eu tinha perdido o emprego com duas semanas de empresa.

Aquilo arrancou uma risada sincera de Heitor.

— Fica tranquilo. Seu emprego tá seguro.

Givaldo deu uma gargalhada também.

— Ainda bem. Então boa sorte aí pra resolver esse pepino. — fez uma pequena pausa e completou, no jeito bem carioca. — E, se for pra puxar a orelha de alguém... puxa com vontade, hein?

Heitor apenas balançou a cabeça, divertido.

— Pode deixar.

Os dois apertaram as mãos antes de se despedirem.

Heitor caminhou em direção ao estacionamento ainda com aquele sorriso teimoso tentando voltar ao seu rosto.

Entrou na SUV, fechou a porta e apoiou a cabeça no banco por alguns segundos.

A saudade de Helena simplesmente tinha triplicado.

Ligou o motor.

Então uma ideia surgiu. Um sorriso lento apareceu novamente.

— Ah... agora você me paga, dona Helena.

Engatou a marcha e saiu da obra.

Em vez de seguir direto para casa, Heitor fez um pequeno desvio no caminho.

Durante um almoço de negócios, alguns meses antes, um cliente havia comentado sobre uma floricultura recém-inaugurada. Disse que era diferente das tradicionais, trabalhava com arranjos mais modernos e personalizados. Na época, Heitor apenas guardou a informação. Agora, sem nem pensar muito, girou o volante e entrou na rua indicada.

Assim que estacionou, o perfume das flores já escapava pela porta de vidro.

O ambiente era claro, aconchegante e silencioso. Prateleiras de madeira exibiam vasos dos mais variados tamanhos, enquanto dezenas de flores coloriam o salão. Era um lugar bonito. Tinha vida.

Uma atendente se aproximou sorrindo.

— Boa tarde, senhor. Posso ajudá-lo?

— Pode sim. — Heitor retribuiu o sorriso. — Quero um buquê para a minha noiva.

A expressão da mulher se iluminou imediatamente.

— Que lindo! Tem alguma ocasião especial?

Heitor pensou por um instante. Depois sorriu de lado.

— Na verdade... é um pedido de desculpas. Mas também um agradecimento. E, principalmente, um "eu te amo".

A atendente levou a mão ao peito.

— Nossa... agora a responsabilidade ficou grande.

Os dois riram.

— Ela gosta de rosas? — perguntou a florista.

— Gosta.

Ele olhou ao redor antes de completar:

— O problema é que lá em casa a gente já tem um jardim inteiro delas. Eu queria alguma coisa diferente. Alguma coisa que ela olhasse e pensasse: "Esse homem pensou em mim."

A mulher pareceu gostar do desafio.

— Então acho que tenho exatamente duas opções.

Ela caminhou entre os arranjos e voltou trazendo dois buquês completamente diferentes.

O primeiro transmitia uma calma quase impossível de explicar.

Rosas brancas repousavam entre flores tingidas de um azul intenso, pequenas nuvens de mosquitinho e folhagens delicadas que suavizavam ainda mais a composição. Havia algo de sereno nele, quase etéreo, como um céu limpo de inverno ou o mar em um dia sem vento. Era elegante sem chamar atenção, bonito de um jeito silencioso.

Heitor permaneceu alguns segundos observando.

Bonito.

Muito bonito mesmo.

A florista então pegou o segundo. Era impossível não olhar.

Amarelos vibrantes, lilases delicados, vermelhos profundos, laranjas vivos e verdes luminosos se misturavam em perfeita desordem. Nenhuma flor parecia querer ficar escondida. Era um buquê alegre, intenso, cheio de personalidade. Parecia carregar luz própria.

A atendente sorriu.

— Esse costuma dividir opiniões.

Heitor alternou o olhar entre os dois.

— O azul é a minha cara.

— Também achei. —

Ele assentiu lentamente.

— Mas não é sobre mim.

Voltou a olhar o segundo. Sorriu sozinho.

— Esse aqui... parece ela.

A florista arqueou uma sobrancelha.

— Sério?

— Ela vive dizendo que não é romântica. — soltou uma pequena risada. — Mas quando resolve fazer alguma coisa... faz desse jeito.

Apontou para o buquê colorido.

— Sem dosar.

