O Brilho do Corvo, a Explosão da Argila

2 Capítulo 2: A Sombra da Obsessão


A base da Akatsuki era um lugar de ecos e sombras, mas para Deidara, cada corredor parecia levar ao mesmo rosto pálido e aos mesmos olhos carmesim. Havia se passado um mês desde que ele fora "convencido" a se juntar aos renegados, e sua rotina havia se tornado um ciclo vicioso de criação e frustração.

No seu ateliê improvisado — uma caverna úmida iluminada por velas que ele mesmo insistia em fazer explodir quando se irritava — o som das bocas em suas mãos era constante. Chomp, chomp, chomp. Elas mastigavam a argila branca com uma ferocidade que refletia o estado de espírito do dono.

— Mais densidade. Mais brilho. Tem que ser mais rápido que o olhar dele, hm! — Deidara resmungava para o vazio.

Ele estava obcecado. Mas, se alguém perguntasse, ele diria que estava apenas "estudando o inimigo". Ele passava horas moldando pequenas réplicas de corvos e pássaros, tentando imitar a fluidez dos movimentos de Itachi. Ele queria criar algo tão perfeito que forçaria o Uchiha a expressar uma emoção real, algo que quebrasse aquela máscara de indiferença absoluta.

— Deidara-chan, você está fazendo bonequinhos do Itachi de novo? — a voz rouca e divertida de Kisame ecoou na entrada da caverna.

Deidara saltou, escondendo a escultura atrás das costas, o rosto subitamente tingido de um vermelho que rivalizava com as nuvens do manto.

— Não são bonequinhos, Shark-face! É estratégia de combate! Estou mapeando os pontos cegos do Sharingan, hm!

Kisame riu, encostando a Samehada na parede.

— Se você quer mapear os pontos cegos dele, talvez devesse parar de olhar tanto para o rosto dele durante as reuniões. Você encara o Itachi como se ele fosse a última peça de argila do mundo.

— Eu encaro porque estou esperando ele baixar a guarda! — Deidara gritou, mas o argumento soava vazio até para seus próprios ouvidos.

A verdade era muito mais incômoda. Deidara buscava Itachi com os olhos em cada sala, em cada missão. Ele observava como Itachi bebia chá, com os dedos longos e pálidos segurando a xícara com uma delicadeza que Deidara achava irritante e, secretamente, fascinante. Observava como o cabelo dele caía sobre os ombros quando ele lia pergaminhos, e como ele nunca parecia suar ou perder a compostura, mesmo após horas de viagem.

Era uma estética de controle. E Deidara, o mestre do caos, estava sendo tragado por ela.

Certa noite, incapaz de dormir, Deidara caminhou até a varanda de pedra que dava para o vale. Lá estava ele. Itachi estava parado, observando a lua. O brilho prateado destacava o perfil clássico de seu rosto, as linhas profundas sob os olhos que lhe davam um ar de sabedoria antiga e cansaço eterno.

Deidara parou a alguns metros de distância. Ele tinha argila nas bolsas. Ele poderia atacar agora. Ele poderia provar que seu "estalo" era superior. Mas suas mãos permaneceram imóveis. Ele ficou ali, apenas respirando o mesmo ar frio da noite, sentindo uma pulsação estranha no peito que não era o desejo de explodir algo. Era o desejo de ser notado.

— A lua está particularmente brilhante hoje, não acha? — Itachi falou, sem se virar.

Deidara sentiu um solavanco no estômago.

— O brilho da lua é estático demais, hm. Não tem alma. Falta o impacto de uma detonação.

Itachi finalmente se virou. Ele não ativou o Sharingan. Seus olhos eram apenas negros, profundos como o abismo. Ele olhou para Deidara por um tempo que pareceu uma eternidade, um olhar que não era de julgamento, mas de uma curiosidade silenciosa.

— Às vezes, Deidara, a luz que permanece no céu por horas é tão importante quanto a que dura um segundo — Itachi disse suavemente.

Ele passou por Deidara, o ombro roçando levemente no dele. O contato foi breve, mas para Deidara, foi como se uma de suas bombas C4 tivesse detonado dentro de suas veias. Ele ficou ali, paralisado, o cheiro de sândalo de Itachi ainda impregnado em seu manto.

— Idiota... — Deidara sussurrou para o vento, apertando os punhos. — Você não sabe nada sobre arte... hm.

Mas, naquela noite, ele não voltou para esculpir bombas. Ele voltou para sua cama e fechou os olhos, apenas para ver o rastro prateado da lua refletido nos olhos negros de Itachi. A obsessão tinha acabado de ganhar uma nova camada: a admiração que ele não conseguia mais negar.