— Então acho que o senhor já escolheu.

— Acho que sim.

Enquanto a atendente embrulhava o arranjo com todo cuidado, Heitor continuava observando as flores.

Helena merece todas as cores. Porque ela era todas as cores da vida dele.

Quando saiu da floricultura, o buquê ocupava praticamente o banco do passageiro.

Antes de voltar para casa, ainda fez mais uma parada.

Entrou em uma confeitaria artesanal que costumava ouvir elogios dos funcionários da empresa. Depois de alguns minutos conversando com a balconista, saiu de lá carregando duas caixas de degustação com praticamente todos os sabores da casa.

Sorriu ao imaginar a cena.

Helena certamente escolheria um sabor.

Ele escolheria outro.

Os dois debateriam qual era o mais gostoso. E, no fim, acabariam experimentando todos juntos.

Ligou o carro mais uma vez. Agora, finalmente, seguia de volta para onde realmente queria estar.

Heitor dirigia pela estrada arborizada que levava à mansão, tamborilando os dedos no volante enquanto acompanhava a música que tocava no rádio.

— "...Esse amor entrou no coração … Agora diz o que é que a gente faz…Pode dizer sim ou dizer não. Ser só seu amigo não dá mais ..."

Sorria sozinho.

O buquê colorido ocupava o banco do passageiro, preso pelo cinto de segurança. Ao lado dele, as duas caixas de degustação da confeitaria balançavam discretamente na sacola a cada curva.

Ele mal podia esperar para ver a reação de Helena.

Depois de alguns quilômetros cercados pelas árvores centenárias da propriedade, a guarita surgiu ao longe.

Foi então que o sorriso desapareceu.

Um Palio vermelho estava atravessado na entrada principal, ocupando boa parte da pista. A porta do motorista permanecia aberta, o pisca-alerta ligado e o alarme disparava de tempos em tempos, como se o próprio carro compartilhasse do desespero do dono.

O homem parado ao lado dele parecia completamente transtornado.

Era alguém comum, na casa dos trinta anos, roupas simples, barba bem feita e olheiras profundas. A camisa social, provavelmente branca quando saíra de casa, estava encharcada de suor e amarrotada. Os cabelos desgrenhados denunciavam que passou as mãos neles dezenas de vezes.

Andava de um lado para o outro sem conseguir parar.

Respirava pela boca.

Falava sozinho.

De repente, perdeu a paciência.

— Filho da puta...

Ergueu o braço e descarregou um soco no teto do próprio carro.

PÁ!

A lataria afundou.

Nem pareceu sentir a dor.

— FILHO DA PUTA!

Deu outro soco. Depois um chute violento na porta.

— EU VOU MATAR ESSE DESGRAÇADO!

Os dois seguranças da guarita permaneciam posicionados a alguns metros dele, sem baixar a guarda.

Nenhum dos dois gritava.

Nenhum ameaçava.

Mantinham distância suficiente para reagir caso ele avançasse, enquanto um terceiro segurança observava tudo pelas câmeras internas. Outro já havia comunicado a situação pelo rádio e acionado a polícia.

— Senhor — disse um deles, firme, mas sem alterar a voz. — O senhor precisa deixar a propriedade.

— DEIXAR O CARALHO!

O homem virou de uma vez. Os olhos estavam vermelhos. Não apenas de raiva, mas de choro também.

— Minha mulher demora todo dia no trabalho! Eu descubro que ela passou por essa estrada e vocês querem me convencer que ninguém viu porra nenhuma?

— Nós não temos autorização para fornecer qualquer informação sobre moradores ou visitantes.

— Ah, não têm?

Ele riu sem humor.

— Claro que não têm...

Apontou o dedo para os três.

— Vocês tão protegendo aquele filho da puta!

Respirava com tanta força que parecia faltar ar.

— Mas hoje eu acabo com ele. Nem que eu tenha que derrubar esse portão na marra!

Foi nesse momento que Heitor reduziu a velocidade.

Franziu a testa.

— Que porra...

O homem ouviu o motor. Virou lentamente a cabeça. Seus olhos encontraram o SUV preto se aproximando.

Congelou por um segundo. Depois apontou diretamente para o carro.

— AÍ! — sua voz praticamente explodiu. — É ELE!

Saiu correndo em direção ao veículo. Os seguranças reagiram imediatamente.

— INTERCEPTA!

Dois deles partiram ao mesmo tempo. O terceiro já levava a mão ao coldre, mantendo a arma travada, apenas como prevenção.

Heitor freou bem antes e desligou o carro.

Olhou mais uma vez para o homem correndo em sua direção.

Ainda não entendia absolutamente nada. Abriu a porta com calma e desceu.

— Ei. — fechou a porta atrás de si. — Alguém pode me explicar o que...

— DESCEU, COVARDE!

O homem tentou alcançá-lo, mas os seguranças o interceptaram antes.

Um prendeu seu braço direito.

O outro segurou a cintura e o empurrou para trás.

Mesmo assim ele continuava tentando avançar.

— ME LARGA!

Debatia-se com uma força impressionante.

— EU VOU MATAR ESSE DESGRAÇADO!

As veias saltavam no pescoço. A voz já começava a falhar de tanto gritar.

— ELE ACABOU COM A MINHA FAMÍLIA!

Heitor permaneceu imóvel. Seu semblante endureceu.Estava completamente confuso.

Olhou para um dos seguranças.

— Quem é esse homem?

Sem tirar os olhos do agressor, o segurança respondeu:

— Não sabemos, senhor. Ele chegou há cerca de vinte minutos dizendo que o senhor mantém um relacionamento com a esposa dele.

Heitor franziu ainda mais a testa.

— Porra, como assim? Eu nunca vi esse sujeito na vida. Muito menos a esposa.

— MENTIROSO!

O homem conseguiu arrancar um dos braços da contenção e tentou avançar outra vez.

Os seguranças reagiram imediatamente. Desta vez o imobilizaram pelos dois braços, impedindo qualquer aproximação.

Mesmo contido, ele continuava se debatendo.

— OLHA PRA MINHA CARA E FALA DE NOVO!

Heitor deu apenas um passo à frente. A voz saiu baixa e controlada.

— Eu realmente não faço ideia de quem você seja.

Por um instante, os dois ficaram se encarando.

Um consumido pela fúria.

O outro tentando entender como havia ido parar no centro daquela história.

— EU VOU DESCOBRIR TUDO! — o homem urrava. — VOCÊ PODE SE ESCONDER ATRÁS DESSES SEGURANÇAS! MAS EU VOU ACABAR COM VOCÊ!

Heitor não respondeu.

Continuou observando o desconhecido, tentando encontrar algum rosto conhecido, alguma lembrança, qualquer coisa que explicasse aquela acusação absurda.

Não encontrou nada.

Foi então que um dos seguranças aproximou-se discretamente.

— Senhor, a polícia já foi acionada. Deve chegar a qualquer momento. O senhor pode entrar, desculpe o transtorno.

Heitor apenas assentiu, sem desviar os olhos do homem.

Alguma coisa naquela história estava muito errada. E, pela primeira vez desde que chegou, ele teve a nítida sensação de que aquilo não era um simples engano. Era alguém que realmente acreditava naquilo que estava dizendo.

Nesse instante, uma Range Rover surgiu pelo lado de dentro da propriedade, percorrendo a alameda cercada pelas árvores até se aproximar da guarita.

Heitor reconheceu o carro imediatamente.

— Helê...

Antes mesmo que o veículo parasse completamente, Helena desligou o motor, abriu a porta e desceu apressada. Caminhou quase correndo até o portão, o rosto tomado pela preocupação.

— Heitor! — chamou, procurando os olhos dele. — O que está acontecendo? Você tá bem? O pessoal da segurança me ligou dizendo que tinha um homem gritando aqui na entrada.

Ela lançou um olhar rápido para o desconhecido, que continuava sendo contido pelos seguranças.

— Como sou dona da casa, achei melhor vir ver o que estava acontecendo.

Heitor fez um gesto para a guarita.

— Abre o portão.

O segurança confirmou pelo rádio e, alguns segundos depois, os enormes portões começaram a deslizar lentamente.

Heitor esperou apenas o espaço suficiente para Helena passar e caminhou imediatamente até ela.

— Calma... cuidado.

Assim que ela se aproximou, ele a puxou para um abraço.

— Eu também cheguei agora. Não faço ideia do que está acontecendo.

Helena respirou aliviada por senti-lo ali, mas continuava olhando de relance para o homem, tentando entender aquela confusão.

Foi quando o desconhecido ergueu a cabeça.

Os olhos encontraram Helena.

E ele gritou com toda a força que ainda tinha.

— SENHORA!

Os dois se viraram ao mesmo tempo.

— ESSE HOMEM TÁ DORMINDO COM A MINHA MULHER!

Helena arregalou os olhos.

— O quê?

Virou-se imediatamente para Heitor, completamente perplexa.

Ele passou a mão pelo rosto, incrédulo.

— Caralho... eu não faço a menor ideia do que esse cara tá falando.

O homem voltou a se debater.

— Ele anda chegando tarde em casa, não anda? Claro! Tá ocupado comendo a minha mulher!

Heitor fechou os olhos por um segundo, respirando fundo para não perder a paciência.

— Helê... pelo amor de Deus...

Helena apenas balançou a cabeça, ainda tentando processar a situação.

Aquilo era tão absurdo que parecia uma cena de televisão. Ela voltou a abraçar Heitor pela cintura.

— Mas por que ele está dizendo isso? Quem é esse homem?

— Não faço ideia.

Heitor passou o braço ao redor dela de forma protetora.

— Deve ter confundido a pessoa. Vamos entrar. A polícia já está vindo. Depois eu peço para buscarem meu carro.

Inclinou-se e beijou a testa dela, tentando tranquilizá-la.

Mas antes que dessem o primeiro passo...

— VAI ACEITAR SER CORNA, É?

A voz atravessou o silêncio como uma facada. Helena se encolheu instintivamente contra o peito de Heitor.

Foi o suficiente.

Até aquele momento, Heitor estava apenas tentando entender a situação.

Agora, aquele homem havia envolvido Helena.

Ele soltou o braço dela devagar. O semblante endureceu por completo. Deu dois passos à frente, ignorando o segurança que tentou contê-lo.

— Escuta aqui.

A voz saiu baixa. Muito mais perigosa do que um grito. Mas havia tanta frieza nela que até os seguranças trocaram um olhar discreto.

— Você chega na porta da minha casa fazendo um escândalo, me acusa de uma coisa que eu nem sei de onde tirou... e agora resolve abrir essa boca suja pra desrespeitar a minha mulher?

O homem tentou avançar outra vez.

— Até parece que ela sabe muito bem quem ela casou! — rosnou o homem.

Heitor soltou uma risada curta.Sem humor algum.

— Sabe mesmo. — deu mais um passo. — E, sinceramente... quanto mais você fala, mais eu entendo por que a sua mulher foi embora.

O desconhecido congelou por um instante.

Heitor continuou, sem elevar a voz.

— Porque deve ser um inferno dividir a vida com um sujeito que prefere sair acusando desconhecidos do que conversar com a própria esposa.

O homem voltou a se debater.

— FILHO DA...

— Cala a boca! — Heitor o interrompeu pela primeira vez. — Você não sabe absolutamente nada sobre mim, sobre ela ou sobre a minha família. Então mede muito bem as próximas palavras que saírem da tua boca.

Os seguranças imediatamente ficaram entre os dois. Helena alcançou a mão de Heitor e a apertou com força. Sentiu a musculatura do braço dele completamente tensa.

— Amor... — chamou baixinho. — Por favor… não.

Ela conhecia aquele olhar. Conhecia aquele tom de voz. Ele estava a um passo de perder completamente a paciência.

— Vamos entrar. Deixa a polícia resolver isso.

Heitor respirou fundo. Os dedos apertavam a mão dela com força, mas ele assentiu. Estava prestes a se virar quando ouviu o último grito.

— NÃO DEIXA O DINHEIRO DESSE FILHO DA PUTA TE ENGANAR!

A voz do homem já saía embargada pelo choro.

— MUITO MENOS O FATO DELE TRABALHAR NA CAMPANHA POLÍTICA!

O tempo pareceu parar.

Heitor virou lentamente o rosto para Helena.

Helena fez exatamente o mesmo.

Nenhum dos dois disse uma única palavra.

Porque, entre todos que viviam ali...

...só existia uma pessoa ligada a uma campanha presidencial.

E não era o Heitor.